A Ausência

Agatha Christie · Capítulo 13 de 13

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A Ausência

Rodney Scudamore permanecia sentado na sua velha…

Epílogo

 

Rodney Scudamore permanecia sentado na sua velha cadeira de espaldar enquanto sua esposa preparava o chá e, sem parar de fazer tinido com as colherinhas e as xícaras, conversava animadamente como uma pessoa gárrula, manifestando a sua alegria por se encontrar novamente no seio do lar e por ter verificado que tudo permanecia o mesmo. Afirmava ela que Rodney não podia absolutamente imaginar a sua enorme satisfação por estar de volta à Inglaterra, revendo Crayminster e a sua própria casa, para ela o ambiente mais sagrado.

Na vidraça, uma grande mosca varejeira, surpreendida pelo inesperado calor que já se manifestava nos primeiros dias de novembro, zumbia com força enquanto se deslocava para cima e para baixo sobre o vidro.

Zizzz — zizzz — zizzz — fazia a mosca.

Tilim — tilim — tilim — era como se poderia dizer — embora com desvirtuamento onomatopaico — que Joan fazia na sua animada conversa.

Rodney, sorrindo continuamente, só meneava a cabeça, como que para demonstrar que estava compreendendo perfeitamente tudo o que a mulher lhe contava.

Ela só quer fazer sensacionalismo — pensou ele. — Sensacionalismo e mais nada.

Sensacionalismo e barulho que para alguns poderia significar algo, ao passo que para outros não tem absolutamente significação alguma.

Só então ele chegou à conclusão de que se enganara redondamente ao supor, logo após o seu primeiro contato com Joan, que algo nela não estivesse regulando bem. Nada havia de irregular nela. Ela continuava sendo a mesma de sempre. Tudo nela permanecia imutável.

Terminado o chá, Joan se dirigiu ao andar superior a fim de desfazer a mala e Rodney, passando pelo saguão, foi até a sua sala de trabalho a fim de adiantar serviços que ele havia trazido do escritório.

A primeira coisa que ele fez foi abrir a gaveta do lado direito da escrivaninha e pegar uma carta de Bárbara, chegada por via aérea, que lhe fora endereçada de Bagdá, uns poucos dias antes da partida de Joan.

Tratava-se de uma carta bem extensa, com letra miudinha. Ele já a sabia quase toda de cor. Contudo leu-a mais uma vez de fio a pavio, detendo-se um pouco no seguinte tópico que figurava na última página:

“...E com esta minha explanação o senhor já fica

sabendo de tudo, papaizinho querido. Ouso dizer até que o senhor já havia adivinhado grande parte do que lhe estou relatando. Só agora é que me dou conta de ter praticado um ato criminoso, como uma verdadeira louquinha. E não se esqueça de que mamã não ficou sabendo de nada. Não foi muito fácil ocultar-lhe o que aconteceu mas o Dr. McQueen conseguiu dissimular tudo com muita habilidade, sempre caçoando e brincando. William também foi maravilhoso. Sinceramente, não sei o que faria sem ele. Permanecia continuamente ao meu lado, sempre pronto para afastar mamã quando a minha reação se tornava difícil contra as suas investidas. Cheguei quase a ficar desesperada quando ela telegrafou que estava de saída para cá. Eu acho que o senhor deve ter feito o possível para impedir a viagem dela, queridinho, mas ela certamente não quis concordar de forma alguma em desistir da idéia. Devo admitir que em certo sentido foi uma bondade da parte dela; só que, como se pode imaginar, ela atrapalhou um pouco a nossa vida, deixando-nos numa situação exasperadora, e eu me sentia muito fraca para reagir. Só agora, querido papaizinho, estou começando a sentir que Mopsy se tornou minha novamente. Ela é um encanto, uma doçura. Como eu gostaria que o senhor a visse!

O senhor gostava de nós quando éramos bebês ou só começou a gostar mais tarde?

Querido papaizinho, sinto-me imensamente feliz por tê-

lo como meu pai. Não se aflija por minha causa. Agora já estou bem.

A sua Babs, que tanto o ama”.

Segurando a carta, Rodney ainda hesitou em destruí-la durante alguns segundos. Esta carta para ele tinha uma grande significação: era uma prova escrita da confiança que sua filha depositava nele.

Entretanto, a longa experiência no exercício da profissão lhe demonstrara por diversas vezes o risco que se pode correr guardando certas cartas. Se ele viesse a morrer dentro de pouco tempo, Joan, ao fazer a arrumação dos seus papéis, forçosamente a encontraria e sofreria um grande tormento sem necessidade.

Que vantagem havia em ocasionar-lhe tormentos? Que ela continuasse se julgando bafejada pelo sopro de felicidade no mundo imaginário que criara para si própria, respirando sempre aquela atmosfera de confiança sem nunca suspeitar de nada...

Então ele atravessou a sala e foi atirar a carta de Bárbara na lareira.

Sim — refletiu —, Bárbara está bem agora. Ela e Bill se acertarão de novo e tudo correrá às mil maravilhas. Era precisamente Bárbara a criatura que lhe dava as maiores preocupações por causa do seu temperamento continuamente propenso a sofrer profundos desequilíbrios emocionais.

Bem... a crise veio e ela escapou, senão totalmente ilesa pelo menos salva e com toda a possibilidade de recuperação. Bom sintoma era a sua expressa declaração de estar começando a compreender que só Mopsy e Bill constituem o seu mundo verdadeiro. E Bill Wray é realmente um ótimo marido. Rodney esperava que ele não houvesse sentido muito com o caso.

Sim, não restava mais dúvida alguma, Bárbara já devia estar passando bem. E Tony vivia bem satisfeito com as suas plantações de laranja na Rodésia. Ele se encontrava bem longe mas a sua situação era boa. E a sua jovem esposa parecia ser o tipo de mulher perfeitamente talhada para ele.

Era de supor que Tony nunca tivera grandes aflições... pois ele era dotado de boa disposição de espírito, conservando sempre a alegria e jovialidade.

Averil igualmente estava muito bem. Ao pensar em Averil apossava-se dele um sentimento de orgulho e não de comiseração. Averil, que se poderia dizer dotada da rígida mentalidade de um juiz, sempre amoldada a encarar com frieza as situações e avessa a admitir a atenuação da verdade dos fatos. Averil, com aquela sua voz calma e sarcástica. Averil, sempre inabalável como uma rocha, sempre tão impenetrável... e tão estranhamente diferente do nome que lhe foi posto.

E dizer que ele já brigou com Averil! Brigou e venceu-a empregando exclusivamente as armas que a sua mente soberba e altiva reconhecia como fortes e ponderáveis... Armas que ele próprio, Rodney, achava muito desagradável empunhar: argumentos frios, argumentos lógicos, argumentos que excluíam todo e qualquer sentimento de compaixão.

Será que ela já esqueceu essa briga?

Ele achava que não. Se ele destruiu o profundo amor que ela lhe devotava, em compensação conseguiu conservar o respeito dela em grau muito mais elevado.

Afinal, de contas — refletiu ele —, para uma mentalidade como a de Averil, imbuída do senso de retidão, a única coisa que vale mesmo é o respeito.

Ele se lembrava muito bem de que, na véspera do casamento dela, ele tentou transpor o abismo que já o separava da sua filha tão amada e disse-lhe:

— Desejo ardentemente que você seja feliz.

Ela respondeu-lhe com toda calma, sem fazer a mínima encenação:

— Tentarei ser feliz.

Assim era Averil: nada de manifestações de heroísmo, nada de apego ao passado, nada de sentimento de autocompaixão. Manifestava-se nela a bem orientada disposição de espírito para aceitar a vida tal qual ela é e para viver sem a ajuda de ninguém.

Rodney pensou: agora os filhos já não mais estão sob os meus cuidados... nenhum deles...

Então, apanhou os papéis que estavam sobre a escrivaninha e foi sentar-se numa cadeira ao lado da lareira. Pegou, em primeiro lugar, o contrato de arrendamento de Massingham e, dando um suspiro, começou a lê-lo:

— “...o proprietário locador entrega e o arrendatário se

apossa das construções e edificações, bem como das herdades existentes nas terras localizadas em...”

Ele virou a página do processo e prosseguiu:

— “...não efetuar mais de duas colheitas sucessivas de

cereais, em qualquer parte do terreno arável sem efetuar o pousio do verão, para efeito de recuperação do solo (admitindo-se que uma plantação de nabos e colzas em terra bem limpa e adubada, com ovelhas na pastagem, se equipara a um pousio) e...”

Apoiou a mão com os documentos sobre as pernas e lançou o olhar para a cadeira que estava vazia no outro lado. Era exatamente a cadeira em que Leslie se sentara quando discutiram a inconveniência de seus filhos permanecerem no convívio de Sherston. Ela devia — ponderou ele — considerar os males que poderiam resultar em detrimento dos meninos...

Ela respondeu que já havia considerado muito bem a situação dos seus filhinhos... Afinal de contas, Sherston era o pai deles.

Rodney, então, passou a fazer ponderações encarando diversos outros aspectos: — Um pai que esteve na cadeia — um ex-sentenciado — a opinião pública — ostracismo — exclusão do meio social — embaraços e dificuldades de toda espécie.

Ela deveria pensar em tudo isso. As crianças nunca devem perceber que possa haver algum negrume toldando a sua radiante juventude. Elas devem começar a vida cheias de alegria.

Ela retrucou-lhe:

— É exatamente isso o que eu quero. Ele é o pai deles. Tanto pertence ele aos meninos como os meninos pertencem a ele. Bem que eu gostaria, é claro, de que meus filhos tivessem um outro tipo de pai... Mas a realidade é outra. Eu lhe pergunto: Que espécie de começo de vida poderiam ter eles se, desde o início, se vêem compelidos a fugir da própria realidade?

Bem... é claro que ele tinha que respeitar as suas idéias, o seu modo de encarar a situação. Entretanto ele, pessoalmente, não pensava da mesma forma. Na verdade, como pai, sempre desejou para seus filhos o que havia de melhor. Ele e Joan sempre estiveram de acordo neste particular. Seus filhos sempre tiveram os melhores colégios, os quartos mais arejados e mais claros dentro de casa — e ambos sempre procuraram fazer alguma economia a fim de poderem propiciar aos filhos um relativo conforto. Mas deve-se dizer também que Rodney nunca teve qualquer problema de ordem moral em família. Felizmente nunca surgiram desentendimentos profundos capazes de obumbrar-lhes as mentes, nem grandes desgraças, nem falhas de grande monta. Nunca a sua família viveu uma terrível situação de angústia e de desespero em que fosse preciso optar por uma das seguintes alternativas: — Devemos proteger nossos filhos, afastando-os desses males? Ou devemos permitir que eles compartilhem da situação?

Ele compreendeu que outra coisa não podia ser feita em benefício dos meninos senão que eles se submetessem às determinações de Leslie, já que era impossível convencê-la para que modificasse a sua idéia. Ela. embora amasse profundamente os filhos, achava que não podia absolutamente evitar de fazer com que aqueles pequeninos seres também carregassem nas costas uma parte das responsabilidades. E procedia assim não por egoísmo nem com a finalidade de aliviar a sua própria carga, mas sim porque tinha em mira não querer ocultar-lhes nem sequer a mínima parte da realidade da vida, por mais dolorosa que fosse.

Rodney, pessoalmente, achou que Leslie adotara um critério errado. Entretanto, nunca deixou de admitir que ela era uma mulher corajosa, sempre pronta a sacrificar-se pelas pessoas que amava.

Ele se lembrou, então, de que Joan lhe dissera numa certa tarde de outono, exatamente no momento em que ele saía para o escritório:

— Coragem? Mas coragem não é tudo na vida. E ele perguntou-lhe:

— Você acha que coragem não é tudo?

Parecia-lhe, agora, estar contemplando Leslie sentada naquela cadeira... a sua sobrancelha esquerda levantando-se um pouco enquanto a direita descia... aquela torção no cantinho direito da boca... a sua cabeça apoiada na já desbotada almofada azul que, por efeito de contraste, fazia os seus cabelos adquirirem uma tonalidade mais ou menos esverdeada...

Ele se lembrava perfeitamente de, um tanto surpreso, ter-lhe dito:

— Seus cabelos não são castanhos: são verdes.

Foi a única frase alusiva a qualidades físicas que ele proferiu durante todo o tempo em que lidou com Leslie desde que a conhecera.

Na realidade, nunca ficara sabendo exatamente com que se pareciam os cabelos dela.

Ele bem sabia que ela andava muito abatida e doente — e, mesmo assim, continuava sendo forte — sim, fisicamente forte. O próprio Rodney tinha até a absurda impressão de que Leslie poderia levantar um saco cheio de batatas e colocá-lo nos ombros como qualquer homem robusto.

Por índole, ela não era romântica. Falando a pura verdade, ele não se lembrava de nada de romântico na figura de Leslie. O ombro direito mais alto do que o esquerdo, a sobrancelha esquerda levantada enquanto a direita permanecia abaixada, aquele pequeno traço oblíquio que se formava no canto da boca quando ela sorria, aqueles seus cabelos castanhos que se tornavam verdes quando postos em contraste com uma desbotada almofada azul...

Não havia nela muita coisa capaz de incitar o amor.

Mas, afinal, o que é o amor? Em nome do céu, digam-me, o que é o amor?

A paz íntima e a satisfação que ele sentia ao contemplá-la sentada naquela cadeira, com seus cabelos adquirindo a tonalidade esverdeada por efeito do contraste com a cor azul da almofada desbotada. . .

Não seria esta atitude de Rodney o indício de um amor incipiente?

E com que prazer ele lembrava a confidência que ela inopinadamente — assim sem mais nem menos — lhe fizera:

— O senhor sabe... eu estive pensando muito em Copérnico.

Em Copérnico? Mas por que, céus, em Copérnico? Um frade com uma idéia — uma visão do Universo configurada num modelo diferente — que foi bastante ladino e hábil para transigir com os poderosos da época que mandavam no mundo, escrevendo as suas concepções de maneira tal que elas pudessem ser aprovadas e aceitas.

Por que será que Leslie, que tinha o marido na cadeia, que precisava trabalhar para manter a família, que andava assoberbada de preocupações com os filhos, lhe dissera isso, expressando-se com a maior naturalidade deste mundo enquanto alisava os cabelos?

...Eu estive pensando muito em Copérnico...

Desde então, cada vez que Rodney ouvia a menção do nome de Copérnico seu coração chegava a parar de comoção. Chegou até a pendurar na parede da sua sala de trabalho uma gravura antiga com a efígie de Copérnico, só para poder exclamar, dirigindo-se à figura do frade: Leslie!

E quantas vezes, como que recriminando-se, ele não pensava consigo mesmo: — Eu devia, pelo menos, ter-lhe dito que a amava... Bem que eu poderia ter-lhe declarado isso... naquela vez...

Mas havia mesmo necessidade de fazer essa declaração? Naquela vez... naquele dia, lá em Asheldown, ambos sentados apanhando o sol de outubro... Ele e ela juntos e ao mesmo tempo separados... com quatro pés de distância entre ambos... Quatro pés porque, para uma perfeita segurança, esta distância não podia ser menor... Ela compreendeu muito bem isso... Ou, pelo menos, devia ter compreendido.

Com a sua mente um tanto atrapalhada, Rodney ficou matutando naquele instante: — Eis aqui um espaço entre nós... um espaço que muito bem pode ser comparado a um potente campo elétrico, com uma tremenda carga de desejos.. .

Eles não se olhavam. Ele observava lá embaixo a terra arroxeada das lavouras, revolvida pelos tratores cujos ruídos chegavam aos seus ouvidos quase imperceptíveis. E Leslie, como que absorta, contemplava as árvores que se achavam na região Campestre lá do outro lado.

Eles permaneciam ali tal qual duas criaturas inebriadas com a visão da terra prometida onde jamais poderiam penetrar.

Eu devia ter-lhe dito que a amava!

Mas durante todo o tempo em que estiveram ali sentados nenhum deles proferiu uma palavra sequer — exceto num único momento em que Leslie murmurou:

E teu eterno verão jamais terminará.

Só isso. Um verso banal de alguma estrofe qualquer. Talvez ele nem tivesse compreendido o que ela quis exprimir recitando esse verso.

Não! É mais provável que ele tenha compreendido perfeitamente a sua significação.

A almofada da cadeira havia-se desbotado completamente... E a face de Leslie? Ele já não mais conseguia lembrar com clareza a face dela... Apenas permanecia na sua mente a recordação daquele traço esquisito que se formava no cantinho da sua boca.

E, apesar do vulto de Leslie ter como que se desvanecido da sua lembrança, ela, no decurso destas últimas seis semanas, vinha diariamente sentar-se ali naquela cadeira e conversava com ele. Só na sua fantasiosa imaginação, evidentemente. Ele criara uma pseudo Leslie para sentar-se naquela cadeira e colocava palavras na sua boca. Ele a fazia dizer exclusivamente aquilo que queria que ela dissesse. E ela era muito obediente

... Só que os sorrisos que afloravam na sua boca torcida para cima demonstravam que ela estava sempre escarnecendo pelo que ele fazia com ela.

Foram seis semanas repletas de felicidade — pensou ele.

Tivera a oportunidade de visitar Wartkins e Mills além de ter passado uma tarde maravilhosa com Hargrave Taylor — exatamente os poucos amigos que tinha. Como foi linda naquela tarde de domingo a caminhada passando pelas encostas das colinas! Os criados lhe serviam boas refeições e ele comia sempre vagarosamente, como era do seu gosto, sentado à mesa com um livro na frente, apoiado na garrafa de água mineral. Depois do almoço geralmente concluía algum serviço trazido para casa, dava umas tragadas no cachimbo e, finalmente, se se sentisse solitário, colocava a imaginária Leslie sentada naquela cadeira para fazer-lhe companhia.

Tratava-se, agora, de uma Leslie imaginária, sim... Não se podia dizer o contrário... Entretanto, será que já não houve uma Leslie real nalgum lugar não muito distante daqui?

E teu eterno verão nunca terminará.

Depois de todos esses devaneios, ele prossegue a leitura do contrato de arrendamento:

“...e se compromete a cultivar as ditas terras com a estrita

observância dos métodos e processos agrícolas considerados mais

eficientes, fazendo boa administração...”

Cheio de admiração ele refletiu: — Realmente sou um bom advogado.

E, depois, sem muita admiração (e até mesmo sem nenhum interesse), acrescentou: — Progredi bastante.

A agricultura — pensou ele — é um negócio difícil...

Meu Deus! Como estou cansado! Fazia já um bom tempinho que eu não sentia um cansaço desses.

A porta se abriu e Joan entrou.

— Oh, Rodney, você não pode ler bem sem acender a luz.

E, sempre desembaraçada e ativa, foi ela mesma ligar o interruptor que se encontrava atrás dele.

Depois, com uma voz repassada de afeto, disse-lhe ela:

— Não sei o que você faria sem mim.

— Eu adquiriria toda espécie de maus hábitos.

O sorriso dele, como sempre, era apoquentador mas amável.

— Você ainda se lembra, Rodney, daquela vez em que você, inopinadamente, tomou a decisão de rejeitar a proposta do seu tio Henry só porque queria dedicar-se à agricultura e à criação de gado?

— Sim, lembro-me.

— Você não ficaria contente se eu permitisse isso agora? Ele fitou-a admirando sua vivacidade, a postura elegante do seu pescoço e a face, jovial e lisa, quase que completamente sem rugas.

Ele respondeu-lhe calmamente:

— Sim, eu gostaria.

— Nós, às vezes, temos certas idéias que não são nada práticas.

— Até mesmo você tem idéias desse tipo?

Ele fez esta pergunta num tom de voz apoquentador e observava admirado a carranca que ela fez. Uma certa expressão indefinível deslizou pelo semblante de Joan tal qual uma leve ondulação sobre a superfície calma da água.

— Às vezes a gente fica atacada dos nervos... A gente fica num estado mórbido — prosseguiu ela.

Com esta frase que ela proferiu ele ficou mais admirado ainda. Jamais poderia imaginar Joan nervosa ou mórbida. Mudando de assunto ele disse:

— Você não imagina como eu a invejo por ter feito essa viagem ao Oriente Próximo.

— Sim, foi uma viagem muito interessante. Mas eu não gostaria de morar numa cidade como Bagdá.

Rodney, pensativo, obtemperou:

— Eu gostaria de ver como o deserto é. Deve ser maravilhoso: solidão e luz intensa. É a idéia da luz que me fascina... Ver tudo com clareza...

Joan interrompeu-o retrucando-lhe com veemência:

— É horrível... É abominável... Não se percebe outra coisa senão a enfadonha aridez do nada...

Revelando um certo nervosismo, ela lançou seus olhos pela sala.

Tal qual um animal que quer fugir — pensou Rodney.

De um momento para o outro o semblante dela pareceu ter-se iluminado.

— Essa pavorosa almofada está muito velha e desbotada. Tenho que comprar outra nova para aquela cadeira.

Instintivamente, com um gesto impulsivo ele iniciou um movimento mas se conteve logo.

Afinal de contas por que não? A almofada estava desbotada mesmo. A verdadeira Leslie Adeline Sherston encontrava-se debaixo de uma lousa de mármore, no cemitério paroquial. A firma Alderman, Scudamore e Witney estava pretendendo dissolver-se, Hoddesdon tentava levantar uma outra hipoteca.

Joan não parava de se movimentar na sala: experimentou um limpador de pó, colocou um livro na estante, ajeitou os enfeites sobre a cornija da lareira. Na verdade, nessas seis semanas em que ela esteve ausente, a sala ficou desalinhada, num completo desleixo.

Rodney, como que maquinalmente, exclamou:

— As férias terminaram!

— O quê? — ela virou-se bruscamente para ele. — O que foi que você disse?

Com a maior candura deste mundo ele pergunta:

— Mas eu falei alguma coisa?

— Pareceu-me ter ouvido você dizer: As férias terminaram! Eu acho que você cochilou e sonhou que era época das crianças voltarem para a escola...

— Sim, eu devo ter cochilado um pouco.

Ela levantou-se e encarou-o com um ar de dúvida. Depois passou a arrumar o retrato pendurado na parede.

— Que é isso? Esse quadro foi colocado há pouco aqui, não é verdade?

— Sim, eu o adquiri no leilão do Hartley.

Joan, contemplando o quadro com certa dúvida, exclamou:

— Oh, Copérnico?! É de valor?

— Não faço a mínima idéia — respondeu Rodney. Depois de alguns segundos, pensativo, repetiu a mesma frase:

— Não faço a mínima idéia.

O que é que tem valor e o que é que não tem? Terá algum valor algo que se guarda como lembrança?

Você sabe... eu estive pensando muito em Copérnico.

Leslie com um marido que havia sido condenado como trapaceiro... Embriaguez, pobreza, doença, morte...

Pobre Sra. Sherston! Que vida triste ela teve!

Entretanto, Rodney não achava que Leslie fosse triste. Ela avançava num caminho cheio de desilusões, de pobreza e de doenças tal qual um viandante atravessa um pantanoso brejo caminhando sobre o barro e ladeando rios, sempre animado e ansioso por atingir a sua meta final.

Pensativo, ele fitou a sua mulher com seus olhos cansados mas sempre ternos. Como tinha ela um aspecto imponente! Continuava, sempre operosa e dinâmica. Sempre satisfeita com os seus progressos. Não aparentava ter mais de vinte e oito anos.

E subitamente quase o arrebatou uma impetuosa onda de compaixão para com a sua mulher...

— Pobre pequena Joan! — exclamou ele sob o impacto desse forte sentimento que o invadiu.

Ela encarou-o fixamente dizendo:

— Por que pobre? E eu não sou pequena.

Ele, então, com o seu habitual tom de voz apoquentador, respondeu-lhe:

— Aqui estou eu, minha pequena boneca. Se ninguém permaneceu comigo eu ficarei só.

Ela então aproximou-se dele rapidamente, dizendo-lhe quase ofegante:

— Eu não estou sozinha... Não estou sozinha... Eu tenho você.

— Sim. Você me tem...

Mas bem que ele sabia que não estava falando a verdade. Lá com os seus botões pensava:

Você está sozinha... e sozinha permanecerá sempre... Mas praza a Deus que nunca fique sabendo disso.

 

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