A Ausência

Agatha Christie · Capítulo 10 de 13

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A Ausência

Dez

 

Joan recobrou a consciência bem ligeiro.

Mas ela sentia-se abatida e doente. Estava tão fraca que parecia uma criancinha.

Mas estava salva! A casa de pernoite estava ali, à vista. Então, logo que ela melhorasse um pouco poderia levantar-se e dirigir-se para lá. Mas por enquanto era melhor que ela permanecesse sentada ali mesmo fazendo calmamente reflexões ponderadas... Só fazendo reflexões e nada mais...

Afinal de contas, Deus não a abandonara. Ela já não estava mais sentindo aquela espécie de terror provocado pela solidão...

Mas eu tenho que meditar! — exclamava ela. — Preciso fazer certas reflexões bem sérias. Tenho necessidade de esclarecer os pontos obscuros da minha consciência. E é por isso mesmo que eu me encontro aqui — para elucidar tudo...

Era exatamente agora que ela começava a perceber que tipo de mulher era Joan Scudamore.

E não foi com outra intenção que ela avançara tanto numa caminhada sem rumo deserto a fora senão a de elucidar o espírito acerca da sua própria pessoa.

A sua consciência, iluminada pela fulgurante luz da meditação profunda, mostrar-lhe-ia a razão de ser dos tormentosos pensamentos que a invadiam e sobre os quais ela obstinadamente se esquivava de refletir, deixando de rememorar fatos e circunstâncias de que ela já tinha pleno conhecimento desde o princípio... Ontem mesmo (e só agora ela estava se dando conta disso) ela encontrara uma boa pista, talvez a chave para a solução do mistério. Seria até muito razoável que ela começasse logo as suas reflexões repassando todos os pensamentos que lhe forneceram esta chave.

O fato se deu exatamente quando ela ficou atacada de pânico pela primeira vez, não é verdade?

Naquele momento ela estava recitando poemas, em pleno deserto.

Longe de ti, eu estive ausente na primavera.

Foi exatamente este o verso que lhe forneceu o principal indício, fazendo-a pensar logo em Rodney e exclamar:

— Mas estamos em novembro agora!

E ela pronunciou esta frase exatamente como Rodney, naquela tarde, também exclamara: — Mas estamos em outubro.

Isto aconteceu precisamente na tarde daquele dia em que ele e Leslie Sherston estiveram sentados em Asheldown — ambos calados, conservando uma distância de quatro pés entre eles. Joan chegou até a dizer que tal atitude não parecia muito apropriada para pessoas que se dizem amigas, não foi verdade?

Mas agora... agora sim ela passou a perceber a razão do comportamento deles, sentando longe um do outro. E ela devia ter percebido isso naquele dia mesmo...

Eles procederam assim porque não se atreveram a ficar mais perto um do outro...

Rodney e Leslie Sherston...

Nada havia com Myrna Randolph.

Com Myrna Randolph nunca houve nada. Joan, numa atitude de quem procura enganar-se a si mesma, deu guarida em sua mente ao mito de Myrna Randolph, precisamente porque ela bem sabia que com aquela moça nada havia. Seu subconsciente empregara Myrna Randolph como uma cortina de fumaça para ocultar a si mesma os fatos que estavam acontecendo realmente.

E em grande parte tudo isso se deu (tenha a honestidade de confessar a verdade agora, Joan!) só porque ela achava mais fácil admitir Myrna Randolph do que Leslie Sherston.

Não havia dúvida de que ela se sentia muito menos ferida no seu orgulho íntimo admitindo que, ao invés de Leslie, quem seduzia Rodney era Myrna Randolph, a linda moça considerada uma sereia tão sedutora que só os homens dotados de uma força sobre-humana seriam capazes de resistir aos seus atrativos.

Sinceramente... Como poderia ela desconfiar de Leslie Sherston? — Leslie que não era bonita, que não era jovem e que nem sequer tinha um bom grau de aprimoramento intelectual.

Leslie, com aquela sua face cansada que sorria sempre só por um lado do rosto... O que realmente causava a Joan uma grande repugnância era ter que admitir que Rodney amasse Leslie e que a sua paixão fosse tão grande a ponto de, por falta de confiança em si próprio, não se atrever a aproximar-se dela a uma distância menor do que quatro pés...

Que irrefreável desejo! Que amor tão impulsivo! Uma coisa assim ela, Joan, nunca sentira na sua vida!...

É verdade! Naquele dia lá estavam eles em Asheldown num verdadeiro arrebatamento de paixão... E bem que Joan percebera isso... Melhor dizendo, foi precisamente pelo fato de ter percebido tal enlevo amoroso que ela se apressou em ir embora, envergonhada, pois de forma alguma queria admitir a realidade daquilo que seus próprios olhos estavam vendo.

Rodney e Leslie, sentados no alto da colina, calados e evitando se fitarem porque não tinha confiança em si mesmos.

Leslie amava Rodney tão desesperadamente que desejou ser enterrada, depois da morte, na cidade onde ele vivia...

E que não dizer da exclamação de Rodney, proferida com os olhos baixos, numa atitude de meditação, ao contemplar a lousa de mármore da sepultura de Leslie: — Até parece uma estupidez desconcertante imaginar que Leslie Sherston se encontra debaixo dessa lousa fria.

E a florzinha de rododendro caindo sobre a sepultura...

Momentos depois dizia Rodney: — Estou cansado, Joan. Estou completamente exausto.

Em seguida, de maneira tão estranha, ele exclamou: — Nem todos nós podemos ser valentes...

Evidentemente, ao pronunciar tais palavras ele estava pensando em Leslie.

— Mas coragem não é tudo.

— Você acha que não é?

E o colapso nervoso de Rodney? — A causa da sua prostração só podia ter sido a morte de Leslie.

Ele só pôde recuperar-se depois que começou a repousar tranqüilamente em Cornwall onde, sempre sorridente e sem nenhuma preocupação com a vida, ficava ouvindo as gaivotas.

Não foi por nada que Tony, com um timbre de falsete na sua voz de menino, perguntara desdenhosamente à mãe:

— Será que a senhora nada sabe com relação ao papai?

E realmente ela nada sabia. Nada sabia porque deliberadamente se esquivava de procurar saber.

E não era, então, bem expressiva a atitude de Leslie, postada à janela, explicando por que iria dar mais um filho a Sherston?

E Rodney, depois, lá em casa, postado da mesma forma à janela olhando para fora, lhe disse:

— Leslie nunca faz as coisas pela metade...

Que será que eles contemplavam quando, em atitudes idênticas, olhavam para fora da janela? Estaria Leslie simplesmente olhando as macieiras e as anêmonas da sua chácara? E Rodney? Estaria ele observando a quadra de tênis e o aquário de peixes dourados? E naquele dia, de lá das elevações de Asheldown, estariam ambos mirando os contornos daquela encantadora região Campestre só para observarem, inebriados, os capões cheios de árvores frondosas espalhados lá pelas encostas da longínqua montanha?

Pobre Rodney!... Pobre Rodney, tão cansado, tão abatido...

Rodney, sempre com aquele seu sorriso apoquentador, exclamando: — Pobre pequena Joan! O sempre carinhoso Rodney que nunca tentou abandoná-la...

Bem... Mas é preciso dizer que ela sempre foi uma boa esposa para ele, não é verdade?

Ela sempre colocava o interesse dele em primeiro lugar...

Espere! Era isso mesmo o que ela fazia?!

E preciso não esquecer aquela vez em que Rodney dirigiu a ela uma ardente súplica com os seus olhos tristes... A expressão de melancolia nunca se afastava dos seus olhos. E com que ênfase Rodney exclamara: — Como poderia eu saber então que mais tarde viria a odiar esse serviço? Depois, dirigindo-se a ela com uma expressão de seriedade no olhar, perguntou-lhe:

— Como sabe você que eu serei feliz aqui?

Já agora não podia desvanecer-se da lembrança de Joan o vulto de Rodney, instando com ela para que o deixasse seguir a vida de sua predileção — a vida de agricultor e criador de gado...

O vulto de Rodney postado à janela do seu escritório observando o gado num dia de feira... E Rodney falando com Leslie sobre raças de gado leiteiro...

E como eram bem significativas estas palavras que ele disse a Averil: — Se um homem na sua vida não consegue fazer o trabalho que gosta, ele jamais será um homem completo. Só poderá ser um homem pela metade.

Apreensiva e inquieta, Joan tentou defender-se das acusações proferidas pela sua própria consciência.

Sempre supôs que o que fazia era para o bem dele. Forçosamente tinha que ser prática e objetiva. Não podia deixar de pensar também nas crianças. Nunca agiu movida por interesses egoísticos.

Todavia, este seu ímpeto de querer justificar-se arrefeceu logo.

Será mesmo que ela nunca foi egoísta?

Será que ela não agiu desse modo só porque não queria viver num sítio? Ela sempre desejou que seus filhos tivessem as melhores coisas — mas, afinal, que significam as melhores coisas?

Não tinha Rodney mais direito do que ela para escolher o que deveria ser dado aos filhos? Não cabia realmente a ele, como pai, a prioridade desse direito? Pois não são os pais que escolhem o sistema de vida que os filhos em casa devem levar? À mãe cabe a tarefa de cuidar do bem-estar deles, propugnando com lealdade para que as determinações do pai no tocante ao sistema de vida escolhido sejam seguidas à risca.

— A vida num sítio — disse Rodney — é muito boa para as crianças...

Tony sem dúvida teria ficado muito contente depois de crescido. Rodney compreendeu logo que Tony não devia ser impedido de escolher o trabalho que desejava.

Rodney confessara a ela com toda a franqueza: — Nunca tive muita propensão para forçar as pessoas a fazerem seja lá o que for...

Entretanto ela, Joan, não teve escrúpulos em obrigar Rodney...

Então, atacada por uma súbita angústia sufocante, ela refletiu: — Mas eu amo Rodney. Eu o amo sinceramente. Não foi porque eu não o amasse...

Nesse instante, como que iluminada por um repentino lampejo da sua mente ela compreendeu que o fato de amar Rodney era exatamente o que tornava imperdoável a sua atitude.

Se ela o odiasse, bem que poderia encontrar alguma desculpa.

E se ela tivesse sempre se mantido numa posição de indiferentismo com relação a Rodney, também pouco interessaria agora o julgamento da sua atitude.

Mas ela o amava e mesmo amando-o tolheu-lhe um direito inato: o direito de escolher o seu próprio modo de vida.

Por causa disso — por ter ela se valido inescrupulosamente das armas peculiares à sua condição de mulher alegando tomar em consideração antes de mais nada o futuro dos filhos — o primogênito, uma criancinha de berço, e o outro que ela ainda transportava no ventre — tirou do pobre homem algo que ele nunca mais conseguiu recuperar: uma boa porção do ânimo que constituía um atributo especial da sua personalidade.

Ele, manifestando-lhe continuamente o seu carinho, se esquivou sempre de lutar contra ela para subjugá-la e por isso se tornou inferiorizado para o resto da vida...

Rodney... Rodney...

Joan refletiu: — Já não posso mais devolver-lhe... Quero dizer, já não há mais possibilidade de reparar os danos que lhe causei... Mas deve haver algo que eu possa fazer...

Seja lá como for, eu o amo. Eu o amo sinceramente.

E amo também Averil, Tony e Bárbara.

Sempre os amei a todos.

(Mas não tanto quanto devia tê-los amado — pareceu redargüir-lhe uma voz íntima.)

Rodney!... Rodney, será que não há nada que eu possa fazer para o seu bem? Que eu possa dizer-lhe para o seu conforto?

Longe de você, eu estive ausente na primavera.

Sim — pensou ela — estive ausente de você durante um tempo muito longo... Nunca estive perto de você desde aquela primavera... aquela primavera em que começamos a nos amar... em que pela primeira vez trocamos palavras de afeto...

Eu sempre permaneci o que era. Blanche tinha razão. Nunca deixei de ser aquela menina do Colégio St. Anne. Sempre com uma vida fácil, sempre vagarosa para pensar, sempre satisfeita comigo mesma, sempre temendo tudo o que pudesse me causar aflições.

Nunca tive coragem...

Que posso fazer agora?

Depois de alguns segundos de reflexão, ela decidiu: — Eu posso dirigir-me a Rodney dizendo-lhe que estou muito sentida pelos males que lhe causei e pedindo-lhe perdão.

Falarei com ele, expressando-me assim: — Perdoe-me. Eu não sabia... Eu simplesmente não podia imaginar que estava causando a você tantos danos e aflições...

Joan levantou-se. Ela sentiu fraqueza nas pernas e teve a impressão de ter-se tornado uma pessoa tola e ridícula.

Começou a caminhar devagarinho, com dificuldade, como se fosse uma velha.

Foi andando... foi andando... Atirava um pé pela frente... depois o outro... cautelosamente.

Rodney... Rodney!

Como ela se sentia doente!... Doente e enfraquecida.

Já se tornara longo demais para ela o percurso desta sua caminhada.

Depois de ter andado um bocado, notou que o hindu saía da casa de pernoite e corria ao seu encontro, com os lábios distendidos num sorriso. Ele não parava de gesticular e de abanar-lhe a mão.

— Boa notícia, Memsahib, boa notícia!

Ela fitou-o ansiosa.

— A senhora viu? Trem chegou. Trem está na estação. A senhora hoje à noite viaja no trem.

O trem?! O trem que a levaria de volta para Rodney!

(Perdoe-me, Rodney!... Perdoe-me!)

Ela começou a rir freneticamente — de maneira fora do comum.

O hindu fitou-a com o semblante sério e ela, depois de contida esta sua brusca expansão de euforia, exclamou:

— O trem já chegou! O trem chegou no momento oportuno!