A Bomba de Hiroxima
Ativação
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
De l.° de setembro de 1944 a 27 de
junho de 1945
ACELERAÇÃO
De 28 Junho de 1945 a 2 de agosto
de 1945
1
Exausto da escalada do Monte Lasso, na parte norte de Tinian, o Suboficial Kizo Imai, da Marinha Imperial japonesa, deitou-se no tapete úmido de folhas apodrecidas e fungos, o rosto perto do solo, o quepe esfiapado puxado para cima da testa.
A fome e o senso de dever levavam o suboficial de 30 anos a se arrastar regularmente até aquela posição, o ponto mais alto da ilha, com 172 metros de altura.
Dali, Imai avistava muitos dos quartéis onde estavam alojados os 20 mil americanos de Tinian. Mais importante: podia observar onde os americanos jogavam o lixo. O local era constantemente mudado. Imai achava que era para tornar as coisas mais difíceis para ele e para os 500 outros soldados japoneses que estavam escondidos em Tinian. A fome levava-os ao desespero. Mesmo quando os americanos despejavam o lixo nas traiçoeiras correntezas em torno da ilha, os japoneses entravam no mar à noite para recolher restos de comida.
A habitação de Imai em Tinian era uma caverna, “um buraco no inferno”, onde os piolhos, ratos e outras pragas aumentavam ainda mais seus sofrimentos. A barba por fazer, sujo, as roupas rasgadas, ele e outros na mesma situação viviam como trogloditas, raramente se atrevendo a acender fogueira em seus esconderijos na selva, para não trair sua posição. Na caverna, Imai deixara 18 soldados... os que tinham sobrevivido aos 48 homens que originalmente levara para lá, quando os americanos haviam conquistado a ilha, 11 meses antes.
Imai viera para Tinian a fim de ajudar na construção de pistas de pouso. Três pistas estavam prontas e uma quarta em construção quando os americanos haviam atacado, em junho de 1944.
Ataques aéreos e bombardeios navais tinham enfraquecido as defesas das ilhas durante seis semanas. Depois da conquista de Saipan, a artilharia pesada que lá se instalou bombardeara sistemáticamente a extremidade norte de Tinian. Num período de 15 dias, caíra na ilha uma média de uma granada por minuto. Os caças voavam baixo sobre Tinian, lançando bombas de napalm, a primeira vez que eram usadas no Pacífico.
Enquanto, esperavam, os japoneses haviam-se entrincheirado. Acreditavam que os americanos tentariam desembarcar na cidade de Tinian. Os japoneses fortificaram a área. Muitos dos seus canhões eram britânicos, de seis polegadas, capturados em Singapura. Por toda ilha, nas plantações de cana-de-açúcar e nas selvas, foram instalados ninhos de metralhadoras e escavadas pequenas trincheiras, nas quais ficava um soldado solitário, junto com uma carga explosiva, ponto para se sacrificar, se um tanque inimigo passasse por cima.
No 40.° dia do sítio, a 24 de julho, Imai avistara, à luz fraca do amanhecer, a esquadra americana lentamente circulando a ilha, despejando uma nova barragem de artilharia sobre a paisagem já devastada.
A esquadra parara diante da Cidade de Tinian e largara suas lanchas de desembarque. Os japoneses começaram a disparar seus canhões. Os americanos bateram rapidamente em retirada, retornando aos navios. Os japoneses ficaram exultantes.
Só tarde demais é que haviam descoberto que o ataque à Cidade de Tinian não passava de um ardil. O grosso das forças americanas desembarcara ao norte da ilha, uma área difícil e rochosa, que os japoneses haviam considerado inexpugnável.
Com uma cabeça-de-ponte na ilha, os fuzileiros americanos avançaram inexoravelmente. Levaram oito dias para alcançar a Cidade de Tinian e dominar a ilha. Quatrocentos americanos morreram, enquanto as baixas japoneses se elevavam a mais de oito mil.
O Suboficial Imai fugira para a selva, juntamente com cerca de outros 700 japoneses sobreviventes. Esse número estava agora reduzido a menos de 500 homens, constantemente caçados.
* * *
Agora, no Monte Lasso, esperando que os caminhões de lixo aparecessem, Imai iniciou sua outra tarefa: registrar como as forças americanas estavam sendo colocadas. Fazia isso em preparativos para um acontecimento que ainda esperava que pudesse suceder “a qualquer momento”: uma invasão das forças imperiais, que viriam reconquistar a ilha. Quando esse dia chegasse, Imai planejava levar seus homens numa carga banzai contra os americanos.
Até lá, ficava observando toda a ilha, através de seu binóculo. Tinian, de norte a sul, tem um comprimento de 19 quilômetros; a largura nunca é superior a oito quilômetros. Ondulando suavemente, a ilha, é, na verdade, um platô emergindo do Pacífico. A maior parte da costa era de penhascos escarpados, a cor avermelhada da luva, erguendo-se abruptamente do mar. Tinian fica na extremidade sul das Ilhas Marianas, que forma um arco de 680 quilômetros ao longo do Pacífico, simples formações de coral, cuja existência poucas pessoas conheciam, até a II Guerra Mundial.
Esquadrinhando o horizonte ao norte, Imai podia avistar a costa Saipan, a menos de quatro milhas de distância. Como sempre, o mar entre as duas ilhas estava coalhado de navios americanos, de todos os tipos e tamanhos. Alguns seguiam para o porto americano na Cidade de Tinian, cinco quilômetros a sudoeste do local em que Imai se encontrava.
Na direção do interior, a partir da Cidade de Tinian, originalmente um amontoado de cabanas, agora um movimentado porto militar, os americanos haviam completado a obra iniciada pelos japoneses: abrindo espaços na selva para fazer pistas. Estradas pavimentadas levavam aos depósitos de combustível e bombas, oficinas e hangares. Havia um número crescente de hospitais. Imai concluiu que os americanos provavelmente esperavam uma grande quantidade de baixas, em alguma batalha iminente. Isso aumentou sua convicção de um ataque japonês para recuperar as Marianas. Na verdade, os hospitais estavam sendo preparados para receber as baixas da invasão de Kyushu.
Examinando a área interior, a atenção de Imai foi atraída por algo insólito. Lá embaixo, a pouco menos de um quilômetro para nordeste, turmas de soldados estavam terminando de cercar uma área construída com arame farpado.
De formato retangular, com 800 metros de comprimento e 400 de largura, a área ficava perto da costa.
A cerca nova era alta e tinha um aspecto proibitivo. Por trás dela, havia construções de metal pré-fabricadas dos mais diversos tamanhos, ligadas por estradas. Até aquela manhã, os alojamentos haviam sido ocupados por turmas de engenheiros do Exército, aos quais Imai observara anteriormente, concluindo o gigantesco aeroporto além do conjunto. Agora, eles estavam desocupando os alojamentos.
No centro da construção, havia uma área pequena, com rolos de arame farpado em torno de diversas construções sem janelas. Havia também vários guardas armados na entrada principal do conjunto.
Imai sentiu-se apreensivo. O conjunto parecia um campo de prisioneiros. Talvez a área interior fosse um centro de punições. Na mente de Imai, isso só podia significar uma coisa: os americanos planejavam uma campanha para capturar os japoneses que ainda se encontravam à solta na ilha.
Imai tocou em suas armas, uma espada cerimonial comprida e uma pistola. Não sabia se a umidade tornara as balas inúteis, mas tinha certeza de que a lâmina da espada, feita pelo mesmo processo secreto que moldara as espadas dos antigos samurais, estava tão afiada como no dia em que a recebera, pouco antes de chegar a Tinian, em março de 1944.
Contemplando o estranho conjunto, Imai tomou uma decisão: preferia morrer a render-se e terminar prisioneiro ali. Ficou olhando para a intensa atividade em tomo da entrada principal do conjunto. Havia agora um constante tráfego de caminhões no local. Os guardas interceptavam e verificavam meticulosamente cada veículo.
Quando um dos caminhões parou, dois homens saltaram e tiraram lá de trás uma placa de madeira.
Imai focalizou o binóculo na cena. Dois PMs de capacete branco, com carabinas aninhadas nos braços, entraram em foco. Pareciam bronzeados, saudáveis e entediados. O japonês deslocou o binóculo ligeiramente, para focalizar a placa. Ele lia e falava um pouco de inglês. Embora não pudesse decifrar tudo, pôde ler e compreender os números e algumas palavras. A placa dizia o seguinte:
ZONA PROIBIDA
509.° GRUPO INTEGRADO
OS PASSES DEVEM SER APRESENTADOS
EM TODAS AS OCASIÕES
Imai sentiu-se aliviado. No final das contas, aquele local não era um campo de prisioneiros. Mas o conjunto era nitidamente diferente de todos os outros que ele já observara. Imai teve a impressão de que aquele “devia ser muito importante”.
Subitamente, o suboficial recordou-se de outro problema mais urgente. Ficara tão absorvido contemplando toda aquela atividade que esquecera de notar onde os caminhões de lixo americanos iam despejar suas cargas. Agora, ele e os homens à espera na caverna teriam que fazer uma incursão na escuridão pelas latas de lixo, um risco muito grande, por causa das patrulhas em torno dos conjuntos.
Não obstante, o tempo que Imai passara no Monte Lasso tinha sido bastante útil. Tomando cuidado para não deixar qualquer pista, voltou apressadamente para a caverna.
O interior estava imundo, cheio de latas de comida e outros detritos, apanhados nas incursões noturnas pela ilha. A um canto, encontravam-se rifles e umas poucas caixas de munição. Ao lado, havia um rádio transmissor-receptor.
A última mensagem recebida fora na noite em que Tinian caíra, quando o Comandante Supremo do Exército Imperial japonês, em Tóquio, comunicara que em breve chegaria ajuda. Desde então reinava silêncio. Imai desejava que alguém soubesse consertar o aparelho, a fim de que ele pudesse enviar uma mensagem ao quartel general em Tóquio sobre a nova e estranha instalação que havia na ilha.
Talvez o quartel-general pudesse providenciar para que fosse bombardeada.
2
Tibbets continuou a inspecionar o conjunto, para certificar-se de que seria uma base apropriada para o 509.°. Viera de Wendover para isso. Teria vindo mais cedo, se não tivesse atrasado sua partida dos Estados Unidos para permitir que seu navegador, Van Kirk, que o acompanhava na viagem, pudesse ter antes notícias do nascimento do novo filho. Era um gesto de acordo com a política de Tibbets de tratar seus homens com toda consideração, em qualquer ocasião . . . até que tentassem tirar proveito disso. Quando tal acontecia, o coronel era capaz, em suas próprias palavras, de “ser mais rude do que um sargento da PM num xadrez militar”.
Tibbets demorou bastante na inspeção. Queria que o 509.° tivesse “o melhor possível e nem mesmo o representante pessoal de Groves na ilha, Coronel E. E. Kirkpatrick, que o acompanhava na inspeção, ia apressá-lo a tomar uma decisão.
Impassível como sempre, restringindo suas palavras a poucas perguntas objetivas, Tibbets levou Kirkpatrick e os comandantes do 509.° de um lugar para outro. Kirkpatrick esperava que Tibbets não se mostrasse muito “exigente” quanto aos alojamentos. A regra, na Tinian apinhada, era a de 12 oficiais ou 20 praças e sargentos ocuparem um mesmo alojamento, com nove metros de largura por 16 de comprimento. Como comandante do grupo, Tibbets iria partilhar seu alojamento com três ou quatro oficiais de seu estado-maior.
A resposta de Tibbets foi típica:
— Antes de tratarmos do problema do meu alojamento, vamos providenciar para que meus homens fiquem o mais confortavelmente possível. Esta é a quarta vez que eles são obrigados a mudar desde que chegaram aqui. Quero que seja a última.
Kirkpatrick achou que Tibbets era “um tanto presunçoso”, uma opinião que manifestou a Groves, num memorando secreto, “inclinado a esfregar sua situação especial na cara dos outros, mas inteligente o bastante para saber até onde pode ir”.
Tibbets achava que era essencial fixar as regras pelas quais o 509.° iria viver e trabalhar. Durante sua única visita anterior às Marianas, deixara bem claro quais seriam essas regras. Não estava, como insistiría mais tarde, “procurando um tratamento especial”, mas simplesmente querendo fazer com que o grupo ficasse instalado de maneira apropriada, dentro da estrutura de uma operação vasta e complexa da Força Aérea.
Naquela segunda visita, havia percebido alguma oposição, não manifesta, é claro.
Parte dela vinha dos seabees, que iriam deixar os alojamentos mais confortáveis da ilha para que o 509.° se pudesse instalar neles. Tibbets não podia deixar de simpatizar com tal posição. Eram todos veteranos do Pacífico, muitos dos quais seriam convocados a despejar mais suor e sangue na invasão do Japão.
O coronel sabia que a invasão custaria muito caro. A longa e encarniçada campanha para a conquista de Okinawa acabara de terminar. Mais de 500 mil homens levaram três meses para dominar a guarnição japonesa de 110 mil homens, que haviam lutado fanaticamente. Se as baixas americanas em Okinawa serviam de orientação — 49.151 mortos, 34 navios de guerra afundados e 368 bastante avariados — não havia a menor dúvida de que a resistência a ser encontrada nas ilhas principais do Arquipélago japonês seria formidável.
As últimas informações do Serviço Secreto americano indicavam que uma parte dos dois milhões de soldados japoneses veteranos na China estava sendo levada de volta ao Japão, a fim de participar da defesa do país. Lá já se encontravam outros dois milhões de soldados que ainda não tinham experiência de combate, mas que estavam ansiosos por lutar. O grosso das forças imperiais ainda não fora vencido.
Tibbets manifestara a LeMay sua esperança de que a bomba atômica pudesse meter “um pouco de bom senso na cabeça dos japoneses”, evitando-se um desnecessário derramamento de sangue. A reunião entre os dois, no quartel-general de LeMay em Guam, a 27 de junho, fora bastante cordial, embora o General ainda fizesse restrições quanto à possibilidade de se acertar em cheio num alvo de 10 mil metros de altura. O general disse a Tibbets que os aviadores do 509.° deveríam adquirir alguma experiência, sugerindo que poderiam inicialmente praticar o lançamento de bombas numa ilha próxima, Rota, que ainda estava em poder dos japoneses.
Ao final da reunião, LeMay fez uma observação inesperada:
— Paul, quero que compreenda uma coisa: você não pode voar sobre o Japão.
Tibbets ficou perplexo.
Mastigando o eterno charuto no canto da boca, um ato que o fazia parecer mais jovem, embora não tão obstinado quando Churchill, LeMay explicou os motivos de tal decisão:
— Não nos queremos arriscar a perdê-lo. Sei que você sabe mais a respeito dessa bomba do que qualquer outro aviador de toda a Força Aérea. Por isso, é valioso demais. É melhor ficar em terra.
Tibbets nada disse. A ordem de LeMay fazia sentido: se ele caísse nas mãos dos japoneses, todo o projeto correria um tremendo risco. Mas Tibbets tinha tomado uma decisão: voaria a primeira missão atômica de qualquer maneira.
* * *
Em Tinian, depois de concluir a inspeção dos alojamentos, cozinhas e refeitórios, Tibbets foi examinar o “santuário”, as oficinas da Área Técnica. Ali, se tudo corresse bem, a bomba seria finalmente montada. Duas das oficinas estariam prontas dentro de poucos dias. As outras duas só estariam concluídas a l.° de agosto.
O Coronel achava que os prazos estavam muito apertados e gostaria de permanecer em Tinian para supervisionar tudo pessoalmente. Mas era exigida sua presença como observador durante o crítico teste com a bomba de plutônio, em Alamogordo.
Terminando a inspeção da base, Tibbets declarou-se satisfeito. O 509.° iria transferir-se para aquela área a 8 de julho.
No momento, não havia mais nada que ele pudesse fazer em Tinian. Depois de dar as devidas instruções aos oficiais superiores do grupo sobre as questões de rotina diária, iniciou a longa e cansativa viagem de volta através do Pacífico.
3
Agachados em torno de um caixote virado, Beser e os outros tentavam concentrar-se no jogo. Mesmo agora, na súbita escuridão tropical, o calor era sufocante. A única roupa que os homens usavam, shorts, calças cáquis cortadas cerca de 15 centímetros abaixo da virilha, estava encharcada de suor.
Não demorou muito para que os homens em torno da improvisada mesa de jogo precisassem gritar para que suas apostas pudessem ser ouvidas. É que não muito longe dali, incontáveis B-29 decolavam para outro ataque com bombas incendiárias.
Naquela noite, como sempre faziam, os oficiais contavam os aviões, pela aceleração máxima dos motores, pouco antes da decolarem. Até aquele momento, 249 bombardeiros já haviam levantado vôo.
O silencio voltou a reinar na ilha. Beser disse que apostava que outro bombardeiro levantaria vôo na próxima meia-hora, para fazer um número redondo de 250. Várias moedas foram jogadas sobre o caixote.
Pouco depois, ouviu-se o rugido inconfundível de quatro motores Wright-Cyclone, de 2.200 cavalos de força, sendo acelerados. Beser recolheu as apostas.
Cansados do jogo, ele e seus companheiros ficaram escutando o B-29 se preparar para a decolagem. O navegador Russell Gackenbach, o jovem tenente que sobrevivera à armadilha de segurança de Uanna no primeiro dia em Wendover, saiu do alojamento para observar a decolagem.
Era uma noite escura em Tinian, sem lua, uma brisa quente soprando do mar.
Gackenbach sentiu mais do que viu o B-29. Seus ouvidos acompanharam o taxiar do bombardeiro até a cabeceira da pista. Ele vislumbrou as línguas de fogo dos motores. O B-29 acelerou ao máximo e avançou velozmente pela pista.
Gackenbach esticou a cabeça. Um dos motores estava fora de compasso. Ele gritou para o alojamento. Os outros também tinham ouvido. Juntaram-se a Gackenbach. O grupo ficou escutando, enquanto o bombardeiro continuava a avançar pela pista.
— Ele levantou vôo!
O grito de alívio de Gackenbach foi seguido pelo aviso de Beser:
— Não vai conseguir!
Tais palavras foram seguidas por uma chama intensa, entre vermelha e alaranjada, quase em cima da pista, envolvendo o bombardeiro.
Uma fração de segundo depois, os horrorizados espectadores ouviram o estrondo da gasolina explodindo sobre as bombas incendiárias. O clarão se espalhou pelo céu noturno, iluminando uma área de várias centenas de metros quadrados.
As chamas e o barulho foram-se desvanecendo, enquanto aumentava o gemido das sirenes dos veículos de socorro.
Os oficiais do 509.° voltaram para o alojamento. Todos sabiam que os caminhões de socorro nada poderiam fazer além de recolher os restos carbonizados.
* * *
Lewis ligou o interfone e avisou à tripulação que se preparasse para o pouso. Até aquele momento, fora uma viagem tranquila, sem qualquer problema. Cerca de 25 quilômetros à frente, Tinian já podia ser avistada, como uma massa indistinta, meio oculta pela neblina da manhã.
Em seu posto, um pequeno cubículo sem janelas um pouco à frente do compartimento de bombas, o operador de rádio Dick Nelson sintonizou o aparelho para o sinal de Tinian. Três dias no ar, com escalas rápidas, onde a comida e as acomodações eram péssimas, haviam diminuído o entusiasmo de Nelson. Ele se sentia cansado, com vontade de tomar um banho. Embora jamais fosse admiti-lo para alguém, sentia-se também um pouco apreensivo quanto ao futuro.
Verificou o aparelho. Continuava a emitir o sinal que identificava o B-29 como um avião americano.
A voz monótona do controle de terra em Tinian forneceu a Lewis a velocidade e a direção do vento no Campo Norte.
Lewis transmitiu à população sua opinião entusiasmada a respeito da ilha:
— É maravilhosa! A selva parece exatamente como nos filmes! As praias foram feitas para Esther Williams! E a água é a mais azul que eu já vi! Vamos ter dias maravilhosos!
Depois de 10 mil quilômetros e três dias de vôo, Lewis deu as ordens para a aterragem.
Quando o trem de pouso foi baixado, Stiborik e Shumard confirmaram que estavam na posição correta.
— Baixar os flapes. Cinco graus.
Novamente, Stiborika e Shumard confirmaram que os flapes estavam baixados.
— Verificação dos flapes. Vinte e cinco graus.
Os dois novamente confirmaram a alteração.
Momentos depois, Lewis pousou no Campo Norte e taxiou até a área especial do 509.°.
A impressão imediata — e terrível — de Caron, ao rastejar para fora da torre da cauda, foi a de que “tínhamos pousado na maior latrina do mundo”.
O bombardeiro parara na direção do vento que soprava de uma das imensas fossas sanitárias escavadas pelos seabees.
Lewis calculou que em breve se acostumaria ao mau cheiro. Se esse era realmente o único problema de Tinian, então o lugar era um paraíso, com os alojamentos ao lado de palmeiras, os caminhos de conchas, sempre cuidados por nativos sorridentes.
Para aumentar a sensação de lar-longe-do-lar e porque Tinian tinha mais ou menos o mesmo formato de Manhattan, as vias principais foram batizadas e haviam recebido placas de nomes de ruas de Nova York.
A Broadway era a estrada maior, que ia do Campo Norte, passando pela base do Monte Lasso, até a Cidade de Tinian. Era uma estrada espetacular, com cerca de 10 quilômetros de comprimento, margeada por alojamentos de oficiais e depósitos.
Paralela à Broadway, no lado oeste da ilha, ficava a Oitava Avenida, indo da cabeça-de-ponte que os fuzileiros estabeleceram ao invadirem Tinian, passando pelo segundo maior campo de pouso da ilha, o Campo Oeste, e terminando no Porto de Tinian.
Acompanhando a costa oeste, havia Riverside Drive, uma estrada sinuosa, passando por incontáveis praias e enseadas.
A Rua 42 era um cruzamento movimentado, na parte sul de Tinian, perto de Wall Street, Grand Avenue, Park Row e Canal Street, que levava à Segunda Avenida e a outro grupo de estradas de nomes familiares, Rua 59, Rua 64, Rua 72 e Rua 86.
Os alojamentos temporários do 509.° ficavam a leste da Broadway, perto da Rua 86. Quando Lewis e sua tripulação chegaram aos alojamentos, descobriram que estavam vazios. Nove das tripulações do 509.° encontravam-se longe dali, numa missão de exercício, lançando bombas explosivas em Rota.
Lewis achou que chegara a Tinian na hora exata.
4
Depois de duas semanas de estudos, a situação começava a se tornar clara. Embora ainda houvesse algumas lacunas, o Major-General Arisue conseguira fazer uma avaliação real da situação política interna do Japão.
Era desesperadora.
As batalhas entre os militaristas e os moderados, até agora confinadas a palavras, ameaçavam abalar o trono imperial. O que preocupava Arisue era a possibilidade de derramamento de sangue, quando as conversas entre os dois grupos finalmente cessasem. No fundo, ele acreditava que os elementos mais extremados seriam capazes até mesmo de matar o Imperador, caso ele se opusesse à intenção declarada deles, de levar o Japão à vitória ou lutar até que não restasse uma única pessoa viva no país.
Opondo-se a esses fanáticos, estavam os moderados, liderados pelo Marquês Koichi Kido, Chefe do Conselho Imperial, o homem no qual o Imperador mais confiava, acima de todos os outros. Fora o Marquês quem conseguira manter a paz, quando as duas facções se haviam confrontado na conferência imperial de 8 de junho. Mas ele não pudera impedir que a conferência decidisse que a guerra continuaria até o amargo fim. Na presença do Imperador, que não dissera uma só palavra, ficara resolvido que não haveria rendição.
Quatro dias depois, um almirante moderado, teve acesso ao Imperador através de Kido e lhe apresentou confirmações incontestáveis de tudo o que o Chefe do Conselho Imperial já dissera.
O relatório do almirante apontava a crítica escassez de matérias-primas. Nas indústrias de guerra, os operários, muitos ainda crianças, estavam sendo prejudicados pela falta de experiência. A produção estava constantemente ficando muito aquém das expectativas. Industrialmente, o Japão estava-se tornando moribundo. A não ser pelo moral, a situação global era a pior possível.
A 18 de junho, o Primeiro-Ministro Suzuki convocou uma reunião do Gabinete Interior do Japão. Arisue não conseguiu obter detalhes precisos sobre ela, realizada no mesmo dia em que o Presidente Truman aprovou os planos de invasão, mas pôde verificar que o Ministro da Guerra e os representantes da Marinha e do Exército haviam mantido a posição assumida anteriormente: todo o planejamento futuro deveria ser baseado nas necessidades em face de um Dia-D que certamente seria criado pelo inimigo.
Contudo, esses três representantes da linha-dura fizeram uma concessão importante. Embora ainda se opusessem a negociações diretas para acabar com a guerra, não tinham agora quaisquer objeções para conversação depois que o exército do Marechal-de-Campo Hata tivesse desfechado um golpe contundente no inimigo, nas praias da invasão.
Para Arisue, o fato de os três terem chegado a esse ponto, afastando-se consideravelmente de uma posição irredutível anterior, era “uma grande vitória para o realismo”.
Exteriormente mantendo sua cuidadosa posição de equilíbrio entre os militaristas e os moderados, Arisue era agora a favor da paz quase que a qualquer preço, excetuando apenas a rendição incondicional. Sua objeção a tal rendição era a de que provavelmente implicaria no afastamento do Imperador, o que era inconcebível.
A 22 de junho, 10 dias depois que o almirante entregou seu relatório sobre matérias-primas e o moral japonês, o Imperador Hirohito recomendou ao Gabinete Interior que iniciasse negociações de paz, se possível usando os bons ofícios da Rússia.
Com essa finalidade, a 24 de junho, um ex-Primeiro-Ministro, Koki Hirota, procurou o Embaixador soviético em Tóquio, Jacob Malik.
Este compreendeu, corretamente, que a iniciativa era uma tentativa de manter os russos fora da guerra. Os esforços de Hirota não resultaram em nada.
As manobras diplomáticas pararam por aí, pelo menos por enquanto. Arisue tinha informações cada vez mais numerosas de que os russos estavam propensos à guerra. Seus homens controlavam movimentações de tropas soviéticas na fronteira chinesa. Um contingente formidável estava sendo concentrado ali, provavelmente como preparativo para uma ataque às tropas japonesas na Manchúria.
Arisue achava que um ataque russo não visaria basicamente a ajudar os Aliados a ganharem a guerra, mas sim a estabelecer a influência soviética no Pacífico. A idéia de um Japão sob o domínio soviético deixava Arisue apavorado.
Ele concluiu que era mais urgente do que nunca chegar a um acordo com os Estados Unidos. Decidiu que teria de encontrar uma nova tática para o contato com os americanos, através do único caminho a sua disposição: o escritório do OSS em Berna.
Seu agente naquela cidade suíça, Tenente-General Seigo Okamoto, estava de prontidão há semanas, para entregar uma mensagem ao escritório local do OSS, que a transmitiría a Washington.
Arisue passou um cabograma para Okamoto, pedindo-lhe que descobrisse as condições mínimas que a América aceitaria para a rendição do Japão.
* * *
Mesmo com uma dúzia de receptores de rádio sintonizados em emissoras diferentes, a sala estava quase que totalmente silenciosa, exceto pelo zumbido dos ventiladores suspensos do teto. Cada rádio podia ser ouvido apenas através dos fones do homem sentado a sua frente. Eles eram monitores, o turno da manhã de uma escuta de 24 horas por dia das ondas de rádio do Pacífico e além. Integravam o centro de comunicações do Quartel-General do Segundo Exército Geral, do Marechal-de-Campo Hata.
O centro, o sistema nervoso do Quartel-General de Hata, estava instalado numa antiga escola, um prédio comprido, de dois andares, na base do Monte Futaba, perto do Campo de Treinamento Leste. Linhas especiais ligavam o centro ao Quartel-General do Exército em Tóquio. Outras o ligavam aos centros militares em Kyushu: Fukuoka, Sasebo, Nagasaki e Kagoxima. O centro estava ligado também à base naval em Kure, ao quartel-general dos fuzileiros em Ujina e ao comando de defesa regional no Castelo de Hiroxima.
A sala de controle era o orgulho do centro. Somente o imenso setor de transmissão e controle perto de Tóquio rivalizava com o posto de escuta de Hiroxima. O centro nunca estivera tão ocupado quanto nas últimas semanas, depois da chegada a Hiroxima do Tenente-Coronel Kakuzo Oya, especialista de Arisue em assuntos americanos, transferido para o Quartel-General de Hata como oficial de informações.
A sala de controle é que deveria fornecer a primeira indicação de que estava prestes a ocorrer um desembarque em Kyushu. Antes que isso acontecesse, esperava-se que os americanos passariam semanas bombardeando a área de invasão do mar e do ar.
Hata queria ter um aviso sufícientemente antecipado do desembarque em Kyushu para que os aviões Kamikazes e os barcos suicidas pudessem atacar a esquerda de invasão. Uma boa parte do sucesso desse plano dependería dos homens que estavam controlando as transmissões inimigas. Eram todos velhos demais ou incapacitados para o combate. Cada um conhecia o inglês a fundo.
Em turnos de oito horas, ficavam sentados na sala, com blocos a sua frente, escutando um fluxo interminável de palavras e músicas, transmitidas de lugares tão distantes quanto Washington, a Capital americana.
O período mais movimentado era de meio-dia a meia noite Durante essas horas, metade dos aparelhos na sala ficava sintonizada para transmissões de Okinawa, Iwo Jima e Marianas. Muitas se processavam em código, mas outras eram diretas, fornecendo informações que podiam ser bastante úteis. Essas interceptações incluíam não apenas as transmissões de rádio militares, mas também os breves testes efetuados pelos operadores de rádio dos B-29, antes da decolagem. Havia uma diferença de horário entre o Japão e as Marianas. Hiroxima, por exemplo, tinha uma diferença de uma hora para Tinian. Se os testes de rádio dos B-29 eram efetuados por volta das três ou quatro horas da tarde, os monitores sabiam que se poderia esperar um ataque para aquela noite. Usavam o número de testes efetuados como uma indicação provável da quantidade de aviões que se poderia esperar.
Os monitores passavam as informações aos supervisores, que, por sua vez, as transmitiam para a sala central de comunicações. Dali, todo o sistema de alerta antiaéreo da região ocidental do Japão era posto de sobreaviso. Toda a operação era realizada em poucos minutos.
Quando os bombardeiros entravam no espaço aéreo japonês, os monitores captavam trechos de conversas entre as tripulações, permitindo aos supervisores calcularem que área do Japão os aviões tencionavam atacar. As informações, jutamente com as mensagens interceptadas de e para navios em alto-mar, eram datilografadas, para posterior análise. Isso ajudava Hata e Oya a avaliarem as forças e intenções do inimigo, com admirável acurácia.
Desde sua chegada a Hiroxima, Oya regularmente visitava os monitores, esperando que sua presença fosse encarada pelos homens como uma indicação da importância que atribuía ao trabalho que estava fazendo.
Mas a verdadeira especialidade de Oya era o interrogatório. Desde que começara a trabalhar com Arisue que ele demonstrara uma extraordinária aptidão para interrogar prisioneiros. Arisue chegava mesmo a gabar-se de que, se Oya não conseguisse obrigar um homem a falar, então ninguém mais o conseguiria.
Oya ainda lamentava ter chegado tarde demais a Hiroxima para ser o primeiro a interrogar os 10 aviadores americanos que tinham sido abatidos sobre Okinawa e levados para aquela cidade antes de a ilha ser capturada pelos americanos.
Até aquele momento, eram os únicos prisioneiros de guerra americanos que estavam em Hiroxima. Permaneciam detidos no Quartel-General da Kempei Tai, nos subterrâneos do Castelo de Hiroxima.
5
O sol ainda era uma bola de fogo mal se erguendo do horizonte, no dia 12 de julho, quando Charles Perry, o oficial de rancho do 509.°, levantou-se. Pisou cautelosamente no chão. Na noite anterior, um dos outros oficiais no mesmo alojamento espalhara diversas ratoeiras, numa tentativa de apanhar os ratos que infestavam o aposento. O 509.° mudara-se para os novos alojamentos em Tinian há quatro dias. Apesar dos ratos, a opinião geral era de que, desta vez, “o Velho nos arrumou um bom lugar”. Os homens aceitavam a ausência de Tibbets sem comentários. Em Wendover, tinham-se acostumado aos constantes desaparecimentos de seu Comandante.
Perry esperava que Tibbets trouxesse alguns “presentes” ao voltar dos Estados Unidos. . . como bebidas e cigarros. Nas mãos hábeis de Perry, tais artigos eram muito valiosos para barganhar. O oficial de rancho, geralmente urbano e sofisticado, estava agora se comportando “como um mercador árabe”.
Por causa de seus esforços, o grupo desfrutava de uma seleção de pratos muito superior aos dos outros 20 mil americanos que estavam em Tinian. Perry gabava-se de que, no 509.°, “um soldado come melhor do que um general de cinco estrelas em outra unidade”.
Naquela manhã, como sempre fazia, Perry ficou observando o retorno dos B-29.
— Pareciam contas numa fieira. Assim que um aterrava, outro imediatamente se aproximava. Havia sempre o mesmo número de aparelhos à vista. Era de fato uma cena espetacular.
O sol já estava alto quando o último bombardeiro aterrou. As tripulações exaustas, depois de 13 horas no ar, passariam a maior parte do dia dormindo. E enquanto eles iam descansar, os homens do 509.° se preparavam para um novo exercício de bombardeio, despejando bombas e mais bombas sobre os japoneses em Rota. Nenhum deles recebera até aquele momento permissão para voar sobre o Japão.
Os B-29 do 509.° estavam estacionados numa área isolada do Campo Norte e guardados 24 horas por dia. As sentinelas tinham ordens de atirar em qualquer pessoa não-autorizada que tentasse aproximar-se dos aparelhos, depois de avisada a parar.
As rigorosas medidas de segurança já haviam atraído a curiosidade dos outros esquadrões. Mas as perguntas permaneciam sem respostas. E no momento em que os aviões do 509.° decolaram para Rota, um grupo de veteranos em combate apupou e gritou gracejos, por todo o Campo Norte.
O ressentimento abafado que Tibbets percebera estava começando a se manifestar abertamente. O 509.° começara a se transformar num alvo de escárnio.
Não demorou muito para que as zombarias fossem convertidas em versos, pregados no quadro de avisos do quartel-general da ilha.
Ninguém Sabe
O segredo subiu pelo ar,
para onde estão indo, ninguém sabe.
Amanhã voltarão mais uma vez
Mas nunca saberemos onde estiveram.
Não nos pergunte resultados ou outras coisas
A menos que queira meter-se em encrenca.
Mas aceite a palavra de quem sabe das coisas:
O 509.° está ganhando a guerra.
Quando os outros Grupos vão partir
Sabemos do programa de todo o espetáculo.
E quando o 5.° de Halsey bombardeia as praias do Japão,
Já sabemos o que vai acontecer no dia anterior.
MacArthur e Doolittle dizem tudo de antemão,
Mas com essa nova turma não há a menor chance.
Há mais de um mês que a gente já devia ter voltado para casa,
Pois o 509.° está ganhando a guerra.
* * *
Milhares de cópias desses versos sem pé nem cabeça foram mimeografadas e distribuídas por todo o comando do Pacífico. Do Havaí às Filipinas, os militares americanos tomaram conhecimento daquela estranha unidade de Tinian, cuja única atividade era de vez em quando atacar um alvo já dominado, os japoneses em Rota.
Em público, os homens do 509.° riam do poeminha. Mas a verdade é que as zombarias deixavam muitos profundamente irritados. Seis semanas já se haviam passado desde que a equipe de terra chegara a Tinian. Para eles, em particular, a espera longa e cansativa, tendo que se esquivar às perguntas dos curiosos, dividindo seu tempo entre as praias, o refeitório e o cinema, era um rude golpe no orgulho. Alguns dos homens do 509.° começaram, inclusive, a se perguntar se a área em que estavam alojados, com os guardas vigilantes e a cerca de arame farpado, não seria uma medida de precaução de segurança, mas sim uma indicação de que o grupo precisava de “babá”.
Beser acordou tarde, pois ficara trabalhando até de madrugada na oficina da Área Técnica, onde seria efetuada a montagem final da bomba atômica. Ali, Jeppson e os membros do Primeiro Esquadrão de Material Bélico estavam preparando tudo para a chegada dos diversos componentes da bomba.
Jeppson e cinco outros especialistas no mecanismo do detonador de proximidade foram dos primeiros a chegar a Tinian. Haviam aproveitado as horas de folga para construir um alpendre com caixotes de bombas, à entrada do alojamento que escolheram, no alto de um penhasco, onde recebia o máximo de brisa. O alojamento era a inveja de quase todos os homens do 509.°
Beser estava num alojamento próximo do cemitério onde tinham sido sepultados os americanos mortos durante a captura da ilha. Ali fora também enterrada a tripulação, ou o que restara dela, do B-29 que ele vira incendiar-se na decolagem. Beser soubera que aqueles acidentes com B-29 carregados de bombas incendiárias era um fato frequente e inquietante da vida em Tinian.
Enquanto se vestia, Beser verificou que o alojamento estava vazio. Calculou que os outros deviam ter ido para a praia. Ligou o rádio. Através da estática, pôde ouvir os acordes de Sentimental Journey. E logo depois escutou uma voz suave, pela qual se sentia fascinado, apesar de odiá-la.
Rosa de Tóquio estava fazendo uma de suas regulares transmissões de propaganda para as forças americanas no Pacífico.
Ela já surpreendera o grupo por duas vezes, fazendo referências específicas ao 509.° A primeira fora pouco depois do desembarque do pessoal de terra em Tinian, a 30 de maio. Rosa de Tóquio anunciara a chegada e recomendara aos homens que voltassem logo para casa, antes de se tornarem vítimas das forças vitoriosas do Japão.
Alguns homens do 509.° tinham escarnecido. Outros ficaram preocupados. Não sabiam como ela poderia ter descoberto alguma coisa sobre a unidade mais secreta de toda a Força Aérea. Duas semanas depois, Rosa de Tóquio voltara a mencionar o 509.°. Advertiu que os bombardeiros do grupo seriam facilmente reconhecidos pela baterias antiaéreas japonesas, por causa do símbolo “R” pintado nas caudas dos B-29. Desta vez, ninguém escarneceu. A insígnia acabara de ser pintada.
Mesmo se sentindo perturbado com as fontes aparentemente onipresentes da Rosa de Tóquio, Beser não conseguia deixar de ouvir a voz fascinante.
Naquela manhã, como sempre, ela tinha notícias sobre as últimas partidas de beisebol travadas nos Estados Unidos, informações sobre os dramas e comédias que estavam sendo apresentados na Broadway, detalhes sobre os bestsellers de ficção e não-ficção, tudo entremeado com música do Hit Parade.
Não houve qualquer menção ao 509.° Beser desligou o rádio, deixando a Rosa de Tóquio a entreter outros homens solitários, que sentiam saudades de casa.
6
A 15 de julho, durante o café da manhã, o banqueiro sueco Per Jacobsson explicou que todos os termos eram negociáveis, exceto a cláusula relativa ao Imperador. Agora, ele estava esperando a resposta de seu velho amigo Allen Dulles.
Doze dias antes, o Tenente-General Seigo Okamoto recebe a instruções de Arisue para verificar as cláusulas mínimas de rendição que os Aliados aceitariam do Japão, fora da rendição incondicional.
Okamoto discutira o assunto com o Embaixador japonês na Suíça. Haviam entrado em contato com dois dirigentes do Banco de Ajustes Internacionais, do qual Jacobsson era conselheiro financeiro.
Durante vários dias, haviam debatido quais os termos de rendição que poderiam ser aceitáveis para o Japão, já que não houvera qualquer orientação de Tóquio. O grupo imaginara um esquema tão audacioso que até mesmo o conservador achava que tinha uma possibilidade de sucesso.
A proposta era simples. Se o governo americano aceitasse as cláusulas de rendição que o grupo imaginara e que julgava aceitável para o Governo japonês, a América deveria propô-las publicamente, como se emanassem de Washington. Dessa maneira, o Japão teria uma oportunidade de aceitar uma rendição honrosa.
Jacobsson levou as propostas para o atual quartel-general de Dulles, em Wiesbaden, Alemanha. Os termos sugeridos eram: a rendição incondicional deveria ser modificada para incluir uma garantia da continuação da soberania do Imperador; não haveria mudanças na Constituição japonesa; internacionalização da Mandchúria; continuação do controle japonês sobre Formosa e Coréia.
Dulles sabia que estava no momento numa posição delicada. Roosevelt lhe dera total liberdade de ação, mas Truman não parecia disposto a chegar a tanto. Dulles não fora autorizado a falar em nome do novo Presidente ou do Governo americano. Além do mais, estava consciente das possíveis repercussões na América de qualquer sinal de apaziguamento em relação aos japoneses. Mas Dulles ficou interessado pela opinião de Jacobsson, segundo a qual os japoneses provavelmente se renderíam, se tivessem certeza de que poderiam manter seu Imperador.
Os russos estavam prontos a atacar o flanco norte do Japão em agosto, daí a menos de um mês. Mas Dulles achava que a União Soviética não ficaria nisso. Assim que entrasse no Extremo Oriente, ela não mais sairía, aumentando cada vez mais sua influência.
Dulles tomou uma decisão.
Apresentou uma contraproposta a Jacobsson. Em termos cuidadosos de advogado, fazia uma distinção clara entre uma promessa objetiva e uma “possibilidade de acordo”. No fundo, a mensagem de Dulles era inequívoca: era possível que a América deixasse o Imperador continuar em seu lugar, contando que Hirohito assumisse agora, publicamente, uma posição firme pelo fim da guerra.
Jacobsson ficou aliviado. A proposta de Dulles, se não era o que esperava, pelo menos representava alguma coisa.
Voltou imediatamente para Berna.
Dulles começou a fazer planos para ir até a base aérea mais próxima, em Frankfurt, de onde seguiría para Berlim. Queria informar tudo a Stimson, que era esperado em Berlim dentro de poucos dias, a fim de participar da iminente Conferência dos Três Grandes, em Potsdam.
7
Foi dado um telefonema do gabinete de Oppenheimer em Los Alamos para a casa da guarda, à entrada do platô. O telefonema ordenava às sentinelas que deixassem passar o comboio que se aproximava sem qualquer estorvo.
O comboio era formado por um caminhão preto fechado e sete carros. Seguiam quatro homens em cada carro. Por baixo dos paletós, levam pistolas em coldres nos ombros. No chão dos veículos, havia rifles, metralhadoras e caixas de munição. Os homens tinham ordens de atirar em quem quer que tentasse deter o comboio.
No carro imediatamente atrás do caminhão iam dois oficiais do Exército. As insígnias de artilharia de campanha nas golas estavam viradas ao contrário, uma indicação da pressa com que o Major Robert Furman e o Capitão James Nolan haviam assumido seus disfarces.
Na realidade, Furman era um engenheiro formado em Princeton, adido ao Projeto Manhattan. Sua função normal era obter materiais estratégicos e ajudar a recrutar pessoal científico. Nolan era um radiologista no hospital de Los Alamos.
Naquele dia, os dois estavam iniciando uma jornada que iria terminar em Tinian. Até chegarem a seu destino, os dois tinham ordens de não perder de vista um caixote de cinco metros de comprimento, que continha o canhão interior da bomba atômica, e um cilindro revestido de chumbo com 60 centímetros de altura e 45 centímetros de diâmetro, no qual estava o projétil de urânio. O caixote e o cilindro estavam sendo transportados no caminhão.
Oppenheimer deixara bem claro para os dois que os materiais que estavam acompanhando eram praticamente insubstituíveis.
A apenas um quilômetro e meio da estrada montanhosa de Los Alamos, quase ocorreu um desastre, quando furou o pneu do carro em que Furman e Nolan viajavam. O automóvel ficou descontrolado e por um momento deu a impressão de que iria cair numa ravina ao lado da estrada.
O caminhão parou imediatamente. Os agentes de segurança empunharam suas armas.
O carro foi controlado a tempo, o pneu trocado e a viagem recomeçou. Numa nuvem de poeira, o comboio passou por Santa Fé e chegou ao Aeroporto de Albuquerque.
Havia três DC-3 à espera. Furman e Nolan receberam pára quedas e embarcaram no avião do meio. O caixote e o cilindro de chumbo foram postos no mesmo avião, também providos de pára- quedas.
A tripulação recebera uma instrução expressa: em caso de emergência, o caixote e o cilindro deviam ser lançados antes dos passageiros.
Os aviões chegaram ao Campo Hamilton, em São Francisco, sem qualquer incidente. Uma nova equipe de agentes escoltou o caixote, o cilindro, Furman e Nolan até o meio de transporte seguinte: um cruzador pesado, cujas recentes cicatrizes de combate, adquiridasem Okinawa, estavam ocultas sob uma camada de trinta fresca. Era o Indianapolis.
* * *
Algumas horas depois de Dulles fazer seus planos para ir a Potsdam, Paul Tibbets observou um avião-transporte aproximar-se para o pouso em Wendover. O aparelho voou sobre os campos de sal, fez uma volta para evitar o povoado e pousou na pista, passando pelos três B-29 que ainda estavam na base.
O tempo que aqueles bombardeiros ainda iriam permanecer na base dependería das notícias que eram trazidas por aquele avião- transporte. O aparelho trazia um mensageiro do Projeto Manhattan, que voava entre Washington, Wendover e Los Alamos levando instruções secretas demais para serem entregues por outros meios.
O mensageiro trazia a notícia de que parte da bomba atômica já fora embarcada no Indianapolis. A outra parte — o “alvo” de urânio 235 que seria colocado na extremidade do canhão — iria de avião para Tinian, com as tripulações que ainda estavam em Wendover.
A operação tinha o nome em código de “Carregamentos Bronx”. Tibbets muitas vezes se perguntou quem inventaria os nomes em código que eram dados a tudo e a todos que estavam envolvidos no Projeto Manhattan. Ainda se surpreendia quando Groves atendia ao telefone com as palavras “Aqui é ‘Alívio’...” ou quando Ashworth se anunciava como “Infortúnio”, às vezes transmitindo notícia do “Coordenador de Ruptura Rápida", o pseudônimo de um dos cientistas que trabalhavam na bomba de plutônio.
O memorando daquele dia confirmava outro recente de “Juiz” (Capitão Parsons), dando detalhes de como o “alvo” para “Garotinho” (A bomba de urânio) deveria seguir para “Destino” (Tinian). “Garotinho” era apenas um dos muitos nomes dados à bomba. Era também conhecida como “engenhoca”, “artefato”, “a besta” (frequentemente usado pelos cientistas que agora faziam crítica ao projeto), “S-l” (preferido por Stimson) e “ela” (usado pelos homens do 509.°, ainda ignorando a verdadeira natureza da bomba).
Groves originalmente chamara a bomba de urânio de “Homem Magro”, por causa de Roosevelt. Quando se tornara necessário encurtar o cano do canhão da bomba, Groves a rebatizara de “Garotinho”. A bomba de plutônio, desde a sua concepção, era conhecida como “Homem Gordo”, por causa de Churchill.
O trabalho para a bomba na Inglaterra estava oculto sob o disfarce de “Diretoria de Válvulas Eletrônicas”.
Saber quem era quem e o que era o que no mundo codificado do Projeto Manhattan era difícil até mesmo para alguém de boa memória como Tibbets.
Mas as instruções que recebia agora eram bastante claras. Um dos B-29 ainda em Wendover levaria determinadas partes da bomba que ainda não tinham sido embarcadas. O resto iria nos aviões- transporte C-54 do 509.°.
Tibbets designou as tripulações para os vôos e depois preparou-se para viajar até Alamogordo, a fim de assistir ao teste de “Homem Gordo”.
Quando já estava tudo pronto para sua partida para o Novo México, ele recebeu uma mensagem inesperada e urgente de Tinian. Estava assinada por Ferebee, o único homem, acima de todos os demais integrantes do 509.°, em cujo julgamento Tibbets confiava. O bombardeador, que acabara de chegar a Tinian, era sereno e refletido, não entrando em pânico por qualquer coisa. Assim, não se podia subestimar a gravidade das palavras de Ferebee, insistindo para que Tibbets voasse com toda urgência para Tinian, a fim de enfrentar uma crise de grandes proporções. Parecia que o 509.° ia ser substituído na missão atômica.
Parando apenas para enviar uma mensagem codificada a Groves, informando de que não poderia ir a Alamogordo, Tibbets iniciou uma viagem de quase 10 mil quilômetros até Tinian. Não passara os 10 últimos meses trabalhando até a exaustão, sacrificando a família, o lazer e as amizades, para que alguém lhe arrebatasse a missão atômica no último instante.
8
Aproveitando como iluminação os raios que intermitentemente cortavam a escuridão, antes do amanhecer daquele dia 16 de julho, muitos dos 425 cientistas e técnicos reunidos na área de teste de Alamogordo, Novo México, esfregaram cuidadosamente loção de bronzear nas mãos e rosto. Embora alguns estivessem a mais de 30 quilômetros de distância, receavam que o clarão intenso pudesse provocar-lhes queimaduras. Mas esse seria o menos nocivo dos efeitos secundários. Todos sabiam que a precipitação radioativa, posterior ao clarão, podia matar. Se os alcançasse, nenhuma loção ou poção poderia impedir que fossem contaminados.
Como ninguém sabia exatamente quais os limites de uma reação em cadeia nuclear não-controlada, admitia-se que a destruição poderia estender-se além daquela área semidesértica, que Groves e os cientistas chamavam de Local S e que os nativos conheciam como Jornada del Muerto. Mesmo os cientistas que acreditavam, como Groves, que a primeira explosão atômica do mundo não se espalharia por uma área além da prevista, partilhavam a sensação geral de que estavam dando um salto para o desconhecido.
A 15 quilômetros da base em que Groves e Oppenheimer passaram a maior parte daqueles primeiras horas de 16 de julho, estava a bomba de plutônio, sobre uma plataforma de aço, com 30 metros de altura. Aquele ponto do deserto tinha o nome em código de “Ponto Zero”.
Em meados de maio, quando a estrutura metálica ainda estava sendo construída, a Força Aérea bombardeara o local, pensando erroneamente que fosse uma área para exercícios de bombardeio. Duas construções haviam sido atingidas e ocorrido incêndios. Mas, milagrosamente, não houvera qualquer baixa. Alguns dias depois, durante um teste usando uma bomba convencional, um raio atingira a torre e provocara a explosão prematura da bomba. Também não houvera vítimas.
Agora, com o teste marcado para duas horas da madrugada, todos torciam para que não ocorressem mais contratempos. Mas o tempo estava piorando cada vez mais. Raios foram acompanhados por uma chuva forte. Chuvas esporádicas poderiam constituir um grave perigo, afetando os circuitos elétricos que levavam à bomba; chuvas intensas poderiam impedir inteiramente o teste.
Era mais uma preocupação para Groves, já aborrecido porque Tibbets não estava em Alamogordo. E por causa do tempo, o B-29 que Tibbets ordenara que estivesse no ar por ocasião da explosão, teria de ficar em terra. Assim, não haveria possibilidade de se prever o efeito sobre o avião da bomba que seria lançada no Japão.
Groves mostrava-se ainda mais irritado pela maneira como alguns cientistas pressionavam Oppenheimer, numa tentativa de conseguir o adiamento do teste. O brilhante físico estava agora extremamente tenso.
O general decidiu assumir um papel a que não estava acostumado: o do homem que iria dissipar a tensão. Agarrando firmemente seu diretor científico pelo braço, o chefe do projeto levou-o a dar uma volta pela base, assegurando-lhe que o tempo iria melhorar. A opinião de Groves era a seguinte:
Todo o pessoal estava num ponto máximo de tensão e excitamento. Um adiamento inevitavelmente resultaria num desânimo que afetaria a eficiência de todos. ... Não haveria simplesmente a possibilidade de proteger adequadamente nosso pessoal e a comunidade local ou manter a mesma segurança rigorosa, se o teste fosse adiado. ... (Outra) preocupação era o efeito do adiamento do teste em nossa programação de bombardeio do Japão. Nossa primeira bomba de combate era de urânio 235. Embora um teste bem-sucedido da bomba de plutônio, sem as complicações de um lançamento aéreo, não fosse uma garantia, pelo menos seria um fator de tranquilização . Além disso, reforçaria nossas garantias ao Presidente quanto à provável eficácia. O fracasso do teste poderia tornar mais forte o argumento de alguns, particularmente do Almirante Leahy, de que estávamos sendo excessivamente otimistas e que deveriamos esperar por um teste bem-sucedido. Afinal, era a primeira vez na história, desde o Cavalo de Tróia, que uma nova arma seria usada sem qualquer teste anterior.