A Ausência

Agatha Christie · Capítulo 8 de 13

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A Ausência

Oito

 

E foi desta maneira que este casinho terminou.

Averil ficava caminhando de um lado para outro dentro de casa, sempre calada. Quando interrogada, só respondia por monossílabos. Tanto quanto possível procurava evitar falar com os outros. Emagreceu sensivelmente e ficou mais pálida.

Um mês mais tarde expressou o seu desejo de ir para Londres a fim de estudar num colégio especial para o curso de secretariado.

Rodney concordou sem titubear.

Averil partiu sem nenhuma demonstração de tristeza.

Quando voltou, três meses depois, para uma visita à família, já se apresentava completamente normal nas suas maneiras e atitudes e parecia ter levado uma vida bem alegre em Londres.

Joan sentiu-se bem aliviada e expressou este seu desafogo a Rodney.

— A tempestade passou completamente. Nunca pensei que o caso fosse tão sério assim. Exatamente uma daquelas tolas fantasias que as mocinhas às vezes criam na sua imaginação.

Rodney fitou-a, sorriu e exclamou:

— Pobre pequena Joan!

Esta frase que ele freqüentemente pronunciava irritava Joan.

— Bem... De qualquer forma você tem que admitir que se tratava de um caso aflitivo.

— É verdade. Foi um caso aflitivo. Mas não foi você quem sentiu a aflição, Joan. Ou será que foi?

— Que é que você quer insinuar com essas palavras? É claro que tudo o que causa aflição aos nossos filhos não deixa de me afligir também.

— Será mesmo? Eu me admiro...

É bem verdade — assim supunha Joan — que surgiu uma certa frieza nas relações de Averil com o seu pai. Antes eles haviam sido sempre tão amigos; Entretanto agora ambos mais pareciam retribuir-se gentilezas convencionais do que manifestar efusivamente uma profunda amizade.

Por outro lado, Averil mostrou-se bastante delicada em relação à sua mãe, embora sempre conservando a atitude de frieza e desconfiança que lhe era habitual.

Eu acho — pensou Joan — que agora que Averil vive fora de casa ela sabe dar mais valor ao meu trabalho.

A própria Joan recebeu muito bem a filha. O frio raciocínio de Averil sempre fora equilibrado e muito contribuía para facilitar a solução de problemas que porventura surgissem no seio da família.

Depois chegou a vez de Bárbara. Estando ela já mais amadurecida na idade, passou a dar certas preocupações.

Joan afligia-se constantemente porque Bárbara não sabia escolher as suas amiguinhas. Havia uma porção de moças distintas em Crayminster mas ela, só por maldade, recusava-as como amigas.

— Elas são terrivelmente bobas e enfadonhas, mamã.

— Não diga asneira, Bárbara. Estou certa de que tanto Alison quanto Mary são alegres e divertidas.

— Estas é que são de fato horrorosas. Sempre usam umas fitas nojentas para prender os cabelos.

Joan fitou-a enfurecida.

— Então, diga-me, Bárbara: que é que você quer? Será que não existe algum tipo de amiguinha que satisfaça você?

— Existe, sim. É um tipo que deve ser uma espécie de símbolo.

— Eu acho que você só diz bobagens, queridinha. Existe a Pamela Grayling. A mãe dela sempre foi uma das minhas grandes amigas. Por que você não procura sair com ela mais amiúde?

— Ora, mamã, ela é tão desanimada e monótona que não me agrada nem um pouquinho.

— Mas eu acho que todas essas moças que eu mencionei são encantadoras e finas.

— Pode ser. Todas elas são encantadoras, finas e fatais. Mas que diferença faz o que a senhora pensa?

— Cuidado, Bárbara! Você está sendo muito ríspida.

— Bem, o que eu acho é que eu não devo me juntar com elas! E para mim só tem importância o que eu penso. Eu gosto da Betty Early e da Primrose Deane, mas a senhora sempre torce o nariz quando eu as convido para tomar chá aqui em casa.

— Bem, queridinha, falando sinceramente, eu acho que ambas são horríveis. O pai de Betty anda sempre fazendo excursões com aquela jardineira mas até agora não juntou nem um centavo.

— Pelo contrário, mamã, ele já conseguiu juntar muito dinheiro.

— Mas o dinheiro não é tudo, Bárbara.

— Bem... mas o ponto essencial, mamã, é saber se eu mesma posso escolher as minhas amiguinhas ou não.

— Claro que você pode, Bárbara, mas para o seu bem você terá que se deixar guiar por mim. Você é muito jovem ainda.

— Então isto significa que realmente eu não posso escolhê-las livremente. Chega a ser bem revoltante a maneira como me impedem de fazer uma simples coisinha que eu quero fazer! Esta casa para mim é uma verdadeira prisão.

Foi exatamente neste momento que Rodney entrou e, tendo ouvido a última frase pronunciada por Bárbara, interrogou:

— Qual casa é uma verdadeira prisão?

Bárbara respondeu gritando:

— Esta casa!

Mas Rodney, ao invés de levar o caso a sério, simplesmente sorriu e exclamou com um ar zombeteiro:

— Pobre Bárbara! Tratada como se fosse uma negra escrava.

— Pensando bem, é desse modo mesmo que eu sou tratada.

— Muito bem! Eu aprovo a escravidão para as filhas.

Bárbara imediatamente apertou-o entre os braços, dizendo-lhe com a respiração quase sufocada:

— Querido Papaizinho, o senhor é... é tão ridículo. Entretanto eu jamais conseguirei ficar incomodada com o senhor por muito tempo.

Joan respondeu à filha com certa aspereza:

— É o que eu espero. Que você nunca se incomode...

Rodney continuou rindo e quando Bárbara se retirou da sala, disse a Joan:

— Não leve muito a sério essas coisas, Joan. As meninas dessa idade, como as potranquinhas novas, às vezes pespegam uns coices.

— Mas causam-me verdadeira indignação essas amizades horríveis que ela faz.

— Trata-se de uma fase passageira em que as meninas se sentem irresistivelmente atraídas pelo brilho de tudo o que é exteriormente aparatoso. Contudo essa fase passará. Não se aflija tanto, Joan.

É muito fácil — pensou Joan — dizer: “Não se aflija”. Entretanto, o que seria de todos eles se ela não se afligisse? Rodney achava tudo muito fácil e talvez não compreendesse bem os sentimentos de mãe.

Mesmo assim, tudo o que Joan sofreu, com relação às amiguinhas de Bárbara, foi praticamente nada em comparação com a ansiedade e os cuidados ocasionados pelas suas relações com os rapazes.

Sirvam de exemplo George Harmon e aquele tipo abjeto de jovem chamado Wilmore o qual não somente é sócio de uma organização concorrente de advogados (organização esta que se encarrega de executar os atos mais ilegais e excusos nesta cidade) como também se trata de um indivíduo que anda sempre bêbado, que só fala quase gritando e que gosta imensamente de corridas de cavalos.

E dizer que foi exatamente com este jovem Wilmore que Bárbara desapareceu do salão do Town Hall naquela noite do baile festiva da época do Natal, promovido com finalidade beneficente. Só depois de haverem sido executadas cinco danças foi que eles reapareceram no salão. Bárbara lançou para a mãe um olhar de culpada, embora arrogante.

Ao que tudo indicava, ela e Wilmore estiveram sentados todo esse tempo lá fora no terraço, uma coisa que só as moças levianas fazem. Joan não perdeu a oportunidade de dizer isso a Bárbara, que ficou muito aborrecida.

— Não seja tanto eduardiana, mamã. É um absurdo o que a senhora está dizendo.

— Eu não sou tão eduardiana como você pensa. E permita que eu lhe diga, Bárbara; hoje em dia está sendo adotada uma boa porção de critérios antigos no tocante à escolha de rapazes para a companhia das jovens. As moças atualmente já não podem sair por aí a fora à solta como faziam dez anos atrás.

— Francamente, mamã... Todo mundo é capaz de pensar que eu fui fazer um week-end com Tom Wilmore.

— Não me responda assim, Bárbara, que eu não gosto. Além do mais ouvi comentários de que você foi vista no Dog and Duck junto com o George Harmon.

— Oh, nós apenas estivemos num local público de natação de crawl.

— Você é ainda muito jovem para fazer coisas assim. Também não gosto da maneira como as moças hoje em dia andam tomando bebidas alcoólicas.

— Nós bebemos só cerveja. E nosso brinquedo principal foi fazer arremesso de dardos.

— Mas eu não gosto disso, Bárbara... Não quero que você proceda assim. Não gosto de George Harmon nem de Tom Wilmore. Não quero mais que eles venham aqui em casa. Você compreendeu?

— Okai, mamã. A casa é sua, portanto, quem manda é a senhora.

— E, de qualquer forma, sinceramente não vejo razão para que você goste deles.

Bárbara sacudiu os ombros.

— Oh, eu também não sei por que motivo os adoro... Só sei dizer que eles são animados e atraentes.

— Então está entendido. Não quero mais que eles sejam convidados para virem aqui em casa. Você me compreendeu bem?

Depois disso Joan teve também um incômodo com Rodney, que trouxera para jantar em casa, num domingo, o jovem Harmon.

Foi uma fraqueza de Rodney, pensou Joan. Ela tratou o rapaz friamente. Ele chegou até a se encabular. Nem mesmo as palavras amáveis de Rodney conseguiram tranqüilizá-lo e pô-lo à vontade.

George Harmon, no decurso da conversa, variava alternadamente o tom de voz: ora falava desmesuradamente alto, ora pronunciava as palavras tão baixo que parecia estar resmungando. Em certos momentos passava a expressar-se cheio de bazófia, com palavras repassadas de gabolice para, em seguida, tomar a atitude humilde de quem procura desculpar-se.

Nessa mesma noite, Joan chamou a atenção de Rodney com rispidez.

— Certamente você já sabia que eu havia dito a Bárbara que não queria receber a visita desse rapaz.

— Eu sabia disso, Joan, mas esta sua atitude está errada. Bárbara ainda não tem grande capacidade de discernimento. Ela avalia as pessoas exclusivamente pelos sentimentos de estima despertados nela. Ela não pode ter ainda uma noção perfeita da realidade do mundo. Se ela tentasse encarar as pessoas como se elas se encontrassem numa posição diversa da que ela imagina, forçosamente ficaria desorientada. É por isso que ela tem necessidade de olhar as pessoas dentro das perspectivas da seu próprio ponto de vista. O conceito que ela faz do jovem Harmon é o de um rapaz perigoso, animado e galhardo. Jamais lhe passou pela idéia que se trata de um tipo ridículo e jactancioso que bebe muito e que — dizendo com franqueza — nunca trabalhou na vida.

— Eu devia ter dita isso a ela.

Rodney sorriu.

— Oh, Joan, nada do que você ou eu próprio dissermos é capaz de impressionar a jovem geração.

A verdade a respeito desta afirmativa de Rodney patenteou-se para Joan numa das rápidas visitas que Averil fez aos pais.

Nesse dia fora recebido em casa como convidado Tom Wilmore. Ao que parece ele não conseguiu fazer dissipar a repugnância que causava a Averil, que o examinou com o seu frio senso crítico.

Algumas horas mais tarde Joan espreitou um pequeno trecho de conversa entre as duas irmãs.

— Você não gosta dele, Averil?

Averil, sacudindo desdenhosamente os ombros, respondeu à irmã com firmeza:

— Eu acho que ele é pavoroso. Francamente, Bárbara, o gosto que você tem na escolha dos rapazes é realmente horrível.

Desde então Wilmore desapareceu da cena e a volúvel Bárbara, ao ser interrogada certo dia sobre esse namoro, simplesmente murmurou:

— Tom Wilmore?! Oh, mas ele é pavoroso!

E o engraçado é que ela disse isso cheia de convicção.

Joan por essa época tratava de participar dos jogos de tênis e por isso convidava muitas pessoas à sua casa. Bárbara, entretanto, recusava terminantemente cooperar com a mãe.

— Não se aborreça com ninharias, mamã. A senhora, sempre quer convidar gente para vir aqui em casa. Eu odeio receber visitas. Além disso a senhora só convida cada droga...

Sentindo-se ofendida, Joan resolveu lavar as mãos, subtraindo-se à responsabilidade de ajudar Bárbara na escolha dos seus divertimentos.

— Estou certa de que você não sabe o que quer.

— O que eu quero é exatamente ficar sozinha.

Joan disse a Rodney que Bárbara era, entre os seus filhos, a mais difícil de contentar e Rodney concordou com ela, franzindo um pouco as sobrancelhas, numa demonstração de desagrado.

— Se ela, pelo menos, soubesse exatamente o que quer — declarou Joan.

— Ela não se conhece completamente a si própria. Ela é muito jovem ainda, Joan.

— Então que ela se decida a escolher as coisas como bem entender. Não há outro remédio.

— Não é bem isso, minha cara. Ela anda precisamente procurando um ponto de apoio onde possa firmar o pé, para adquirir o necessário equilíbrio nas suas ações. Pois então deixe-a ser como é de fato. Permita que ela convide os amiguinhos que ela quiser e nunca tente organizar as coisas para ela. Parece-me que se contrapõe à vontade dela querer orientá-la, indicando-lhe a maneira como deve fazer isso ou aquilo.

Eis como é o raciocínio de um homem! Tudo se resume em deixar as coisas correrem como estão sem nenhuma decisão concreta.

Coitado de Rodney! Aliás ele tem sido quase sempre indeciso durante quase toda a sua vida. Esta circunstância surgiu na mente de Joan. Ela se lembrou de que na sua casa era ela que devia ser prática e objetiva para tomar as decisões concretas. E apesar disso todo mundo dizia que Rodney era um advogado arguto e sagaz.

Joan se lembrou em seguida de uma noite em que Rodney lera num jornal local a comunicação do casamento de George Harmon com Primrose Deane. Disse ele dirigindo-se a Bárbara com um sorriso zombeteiro:

— Ele era o teu antigo namorado, não é, menina?

Bárbara sorriu, tendo achado graça na pergunta do pai.

— Sim, papai. Eu sei. Eu estava loucamente caída de amores por ele. Mas ele é simplesmente pavoroso, não é verdade? Eu agora acho que ele é horrível.

— Eu, de minha parte, sempre achei que ele era um indivíduo pouco sedutor. Sinceramente nunca pude conceber o que é que você viu de atraente nele.

— Refletindo melhor agora, nem eu mesma sei... Portanto...

Bárbara, com dezoito anos de idade, falava desapaixonadamente das loucuras que cometera quando tinha dezessete.

— Eu julguei que mamã queria nos desunir e por isso me decidi a fugir com ele. Se o senhor e a mamã tentassem impedir a nossa fuga, então eu iria colocar a cabeça no gás para dar cabo da minha existência.

— Que emocionante estilo de Julieta amorosa!

Como que reprovando esta exclamação do pai, feita num tom jocoso, ela prosseguiu:

— Era o que realmente eu tencionava fazer, papai. Afinal, se a gente não pode suportar determinada situação, o melhor mesmo é suicidar-se.

Joan, então, incapaz de ficar calada por mais tempo, interrompeu-a abruptamente:

— Não diga essas coisas desagradáveis, Bárbara! Você não sabe o que está dizendo.

— Oh, eu esqueci que a senhora estava aqui, mamã. Realmente a senhora seria incapaz de cometer um ato desses. Saberia sempre manter a calma.

— Na verdade, é o que eu suponho.

Joan conteve a raiva com certa dificuldade. Depois que Bárbara saiu da sala, disse a Rodney:

— Você de forma alguma deve contribuir para fomentar tais idéias absurdas.

— Oh, ela já deve ter tirado essa idéia da cabeça.

— É claro que ela jamais cometeria uma terrível loucura como essa de que ela falou há pouco.

Rodney calou-se e Joan fitou-o perplexa.

— Seguramente, Rodney, você não está pensando que. ..

— Não, não. Claro que não. Ela nada fará quando tiver mais idade e conseguir o seu equilíbrio emocional. Contudo é preciso que se diga que Bárbara emocionalmente é muito instável, Joan. Bem que nós deveríamos encarar a situação dela neste particular.

— Mas é tão esquisita essa idéia!

— Sim, para nós que temos o exato senso da proporção. Ela, entretanto, anda sempre desmesuradamente apaixonada. É incapaz de ter um vislumbre, por mínimo que seja, de algo fora das circunstâncias que envolvem a sua disposição de espírito no momento. Não tem a faculdade de fazer um julgamento imparcial e nem discernimento para conceber a vida doutra forma. Sexualmente ela é precoce...

— Rodney! Francamente... Você está se expressando com palavras que... que lembram aqueles casos escabrosos que são discutidos perante o juiz num tribunal.

— Casos escabrosos discutidos em juízo mas que dizem respeito a seres humanos que vivem na sociedade, não se esqueça.

— Mas jovens finamente educadas como Bárbara jamais fariam...

— Jamais fariam o quê, Joan?

— Será que temos só este assunto para falar?

Rodney soltou um suspiro.

— Não, não. Realmente este não é o único assunto. Mas eu quero... Sim, desejo ansiosamente que Bárbara encontre um rapaz decente e se enamore dele impetuosamente.

Algum tempo depois, como se tivesse sido enviado para satisfazer este expresso desejo de Rodney, surgiu o jovem William Wray, que viera do Iraque para passar algum tempo com a sua tia, Lady Herriot.

Joan o vira pela primeira vez mais ou menos uma semana após a sua chegada. Ele fora introduzido na sala de visitas numa tarde em que Bárbara havia saído. Joan, da sua escrivaninha, observou-o atentamente, tendo ficado deveras surpreendida com a aparência do jovem: um tipo alto, com um corpo de vigorosa compleição, queixo bem saliente, olhar de pessoa ajuizada.

Com a face corada de vergonha e pronunciando as palavras em murmúrios como se estivesse falando com a gola do casaco, ele se apresentou dizendo que era o sobrinho de Lady Herriot e que viera ali — ele — para devolver a raqueta da Srta. Scudamore, que ela — a Srta. Scudamore — havia deixado na quadra de tênis no dia anterior.

Joan, numa atitude alegre e expansiva, cumprimentou-o cheia de cortesia.

Ela foi logo dizendo ao rapaz que Bárbara não era muito cuidadosa, pois sempre esquecia as suas coisas nalgum lugar. Explicou-lhe que Bárbara, no momento, não estava em casa mas que provavelmente não tardaria muito para voltar. Convidou-o para esperar e tomar um chá.

Joan, mal tendo pressentido que o Sr. Wray parecia estar disposto a ficar, tocou imediatamente a campainha ordenando que servissem o chá e começou a indagar acerca da saúde da tia dele.

O assunto da saúde de Lady Herriot ocupou seguramente uns cinco minutos e depois a conversa arrefeceu um pouco, pois o Sr. Wray não parecia ter uma palestra muito entusiasmada. Continuava com a face enrubescida e permanecia sentado com o dorso bem teso. Dava a vaga impressão de estar sofrendo com alguma tortura íntima. Felizmente chegou o momento de servir o chá e a situação modificou-se um pouco.

Joan. não parava de tagarelar, mostrando-se sempre amável, mas tinha que fazer um certo esforço para manter a conversa. Nesse momento, para seu alívio, chega Rodney que havia deixado o escritório mais cedo do que de costume. Rodney conseguiu manter uma palestra mais animada. Começou logo a falar sobre o Iraque e fez ao jovem umas perguntinhas simples a cerca das condições daquele país. Só aí foi que aquela espécie de tortura íntima refletida no semblante do rapaz co-meçou a dissipar-se. Não demorou muito e ele já estava falando com desembaraço e quase desinibidamente. Em seguida Rodney o conduziu à sua sala de trabalho. Eram já quase sete horas da noite quando Bill se despediu e mesmo assim parecia querer ficar ainda mais um pouco.

— Lindo garotão! — exclamou Rodney.

— É verdade. Só que parece muito tímido.

— Evidentemente (Rodney parecia estar brincando). — Mas não acho que ele seja sempre tão acanhado assim.

— E como ele ficou aqui tanto tempo!...

— Mais de duas horas.

— Você deve estar cansado, Rodney, por tê-lo suportado durante um tempo tão longo.

— Oh, não. Até que eu gostei de conversar com ele. Trata-se de um indivíduo que tem a cabeça bem assentada e que possui uma excepcional visão das coisas. É um rapaz que denota possuir certa tendência para encarar filosoficamente e com objetividade as contingências humanas. Realmente gostei dele.

— E ele também deve ter gostado muito de você. Do contrário não teria permanecido aqui tanto tempo.

Rodney, já novamente com ares de brincalhão, respondeu:

— Oh, não foi para conversar comigo que ele ficou aqui: ele ficou esperando que Bárbara chegasse. Será mesmo, Joan, que você não percebe o amor quando ele se manifesta? O pobre garotão chegava a ficar rígido de tão embaraçado. Era por esse motivo que ele estava mais vermelho do que uma beterraba. Ele sem dúvida deve ter feito um enorme esforço a fim de dominar o seu nervosismo e decidir-se a vir até aqui. E quando chegou, nem vestígio da sua dama! Sim, não há dúvida, trata-se de um desses casos de amor à primeira vista.

Depois, quando Bárbara chegou apressada para o jantar, Joan lhe disse:

— Bárbara, hoje esteve aqui um dos seus amiguinhos, o sobrinho de Lady Herriot. Ele trouxe a sua raqueta de tênis.

— Ah... Bill Wray?! Então quer dizer que ele encontrou essa raqueta? Eu tinha a impressão, ontem à tarde, de que ela houvesse sumido para sempre.

— Ele ficou aqui um bom pedaço de tempo.

— Que pena! Perdi a oportunidade de conversar com ele. Eu fui ao cinema com os Crables. Um filme extremamente tolo. Bill importunou muito vocês aqui?

— Não — respondeu Rodney. — Gostei dele. Conversamos sobre a política do Oriente Próximo. Eu acho que é você quem tem sido importunada por ele.

— Eu gosto de ouvir falar sobre partes estranhas do mundo. Já estou farta de Crayminster. De qualquer forma, Bill é diferente.

— Em todo caso, você poderia procurar algum trabalho — sugeriu Rodney.

— Ah, um trabalho! — Bárbara torceu o nariz. — Você bem sabe, papai, que eu sou um diabinho preguiçoso. Eu não gosto de trabalhar.

— E eu acho que não é só você... A maior parte das pessoas também não gosta do trabalho — concluiu Rodney.

Bárbara correu para junto dele e abraçou-o fortemente.

— O senhor trabalha demais. Eu sempre achei que o senhor anda trabalhando excessivamente. É uma vergonha para mim!

Depois de ter soltado o pai dos seus braços, disse:

— Vou telefonar a Bill. Ele parece ter-me falado sobre um passeio... uma caminhada no Marsden...

Enquanto ela se dirigia para o telefone, localizado no fundo do saguão, Rodney acompanhou o movimento dela com os olhos. O olhar de Rodney era tão estranho! Um olhar incerto, interrogativo...

De que Rodney havia gostado de Bill Wray absolutamente não pairava dúvida alguma. Gostou dele no primeiro contato.

Por que então ficou ele tão aflito, tão apoquentado quando, alguns dias mais tarde, Bárbara surgiu inopinadamente em casa anunciando que havia noivado com Bill e declarando que ambos queriam casar-se logo a fim de que ela já pudesse acompanhá-lo no seu regresso para Bagdá?

Bill era jovem e bem relacionado. Tinha dinheiro e deixava vislumbrar perspectivas de um futuro promissor. Por que será, então, que Rodney, de um momento para o outro, ficou hesitante e sugeriu que o noivado se prolongasse por mais tempo? Por que será que ele só ficava caminhando dentro de casa de um canto para outro, sempre carrancudo, com uma expressão de incerteza e de perplexidade no semblante?

E qual teria sido a razão daquela sua repentina explosão emocional à véspera do casamento, dizendo com insistência que Bárbara era muito jovem ainda?

Entretanto Bárbara bem cedo acabou com tais objeções e seis meses depois ela se casou com o seu Bill, tendo viajado para Bagdá.

Averil, por seu turno, também anunciou algum tempo depois o seu noivado com um corretor da bolsa chamado Edward Harrison-Wilmott. Era um homem calmo e agradável. Tinha aproximadamente trinta e quatro anos de idade e estava em boa situação financeira.

Desse modo — refletiu Joan —, tudo transcorreu maravilhosamente bem. Rodney parecia estar bastante despreocupado com relação ao noivado de Averil mas quando ela o pressionou para saber em que pé andava o namoro, ele respondeu:

— Sim, sim... o casamento é a melhor coisa para Averil. Ele é um homem muito fino.

Depois do casamento de Averil, Joan e Rodney ficaram sozinhos em casa. Tony fez estágio na escola superior de agricultura mas não conseguiu passar nos exames. Causou muitas preocupações a Joan. Finalmente ele resolveu ir para a Rodésia, na África do Sul, onde um cliente de Rodney possuía extensas áreas plantadas com laranjais.

Tony escrevia aos pais cartas entusiásticas embora nunca muito extensas. Numa dessas cartas ele anunciou o seu noivado com uma moça de Durban. Joan ficou bastante abalada pelo fato de seu filho se casar com uma jovem que eles, os pais, nunca tinham visto. Ela não tinha dinheiro e, além disso — conforme Joan fizera sentir a Rodney — que é que eles sabiam a respeito dela? Nada! Absolutamente nada!

Rodney respondeu-lhe que se tratava de um assunto que só tinha a ver com o próprio Tony e que eles, os pais, deviam sempre esperar pelo melhor.

Pelas fotografias enviadas — assim pensava Rodney — ela parecia ser uma jovem muito linda. Ela estava decidida a casar-se com Tony e disposta a submeter-se a uma vida modesta, lá pelas bandas da Rodésia.

— Eu acho que eles vão passar toda a vida deles por lá e dificilmente virão visitar-nos algum dia. Tony devia ter sido forçado a participar da organização que é da família, conforme eu adverti na época oportuna.

Rodney sorriu e respondeu que ele nunca teve ânimo resoluto para forçar as pessoas a fazer algo.

— Mesmo assim, Rodney, você devia ter insistido com ele. Dentro de pouco tempo ele teria tomado interesse pelo serviço e assentaria a cabeça. Com o tempo as pessoas geralmente se adaptam a qualquer serviço.

— Sim — retrucou Rodney —, isso é verdade. Entretanto, esta minha atitude poderia trazer também um grande risco.

— Risco?!

Joan respondeu-lhe dizendo não ter compreendido esta sua afirmativa. Qual era o significado que ele emprestava à palavra risco?

Rodney explicou-lhe que ele se referia ao risco que o rapaz correria de não alcançar a felicidade.

Joan não pôde deixar de exclamar que, às vezes, ela quase chegava a perder a paciência de tanto ouvir falar em felicidade. Ninguém parecia ser capaz de falar noutra coisa. E a felicidade não era a única coisa na vida. Havia também muitas outras coisas importantes.

Rodney disse:

— Então cite algumas dessas coisas para exemplificar.

— Bem... — respondeu Joan depois de alguns segundos de hesitação — a obrigação, por exemplo.

Rodney obtemperou que seguramente nunca houve uma obrigação explícita para que ele se tornasse um solicitador judicial.

Um tanto aborrecida, Joan voltou a replicar-lhe que ele compreendia muito bem o que ela queria dizer. Ela estava se referindo à obrigação que Tony tinha de ser agradável ao seu pai e de não decepcioná-lo.

— Tony nunca me decepcionou.

Mas seguramente — exclamou Joan — Rodney não gostava de saber que seu único filho estava longe dele, numa distância equivalente à metade da circunferência do globo terrestre, vivendo onde ele não podia vê-lo.

Rodney deu um suspiro e respondeu:

— Na verdade não é do meu agrado que ele esteja longe de mim. Sou forçado a admitir que perdi Tony do meu convívio. Ele era uma criatura tão amável e tão jovial que seria o meu maior prazer tê-lo em casa. Sim, eu o perdi...

— Era isso mesmo que eu queria dizer, Rodney. Você devia ter tido mais firmeza com ele.

— Afinal, Joan, trata-se da vida de Tony e não da nossa. Nós já estamos marchando para o fim da trajetória da nossa vida. Mal ou bem, temos quase completada a nossa tarefa. Eu penso assim.

— Claro! Eu também acho que, em certo sentido, é assim mesmo.

Ela refletiu um momento e depois passou a dizer:

— Em todo caso não podemos nos queixar. Nossa vida foi muito boa. E continua sendo boa ainda, evidentemente.

— Alegro-me com isso.

Ele sorriu para ela. Rodney tinha um lindo sorriso jovial. Às vezes dava a impressão de estar sorrindo por causa de algo que a gente não podia perceber.

Joan prosseguiu:

— A verdade é que eu e você nos adaptamos perfeitamente um ao outro.

— Realmente. Nunca tivemos muitas rixas nem discussões.

— E também devemos dizer que sempre temos tido sorte com nossos filhos. Teria sido horrível para nós, os pais, se eles se tivessem revelado de má índole ou fossem infelizes.

— Como você tem umas idéias engraçadas, Joan! — exclamou Rodney.

— Mas se não tivesse sido assim, Rodney, estaríamos agora numa situação muito aflitiva.

— Eu não concebo que algo possa afligir você por muito tempo, Joan.

— Bem — ela passou a refletir sobre esta afirmativa de Rodney —, realmente eu sempre tive um temperamento calmo. Sempre achei que é dever das pessoas nunca entregar-se ao desespero.

— É um sentimento admirável e conveniente.

— É um sentimento muito lindo, não é verdade? — interrogou Joan com um sorriso nos lábios. — Então não é confortador para a gente saber que triunfamos vencendo as circunstâncias adversas?

— Claro que é — respondeu Rodney, dando mais um suspiro. — Não há dúvida de que é realmente confortador.

Joan sorriu e, com a mão, deu uma sacudidela no braço dele.

— Não seja tão modesto assim, Rodney, Nenhum solicitador judicial aqui em nosso meio adquiriu tanta prática e competência nos serviços como você. O negócio agora vai indo muito melhor do que no tempo do tio Henry.

— Realmente, a organização está prosperando.

— E o capital aumentaria com a admissão de um novo sócio. Você não está cogitando de admitir um novo sócio?

Rodney sacudiu a cabeça.

— Oh, não. Precisamos tão-somente de vigor e força para 0 trabalho. Tanto eu quanto Alderman estamos progredindo.

E ela realmente achava que era verdade. Notava-se que na cabeça de Rodney já despontava uma boa porção de fios brancos.

Joan saiu desse seu estado de torpor e olhou o relógio. A manhã até que estava passando bem ligeiro e não se verificou a repetição daqueles pensamentos aflitivos e caóticos, que pareciam querer introduzir-se à força na sua mente.

Bem... isto demonstrava sobejamente que disciplina devia ser o lema a ser adotado. Cada qual deve dispor os seus pensamentos de maneira ordenada de modo a evocar exclusivamente as lembranças agradáveis. Isto foi o que ela fez nessa manhã. E como o tempo passou ligeiro! Talvez fosse bom que ela fizesse agora uma pequena caminhada, não se distanciando muito da casa de pernoite. Esse giro contribuiria sem dúvida para quebrar um pouco a monotonia até chegar a hora do almoço, quando lhe seria fatalmente servida aquela comida quente e pesada de sempre.

Então ela se dirigiu ao seu quarto, colocou na cabeça o chapéu de feltro e depois saiu.

A essa hora o jovem árabe estava ajoelhado sobre o chão de areia, com a face virada na direção de Meca. Ele fazia repetidos movimentos ritmados inclinando-se para a frente e depois endireitando novamente o torso ao mesmo tempo que exprimia a sua oração numa espécie de melopéia bem alta e anasalada:

O hindu, aproximando-se de Joan pelas costas, prontificou-se a explicar-lhe:

— Ele faz a oração do meio-dia.

Joan, com a cabeça, fez sinal de ter compreendido. Ela podia ver muito bem o que o rapaz estava fazendo e não precisava de explicação alguma.

— Ele diz que Alá é muito compassivo, Alá é muito clemente.

— Eu sei — respondeu Joan e foi logo se distanciando do homem para iniciar o seu passeio caminhando na direção daquele amontoado de arame farpado que assinalava o limite da estação ferroviária.

Naquele instante ela se recordou de ter presenciado seis ou sete árabes tentando remover um carro Ford todo estragado que se achava atolado na areia. Eles faziam uma força enorme dando tirões em sentido contrário uns dos outros. William, seu genro, explicou-lhe que aqueles homens, como complemento aos seus esforços, sempre infrutíferos por melhor que fosse a intenção deles, acrescentavam, esperançosos, continuamente a expressão: “Alá é misericordioso”.

Só mesmo Alá — refletiu Joan — seria capaz de operar o milagre de deslocar aquele carro, estando os árabes ali daquele jeito fazendo força em direções opostas.

O curioso era que todos eles se sentiam bastante felizes e contentes com tal situação, parecendo até que estavam se divertindo a valer.

INSHALLAH! — Se Deus quiser — dizem eles quando sentem necessidade de conseguir algo e logo em seguida, como que entusiasmados por essa exclamação cheia de fé, tentam conseguir o seu desiderato numa investida desordenada e sem nenhum senso de previsão. Este não era, portanto, um sistema de vida que Joan achasse muito recomendável. A gente deve sempre procurar estabelecer previamente os planos adequados e prever as possíveis conseqüências, pensando no dia de amanhã. Contudo, alguém que vivesse em Tell Abu Hamid, um lugar tão sem expressão que até parece não existir, talvez não teria necessidade de proceder assim.

Uma pessoa que permanecesse aqui durante muito tempo, chegaria até a esquecer os dias da semana... E, assim pensando, ela não pôde conter o impulso de verificar qual era o dia que estava passando. — Deixe-me ver... hoje é quinta-feira... Sim, quinta-feira. Eu cheguei aqui segunda-feira à noite.

Caminhando devagarinho, ela já estava se aproximando daquele emaranhado de arame farpado. Dali ela viu, a uma certa distância lá no outro lado, um indivíduo trajando uma espécie de uniforme e que segurava na mão um fuzil. Ele arrimava o seu corpo contra um enorme caixão. Joan percebeu logo que ele se encontrava ali para vigiar a estação ou a fronteira.

O homem parecia estar tirando uma cochilada e Joan achou melhor não mais avançar para diante porque se ele despertasse poderia atirar nela. Tudo podia acontecer em Tell Abu Hamid.

Ela então mudou a direção do seu trajeto de modo a só ficar contornando a casa de pernoite. Só assim ela não prolongaria demasiadamente o seu percurso passando da hora da refeição nem correria o risco de ter aquela estranha sensação de agorafobia (na hipótese de ser agorafobia mesmo).

Realmente a manhã passou sem maiores transtornos. Ela conseguiu controlar a sua mente só pensando nas coisas que lhe eram agradáveis. Foi um prazer rememorar o casamento de Averil com o querido Edward, um homem sério e digno de confiança que desfrutava uma boa situação financeira. A casa de Averil em Londres é verdadeiramente encantadora, bem cômoda e jeitosa para Harrod. E o casamento de Bárbara! E o de Tony — bem... este não foi lá muito satisfatório. Na realidade eles nada sabiam sobre este casamento e o próprio Tony nunca deu as satisfações que, como filho, deveria dar. Tony devia ter permanecido em Crayminster a fim de participar da organização com Alderman, Scudamore e Witney. Assim, ele poderia ter-se casado com alguma linda moça inglesa que gostasse da vida do lar e seguiria a mesma carreira do pai.

Pobre Rodney, com a sua cabeleira preta pontilhada de fios brancos, não tendo nenhum filho para sucedê-lo na firma!

O fato é que Rodney não foi muito enérgico com Tony. Ele devia ter sido mais insistente com o rapaz. Era preciso mais firmeza da parte do pai para dissuadir o filho dos seus propósitos. Se o caso tivesse sido diretamente com Rodney (pensou Joan) teria ela deixado de bater o pé a fim de impedi-lo de tomar resoluções desastrosas? Nesse instante ela sentiu uma espécie de satisfação íntima pela atitude firme que sempre tivera.

Talvez agora Tony estivesse crivado de débitos, tendo que fazer inauditos esforços para levantar alguma hipoteca, como aconteceu a Hoddesdon. Bem que ela gostaria de constatar se Rodney realmente sabia reconhecer tudo o que ela fizera por ele.

Joan levantou os olhos e passou a contemplar a linha do horizonte que parecia flutuar banhada pela luz. Ela divisava uma espécie de imenso solo alagado. Tratava-se, evidentemente, do efeito de uma miragem, pensou ela.

Sim... Não podia ser outra coisa senão miragem... Tinha a nítida impressão de estar contemplando, naquele instante, verdadeiros lagos na areia. Não era exatamente como supunha serem as miragens, pois a idéia que fazia desse fenômeno era bem diferente: ela julgava que surgissem árvores e cidades — enfim, algo de mais concreto.

Contudo até mesmo este simples efeito do vislumbre de lagos na areia não deixava de ser bem estranho e forçava a gente a inquirir: — o que é mesmo a realidade?

Tudo é miragem, nada mais do que miragem — pensou ela. Esta palavra miragem parecia ser muito importante.

Mas em que mesmo estava ela pensando um pouquinho antes? — Ah, sim, em Tony, evidentemente. Como ele fora tão orgulhoso e imprudente! Ele tinha uma personalidade indefinível. Aparentemente se mostrava submisso. Jamais se poderia imaginar que ele, com as suas maneiras afáveis, com a sua calma, com o seu sorriso amável, pudesse conseguir exatamente o que desejava, contrapondo-se à vontade da mãe.

Na verdade, Tony nunca lhe fora muito devotado ou, pelo menos, seu devotamento não era exatamente como ela julgava que devia ser. Na realidade, parecia ser mais carinhoso para com o pai.

Ela lembrou-se, então, de um fato que se dera com Tony quando ele ainda era um menino de sete anos. Já bem noite a dentro, o garoto entrou no quarto onde Rodney estava dormindo e calmamente, sem fazer nenhuma encenação, disse-lhe:

— Eu acho, papai, que comi daqueles cogumelos com forma de chapéu de cobra ao invés dos cogumelos bons para se comer e agora estou sentindo uma dor horrível. Acho que vou morrer e por isso vim aqui para morrer perto do senhor.

Na verdade esse mal-estar dele nada tinha a ver com a troca da espécie de cogumelos mas tratava-se de um caso de apendicite aguda e o menino teve que ser operado dentro de vinte e quatro horas. Contudo, não deixou de parecer estranho a Joan o fato de ele se ter dirigido ao pai e não a ela. Seria sem dúvida mais natural que Tony em tal circunstância procurasse a sua mãe.

Sim, Tony havia feito muitas tentativas na vida. No colégio fora preguiçoso e nos esportes mostrava-se quase sempre indolente. Apesar de ser um menino de boa aparência — exatamente o tipo de menino que Joan gostava de ter sempre em sua companhia —, nunca parecia gostar de sair com ela. Ele tinha o hábito desagradável de sumir, escondendo-se no campo, justamente no momento em que a mãe o procurava.

Joan se lembra perfeitamente de que Averil classificou este hábito do irmão como uma fuga protetora.

— Tony é muito mais esperto do que nós, valendo-se dessa sua fuga protetora — dizia ela.

Joan não compreendia bem o significado dessas palavras mas bem que percebeu haver nelas algo de ofensivo. . .

Joan olhou o mostrador do seu relógio. Não havia necessidade de apanhar tanto calor caminhando demais. Era melhor voltar para a casa de pernoite. Afinal, ela passara uma excelente manhã. Não houve transtorno de espécie alguma: nenhum pensamento desagradável, nenhuma sensação de agorafobia...

Todavia, uma voz íntima parecia advertir-lhe: você está falando tal qual uma enfermeira de hospital. Quem é que você pensa ser, Joan Scudamore? Uma inválida? Um caso de debilidade mental? E por que é que você se acha tão satisfeita consigo própria, mesmo sentindo-se abatida? Será que constitui um fenômeno extraordinário passar normalmente uma agradável manhã?

Voltou imediatamente para a casa de pernoite e ficou muito contente ao verificar que havia ali peras enlatadas para variar um pouco o almoço.

Depois da refeição foi deitar-se um pouco. Se, pelo menos, ela conseguisse dormir até a hora...

Entretanto, ela absolutamente não tinha vontade de pegar no sono. Sua mente estava bem desperta e clara. Ela simplesmente ficou atirada na cama com os olhos fechados.

Nem por um momento sequer o seu espírito deixou de ficar completamente alerta, como se estivesse na expectativa de algo que poderia acontecer inopinadamente... como se estivesse pronto para defender-se a qualquer momento de algum perigo latente... Todos os seus nervos estavam tensos.

Ela devia relaxar o corpo. Mas não havia jeito de conseguir relaxá-lo. Instintivamente esticava os membros. O coração batia um pouco mais acelerado do que o normal. Mas o espírito não deixava de ficar alerta.

Agora, naquele ambiente, tudo parecia forçar a sua mente a evocar algo de que não conseguia lembrar-se. Depois de ter esquadrinhado bastante a memória, surgiu-lhe, por comparação, a idéia exata: uma sala de espera no gabinete do dentista.

A esquisita sensação de algo totalmente desagradável e que se encontrava na sua frente, a necessidade que tinha de restituir a confiança em si própria, procurando afugentar esse algo desagradável, tudo isto contribuía para deixá-la num estado de espírito difícil de descrever. Além disso, atormentava-a, também, a consciência que tinha de que cada minuto que passava mais perto lhe trazia esse esperado momento de provação...

Mas que espécie de provação?... Que é mesmo que ela estava esperando?

Que será que estava por acontecer?

Todos os lagartos — pensou ela — entraram nas tocas... porque pressentiram a aproximação de uma pavorosa tormenta... Ela estava exatamente vivendo a calma que precede o temporal... esperando... esperando...

Santo Deus do Céu, ela estava começando a ficar incoerente de novo.

A Srta. Gilbey... Disciplina!... Um retiro espiritual...

Um retiro! Ela precisava meditar... Haveria, para este fim, alguma meditação especial preconizada pela teosofia? Pelo budismo?

Não, não! Era melhor não se meter muito com a religião. Bastava somente pensar em Deus... Meditar sobre o amor de Deus... Deus...

Pai nosso que estais nos céus...

Eis que então surge na sua memória o seu próprio pai, com a sua barba sempre bem feita e seus olhos azuis, aguçados e perscrutadores. E como ele gostava de ver dentro de casa tudo bem arrumado, com cada coisa no seu lugar! Ele era a figura típica do almirante reformado, sempre rigoroso e apegado à rígida disciplina. E a sua mãe, coitada!... Alta. magra, indecisa, sempre tão descuidada... mas tão meiga que a gente a cada momento se via forçada a inventar toda espécie de desculpas para as suas falhas...

Parecia-lhe estar vendo sua mãe saindo para alguma recepção, com um grotesco par de luvas, uma saia amarrotada e um chapéu preso por meio de alfinetes ao seu coque de cabelos grisalhos. E como ela se sentia tão feliz e tranqüila desse jeito, inconsciente das falhas na sua aparência pessoal!

E que dizer então da furibunda cólera do rigoroso almirante — sempre dirigida às filhas e nunca diretamente à esposa?

— Por que é que vocês, meninas, não cuidam da sua mãe? Que é que vocês pensam deixando-a sair desse jeito? Não posso admitir essa negligência de vocês!

Então as três moças diziam, submissas, ao pai:

— Sim, papai... Faremos o possível...

E depois que o velho se retirava, uma comentava com a outra:

— Ele tem razão... mamã é realmente impossível...

Evidentemente Joan gostava muito da sua mãe, mas este amor não chegava ao ponto de ofuscar-lhe a visão, impedindo-a de perceber que sua mãe era de fato uma mulher fatigante.

As espontâneas manifestações de generosidade e a constante alegria de forma alguma podiam encobrir o desleixo e falta de método.

Na verdade não foi sem ter sentido uma profunda comoção que Joan, ao pôr em ordem os papéis da mãe depois da sua morte, deparou com uma carta do pai, escrita por ocasião do vigésimo aniversário do casamento deles.

“Lamento profundamente não poder estar aí com você

hoje, meu coração. O meu maior júbilo seria poder expressar-lhe nesta carta o quanto tem significado para mim o seu amor durante todos estes anos e como eu gostaria de dizer-lhe que, no dia de hoje, mais do que nunca em toda a minha vida, você me é tão cara. O seu amor tem sido para mim a verdadeira bênção que coroou toda a minha existência e eu só tenho que agradecer a Deus pelo amor que você sempre devotou a mim...”

Joan jamais poderia ter feito a suposição de que o pai fosse capaz de possuir tais sentimentos de afeto para com a sua mãe...

Logo lhe ocorreu, então, que no próximo dezembro ela e Rodney completariam vinte e cinco anos de casados.

As nossas bodas de prata! — refletiu ela. — Que maravilhoso e comovente seria se Rodney me escrevesse uma carta igual!

Em seguida começou a coordenar mentalmente as palavras da carta que ela gostaria que Rodney lhe escrevesse:

“Minha muito querida Joan! — Sinto a necessidade de

expressar-lhe aqui o quanto eu lhe devo, pois para mim você significa tudo. Tenho certeza de que você não poderia imaginar que tão-somente o seu amor tem sido a verdadeira bênção que coroou...”

Uma carta mais ou menos assim — pensou Joan, interrompendo essa espécie de exercício mental de redação — nem pareceria ter um sentido real! Seria até impossível de imaginar... Rodney escrevendo uma carta...

Por mais que ele a amasse... por mais que ele a amasse...

Por que repetiu ela esta frase como se estivesse fazendo um desafio?

Por que sentiu ela nesse instante um tão estranho arrepio?

Mas, afinal, em que era mesmo que ela estava pensando antes?

Ah, sim, claro — Joan voltou a si recobrando-se desse choque momentâneo —, ela estava imaginando em praticar algum exercício de meditação espiritual. Entretanto, ao invés de se dispor a fazer qualquer exercício espiritual, ela simplesmente começou a pensar em coisas terrenas — em seu pai, em sua mãe, os quais, fazia muitos anos, estavam mortos.

Mortos, deixando-a sozinha.

Sozinha no deserto. Sozinha neste ambiente que muito bem podia ser comparado a uma cela de prisão.

Sozinha não tendo outra coisa para fazer senão pensar em si própria.

Ela levantou-se bruscamente como que em sobressalto. Não adianta nada ficar aqui deitada se não consigo dormir — pensou.

Ela odiava esse tipo de quartos pequenos e altos com as janelas forradas de escumilha. Davam-lhe a impressão de estar enclausurada. Um quarto tão pequeno assim faz a gente sentir-se como um inseto. Desejava estar num compartimento bem amplo e bem arejado, todo revestido de cretone bem lindo e vistoso, com um fogo crepitante na lareira; num ambiente em que houvesse uma porção de pessoas às quais ela pudesse se dirigir e vê-las e que elas também a vissem...

Oh, o trem não deverá demorar muito. Disseram que ele viria com brevidade... O trem ou um carro... ou coisa semelhante...

— Eu não quero ficar aqui! — gritou Joan. — Eu não quero ficar aqui! (Falar consigo mesma é um mau prenúncio.)

Tomou um pouco de chá e depois saiu. Ela se deu conta de que não podia continuar ali sentada, com a mente invadida por estranhos pensamentos. Tinha que sair e caminhar sem pensar em mais nada. Eram os pensamentos que a importunavam. Seria até bem melhor que ficasse observando a gente que morava, naquela casa de pernoite — o hindu, o jovem árabe e o cozinheiro. Tinha absoluta certeza de que eles nunca tiveram pensamento algum para importuná-los.

Às vezes eu me sento e logo começo a pensar e às vezes eu me sento...

Quem foi que disse isso? Que estupendo sistema de vida!

Ela resolvera não pensar em mais nada: queria simplesmente caminhar. Portanto, não devia se distanciar muito da casa de pernoite.

Ela devia ficar nas proximidades da porta de entrada... Isso mesmo, só nas proximidades da casa... descrevendo sempre um círculo... Como um animal. Que humilhação! Sim, era humilhante mas era o que ela devia fazer. Estava acostumada a ter sempre muito cuidado consigo mesma. Do contrário...

Do contrário aconteceria o quê? Não fazia a mínima idéia do que poderia acontecer-lhe... Bem, o fato é que não devia pensar em Rodney, não devia pensar em Averil, não devia pensar em Bárbara... E principalmente não devia pensar em Blanche Haggard. Não devia pensar na flor vermelha do rododendro (precisamente nessa flor vermelha do rododendro era que ela de forma alguma devia pensar). Não devia tentar nem mesmo a recitação de poemas.

Nem em Joan Scudamore ela devia pensar... Mas Joan Scudamore sou eu mesma. Não, não sou eu. Sim, sou eu em carne e osso...

Se você não tivesse outra coisa em que pensar a não ser em si mesma, que será que você descobriria com relação à sua própria pessoa?

— Mas eu não quero saber nada! — gritou Joan.

A sua própria voz chegou a assustá-la. Afinal, que é que ela não queria saber?

— Uma batalha! — exclamou ela. — Estou combatendo numa batalha que não há jeito de ganhar.

Mas combatendo contra quem? Contra quê?

Não importa — prosseguiu ela. — Eu não quero saber nada!

Eu não quero saber nada — era uma frase que muito bem poderia servir-lhe de lema e ela devia agarrar-se a ela.

Em seguida teve a estranha impressão de que alguém a vinha seguindo. Alguém que ela conhecia muito bem. Se ela virasse a cabeça... Bem... ela virou a cabeça mas não viu ninguém...

Contudo, essa impressão de que alguém a estava seguindo continuou a persistir, alarmando-a. Nem Rodney, nem Averil, nem Tony, nem Bárbara... nenhum deles estava ali para ajudá-la, nenhum deles queria ajudá-la. E nenhum deles se importava com ela.

Era melhor voltar sem demora para a casa de pernoite e fugir da pessoa que a estava espionando, fosse ela quem fosse.

O hindu estava parado de pé em frente daquela porta feita com rede de arame. Ao aproximar-se dele Joan estava caminhando com passos vacilantes.

Não lhe agradou nem um pouquinho a maneira como ele a fitou.

— Que é que você quer?

— Memsahib não têm bom aspecto. Quem sabe Memsahib tem febre?

Eis uma coisa provável! Realmente, podia muito bem dar-se o caso de ela estar com o corpo febril. Por que não havia pensado nisso antes?

Ela correu para o quarto a fim de tirar a temperatura e verificar se havia trazido consigo um pouco de quinino.

Pegou imediatamente o termômetro e colocou-o debaixo da língua.

Estava decifrada a charada: só a febre é que poderia deixá-la nesse estado, imaginando coisas incoerentes, apreensiva e cheia de medo, com o coração batendo aceleradamente.

Um distúrbio de natureza essencialmente fisiológica, nada mais!

Tirou o termômetro da boca e leu a escala graduada: 36,2 graus.

Trinta e seis graus e duas linhas! Podia dizer, quando muito, que a sua temperatura estava uma coisinha de nada do normal. Só isto.

E assim ela foi passando a tarde como pôde. A partir de então ficara realmente alarmada por causa do seu estado. Absolutamente não podia ser o efeito do sol o que estava sentindo. Febre ela não tinha. Devia ser os nervos, portanto.

Sim, os nervos. Quantas vezes ela não havia diagnosticado isso a uma infinidade de pessoas, expressando-se exatamente assim: — são nervos? Mas na realidade ela nunca sofrera dos nervos antes. Foi só aí que ficou sabendo o que significava sofrer dos nervos.

Até parece incrível mas estava claro como a luz do sol que ela se atacara dos nervos. O que ela precisava, numa situação dessas, era de um médico compreensivo. Devia internar-se numa casa de saúde a fim de ser atendida por uma enfermeira bondosa e eficiente que nunca a deixasse sozinha no quarto. — A Sra, Scudamore nunca deve ficar sozinha no quarto!

E, pensando bem, ela, agora, se encontrava numa prisão com as paredes caiadas. Ali, em pleno deserto, as únicas pessoas do seu convívio eram um hindu quase desprovido de inteligência, um jovem árabe completamente imbecil e um cozinheiro que só lhe preparava, para as refeições, arroz, salmões enlatados, feijão cozido no fogão da casa e ovos endurecidos na água fervente...

Está tudo errado — refletiu Joan. — Trata-se de um ambiente inadequado para o tratamento que eu preciso fazer...

Depois da refeição ela foi imediatamente ao seu quarto e procurou o frasco de aspirina que havia trazido consigo. Ainda dispunha de seis comprimidos. Com evidente falta de previsão, ingeriu logo os seis de uma vez. Não sobrara nenhum para o dia seguinte mas o fato é que ela, dum jeito ou doutro, tinha que procurar acalmar-se. Nunca mais — pensou ela — empreenderei viagem alguma sem levar comigo calmantes...

Tirou a roupa e, continuando sempre muito apreensiva, deitou-se.

Por estranho que pareça, pegou no sono imediatamente.

Nessa noite sonhou que se encontrava encerrada num gigantesco edifício que era uma prisão. Havia ali um verdadeiro labirinto de corredores. Tentava pressurosa mente encontrar a passagem que a conduziria à porta de saída mas eram inúteis todos os seus esforços, muito embora ela — consoante a impressão que tinha no próprio sonho — soubesse perfeitamente, desde sempre onde se encontrava essa passagem...

— Você não tem outra coisa a fazer senão lembrar onde se encontra o lugar exato da saída — disse ela com toda a seriedade falando consigo mesma. — Você tem que lembrar onde está a saída!

De manhã acordou sentindo-se tranqüila embora um tanto abatida.

— Você tem que lembrar onde está a saída — disse ela mais uma vez a si própria.

Levantou-se, vestiu-se e fez a sua refeição matinal.

Até que estava se sentindo com boa disposição. Ela se encontrava apenas um pouco apreensiva. Nada mais.

Acho que mais tarde vai começar tudo de novo — pensou ela. — Mas que é que eu posso fazer? Como posso controlar a minha mente?

Procurou sentar-se calmamente numa cadeira. Só mais tarde um pouquinho é que ela tencionava sair, a fim de espairecer...

Não tentaria pensar em coisa alguma mas também não tentaria deixar de pensar. Ambas as atitudes eram sem dúvida muito cansativas e importunas. Ela só teria que permitir que a sua mente agisse à matroca como que impelida pelas sugestões do momento, sem forçar nada.

A aparência externa do escritório de Alderman, Scudamore & Witney — com as gavetas dos arquivos de escrituras e documentos importantes classificados e rotulados com etiquetas brancas. Por exemplo: — Bens e propriedades do Sr. Jasper Foulques, falecido. — Coronel Etchingham Williams, e assim por diante. Ali tinha-se a impressão de estar vendo os compartimentos de armários de um teatro com a classificação dos utensílios a serem usados em cena.

A face de Peter Sherston ao levantar os olhos vivos e perscrutadores, lá na sua carteira de trabalho. Ele se parecia com a mãe... Não, não era tanto com a mãe... Mais acertado seria dizer que ele tinha os olhos de Charles Sherston. Sim, exatamente aqueles olhos sagazes e irrequietos. Olhando quase sempre de soslaio.

Se eu fosse Rodney não confiaria muito nele — pensava ela.

Até lhe pareceu bem engraçado o fato de ter evocado tais pensamentos nesse instante.

Depois da morte de Leslie, Charles sofreu um colapso nervoso. Pode-se dizer que ele se precipitou para a morte num tempo recorde. Os filhos tiveram que ser amparados pelos parentes. A terceira criança, uma menininha, morrera seis meses após o nascimento.

John, o mais velho, fora viver no meio de bosques e florestas. Ele escolhera, ao que parece, Burma. Joan lembrou-se da sala na casa de Leslie com as paredes revestidas de linho em que se viam ramos e folhagens pintados a mão. Se John puxou pela mãe, gostando de ver árvores medrarem ligeiro, ele deve se achar muito feliz lá onde está. Aliás Joan ouvira comentar que ele estava muito bem.

Certo dia Peter Sherston procurou Rodney manifestando-lhe seu desejo de trabalhar no escritório da organização.

— Minha mãe disse-me que tinha certeza de que o senhor vai me ajudar, meu senhor.

Ele era um rapaz atraente, decidido e esperto. Procurava sempre agradar as pessoas. Era de fato o mais atraente dos dois filhos de Leslie. Joan sempre afirmava isso.

Rodney teve imensa satisfação em admitir o rapaz. Aceitou-o logo, sem hesitar, talvez tendo em mente o fato de que seu próprio filho preferira partir para o além-mar, separando-se completamente da família.

Rodney considerava o rapaz quase como um filho. Peter muitas vezes ficava na casa deles e era muito delicado e solícito para Joan. Revelava-se acessível e dotado de brandura — embora não possuísse a voz melíflua do pai.

Aconteceu, então, que certo dia Rodney chegou em casa parecendo estar aflito e doente. Em resposta à pergunta de Joan, ele declarou simplesmente que não havia nada, absolutamente nada. Entretanto, mais ou menos uma semana mais tarde, chegou em casa com a notícia de que Peter havia deixado o escritório. Resolvera ir trabalhar numa fábrica de aviões.

— Oh, Rodney... e dizer que você foi tão bom para ele! E como nós ambos gostávamos dele!

— Sim... Não resta dúvida, ele era um garotão atencioso...

— Houve algum percalço? Ele era preguiçoso?

— Oh, não! Até que tinha boa queda para o cálculo e desincumbia-se bem dos seus serviços.

— Como o pai dele?

— Sim, como o pai dele. Mas a rapaziada de hoje sente-se atraída pelas modernas descobertas. — Aviação! — Isso é o que eles preferem.

Joan nem sequer prestou atenção a esta explicação de Rodney, pois inopinadamente o sentido da sua última pergunta — como o pai dele? — fizera desencadear no seu espírito uma série de pensamentos atordoantes. Quem não percebia que Peter Sherston deixara o serviço de maneira inesperada?

— Rodney, não houve mesmo nada de irregular?

— Irregular?! Que é que você quer dizer?

— Quero dizer... Bem... será que ele não puxou pelo pai? A boca do rapaz é parecida com a de Leslie... mas nota-se logo que ele herdou do pai aquela expressão de astúcia nos olhos. Oh, Rodney, aconteceu algo de anormal, não é verdade? O rapaz praticou algum ato menos recomendável? Diga a verdade.

Rodney começou a falar pausadamente:

— Houve realmente um certo contratempo...

— Com relação às contas? Ele agarrou algum dinheiro?

— Eu prefiro não falar a respeito disso, Joan. Não foi nada de muito importante o que aconteceu.

— Vejam só! Desonesto como o pai dele! Não se tratará de um caso de hereditariedade? Não tem ele um comportamento suspeito?

— Muito suspeito. Ele parece estar propenso a seguir, na vida, o caminho errado.

— Você acha que ele, pelo menos em certos aspectos, também puxou pela mãe? Pois, fosse lá qual fosse o conceito que se fazia dela, nunca foi uma pessoa muito desembaraçada e eficiente, você não acha?

Rodney respondeu com certa secura:

— Eu sempre achei que ela era muito eficiente. Metia as mãos no seu trabalho, fazendo-o sempre com perfeição.

— Pobre coitada!

Rodney retrucou irritado:

— Não gosto que você se refira a ela com palavras de compaixão. Isso me deixa aborrecido.

— Mas, Rodney, você está sendo muito indelicado. A vida dela realmente foi horrível.

— Eu não penso da mesma forma com relação a ela.

— E a morte dela então...

— Prefiro que você não prossiga falando a respeito desse assunto.

Ele virou-se e saiu.

Todo mundo — refletiu Joan — tinha medo do câncer. As pessoas chegavam até a evitar a pronúncia dessa palavra. Quando tinham necessidade de dizer o nome dessa doença, procuravam sempre expressar-se por meio de um rodeio de palavras, tais como — um tumor maligno — uma operação braba — uma doença incurável — uma coisa interna no corpo. Até o próprio Rodney não gostava de mencioná-la porque — argumentava ele — afinal de contas, conforme afirmam os médicos, uma em cada doze pessoas está destinada a morrer dessa doença. E na maioria das vezes parece atacar precisamente as pessoas mais robustas que não tinham outra coisa no organismo senão a causa latente do mal.

Joan passou, então, a rememorar aquele dia em que, no Marquet Square, a Sra. Lambert lhe dera a notícia.

— Minha cara, você não sabe ainda?... Pobre da Sra. Sherston!

— Que foi que houve com ela?

— Morreu! — respondeu a mulher com um jeito esquisito. Depois, baixando bem a voz, prosseguiu:

— Foi aquela coisa interna, eu acho. Era impossível operá-la... Ouvi dizer que ela sofreu dores horríveis. Mas foi muito corajosa. Continuou trabalhando até algumas poucas semanas antes do fim. Só parou mesmo de trabalhar quando começou a ser mantida a poder de morfina. Não faz nem seis semanas que a mulher do meu sobrinho a viu. Tinha um aspecto horrível e estava magra como um palito, mas continuava sempre do mesmo jeito, rindo e brincando. Chego até a acreditar que há certas pessoas que se julgam refratárias às doenças. Mas, afinal, a coitada tinha uma vida tão triste. Até ouso dizer que a sua morte foi um grande alívio para ela.

Joan apressou-se em voltar para casa a fim de dar a notícia a Rodney. Entretanto ele respondeu-lhe calmamente:

— Sim, já sei.

Rodney era, na qualidade de seu advogado, o executor da sua última vontade e, por isso, eles tiveram que se comunicar com ele imediatamente.

Leslie Sherston, na verdade, não tinha muita coisa para deixar. Tudo o que lhe pertencia deveria ser repartido entre os seus dois filhos. A disposição testamentária que excitou Crayminster foi aquela em que ela exigiu que seu corpo fosse sepultado naquela cidade. O texto, no tópico final, dizia: — “...porque eu sempre fui muito feliz em Crayminster”.

E o corpo de Leslie Sherston foi então transportado para repousar no cemitério paroquial de St. Mary, em Crayminster.

Um pedido esquisito — comentavam algumas pessoas — pois foi exatamente em Crayminster que o marido dela se apropriara fraudulentamente de fundos do banco, tendo sido condenado à prisão.

Todavia, outras pessoas afirmavam que o seu desejo era muito natural. Foi ali que ela passara a fase mais feliz da sua vida antes desse infortúnio. Era evidente, portanto, que ela encarava essa cidade como uma espécie de perdido jardim do Éden.

Pobre Leslie! Que família tão trágica! O jovem Peter, ao aterrissar, depois de ter feito um vôo destinado a experimentar um novo dispositivo adaptado ao avião, veio espatifar-se contra o solo. Teve morte instantânea.

Rodney ficou terrivelmente chocado com esse acidente. Ele, de maneira tão estranha, só vivia se culpando pela morte do rapaz.

— Mas francamente, Rodney, não vejo como você possa ter alguma culpa pelo que aconteceu. Você nada tinha a ver com o caso.

— Leslie me havia enviado o rapaz, tendo-lhe dito que eu lhe daria emprego e cuidaria dele.

— E foi isso mesmo o que você fez. Admitiu-o no seu escritório...

— Sim, eu sei...

— E ele não se comportou direitinho. Você não o perseguiu nem tomou nenhuma atitude contra ele. Você cobriu do seu próprio bolso o desfalque que ele deu, não foi verdade?

— Sim, sim, eu sei... mas não é bem isso o que eu quero dizer. É preciso que você compreenda que foi a própria Leslie quem me encaminhou Peter e ela o fez, evidentemente, já sabendo que o filho era um tanto indeciso e que poderia incidir na prática de atos desonestos, como Sherston. John, o outro filho, era de boa índole e não lhe dava preocupações. Conclui-se, portanto, que ela resolveu confiar-me Peter precisamente para que eu tomasse conta dele, orientando continuamente os seus passos a fim de evitar que ele vacilasse e conspurcasse o seu nome. Mas Peter era realmente uma estranha mistura: ele tinha a desonestidade de Sherston e a coragem de Leslie. Armadales escreveu-me dizendo que Peter foi o melhor piloto que eles tiveram até agora. Não tinha medo e (assim se expressou ele na carta) fazia verdadeira mágica com os aviões. O rapaz se oferecera voluntariamente, como você sabe, para experimentar um novo dispositivo secreto. Tratava-se de uma experiência sabidamente perigosa. E essa experiência foi a causa da sua morte.

— Bem... Eu só tenho a dizer que a atitude dele foi muito honrosa. Realmente muito honrosa.

Rodney esboçou um sorriso esquisito.

— Oh, sim, Joan... Mas você teria coragem de expressar-se com o mesmo espírito de conformismo se fosse o nosso filho que houvesse morrido em idênticas circunstâncias? Você ficaria satisfeita se Tony tivesse uma morte honrosa?

Joan encarou-o com o olhar fixo.

— Mas Peter não era nosso filho. Trata-se de um caso muito diferente.

— Eu fico pensando em Leslie... Como ela não teria sofrido!...

Sentada dentro da casa de pernoite, Joan sentiu um certo tremor.

Por que será que desde que ela chegou nesse lugar, os Sherstons não saíram da cabeça dela? Ora, tinha tantos outros amigos... amigos que realmente significavam muito mais para ela do que qualquer um dos Sherstons...

Joan nunca havia gostado, demasiadamente de Leslie. Falando a pura verdade, o único sentimento que tinha em relação a essa mulher era o de compaixão. Pobre Leslie que está agora sob aquela fria lousa de mármore!

Joan começou a tremer sentindo uns arrepios.

— Estou com frio — exclamou ela. — Estou com frio. Alguém está caminhando sobre a minha sepultura. Ora, mas era com relação à sepultura de Leslie que eu estava pensando... Aqui está frio... está frio e é tão melancólico... Vou sair a fim de inundar-me da radiante luz do sol. Não posso permanecer mais tempo aqui.

O cemitério paroquial — e a sepultura de Leslie Sherston — e aquela flor vermelha de rododendro que caíra do casaco de Rodney...

O vento borrascoso e brutal sacode impetuosamente os tenros raminhos de maio.