A Ausência

Agatha Christie · Capítulo 6 de 13

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A Ausência

Seis

 

Ela entrou na casa de pernoite. O hindu, aparecendo na sala, perguntou-lhe:

— Memsahib fez bonito passeio?

Joan respondeu-lhe que o passeio fora maravilhoso.

— Jantar fica pronto cedo. Jantar muito bom, Memsahib.

Joan respondeu-lhe que ficava muito satisfeita com isso. Mas

bem que ela sabia que tais palavras já constituíam uma verdadeira fórmula de ritual, pois as refeições constavam sempre exatamente das mesmas coisas. A única variação era que às vezes serviam pêssegos em lugar de damascos. Podia ser um ótimo jantar, só que a espécie de comida nunca variava.

Era ainda muito cedo para ir para a cama quando Joan acabou de jantar. Ah, que bom seria se ela tivesse trazido junto alguns livros para ler ou alguma costura para fazer! Até mesmo tentou reler os trechos mais interessantes de Lady Catherine Dysart’s Memoirs mas esta tentativa falhou.

Se pelo menos ela tivesse algo com que pudesse se ocupar definitivamente... Até mesmo um baralho de cartas serviria. Ou qualquer outro tipo de jogo — gamão, xadrez, damas... Ela poderia jogar contra si mesma. Não importaria que espécie de jogo fosse.

Realmente, durante essa caminhada sua imaginação criou tantas fantasias... Verdadeiros lagartos saindo das tocas... Pensamentos esquisitos saindo da sua mente... Idéias importunas e assustadoras que ela procurava afugentar.

Mas se tais idéias são assim por que será que elas surgiram na sua mente? Qualquer pessoa pode perfeitamente controlar os seus pensamentos. Ou será que não? É bem possível que em determinadas circunstâncias são os pensamentos que dominam as pessoas, saindo da mente como os lagartos saem das suas tocas ou passando através dela com o movimento serpenteante das cobras e com a rapidez de um fugaz lampejo. Pensamentos que nem sempre surgem sem alguma razão plau-sível...

Ora, mas que esquisita e boba sensação de pânico ela teve! Ela deve ter sentido agorafobia (esta é que é a palavra exata — agorafobia). Uma criatura que fica pensando em tantas coisas forçosamente, às vezes, tem que se esquecer de alguma palavra. Mas era esta mesmo a palavra procurada. O horror de ficar nos espaços abertos. O engraçado era que antes ela nunca havia pensado que pudesse sofrer de agorafobia. Mas deve-se dizer também que até então ela nunca fizera nenhuma experiência neste particular, procurando permanecer em espaços abertos para verificar a sua reação. Ela sempre vivera entre casas e jardins, no meio de muita gente, sempre tendo muito trabalho para entreter-se... No meio de muita gente... isto é que era importante!

Se pelo menos ela tivesse aqui alguma pessoa com a qual pudesse conversar...

Podia ser até mesmo Blanche...

Foi até bem ridículo o temor que ela sentiu ao supor que Blanche pudesse viajar em sua companhia.

O fato é que se Blanche, agora, estivesse ali com ela, tudo seria diferente. Elas poderiam rememorar, juntas, os velhos tempos quando freqüentavam o Colégio St. Anne. Como lhe parecia tão distante essa época! Que foi mesmo que Blanche lhe disse? — “Você progrediu na vida e eu decaí.” Não. Não foi bem isso. Joan procurou depois retificar essa frase. Blanche parece ter-se expressado assim: — “Você continua sendo sempre o que era: uma aluna do St. Anne. Uma aluna que constituía um padrão de glória para aquele colégio”.

Mas será mesmo que ela mudara tão pouco desde aquela longínqua época? Seria até bem agradável supor que assim fosse... isto é, agradável em certo sentido porque, encarada sob um outro ângulo, esta frase lhe sugeria a idéia de inércia, de estagnação...

Que foi que disse a Srta. Gilbey no momento da despedida? As palavras de despedida da Srta. Gilbey às suas alunas sempre tiveram grande fama no Colégio St. Anne.

Nesse instante a mente de Joan abalançou-se à contemplação retrospectiva daqueles longínquos dias... e, de repente, ela vê surgir, como que enfocado no seu campo visual com surpreendente nitidez, o vulto da antiga diretora do colégio, com seu nariz de bom tamanho sobre o qual se acavalava o seu indefectível pince-nez. Ela teve a impressão de estar observando a velha mestra, com seus olhos sempre arregalados e inexoráveis, a percorrer todas as salas do colégio, conservando invariavelmente a saliência do busto — um busto que se notava logo ter sido sempre bem exercitado e corrigido e que nada deixava transparecer de flacidez.

Era de fato uma figura assustadora a Srta. Gilbey. Com razão, todos a temiam e admiravam. Só uma mulher com o aspecto dela seria capaz de provocar, tanto nos pais como nos alunos, tão notória manifestação de respeito. Não se podia negar: a Srta. Gilbey era o St. Anne.

Joan parecia estar se contemplando a si própria no momento de penetrar naquele ambiente sagrado, a sala da diretora, toda engalanada de flores, com quadros de Medici pendentes da parede... Um ambiente onde tudo transpirava cultura, erudição e decoro social.

Eis que a Srta. Gilbey se vira na cadeira, conservando o porte majestático, e diz-lhe:

— Entre, Joan. Sente-se, minha cara menina.

Joan sentou-se numa cadeira de braços revestida de cretone. A Srta. Gilbey tirou o pince-nez... e distendeu subitamente os lábios num sorriso que parecia misterioso e até mesmo assustador.

— Você vai deixar-nos, Joan. Você terá que sair deste restrito mundo do ambiente escolar para entrar num outro mundo mais amplo que é a própria vida. Gostaria imensamente de ter uma conversa com você antes da sua partida, na suposição de que minhas palavras lhe possam servir de guia para o futuro.

— Sim, Srta. Gilbey.

— Aqui, neste feliz convívio, em companhia de jovens da sua idade, você esteve sempre protegida contra os embaraços e dificuldades que inevitavelmente surgirão na vida.

— Sim, Srta. Gilbey.

— Eu sei que você foi feliz aqui.

— Sim, Srta. Gilbey.

— E você sempre se comportou bem. Estou muito satisfeita com o progresso que você fez. Você tem sido uma das nossas melhores alunas.

Joan ficou um pouco embaraçada mas conseguiu dizer:

— Oh... fico muito satisfeita e alegre, Srta. Gilbey.

— Mas a vida lhe trará inevitavelmente novos problemas, novas responsabilidades...

E a conversa foi prosseguindo. De intervalos a intervalos, quando lhe parecia oportuno, Joan respondia: “Sim, Srta. Gilbey”.

Ela parecia estar um pouco hipnotizada.

Constituía uma das particularidades da Srta. Gilbey, conforme sempre afirmava Blanche Haggard, possuir uma voz que, pelos seus característicos tonais, se poderia chamar de orquestral. Começa com a suavidade melódica de um violoncelo, eleva-se para elogiar até o agudo de uma flauta e desce, quando ela faz advertências, ao tom de um contrabaixo.

Assim, as meninas que evidenciassem propensão para algum cometimento intelectual recebiam as suas exortações num tom de voz com timbre de instrumentos metálicos. Para as que mostravam tendência para a vida doméstica, ela discorria sobre as obrigações das esposas e mães com uma voz que fazia lembrar os sons do violino em surdina.

Mas a voz da Srta. Gilbey não fez somente pizicato até o fim da sua conversa.

— E, agora, umas palavrinhas especiais: nunca seja preguiçosa para pensar e para refletir, Joan, minha cara menina. Nunca aceite as coisas pelas suas aparentes conveniências do momento — só porque desse modo é mais fácil e você fica livre de incômodos. Reflita que a vida deve ser vivida e não interpretada falsamente por meio de sofismas. E nunca se julgue muito satisfeita consigo mesma.

— Entendido, Srta. Gilbey.

— Digo isto porque (cá entre nós) constitui uma das suas pequenas falhas esta sua íntima satisfação consigo mesma, não é verdade, Joan? Leve em consideração também as outras meninas e não continue a pensar somente em você como sendo a única capaz neste mundo. E esteja sempre preparada para cumprir as suas obrigações e aceitar os encargos que lhe couberem.

E eis que, então, a sua voz atinge o clímax desta solene orquestração:

— A vida deve ser, Joan, um avanço contínuo e ininterrupto. É uma espécie de ascensão para as alturas, através de uma trilha pedregosa que nossos ancestrais já palmilharam. Dissabores e sofrimentos surgirão sem dúvida. Ninguém se livra disso. Nem mesmo Nosso Senhor se subtraiu aos sofrimentos da nossa vida mortal. Assim como ele teve a sua agonia no Horto de Getsemane, também você terá a sua agonia, Joan. E se você a não tiver é porque não enveredou pelo caminho certo, a trilha verdadeira. Lembre-se destas palavras quando chegar a sua hora de dúvidas e de sofrimentos. E não se esqueça de que sempre terei imenso prazer em receber notícias das minhas antigas alunas. Aqui estarei sempre pronta para auxiliá-las com minhas admoestações, se elas o pedirem. Que Deus abençoe você, minha cara menina!

Logo após a bênção da Srta. Gilbey veio o beijo de despedida. Um beijo que, mais do que um simples contato humano, tinha a significação de um verdadeiro prêmio.

Joan ficara um pouco aturdida e se retirou logo.

Voltou ao seu dormitório e lá encontrou Blanche Haggard usando o pince-nez de Mary Grant e com um travesseiro enfiado debaixo da sua blusa de colégio para ficar com o busto estufado. Ela estava fazendo aquela espécie de preleção orquestral a um auditório que se extasiava e se deliciava com as suas palavras. Blanche dizia:

— Vocês, agora, terão que sair deste mundo feliz do ambiente escolar para um mundo mais amplo e mais cheio de perigos, que é a vida. A vida se apresentará para vocês cheia de problemas e de preocupações...

Joan, também passou a fazer parte do auditório. Os aplausos cresceram quando Blanche atingiu o clímax da sua fala.

— Para você, Blanche Haggard, eu não direi senão uma única palavra: disciplina! Domine as suas emoções. Adquira o hábito de praticar o autocontrole. O excessivo ardor do seu coração poderá ter conseqüências perigosas. Tão-somente com uma rigorosa disciplina é que você poderá atingir as culminâncias. Você possui grandes aptidões, minha cara menina. Saiba usá-las. Você já cometeu uma boa porção de faltas, Blanche. Mas foram faltas próprias de uma criatura dotada de natureza nobre e liberal. Tais faltas podem ser reparadas. A vida (neste ponto sua voz se elevou produzindo um estrídulo falsete) deve ser um avanço contínuo e ininterrupto. É uma espécie de ascensão para as alturas através de uma trilha pedregosa que nossos ancestrais já palmilharam. (Veja Wordsworth!). E nunca se esqueça do seu colégio e de que a tia Gilbey está sempre pronta para auxiliar você com as suas admoestações, desde que você se dirija a ela enviando um envelope selado para a resposta.

Blanche fez uma pequena interrupção. Mas, para sua surpresa, ninguém riu nem a aplaudiu durante esta pausa. Todas as meninas, imóveis, como que petrificadas, tinham as cabeças voltadas para a porta aberta, onde surgira a figura majestática da Srta. Gilbey, com o seu pince-nez na mão.

Foi um momento de terrível expectativa. A Srta. Gilbey diz:

— Se você deseja seguir a carreira de teatro, Blanche, acho que deve procurar qualquer uma das excelentes escolas de arte dramática que temos em nosso país, onde poderá adquirir uma boa dicção. Parece que você tem algum talento para essa carreira. Faça o favor de colocar imediatamente esse travesseiro no seu lugar!

E, dito isto, ela se retirou imediatamente.

Blanche exclamou:

— Úúúúff!... Saia logo bruxa selvagem que só se compraz em melindrar e humilhar os outros!

Sem dúvida — pensou Joan consigo mesma — a Srta. Gilbey foi uma grande personalidade. Finalmente, ela deixara o Colégio St. Anne um pouco antes de Averil ter sido enviada para lá. A nova diretora não tinha o mesmo dinamismo nem a mesma personalidade e por isso o colégio começou a decair.

Blanche tinha razão. A Srta. Gilbey era uma selvagem que se comprazia em humilhar os outros. Mas ela sabia como fazer-se obedecer. E tinha-se expressado com grande acerto na sua fala de despedida a Blanche. Disciplina! Era exatamente o que Blanche precisava ter tido durante toda a sua vida. De que ela talvez fosse dotada de uma natureza liberal e generosa, ninguém duvidava. Mas faltou-lhe sempre o necessário autocontrole. Blanche continuou sempre sendo generosa. Por exemplo, aquele dinheiro que Joan lhe enviara, ela não empregou exclusivamente para si. Comprou uma cadeira giratória para o escritório de Tom Holliday. E um traste desse tipo seria a última coisa que Blanche desejaria possuir neste mundo.

Blanche era uma criatura que abrigava em seu coração o calor do afeto. E dizer que apesar de tudo ela teve a coragem de abandonar os seus filhinhos. Só uma mulher monstro, de coração empedernido, seria capaz de fugir das pobres criaturinhas que ela própria botou neste mundo.

Isto demonstra que há mulheres que são completamente destituídas do instinto materno. Os filhos devem sempre ocupar o primeiro lugar no coração de uma mãe. Ela e Rodney sempre estiveram de acordo neste particular.

Rodney, na verdade, sempre fora um abnegado, concordando em submeter-se a tudo para melhorar as condições de vida dos filhos. Por exemplo, quando ela provou a Rodney que o seu quarto de vestir, que era bem claro, deveria ser cedido à babá e aos pequenos, ele espontaneamente concordou em ocupar o quartinho dos fundos, que dava a vista para o curral com o estábulo. Assim, as crianças passaram a ficar num quarto banhado pelo sol e bem iluminado.

Ela e Rodney sempre foram pais muito conscienciosos. E seus filhos também sempre lhes deram prazer, especialmente quando ainda eram bem pequenos. Como eles eram umas criancinhas tão formosas e atraentes! Foram mais bem educados do que os meninos da Sra. Sherston. Parece que a Sra. Sherston nunca pôde compreender que seus filhos eram uns verdadeiros diabinhos. E deve-se dizer que ela própria muitas vezes se juntava com eles nos seus brinquedos, arrastando-se pelo chão como um índio pele-vermelha e soltando urros e brados selvagens. Certa vez em que eles brincavam fazendo de conta que eram animais de um circo, a mãe fez uma impressionante imitação de um leão-marinho.

Joan chegara à conclusão de que Leslie Sherston era uma mulher que, falando a pura verdade, nunca saiu da infância... Nunca chegou a atingir a idade madura...

E como ela teve uma vida triste a pobre mulher!

Joan se lembrou daquele dia em que, de maneira inesperada, cruzou com Sherston em Somerset.

Ela havia estado naquele lugar em companhia de amigas e jamais poderia imaginar que Sherston estivesse vivendo lá. Topou com ele precisamente quando ele saía (fato bem significativo) de uma casa pública. Ela não o via desde a época em que ele saíra da cadeia. Ficou bastante chocada ao notar a mudança sofrida pelo homem que fora um elegante gerente de banco no qual todo mundo confiava.

A vazia expressão do semblante de um homem decaído, que antes fora dinâmico e empreendedor, é bem curiosa. Além do mais ele fica com os ombros curvados e descuida da sua aparência pessoal. Sherston andava sempre com o colete desabotoado. Seu rosto se tornara flácido e seu olhar denotava a astúcia de um velhaco que não inspira confiança. E dizer que outrora esse homem era alvo da confiança de todo mundo.

Ele ficou deveras desapontado por se ter encontrado com ela assim inesperadamente mas a sua reação para refazer-se do choque foi imediata. Cumprimentou-a numa atitude que não passava de uma dolorosa e grotesca caricatura do estilo das suas antigas maneiras sociais.

— Bem, bem. Sra. Scudamore! Este mundo é realmente bem pequeno. Mas que é que a traz a Skipton Haynes?

Ele permanecia na frente de Joan, procurando endireitar os ombros e esforçando-se para dar ao tom de voz aquele antigo entusiasmo capaz de traduzir a sua autoconfiança mas tudo o que ele fazia não passava de uma deplorável representação que absolutamente não servia para dissimular o seu verdadeiro estado. Ela, mesmo contra a sua vontade, teve pena dele.

Como é horrível decair na vida dessa maneira! Como é doloroso para um indivíduo que perdeu a sua posição social imaginar que a qualquer momento poderá se encontrar com algum amigo dos velhos tempos o qual é capaz até mesmo de simular que não o conhecei

Não que ela tivesse a intenção de proceder assim. Naturalmente, outra não podia ser a sua disposição de espírito senão mostrar-se amável e delicada.

Sherston disse-lhe:

— A senhora deve voltar para fazer uma visita à minha esposa. Terá que tomar um chá conosco. Sim, sim, minha distinta senhora, eu insisto!

Esta grotesca e simulada imitação de suas antigas maneiras de portar-se socialmente compeliu Joan, condoída, a deixar-se conduzir pelo homem, embora muito contra a sua vontade.

Ele queria ter o prazer de mostrar-lhe o seu sitiozinho — um pedaço de terra que em todo caso não era lá muito pequeno. Tratava-se de uma área relativamente extensa de terra cultivada. Trabalho árduo evidentemente, mas rendoso, com a produção de hortaliças e verduras para o mercado. Seus principais produtos, todavia, eram anêmonas e maçãs.

Sem interromper a conversa, ele levantou a aldrava de um portão já completamente estragado e corroído pelas intempéries, que bem necessitava de uma pintura. Subiram, então, por um caminho que se estendia por uma parte do terreno cheia de ervas daninhas e inços. Não demorou muito e ela vê Leslie encurvada sobre os canteiros de anêmonas.

— Olhe quem está aqui! — bradou Sherston.

Leslie, atirando para trás o cabelo que lhe caía pela fronte, foi se aproximando dizendo que era uma grande surpresa para ela, naquele momento, receber a visita de Joan.

Joan notou logo como Leslie havia envelhecido. Parecia estar doente.

As rugas produzidas pelo trabalho e pelos sofrimentos vincavam-lhe o rosto. Afora isso, ela se apresentava exatamente como sempre fora: alegre, desleixada e cheia de disposição para o trabalho.

Enquanto estavam ali conversando, seus meninos chegaram da escola. Eles se aproximaram, enchendo o ar de rugidos, e investiram logo contra Leslie, dando-lhe marradas com a cabeça ao mesmo tempo que imitavam o berro dos touros fazendo: — múúú... múúú... múúú. Leslie suportou pacientemente durante alguns segundos esta furiosa arremetida dos bichinhos e depois disse-lhes num tom de voz autoritário:

— Quietos! Temos visita.

De um momento para outro os meninos se transformaram em anjinhos delicados e amáveis. Apertaram a mão da Sra. Scudamore e passaram a falar com ela com uma voz calma e branda.

Joan lembrou-se nesse instante de um seu primo que treinava cães para a prática de esporte. À sua voz de comando, o cachorro sentava-se ou agachava-se. Dava-lhe outra ordem com uma voz enérgica e o animal saía correndo, como que impelido por uma fúria incontida. Os filhinhos de Leslie pareciam ter sido treinados da mesma forma.

Em seguida todos entraram na sala de visita. Leslie saiu logo para preparar o chá.

Passados alguns minutos, surge ela, ajudada pelos pimpolhos, todos sorridentes, com uma bandeja na qual haviam colocado o bule de chá, as xícaras, o pão, a manteiga, o doce de frutas feito em casa.

Entretanto, o que ela achou de mais curioso nesta visita foi a brusca mudança de Sherston. De um momento para outro dissipou-se aquela sua aparência de um deplorável trapaceiro, irrequieto e apreensivo, tornando-se um anfitrião cortês e compenetrado do seu papel — na verdade um ótimo anfitrião. Até mesmo aquele seu antigo traquejo social, como se estivesse sumido nos profundos recessos da sua personalidade, veio à tona bruscamente. Passou a dar a impressão de encontrar-se muito feliz, de estar satisfeito consigo mesmo e com a família. Era como se o seu mundo só existisse dentro daquelas quatro paredes, pouco lhe importando o mundo exterior bem como o juízo que faziam dele.

Os garotos insistiam com ele para que os ajudasse a concluir um serviço de carpintaria que eles haviam iniciado. Leslie, por seu turno, também recomendou-lhe que não se esquecesse de providenciar uma nova enxada para ela conforme ele havia prometido e perguntou-lhe se eles teriam que preparar os feixinhos de anêmonas para o dia seguinte ou se poderiam deixar esse serviço para a quinta-feira.

Joan mesma teve a impressão de nunca tê-lo admirado tanto antes como agora. Foi só então que ela pôde compreender a razão do devotamente de Leslie para com ele. Além disso. ele fora outrora um homem de ótima aparência.

Alguns momentos depois ela teve um novo choque: Pedrinho começou a gritar impaciente:

— Conte-nos aquela história engraçada do guarda lá na cadeia e do pudim de ameixas!

E não parava de insistir com o pai, que bruscamente empalidecera.

— O senhor sabe... aquela história de quando o senhor estava na cadeia. Que foi que um guarda disse? E um outro guarda?

Sherston parecia hesitante e demonstrava estar envergonhado. Leslie, como que procurando acalmá-lo, diz-lhe com uma voz suave:

— Conte a história, Charles. Até que ela é mesmo engraçada e divertida. A Sra. Scudamore terá prazer em ouvi-la.

Então ele passou a relatar a história que era, de fato, engraçada — embora não tanto quanto parecia aos meninos. Eles se contorceram de tanto rir, chegando quase a ficar sufocados. Joan também riu polidamente mas não deixou de sentir-se um tanto constrangida e sobressaltada. Um pouco depois Leslie, que a acompanhara escada acima para levá-la ao andar superior, segredou-lhe delicadamente:

— Eu nem me lembrava mais... mas eles sabem de tudo em relação ao pai.

Leslie (e esta circunstância levou Joan a concluir que Leslie Sherston não possuía sentimento) pareceu ter também achado graça na história.

— Bem... afinal, um dia ou outro, eles fatalmente viriam a saber onde o pai esteve. Ou será que nunca? Pois que eles ficassem sabendo logo então. Era melhor e mais simples.

Joan concordou que foi mais simples. Mas teria sido mais prudente? A delicada mente de uma criança, por ser naturalmente sempre impregnada de um idealismo puro, é suscetível de sofrer um abalo quando se lhe destrói a confiança e a fé.

Leslie retrucou-lhe simplesmente não acreditar que seus filhos fossem tão idealistas e sensíveis assim...

Seria muito pior — tal era a suposição de Leslie — se só mais tarde eles ficassem sabendo que com o pai se passara algo que sempre lhes foi ocultado. Enquanto falava ela fazia com as mãos aqueles movimentos desajeitados como era do seu hábito.

— Por que fazer mistério de tudo o que aconteceu? É muito pior! Quando eles me perguntaram por que o Papaizinho tinha ido embora, achei que eu lhes devia falar com toda a naturalidade. Então expliquei-lhes que o pai havia roubado dinheiro do banco e que por isso fora levado para a cadeia. Em todo caso, eles já sabiam o que significava roubar. Pedrinho costumava furtar doce de fruta e escondê-lo no seu quarto. Eu lhe fiz compreender que quando as pessoas já crescidas praticam coisas erradas são presas. Tudo muito simples.

— Então você acha que é a mesma coisa para uma criança encarar o seu pai com desprezo ao invés de o respeitar?

— Oh, eles absolutamente não o desprezam — Leslie demonstrou ter achado graça novamente no que ia dizer. — Eles continuam tendo bastante pena do pai. E como eles gostam de ouvi-lo relatar os fatos passados na cadeia!

— Contudo, estou absolutamente convencida de que isso não é bom para os pequenos — retrucou-lhe Joan com um tom de voz incisivo.

— Oh!... Quer dizer, então, que você acha que eu não devia ter procedido assim?

Leslie meditou durante um tempinho, depois prosseguiu:

— Bem... talvez... talvez para os meninos não tenha sido boa a minha atitude mas para Charles foi muito boa. Ele voltou para casa todo encolhido e cheio de humildade como um cachorrinho assustado com o rabo no meio das pernas. Eu não podia suportá-lo desse jeito. Por isso julguei que seria melhor contar aos pequenos a verdade a respeito dele, com toda a naturalidade. Além do mais não se podia fingir continuamente, procurando dar a entender que esses três anos nunca existiram, como se correspondessem a uma fase que pudesse facilmente ser extirpada da nossa vida.

Eis como era Leslie Sherston! — refletiu Joan. — Uma mulher despreocupada, displicente, desprovida do mínimo resquício de sentimentalismo, sempre enveredando para o caminho mais fácil na solução dos seus problemas.

Mesmo assim, Joan tinha que reconhecer uma grande virtude nessa mulher: ela sempre se conservara uma esposa fiel.

Joan lhe fala bondosamente:

— Devo dizer-lhe, Leslie, que eu sempre achei você maravilhosa pela maneira como você se manteve fiel ao seu marido e procurou superar todas as dificuldades enquanto ele esteve... esteve ausente. Eu e Rodney muitas vezes comentamos este fato.

Que engraçado sorriso num lado só do rosto tinha essa mulher! Só agora é que Joan passou a percebê-lo. Talvez o seu elogio lhe tivesse ocasionado um certo constrangimento. Falando sinceramente, foi com uma voz um tanto fria que Leslie lhe perguntou:

— Como vai... Rodney?

— Sempre muito atarefado o pobre bicho. Sempre lhe digo que ele deve tirar alguns dias para descansar.

Leslie obtemperou:

— Isto não é tão fácil assim. Eu imagino que para o serviço dele — como para o meu — é necessário empregar todo o tempo. Não se pode tirar muitos dias de descanso.

— Na verdade devo concordar com você. E Rodney, de fato, sempre foi cônscio das suas responsabilidades.

— O trabalho dele requer todo o seu tempo — concluiu Leslie dirigindo-se devagarinho até a janela onde permaneceu como que absorta olhando para fora.

Joan notou, então, que no delineamento do corpo de Leslie havia algo que não podia deixar de chamar-lhe a atenção: a forma do ventre não lhe deixou dúvida... É bem verdade que Leslie sempre usava as suas roupas de maneira muito deselegante e parecia sempre estar desengonçada, mas mesmo assim...

Oh Leslie! — exclamou Joan impulsivamente. — Não vá me dizer que você está...

Leslie virou-se para a sua interlocutora, meneando a cabeça afirmativamente enquanto lhe declarava com a maior naturalidade deste mundo:

— Estou, sim. Espero para o mês de agosto.

E, de um momento para o outro, surpreendentemente Leslie começou a falar com desenvoltura. Já não era mais aquela mulher tíbia e displicente de poucos momentos antes. Ela parecia um condenado que pretendesse fazer a sua própria defesa.

— Isto constituiu para Charles uma distinção. Uma grande distinção, você compreende? Nem posso explicar como ele se sente. Para ele, este fato foi considerado — como direi mesmo? —, foi considerado uma espécie de símbolo, um sinal evidente de que ele não é nenhum réprobo, nenhum proscrito. Basta dizer que ele até vem tentando deixar de beber desde que ficou sabendo do caso.

Tão entusiásticas foram as palavras de Leslie que Joan só um pouco depois se deu conta do que significava, pela importância da revelação, a última frase que ela pronunciara. Ela simplesmente respondeu à amiga:

— Evidentemente você, melhor do que ninguém, sabe da sua vida. Apenas me parece que é um pouco imprudente... pelo menos por enquanto.

— Você quer dizer do ponto de vista financeiro, não é verdade? — Leslie soltou uma risadinha. — Bem... Todos nós aqui de casa teremos que enfrentar a tempestade. Poderá não ser lá tão fácil a vida, mas de qualquer forma encontraremos o que comer.

— Mas você... Não me parece que você esteja muito forte...

— Forte?! Estou forte demais! Quem pretender matar-me terá que fazer muita força!

Entretanto, mal acabara de proferir estas palavras, sentiu ela uma espécie de arrepio a perpassar-lhe pelo corpo, como se naquele instante mesmo tivesse tido um súbito e estranho pressentimento da doença e dos dilacerantes sofrimentos por que teria que passar.

Elas voltaram para o andar térreo e, depois de feitas as despedidas, Sherston prontificou-se a acompanhar Joan para indicar-lhe um atalho que encurtava caminho na passagem através do sítio. Joan, tendo virado a cabeça enquanto desciam aquele terreno em declive, viu Leslie e os meninos, um enredado no outro, rolando-se pelo chão e soltando gritos agudos de tão alegres com aquela patuscada.

Ver Leslie rolando pelo chão com os filhos, como verdadeiros animais, causou-lhe um certo desprazer. Depois Leslie, encurvando-se um pouco, abaixou a cabeça, como que procurando espreitar atentamente o que o capitão Sherston estava dizendo.

Ele, com palavras um tanto desconexas, dizia simplesmente que nunca houve, não há e não poderá haver outra mulher igual à sua.

— A senhora nem pode imaginar, Sra. Scudamore, o que ela tem sido para mim; Não, a senhora nem sequer poderá formar uma idéia. E ninguém poderia. Eu não sou digno dela... Eu bem sei disso...

Joan percebeu, comovida, que as lágrimas brotavam dos olhos dele. Era um homem que facilmente se tornava sentimental.

— Ela é sempre a mesma. Sempre alegre. Até parece que acha que todas as coisas que acontecem são interessantes e divertidas. Nunca a ouvi pronunciar uma palavra de reprovação. Nunca. Por isso jurei cortejá-la sempre e nunca deixar de requestá-la.

Ouvindo tais palavras, Joan refletiu consigo mesma que o capitão Sherston poderia muito melhor demonstrar a sua dedicação para com a esposa deixando de visitar um antro de perdição como o Anchor and Bell. Foi por um nada que ela se conteve e não lhe externou este seu pensamento.

Ela, finalmente, se despediu dele dizendo:

— Sem dúvida... Sem dúvida... Naturalmente...

E dizer que Sherston lhe afirmava tudo isso como coisa verdadeira! Era até comovente observar o comportamento do casal. Ela continuou seguindo o seu caminho passando através do campo. Exatamente quando estava por transpor a porteira, deu uma olhadela para trás e viu o capitão Sherston parado do lado de fora do Anchor and Bell, observando o seu relógio para ver quanto tempo faltava ainda para abrirem a porta.

Tudo o que se passou ela contou a Rodney quando chegou em casa. Disse ela ao marido que tudo lhe parecia ser muito melancólico e doloroso.

Rodney dando-se — aparentemente de propósito — ares de bronco, retrucou-lhe:

— Mas você não disse que eles pareciam estar vivendo felizes juntos?

— Bem... Em certo sentido, sim.

Rodney prosseguiu comentando que, no seu modo de ver, Leslie estava convertendo em verdadeiro triunfo uma situação que, se ela procedesse doutra forma, inevitavelmente seria catastrófica. Joan obtemperou:

— Sem dúvida, ela vem demonstrando muita bravura. Basta dizer que ainda vai ter mais um filho.

Ao ouvir estas palavras, Rodney levantou-se e, bem devagarinho, dirigiu-se à janela, de onde ficou olhando para fora, como que absorto.

Só agora, estando ali sentada em pleno deserto, ocorreu a Joan que ele se postara à janela exatamente como Leslie naquele dia em que a visitara.

Passados alguns segundos, Rodney interroga:

— Para quando?

— Para o mês de agosto. Acho que é uma grande loucura.

— Você acha?

— Meu queridinho, pense bem: a vida deles já é apertada. Um bebê só poderá complicar mais a situação.

Falando bem devagar, Rodney respondeu:

— As costas de Leslie são largas...

— Não duvido... Mas ela poderá se escangalhar toda. Além disso ela tem aparência de mulher doente.

— Bem, ela já parecia andar doente antes mesmo de sair desta localidade.

— Ela parece, também, estar muito mais envelhecida. Todavia é interessante saber que tal fato constitui para Sherston um verdadeiro motivo de distinção e de orgulho íntimo.

— Foi o que ela disse?

— Sim. Ela mesma afirmou que ele se sentia orgulhoso e satisfeito.

Rodney passou a responder como que pesando as suas palavras:

— Pode ser. Sherston é uma dessas extraordinárias pessoas que só pode subsistir em função do apreço dos outros. Quando o juiz proferiu a sentença que o condenou, ele quase sucumbiu, murchando-se que nem um balão furado. Inspirava compaixão e, ao mesmo tempo, mostrava-se repelente. Eu ousaria dizer que o único desejo de Sherston é recuperar, seja lá de que maneira for, o respeito e a estima. Será um trabalho que requer muito tempo.

— Ainda assim, sou de opinião que um outro filho... Rodney interrompeu-a. Na janela, virou-se para ela. A sua face pálida, denotando uma incontida cólera, chegou a deixá-la em sobressalto:

— Ela é uma esposa, não é? Ela tinha, portanto, só dois caminhos para seguir: separar-se dele passando a tomar conta dos garotinhos ou continuar sendo uma esposa de fato, ora bolas! Ela escolheu a segunda alternativa e está desempenhando perfeitamente o seu papel. E é preciso dizer que Leslie nunca faz as coisas pela metade.

Joan, então, perguntou-lhe se havia algum motivo para que ele se excitasse daquela maneira. Rodney respondeu:

— Claro que não!

Entretanto ela bem sabia que desde muito tempo ele andava aborrecido e cansado com a sua vida social e funcional que lhe impunha a necessidade de constantemente usar de prudência e cuidado nas suas atitudes. Por isso ele nunca corria o risco de expressar-se sem antes medir as possíveis conseqüências das suas palavras.

Joan disse-lhe confiar em que ele para os seus clientes nunca viesse a falar irritado assim. Ele respondeu-lhe, grunhindo, que ela absolutamente não tivesse medo de nada pois ele sempre procurava tratá-los como deviam ser tratados.