A Bomba de Hiroxima
Capítulo 1
A menos de um quilômetro da Ponte Aioi, um americano solitário e vendado estava imóvel, no Castelo de Hiroxima. Seu guarda, o soldado Matsuoka, segurou-lhe os braços e começou a levantá-los o abaixá-los. Assim que o prisioneiro começou a fazer o movimento por si mesmo, Matsuoka segurou-lhe os joelhos, forçando-os a curvarem.
Todas as manhãs, os 23 prisioneiros de guerra americanos em Hiroxima faziam tais exercícios.
Embora ainda não fosse oito horas da manhã, o sol de agosto era forte e não demorou muito para que o macacão imundo do prisioneiro estivesse encharcado de suor. Depois, ainda vendado, ele foi obrigado a marchar durante 15 minutos pelo pátio do castelo.
A cerca de 50 metros de distância, em seu gabinete, o Prefeito Awaya escutava Maruyama anunciar as últimas estatísticas. Até aquela manhã, 3 de agosto, 30 mil adultos e 11 mil estudantes, entre as idades de 11 e 17 anos, tinham sido recrutados para os batalhões de trabalho nas trilhas abertas para impedir a propagação de incêndios. Mais de 70 mil residências tinham sido demolidas. Cerca de 60 mil civis, dos 340 mil que habitavam a cidade no pique do período da guerra, tinham sido evacuados. Um sexto êxodo ocorrería dentro de poucos dias, quando mais pessoas perderíam suas casas. Naquela manhã, calculou Maruyama, havia cerca de 280 mil civis na cidade.
Os dois sabiam que o número cada vez menor de lojas em Hiroxima não seria suficiente para suprir as necessidades de tantas pessoas. Antes da guerra, existiam quase duas mil lojas de mantimentos na cidade; agora, havia pouco menos de 150. Muitas das casas comerciais maiores só podiam fornecer para os militares. E Awaya sabia também que eram as exigências dos militares que tornavam necessária a permanência de tantos cidadãos na cidade. A fabrica Toyo, por exemplo, precisava de 10 mil empregados, para produzir seis mil rifles por semana. A Companhia Mitsubishi também exigia uma gigantesca força de trabalho e, assim como o complexo do fabricação de aço à beira de Hiroxima, estava funcionando sete dias por semana, 24 horas por dia.
Awaya disse a seu assistente que tentaria uma audiência imediata com o Marechal-de-Campo Hata, a fim de pedir a ajuda do comandante para “mudar a situação e terminar com essa loucura”.
Maruyama advertiu-o de que, em situações formais, Hata tinha a reputação de ser inflexível. Sugeriu que era muito melhor conversar com o Marechal-de-Campo num ambiente mais descontraído. E dentro de dois dias haveria uma oportunidade para isso, pois o prefeito fora convidado para um coquetel no clube dos oficiais, a 5 de agosto.
Awaya disse que pensaria na sugestão.
* * *
No Hospital Cirúrgico Shima, o Dr. Kaoru Shima sorriu para seu ansioso visitante. Era um fazendeiro que andara vários quilômetros para pedir ao Dr. Shima que fosse ver sua esposa. Pela descrição dele, o Dr. Shima tinha a impressão de que a mulher estava grávida. O médico prometeu visitar a fazenda na próxima vez em que fosse àquela área.
2
A 2 de agosto, Tibbets dissera a Van Kirk que iria na missão.
Dando instruções ao navegador, o coronel ressaltara a importância da acurácia. Isso não preocupava o experiente Van Kirk. Mas ele estava preocupado com o fato de que Tibbets, Ferebee e ele jamais tinham voado juntos de Tinian, e agora não haveria oportunidade para isso, antes da missão. Além do mais, alguns dos homens com quem iria voar eram praticamente estranhos para ele.
Van Kirk não transmitiu suas preocupações a Tibbets. Mas, pouco depois de deixar o gabinete de Tibbets, uma urticária dolorosa irrompeu em diversos pontos de seu corpo. O navegador apresentou-se ao médico do grupo, Young, que o internou e comunicou o fato a Tibbets.
Este ficou ainda mais alarmado do que Van Kirk com a estranha erupção. Na opinião do coronel “não havia mais ninguém com a mesma categoria de “Dutch” quando se tratava de fazer uma navegação acurada”. Mandou que Ferebee fosse ao hospital para descobrir a gravidade do estado de Van Kirk.
Foi uma escolha inspirada. Ferebee fez pouco caso da doença de Van Kirk, “acusando-me de ficar de cama só para atrair a atenção das enfermeiras mais lindas que podia existir”.
Depois que o major se retirou, o Dr. Young visitou o navegador. Procurando uma “possível base emocional” para a doença, o Dr. Young perguntou a Van Kirk:
— Está preocupado com a missão?
— Não.
— Quer realmente ir? Tem esposa e agora um filho.
— Quero ir.
— Pois então vá!
Em algumas horas a urticária de Van Kirik desapareceu inteiramente, e ele deixou o hospital a 3 de agosto.
* * *
No mesmo dia, LeMay voou para Tinian com a ordem para a Missão Especial de Bombardeio Nº 13. Era basicamente o mesmo documento que Tibbets elaborara na manhã de 19 de agosto, com o acréscimo de diversos detalhes. O ataque estava marcado para 6 de agosto. Os alvos eram:
Primário — área industrial urbana de Hiroxima.
Secundário — arsenal e cidade de Kokura.
Terciário — área urbana de Nagasaki.
A ordem confirmava que nenhum avião amigo, “além dos relacionados aqui, estará dentro de uma área de 80 quilômetros de qualquer dos alvos para a missão, num período de quatro horas anteriores e de seis horas subsequentes ao ataque”.
Trinta e duas cópias da ordem foram distribuídas aos comandos em Guam, Iwo Jima e Tinian. Tibbets guardou sua cópia no cofre do gabinete e saiu com com LeMay para inspecionar “Garotinho”, repousando em seus cavaletes, na Área Técnica fortemente guardada.
* * *
Pouco depois das duas horas da tarde de 4 de agosto, a cabana de instruções do 509º foi fechada por PMs armados de carabinas, que cercaram inteiramente a construção estreita e comprida. Lá dentro, os oficiais de informações Hazen Payette e Joseph Buscher pregaram em dois quadros ampliadas fotografias de reconhecimento de Hiroxima e dos alvos alternativos, cobrindo-as com grandes panos. As paredes estavam cobertas de mapas do Japão e lembretes de que “uma conversa descuidada pode custar vidas”.
Parsons chegou às 2:30 horas com um grupo de cientistas. Entre eles estava o Segundo-Tenente Morris Jeppson, que alguns dias antes ganhara um cara-ou-coroa com outro oficial especialista em eletrônica para decidir quem assistiría Parsons na missão. Este tirou uma lata de filme da pasta e um operador pôs o rolo no projetor.
O contingente britânico chegou às 2:45 horas. Tanto Cheshire como Penney estavam com expressões carrancudas, pois tinham acabado de ser informados por LeMay de que não iriam na primeira missão atômica. Esperando ainda que a ordem fosse modificada no último momento, os dois sentaram-se atrás dos cientistas.
Caron, Duzenbury, Shumard, Stiborik e Nelson chegaram em macacões de vôo. Tinham acabado de retornar de um teste local, no qual Van Kirk, inteiramente recuperado, navegava até Rota. Tibbets fizera uma arremetida para o alvo de quatro minutos, e inclinara o avião bruscamente, depois que Ferebee lançara a bomba de exercício. Todos os equipamentos do bombardeiro haviam funcionado perfeitamente.
Durante o exercício, Lewis, no assento do co-piloto, pouco falara. Antes do vôo, ele realizara a dolorosa tarefa de dizer a seu bombardeador e navegador habituais que haviam sido “suplantados pelo posto” e não iriam voar a missão atômica. Tibbets finalmente deixara claro para Lewis que ele seria o co-piloto. O coronel estaria no comando. Mas o capitão ainda achava que era “basicamente minha tripulação” que iria realizar a missão.
Caron chegou à reunião usando o seu quepe dos Dodgers de Brooklyn e determinado a não tirá-lo em hipótese alguma, a não ser que recebesse uma ordem direta. Na noite anterior, num momento de embriaguez, o sargento sucumbira à sugestão de Shumard para que cortasse os cabelos. Um embriagado barbeiro da Base e Duzenbury haviam raspado a cabeça de Caron, até que ficasse parecendo qualquer coisa entre um índio pé-negro e uma pradaria ceifada”.
Lewis entrou com a tripulação de Eatherly, que estava bastante expansivo, depois de uma noite de comemorações. Sentaram-se perto da tripulação de Sweeney, que estava mais sisuda, seguindo o exemplo de seu comandante. Antes da reunião, Sweeney conversara com três cientistas que estavam instalando equipamentos de rádio e de filmagem automática no Great Artiste. Os cientistas explicaram a Sweeney que três pára-quedas levando cilindros similares em formato e peso a extintores de incêndio, seriam lançados do avião perto do alvo. Transmissores de rádio nos cilindros enviariam dados para os receptores no avião. Sweeney havia compreendido que teria de voar em perfeita sincronia com Tibbets para ter certeza de que os instrumentos cairíam na área designada.
Beser chegou com Tom Classen. Sentaram no fundo da sala, perto do projetor. Para Beser, a reunião era uma pausa bem-vinda "do ritmo alucinante na Área Técnica”. Tendo trabalhado na bomba de urânio, ele estava agora ajudando na montagem final da bomba de plutônio. Pouco antes de ir para a reunião, o cientista Ed Doll dissera-lhe que deveria estar preparado para “ir numa segunda missão”. Beser perguntara quantos bombardeiros atômicos estavam planejados, e Doll respondera:
— Tantos quantos forem necessários para fazê-los desistirem. Terebee e Van Kirk entraram logo depois e foram sentar-se na frente, perto do General Farrell.
Precisamente às três horas, Tibbets chegou, num uniforme cáqui recém-passado. Flanqueando por Payette e Buscher, o coronel foi para a plataforma. Os dois oficiais de informações postaram-se junto aos quadros. Parsons colocou-se ao lado de Tibbets na plataforma.
O Sargento Spitzer estava-se concentrando para recordar depois de todas as suas impressões, a fim de registrá-las no diário que mantinha. Percebeu que Parsons “estava suando bastante, limpando a garganta a todo instante, mexendo em seus papéis”.
Dois meses antes, numa conferência em Los Alamos, um dos assistentes de Parsons propusera “armar” a bomba em vôo. Oppenheimer e Groves se opuseram à idéia, achando que assim ficaria fácil demais para que alguma coisa saísse errada. Não obstante, Parsons, cada vez mais preocupado com o índice crescente de acidentes em Tinian, decidira inserir o explosivo convencional e seu detonador na traseira da bomba depois que o avião tivesse levantado vôo. Tal providência iria reduzir o risco, mas, se houvesse um acidente, a “bala” de urânio ainda poderia deslizar pelo cano, atingir o “alvo” e causar uma explosão nuclear.
Parsons ainda não revelara seu plano a ninguém. Receava que Groves pudesse detê-lo se soubesse, estendendo seu braço comprido de quase 12 mil quilômetros de distância.
O murmúrio abafado na sala cessou no momento em que Tibbets começou a falar:
— O momento chegou. Recentemente, a arma que estamos prestes a usar foi testada com pleno sucesso nos Estados Unidos. Recebemos ordens para lançá-la sobre o inimigo.
Ele sacudiu a cabeça para Payette e Buscher, que removeram os panos dos, quadros.
O coronel anunciou os alvos em ordem de prioridade: Hiroxima, Kokura e Nagasaki. Em seguida, designou os três B-29 que iriam na frente para verificar as condições meteorológicas. O Straight Flush de Eatherly iria para Hiroxima; Jabbit III, comandado pelo Major John Wilson, voaria para Kokura; Full House, pilotado pelo Major Ralph Taylor, seguiría para Nagasaki.
O Great Artiste de Sweeney e o Nº 91, comandado pelo Major George Marquardt e levando equipamentos fotográficos, iriam acompanhar Tibbets ao alvo real, cuja escolha final dependería dos relatórios sobre o tempo transmitidos pelo rádio pelos aviões da vanguarda. Se todas as três cidades estivessem com tempo desfavorável, o avião voltaria para Iwo Jima, depois que Parsons “desarmasse” a bomba no ar.
O sétimo B-29 que participaria da missão, o Top Secret, comandado pelo Capitão Charles McKnight, foi designado para voar até Iwo Jima e ficar de prontidão, como avião de reserva.
Em seguida, Tibbets apresentou Parsons, que foi direto ao assunto:
— A bomba que vocês vão lançar é algo inteiramente novo na história da guerra. E a arma mais destrutiva que já foi produzida. Achamos que vai destruir quase tudo num raio de cinco quilômetros.
Um murmúrio de espanto varreu a sala.
Parsons fez um resumo da história do Projeto Manhattan. Mais tarde, Spitzer registrou sua reação ao que ouvira: “É como um sonho fantástico, concebido por alguém com uma imaginação por demais delirante.”
Parsons fez sinal para que o operador ligasse o projetor. Nada aconteceu. O operador mexeu no mecanismo. Subitamente, o celulóide ficou preso nas engrenagens, que começaram a rasgá-lo.
Parsons disse ao operador que parasse a máquina, voltou à plataforma e dirigiu-se à audiência:
— O filme que vocês não estão prestes a ver... — O capitão da Marinha fez uma pausa e as risadas atenuaram a tensão. — . . .É do único teste que realizamos. Vou contar o que aconteceu. O clarão da explosão foi visto a mais de 15 quilômetros. Um soldado a três quilômetros de distância foi derrubado ao chão. Outro soldado a mais de oito quilômetros ficou temporariamente cego. Uma moça numa cidadezinha a muitos quilômetros de distância, cega de nascença, avistou o clarão. A explosão foi ouvida a 80 quilômetros de distância.
Todos os homens na sala estavam inteiramente aturdidos. Até mesmo Tibbets, que sabia o que estava para acontecer, ficou “atordoado com a descrição”.
Parsons continuou:
— Ninguém sabe exatamente o que acontecerá quando a bomba for lançada do ar. Isso nunca foi feito antes. Mas esperamos uma nuvem com este formato... Virou-se e desenhou um cogumelo num quadro-negro. — ... que irá elevar-se pelo menos a 10 mil metros e talvez a 20 mil, precedida por um relâmpago muito mais intenso do que o brilho do Sol.
Buscher adiantou-se com uma caixa de papelão, de onde tirou um par de óculos escuros de proteção, semelhantes aos usados por soldadores. Parsons explicou que aqueles óculos seriam usados por todos os tripulantes dos aviões que estivessem próximos do alvo na ocasião da explosão. Pôs os óculos e indicou um botão por cima do nariz, informando que bastava girá-lo para alterar a quantidade de luz que passaria pelas lentes. Sobre o PA, disse ele, o botão deveria ficar no ponto mínimo.
Payette e Buscher distribuíram os óculos, enquanto Tibbets dava um aviso:
— Vocês são agora as tripulações mais importantes da Força Aérea. Não falem... nem mesmo entre vocês próprios. Não escrevam para casa. Nem sequer mencionem a possibilidade de uma missão.
O coronel esclareceu em seguida qual seria o percurso até o Japão, as altitudes nas diversas etapas do vôo, a altitude de bombardeio e o momento provável da decolagem: às primeiras horas de segunda-feira, 6 de agosto.
O oficial encarregado das operações de resgate subiu à plataforma, dizendo que nenhuma missão jamais contara com um apoio tão meticuloso. Voando ao largo da costa japonesa haveria Super- dumbos, aviões B-29 especialmente equipados para coordenar operações de resgate e repelir qualquer oposição inimiga. Dumbos, hidroaviões da Marinha, estariam patrulhando todo o percurso, para o do Japão, prontos para pousar no mar e resgatar qualquer tripulação. Dando apoio aos aviões, haveria cruzadores, contratorpedeiros e “salva-vidas”, submarinos preparados para “emergir quase nas praias inimigas, a fim de recolhê-los”.
Antes da reunião, Ed Doll dissera a Jeppson o que deveria fazer se caísse nas mãos do inimigo:
— Deve dizer aos japoneses tudo o que sabe. Saberemos então o que você revelou. De qualquer maneira, eles acabarão descobrindo tudo.
Doll era um civil. Buscher era um militar, e apresentou a reação formal da Força Aérea: os homens capturados deveríam dizer apenas o nome, posto e número de série. Recordou-lhes que examinassem meticulosamente os trajes de vôo, para se certificar de que não estavam levando objetos pessoais, que poderiam ser úteis ao inimigo.
Tibbets concluiu a reunião com uma rápida preleção. Mais tarde, não se recordaria de suas palavras exatas. O único registro foi o de Spitzer:
o coronel começou falando que qualquer coisa que cada um de nós pudesse ter feito antes, inclusive ele próprio, era insignificante, em comparação com o que íamos fazer agora. Disse depois as coisas de sempre, mas fê-lo muito bem, como se realmente pensasse daquela forma. Falou no orgulho que sentia por trabalhar com a gente, sobre o nosso moral alto, como fora difícil para a gente passar todo aquele tempo sem saber o que estávamos fazendo, pensando que talvez estivéssemos perdendo tempo e que a “engenhoca” podia ser apenas o sonho delirante de alguém. Disse que se sentia pessoalmente honrado e tinha certeza de que todos nós nos sentíamos também, por termos sido escolhidos para participar daquela missão. E acrescentou que aquela missão — e todos os figurões assentiram quando ele falou isso — ia abreviar a guerra em pelo menos seis meses. E a gente ficou realmente pensando que aquela bomba ia acabar com a guerra.
A 5 de agosto, uma máquina duplicadora emitiu a ordem de operações nº 35, com uma única folha, descrevendo os preparativos finais para o ataque.
A ordem era basicamente um cronograma das atividades do dia, das refeições para as diversas tripulações até o último momento em que poderiam ficar repousando nos alojamentos antes da decolagem. A ordem enumerava também todos os detalhes que os mecânicos precisavam saber, sobre que aviões e quando deveríam preparar, quanto combustível e munição iriam transportar. A única bomba a ser levada na missão era descrita apenas como “especial”.
Os dados cruciais sobre o tempo previsto nas 24 horas seguintes no oeste do Japão seriam transmitidos pelo rádio do norte da China, por ordem de Mao Tsé-tung.
Depois de ir à missa pela manhã, Sweeney iria realizar o último vôo pré-atômico do 509º. Recebeu ordens de Tibbets de levar o Great Artiste a 10 mil metros de altitude e lançar uma bomba cheia apenas de concreto sobre o oceano, enquanto os cientistas em Tinian registravam a trajetória. O teste de detonação era similar ao que a tripulação de Sweeney realizara em Wendover, quando o mecanismo disparara prematuramente.
Na altitude indicada, Sweeney avisou pelo rádio que estava tudo pronto.
Entre os cientistas à espera lá embaixo para observarem a trajetória da bomba estava Luis Alvarez, filho de um famoso cirurgião da Clínica Mayo. Quando ainda estava no Instituto Tecnológico de Massachusetts, Alvarez inventara o sistema de aproximação de controle de terra, que um dia seria usado em quase todos os aeroportos do mundo. Posteriormente, ele chefiara a equipe de Los Alamos queconstruíra o complexo mecanismo de lançamento da bomba. Em Tinian, desenvolvera um artefato que seria levado pelo avião de Sweeney e lançado sobre a cidade-alvo, a fim de ajudar a medir a onda de choque da bomba atômica.
Agora, escutando pelos fones, Alvarez estava esperando que o ruído constante e firme que ouvia fosse quebrado, indicando que a bomba de teste de Sweeney deixara o avião. Ele sabia perfeitamente a sequência de acontecimentos, se tudo corresse bem. Era precisa mente a mesma da bomba atômica real que seria lançada no dia seguinte.
Quando a bomba caísse do avião, fios que estavam presos a ela seriam rompidos, não apenas interrompendo o sinal especial mas também fechando um circuito dentro da própria bomba, o primeiro de uma série que teriam de ser fechados em sequência, antes que a eletricidade, percorrendo as baterias internas chegasse à extremidade do circuito, que era o detonador elétrico. Assim que a eletricidade alcançasse o detonador, atearia a pólvora explosiva. Se não houvesse nenhum contratempo no dia seguinte, isso enviaria a “bala” de urânio pelo cano de canhão, causando a explosão atômica.
Alvarez ouviu o sinal parar. Sabia que a bomba de teste estava a caminho. O primeiro circuito devia estar fechado. Sweeney iniciou a volta de 155 graus. Um mecanismo de tempo na bomba esperava um determinado número de segundos antes de fechar o segundo disjuntor do circuito elétrico. Fechado esse disjuntor, a eletricidade seguiria em frente pelo circuito, até encontrar outro aberto, este controlado por um mecanismo que media a pressão barométrica. O mecanismo deveria fechar o disjuntor quando a bomba estivesse a 1.500 metros do solo. Depois, vinha o último e mais sensível mecanismo do circuito. Era um aparelho de radar miniaturizado, também embutido no interior da bomba. Seu transmissor emitia ondas de rádio que batiam no solo e voltavam, sendo recebidas pelas antenas de radar da bomba, situadas na frente como estranhos sensores. Se tudo corresse bem, o radar fecharia o disjuntor final no circuito, quando a bomba ainda estivesse a uma altura de 550 metros.
Naquele teste, para indicar que o sistema de detonação funcionara perfeitamente, a bomba deveria emitir uma baforada de fumaça a 550 metros. Através de binóculos, Alvarez e os outros cientistas ficaram observando a trajetória da bomba, à espera do sinal de fumaça.
Em vão.
A bomba de teste passou sem emitir qualquer fumaça pela altura prevista e mergulhou no oceano.
Alvarez virou-se para os colegas e disse:
- Amanhã vamos lançar a bomba de verdade no Japão e ainda não conseguimos acertar tudo.
Sweeney não estava surpreso. Ele sabia que as bombas japonesas tinham uma tendência a explodir prematuramente, enquanto as bombas convencionais produzidas pelos Estados Unidos apresentavam uma porcentagem de falhas. Com uma bomba tão nova e complexa, as possibilidades de sucesso deviam ser ainda menores.
Ele achou que a bomba que Tibbets lançaria no dia seguinte iria falhar.
* * *
Ao sol quente e ofuscante, um grupo de homens comandado pelo cientista Bernard Waldman, professor de Física emprestado pela Universidade de Notre Dame, terminou de ajustar o Nº 91 para seu papel de fotógrafo. Uma câmara de ação rápida iria substituir o visor de bombardeio Norden do avião. O próprio Waldman estaria agindo como cinegrafista.
Às 12:15 horas da tarde, a máquina de telecomunicações na sala de operações do 509º entrou em funcionamento, transmitindo a confirmação para LeMay, em Guam, de que a hora da decolagem do avião transportando a bomba atômica seria em menos de 12 horas. O avião chegaria ao alvo entre oito e nove horas da manhã seguinte.
Às 2:30 horas, Ed Doll mandou um telegrama codificado para Los Alamos. Baseava-se numa entrevista que tivera com Beser, que lhe informara que verificações meticulosas “não tinham detectado até agora nenhum japonês usando a frequência em que o radar embutido da bomba estará operando”.
Por volta das três horas, Morris Jeppson e três oficiais do Primeiro Esquadrão de Material Bélico haviam concluído a instalação de um painel de controle um pouco à frente do compartimento de bombas e logo atrás dos compartimentos do engenheiro e do piloto, no avião que Tibbets voaria. O console tinha cerca de 80 centímetros de altura e 50 de largura. Continha interruptores, medidores e pequenas luzes coloridas indicativas. Ligados atrás do painel havia quatro cabos grossos, cada um contendo 24 fios individuais. Esses cabos estendiam-se como cordões umbilicais para dentro do comportamento da bomba. Assim que ela estivesse instalada, os cabos lhe seriam ligados. Iriam desligar-se automaticamente quando a bomba fosse lançada.
O painel destinava-se a controlar as baterias da bomba, verificar quaisquer curtos-circuitos e o fechamento prematuro de algum disjuntor, localizar qualquer defeito nos mecanismos de pressão barométrica, de tempo ou do radar.
Enquanto Jeppson e sua equipe trabalhavam dentro do bombardeiro, um pintor de placas colocava uma escada no nariz do aparelho e subia até o alto, visivelmente mal-humorado, levando uma lata de tinta e um pincel.
Fora arrancado de um jogo de futebol por Tibbets, que lhe entregara um pedaço de papel e lhe determinara que pintasse o nome no avião, “em letras grandes e bonitas”.
Eram duas palavras que estavam escritas no papel: Enola Gay.
* * *
Às 3:30 horas, um grupo de cientistas, PMs e agentes de segurança reuniram-se em tomo da bomba, agora descansando sobre um trole.
A um sinal do Major Uanna, depois que ele cuidadosamente cobriu a bomba com uma lona, o trole foi enganchado a um trator e tirado lentamente do galpão e da Área Técnica.
Parecendo a alguns observadores como um cortejo fúnebre militar, o trole e seus guardas percorreram quase um quilômetro de asfalto até o Enola Gay. A bomba foi guinchada ao compartimento especial e presa ao gancho especificamente fabricado para ela. As portas de cinco metros foram fechadas.
Estavam a apenas 10 horas da decolagem.
* * *
Às 4:15 horas, Tibbets, Ferebee e Van Kirk posaram com Lewis e a tripulação regular do Enola Gay para um fotógrafo da Força Aérea, diante do quartel-general do 509°. Estavam todos aparentemente relaxados e até zombaram de Caron por sua recusa em tirar o quepe de beisebol. Depois, Lewis e o resto da tripulação resolveram inspecionar o bombardeiro.
No Enola Gay, eles foram barrados por PMs. Desapontado, mas ainda alegre, Lewis começou a contornar o B-29.
Subitamente, como Caron recordaria mais tarde, Lewis gritou:
— Que diabo isso está fazendo no meu avião?
A tripulação juntou-se ao piloto, que olhava, com uma expressão furiosa, para as palavras Enola Gay.
Mais tarde, Lewis assim contou o incidente:
— Fiquei furioso. Chamei o oficial encarregado da manutenção e perguntei: “Quem pôs esse nome aqui?” Ele se recusou a dizer. E eu então gritei: “Pois quero que seja apagado imediatamente! Chame seus homens e mande tirar esse nome do meu avião!” Ao que ele disse: “Não posso fazer isso.” E eu perguntei: “Quem, diabo, autorizou você a escrever esse nome aí?” E a resposta dele. “Foi o Coronel Tibbets.”
Lewis seguiu imediatamente para o quartel-general do grupo e entrou no gabinete de Tibbets.
O que se seguiu é controvertido. A versão de Lewis é uma:
— Tibbets sabia o que eu tinha ido fazer lá. Fui logo perguntando: “Coronel, autorizou alguém a pintar um nome no meu avião?” E ele respondeu: “Achei que não ia importar-se, Bob.” Acho que ele ficou bastante embaraçado.
Tibbets iria declarar que não ficou absolutamente constrangido. Tinha consultado Ferebee, Van Kirk e Duzenbury, antes de dar o nome de sua mãe ao avião. Nenhum dos três fizera qualquer objeção. Não consultara Lewis, “porque não estava preocupado com o que Bob podia gostar ou não gostar”.
* * *
Durante toda a manhã na Área Técnica e mais tarde já no avião, até o entardecer, Parsons praticou inserir a carga explosiva e o detonador na arma. No bombardeiro, a delicada manobra era bem mais difícil, porque era muito apertado, a iluminação deficiente, e o calor sufocante, dentro do compartimento da bomba.
Quando ele finalmente deixou o Enola Gay, o General Farrell estava à sua espera. Notando as mãos cortadas de Parsons, Farrell ofereceu-se para emprestar-lhe um par de luvas de pele de porco.
Parsons sacudiu a cabeça.
— Eu não me atrevería a usar luvas. Tenho que sentir o contato.
Às 7:17 horas, Farrell enviou uma mensagem a Groves, informando que Parsons tencionava só armar a bomba depois da decolagem. Mas quando Groves recebeu a mensagem, já era tarde demais para tomar qualquer providência em contrário.
* * *
Às 7:30 horas, Classen, o Subcomandante do 509º, segundo as ordens de Tibbets, instruiu uma dúzia de oficiais da terra sobre as diversas obrigações que teriam de assumir, entre aquele momento e a decolagem.
Deveríam escoltar cientistas e os militares mais graduados para áreas “seguras”, longe do Campo Norte. Não se podia correr o risco de perder cientistas atômicos por uma explosão nuclear imprevista. Quando chegou o momento, muitos cientistas recusaram-se a ir para longe, alegando que ninguém estaria seguro em Tinian, se ocorresse um acidente.
Caminhões de bombeiros deveríam estar estacionados a intervalos de 15 metros nos dois lados da pista A do Campo Norte, que fora a escolhida para a decolagem.
O Dr. Young foi informado de que, no caso de um acidente, ele e sua equipe não deveríam tocar em nada, até que uma turma especialmente designada do Primeiro Esquadrão de Material Bélico verificasse se havia contaminação radioativa. Era a primeira e única indicação que Young recebería de que a arma era uma bomba atômica.
Por volta das oito horas da noite, os cozinheiros do oficial de rancho Charles Perry começaram a preparar as refeições que ele oferecería às tripulações que participariam da missão, pouco depois da meia-noite. Poderiam escolher entre lanche em grande estilo, jantar ou ceia, com uma variedade de 30 pratos. Depois, as tripulações poderiam empacotar sanduíches para comer sobre o Japão, pela manhã. Após verificar que os aviadores ficariam satisfeitos, Perry começou a fazer pessoalmente a torta de abacaxi que Tibbets pedira.
Tudo do que Perry soubera era que se tratava da missão “mais importante da guerra”. Era o suficiente para ele. Começou a fazer planos para “uma comemoração culinária em grande estilo”, depois do retomo dos aviões.
3
Nesse mesmo dia, às seis horas da tarde, os convidados começaram a chegar ao clube dos oficiais em Hiroxima, para a recepção em homenagem ao novo chefe do estado-maior do Marechal-de- Campo Hata. Entre os civis presentes, estavam o governador local, altas autoridades e o Prefeito Awaya.
Hata e seu chefe de estado-maior deslocavam-se de grupo em grupo, tomando saquê e conversando polidamente. De tempo a tempo, Awaya ia até a porta do salão, onde Maruyama estava postado com um recipiente de saquê cheio de chá frio. Awaya era abstêmio e a função de Maruyama era servi-lo permanentemente de chá, a fim de que o prefeito não passasse pelo constrangimento de recusar saquê.
Assim que o Tenente-Coronel Oya chegou à recepção Hata chamou-o para um canto, ansioso em saber as últimas notícias sobre a situação em Tóquio. Oya, que acabara de voltar da Capital, informou que o moral na cidade ainda era alto. Os dois passaram um momento a discutir a situação militar, de acordo com o relatório que Oya elaborara naquele dia. O documento deveria ser amplamente discutido durante a conferência de comunicações, convocada por Hata para a manhã seguinte, às nove horas.
Em menos de 12 horas, estariam reunidos em Hiroxima muitos dos principais comandantes de extrema importância para a defesa do Japão Ocidental.
Quando o Prefeito Awaya abordou Hata, o Marechal-de-Campo fez uma vaga promessa de que discutiría os assuntos civis dentro de mais alguns dias. O desapontado prefeito decidiu voltar para casa. A esposa acabara de chegar à cidade, com o neto de três anos.
Maruyama acompanhou o prefeito até em casa e disse que voltariam a se ver pela manhã, logo depois das oito horas, como de hábito.
* * *
Pouco depois que eles se separaram, a Rádio Hiroxima transmitiu, às 9:22 horas, um aviso de alerta antiaéreo. Oito minutos depois veio o comunicado de que estava tudo bem.
Para o Dr. Shima, viajando para os arredores da cidade, o aviso pressagiava outra noite apreensiva. Ele sempre se preocupava com seus pacientes quando estava longe. Mas não poderia recusar as visitas domiciliares a muitos doentes que precisavam de sua ajuda. Tinha uma movimentada noite de trabalho pela frente, indo de uma fazenda a outra. Não esperava estar de volta a Hiroxima antes das oito horas da manhã seguinte.
* * *
Enquanto o centro de comunicações do quartel-general do Segundo Exército Geral continuava a vigiar as comunicações entre os aviões americanos e torres de controle, foi ficando patente que o Japão estava para sofrer outra série de ataques brutais. Na verdade, 30 bombardeiros estavam a caminho daquele país, a fim de lançar minas no Mar Interior; 65 bombardeiros iriam bombardear Saga; 102 aviões desfechariam um ataque com bombas incendiárias contra Maebashi; 261 bombardeiros estavam-se dirigindo para a área Nishinomiya-Mikage; 111 bombardeiros estavam indo para Ube; e 66 para Imabari.
Era meia-noite e vinte e cinco quando a Rádio Hiroxima aconselhou à população civil a seguir para as “áreas de segurança” previamente designadas. Os habitantes da cidade ficariam esperando em seus abrigos durante duas horas, antes que soasse o aviso de que não havia mais perigo. O alerta em nada contribuiría para melhorar o bom humor de uma população cansada de deixar suas casas por tantos alarmes falsos.
4
Durante a noite de 5 para 6 de agosto, alguns dos aviadores em Tinian foram ao rancho para provar os pratos que os cozinheiros de Perry haviam preparado. Tibbets, Ferebee e Van Kirk comeram várias porções de torta de abacaxi. Mas, para muitos, a idéia de comer nada tinha de tentadora. Ficaram deitados em suas camas, pensando nas pessoas amadas, a saudade apertando e sendo afogada com sub-reptícias doses de uísque. Uns poucos conseguiram dormir.
Às 11:30 horas da noite, as tripulações dos três aviões que verificariam o tempo foram receber as últimas instruções. Nessa ocasião, Ferebee estava empenhado num jogo de pôquer, um dos muitos que se realizaram nessa noite. Entre as apostas, ele recontou uma das histórias prediletas de Tinian, sobre o dia em que um dos oficiais do 509º e uma enfermeira tinham ido nadar inteiramente nus. As roupas deixadas na praia foram roubadas, e os dois tiveram que voltar para seus alojamentos nus como estavam, percorrendo uma distância de mais de três quilômetros.
Van Kirlk ocupou seu tempo verificando todo o seu equipamento vendo se os instrumentos estavam em ordem e os lápis apontados. Caron ficou sentado num canto, pensando na esposa. Nelson leu o último número do Reader’s Digest. Shumard tentou dormir. Stiborik foi à igreja católica para se confessar. Parsons e Jeppson fizeram uma relação do que teriam de fazer assim que o avião decolasse. Lewis ficou andando de um lado para outro, diante da cabana onde se realizaria a reunião final de instruções, à meia-noite.
Beser estava ocupado com uma tarefa que se ajustava idealmente a seu temperamento. Tibbets encarregara-o de prestar informações a Bill Laurence, o repórter do New York Times adido ao Projeto Manhattan. A descrição de Beser ajudou o jornalista a ganhar mais tarde o Prêmio Pulitzer por seu trabalho.
Beser ainda estava falando, quando, pouco antes da meia- noite, foi convocado para a última reunião.
Diante da cabana onde se realizaria a reunião, o cientista Ed Doll entregou a Beser um pedaço de papel de arroz cheio de números, indicando a frequência de rádio do radar da bomba, no momento em que medisse a distância até o solo. Doll explicou que os números tinham sido escritos em papel de arroz para que Beser pudesse engoli-lo mais facilmente, se estivesse em perigo de ser capturado.
* * *
À meia-noite, Paul Tibbets começou a falar aos 26 homens que o acompanhariam no vôo ao Japão.
Má um ano que o coronel comandava o 509º e jamais falara a seus homens, uma única vez sequer, as palavras atômica ou nuclear. Agora, naquela reunião final, ele continuou a manter a segurança, referindo-se à arma apenas como “muito poderosa” e "tendo o potencial de acabar com a guerra”.
Recordou às tripulações para usarem os óculos de proteção na hora da explosão. Depois, em frases rápidas e bruscas, ele enumerou as regras para que a missão fosse bem-sucedida:
— Façam os seus respectivos trabalhos. Obedeçam às ordens. Não procurem queimar etapas ou correrem riscos desnecessários.
O oficial de meteorologia adiantou-se e deu a previsão: o percurso até o Japão estaria quase livre de nuvens, com ventos apenas moderados; as nuvens sobre as cidades-alvo deviam dissipar-se pela manhã. O oficial de comunicações leu as frequências a serem usadas nos diversos estágios da missão e deu as posições dos navios e aviões de resgate.
Tibbets disse as últimas palavras para cada grupo de especialistas que iria participar da missão. Os navegadores deveríam lembrar-se do ponto acima de Iwo Jima em que os três aviões deveríam encontrar-se; os artilheiros de cauda verificariam se cada avião estava com os mil cartuchos de munição; os engenheiros de vôo constatariam se cada aparelho levava 28.000 litros de combustível (exceto o avião atômico propriamente dito, o Enola Gay, que deveria ter 1.500 litros a menos, para facilitar a decolagem); os operadores de rádio não podiam esquecer que a nova senha de chamada era “Covinha”. Quinze minutos depois da meia-noite, Tibbets chamou o Capelão Downey, o qual convidou o grupo a baixar a cabeça. Numa voz sonora, consultando as costas de um envelope, Downey pronunciou a prece que preparara para aquele momento:
Pai-Nosso Todo-Poderoso, ouça a prece daqueles que O amam. E fazemos uma prece por aqueles que desbravam as alturas do seu céu e que levam a batalha aos nossos inimigos. Rezamos para que os guarde e proteja, ao voarem para suas missões. Que possam eles, bem como nós, usufruir de sua força e poder, e assim armados levem esta guerra a um rápido fim. Rezamos para que o final da guerra venha em breve e que mais uma vez possamos conhecer a paz sobre a terra. Que possam os homens que esta noite vão voar ficar na segurança de seus cuidados e que possam retomar sãos e salvos para nós. Ficaremos aguardando, sabendo que estamos a seus cuidados, agora e para sempre. Em nome de Jesus Cristo, amém.
Era 1:12 da madrugada quando os caminhões pegaram as tripulações dos dois B-29 que iriam voar junto com o ENOLA Gay. O Great Artiste, pilotado por Sweeney, e o Nº 91, comandado por Marquardt.
Era 1:15 quando um caminhão pegou a tripulação do Enola Gay. Tibbets e e Parsons sentaram-se na frente, com o motorisla. Espremidos atrás estavam Van Kirk, Ferebee, Lewis, Beser, Jeppson, Caron, Shumard, Stiborik e Nelson. Todos vestiam o macacão de combate verde-claro. A única identificação que os homens levavam era a plaqueta pendurada no pescoço. Na de Beser havia a letra “H”, de “Hebraico”.
Era 1:37 quando os três aviões de reconhecimento do tempo decolaram simultaneamente de pistas separadas do Campo Norte. Era 1:51 quando o Top Secret decolou a caminho de Iwo Jima, onde ficaria como avião de reserva.
* * *
Duzenbury passara todos os minutos disponíveis, desde a reunião final, com o Enola Gay. Ele sempre levava pelo menos duas horas fazendo as verificações pré-vôo. O que quer que Tibbets e Lewis pudessem pensar, ele “sabia que era o meu avião”.
Primeiro, Duzenbury contornou lentamente o bombardeiro, verificando-o visualmente, “procurando qualquer coisa, por menor que fosse, que não parecesse normal”, certificando-se de que cada rebite estava em seu devido lugar. Depois, por volta de uma hora da madrugada, Duzenbury entrou sozinho no Enola Gay, tendo na mão a lista de coisas a verificar.
Duzenbury foi primeiro a seu próprio posto, por trás do assento de Lewis. Não demorou muito para verificar seu painel de instrumentos. Orgulhava-se de mantê-lo sempre no mais perfeito funcionamento. Depois, entrou na carlinga e verificou os controles, interruptores e mostradores. Após confirmar que estava tudo em ordem ali, Duzenbury foi para a área espaçosa que partilhava com o navegador Van Kirk e com o operador de rádio Nelson. Agora naquela área estava também o painel de Jeppson para controle da bomba.
Duzenbury abriu uma pequena porta redonda, situada logo abaixo da entrada para o túnel comprido que levava à extremidade posterior do avião. Desceu pela escotilha, com os pés na frente, para o compartimento da bomba.
Usando uma lanterna, foi para o lado direito da arma e subiu no passadiço que corria por toda a extensão do compartimento. Dali, teve a sua primeira visão global da bomba mais cara do mundo. Para o sargento, que tratava de árvores antes de se alistar, a bomba parecia um tronco comprido e maciço. Os cabos que iam terminar no painel de controle de Jeppson e as antenas davam-lhe uma aparência diferente de todas as bombas que Duzenbury já vira.
Ele continuou a avançar, verificando tudo na passagem. Foi além do nariz da bomba e voltou pelo outro lado. Ao chegar novamente à altura das barbatanas, avistou dois recipientes estranhos, que julgava que não deveriam estar ali. Quase inconscientemente, chutou-os.
Duzenbury não fora avisado de que aqueles recipientes continham a pólvora e as ferramentas que Parsons usaria mais tarde para armar a bomba.
Ele já ia remover os recipientes quando uma luz forte penetrou pela escotilha. Aturdido, Duzenbury subiu para o compartimento de Van Kirk. A luz inundava a área. O sargento foi até a carlinga e parou, boquiaberto.
O Enola Gay estava cercado por uma bateria de refletores.
Espalhados entre os refletores e os geradores móveis havia cerca de 100 pessoas, entre fotógrafos, cinegrafistas, oficiais, cientistas, agentes de segurança do projeto e PMs. Confuso e um pouco aborrecido, Duzenbury voltou a concentrar-se em sua lista de verificações.
* * *
Os refletores, fotógrafos e cinegrafistas haviam sido ordenados pelo General Groves, que queria registrar formalmente a partida do Enola Gay. Somente a ausência de espaço impedira que uma equipe de cinegrafistas voasse na missão.
Tibbets saiu do caminhão e descobriu-se cercado por cinegrafistas e fotógrafos. Ele fora avisado, por uma mensagem de Groves, de que haveria “um pouco de publicidade”. Mas, em sua opinião, “aquele era um tratamento em grande estilo de première de Hollywood. Fiquei esperando que o leão da Metro entrasse em cena ou que o relâmpago da Warner riscasse o céu. Era uma loucura!”
Com um toque digno de produção épica, os “extras” sobre o asfalto formaram uma guarda de honra para a passagem dos “astros” da tripulação.
O comandante do 509º atendeu aos pedidos gritados de virar primeiro para um lado, depois para outro, de sorrir, de parecer sério.
Parsons, aturdido com o ambiente de carnaval, virava-se para quem quer que o escutasse e indagava:
— Mas o que está acontecendo aqui?
Sem reconhecê-lo, um impetuoso fotógrafo empurrou o capitão da Marinha contra uma das rodas do Enola Gay, dizendo:
— Você vai ser famoso! Portanto, sorria!
Parsons lançou um olhar furioso para o fotógrafo, que deu de ombros e juntou-se ao grupo em torno de Beser, que ainda eslava prestando esclarecimentos a Bill Laurence, do New York Times.
O próprio Beser estava levando um gravador portátil, no qual pretendia registrar as reações da tripulação à explosão atômica.
Bastante expansivo, Beser disse aos fotógrafos que tirassem fotografias também dos outros membros da tripulação, comentando:
— Eles são tão importantes quanto nós.
Shumard e Stiborik fizeram uma reverência zombeteira. O operador de rádio Dick Nelson, criado perto de Hollywood, teve uma impressão que não esqueceu:
— Alguns daqueles sujeitos estavam-se comportando como se trabalhassem numa produção de orçamento reduzido.
O repórter Laurence pediu a Lewis que fizesse um diário de bordo da viagem do Enola Gay, que seria mais tarde publicado pelo New York Times. Não se falou em dinheiro, mas o co-piloto pensou que isso poderia render-lhe “alguns dólares”.
Lewis falou à tripulação. Mais tarde, Nelson recordou:
— Ele nos olhou demoradamente e disse: “Pessoal, essa bomba custa mais do que um porta-aviões! Temos que fazer tudo direito para ganhar essa guerra! Quero que saia tudo perfeito!” Ele deixou bem claro que achava que ainda éramos a sua tripulação e que íamos fazer tudo por ele.
Caron espiou ao redor, piscando os olhos às luzes fortes, e sorrindo enigmaticamente quando alguém lhe disse que nunca antes conhecera um artilheiro de cauda que usasse óculos. Ele se recusou obstinadamente a tirar o quepe de beisebol. Como muitas outras pessoas que ali estavam, Caron também achou o espetáculo “um tanto bizarro; a toda hora me paravam para tirar uma fotografia” .
Caron planejara levar sua própria câmera na missão, mas, com tanta excitação, acabara esquecendo-a no alojamento. Apesar disso, acabaria tirando a mais histórica de todas as fotografias. Um capitão do Exército entregou-lhe uma câmera e disse:
— Fotografe tudo o que puder sobre o alvo.
Às 2:20 horas, foi tirada a última fotografia do grupo. Tibbets virou-se para a tripulação e disse:
— Muito bem, pessoal! Vamos ao trabalho agora!
Um fotógrafo segurou o braço de Beser e pediu-lhe “um último olhar de adeus”.
Beser ficou furioso.
— Adeus coisa nenhuma! Nós vamos voltar!
Ele subiu a escada e entrou pela escotilha por trás da roda no nariz do Enola Gay, subitamente cansado de toda a publicidade.
Beser foi seguido por Ferebee e Van Kirk, os quais também estavam usando quepes de beisebol, como Caron. Shumard e Nelson traziam quepes de faxina de soldado. Stiborik, um quepe cáqui.
Finalmente, apenas Parsons e Tibbets ainda estavam lá embaixo, falando com Farrell. De repente, o General perguntou a Parsons:
— Onde está sua arma?
O capitão esquecera de requisitar uma arma. Fez um gesto para um PM próximo, que tirou o cinturão com o revólver e entregou-lhe. Parsons afivelou o cinturão. Agradeceu ao PM e depois subiu desajeitadamente pela escada. Como todos os outros, ele usava por baixo do macacão um traje de sobrevivência, com anzóis, água potável, equipamento de primeiros-socorros e rações de emergência. Por cima do macacão, tinha as tiras do pára-quedas, com um gancho para prender uma balsa inflável de um só homem. E usava ainda um colete especial, para protegê-lo dos fragmentos das gramadas antiaéreas.
Sem que os outros soubessem, Paul Tibbets levava também uma pequena caixa de metal num bolso do macacão. Dentro dela, havia 12 cápsulas, cada uma contendo uma dose letal de cianureto. Ao primeiro sinal de problemas sobre o Japão, Tibbets deveria distribuir o veneno a todos os homens que estavam no avião. E explicaria as opções que tinham diante da perspectiva de captura: ou estouravam os miolos ou tomavam o veneno. Tibbets sabia que esse esquema fora especificamente imaginado para a missão atômica.
— Se fôssemos derrubados, o que não fariam os japoneses para descobrir o que estávamos fazendo lá? Assim, se não quiséssemos sofrer as torturas a que inevitavelmente seríamos submetidos, as únicas opções eram um tiro na cabeça ou o veneno.
Ao se despedir de Farrell, Tibbets tinha uma preocupação mais imediata: a possibilidade de um acidente na decolagem, como acontecera com muitos aviões em Tinian, nas últimas semanas. O Enola Gay era provavelmente o avião mais bem inspecionado do mundo. Mas nem todas as verificações poderiam garantir que não haveria um defeito de última hora em alguma peça crucial.
Sorrindo e exibindo uma expressão descontraída para os barulhentos fotógrafos, Tibbets embarcou no Enola Gay. Ao chegar a seu assento, apalpou automaticamente o bolso do peito, para certificar-se de que a cigarreira de alumínio ali estava. Considerava o objeto um talismã e jamais fazia um vôo sem levá-lo.
Um cinegrafista subiu numa escada e filmou a posição de bombardeio de Ferebee no nariz do avião. O bombardeador ficou contente por ter pedido ao pessoal de terra que desse uma busca meticulosa no avião e tirasse “qualquer objeto não-autorizado". Entre os que haviam sido encontrados, figuravam seis caixas de preservativos, três calcinhas femininas de seda, e assim por diante. Ferebee achava que “tais coisas não têm lugar num bombardeiro”.
Caron foi imediatamente para seu posto de artilheiro na cauda. Pensava que, no caso de um acidente na decolagem, havia “mais possibilidade de sobrevivência na cauda”. Para dar sorte, o sargento levava uma fotografia da esposa e da filha pequena. Shumard, encolhido numa das torres, trazia uma boneca pequena. Beser e Stiborik estavam na outra torre. Não acreditavam em talismãs, embora Stiborik achasse que seu quepe de esquiar era tão bom quanto outro qualquer.
À frente do navegador, Parsons e Jeppson estavam sentados cm almofadas no chão, escutando pacientemente os preparativos finais para a decolagem. Finalmente, Tibbets gritou para Duzenbury:
— Tudo pronto, Dooz?
— Tudo pronto, Coronel!
Tibbets abriu uma janela lateral da carlinga e inclinou-se para fora. Uma bateria de fotógrafos e cinegrafistas se aproximou, a fim de fotografá-lo por cima do nome Enola Gay, recentemente pintado.
— Apaguem essas luzes, por favor! — gritou Tibbets. — Está na hora de partirmos!
5
O comandante determinou a Duzenbury que acionasse o motor nº 3. Depois que estava funcionando suavemente, ordenou que fosse acionado o nº 4, em seguida o nº 1 e, finalmente, o nº 2.
Lewis fez uma anotação num bloco, para o registro encomendado pelo New York Times: “Motores acionados às 2:27 horas.”
O co-piloto olhou para Tibbets, que assentiu. Lewis baixou a alavanca do rádio e disse:
— Aqui é Dimples (Covinha) 82 para Torre Norte Tinian. Pronto para taxiar. Aguardo instruções para decolagem.
— Torre para Dimples 82. Pode começar a taxiar. Decolagem na pista A.
Às 2:35 horas, o Enola Gay chegou à posição de decolagem, na cabeceira da pista.
O jipe que levara o bombardeiro até lá começou a voltar, pela pista, seus faróis iluminando na passagem os caminhões de bombeiro e ambulâncias estacionados nos dois lados, a intervalos de 15 metros.
Às 2:42 horas, o jipe piscou os faróis na outra extremidade da pista e depois afastou-se para o lado.
Tibbets disse a Lewis que chamasse a torre. A resposta foi imediata:
— Torre para Dimples 82. Pode decolar.
Tibbets fez uma cuidadosa verificação do painel de instrumentos. O peso normal de decolagem era de 68 toneladas: as 65 toneladas do Enola Gay, com mais 26.000 litros de combustível; uma bomba de cinco toneladas e 12 homens a bordo exigiriam um impulso extra dos motores para levantarem a sobrecarga de sete toneladas. Tibbets tomou uma decisão: manteria o avião no solo até o último momento, para obter o máximo de velocidade na hora em que levantasse vôo.
Não revelou sua intenção a Lewis.
O co-piloto mostrava-se apreensivo. Ele também sabia que o Enola Gay estava com excesso de peso e sentia que os próximos segundos “poderiam ser dramáticos.”
Por outro lado, Ferebee estava perfeitamente tranquilo e confiante de que Tibbets conseguiria “tirar o avião do solo”.
Van Kirk observou o ponteiro dos segundos de seu relógio chegar a 2:44 horas. Até que o bombardeiro levantasse vôo, ele não teria coisa alguma para fazer.
Às 2:45 horas, Tibbets disse a Lewis:
— Vamos embora. — E empurrou os manetes para a frente. O Enola Gay começou a avançar pela pista.
Tibbets olhava atentamente para o contador de RPM e o medidor de pressão. Com dois terços da pista para trás, o contador ainda estava abaixo das 2.550 RPM que Tibbets calculava que seriam necessárias para a decolagem. O medidor de pressão indicava apenas 40 polegadas, o que não era suficiente.
Shumard e Stiborik trocaram olhares nervosos, em suas torres. Beser sorriu-lhes, alheio a qualquer perigo. Mais adiante, em seu painel, Duzenbury remexia-se, inquieto. Sabia o que Tibbets estava tentando fazer, mas tinha dúvidas se ele conseguiria.
Lewis olhava ansiosamente para os instrumentos a sua frente, duplicata dos que estavam diante de Tibbets. Lá fora, as ambulâncias e carros de bombeiros iam ficando para trás.
Está pesado demais! — gritou Lewis. — Puxe agora!
Tibbets ignorou Lewis, mantendo o bombardeiro na pista. Instintivamente, as mãos de Lewis estenderam-se para a alavanca de controle.
— Não! — gritou Tibbets. — Largue isso!
Lewis ficou paralisado.
Beser percebeu subitamente, o medo que Stiborik e Shumard estavam sentindo. E gritou:
— Ei, será que ainda vamos demorar muito para sair da pista?
Lewis olhou para Tibbets, que estava fixando o ponto em que a pista terminava, à beira do penhasco.
O capitão não podia mais esperar. Porém, no momento cm que suas mãos seguraram a alavanca de controle, Tibbets puxou seu manche para trás. O nariz do Enola Gay se ergueu e o bombardeiro se elevou no ar. Lewis teve a nítida impressão de que isso aconteceu no exato momento em que a pista sumiu, substituída pela escuridão do mar.
* * *
Observando a decolagem de seu esconderijo perto do pico do Monte Lasso estava o Suboficial Kizo Iniai. Há 90 minutos que observava os refletores, flashes das câmaras, a multidão reunida ao redor de um bombardeiro. Não podia imaginar o que tudo aquilo significava.
O bombardeiro que era o centro de todo aquele movimento decolou pela pista que Imai ajudara a construir.
* * *
Dois minutos depois do Enola Gay, o Great Artiste também decolou, seguido pelo N° 91, às 2:49 horas. Agora, os três aviões de reconhecimento de tempo e os três aviões de combate da Missão de Bombardeio Especial Nº 13 já se encontravam no ar, seguindo para o Japão.
Às 2:55:30 horas, 10 minutos depois da decolagem, Van Kirk fez sua primeira anotação no livro de navegação:
Posição: N. Saipan. Velocidade do ar: 213. Curso real 336. Objetivo: 338. Temperatura: +22C. Distancia para Iwo Jima: 1.001 quilômetros. Atitude: 1.420m
Para fazer tais cálculos durante o vôo, Van Kirk trabalhava em estreita colaboração com o operador de radar Stiborik. Os dois iriam, continuamente, verificar o curso.
O Enola Gay estava seguindo o curso norte-noroeste que manteria pelo estágio de três horas de vôo até Iwo Jima. Enquanto o avião avançava pela noite do Pacifico, 10 dos 12 homens a bordo estavam ocupados.
Ferebee nada tinha para fazer e estava confortavelmente acomodado em seu assento. Outras seis horas se passariam antes que suas habilidades como bombardeador fossem necessárias. Cansar-se agora, numa atividade inútil, poderia ter um efeito prejudicial no papel que iria desempenhar mais tarde.
Beser, exausto de mais de 40 horas sem dormir, estava encolhido no chão do final do túnel, roncando tranquilamente. Ele só precisaria assumir seu equipamento de vigilância eletrônica depois que o Enola Gay passasse por Iwo Jima.
Além das ordens de rotina, Tibbets ainda não trocara uma palavra sequer com Lewis, Os dois estavam conscientes de que o co-piloto tentara assumir o controle no momento crucial da decolagem. Ele agira instintivamente. Não tencionara absolutamente criticar a habilidade de Tibbets como piloto. Mas não era capaz de dizer isso. O coronel, por sua vez, reconhecia que a reação do seu co-piloto fora perfeitamente compreensível.
— Foi a reação de um homem acostumado a sentar-se no lugar do comandante.
Mas Tibbets também não sabia como expressar o que estava pensando. E assim os dois continuaram sentados num silêncio constrangido, Tibbets pilotando o aparelho, Lewis observando os instrumentos e acrescentando mais algumas linhas a seu registro particular. “Tudo transcorreu bem na decolagem, sem qualquer anormalidade.”
Caron chamou Tibbets pelo interfone e recebeu permissão para testar seus canhões. Dispunha de mil cartuchos para defender o Enola Gay de atacantes, e naquele momento usou 50 deles. O barulho ecoou pela fuselagem. Na torre da cauda de Caron havia agora um cheiro de pólvora e óleo queimado. Por trás dele, na escuridão, os projéteis iam caindo no mar.
Satisfeito e sem ter mais nada para fazer por ora, Caron foi até o compartimento traseiro do bombardeador. Stiborik estava examinando fotografias de Hiroxima, como a cidade iria mais tarde aparecer em sua tela de radar. As fotografias de aparência irreal não significavam quase nada para o artilheiro da cauda.
* * *
Perto das três horas da manhã, Parsons deu uma pancadinha no ombro de Tibbets e disse:
— Vamos começar.
Tibbets assentiu. Em seguida, ligou o rádio de baixa frequência e chamou a Torre de Tinian:
— Juiz indo para o trabalho.
Como fora combinado anteriormente, não houve resposta. Mas na torre de controle do Campo Norte, um pequeno grupo de cientistas estudava uma cópia da lista de coisas por fazer que Parsons naquele momento tirava do bolso de seu macacão, a bordo do Enola Gay. Dizia o seguinte:
Lista de itens para colocar carga no avião:
1. Verificar se plugs verdes estão instalados.
2. Remover placa traseira.
3. Remover placa blindada.
4. Inserir chave de porca no plug.
5. Desatarraxar plug, colocar na almofada de borracha,
6. Inserir carga, quatro seções.
7. Inserir plug e apertar.
8. Ligar o fio.
9. Colocar placa blindada.
10. Colocar placa traseira.
11. Remover e prender passadiço e ferramentas.
Essa relação sumária não dava a menor idéia da natureza delicada da tarefa que Parsons iria realizar.
O oficial da Marinha desceu pela escotilha para o compartimento da bomba. Jeppson seguiu-o, empunhando uma lanterna.
Os dois homens se agacharam dentro do compartimento, as costas quase tocando na escotilha aberta, de frente para a extremidade posterior da bomba. Parsons tirou as ferramentas da caixa que Duzenbury chutara durante a verificação anterior ao vôo.
Ferebee deixou seu assento de bombardeador e foi observar aquele estágio crítico da missão.
Para Ferebee, os dois homens agachados no compartimento da bomba pareciam mecânicos de automóvel, com Jeppson passando as ferramentas, sempre que o outro pedia.
À medida que cada item da lista ia sendo realizado, Parsons informava pelo interfone a Tibbets, que por sua vez passava a informação pelo rádio para Tinian.
Mas na altura do item 6, a inserção da pólvora e do detonador elétrico, Tinian já estava fora do alcance do rádio de Tibbets.
Por motivos de segurança, o comandante decidira não usar o transmissor mais potente de Nelson. Ele receava que as mensagens pudessem ser captadas pelos monitores japoneses.
Às 3:10 horas, Parsons começou a inserir a pólvora e o detonador. Trabalhava devagar, em silêncio total, os olhos e as mãos concentrados na tarefa. Suavemente, inseriu a pólvora na posição. Depois, ligou o detonador. Deu 16 voltas para prender o plug. Em seguida, colocou as placas blindada e posterior.
A arma estava agora praticamente pronta, faltando apenas uma última e crucial operação, que Jeppson realizaria mais tarde, retornando ao compartimento e trocando os três plugs verdes de “segurança” por vermelhos. Enquanto isso não acontecesse, a arma não poderia ser detonada eletricamente... “a menos, é claro, que o avião entrasse numa tempestade elétrica”.
Às 3:20 horas, os dois homens deixaram o compartimento da bomba.
Parsons foi até a cabine de comando e informou a Tibbets que tinham acabado. Depois, sentou-se no chão ao lado de Jeppson, que estava verificando os circuitos da bomba em seu painel de controle.
6
Cinco minutos depois que Parsons terminara de armar a bomba, em Hiroxima, onde eram 2:25 horas, soou o sinal de que o perigo passara. Os civis emergiram dos abrigos antiaéreos.
No Monte Futaba, o Segundo-Tenente Tatsuo Yokoyama cambaleou de volta a seu alojamento, morrendo de sono. Estava tendo uma noite terrível: três alertas e nenhum sinal de bombardeiro. Ele dispensou a guarnição de sua bateria e pediu a seu ordenança que lhe servisse um chá.
7
Tibbets contemplou a noite. As estrelas faiscavam na escuridão. Lá embaixo, parecendo muito brancas, havia uma camada de nuvens. Dentro do Enola Gay estava confortavelmente quente.
Tibbets finalmente rompeu o silêncio na cabine de comando, perguntando a Lewis o que estava escrevendo. O co-piloto respondeu que fazia “um registro” da missão. O comandante não insistiu, e os dois voltaram a ficar em silêncio, olhando para a noite lá fora.
Nelson concluiu a verificação do equipamento loran. Este era o mecanismo de navegação a longa distância, destinado a determinar a posição de um avião pelo tempo que levava para receber sinais de rádio de dois ou mais transmissores cujas posições eram conhecidas. Nelson sintonizara com os transmissores em Iwo Jima e Okinawa.
Duzenbury e Shumard estavam verificando os geradores para garantir que os quatro motores permanecessem perfeitamente sincronizados.
Às 4:01 horas, Tibbets falou primeiro com Sweeney e depois com Marquardt, que os acompanhavam a cerca de cinco quilômetros atrás. O Great Artiste e o Nº 91 informaram “condições normais".
Às 4:20 horas, Van Kirk chamou Lewis pelo interfone para informar que o momento da chegada a Iwo Jima era 5:52 horas.
O co-piloto anotou a informação em seu registro e acrescentou "Veremos”.
A esta altura, Lewis estava expandindo o seu registro da simples e inicial anotação de horários e incidentes para incluir comentários como: “O Coronel, mais conhecido como ‘touro velho’, apresenta sinais de ter tido um dia difícil; com tudo o que teve de fazer para poder realizar a missão, bem que está precisando de uma soneca.”
Tibbets, na verdade, jamais se sentira mais relaxado ou menos cansado. A viagem, até aquele momento, tinha sido “um passeio”.
Às 4:25 horas, o comandante passou os controles para Lewis e deixou seu lugar para ficar algum tempo com cada homem.
Parsons e Jeppson confirmaram que os ajustamentos finais na bomba seriam feitos na última hora anterior à chegada ao alvo.
Quando se encontrava no posto de Duzenbury, Tibbets sentiu que Lewis prendera os controles. O Enola Gay estava sendo agora conduzido por “George”, o piloto automático.
Tibbets conversou com Duzenbury por alguns minutos e depois foi para o posto de Nelson. O jovem operador de rádio largou apressadamente o livro que estava lendo e disse:
— Está tudo bem por aqui, Coronel.
Tibbets sorriu.
— Sei que fará um bom trabalho, Rick.
Nelson jamais se sentira tão orgulhoso.
Tibbets observou em seguida Van Kirk fazer uma verificação navegacional. Ferebee apareceu, e os três especularam se as condições de tempo permitiríam bombardear o alvo “primário”. Tibbets disse que qualquer que fosse a informação de Eatherly sobre o tempo em Hiroxima ele iria até lá, para “julgar pessoalmente".
Tibbets passou em seguida pelo túnel de 10 metros de comprimento, existente sobre os dois compartimentos de bombas e ligando as partes anterior e posterior do avião.
Na parte posterior, estavam Caron, Stiborik, Shumard e Beser, o último ainda dormindo.
Tibbets virou-se para o artilheiro da cauda:
— Bob, já parou para pensar no que vamos fazer esta manhã?
— Coronel, não quero ser encostado num muro e fuzilado.
Tibbets sorriu, "recordando aquele dia de setembro, em Wendover quando Caron lhe prometera ficar de boca fechada. Desde então, o jovem artilheiro da cauda tinha sido um exemplo para todos, em questões de segurança.
— Já estamos a caminho, Bob. Pode falar agora.
Caron já tinha adivinhado que o Enola Gay levava um novo superexplosivo:
— É algum pesadelo de químico, Coronel?
— Não exatamente.
— E por acaso é um pesadelo de físico?
— É isso mesmo.
Tibbets começou a voltar pelo túnel. Caron puxou-lhe o pé. Tibbets olhou para trás.
— Qual é o problema, Bob?
— Não há problema, Coronel. Gostaria apenas de fazer uma pergunta. Vamos fragmentar átomos?
Tibbets ficou olhando por um momento para Caron sem dizer nada, depois afastou-se pelo túnel.
Caron recordara a frase sobre a fragmentação de átomos de uma revista científica popular que lera certa vez. Mas não tinha a menor idéia do que isso significava.
De volta à cabinete de comando, Tibbets desligou “George” e começou a subir para 2.700 metros, em busca do ponto de encontro sobre Iwo Jima.
Jeppson foi para o domo do navegador. A leste, podia ver uma lua pálida, volta e meia escondida pelas nuvens. À frente, à exceção de algumas nuvens, o céu era azul-escuro. Pelo resto de sua vida, Jeppson iria recordar-se aquela noite espetacular no Pacífico, à medida que a escuridão ia sendo dissipada pela claridade que antecedia o amanhecer. Quando o Enola Gay chegou a Iwo Jima, o céu estava todo rosado, incandescente.
Exatamente no horário previsto, o Enola Gay alcançou o ponto de encontro. Circulando sobre Iwo Jima, Tibbets esperou pelos outros dois bombardeiros.
Às 4:55 horas, horário japonês, o Great Artiste de Sweeney e o Nº 91 de Marquardt entraram na órbita, elevando-se também a 2.700 metros de altitude.
Às 5 horas, 5 minutos e 30 segundos (uma hora depois pai para Van Kirk, que continuava a se basear pelo horário de Tinian), o dia já rompido, os três bombardeiros assumiram uma formação em “V”, com Tibbets na vanguarda. E seguiram na direção de Shikoku, a maior ilha ao largo da costa sudeste do Japão.
Cruzando Iwo Jima pela última vez, Tibbets usou o rádio da cabine de comando para chamar o Major Bud Uanna, no centro do comunicações instalado na ilha especialmente para a missão.
— Bud, está tudo correndo conforme o planejado.
E pela estática do amanhecer veio a resposta lacônica de Uanna:
— Boa sorte.
8
Em Iwo Jima, McKnight e a tripulação do Top Secret relaxaram. Era improvável que houvesse agora necessidade de seu bombardeiro.
A uma velocidade de 330 quilômetros horários, o Enola Gay, o Great Artiste e o Nº 91 seguiram para o norte. A bordo de todos os três bombardeiros havia uma rotina constante de verificação de velocidade e da direção dos ventos.
Lewis, sem muito para fazer além de suas anotações, descobriu que elas estavam-se tomando enigmáticas. Finalmente, quando o bombardeiro chegou a 2.800 metros, o co-piloto escreveu simplesmente: “Vamos permanecer nesta altitude até estarmos a uma hora de distância do Império.”
O sono de Beser foi interrompido quando uma laranja rolou pelo túnel e foi cair em sua cabeça. Ele abriu os olhos, para ver Shumard e Stiborlk sorrindo. Caron pôs uma caneca de café nas mãos dele. Enquanto tomava o café, Beser verificou seus equipamentos. Tinha disposto todos os mostradores de que precisava para ficarem na altura dos olhos, quando se sentasse no chão. Os instrumentos que precisaria apenas escutar estavam nas prateleiras mais altas. Diversos instrumentos, receptores, monitores direcionais, analisadores de espectro e tradutores, permitiam a Beser verificar os controles de frequência dos caças inimigos e das defesas de terra, assim como dos sinais de radar que podiam detonar a bomba prematuramente. Os fones especiais permitiam-lhe escutar uma frequência diferente em cada ouvido.
Beser preparou os instrumentos, sintonizando e ligando. Num de seus ouvidos, pôde escutar um controlador de terra em Okinawa falando com uma frota de bombardeiros retomando de uma missão. No outro ouvido, soaram breves conversas entre Superdumbos circulando ao largo da costa japonesa. Beser sentiu-se aliviado ao constatar que as equipes de resgate já estavam em suas posições.
Subitamente, o tenente ouviu o sinal do radar japonês a localizá-los.
— O sinal passou uma vez por nós, passou outra vez e depois se fixou. Eu podia ouvir o ritmo constante, enquanto nos acompanhava.
O elemento surpresa, que fora considerado a grande proteção para o Enola Gay, havia desaparecido. Mas Beser decidiu guardar a informação para si mesmo.
— Não era a preocupação de Tibbets naquele momento. E deixaria os outros homens apreensivos, se soubessem que nos estavam vigiando.
Algum tempo depois das 6:30 horas, horário japonês, Jeppson foi para o compartimento da bomba com os três plugs vermelhos. O compartimento não era aquecido e a temperatura era praticamente a mesma do exterior, em torno de 18°C. Cuidadosamente, tirou os plugs verdes e inseriu os vermelhos. A bomba era agora uma arma viável. Ao dar a última volta no último plug, até mesmo o impassível Jeppson não pôde deixar de refletir que aquele era “um momento e tanto”.
Jeppson saiu do compartimento e comunicou a Parsons o que acabara de fazer. Parsons foi à cabine de comando e informou a Tibbets. Ligando o interfone, Tibbets disse à tripulação:
— Estamos carregando a primeira bomba atômica do mundo.
Houve um murmúrio de espanto dos tripulantes. Lewis deixou escapar um assovio baixo e comprido. Agora, tudo fazia sentido.
Tibbets continuou:
— Quando a bomba for lançada, o Tenente Beser vai registrar nossas reações ao que avistarmos. Será uma gravação histórica. Tomem cuidado com a língua e não falem todos ao mesmo tempo.
O comandante fez uma pausa, antes de acrescentar uma palavra final para Caron:
— Bob, você estava certo. Vamos fragmentar átomos. E agora volte para sua torre. Começaremos a subir.
9
Em Hiroxima, o Tenente-Coronel Kakuzo Oya chegou ao Quartel-General do Segundo Exército Geral às sete horas da manhã para revisar o relatório que pretendia apresentar dentro de duas horas, na conferência convocada por Hata. Enquanto verificava o relatório, o Coronel Kumao Imoto e outros oficiais superiores chegaram. Depois que o Tenente-Coronel RiGu e o Coronel Katayama aparecessem, iriam todos para o clube dos oficiais, onde se realizaria a reunião. O Marechal-de-Campo Hata ainda estava em casa, rezando no santuário familiar.
O Capitão Mitsuo Fuchida, herói de Pearl Harbor e agora oficial de operações aéreas da Marinha Imperial japonesa, encontrava-se em Hiroxima há 10 dias, discutindo os planos de defesa para a esperada invasão americana. Fuchida perderia a reunião marcada para aquela manhã. Na tarde anterior, fora chamado às pressas para resolver problemas técnicos que haviam surgido no novo Quartel-General da Marinha em Nara, perto de Kyoto. No momento em que Oya revisava seu relatório, Fuchida ainda estava tentando resolver as dificuldades técnicas no sistema de comunicações em Nara.
Nos campos a oeste de Hiroxima, o Dr. Kaoru Shima estava se demorando mais do que previa com as visitas domiciliares. Fazendo uma verificação dos doentes que ainda teria de ver, o médico calculou que estaria de volta a sua clínica em Hiroxima, mais ou menos ao meio-dia.
* * *
Na base de caças japoneses em Shimonoseki, cerca de 150 quilômetros a sudoeste de Hiroxima, o Segundo-Tenente Matsuo Yasuzawa acionou o motor de seu avião de treinamento de dois lugares.
Yasuzawa, o instrutor de vôo que Yokoyama vira no Aeroporto de Hiroxima com os aprendizes de pilotos kamikazes, já pedira repetidas vezes que o destacassem para missões de combate. Mas o pedido era sempre rejeitado, sob a alegação de que ele era importante demais como instrutor.
Recentemente, percebendo que a rebeldia de Yasuzawa estava chegando a um ponto incontrolável, seu comandante prometera que, em breve, iria permitir que subisse com um avião de treinamento e tentasse derrubar um B-29 atacante. Para Yasuzawa, seria a rippa na saigo, a “morte esplêndida”, sobre a qual os kamikazes tanto lhe haviam falado.
Naquele dia, o instrutor de vôo iria levar um major para a reunião em Hiroxima, convocada pelo Marechal-de-Campo Hata. Esperava chegar à cidade pouco antes das oito horas.
Yasuzawa virou-se para verificar se o passageiro estava bem seguro. Depois, taxiou até a cabeceira da pista, recebeu autorização para a decolagem e iniciou a viagem de 40 minutos de Shimonoseki até Hiroxima. O curso de Yasuzawa fazia um ângulo reto com o curso do Enola Gay, que naquele momento se aproximava do espaço aéreo do Japão.
* *
Às 7:09 horas, a rádio Hiroxima interrompeu sua programação para irradiar outro alerta antiaéreo. Simultaneamente, as sirenes gemeram seu aviso pela cidade. Todos ficaram tensos, à espera das explosões intermitentes que indicariam um ataque iminente.
10
Embora os japoneses não pudessem sabê-lo, o Straight Flush de Claude Eatherly não justificava por si só um alerta antiaéreo.
Enquanto as sirenes soavam em Hiroxima, o B-29 chegava ao ponto inicial designado, a apenas 26 quilômetros da Ponte Aioi. A uma velocidade de 380 quilômetros horários e a uma altitude de 10 mil metros, o Straight Flush seguiu para o ponto de alvo, fazendo exatamente o mesmo percurso que Tibbets e Ferebee haviam escolhido para o Enola Gay.
Eatherly procurou por uma brecha nas nuvens. A princípio, não conseguiu avistar nenhuma. Mas um momento depois, imediatamente a sua frente, divisou uma grande abertura. Dez mil metros abaixo, a cidade estava tão visível que os tripulantes do Straight Flush puderam ver até as manchas verdes de bosques.
Soltando um grito de alegria, Eatherly sobrevoou Hiroxima. Nos arredores da cidade, ele fez a volta e sobrevoou novamente. A abertura nas nuvens continuava no mesmo lugar, um imenso buraco com 15 quilômetros de extensão. O sol passava pela abertura, como se fosse um refletor iluminando a área para os aviadores.
Mais ou menos na mesma ocasião, os aviões que verificariam o tempo em Nagasaki e Kokura descobriram que as condições eram quase tão favoráveis. Todas as três cidades estavam à disposição do Enola Gay, agora a 7.200 metros de altitude e ainda subindo, a uma velocidade de 310 quilômetros horários.
Às 7:24 horas, Nelson desligou o IFF*. Um minuto depois, a 7310 quilociclos, ele recebeu uma mensagem codificada do Straight Flush:
Camada de nuvens menos de 3/10 em todas as altitudes.
Conselho: bombardear primário.
Depois de ler a mensagem, Tibbets ligou o interfone e anunciou:
— Vai ser Hiroxima.
Minutos depois, o Full House e o Jabbit lll transmitiram suas informações. Nelson levou as mensagens transcritas para Tibbets, que as meteu no bolso do macacão. Disse a Nelson que mandasse uma mensagem de uma só palavra para Uanna em Iwo Jima.
— Primário.
* * *
A bordo do Straight Flush, prestes a deixar o espaço aéreo japonês, irrompeu um debate.
Eatherly, como os dois outros comandantes dos aviões de reconhecimento do tempo, tinha ordens expressas de voltar imediatamente para Tinian.
Em vez disso, segundo o engenheiro de vôo dele, Eugene Grennan, Eatherly ligou o interfone e sugeriu que ficassem circulando até que o avião de Tibbets passasse e “depois o seguimos para ver o que vai acontecer, quando a tal bomba explodir”.
Grennan ponderou que “isso não seria muito esperto”. Segundo ele, outro homem argumentou que, “se Tibbets e os outros forem derrubados pela onda de choque, devemos estar por perto para poder informar o que aconteceu”. E assim começou a discussão. Vamos ficar ou vamos embora? Até que finalmente Eatherly disse:
— Ei, pessoal, se não conseguirmos chegar a Tinian antes das duas horas não vamos poder entrar no jogo de pôquer da tarde!
Ao final, todos acabaram concordando que não haveria qualquer emoção em ficarem por ali para assistir ao lançamento de uma bomba.
— O que poderiamos ver? — indagou Eatherly.
E a tripulação do Straight Flush decidiu não assistir à explosão da bomba atômica.
11
Às 7:31, soou, em Hiroxima, o aviso de que o perigo passara. As pessoas relaxaram, acenderam os fogões, prepararam a primeira refeição, e começaram a ler o Chugoku Shimbun.
Hiroshi Yanagita, o Suboficial da Kempei Tai que prendera alguns dos americanos que estavam agora trancafiados em celas no Castelo de Hiroxima, não ouviu nenhum dos alertas antiaéreos daquela noite. Estava na cama, profundamente adormecido, com uma tremenda ressaca. O saquê que bebera na noite anterior, na festa do Marechal-de-Campo Hata, estava causando seus efeitos.
No Monte Futaba, o Segundo-Tenente Tatsuo Yokoyama mantinha seus homens de prontidão na bateria antiaérea. Achou estranho que o avião solitário tivesse feito a volta e sobrevoado a cidade pela segunda vez.
Pediu que a refeição de arroz, sopa, picles e legumes cozidos fosse servida a seus homens na bateria mesmo, enquanto um prato similar seria levado a seu alojamento. Como sinal de respeito, seu ordenança levantou a bandeja com a comida suspensa acima da cabeça, para que sua respiração não caísse sobre os alimentos.
No Castelo de Hiroxima, tigelas de arroz foram deixadas nas celas dos prisioneiros americanos.
Na Clínica Shima, a equipe mudou de turno, enquanto os pacientes comiam. Como era costume nos hospitais japoneses a refeição era preparada e servida por parentes. Por volta das 7:35 horas, a maioria dos parentes estava deixando apressadamente a clínica, para enfrentar outro longo dia de trabalho para o esforço de guerra.
Às 7:40 horas, o avião de dois lugares do Segundo-Tenente Matsuo Yasuzawa pousou no aeroporto. Tinha sido um vôo rápido e sem qualquer complicação. Yasuzawa teve que descobrir para seu passageiro onde seria realizada a reunião. Sentiu-se como um menino de recados.
O príncipe coreano, Tenente-Coronel RiGu, havia esperado que o avião de Yasuzawa passasse antes de montar em seu lindo garanhão branco. O barulho dos motores deixava o cavalo nervoso. O Príncipe RiGu não tinha pressa. Faltava mais de uma hora para o início da conferência convocada por Hata. Num trote suave, o garanhão branco levou RiGu na direção da Ponte Aioi e do Quartel-General.
No centro de Hiroxima, às oito horas, centenas de jovens começaram a trabalhar nas faixas de proteção contra incêndios.
Ali perto, na área do Castelo de Hiroxima, muitos dos 40 mil soldados aquartelados na cidade estavam fazendo sua ginástica matutina. Não muito longe deles, um solitário americano vendado estava também sendo exercitado.
12
A 80 quilômetros da Ponte Aioi, o Enola Gay voava a 10 mil metros de altitude, seguido pelos dois aviões de observação, alguns quilômetros mais atrás. Van Kirk transmitiu pequenas correções no curso para Tibbets.
As 8:05 horas, Van Kirk anunciou:
— Dez minutos para PA.
Em sua apertada torre na cauda, Bob Caron tentou vestir seu colete blindado. Atrapalhado pelas armas e tendo ainda a câmara grande e pesada que lhe deram um momento antes da decolagem, ele acabou desistindo, deixando o colete protetor no chão.
Beser estava observando o controle de frequência dos caças japoneses. Não havia qualquer indicação de atividade. Slibonk examinava atentamente a tela de radar. Shumard espiava por uma das torres transparentes, também à procura de caças inimigas.
Ferebee acomodou-se confortavelmente em seu assento e inclinou-se para a frente, encostando a cabeça no apoio do visor que ele e Tibbets haviam projetado meses antes, em Wendover.
Parsons e Jeppson encontravam-se ajoelhados junto ao painel de controle da bomba. Todas as luzes permaneciam verdes. Parsons levantou-se e seguiu para a cabine de comando.
Ficando sozinho, Jeppson levantou-se também e pôs um pára- quedas. Percebeu que Nelson e Van Kirk o fitavam, curiosos. Os pára-quedas deles continuavam a um canto.
Van Kirk fez outra correção de curso. O Enola Gay voava a 10.400 metros de altitude e a uma velocidade aproximada de 320 quilômetros horários.
Van Kirk gritou para Tibbets pelo interfone:
— PI.
Exatamente na hora, na altitude certa e na velocidade predeterminada, Van Kirk navegara o Enola Gay até o ponto inicial.
Eram 8:12 horas.
* * *
Naquele momento, em Saijo, 30 quilômetros a leste de Hiroxima, um observador avistou o Enola Gay, o Great Artiste e o Nº 91. Girou imediatamente a manivela do telefone de campanha que o ligava com o centro de comunicações no Castelo de Hiroxima e comunicou o que acabara de avistar. O centro era manejado por jovens colegiais, recrutadas para trabalhar como telefonistas. Anotando os detalhes, uma das moças telefonou em seguida para a Rádio Hiroxima. O locutor escreveu rapidamente a mensagem ditada, repetindo-a:
-— Às 8:43 horas, o Exército Regional em Chugoku informa ter avistado três aviões inimigos grandes seguindo para oeste de Saijo. Alerta urgente.
O locutor correu para um estúdio próximo.
Eram 8:14 horas.
Tibbets falou pelo interfone:
— Ponham os óculos de proteção.
Nove dos 12 homens puseram os óculos de proteção Polaroid e se descobriram na mais impenetrável escuridão. Somente Tibbets, Ferebee e Beser mantiveram os óculos na testa. Caso contrário, seria impossível fazerem seu trabalho.
Antes de cobrir os olhos, Lewis fez uma anotação: “Haverá uma breve interrupção enquanto bombardeamos o alvo.”
Faltando 30 segundos, Ferebee gritou que Hiroxima aparecia em seu visor. Beser informou a Parsons que nenhum radar japonês estava ameaçando o fuso de proximidade da bomba.
Tibbets falou rapidamente pelo interfone:
— Fiquem preparados para o solavanco e para a volta!
Ferebee observava os brancos e pretos das fotografias de reconhecimento se transformarem em verdes, cores suaves e as cores mais escuras das construções nos dedos de terra que se estendiam até a Baía de Hiroxima. Os seis tributários do Rio Ota eram pardos, as ruas principais da cidade eram de um cinza metálico. Um tênue nevoeiro pairava sobre a cidade, mas não obscurecia a visão de Ferebee do ponto de alvo, a Ponte Aioi, em forma de T, prestes a entrar nas linhas cruzadas do visor.
— Está no alvo!
Ferebee fez os ajustamentos finais e emitiu o sinal de aviso, um zumbido contínuo, indicando que ele acionara a sincronização automática para os 15 segundos finais antes de a bomba cair.
* * *
A cerca de 1.500 metros na retaguarda, no Great Artiste, o bombardeador Kermit Beahan preparou-se para abrir as portas do compartimento de bombas e lançar os pára-quedas com os medidores.
Três quilômetros atrás, o Nº 91, de Maxquardt, fez uma volta de 90 graus, a fim de estar em posição de tirar as fotografias.
O sinal de aviso de Ferebee foi captado pelas tripulações dos três aviões de reconhecimento de tempo, inclusive pelo de Eatherly, que estava agora a cerca de 350 quilômetros de Hiroxima, voltando para a base.
Foi ouvido em Iwo Jima por McKnight, ainda no assento do piloto do Top Secret. McKnight avisou a Uanna:
— Está prestes a ser lançada.
Precisamente às 8 horas, 15 minutos e 17 segundos, as portas do compartimento de bombas do Enola Gay se abriram e a primeira bomba atômica do mundo desprendeu-se do gancho que a sustentava.
Os cabos de controle soltaram-se da bomba e o sinal de aviso cessou.
O Enola Gay, subitamente cinco toneladas mais leve, elevou-se três metros no ar, com um solavanco.
Na cauda, Caron segurou a máquina fotográfica. Sem ver coisa alguma, por causa dos óculos de proteção, ficou imaginando para que lado deveria apontar.
Tibbets virou o Enola Gay para direita, bruscamente. Ferebee gritou:
— Bomba largada!
Afastou a cabeça do visor e olhou para baixo, pelo plexiglas do nariz do Enola Gay.
Viu a bomba sair do compartimento e as portas se fecharem. Por uma fração de segundo, teve a impressão de que a bomba ficava suspensa no ar, logo abaixo do avião. Depois, ela começou a cair.
— A bomba foi balançando um pouco, até adquirir velocidade. Depois, desceu reta, como deveria acontecer.
* * *
No solo, o Tenente-Coronel Oya estava de pé muna janela do Quartel-General, observando o Enola Gay e o Great Artiste. Os dois bombardeiros pareciam estar mergulhando na direção da cidade.
O Marechal-de-Campo Hata, depois de cuidar da horta e de rezar no santuário, estava-se vestindo para a reunião.
Hiroshi Yanagita, da Kempei Tai, roncava em sua cama, alheio a tudo.
Tatsuo Yokoyama, nu da cintura para cima por causa do calor de verão, estava com uma tigela de arroz suspensa diante da boca, os pauzinhos em posição.
* * *
Tibbets continuou a manter o Enola Gay num mergulho c fazendo uma volta de 155 graus. O Great Artiste de Sweeney estava realizando uma manobra similar, para a esquerda.
Dentro da bomba, o mecanismo de tempo ligou o primeiro disjuntor do circuito de detonação, permitindo que a eletricidade avançasse mais adiante. Tibbets perguntou a Caron se podia ver alguma coisa. Com os braços abertos em sua torre, a força gravitacional lhe tirando o sangue da cabeça, o jovem artilheiro mal conseguiu responder:
— Nada.
Beser, também atordoado com a violência da manobra, olhava para seus instrumentos. Não conseguia levantar a mão para ligar o gravador.
Faltavam agora apenas 20 segundos.
* * *
Lá embaixo, o Príncipe RiGu estava entrando com seu cavalo na Ponte Aioi.
O locutor da Rádio Hiroxima chegou ao estúdio para transmitir o alerta antiaéreo.
No centro de comunicações semi-subterrâneo do Aeroporto de Hiroxima, Yasuzawa perguntava onde seria realizada a reunião de Hata.
Nas faixas vazias contra incêndios, supervisores sopravam seus apitos, avisando a milhares de trabalhadores, muitos deles meninos e meninas, que deveríam correr para as áreas “seguras”.
* * *
A bordo do Enola Gay, Tibbets baixou os óculos de proteção. Não podia ver coisa alguma. Arrancou-os. No nariz do avião, Ferebee nem se dera ao trabalho de pôr os óculos.
O Enola Gay estava chegando ao final de sua curva vertiginosa. Encontrava-se agora a cerca de oito quilômetros do PA de Ferebee e afastando-se da cidade. Tibbets chamou Caron. O artilheiro da cauda informou novamente que nada havia para se ver.
Beser conseguiu finalmente ligar o gravador. Stiborik clareou a tela de radar, a fim de poder vê-la através dos óculos escuros. Duzenbury estava preocupado com os possíveis efeitos da explosão nos motores do Enola Gay.
Jeppson contava. Mais cinco segundos.
Na bomba, o mecanismo barométrico fechou o outro disjuntor, a 3 .500 metros de altitude. O guincho da bomba cortando o ar ainda não podia ser ouvido lá embaixo.
* * *
Em terra, Kazumasa Maruyama ia buscar o Prefeito Awaya, como fazia todas as manhãs.
Na Rádio Hiroxima, o locutor apertou o botão que acionava a sirene de ataque aéreo. Quase sem fôlego, começou a falar pelo microfone:
— Exército Regional em Chugoku informa ter avistado três grandes aviões inimigos seguindo. ..
O detonador da bomba foi ativado a 630 metros do solo.
* * *
Exatamente às 8:16 horas, 43 segundos depois de deixar o Enola Gay, tendo viajado quase dez quilômetros, a bomba atômica errou a Ponte Aioi por 800 metros e explodiu diretamente acima da clínica do Dr. Shima.
* Equipamento ou sistema eletrônico usado para identificar os aviões que se aproximavam, sem saber se se tratava de aparelhos aliados ou do inimigo.