A Bomba de Hiroxima

Gordon Thomas · Capítulo 2 de 10 · parte 1/6

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A Bomba de Hiroxima

Capítulo 1

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

 

O General no comando da Segunda Força Aérea, Uzal G. Ent, levantou a cabeça dos documentos que examinava, quando o Coronel John Lansdale, do Serviço Secreto do Exército dos Estados Unidos, entrou em sua sala com Paul Tibbets.

Ele olhou inquisitivamente para o oficial do serviço secreto.

Lansdale assentiu.

O General Ent apresentou então os dois homens sentados ao lado de sua escrivaninha: o Capitão William “Deak” Parsons, da Marinha dos Estados Unidos, descrito como um “especialista em explosivos”, mas que era na verdade um dos homens mais influentes no Projeto Manhattan; e um civil, o Professor Norman Ramsey, um físico de Harvard, de 29 anos.

O Tenente-Coronel Paul Tibbets ficou impressionado com a relativa juventude de Ramsey, pois sempre imaginara os cientistas como homens de cabelos brancos e ombros encurvados. Para Tibbets, os dois homens pareciam estar em perfeitas condições para voar em missões de combate, apesar de a calvície de Parsons fazê-lo aparentar mais idade do que os seus 44 anos. E ele estranhou que aquele capitão da Marinha estivesse participando de uma reunião que parecia da Força Aérea do Exército.

— Já ouviu falar em energia atômica? — Ramsey possuía a voz firme e incisiva de um professor nato.

— Já, sim — respondeu Tibbets.

— De que maneira?

— Fiz um curso de física e conheço a escala atômica.

Houve uma pausa expectante.

— O que sabe da situação atual no campo da energia atômica? — indagou Parsons.

Tibbets olhou para o General Ent. Não encontrou no rosto impassível nenhum encorajamento. Alguns dias antes, quando fora informado do Projeto Manhattan, Ent também fora advertido de que seria levado à corte marcial se deixasse transpirar qualquer informação a respeito. Tibbets olhou para Lansdale, que lhe fez um aceno quase imperceptível.

O tenente-coronel começou a falar. Ouvira dizer que os alemães estavam tentando fabricar água pesada, a fim de poderem fragmentar o átomo.

— Muito bem! — O elogio gentil de Ramsey era mais apropriado a um campus do que ao gabinete desolado de um general no comando de uma unidade de combate. Ele fez uma pausa, avaliando as palavras antes de pronunciá-las, um maneirismo que Tibbets iria conhecer muito bem. E Ramsey logo continuou: — Os Estados Unidos já conseguiram fragmentar um átomo. Estamos agora trabalhando na fabricação de uma bomba com base nisso. A bomba será tão poderosa que explodirá com a força de 20 mil toneladas de altos explosivos convencionais.

O General Ent comunicou então a Tibbets que ele fora escolhido para lançar a bomba.

Era o dia l.° de setembro de 1944. O local era o Quartel-General da Segunda Força Aérea do Exército dos Estados Unidos, em Colorado Springs.

 

* * *

 

Momentos antes dessa conversa, Lansdale levara Tibbets para o vestiário contíguo à sala do General Ent e lhe fizera uma pergunta altamente pessoal. Tibbets não deixara transparecer qualquer reação. Mas ficara aturdido. Como aquele estranho podia saber de um acontecimento pessoal que ocorrera 10 anos antes — ou teriam sido 12 anos? — uma ocorrência de caráter tão transitório que nem mesmo conseguia recordar-se direito da data? Por que Lansdale andara investigando algo que acontecera há tanto tempo e que não tinha tanta importância assim?

Tibbets compreendeu que essa investida contra sua intimidade, esse ataque a seu auto-respeito, era deliberado. Mas como deveria reagir?

Sabia que a pergunta de Lansdale não tinha nada a ver com o serviço de informações do Exército. Portanto, teria toda razão em não responder. Poderia tranquilamente sair por uma das duas portas do vestiário, sem que nada lhe acontecesse. Aquela porta o levaria de volta ao mundo militar convencional, onde ninguém se atrevería a fazer uma pergunta tão íntima a um herói de guerra tantas vezes condecorado.

Mas Tibbets decidiu contar tudo.

— Está certo. Já fui preso uma vez pela polícia, em North Miami Beach.

— Por quê?

— O Chefe de Polícia de Surfside surpreendeu-me no banco de trás do carro... com uma garota.

Não foi difícil revelar o resto, sua prisão, uma passagem pela cadeia, a intervenção de um juiz que era amigo da família, o escândalo abafado.

Confessando o que acontecera naquele dia distante em Miami, sua aventura com uma garota cujo nome mal conseguia recordar, Paul Tibbets assegurou um lugar na História. Dentro de um ano, seu nome passaria a estar para sempre ligado à destruição de Hiroxima, uma cidade japonesa cuja existência ele desconhecia naquela ocasião.

Até três dias antes, 29 de agosto de 1944, uma terça-feira, Tibbets jamais fora cogitado para a missão. Foi no final da tarde daquela terça-feira que o General Barney Giles, Subchefe do Estado- Maior Aéreo, decidiu substituir o nome do candidato anterior pelo de Tibbets. Lansdale, um dos poucos que conheciam o objetivo do Projeto Manhattan, imediatamente providenciou uma meticulosa investigação sobre Tibbets, ensaiando a cena no vestiário como clímax.

A pergunta de Lansdale sobre um pecadilho sexual de adolescente era o teste final para determinar o caráter de Tibbets. Se ele dissesse a verdade, era o homem talhado para a missão. Lansdale ficou satisfeito.

 

* * *

 

No gabinete do General Ent, Ramsey e Parsons fizeram um resumo objetivo da história e dos problemas da construção da primeira bomba atômica americana. Em seguida, Lansdale assumiu o comando da conversa.

— Coronel, quero que compreenda e jamais se esqueça de uma coisa: a segurança está acima de tudo. Deverá pôr no papel apenas o mínimo indispensável. Dirá àqueles que precisam saber só o que devem saber para desempenhar seus trabalhos da maneira apropriada. Entendido?

— Perfeitamente entendido, Coronel.

O General Ent concluiu a reunião atribuindo formal mente a Tibbets o comando do 393.° Esquadrão de Bombardeio Pesado, com base em Nebrasca. Aquelas 15 tripulações de bombardeiros constituiríam a primeira força de ataque atômico do mundo, capaz de lançar bombas nucleares na Alemanha e Japão. A base de treinamento seria em Wendover, Utah. O nome em código para a parte aérea do projeto seria “Silverplate”, bandeja de prata.

Tibbets perguntou-se por um momento quem teria escolhido um nome tão prosaico para uma arma que “iria evidentemente revolucionar a guerra”. Apesar de todas as explicações, ele ainda não podia acreditar que uma única bomba lançada de um avião pudesse equivaler à força de 20 mil toneladas de explosivos. Normalmente, dois mil bombardeiros seriam necessários para lançar tamanha destruição.

Mas Tibbets tinha outros problemas mais urgentes a tratar para perder tempo com especulações. Precisava reunir alguns dos homens de maior confiança que já haviam servido anteriormente sob as suas ordens. Tinha que inspecionar Wendover e elaborar um programa de treinamento. Além disso, devia preparar-se para trabalhar junto com “um bando de civis que me deixariam dar uma olhada na caixa de Pandora”.

No momento em que Tibbets se preparava para deixar o gabinete, o General Ent lhe falou:

— Coronel, se for bem-sucedido, transformar-se-á num herói. Mas se falhar, será o maior bode expiatório que jamais existiu. Pode até mesmo ir parar na cadeia.

 

2

 

Tibbets era um homem corpulento de estatura mediana, gestos firmes e decididos. Seria difícil imaginar que era um dos maiores pilotos de bombardeiros da América, veterano em combate que voara o primeiro B-17 a atravessar o Canal da Mancha numa missão de bombardeio na II Guerra Mundial; o homem que levara o General Dwight D. Eisenhower e o General Mark Clark a Gibraltar, para planejarem a invasão aliada da África do Norte; o piloto que transportara Clark até a Argélia, pousando num campo que estava sendo bombardeado e metralhado pelo inimigo. Voltando aos Estados Unidos, Tibbets assumira o comando dos testes da nova Superfortaleza Voadora B-29, na ocasião em que se julgava que era um bombardeiro perigoso demais para voar. O novo bombardeiro já matara o seu primeiro piloto de testes. Tibbets era corajoso, acostumado a comandar, capaz de dar e executar ordens com rapidez e eficiência.

Mas havia quem achasse muito difícil trabalhar com ele. Não suportava tolos e, por seus padrões, os tolos eram muitos. Controlado e reservado, parecia ser o paradigma das virtudes militares. Poucos sabiam que escondia sua intensa sensibilidade, mantendo-a sob controle rígido, que por trás da aparência exterior havia um homem tímido, que sofria terrivelmente com a morte em ação de qualquer um de seus homens. Invariavelmente, a expressão em seu rosto era afável e neutra.

Tibbets nasceu em Quiricy, Illinois, em 1915. O pai, fabricante de doces para venda por atacado, era um disciplinador severo, que castigava com vigor qualquer infração às muitas regras que impusera durante os anos de formação do filho. A mãe, Enola Gay, era uma mulher extremamente gentil. Adorava o filho único e se opôs tenaz mente à decisão do marido de enviar Paul, com 13 anos, para a Academia Militar do Oeste, em Alton, Illinois. Mais tarde, foi a mãe quem primeiro o encorajou a estudar Medicina e também quem apoiou a decisão dele, apesar de toda a oposição da família, de ingressar no Corpo Aéreo do Exército americano. Ela aceitou sem maiores dificuldades a decisão do filho de abandonar a Medicina para se tornar aviador. Mas, naqueles dias difíceis posteriores à Depressão, a carreira militar não era encarada muito favoravelmente pela classe média, da qual o pai de Paul Tibbets era um dos pilares. Quando o filho se alistou, em 1937, as últimas palavras do pai a respeito do assunto foram:

— A partir de agora, terá que se arranjar sozinho.

A mãe reagiu de maneira diferente, dizendo:

— Filho, tenho certeza de que algum dia ainda nos iremos orgulhar de você.

Recomendou-lhe que sempre se “vestisse impecavelmente”, jamais prometesse algo que não pudesse fazer e sempre dissesse a verdade.

E foi porque sempre seguiu os conselhos da mãe que Tibbets respondeu com a verdade à pergunta íntima de Lansdale.

3

 

Ao assumir o comando do Projeto Manhattan, o General Leslie Groves somente era responsável perante o Secretário da Guerra, Henry Stimson, e, através dele, o Presidente Roosevelt.

Ambos sabiam mais sobre Groves, um homem de atitudes antiquadas, do que sobre qualquer outro oficial das Forças Armadas. Uma investigação do FBI, a única ocasião em que este departamento esteve envolvido no projeto atômico, havia revelado a paixão de Groves por doces, sua preocupação com a gordura da meia-idade, o hábito de jogar tênis, e a capacidade de resolver complicados problemas matemáticos enquanto comia. A investigação revelou, também, que Groves era conhecido como “Greasy” (Seboso) em West Point, que tinha poucos interesses fora do trabalho, que seu casamento era feliz e estável.

Stimson conhecia também os antecedentes profissionais dele. Groves formara-se em Engenharia Militar em West Point, e, tendo sido um aluno excepcional, ajudara a construir o Pentágono e era considerado “o melhor construtor de quartéis do Exército”.

A folha de serviços indicava que Groves era um homem que sabia abreviar prazos, reduzia as despesas ao máximo, era obstinado na execução das tarefas de que o incumbiam, trabalhava incansavelmente e sabia ser flexível nos momentos necessários. Estava acostumado a trabalhar dentro dos prazos e orçamentos. Dava um jeito para que tudo se fizesse a contento. Embora tivesse a tendência de desafiar os superiores e incutir medo aos subordinados, Groves parecia a melhor escolha possível para dirigir o maior projeto militar do mundo.

Desde o início, o general trabalhou 15 horas por dia, sete dias por semana. Desistiu do tênis e começou a engordar, mantendo-se à custa de quilos e quilos de chocolate, que deixava no mesmo cofre onde eram guardados os mais importantes segredos do projeto.

Mas Groves não era apenas um construtor a se deslocar de um ponto para outro com os bolsos estofados de chocolate. Até mesmo seus amigos no projeto, e não eram muitos, achavam, no dizer de um deles, que Groves “não apenas se comporta como se pudesse andar sobre a água, mas também como se realmente tivesse inventado a substância”. Outro, menos cruel, comentou que “ele possui o ego mais impressionante desde Napoleão”.

Com 48 anos, um vocabulário capaz de fazer corar até mesmo um carroceiro, embora muitos achassem que era mais enervante o profundo suspiro diante de um contratempo, Groves vinha do mesmo molde de onde tinham saído MacArthur e Patton.

Ultimamente, ninguém podia suportar a verdadeira barragem de ordens e exigências dele. A oposição era esmagada, os argumentos em contrário eram desprezados e encerrados abruptamente com um “Já chega!” Groves dava ordens a magnatas da indústria como se fossem soldados rasos, levava sua força de trabalho à mais completa exaustão, enquanto ia expandindo seu império.

Intimidando, lisonjeando, pressionando, exigindo, de vez em quando elogiando, raramente pedindo desculpas, Groves realizara uma façanha que ele próprio julgara antes impossível: em dois anos, levara a bomba atômica do estágio de simples projeto no papel ao ponto em que dentro em breve tudo estaria pronto para o primeiro teste.

Groves não permitiría que coisa alguma detivesse esse impulso.

Tinha aprovado pessoalmente a escolha de Tibbets para comandante da força especial de ataque atômico, achando que era um oficial com todas as qualidades necessárias para a missão.

 

* * *

Trabalhando num gabinete temporário no Pentágono, Tibbets não demorou a descobrir, uma semana depois do encontro em Colorado Springs, como eram vastos os poderes de que fora investido. Podia conseguir qualquer coisa que desejasse, bastando mencionar o nome mágico de Silverplate. Usando esse prefixo, ele determinou uma busca de alguns dos homens que serviram sob suas ordens na Europa, África do Norte e no programa de testes e treinamento do B29. Alguns já tinham sido localizados e estavam a caminho de Wendover, Utah; outros ainda continuavam sendo procurados.

No Pentágono, o General Henry Arnold, Comandante da Força Aérea do Exército, lhe dissera:

— Coronel, se encontrar alguma dificuldade com quem quer que seja, pode procurar-me imediatamente.

Arnold designara dois oficiais superiores para servirem de ligação com Tibbets, quando ele fosse para Wendover. A ordem do General para esses dois oficiais fora simples e clara:

— Tratem de providenciar sem demora tudo o que ele pedir.

Tibbets passara por Wendover no caminho de Colorado Springs para Washington. E achara-o um local “perfeito, no fim do mundo”. Pelo ar, era perto o bastante de Los Alamos, o que era importante, pois Ramsey advertira-o de que seria “chamado pelos cientistas dia e noite”. Ficava a apenas 800 quilômetros pelo ar do Mar de Salton, na Califórnia Meridional, um alcance de bombardeio ideal. As próprias características de Wendover simplificariam consideravelmente as medidas de segurança. As instalações já existentes na base permitiríam uma ocupação imediata.

Tibbets sabia que seus homens detestariam o lugar.

Mas planejava fazer com que trabalhassem tão arduamente que não encontrariam tempo para pensar no ambiente.

A esta altura, Tibbets já calculara que só havia dois alvos possíveis para ele bombardear: Berlim ou Tóquio. Achava que a capital japonesa era mais provável, pois a guerra na Europa já se aproximava do estágio decisivo.

Se o objetivo fosse o Japão, iria precisar de uma base próxima, dentro da distância de autonomia de vôo dos seus bombardeiros.

Ele se recordou de ter lido a notícia de que os fuzileiros navais americanos haviam recentemente capturado as Ilhas Marianas, no Pacífico. Os jornais tinham falado numa determinada ilha, onde ”os seabees (nome dado aos homens dos batalhões de construção naval) iriam construir o maior porta-aviões do mundo”. O nome dessa ilha era Tinian.

Tibbets guardou-o na memória, pois ficava a apenas 2.100 quilômetros do Japão.

 

4

 

A queda de Tinian, no final de julho, não abalara a crença do Segundo-Tenente Tatsuo Yokoyama na invencibilidade do Exército Imperial japonês.

Naquela tarde de setembro, como sempre acontecia antes dos exercícios de artilharia, aos 40 homens da guarnição da bateria de canhões antiaéreos no Monte Futaba, a nordeste de Hiroxima, ouviram uma preleção de seu jovem comandante, sobre a necessidade de manter a fé nas afirmativas do Alto Comando japonês sobre a vitória final.

Na aparência, Yokoyama assemelhava-se, a princípio, à caricatura clássica de incontáveis cartoons americanos: os dentes grandes, os olhos enviesados, a testa inclinada, o corpo magro numa túnica folgada, perneiras sujas nas pernas tortas.

Mas a aparência enganava. Yokoyama era um exímio atirador, podendo acertar no alvo a 700 metros de distância. Era capaz de carregar 400 cartuchos de munição, o dobro de um soldado de infantaria americano, e estava preparado para sobreviver com uma tigela de arroz e peixe por vários dias. Considerava a rendição como a maior vergonha que poderia infligir a sua família e a seu país. Profundamente religioso e extremamente patriota, acreditava piamente na divindade do Imperador e no dever sagrado do Exército de proteger Sua Majestade. Não pouparia sua família, seus soldados ou a si mesmo para servir ao Imperador.

Yokoyama tinha três heróis: o primeiro era Minoru Genda, o jovem oficial que convencera o Alto Comando de que era possível e militarmente desejável desfechar um ataque aéreo contra Pearl Harbor, com base em porta-aviões; o segundo era o Capitão Mitsuo Fuchida, amigo íntimo de Genda, que comandara os 354 aviões na missão do Havaí. Ambos tinham ligações com a cidade onde Yokoyama estava agora baseado. Genda tinha parentes em Hiroxima, e Fuchida volta e meia visitava amigos que ali residiam. O terceiro herói de Yokoyama era o General Hideki Tojo, “O Navalha”, o homem que arquitetara a guerra.

Yokoyama disse a seus homens que deveriam encarar a “retirada” das Ilhas de Saipan, Tinian e Guam, nas Marianas, como uma ação predeterminada, parte de um plano cuidadosamente elaborado visando a atrair o inimigo para perto do Japão.

Como todos sabiam, havia no Japão, à espera, um poderoso exército, ansioso em desfechar um golpe fatal na América e seus aliados. Os americanos podiam ganhar uma batalha, recordou Yokoyama a seus homens, mas o Japão jamais perdera uma guerra, desde 1598. A “retirada” japonesa das Marianas significava que se estava aproximando o dia em que bombardeiros inimigos decolariam de lá em missão contra o Japão e ficariam ao alcance de seus canhões antiaéreos.

Na expectativa desse momento, exigia o máximo de seus homens, durante os treinamentos. Eles sabiam que Yokoyama os puniría severamente ao primeiro sinal de descuido e negligência. Sob as ordens do tenente, os canhões deslocavam-se rapidamente nas engrenagens bem azeitadas, os canos finos apontando para todos os lados do céu de Hiroxima.

Yokoyama se deslocava entre os artilheiros, dizendo-lhes que imaginassem que estava em plena ação. Subitamente, um dos canhões emperrou. O oficial notou que um pedaço de estopa fora deixado nas engrenagens. Furioso, interrompeu o exercício e ordenou que a guarnição desmontasse, limpasse meticulosamente e montasse novamente o canhão. Voltou em seguida a seus alojamentos, a fim de relatar o incidente em seu livro de registros e pensar numa punição apropriada para a negligente guarnição. Decidiu que daria dois exercícios extras.

Mas antes de tomar qualquer providência, iria desfrutar o ritual que realizava todo fim de tarde. Da janela do alojamento, contemplou a cidade através dos binóculos. Sabia que pouco teria mudado nas últimas 24 horas, mas o panorama sempre o tranquilizava.

Ao contemplar a cidade pela primeira vez do seu ponto de observação quase no topo do Monte Futaba, cerca de um ano antes, Yokoyama ficara impressionado com um fato estranho: Hiroxima parecia uma mão humana. Estendendo a mão direita, com a palma para baixo, ele reproduzia os contornos aproximados da cidade. O porto ficava nas pontas dos dedos ao sul. Mas além, estavam as profundezas da Baía de Hiroxima e o Mar Interior. O pulso correspondia à região em que o Rio Ota terminava a descida ininterrupta das colinas ao norte e se abria num delta amplo parecendo um leque. Eram seis canais principais, que dividiam a cidade em ilhas, ligadas por 81 pontes. Bem no meio da mão erguia-se o Castelo de Hiroxima, o centro de um gigantesco complexo militar.

Yokoyama divertiu-se identificando as diversas instalações e situando-as em posições correspondentes na palma de sua mão. Na ponta do dedo indicador, estava o Aeroporto de Hiroxima, com sua imensa base militar. No polegar, ficavam as Indústrias Toyo, que fabricavam rifles e bases para canhões de navios de guerra. Na extremidade do dedo mínimo, localizavam-se as instalações da Mitsubishi, com seus estaleiros e guindastes.

Aquelas fábricas grandes e as dezenas de outras menores espalhadas pela cidade funcionavam em diversos turnos, 24 horas por dia. Uma lei recente determinara que até mesmo as crianças em idade escolar deveríam trabalhar oito horas por dia, fabricando armas. Quase todos os homens, mulheres e crianças da cidade estavam empenhados no esforço de guerra.

Naquele momento, setembro de 1944, a maioria das fábricas de Hiroxima enfrentava uma terrível escassez de materiais. Os barcos utilizados no patrulhamento costeiro estavam parados por falta de combustível e os vôos de treinamento foram consideravelmente reduzidos.

Mas naquela tarde a guerra parecia tão remota como sempre o fora para Yokoyama. A cidade lá embaixo era pacífica, em emaranhado de tetos escuros, cercada por colinas e picos verdes.

Porém, na opinião de Yokoyama, Hiroxima era altamente vulnerável a um ataque aéreo. Bastava um bombardeiro largar sua carga naquela tigela natural, formada pelo delta e pelas colinas, para causar grandes danos. À exceção de uma colina em formato de rim, no setor leste, com cerca de 800 metros de extensão a 60 metros de altura, a cidade estava uniformemente exposta às ondas de choque geradas pelas grandes bombas.

Estruturalmente, como São Francisco por ocasião do terremoto e incêndio de 1906, Hiroxima era construída para arder facilmente. Noventa por cento das casas eram de madeira. Havia grandes amontoados de construções coladas umas nas outras. Ao contrário de São Francisco em 1906, ela em 1944, possuía equipamento de combate a incêndios antiquado e pessoal mal treinado.

Do ponto em que estava, Yokoyama podia ver claramente os limites da cidade. Apenas 35 dos 70 quilômetros quadrados de Hiroxima estavam construídos, sendo que somente 20 eram densamente habitados. Mas em cada um desses 20 quilômetros quadrados amontoavam-se cerca de 15 mil pessoas. A bateria no Monte Futaba, sob o comando de Yokoyama, ali se encontrava para protegê-las.

Yokoyama verificou que os canhões já estavam prontos. Outro exercício começou. Os homens estavam nus da cintura para cima, suando bastante ao calor do fim de tarde. Carregar, mirar, descarregar. Uma nova direção. Carregar, mirar, descarregar. Uma ritual de ordens ríspidas e resmungos.

O tenente estava agora satisfeito com os homens, com a maneira pela qual reagiam prontamente a suas ordens. Eram as mesmas que dava em cada exercício, desde que a bateria fora destacada como parte do sistema de defesa antiaérea de Hiroxima, em maio de 1943. Vinte e um canhões de calibres diversos defendiam agora a cidade. Ainda não haviam sido disparados em combate no terceiro ano da guerra.

O exercício terminou, os homens começaram a descansar. Foi nesse momento que Yokoyama ordenou o primeiro exercício da punição. Assim que este terminou, ordenou o segundo, observando atentamente, a fim de verificar se havia qualquer sinal de relaxamento. Aquilo serviría como advertência aos homens para a possibilidade de punições ainda mais rigorosas.

Finalmente satisfeito, deu por encerrado o exercício e seguiu com seus homens para os alojamentos. Ali, como sempre fazia, escutou atentamente a conversa dos membros da guarnição. Era parte de sua obrigação, assim como deveria também comer, beber e cantar com seus homens, emprestar-lhes dinheiro do próprio bolso, convidá-los a visitar a casa de seus pais em Tóquio. Era esse o comportamento tradicional de um oficial japonês, promovendo um sentimento de camaradagem, estimulando um relacionamento em que representava ao mesmo tempo o papel de pai e de amigo íntimo. Era o que ajudava a tornar o Exército Imperial japonês tão formidável.

Naquela noite, os homens fizeram-lhe uma pergunta familiar: quando teriam alguma ação de verdade?

Yokoyama compreendia perfeitamente o desejo de lutar de seus homens. Era parte da tradição samurai, da história de dois mil anos do Japão. A vontade de entrar em combate somava-se à ausência de medo. O Japão, mais que qualquer outra nação, extirpara o medo de seus guerreiros. A morte era para eles uma parte da vida.

O tenente falou a seus homens que fossem pacientes. Mas estava preocupado com a possibilidade de eles jamais terem a oportunidade de disparar os canhões, de experimentarem aquele excitamento especial. Seria verdadeira a história que lhe haviam contado? A informação fora dada por um homem que trabalhava no governo local. A princípio, Yokoyama se recusara terminantemente a acreditar. Mas o amigo insistira, afirmando que ouvira de “altas fontes”. Será que existia mesmo um fundo de verdade na história, segundo a qual os parentes de habitantes de Hiroxima que viviam em São Francisco e Los Angeles haviam pedido a Roosevelt que poupasse a cidade de ataques e que o Presidente americano concordara em fazê-lo, como um “gesto de boa vontade”?

Se isso fosse verdade, os bombardeiros inimigos jamais sobrevoariam à cidade e todos os exercícios comandados por Yokoyama teriam sido em vão.

 

5

 

Tibbets chegou a Wendover três dias antes do 393.° Esquadrão de Bombardeio Pesado. A previsão que fizera se confirmou. Os oficiais e praças detestaram Wendover, o calor intenso, o deserto inóspito, as acomodações rudimentares, a poeira, a água potável de gosto horrível, os cupins e os ratos, o isolamento.

E detestavam também não saberem por que estavam ali.

A 12 de setembro, em sua segunda manhã na base, os homens descobriram ao despertar um novo motivo para terem raiva do local. Estavam agora inteiramente cercados por arame farpado. Dentro do perímetro, havia diversos cartazes de advertência. O maior, ao lado do portão de saída da base, dizia:

 

O QUE OUVIR AQUI

O QUE VIR AQUI

DEVE DEIXAR AQUI

QUANDO SAIR DAQUI

Sentinelas detinham todas as pessoas que saíam.

Havia também rolos de arame farpado barrando o acesso a alguns hangares e oficinas. Placas recentemente pintadas informavam que, por trás do arame farpado, encontravam-se as instalações e depósitos de material bélico, armamentos, engenharia e radar. Em cada cartaz havia um aviso:

 

ZONA PROIBIDA

 

A cerca de arame farpado era reforçada em torno do hangar n.° 6, onde uma placa anunciava:

 

ÁREA TÉCNICA “C”

ZONA RIGOROSAMENTE PROIBIDA

 

O que era uma Área Técnica? E por que “C”? Onde estavam a “A” e a “B”? Ninguém sabia.

Os que tentavam passar pelos homens da Polícia Militar que guardavam a Área Técnica eram rispidamente informados de que seriam presos se insistissem.

Uma semana antes, ao final de seu treinamento em Nebrasca, os homens do 393.° Esquadrão ficaram orgulhosos por terem alcançado uma média de eficiência acima do normal. Esperavam partir em breve para o exterior. Os mais empreendedores compraram estoques de meias de seda, sabonetes e perfumes, a fim de tentarem as garotas francesas e inglesas, das quais tanto ouviam falar. Um sargento empacotara sua coleção de discos de 78 de jitterbug, planejando vendê-la no mercado negro de Londres.

Mas o 393.° fora despachado para Wendover.

Não havia bombardeiros em Wendover, apenas alguns velhos aviões de transporte. Correra o rumor de que tinha ido a Wendover pegar alguns B-29 recém-saídos da fábrica. Mas onde estavam os aparelhos? E por que tinham ido buscá-los ali?

Ninguém sabia.

O otimismo não demorou a definhar. Outros rumores surgiram, espalharam-se, sumiram. Os oficiais também não tinham a menor idéia do que estava acontecendo. O Oficial-Comandante, Tenente- Coronel Thomas Classen, ao chegar entrara no quartel-general da base e desde então quase não era visto. Nas raras ocasiões em que aparecia, Classen recusava-se a responder a qualquer pergunta.

Na manhã seguinte, na hora do café, os PMs estavam em toda parte, as motocicletas e jipes levantando nuvens de poeira. O 393.° nunca provara tanta areia. Impregnava-se nas roupas, na pele, na comida. O sabor dos cereais e ovos comidos naquela manhã vinha dos grandes bancos de sal em torno da base.

Depois da refeição, o esquadrão se reuniu para ouvir o oficial de informações, Capitão Joseph Buscher, tentar esclarecer a situação. E todos ficaram aturdidos quando ele disse que, sendo advogado, estava acostumado a fazer apelos. . . e agora apelava para que dessem “uma chance a este lugar”.

Buscher admitiu que não lhes podia dizer por que estava ali, mas que podia informá-los de que estavam a “apenas 200 quilômetros” de Salt Lake City, Utah. Elko, em Nevada, ficava “igualmente perto”. O capitão esperava que todos achassem Wendover “fascinante”. A cidadezinha, com uma população de 103 habitantes, estava dividida ao meio pela linha fronteiriça entre Utah e Nevada. Metade da população de Wendover vivia de acordo com as leis da Igreja Mórmon de Utah. Na outra metade da cidade, havia bares e máquinas caça-níqueis.

— E não há mulheres?

Quem fez a pergunta foi o Capitão Claude Eatherly, um piloto alto e bonito, com um prazer todo especial por mulheres, cartas e uma garrafa de bourbon. Com seu sorriso de garoto travesso, fala arrastada do Texas e um estoque inesgotável de piadas, Eatherly era o playboy do esquadrão.

Buscher ignorou a pergunta de Eatherly e pôs-se a falar sobre como os bancos de sal se haviam formado, dos carroções de pioneiros que ali haviam afundado em 1846. Para aqueles que gostavam de fazer explorações, ainda se podiam encontrar as trilhas das rodas dos carroções.

— Nossos ossos vão acabar junto com os carroções, se ficarmos aqui!

Quem assim falou foi um frustrado Primeiro-Tenente Jacob Beser, oficial de radar do esquadrão. Ele ansiava por muita ação. Quando a Inglaterra entrara na guerra, o rapaz tentara ingressar na RAF, a Royal Air Force. Seus pais haviam impedido, insistindo para que concluísse primeiro o curso de Engenharia na Universidade John Hopkins. No dia seguinte a Pearl Harbor, Beser passara por cima da oposição dos pais e se alistara na Força Aérea do Exército. Acabara-se tornando um dos melhores oficiais de radar do serviço. O radar era algo novo e sua importância aumentava rapidamente. O que não impressionava o tenente, a menos que pudesse utilizar seus conhecimentos “para matar alguns nazistas”.

Beser era judeu. Um homem magro mas vigoroso, de inteligência extremamente ágil, com grande orgulho de suas raízes de classe media, possuía opiniões formadas praticamente sobre qualquer coisa . O que nem sempre o tornava popular. Os outros oficiais achavam-no “esquisito”. As praças consideravam-no um “sabichão”, porque tinha curso universitário.

Quando o esquadrão fora deslocado para Wendover, Beser solicitara sua transferência para uma unidade de combate. O pedido fora recusado.

Mas naquele momento, escutando os esforços de Buscher para louvar as virtudes de Wendover, Beser subitamente começou a sentir-se animado.

— O lugar era tão horrível que tinha de haver uma razão muito boa para estarmos ali — recordou ele mais tarde.

 

* * *

 

Um velho amigo de Tibbets, o Major Thomas Ferebee, também estava em Wendover. Uma folha de atuação em combate espetacular, com incontáveis missões na Europa, transformavam Ferebee num dos mais veteranos e respeitados comandantes de bombardeiros da Força Aérea. Era a escolha perfeita para treinar os bombardeadores do 393.° nas técnicas de bombardeios de precisão, que o Professor Ramsey dissera a Tibbets que seriam essenciais para o lançamento de uma bomba atômica.

Embora ficasse contente por rever Ferebee, problemas inesperados impediram Tibbets de sentar-se por alguns minutos para uma conversa descontraída com o amigo.

Para começar, havia o problema da posição delicada de Classen. O comandante do 393.° era um veterano do Pacífico, com uma folha de combate de primeira. Suas qualidades de liderança haviam transformado o esquadrão numa unidade coesa. Transferi-lo, a esta altura dos acontecimentos, seria inconcebível. Tibbets conversou com o colega sobre a situação, explicando que o esquadrão passaria a ter dois comandantes: Classen seria o responsável pelo comando do dia-a-dia, enquanto ele, Tibbets, tomaria todas as decisões políticas importantes. Disse também que tinha certeza de que esse esquema bastante incomum daria certo. Classen não demonstrara qualquer reação.

Tibbets tentara atenuar a situação, dando algumas informações a Classen sobre a missão singular de que tinham sido incumbidos. Esperava assim criar um clima de responsabilidade igualmente partilhada , a não ser em algumas “pequenas áreas”. Mas depois que o colega se retirou, Tibbets ficou pensando se o comando duplo seria realmente possível.

Mas outros problemas logo afastaram sua mente de tais pensamentos .

Desde o café da manhã que dois homens estavam reunidos com ele, a portas fechadas. Tibbets conhecia muito bem o mais velho, o Tenente-Coronel Hazen Payette servira com ele na Inglaterra e África do Norte como oficial de informações. Um homem astuto e atento aos menores detalhes, Payette estava em Wendover para supervisionar a segurança, a pedido do próprio Tibbets.

O Major William L. “Bud” Uanna chegara sem ser anunciado. Explicou polidamente que o Coronel Lansdale o enviara, juntamente com cerca de 30 agentes destacados para o Projeto Manhattan, a fim de ajudar a “policiar” o 393.°.

Tibbets gostou do estilo de Uanna. Era um homem simpático e objetivo, que não se interessava por qualquer outra coisa senão o seu trabalho.

O major chegara com uma pasta cheia de documentos. As fichas que ali estavam serviam para recordar a Tibbets dos vastos recursos colocados à disposição do Projeto Manhattan.

Havia uma ficha detalhada de cada integrante do 393.°. As informações foram colhidas junto às famílias, amigos, históricos escolares, em empregos anteriores e antecedentes médicos.

Muitos milhares de homens-hora e dólares haviam sido gastos para escutar telefonemas, abrir cartas, obter informações sobre casos extraconjugais, tendências homossexuais e inclinações políticas. As fichas representavam a mais completa e meticulosa investigação de um grupo de pessoas até então realizada em nome do Governo dos Estados Unidos.

Uanna apresentou a ficha de Eatherly. Dizia que se tratava de um jogador obcecado, com um “problema emocional”.

Tibbets examinou a folha de serviços de Eatherly. Ele tinha 107 horas de vôo levando Lockheed Hudsons para o Canadá, 103 horas voando LB-30s, um período em patrulhas anti-submarinas na zona do Canal do Panamá, transferências regulares e normais de um esquadrão para outro. Era uma folha de serviço sem qualquer anormalidade. Os relatórios anteriores sobre Eatherly falavam de sua “impetuosidade” e diziam que era um “extrovertido”. O comandante conhecia bem o tipo. Voara com “texanos impetuosos” na Europa. Frequentemente se metiam em encrencas quando estavam em terra. Mas eram bons pilotos. Tibbets decidiu que deixaria Eatherly permanecer no 393.°.

Ao final da manhã, os brincalhões do 393.° estavam começando a perder a graça. Um deles fora asperamente censurado por um PM, ao tentar colocar numa parede da base um cartaz em que estava escrito:

 

SEJA BEM-VINDO A ALCATRAZ

 

As primeiras cartas estavam sendo escritas. Muitas delas continham a frase inevitável: Wendover é um bom lugar para se estar. . . longe.

Os agentes de Uanna tinham-se infiltrado no esquadrão, com documentos forjados que lhes permitiam passar por escriturários, cozinheiros e até mesmo encarregados do lixo. O Capitão James Strudwick descobriu um homem verificando a instalação elétrica de seu alojamento. Só que o homem não sabia distinguir entre um fio positivo e um negativo. O oficial do rancho Charles Perry encontrou no rancho dois homens que não sabiam qual a diferença entre “uma concha de sopa e um facão de cortar carne”. O Subcomandante John King ficou atônito ao ver “um homem vestido num macacão de mecânico cujas mãos eram lisas, prova evidente de que jamais segurara uma chave de porca”.

Mas nem todos os recém-chegados eram agentes de segurança.

O Sargento George Caron chegou empoeirado e sedento de uma jornada através da América, com o colarinho desabotoado e usando uma jaqueta de vôo, uma dupla infração dos regulamentos militares.

Os PMs no portão da base detiveram imediatamente o pequeno artilheiro. Levaram-no para a sala de ordens do prédio do Quartel- General. Ali, um PM começou a censurar Caron.

Subitamente, de uma sala contígua, Caron ouviu uma voz familiar:

— É você, Bob?

— Claro que sou, Coronel!

Tibbets era um dos poucos oficiais que chamava Caron pelo apelido de “Bob”.

— Pois venha até aqui!

Sorrindo maliciosamente para o desconcertado PM, Caron deixou a sala de ordens e foi-se encontrar com Tibbets. Os dois se cumprimentaram como velhos companheiros que eram.

Caron fora instrutor de artilharia durante o programa de treinamento dos B-29 dirigido por Tibbets. Com os pés em cima da escrivaninha, Tibbets explicou ao artilheiro por que o mandara chamar.

— Bob, preciso de um homem que saiba o que está fazendo. . . e possa ensinar os outros a fazerem a mesma coisa. E fazer com que todos fiquem de boca fechada.

— Coronel, não vou nem dizer a ninguém que estou aqui!

Tibbets sorriu, estabelecendo o relacionamento cordial que sempre haviam tido anteriormente. Ele não achava nada de extraordinário fornecer informações a um simples sargento, enquanto oficiais do 393.° continuavam a não ter a menor idéia do que estava acontecendo. Tibbets preferia agir assim, conversando primeiro com os homens que já lhe haviam provado do que eram capazes. O comandante entendia que as prerrogativas de posto tinham seus limites. Todos os homens, independente de seus galões, tinham que conquistar o direito à sua confiança.

Durante o programa de treinamento de B-29, os circunstantes haviam feito comentários mordazes sobre “a força aérea particular de Tibbets”. Ele se limitara a dar de ombros, não ligando a menor importância às críticas. Pretendia adotar a mesma política em Wendover, às vezes confidenciando a graduados informações que não daria a oficiais.

Na primeira vez em que viu sua nova unidade reunida, Tibbets não ficou muito impressionado. Os homens esforçavam-se arduamente em parecer despreocupados, “da maneira como tinham visto Alan Ladd fazer nos filmes”. O comandante achou que pareciam muito inexperientes. Calculou que a maioria dos oficiais devia estar na casa dos vinte e poucos anos. Os graduados pareciam ainda mais jovens. Ferebee e Caron sabem por que estamos aqui, pensou Tibbets, enquanto os outros procuram fingir que sabem.

O oficial impecavelmente uniformizado, erecto e rígido, parado à frente da unidade formada devia ser o subcomandante, King, pensou Tibbets. Classen já lhe falara a respeito de King, um oficial de carreira. Era um oficial exigente e duro, mas justo. A julgar pelos relatórios de Uanna, a unidade precisava de um homem assim.

Mais tarde, os homens do 393.° concordaram que, naquele primeiro contato, Tibbets pareceu-lhes um homem duro, implacável e mal-humorado. Um oficial fez o seguinte comentário:

— Ele dava a impressão de que o menor erro de nossa parte seria suficiente para que alegremente nos fritasse para o café da manhã e usasse o que sobrasse para alimentar sua estufa de noite.

Beser pensou: esse é o homem com quem eu gostaria de ir para a guerra. Sentindo o olhar de Tibbets fixar-se nele, o oficial de radar desejou não ter deixado o quepe tão inclinado para trás na cabeça.

O comando ensinara um expediente sempre proveitoso a Tibbets: era preciso surpreender os subordinados, abalá-los com o inesperado. E foi por isso que ele disse abruptamente:

— Estou olhando para vocês. E vocês estão olhando para mim. Não vou ficar impressionado com todos vocês. Mas aqueles que continuarem aqui, vão ficar impressionados comigo.

Aquele era um novo Tibbets para Caron. Ele não pôde deixar de partilhar a expectativa a seu redor. Tibbets continuou:

“Foram trazidos para cá a fim de trabalhar numa missão muito especial. Aqueles que ficarem, irão para o exterior.

Os homens deixaram escapar murmúrios de satisfação. Tibbets fez com que se calassem com um olhar frio.

“Isto não é um jogo de futebol. Estão aqui para participar de um esforço que pode apressar o fim da guerra.

Desta vez, Tibbets deixou que o murmúrio surgisse e morresse sem interferência. Os homens já estavam sob seu controle.

“Não perguntem qual é a missão. É a maneira mais segura para serem transferidos. Não façam perguntas. Não respondam a perguntas de quem quer que seja que não esteja diretamente envolvido no trabalho que estão fazendo. Façam exatamente o que lhes for mandado, no momento em que mandarem, e não terão quaisquer problemas.

“Sei que muitos estão curiosos com as medidas excepcionais de segurança. Pois tratem de esquecer a curiosidade. Isso faz parte dos preparativos para o que virá depois. Ninguém terá permissão de entrar nas áreas proibidas sem um passe. Aqueles que perderem os passes recebidos serão levados à corte marcial. Não digam a ninguém que estão nesta base. . . e nisso estou incluindo esposas, namoradas, irmãs, famílias.

Houve um silencio profundo quando ele parou de falar. Anteriormente, quando Tibbets se tornara oficial, a mãe lhe dera um conselho: às vezes teria que ser duro e implacável, mas deveria sempre tentar atenuar tal atitude mostrando o outro lado de seu caráter, a bondade e a gentileza.

“Não vai ser fácil para nenhum de nós. Mas conseguiremos, se trabalharmos unidos. Mas trabalhar o tempo todo, sem qualquer diversão, não é nada agradável. Por isso, a partir deste momento, todos vocês têm duas semanas de licença. Divirtam-se.

Classen já ia dispensar o esquadrão, quando Tibbets voltou a falar:

— Se alguém deseja ser transferido, não haverá qualquer problema. Basta dizê-lo agora.

Ele ficou esperando.

Ninguém se mexeu.

E Tibbets arrematou:

— Estou contente, realmente contente. . .

 

* * *

 

No meio da tarde, os homens já estavam começando a deixar a base. Muitos estavam espantados. Se a missão deles era tão importante assim para apressar o fim da guerra, por que tinham recebido duas semanas de licença? Havia quem achasse que Tibbets dissera aquilo apenas para tentar impressioná-los.

O Segundo-Tenente Eugene Grennan, engenheiro de vôo da tripulação de Eatherly, deu uma volta pela base e concluiu que aquela história de segurança não passava de “conversa fiada”. As portas de um hangar estavam entreabertas, ele deu uma olhada lá dentro e avistou “um foguete V-l alemão”.

O triunfante Grennan não teve mais a menor dúvida de que o esquadrão iria para a Europa, a fim de “destruir os foguetes nazistas”.

O foguete não passava de uma maquete de madeira compensada e as portas do hangar tinham sido deixadas entreabertas deliberadamente, um plano imaginado por Uanna para enganar os homens. Minutos depois, um agente comunicou a Uanna que Grennan engolira a isca. Mas Uanna não tinha pressa alguma em tomar providências em relação a Grennan. Tinha outras ciladas em andamento.

O navegador Russell Gackenbach chegou a Salt Lake City e foi abordado por um sargento, indagando se Wendover era “o quartel-general da unidade Silverplate”. Gackenbach jamais ouvira falar em “Silverplate”, mas desconfiou de que se tratava de uma cilada e disse firmemente ao sargento que “perguntas inoportunas podem- nos meter a ambos na cadeia”.

Gackenbach sobrevivera ao curso de obstáculos de Uanna. Outros nele ficaram presos.

Dois sargentos foram abordados por um oficial num hotel de Salt Lake City. O oficial disse-lhes que estava indo juntar-se ao 393.° Que tipo de unidade era? Os sargentos prazerosamente disseram tudo o que sabiam. O oficial agradeceu-lhes. Duas horas depois os dois sargentos tagarelas se preparavam para embarcar no trem que os levaria para casa quando foram detidos por PMs e levados de volta à base. E se encontraram com o oficial que os interrogara no hotel no gabinete de Tibbets. O oficial era na verdade um agente do Projeto Manhattan. Uma hora depois, os dois sargentos tinham sido transferidos para uma base no Alasca e já estavam seguindo para lá.

Grennan chegou á Union Square, em Chicago, antes que a armadilha se fechasse. Ali, encontrou-se com um conhecido dos tempos da universidade. Grennam contou-lhe o que sabia a respeito de Wendover, a base onde estava agora servindo. Despediram-se. Ao chegar em casa, Grennan encontrou a sua espera um telegrama ordenando que retornasse imediatamente a Wendover. De volta à base, foi severamente censurado por Uanna por ter falado demais. O amigo que encontrara em Chicago era também um agente do Projeto Manhattan. O desconcertado Grennan só foi salvo da transferência porque tinha uma folha de serviço excelente. A partir desse momento, ele se tornou um dos homens mais preocupados com a segurança do esquadrão.

Cinco outros integrantes do 393.° caíram nas armadilhas dos agentes de Uanna e foram imediatamente embarcados para o Alasca Suas folhas de serviço não eram boas o suficiente para salvá-los.

 

* * *

 

No final da tarde, Groves telefonou para Tibbets, querendo saber por que dera uma licença aos homens do esquadrão. Foi informado de que a licença era parte do esquema de verificação de segurança.

Os dois haviam-se encontrado rapidamente em Washington. Na ocasião, Tibbets pudera sentir as tremendas pressões a que estava submetido o chefe do projeto. Agora, Groves parecia dispor de mais tempo para conversar. Prometeu que novos B-29s seriam em breve despachados para Wendover e recordou a Tibbets que “o mundo é seu”.

Era Groves lisonjeando para conseguir o que desejava. Um instante depois, a atitude dele mudou. Disse que em breve haveria muitos cientistas aparecendo em Wendover. Eram “homens extraordinários”, mas tinham pouca ou nenhuma compreensão do “lado militar das coisas”. Portanto, seria melhor que Tibbets não os informasse mais do que o necessário a respeito do programa de treinamento .

Groves queria limitar o conhecimento do envolvimento da Força Aérea do Exército a uns poucos cientistas, justamente os que partilhavam a opinião dele de que a bomba deveria ser produzida o mais depressa possível. Os cientistas que contestavam a validade do que estavam fazendo não passavam de intrometidos tontos, que estavam esquecendo a ciência e se metendo na política. Se esses cientistas soubessem que já começara o treinamento da força de ataque que iria lançar a bomba, achava Groves, seus protestos se tornariam ainda mais estridentes.

Mas apresentou o problema a Tibbets por um ângulo diferente:

— Coronel, as pessoas não podem falar daquilo que desconhecem. E isso é ótimo para a segurança.

 

* * *

 

Beser recebeu ordens de permanecer na base. Tibbets dissera-lhe que esperasse a chegada em breve de visitantes importantes.

Ao tentar interrogar Tibbets a respeito, o oficial de radar recebeu “o olhar mais frio que um homem seria capaz de dar; tratei de calar-me, fui para os alojamentos e fiquei esperando”.

Tibbets estava agindo dessa maneira porque “queria impressionar a Beser e a todos os demais homens da unidade, mostrando que não estava para brincadeiras”.

No início da noite de 12 de setembro, Tibbets e Ferebee finalmente puderam sentar-se para a reunião tão ansiosamente esperada.

Ferebee era mais alto do que Tibbets e impecavelmente elegante. Poderia perfeitamente desempenhar o papel de herói num filme de guerra. Usava um bigode ao estilo da RAF que o fazia parecer mais velho do que seus 24 anos.

Sobrevivera a 63 missões de combate, mais 20 do que Tibbets. Partilhavam a mesma filosofia a respeito da guerra: era uma coisa horrível, mas não havia outro jeito senão matar para não ser morto. Tinham voado juntos na Europa, haviam sido alvejados, sabiam o que significava o medo. E tornaram-se grandes amigos. Fazia quase um ano que não se encontravam, mas Tibbets ficou satisfeito ao descobrir que os antigos vínculos continuavam intactos.

Conversaram um pouco sobre o passado, recordando os aeroportos ingleses dos quais haviam decolado para muitas missões, as cidades da França ocupadas que tinham atacado. Falaram animadamente sobre o dia do verão de 1942 em que haviam deparado com o esquadrão pessoal de Goering, de Messerschmitts de nariz amarelo. Nessa ocasião, um dos artilheiros do bombardeiro perdera um pé durante o combate aéreo, o co-piloto perdera a mão e o próprio Tibbets fora ferido no braço. Mas Ferebee conseguira bombardear com sucesso a base alemã em Abbeville, à luz do dia. Naquela noite em seu noticiário das nove horas, a BBC falar sobre o ataque. Recordaram também outros aviadores, homens que tinham morrido, homens que haviam desaparecido em campos de prisioneiros alemães, homens cujo destino era incerto.

Finalmente, Tibbets voltou ao presente:

— Tom, vamos precisar dos melhores homens para esta missão. Se tudo der certo, vamos destruir tudo num raio de 13 quilômetros do ponto de impacto.

Ferebee pensou por um momento no que deveria dizer.

— É um impacto e tanto, Paul.

O bombardeador não fez qualquer outro comentário. A discrição era uma das qualidades de Ferebee. Estava sempre preparado para escutar e ouvir. Os amigos diziam que ele só se sobressaía quando estava em combate, na mesa de pôquer ou quando passava uma garota bonita.

Tibbets perguntou-lhe se pensava em alguém que pudesse recomendar para participar da missão.

— O que me diz de “Dutch”?

"Dutch”, o Holandês, era Theodore van Kirk, que fora o navegador deles na Europa. Competente e extremamente profissional quando estava em missão, era o companheiro habitual de Ferebee nas farras e jogos de cartas quando estavam de folga. Tibbets acompanhara algumas vezes os companheiros mais jovens, sorrindo indulgentemente com as tropelias deles nas incursões pela vida noturna de Londres. Ferebee informou que Van Kirk voltara para a America, casara-se e estava agora servindo na Louisiana. Tibbets disse que providenciaria a transferência do navegador para Wendover. Van Kirk poderia melhorar os padrões dos navegadores do 393.° até o nível indispensável para uma missão de ataque atômico.

— Tom, quero que todas as tripulações possam tornar-se vanguardeiras, capazes de encontrar o caminho até o alvo sem precisar de aviões-guias para orientá-las.

Ferebee fez mais duas sugestões de homens que poderiam atender às necessidades de Tibbets. Um deles era um bombardeador, Kermit Beahan, o outro era um navegador, James van Pelt. Ambos já tinham anteriormente impressionado o comandante por suas qualidades.

Tibbets disse que ambos seriam imediatamente requisitados. Anunciou em seguida os nomes em que pensara. Eram todos homens que haviam servido sob seu comando durante o programa de teste do B-29. Três deles eram pilotos: Robert Lewis, Charles Sweeney e Don Albury.

Tibbets explicou que Lewis era um pouco impetuoso, mas era também um piloto nato. Sweeney era um irlandês de Boston, “capaz de voar um B-29 através do Grand Canyon, se lhe pedirem”. Albury era “o piloto de 25 anos mais competente que já conheci”.

Ele tinha ainda um outro homem que queria trazer para a unidade: o Segundo-Sargento Wyatt Duzenbury, que fora seu antigo engenheiro de vôo.

— Tom, Dooz consegue fazer verdadeiras mágicas com os motores de um avião. E é o sujeito ideal para se contar numa situação difícil. Se um motor pega fogo, ele se torna mais firme do que uma rocha. E se dois motores pegam fogo, ele se torna duas vezes mais sólido!

Não demorou muito para que Tibbets e Ferebee tivessem praticamente escolhido os homens que participariam da primeira missão de ataque atômico.

6

 

O Capitão-de-Fragata Mochitsura Hashimoto, da Marinha Imperial japonesa, ordenou um mergulho de exercício para 17 horas de dia 17 de setembro. O submarino I.58 deveria submergir 100 metros abaixo das ondas da Baía de Hiroxima, a fim de verificar as condições de todas as válvulas e aberturas.

O I.58 saíra de Kure quatro dias antes. Era a primeira vez que iria submergir. Desde o dia em que o vira pela primeira vez, em maio, que Hashimoto se impressionara com o novo submarino. Era um dos primeiros submarinos da classe I, maiores, mais rápidos e mais bem equipados do que os outros submarinos de classe comparável, de qualquer país do mundo. Dois motores diesel proporcionavam ao I.58 uma velocidade de cruzeiro de 14 nós. Submerso, o submarino era impelido pelos motores a uma velocidade de sete nós. Com uma autonomia de 15 mil milhas, o submarino podia permanecer no mar durante três meses. Para os seis tubos de torpedos, todos na proa, transportava 19 torpedos, os mais avançados do mundo. Abastecidos com oxigênio, não deixando esteiras, os torpedos tinham uma velocidade de 58 nós e um alcance de 5.500 metros. Cada torpedo, com um diâmetro de 60 centímetros, levava uma carga explosiva de 550 quilos.

Naquele dia, para o primeiro teste de submersão, a sala de torpedos estaria vazia, a não ser pelos ratos, que infestavam o submarino.

Todos os esforços para exterminar os ratos tinham sido frustrados. Mas eles representavam o único problema que o Comandante Hashimoto não conseguira superar. Suas batalhas intermináveis com o Estaleiro Naval de Kure, o Departamento Técnico Naval e Escritório de Pesquisa Naval tinham proporcionado os resultados desejado: o I.58 estava equipado de acordo com as especificações de Hashimoto.

De pé, na ponte de comando, deslizando pela baía a pouco mais de uma milha ao sul de Hiroxima, Hashimoto contemplou pelo binóculo a academia naval na ilha de Etajima. Nada parecia ter mudado desde que ele fora cadete ali, de 1927 a 1931. Três anos depois, em 1934, fora designado para a força de submarinos. Adorara a vida num submarino. Mas fora posteriormente destacado para servir em contratorpedeiros e caçaminas, operando ao largo da costa da China. Somente em 1938 é que voltara a servir na força de submarinos. A essa altura, já se tinha casado. Em 1940, a esposa presenteou-o com o primeiro filho.

Profissionalmente, Hashimoto vira-se envolvido em acontecimentos que o haviam abalado profundamente. Fora destacado para integrar a força naval que apoiara o ataque aéreo a Pearl Harbor, como oficial da sala de torpedos de um dos cinco submarinos que haviam lançado um submarino em miniatura, tripulado por dois homens, contra a esquadra americana. Os submarinos em miniatura haviam fracassado em sua missão, sendo todos afundados. Mas os homens do submarino em miniatura despachado por Hashimoto haviam conseguido escapar com vida. Desde então, ele passara a guerra sem qualquer acontecimento espetacular.

O capitão até que gostava que assim fosse. Na primeira vez em que reunira a tripulação do I.58, dissera aos homens que esperava competência e não “heroísmo insensato”.

Continuar: parte 2 de 6