A Bomba de Hiroxima

Gordon Thomas · Capítulo 8 de 10

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A Bomba de Hiroxima

Capítulo 1

 

No início de setembro de 1945, Tibbets, Ferebee e Van Kirk voaram ao Japão, a fim de inspecionar Nagasaki. Depois de percorrer a cidade, uma jornada que não causou qualquer impacto emocional em Tibbets, ele terminou indo fazer compras. E mais tarde recordou:

— Comprei tigelas para arroz e bandejas de madeira esculpidas a mão. Ferebee também fez compras e nos tornamos turistas americanos típicos.

Na América, Tibbets descobriu que era uma personalidade controvertida. Ao contrário de alguns membros de sua tripulação, ele detestava publicidade. Ficou contente ao ser enviado para o Colégio de Guerra Aérea, no Alabama, onde poderia estudar táticas de guerra. Escreveu uma tese sobre “o emprego de bombas atômicas”, aproveitada pelo Comando Aéreo Estratégico dos Estados Unidos, a resposta da América quando a União Soviética assumiu o controle da Europa Oriental.

Ao final da década de 1950, Tibbets serviu na OTAN, na França. Voltou aos Estados Unidos e ao Comando Aéreo Estratégico, novamente numa função de aviador, como gostava.

Casou-se outra vez. Desta vez, seu casamento foi bem-sucedido.

Em maio de 1965, aos 50 anos, já como general, foi designado para diretor substituto da Missão Militar Americana na Índia. Quase 20 anos já se haviam passado desde que voara o Enola Gay sobre Hiroxima. Mas uma semana depois de sua chegada a Nova Délhi, Tibbets foi saudado com virulentas manchetes da imprensa prô- comunista, rotulando-o “o maior assassino do mundo”.

Recebeu uma guarda de gurkhas para proteção. Mas ninguém poderia protegê-lo da perseguição da imprensa. Um embaraçado Departamenteo de Estado chamou Tibbets de volta e fechou a Missão Militar,

Novamente em Washington, Tibbets passou a ocupar um cargo de gabinete. Achava que sua carreira na Força Aérea estava acabada. E decidiu reformar-se depois de 30 anos de serviço ativo, convencido de que era “uma vítima sacrificável” de uma mudança de opinião pública em relação ao que lhe haviam ordenado que fizesse em Hiroxima.

Mesmo fora do serviço ativo, mesmo tendo agora um casamento feliz, ele continuou perto de seu primeiro amor: os aviões. É presidente de uma companhia de jatos executivos no Centro-Oeste e ainda pilota regularmente os jatos Lear e, quando uma rara ocasião aparece, um B-29. Já determinou que, quando morrer, suas cinzas serão espalhadas no céu.

 

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Claude Eatherly, o esfuziante texano cujo comportamento nas horas de folga teria custado sua posição no 509º, se não fosse um piloto excepcional, jamais se adaptou à vida civil. Foi passando cheques sem fundos pelo caminho e cometendo outras falcatruas, com várias estadas em hospitais de tratamento mental para veteranos. A esposa largou-o. Depois de anos de paciente lealdade, até mesmo seu irmão Joe se recusou a continuar aguentando a embriaguez constante e as pequenas falcatruas dele. Como foi que ele se transformou numa espécie de mártir, um Dreyfus americano, o piloto de Hiroxima que enlouqueceu por causa do sentimento de culpa?

Um repórter do Star-Telegram, de Fort Worth, à procura de uma história de interesse humano, esbarrou com Eatherly durante uma visita rotineira a uma cadeia. A manchete da primeira página de seu jornal, a 20 de março de 1957, dizia: HERÓI DA II GUERRA MUNDIAL NA CADEIA. A primeira frase era a seguinte: “O piloto da Força Aérea que levou a primeira missão de bombardeio atômico do mundo para Hiroxima estava preso na cadeia do Condado de Tarrant na quarta-feira ... acusado de um crime contra seu país.” A notícia esclarecia mais adiante o papel de Eatherly como piloto de um dos quatro (sic) aviões de reconhecimento. Mas o mal já estava feito. Eatherly era um “herói” e tinha “levado” a missão de bombardeio. A manchete da primeira página no dia seguinte dizia: HERÓI ALEGA INSANIDADE NAS FRAUDES POSTAIS.

A 1º de abril de 1957, a revista Newsweek publicou uma reportagem sobre o caso. Sua equipe não verificara devidamente os fatos. O mito Eatherly tornou-se nacional e internacional. Diversos escritores europeus aproveitaram a oportunidade para levantar uma nova bandeira: Eatherly estava sendo punido porque proclamara seu sentimento de culpa em relação a Hiroxima. Rapidamente o texano converteu-se numa fachada para grupos que protestavam contra a bomba atômica. Eatherly adorou a publicidade. Finalmente um herói, descobriu-se a repetir as opiniões que lhe haviam sido atribuídas anteriormente.

Em 1964, William Bradford Huie, um repórter de primeira publicou um livro, The Hiroshima Pilot, no qual documentava a fabricação do mito Eatherly com todos os detalhes. Mas os mitos não estão passíveis de esclarecimentos. As pessoas acreditam naquilo que desejam acreditar.

Em 1974, um tumor maligno na garganta privou Eatherly da voz. Mas em 1976, aos 57 anos, novamente casado, pai de duas filhas adolescentes, parecia finalmente ter encontrado a serenidade. Viveu de uma pensão de incapacidade num modesto chalé perto de Houston, Texas, um homem de cabelos brancos, chapéu de palha e botas de cowboy. Faleceu, vitimado pelo câncer, dia 19 de julho de 1978.

 

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A tripulação do Enola Gay seguiu por caminhos diversos. Desde 1945 que eles recebem cartas de ódio, as quais atingem o pique em 6 de agosto. De vez em quando, a polícia é chamada a investigar ameaças de morte. De um modo geral, os homens aprenderam a viver com os insultos e recriminações anônimos.

Beser ainda lamenta que “eu não tenha a oportunidade de lançar a bomba em Berlim, pelo que os alemães fizeram com os judeus”. Ele passa uma boa parte do seu tempo a organizar as reuniões do 509º, que são realizadas de três em três anos.

Em 1971, Lewis fez um leilão de suas anotações durante o vôo, obtendo um lance máximo de 37 mil dólares. O dinheiro ajudou-o a comprar blocos de mármore, no qual esculpe motivos religiosos. Trinta anos depois de Hiroxima, em 1976, ele ainda achava que eram "meu avião” e “minha tripulação” que tinham voado a missão.

Van Kirk voltou à universidade e formou-se em Engenharia Química. Em 1950, ingressou na DuPont, empresa onde continua trabalhando até hoje.

Nelson vive na Califórnia. Caron coleciona coisas das missões atômicas, mas até agora ainda não conseguiu ganhar dinheiro vendendo postais coloridos do Enola Gay.

Duzenbury e Stiborik levam vidas sossegadas e há muito que já deixaram a missão para trás. Shumard morreu em abril de 1967.

Parsons tornou-se contra-almirante. Morreu a 5 de dezembro de 1953. Seu assistente em Hiroxima, Morris Jeppson, é agora um consultor científico.

Ferebee permaneceu na Força Aérea e reformou-se depois de uma passagem pelo Vietnã. Divide seu tempo entre a venda de propriedades imobiliárias e os cuidados com seu jardim e sua horta, na propriedade de um acre em que vive. Ocasionalmente, faz camping. Embora tenha achado sua visita a Nagasaki com Tibbets “horrível”, recorda também as centenas de aviões kamikazes que viu escondidos em hangares camuflados na cidade. Recorda sua experiência passada como primeiro bombardeador atômico do mundo sem qualquer pesar, achando que “era um trabalho que precisava ser feito”.

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Depois da guerra, o Marechal-de-Campo Hata respondeu a um processo como um dos 25 maiores criminosos de guerra do Japão. Foi julgado culpado em 1948 e condenado à prisão perpétua. Morreu em 1962.

O Comandante Hashimoto também esteve envolvido num julgamento: a corte marcial do Capitão do Indianapolis, Charles McVay. A iminente chegada de Hashimoto aos Estados Unidos foi anunciada pela Marinha a 8 de dezembro de 1945, o dia seguinte ao quarto aniversário de Pearl Harbor. O comandante de submarino teve uma recepção fria. Entendia um pouco de inglês e não gostou do que ouviu. Durante o julgamento, achou que muitas vezes o seu depoimento estava sendo traduzido de maneira incorreta.

McVay foi considerado culpado de negligência, e rebaixado. A sentença foi posteriormente revogada. Hashimoto tornou-se comandante de navio mercante, visitando muitas vezes portos americanos e britânicos. Agora aposentado, é sacerdote de um santuário shinto em Kyoto.

O Tenente-Coronel Oya foi interrogado pelos americanos sobre a maneira como tratara os prisioneiros de guerra. Ele tentou esconder o fato de que 10 prisioneiros haviam sido assassinados depois do término da guerra, em Fukuoka, na Ilha Kyushu. Disse aos interrogadores que os prisioneiros haviam morrido em Hiroxima, juntamente com outros que lá estavam. Quando as perguntas se tornavam difíceis, Oya simplesmente apontava para o pescoço ferido e dizia:

— Desde a bomba que minha memória anda ruim.

Em 1976, o tenente-coronel estava vivo e passando bem, visitando frequentemente os Estados Unidos.

Depois da guerra, o herói de Pearl Harbor, Mitsuo Fuchida, converteu-se do budismo para o cristianismo. Fez uma excursão pelos Estados Unidos como “missionário voador”, nem sempre sendo bem recebido pelas audiências. Escreveu um folheto intitulado Nunca Mais Outro Pearl Harbor e passou a não gostar das condecorações e citações militares que continuou a receber. Fuchida morreu a 30 de maio de 1976.

O instrutor de vôo Matsuo Yasuzawa, que levantou vôo de Hiroxima com seu avião avariado, foi proibido de voar pelas forças de ocupação até 1952. Mas, a esta altura, sua visão era deficiente e ele andava atormentado por uma tosse constante. Não conseguiu realizar o sonho de sua vida, ser um piloto civil. Hoje vive frugalmente de uma pequena pensão de incapacitado.

O Suboficial Imai, que ficou escondido em Tinian por mais de um ano, entregou-se em setembro de 1945, o último homem de sua caverna a fazê-lo. É atualmente presidente de uma companhia construtora em Tóquio.

 

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Hoje, Tinian possui uma posição de Comunidade dentro do Comissariado dos Territórios do Pacífico, administrado pelos Estados Unidos. A selva tragou quase todos os sinais do papel da ilha durante a guerra. Cerca de 700 nativos vivem em cabanas em San José, a única aldeia da ilha. Um padre capuchinho cuida das necessidades espirituais dos nativos numa imponente igreja católica. O tabernáculo e a pia batismal são tambores de óleo usados pela Marinha americana na II Guerra Mundial. As paredes internas da igreja são feitas de reboco retirado da Área Técnica do 509º.

 

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A 14 de dezembro de 1970, o General Curtis LeMay recebeu uma citação do agradecido povo de Tinian por “serviços proeminentes” que prestou, “trabalhando incansavelmente para melhorar o bem-estar e os padrões de vida”.

Seis anos antes, LeMay tinha sido condecorado pelo Governo japonês com a Ordem do Sol Nascente, por ter ajudado na formação da força de defesa aérea do Japão no pós-guerra. A condecoração foi criticada pela Dieta, mas Minora Genda, o autor do plano de ataque a Pearl Harbor, defendeu a decisão.

O próprio Genda recebeu, em 1962, a cobiçada Legião do Mérito dos Estados Unidos, concedida pelo Presidente John F. Kennedy. Em 1976, ele era um senador no Parlamento japonês.

 

Hiroxima é hoje uma cidade movimentada, com quase 900 mil habitantes, cerca de três vezes mais do que tinha antes da bomba. Eles raramente falam de 6 de agosto de 1945. Os que ainda apresentam ferimentos procuram não falar nada a ninguém, muitas vezes com um sentimento de culpa por terem vivido, quando tantos outros morreram. O dano da bomba atômica foi deixado como ficou, uma terrível recordação. Ao vê-lo, os visitantes estremecem, desviam o olhar, e seguem adiante.

Em outubro de 1976, Paul Tibbets retornou às manchetes internacionais, quando o ponto alto de um espetáculo aéreo no Texas era o lançamento simulado de uma bomba atômica do B-29 restaurado em que ele voara a missão a Hiroxima. Engenheiros do Exército dos Estados Unidos providenciaram explosivos especiais para fazerem a nuvem em forma de cogumelo.

Muitas pessoas ficaram apavoradas. O Governo japonês protestou e o Governo americano pediu desculpas.

Tibbets pensa que as reações em contrário foram “ridículas”. Assim como os organizadores do espetáculo, ele acha que “a demonstração era simplesmente uma reconstituição histórica, similar a muitas outras promoções realizadas regularmente no mundo inteiro”.

 

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Há alguns anos, o Departamento da Defesa doou o Enola Gay ao Instituto Smithsoniano. Em 1977, o B-29 estava parcialmente desmontado e disperso em um hangar em Silver Spring, Maryland, esperando para ser montado um dia e exibido no novo Museu de Aeronáutica e Espaço, em Washington.