A Ausência
Cinco
A tarde passava com uma lentidão horrível.
Joan não queria sair para dar uma nova caminhada antes que o sol não estivesse bem baixo no horizonte. Por isso tinha que ficar sentada dentro da casa de pernoite.
Depois de passada mais ou menos meia hora, achou que se tornava insuportável só permanecer ali sentada numa cadeira. Ela foi, então, ao seu quarto e começou a desempacotar as suas coisas para depois empacotá-las de novo, ajeitando tudo direitinho, já que os embrulhos lhe pareceram ter sido mal preparados antes. Só assim foi que conseguiu achar um bom servicinho para entreter-se.
Executou este trabalho prazerosamente e com desembaraço.
Bem, finalmente chegou a hora em que ela poderia sair sem maiores transtornos. Dentro da casa de pernoite o ambiente era muito depressivo. Se, pelo menos, ela tivesse algo para ler... ou até mesmo algum quebra-cabeça... qualquer brinquedo de armar para passar o tempo.
Lá fora ela olhou com repugnância para as latas amontoadas, para as galinhas e para o arame farpado. Que lugar horrível era esse onde ela se encontrava! Extremamente horrível.
No intuito de variar um pouco passou a caminhar desta vez numa direção paralela à estrada de ferro, margeando a fronteira turca. Com esta simples variação chegou a ter uma sensação momentânea de agradável novidade... Entretanto, depois de decorridos uns quinze minutos, voltou a ter a mesma impressão que tinha antes. Os trilhos da via férrea estendendo-se a uma distância de cerca de um quarto de milha à sua direita não podiam ser considerados uma boa companhia.
Nada mais havia senão silêncio... Silêncio e luz solar.
Ocorreu, então, a Joan que ela poderia recitar alguma poesia.
Ela sempre fora tida, no seu tempo de colégio, como uma aluna que lia e declamava poesias muito bem... Não deixava de ser interessante verificar quais as poesias que ela poderia rememorar depois de tantos anos... Houve uma época em que sabia de cor uma boa porção de versos.
“O nobre atributo de compaixão e clemência não pode ser
[conseguido à força,
Ele cai do céu tão suavemente como a chuva mansa que
[traz refrigério.”
(The quality of mercy is not strained
It droppeth as the gentle rain from heaven)
Que é que vem depois? “Que bobinha que eu sou!” — Simplesmente ela não se lembrava do resto...
“Não mais temas o sufocante calor de um sol abrasador.”
De qualquer forma ela começou bem. Será que ela conseguiria recitar toda a poesia?
“Nem tampouco a violenta fúria do inverno inclemente
Tu, completada a tua tarefa terrena
Voltas para casa depois de ter recebido a tua recompensa.
Florescentes rapazes e meninas
deverão vir, quais limpadores de chaminés para tirar o pó”.
(Fear no more the heat of the sun
Nor the furious winter’s rages
Thou thy wordly task has done
Home art gone and ta’en thy wages
Golden lads and girls all must
As chimney sweepers come to dust)
Não, esta poesia não é lá muito agradável. Será que ela se lembraria de algum soneto? Ela sempre teve o hábito de recitar sonetos. O soneto “A união de duas almas autênticas” e aquele outro que certa vez Rodney pedira que ela recitasse seriam importantes.
Foi até bem engraçada a maneira como ele inopinadamente lhe disse:
— “E o teu eterno verão jamais acabará”. Este é de Shakespeare, não é?
— Sim, é um dos sonetos dele. Então ele passou a citar outro soneto.
— “Que eu nunca admita que haja impedimento para a união de duas almas autênticas.” Você não quer recitar este?
— Não. Acho melhor recitar aquele que começa assim: “Comparar-te-ei a um dia de verão”.
Ela, então, recitou-lhe o soneto inteiro, até mesmo com certa finura nos gestos e com uma expressão bem própria para dar ênfase à sua interpretação.
Quando ela terminou, ele, ao invés de dar-lhe a sua aprovação, simplesmente passou a repetir, com sentimento:
“O vento borrascoso sacode impetuosamente os tenros raminhos de maio...”
(Rough winds do shake the darlings buds of May...)
— Mas não estamos em maio, estamos em outubro, não é verdade?
Ele então fez menção de ter uma coisa importante para perguntar-lhe. Ela fitou-o.
— Mas você não sabe aquele outro soneto? Aquele sobre a união de almas autênticas?
— Claro que sei.
Ela fez uma pequena pausa e começou a recitá-lo:
Que eu não veja empecilhos na sincera
União de duas almas. Não amor
É o que encontrando alterações se altera
Ou diminui se o atinge o desamor.
Oh, não! amor é ponto assaz constante
Que ileso os bravos temporais defronta.
É a estrela guia do baixei errante,
De brilho certo, mas valor sem conta.
O Amor não é jogral do Tempo, embora
Em seu declínio os lábios nos entorte.
O Amor não muda com o dia e a hora,
Mas persevera ao limiar da Morte.
E, se se prova que num erro estou,
Nunca fiz versos nem jamais se amou.
(Let me not to the marriage of true minds
Admit impediments. Love is not love
Which alters where it alteration finds,
Or bends with the remover to remove:
O, no, it is an ever-fixed mark
That looks on tempests and is never shaken,
It is the star to every wandering bark
Whose worth’s unknowun, although his height be taken
Love’s not Fime’s fool, though rosy and cheeks
Within his bending sickle’s compass come;
Love alters not with his brief hours and weeks,
But bears it out even to the edge of doom.
If this be error, and upon me prov’d
I never writ, nor no man ever lov’d).
Ela terminou dando ênfase aos últimos versos, com uma expressão dramática.
— Você não acha que eu recito Shakespeare regularmente? No meu tempo de colégio todo mundo dizia que eu recitava bem e declamava com bastante expressão.
Entretanto Rodney, como que absorto, respondeu simplesmente:
— Eu não preciso da expressão. Bastam-me as palavras.
Ela deu um suspiro e murmurou:
— Shakespeare é maravilhoso, você não acha?
— O que há de realmente maravilhoso é o fato de ter sido ele um pobre diabo como qualquer um de nós.
— Rodney, que coisas extraordinárias você está dizendo!
Então ele sorriu para ela, como se naquele instante se tivesse despertado de um devaneio.
— Você acha que eu disse coisas extraordinárias?
Ele levantou-se e, depois de ter saído da sala, começou a andar de um lado para outro, recitando enquanto caminhava:
“O vento borrascoso sacode impetuosamente os tenros raminhos
[de maio
E o verão tem uma duração tão curta.”
(Hough winds do shake the darling buds of May
And summer’s lease hath all to short a date).
Por que será que ele disse: “Mas não estamos em maio, estamos em outubro?”
Que estaria ele insinuando com isso?
Outubro era de fato um mês lindo e de tempo ameno.
Engraçado... agora, pensando no mês de outubro ela se lembrou de que a tarde em que Rodney lhe pedira para recitar os sonetos, era a tarde do mesmo dia em que ela o havia visto sentado em companhia da Sra. Sherston, em Asheldown.
Talvez a Sra. Sherston lhe tivesse declamado alguns sonetos de Shakespeare... mas não era muito provável. Afinal, Leslie Sherston não era uma mulher intelectual — pensou Joan.
Naquele ano, o mês de outubro transcorreu maravilhosamente.
Ela se lembrou de que alguns dias mais tarde Rodney, como que perplexo, lhe perguntara:
— Será que isso ali vai brotar nesta época do ano?
Ele estava apontando para um rododendro que era de uma espécie que floresce muito cedo e que normalmente em março ou até mesmo nos fins de fevereiro já está em plena florescência. A planta mostrava uma linda flor vermelho-sangüínea e seus brotos já tinham começado a despontar.
Joan respondeu-lhe:
— Não. A época da florescência do rododendro é a primavera. Todavia, algumas vezes acontece que os brotos despontam no outono mesmo, quando faz calor e o tempo é calmo.
Ele tocou suavemente um dos raminhos com os dedos e exclamou:
— Os tenros raminhos de maio...
— De março e não de maio — retrucou ela.
— Parece sangue. Sangue do coração!
Como Rodney estava diferente! Tão interessado em flores!
A partir desse dia ele ficou gostando especialmente desse rododendro.
Ela se lembrou, também, de que alguns anos depois, ele quis, certo dia, usar uma flor de rododendro enfiada na casa de um dos botões do seu casaco. Era um raminho relativamente grande. Nesse mesmo dia Joan presenciou esta florzinha cair no chão em determinado lugar.
Eles estiveram no cemitério paroquial, o local mais extraordinário da cidade.
Quando já se apresentavam para sair do cemitério, passando por perto da igreja, ela avistou Rodney e foi se juntar a ele.
— Que é que você estava fazendo, Rodney?
Ele, sorrindo, respondeu-lhe:
— Eu estava meditando sobre o fim da minha vida e imaginando qual a espécie de lousa que deverá ser colocada sobre o meu túmulo. Não quero granito. É muito liso. Também não quero um anjo de mármore.
Ambos, então, lançaram seus olhos para uma sepultura recente, que estava na frente deles e sobre cuja lousa lia-se o nome de Leslie Sherston.
Rodney, bem devagarinho, começou a ler o epitáfio: — “Leslie Adeline Sherston, muito amada esposa de Charles Edward Sherston. Ela entrou na paz eterna em 11 de maio de 1930. Deus enxugará as suas lágrimas”.
Depois de uma pequena pausa comentou ele:
— Até parece uma estupidez desconcertante pensar que Leslie Sherston está debaixo de uma fria lousa de mármore como esta. Só um idiota congênito como Sherston poderia escolher um epitáfio assim. Eu não acredito que Leslie tenha chorado durante a sua vida.
Joan interroga-lhe (sentindo-se evidentemente um tanto chocada por julgar blasfêmia esta pergunta feita num tom jocoso):
— Qual o epitáfio que você escolheria então?
— Para ela?... Nem sei... Será que não existe nada nos salmos que se adapte melhor? Na vossa presença está a plenitude da alegria! Ou quaisquer outras palavras semelhantes...
— Realmente, este epitáfio eu acharia bom para você.
— Ah... para mim?
Ele fez uma pausa como se estivesse meditando. Depois, sorrindo, prosseguiu:
— O Senhor é o meu pastor. Ele me conduz às verdes pastagens. Este epitáfio serve para mim.
— Mas estas palavras parecem dar uma idéia bastante melancólica do paraíso...
— Ora, qual é, então, a sua idéia acerca do paraíso, Joan?
— Bem... Acho que lá não existem nem porta nem caminho de ouro, como dizem. E evidentemente também nada há que seja matéria. Eu prefiro pensar no paraíso como sendo um estado, uma situação, um lugar onde cada qual anda sempre ocupado em trabalhar para que, de qualquer maneira misteriosa, este mundo se torne mais belo e mais feliz. Trabalho constante — esta é a idéia que eu faço do paraíso.
— Que pavorosa sabichona você é, Joan!
Ele sorriu, com o visível intuito de amenizar a aguda mordacidade destas suas palavras. Depois prosseguiu:
— Não, o paraíso não pode ser assim, Joan. Ele deve ser como um vale bem verde: Desse jeito, sim, me agrada bastante. Um vale coberto de verdes pastagens onde as ovelhas seguem o seu pastor quando vão para o redil ao cair da tarde fria.
Ele fez uma pausa um pouco prolongada; depois, continuou:
— Parece até que tenho uma fantasiosa imaginação, Joan, pois algumas vezes procuro me entreter com uma idéia bastante estranha. Quando estou indo para o escritório, ao passar através de High Street, volto para penetrar em Bell Walk, exclusivamente com o intuito de caminhar através daquela avenida ajardinada. Então, tenho a nítida impressão de ter penetrado não numa avenida mas sim num vale misterioso, coberto de verdes pastagens, tendo do outro lado colinas agradáveis e amenas, sombreadas por árvores como num bosque. A impressão que eu tenho é de que esse vale sempre existiu naquele mesmo lugar, secretamente conservado no coração da cidade. A gente que sai da movimentada High Street e penetra nele sente-se como que perdida e confusa. E se eu pergunto: — Onde estou? — explicam-me (naturalmente com muita amabilidade) que eu já estou morto...
— Rodney! — exclamou ela cheia de pasmo e assustada. — Você... você até parece que anda doente, homem. Você não pode estar bem.
Este foi o primeiro indício do estado de abatimento em que ele se encontrava e que lhe causaria, alguns dias mais tarde, uma prostração nervosa. Ele teve que se internar num sanatório em Cornwall, onde ele parecia estar satisfeito por ser um ambiente calmo e silencioso. Passava horas e horas ouvindo as gaivotas e contemplando o mar, lançando seus olhos por cima daquelas colinas descalvadas.
Até o dia em que tiveram esta conversa no cemitério paroquial, ela não podia imaginar que ele havia trabalhado tanto a ponto de estar sofrendo de um esgotamento nervoso.
Foi precisamente quando resolveram voltar para casa que Joan, com um braço em torno dos ombros de Rodney, forçando-o a caminhar, viu cair sobre a sepultura de Leslie a flor de rododendro que se achava enfiada na casa do botão do seu casaco.
— Olhe... veja ali! — disse ela.
E, quando fez menção de se abaixar para apanhá-la, ele impediu-a dizendo:
— Deixe que a flor fique ali. Para Leslie Sherston. Afinal... ela era nossa amiga.
Inopinadamente ocorreu a Joan a idéia de, no dia seguinte, trazer um ramalhete bem grande de crisântemos amarelos para colocar na sepultura da amiga.
Ela chegou até a ficar um pouco assustada com o sorriso esquisito que o marido fez quando ela lhe explicou esta sua intenção.
Realmente... Bem que ela percebeu que havia algo de anormal com Rodney nessa tarde. Ela não imaginava evidentemente que ele estivesse quase à beira de um colapso... mas percebeu claramente que, fosse lá qual fosse a razão do seu comportamento, ele parecia muito diferente...
Ela insistiu com as suas perguntas durante todo o caminho até chegarem em casa mas ele não dava respostas satisfatórias. Sempre repetia a mesma coisa:
— Estou exausto... Estou muito cansado, Joan.
Só uma vez, de maneira inesperada e incompreensível para ela, exclamou:
— Nem todos nós podemos ser valentes.
Foi só uma semana mais tarde que ele, certa manhã, declarou de maneira vaga, como se estivesse delirando:
— Hoje não vou me levantar...
E continuou na cama sem falar nem prestar atenção em nada. Permanecia quieto com um sorriso indefinível nos lábios.
Em seguida foram chamados os médicos e as enfermeiras. Providenciou-se tudo para que ele pudesse ir a Trevelyan a fim de repousar e de recuperar-se. Não lhe permitiram receber cartas nem telegramas nem visitas.
Até mesmo a visita de Joan, sua esposa, fora proibida.
Foi uma fase terrível e cheia de confusão para a família. E os filhos, também, ocasionaram muitas dificuldades. Não auxiliaram muito. Eles se comportaram como se tudo tivesse acontecido por culpa dela, Joan.
— Escravizando-o cada vez mais. Sempre deixando-o trabalhar no seu escritório como um escravo. A senhora sabia muito bem, mamã, que papai vinha trabalhando demais desde muitos anos.
— Eu bem sabia, meus queridinhos, mas que poderia eu fazer?
— A senhora há muitos anos já devia tê-lo forçado a deixar esse serviço. Então a senhora não sabe que ele odeia aquele escritório? Será que a senhora nada sabe a respeito de papai?
— Basta, Tony! É claro que eu sei tudo a respeito do seu pai. Sei mesmo muito mais do que você.
— Bem... Há momentos em que eu não penso assim. Às vezes tenho a impressão de que a senhora não sabe nada a respeito de ninguém.
— Tony!
— Pare com isso Tony! — (Era Averil que falava agora.) — Que adianta essa discussão?
Averil era assim. Seca, fleumática e impermeável às emoções. Freqüentemente valia-se do seu cinismo e manifestava seus pontos de vista desapaixonadamente, encarando as coisas com uma visão tal que dava a impressão de ter muito mais idade.
Joan às vezes achava que Averil não tinha coração. Ela habitualmente desprezava carinhos e ficava insensível aos apelos que lhe eram feitos para o seu próprio bem.
— Papai queridinho! (Agora era Bárbara que vinha com as suas lamúrias. Ela, sendo a caçula da casa, não tinha tanta força para controlar as suas emoções.) — A senhora é que é a culpada de tudo, mamã! A senhora sempre foi cruel para ele. Sim, cruel... Sempre.
— Bárbara! — Joan já tinha perdido a paciência. — Você sabe o que está dizendo? Se há uma pessoa que apareceu primeiro nesta casa, só pode ter sido seu pai. Então vocês todos acham que poderiam receber educação, roupas e alimentos se o pai de vocês não tivesse trabalhado? Ele sacrificou-se por vocês — e isto é o que os pais devem fazer. E é realmente o que fazem sem espalhafato nem alarde.
Disse Averil:
— Permita-me que eu aproveite esta oportunidade para agradecer-lhe todos os sacrifícios que a senhora tem feito por nós, mamã.
Joan fitou a filha com um ar de hesitação. Ela duvidava da sinceridade de Averil. Mas a menina não podia ser tão incoerente assim...
Tony desviou a atenção de Joan perguntando-lhe:
— Não é verdade que certa vez o papai quis ser agricultor?
— Agricultor?! Não! Isto é... Acho que há muitos anos... ele teve uma espécie de fantasia da juventude. Mas a família dele sempre foi uma família de advogados. Existe uma organização da família muito famosa nesta parte da Inglaterra. E você mesmo deve ficar muito satisfeito com isso porque irá participar também dessa organização.
— Absolutamente, eu não quero participar dela, mamã. Eu pretendo ir para a África Oriental a fim de me dedicar à agricultura em larga escala.
— É um absurdo, Tony! Não venha com essa idéia tola como fez seu pai anos atrás. É claro que você terá que participar da firma. Você é o único filho homem.
— Mas eu não quero tornar-me um advogado, mamã. Papai já sabe disso e prometeu me dar apoio.
Ela, como que colhida de surpresa por esta decisão do rapaz, deixou-se afundar na cadeira. As lágrimas começaram a brotar dos seus olhos. Como eram cruéis os seus filhos, procurando humilhá-la desse jeito!
— Não sei o que está acontecendo com todos vocês para me falarem desse modo. Se o pai de vocês estivesse aqui! Acho que estão se comportando muito mal...
Tony, como que resmungando, pronunciou algumas palavras ininteligíveis e, virando-se displicentemente, saiu da sala. Averil, com sua voz seca, disse:
— Tony está decidido a dedicar-se à agricultura, mamã. Ele pretende freqüentar uma escola superior de agronomia. Realmente acho maluca essa idéia dele. Se eu fosse homem, eu preferiria tornar-me um advogado. Acho que o estudo das leis é muito bonito e interessante.
Joan, com a voz entrecortada de soluços, obtemperou:
— Nunca pensei que meus filhos pudessem ser tão ingratos assim para mim.
Averil deu um profundo suspiro.
Bárbara, que ainda estava soluçando histericamente num canto da sala, inopinadamente começou a gritar:
— Eu sei que papai vai morrer! Ele vai morrer, coitadinho... e então ficaremos sós neste mundo. Eu não posso mais suportar isso! É triste demais esse pensamento!
Averil suspirou outra vez e, com visível desagrado, deslocou seu olhar da irmã que soluçava freneticamente para a mãe que soluçava de maneira mais comedida e moderada. Depois disse:
— Bem... já que não há nada que eu possa fazer...
E retirou-se tranqüilamente. Assim era Averil.
Tratava-se de uma cena deveras pungente que Joan não rememorava desde muito tempo. E era bem compreensível sua atitude em procurar esquecê-la. O subitâneo choque emocional ocasionado pela doença do pai e o misterioso efeito produzido pela expressão colapso nervoso levaram os filhos a procurar uma espécie de derivativo culpando alguém por tudo o que acontecera. E para tanto fizeram da sua mãe um verdadeiro bode expiatório, pois ela era a pessoa que, no momento, se achava ali junto com eles. Mais tarde, Tony e Bárbara pediram desculpas a Joan. Averil achou que não tinha nada de que se desculpar e sem dúvida, consoante a sua maneira de ver, tinha razão. Falando a pura verdade, a pobre menina não era culpada de ter nascido com um coração empedernido.
Foi indiscutivelmente uma fase terrível e difícil para Joan aquela em que Rodney esteve doente. Os filhos andavam sempre emburrados e de mau humor. Tanto quanto possível, procuravam conservar-se afastados dela, circunstância esta que lhe dava a curiosa impressão de sentir-se solitária. Entretanto ela própria achava que tal impressão não passava do efeito da sua melancolia e tristeza.
Sabia que seus filhos a amavam ternamente. E era de levar em consideração, além do mais, que todos eles se encontravam numa idade difícil. Bárbara ainda freqüentava a escola. Tony passava a maior parte do seu tempo numa fazenda agrícola da redondeza, sempre aborrecendo a mãe com aquela idéia estúpida de dedicar-se à agricultura, naturalmente encorajado por Rodney.
— Oh, Santo Deus! — pensou Joan consigo mesma — como é desagradável quando a gente tem que tomar certas atitudes... Se existem tantas mocinhas distintas na casa da Srta. Harley por que será que Bárbara só procura fazer amizades com certos espécimes desprezíveis de moças? Devo esclarecer a ela, falando sem rodeios, que ela só poderá convidar para virem aqui em casa as meninas com as quais eu concordar que ela se junte.
Naturalmente vai haver um novo banzé, com choros e zangas. Averil certamente não me ajudará tomando uma atitude a meu favor e, além disso, eu odeio aquela sua maneira debochada e esquisita de falar. Isto soa muito mal para as pessoas de fora.
Oh, sim, criar filhos é uma tarefa ingrata! Ninguém realmente pode avaliar como é difícil esta tarefa. Que habilidade a gente tem que ter, conservando ao mesmo tempo o bom humor! Procurar saber exatamente quando se pode usar de rigidez e quando se pode afrouxar um pouquinho.
Ninguém realmente imagina quanto eu sofri durante todo o tempo em que Rodney esteve doente — refletiu Joan.
Nesse instante seu corpo experimentou uma ligeira contração: este pensamento evocou-lhe uma observação feita certa vez pelo Dr. Mc Queen, asseverando que, em qualquer roda de conversa, nunca falta uma pessoa que mais cedo ou mais tarde venha a dizer: “Ninguém pode imaginar quanto eu sofri naquele tempo”. Todo mundo teve que rir, concordando com ele.
— Bem — prosseguiu ela nos seus devaneios, enquanto torcia e retorcia, inquieta, as pontas dos dedos dos pés, pois a areia do deserto penetrara nos seus sapatos, incomodando-a —, é bem acertada a afirmação do Dr. Mc Queen. Ninguém sabe quanto eu sofri naquela época. Nem mesmo Rodney ficou sabendo, pois quando ele veio do hospital tudo em casa voltou à normalidade, para consolo e alívio da família. Os filhos tornaram-se de novo aquelas criaturas alegres e amáveis de sempre. Restabeleceu-se a harmonia no lar. Isso prova que o que realmente houve foi uma grande angústia. Só a angústia podia tê-la feito perder o equilíbrio emocional. Essa angústia fez com que seus filhos se tornassem nervosos e de mau humor.
Mas ela não podia de forma alguma atinar com a razão de estar recordando todas essas tristes ocorrências logo agora quando o que ela desejava de fato era evocar acontecimentos alegres.
Tudo começou — como foi mesmo que começou? — ah, sim, foi quando ela procurava verificar se ainda sabia recitar de cor as poesias que havia aprendido. Mas, pensando bem, nada pode ser mais ridículo do que imaginar-se alguém andando pelo deserto a declamar poesias! Pouca diferença faria declamar ou deixar de reclamar, pois não havia ninguém para ouvir.
Não se via vivalma. Ninguém. Mas ela prometera a si própria não se deixar tomar de pânico. Que bobagem ficar dominada pelo temor! Ela estava simplesmente um pouco nervosa. Virou-se rapidamente e começou a percorrer o caminho de volta para a casa de pernoite.
Então percebeu que estava fazendo um enorme esforço para não desandar a correr.
Nada havia que temer pelo fato de estar sozinha. Absolutamente nada. Talvez ela fosse uma pessoa que sofresse de... Bem, como é mesmo o termo apropriado? Não é claustrofobia, pois esta palavra significa o terror de ficar num compartimento bem fechado. Tem que ser uma palavra precisamente com o sentido oposto a claustrofobia. Esta palavra começa com a letra A e significa o horror ao espaço aberto.
Trata-se de um caso que pode ser explicado cientificamente.
Todavia uma explicação científica, embora pudesse confirmar o acerto da sua suposição, de nada adiantaria no momento.
É muito fácil dizer a si própria que tudo o que acontece é perfeitamente lógico e racional, mas notem bem que não é lá muito fácil controlar toda essa miuçalha de pensamentos fragmentados que entra e sai da cabeça como um lagarto entra na toca e torna a sair.
Myrna Randolph, semelhante a uma cobra, e os seus pensamentos semelhantes aos lagartos. Joan tinha cada idéia!
Espaços abertos... Ora, toda a sua vida até a época presente ela passou, pode-se dizer, dentro de uma caixa. Sim, uma caixa com crianças de brinquedo, com um marido de brinquedo e com criados de brinquedo.
Não, Joan! Que é que você está dizendo? Como é que você pode ser tão boba assim? Seus filhos são reais.
As crianças eram reais. Também Cook e Agnes. Da mesma forma Rodney.
— Mas será que eu existo realmente? — pensou ela. — Quem sabe se eu não sou uma esposa e mãe de brinquedo?
Oh, Santo Deus! Esta idéia é horrível. E muito incoerente. Talvez fosse melhor recitar mais algumas poesias. O fato é que ela não podia deixar de estar pensando nalguma coisa.
E subitamente, com um entusiasmo fora do comum, exclamou:
— Longe de você, eu estive ausente na primavera.
No momento ela não conseguiu lembrar-se do resto nem forçou muito a memória para tanto. Este verso já era bem expressivo por si só. Já servia para explicar tudo, não é verdade? Rodney... Rodney... Longe de você eu estive ausente na primavera! A única coisa destoante — refletiu ela — e que não é primavera. É novembro.
E como se tivesse sentido uma espécie de abalo, exclamou:
— Mas foi exatamente este verso que ele recitou... naquela tarde...
Devia haver uma certa conexão nessas palavras... Uma ligação qualquer que sem dúvida lhe forneceria uma pista para descobrir algo que ela procurava saber a todo transe e que ficara imerso num profundo silêncio.
E só podia ser algo de que ela desejava fugir.
Mas como pode uma pessoa fugir dos lagartos que, por toda parte, estão se precipitando para fora das suas tocas?
A gente não deve ficar pensando tantas coisas assim. Bárbara, Bagdá e Blanche. (Tudo começando pela letra B. Interessante!) E Rodney e a plataforma da estação Vitória. E Averil, Tony e Bárbara, todos indelicados para com ela.
De fato, Joan estava se exasperando. Por que é que ela não pensava só em coisas agradáveis? Existem tantos acontecimentos cuja evocação causa um enorme prazer. Tantos fatos alegres para lembrar!... Por exemplo, o seu vestido de noiva, com aquela linda tonalidade de concha de ostra...
E Averil no seu bercinho guarnecido com musselina cor-de-rosa e ornado com bandas contendo cravos desenhados. Ela era um lindo bebê. Sempre tão comportada! Averil sempre foi uma criança polida e de boas maneiras.
— Seu bebê é bonitinho e a senhora o educa tão bem, Sra. Scudamore.
Sim, Averil foi uma criatura que nunca deu trabalho. Pelo menos perante pessoas estranhas.
Em casa ela não parava de discutir e fitava a mãe de maneira desconcertante, como se quisesse saber como era realmente o íntimo de Joan.
Esta não era, em todo caso, a maneira apropriada de uma criança agir com relação à sua mãe. Contudo, ela se mostrava, também, uma criatura amável.
Tony também lhe dava sempre muita atenção perante as pessoas estranhas, embora em casa sempre fosse distraído e até mesmo displicente em certas circunstâncias. Bárbara foi a. única que trouxe uma certa dificuldade para a família por causa dos seus acessos de cólera e das suas choradeiras.
Falando de um modo geral, suas crianças sempre foram amáveis, dotadas de boas maneiras e bem educadas.
Pena é que os filhos, depois de crescidos, sempre ocasionam certos dissabores aos pais. Mas ela agora não iria refletir sobre este aspecto. Melhor seria evocar a infância deles. Averil freqüentando a escola de balé, com seu encantador vestidinho cor-de-rosa. Bárbara com o seu gracioso vestidinho trabalhado em ponto de malha, comprado na loja Liberty. Tony trajando a sua roupinha infantil, caprichosamente modelada por Nannie...
Certamente ela devia pensar em qualquer outra coisa, fosse lá o que fosse, mas não nas roupinhas que as suas crianças usavam. Pensar, por exemplo, no que seus filhinhos lhe diziam, com palavras cheias de afeto...
Não seria oportuno rememorar alguns dos agradáveis momentos na intimidade? Considerar o sacrifício feito para. o bem dos filhos?
Eis aí outro lagarto saindo da toca!
Averil, certo dia, polidamente e com ares de quem já raciocina como gente grande, fez uma daquelas suas perguntas que quase sempre perturbavam Joan:
— O que é que realmente a senhora faz por nós, mamã? Não é a senhora que nos dá banho, não é verdade?
— Não...
— E não é a senhora que nos dá as refeições nem penteia os nossos cabelinhos. É Nannie que faz tudo isso. É ela que nos leva para a cama e nos desperta de manhã cedo. Também não é a senhora que costura os nossos vestidos. É Nannie. E é ela quem sempre nos leva a passear...
— Sim, queridinha, eu empreguei Nannie para cuidar de vocês. Isto significa que eu pago para ela um bom ordenado.
— Eu pensei que fosse o papai quem pagava o ordenado dela. Não é o papai que faz todos os pagamentos aqui em casa?
— De certo modo é ele, queridinha. Mas é tudo a mesma coisa.
— Mas não é a senhora que vai para o escritório todas as manhãs. É só o papai. Por que é que a senhora também não vai trabalhar no escritório?
— Porque eu cuido da casa.
— Mas Kate, Cook, e...
— Basta, Averil!
Quando se dava uma ordem a Averil ela obedecia imediatamente. Nunca retrucava. Este seu espírito de submissão talvez lhe ocasionasse muitas vezes mais intranqüilidades do que um ato de rebeldia.
Rodney, rindo, certa vez disse que para Averil o veredicto era sempre: faltam provas.
— Eu não acho que isto seja motivo para rir, Rodney. Não me parece normal que uma criança da idade de Averil deva possuir um senso crítico tão desenvolvido assim.
— Então você acha que ela é muito criança ainda para ter a noção da evidência?
— Não. Mas sinceramente acho que é uma falta de respeito.
— Eu tenho Averil na conta de uma criança excessivamente delicada e gentil para a sua idade. Não existe nela nada daquela habitual candura e franqueza agressiva das crianças. Ela não é nenhuma bobinha.
Joan teve que admitir que isto era verdade. Bárbara num dos seus momentos de exasperação berrou:
— Como a senhora é repulsiva! A senhora é horrível! Eu a odeio! Eu preferia estar morta. A senhora teria que sentir muito se eu morresse!
Joan ponderou ao marido:
— Com as crianças a gente sempre deve se conter. Elas, depois que fazem as suas diabruras, logo se arrependem.
— É... Os pobres diabinhos na maioria das vezes não sabem o que dizem. Mas Averil sempre teve um faro instintivo para descobrir os embustes.
Joan, um tanto agastada com tais palavras, ficou com a face enrubescida.
— Embuste?! Não compreendo o que você quer dizer.
— Oh, procure entender-me, Joan. Estou me referindo a essa coisa da qual nós nos enfartamos tanto a ponto de deixá-los enfastiados e aborrecidos: a nossa pretensão de saber tudo, a nossa onisciência, a nossa constante preocupação de querer mostrar a essas pobres criaturinhas indefesas que se encontram sob o nosso poder absoluto, que só nós sabemos o que mais lhes convém.
— Você está dizendo isso como se eles fossem escravos e não nossos filhos.
— E por acaso eles não são escravos? Os coitadinhos comem a espécie de comida que lhes damos, vestem as roupas que queremos e dizem sempre mais ou menos o que mandamos que eles digam. Este é o elevado preço que eles pagam pela proteção que recebem. Mas cada dia que passa, mais eles se aproximam da sua liberdade.
— Liberdade! — exclamou Joan com escarninho. — Mas existe mesmo essa coisa?
Rodney respondeu devagarinho, como que pesando as próprias palavras:
— Não, não creio que ela exista. Você tem razão, Joan... Então a passos lentos ele saiu da sala, com os ombros um pouco vergados. Subitamente ela passou a sentir uma espécie de angústia a atormentar-lhe o espírito: — Eu sei como será o aspecto de Rodney quando ele ficar velho...
Rodney na plataforma da estação Vitória... mostrando, sob a intensa claridade da luz do sol as rugas na face cansada... dizendo a ela que se cuidasse na viagem.
E ele, um minuto depois...
Mas, Santo Deus, por que teria ela que repisar eternamente esse mesmo assunto? Esta sua idéia não tinha nenhum fundamento. Rodney, no momento, devia estar sentindo uma grande falta dela. Como ele se afligia sozinho em casa com os criados!
E, sem dúvida, não se aventuraria a convidar alguém para jantar lá em casa, nem mesmo Hargrave Taylor, aquele indivíduo estúpido. Ela nunca pôde atinar por que motivo Rodney gostava de um sujeito tão bobo assim. Também não convidaria um tipo tão cansativo como o major Mills, que não sabe outra coisa senão falar sobre pastagens e criação de gado.
Rodney, não havia dúvida, estava sentindo falta dela!