A Bomba de Hiroxima

Gordon Thomas · Capítulo 6 de 10

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A Bomba de Hiroxima

Onda de Choque

CONSEQUÊNCIAS

 

De 7 de agosto ao Meio-dia de 15 de

agosto de 1945

1

 

No primeiro milissegundo depois de 8:16 horas da manhã um minúsculo ponto de luz entre vermelho e roxo expandiu-se até uma bola de fogo incandescente, com centenas de metros de largura. A temperatura no núcleo era de 50 milhões de graus centígrafos. No “ponto zero”, a clínica do Dr. Shima, diretamente abaixo da detonação, a temperatura alcançou vários milhares de graus centígrados.

O calor ateou incêndios a dois quilômetros de distância e queimou peles a três quilômetros.

Dos 320 mil civis e soldados que se encontravam na cidade, cerca de 80 mil morreram instantaneamente ou ficaram gravemente feridos. Cerca de um terço das baixas foi de soldados. A maioria das mortes ocorreu nos 10 quilômetros quadrados em torno da Ponte Aioi, onde ficavam as principais áreas residenciais, comerciais e militares.

As colunas de pedra que sustentavam a estrada da Clínica Shima foram achatadas contra o solo, o prédio inteiro desmoronou, os ocupantes foram vaporizados.

Outros 62 mil prédios, de um total de 90 mil, foram destruídos. Todos os serviços públicos e de transporte ficaram arrasados. Ocorreram mais de 70 mil vazamentos nos canos de água.

Um total de 180 dos 200 médicos da cidade e 1.654 das 1.780 enfermeiras foram mortos ou ficaram feridas. Somente três dos 55 hospitais e ambulatórios da cidade permaneceram em condições de serem usados.

O maior grupo individual de mortos ocorreu no Castelo de Hiroxima, a 900 metros do epicentro, onde vários milhares de soldados e um prisioneiro de guerra americano estavam diretamente expostos à explosão. Foram inteiramente incinerados. Um destino similar se abateu sobre as milhares de pessoas que trabalhavam nas faixas de proteção contra incêndios próximas.

O Castelo de Hiroxima foi totalmente destruído. O índice de mortalidade de seus ocupantes elevou-se a 90 por cento. Entre as baixas, estavam as jovens colegiais que trabalhavam no centro telefônico e a maioria, se não mesmo todos, dos prisioneiros de guerra americanos.

As temperaturas intensas incendiaram a Rádio Hiroxima e queimaram bondes, caminhões e vagões ferroviários. Muros de pedra, portas de aço e calçamentos de asfalto ficaram em brasa. O calor queimou as letras pretas de livros e jornais, fundiu roupas nas peles das pessoas. A dois quilômetros do epicentro, homens tiveram seus bonés gravados no couro cabeludo: mulheres, os padrões dos quimonos impressos nos corpos, e crianças, as meias queimadas em suas pernas.

A explosão entupiu seis das estações bombeadoras de esgotos da cidade e afetou o lençol de água subterrâneo. Espalhou um turbilhão de vidro pela área da destruição.

 

* * *

 

Quase tudo isso aconteceu no tempo que Bob Caron levou para fechar os olhos por trás dos óculos de proteção, a sua primeira e incontrolável reação ao clarão.

Todos os homens no Enola Gay viram a luz e ficaram aturdidos com sua intensidade.

Ninguém disse nada.

Tibbets pôde sentir o gosto da luminosidade.

— Tinha o gosto de chumbo.

Um brilho etéreo iluminou os instrumentos na cabine de comando, no painel de Duzenbury, no rádio de Nelson, nas prateleiras diante de Beser.

Quando Caron abriu os olhos, o clarão já havia desaparecido.

Tomando o seu lugar, havia algo igualmente assombroso. Nas palavras de Caron, foi “uma espiada no Inferno”.

 

* * *

 

Em Hiroxima, estava havendo uma tempestade de fogo. De uma área que agora se estendia por quase dois quilômetros, uma massa fervilhante de vermelho e púrpura começou a se elevar para o céu. A coluna sugava para a sua base o ar superaquecido, que incendiava a tudo o que fosse combustível.

O Tenente-Coronel Oya recuperou os sentidos para descobrir- se estendido de rosto para baixo no chão do devastado Quartel-General. Chovia areia em cima dele, dos sacos arrebentados no telhado todo rachado. A explosão arremessara Oya a três metros da janela e os raios de calor haviam queimado gravemente a parte de trás de sua cabeça e pescoço. O sangue escorria de aberturas na pele provocadas por cacos de vidro. Outros oficiais na sala estavam em estado parecido.

No Monte Futaba, um pouco mais distante, o Segundo-Tenente Yokoyama não se lembrava do clarão inicial da explosão de calor. Sua primeira recordação foi a de estar quase nu do lado de fora de seu alojamento, brandindo a espada cerimonial e gritando para que seus homens abrissem fogo. Mas não havia nada em que eles pudessem atirar. O tenente virou-se para olhar Hiroxima e descobriu “um nevoeiro denso e estranho envolvendo a cidade”.

No centro desse nevoeiro, seu oficial-comandante, Coronel Abe, estava morto, juntamente com a filha. Não haveria mais necessidade de Yokoyama inventar novas desculpas para não se casar com a jovem.

Kazumasa Maruyama, a cerca de 1.500 metros do ponto zero, foi derrubado por uma pilastra de pedra. Quando recuperou os sentidos, a escuridão estava baixando sobre a cidade, enquanto a grande nuvem em forma de cogumelo bloqueava a luz do dia. Levantando-se, Maruyama voltou a cambalear para sua casa. Não iria recordar-se de como fizera a jornada.

Não muito longe do lugar em que Maruyama caíra, estava o homem a quem ele servira tão fielmente, o Prefeito Awaya. Sua casa tinha desabado e estava em chamas. Awaya, o filho de 14 anos e a neta de três haviam morrido instantaneamente. A esposa e a filha morreríam mais tarde. No dia seguinte, Maruyama iria às ruínas ainda fumegantes da casa e desenterraria o que sobrara do corpo do prefeito.

 

2

 

De seu posto de observação na cauda do Enola Gay, Bob Caron foi o primeiro a ver um fenômeno assustador se desenvolver. Uma grande massa circular de ar estava subindo, com a velocidade do som, na direção do Enola Gay. Estupefato, o artilheiro da cauda tentou gritar um aviso, mas suas palavras eram ininteligíveis.

Caron foi o primeiro homem a testemunhar uma onda de choque de bomba atômica, criada pelo ar sendo tão comprimido que parecia assumir uma forma física. Ele teve a impressão de que “o anel em torno de algum planeta distante tinha-se desprendido e estava vindo em nossa direção”.

O sargento gritou novamente. No mesmo instante, o grande círculo de ar chocou-se contra o Enola Gay, jogando o avião ainda mais alto. Tibbets agarrou os controles. Mas foi o barulho acompanhando a onda de choque que lhe causou mais preocupação. Recordando-se de suas missões de bombardeio na Europa, ele pensou que “uma granada de 88mm tinha explodido ao nosso lado”. E gritou imediatamente:

— Fogo antiaéreo!

Ferebee teve a mesma reação:

— Estão atirando na gente!

Os dois veteranos vasculharam freneticamente o céu à procura de baforadas de fumaça. O pandemônio reinava no bombardeiro.

Menos de quatro segundos depois, acima da cacofonia de vozes pelo interfone, Caron gritou:

— Vem vindo outra!

Com um tremendo estronho, a segunda muralha de ar atingiu o Enola Gay. Mais uma vez, o bombardeiro foi jogado para o alto, derrubando Nelson de seu assento e fazendo Beser rolar pelo chão.

A onda de choque passou tão rapidamente quanto chegara. O Enola Gay estava de novo em ar calmo.

Tibbets dirigiu-se à tripulação:

— Acabou! Era a onda de choque refletida, voltando do solo. Não haverá mais. Não era fogo antiaéreo. Fiquem calmos. E agora vamos fazer logo as gravações. Está pronto, Beser?

— Estou, Coronel.

— Quero que grave as impressões de todos os tripulantes. Quero que cada um seja sucinto e tome cuidado com a linguagem. Bob, pode começar.

— Poxa, Coronel, é espetacular!

— Limite-se a descrever o que pode ver. Imagine que está fazendo uma transmissão de rádio.

Com o Enola Gay começando a circular a 9.200 metros de altitude, a 18 quilômetros de Hiroxima, o artilheiro da cauda fez seu relato:

— Uma coluna de fumaça subindo depressa. Tem um núcleo intensamente vermelho. Uma massa fervilhante, de cor entre cinza e púrpura com aquele núcleo vermelho. É tudo turbulento. Há incêndios por toda parte, como chamas numa gigantesca camada de carvões. Estou começando a contar os incêndios. Um, dois, três, quatro, cinco, seis ... quatorze, quinze... É impossível. Há incêndios demais para serem contados. Lá vem a forma de cogumelo de que o Capitão Parsons falou... É como uma massa de melaço fervilhante. O cogumelo está-se espalhando. Tem talvez dois ou três quilômetros de largura e um quilômetro de altura. E continua subindo. É muito escuro, mas tem uma coloração púrpura na nuvem.

A base do cogumelo parece uma nuvem baixa e carregada, cheia de chamas. A cidade deve estar por baixo disso. As chamas e a fumaça estão turbilhonando, espalhando-se na direção das colinas. Tudo o que posso ver agora da cidade é a parle principal do porto e o que parece ser um aeroporto. Há aviões lá embaixo.

Dando uma volta ampla, Tibbets circulou a nuvem, que se elevava agora a quase 20 mil metros.

Esperando sua vez de falar para o gravador de Beser, Lewis procurava por palavras para escrever em seu registro. Alguns homens a bordo afirmariam mais tarde que a reação inicial dele à nuvem de cogumelo fora uma exclamação:

— Deus do céu! Olhem só para aquela filha da puta!

Mas Lewis decidiu, depois, escrever outra frase: “Deus do céu! O que fizemos?”

Tibbets ficou “espantado, até mesmo chocado”:

— Eu estava esperando ver algo grande, mas o que é grande afinal? O que vi era de uma magnitude e com uma conotação de destruição maior do que eu realmente imaginara.

Beser limitou-se a poucas palavras para a posteridade:

— É bastante aterrador! Ao mesmo tempo, sinto-me aliviado por ter funcionado.

Nelson, Shumard e Duzenbury usaram palavras como “espantoso”, “inacreditável”, “desconcertante” e ”assombroso”, visando transmitir o que estavam contemplando. Stiborik pensou: “Isto é o fim da guerra.” Ferebee e Parsons estavam ocupados demais preparando seus relatórios para gravar suas impressões.

Na cauda, Caron tirava fotografias que seriam publicadas no mundo inteiro.

O Enola Gay completou a primeira volta pela cidade mortalmente ferida.

 

3

 

O Segundo-Tenente Matsuo Yasuzawa saiu do centro de comunicações do aeroporto e avistou os bombardeiros como três pontos pequenos no céu cheio de fumaça “Humilhado e furioso” pelo fato de o inimigo não ter sido ainda atacado por caças ou fogo antiaéreo, o aviador decidiu ir atrás dos bombardeiros.

Passando por caminhões e aviões em chamas, ele correu para o seu aparelho de treinamento, que pousara em Hiroxima menos de uma hora antes. Todos os aviões por que passou estavam bastante avariados.

O aeroporto ficava a mais de três quilômetros do epicentro. A força da explosão já estava bastante reduzida ao atingir a base. Mesmo assim, não restara uma única janela intacta e muitos prédios haviam sido abalados.

Yasuzawa chegou a seu avião ofegante, inteiramente sem fôlego. Sacudiu a cabeça de espanto.

O avião estava entortado.

Ficara de lado, na direção da onda de choque, que arrebentara todo o vidro de um lado da carlinga e dera um novo formato à fuselagem, deixando-a como se fosse um “C”. A cauda estava inclinada cerca de 10 graus, assim como o nariz.

Yasuzawa subiu na carlinga e apertou o botão do arranque. O motor entrou em funcionamento, contra todas as expectativas.

Foi nesse momento que Yasuzawa avistou uma cena que o fez estremecer. Aproximando-se do aeroporto, divisou a vanguarda de uma procissão de “cadáveres ambulantes”. Sangrando e carbonizados, a pele pendendo, os cabelos chamuscados até as raízes, os primeiros sobreviventes estavam à procura de um refúgio. Algumas mulheres carregavam bebês.

Horrorizado, Yasuzawa desviou os olhos. Um novo pensamento o obcecava agora: tinha que sair dali e comunicar o que acontecera em Hiroxima.

Taxiou o avião lentamente até a pista, acelerou o motor e soltou os freios. Puxou a alavanca para trás e o avariado avião de treinamento elevou-se no ar meio de lado. Yasuzawa ficou cerca de um metro acima do solo por um momento e depois tornou a pousar,

Certo agora de que o aparelho conseguiria voar, ele taxiou até a outra extremidade da pista e preparou-se para a decolagem.

 

4

 

A bordo do Enola Gay, Nelson já transmitira a mensagem de que a missão fora um sucesso. Agora, Parsons enviou uma segunda mensagem. Ao ser decifrada, informaria ao General Farrell, aguardando ansiosamente na sala de operações do 509º, em Tinian, a notícia que ele esperava há horas: SUCESSO EM TODOS OS ASPECTOS. EFEITOS VISÍVEIS MAIORES QUE ALAMOGORDO. CONDIÇÕES NORMAIS NO AVIÃO DEPOIS DO LANÇAMENTO. SEGUINDO PARA BASE.

Depois de circular Hiroxima pela terceira e ultima vez, Tibbets iniciou a viagem de volta a Tinian. O Great Artiste e o Nº 91 seguiram atrás do Enola Gay, pela “Estrada Hirohito".

 

5

 

O Segundo-Tenente Yasuzawa já ia decolar quando emergiu da escuridão, cambaleando, o oficial que trouxera a Hiroxima Ao descobrir que o piloto pretendia decolar, ele insistiu em ir junto.

O tenente argumentou que o avião estava em estado precário e que seria um vôo extremamente perigoso, mas o major não desistiu. Subiu para o assento atrás de Yasuzawa.

Com os dois homens espremidos no lado esquerdo, abrigando-se por detrás do pouco vidro que ainda restava naquele lado da carlinga, o aparelho avariado avançou pela pista. Quase ao final, Yasuzawa puxou a alavanca e o avião alçou vôo.

Sobre o porto, ele fez a volta na direção da cidade e da fumaça. Sabia que, se cometesse o menor erro, o avião “poderia virar e isso seria o fim”.

Ao subir, com o vento Uivando pela carlinga aberta, Yasuzawa concentrou-se em manter o avião deformado no ar, percebendo apenas que havia “um nevoeiro denso, fumaça e chamas”.

A 600 metros de altura, ele nivelou para fazer a mesma coisa que Tibbets fizera, 15 vezes mais alto: circular a cidade a fim de avaliar os danos. Mas enquanto o Enola Gay permanecera longe da nuvem, Yasuzawa estava agora entrando e saindo dela, sem saber do risco a que estava submetendo seu passageiro e a si mesmo.

Depois de uns cinco minutos de reconhecimento, o intrépido piloto seguiu para a base aérea de Kyushu, a 150 quilômetros de distância.

Ali, depois de concluir um dos vôos mais insólitos da história da aviação, Yasuzawa trocaria o seu avião avariado por um outro aparelho, de transporte, passando o resto do dia a trazer sobreviventes de Hiroxima.

 

6

 

Às 10:30 horas, o oficial de rancho Charles Perry soube que a missão fora um sucesso. Virou-se para seus cozinheiros e gritou:

— A festa começou!

As cozinhas do 509º tornaram-se um centro de intensa atividade, com Perry preparando uma grande comemoração para o retomo triunfal dos vitoriosos.

Seus homens fizeram centenas de tortas para um concurso entre os gastrônomos da unidade, havia dezenas de engradados de cerveja gelada e muita limonada, milhares de cachorros-quentes, fatias de bifes e salame para sanduíches, salada de batata e salada de frutas.

Satisfeito porque estava tudo em ordem para “a maior festa” que Tinian já tinha visto, Perry sentou-se a uma máquina de escrever e preparou um programa para a ocasião:

 

509º

FESTA COM CERVEJA GRÁTIS HOJE ÀS 2 DA TARDE

HOJE — HOJE — HOJE — HOJE — HOJE

LOCAL: SALÃO DE GALA DO 509º

PARA TODOS OS HOMENS DO GRUPO INTEGRADO

QUATRO (4) GARRAFAS DE CERVEJA

PARA CADA UM

SEM NECESSIDADE DE CARTÃO DE RACIONAMENTO

LIMONADA PARA QUEM NÃO GOSTAR DE CERVEJA

CONCURSO DE JITTERBUG

A MELHOR MÚSICA

CONCURSO SURPRESA — VOCÊ DESCOBRIRÁ O QUE É

ATRAÇÃO EXTRA: LOURA, ESPEVITADA, CURVILÍNEA, STARLET

VINDA DE??????

PREÇOS — OS MELHORES DA PRAÇA

E Cerveja Livre

COMIDA EM ABUNDÂNCIA 

DE PERRY & FORNECEDORES

EM SEGUIDA: FILME ESPECIAL ÀS 19:30

IT’S A PLEASURE

TECHNICOLOR COM SONJA HENIE E MICHAEL O’SHEA

SOLICITE MAIS DETALHES A SEU ORDENANÇA

Use Roupas Velhas Use Roupas Velhas Use Roupas Velhas

6 DE AGOSTO DE 1945

SEJA BEM-VINDO À FESTA PELO RETORNO DO

ENOLA GAY

DA

MISSÃO EM HIROXIMA

 

7

 

O Capitão Mitsuo Fuchida, líder do ataque a Pearl Harbor e agora voando para Hiroxima em seu bombardeiro da Marinha, perguntou que força teria criado a estranha nuvem que pairava sobre a cidade.

Ele chamou a torre de controle do aeroporto. Não houve resposta.

Ao se aproximar, Fuchida constatou que Hiroxima, a cidade de onde saíra na tarde anterior, “simplesmente não estava mais ali. Havia incêndios gigantescos em todos os quarteirões. Só que eles pareciam não estar consumindo prédios, mas sim escombros".

Fuchida não teria recordação consciente do pouso do avião na pista, a mesma da qual Yasuzawa fizera a épica decolagem. Sua recordação seguinte seria a de caminhar na direção da saída do aeroporto, impecavelmente vestido em seu uniforme branco, sapatos brilhando e luvas; nas mãos, para deparar com “uma procissão de pessoas que pareciam ter saído diretamente do Inferno”.

Horrorizado, Fuchida seguiu para Hiroxima. Os mortos e agonizantes estavam amontoados nas sarjetas, flutuando nos rios, bloqueando as ruas. Perto do centro, áreas inteiras haviam desaparecido completamente. Pelo menos numa área de três quilômetros quadrados, “não restava absolutamente nada”. Acabrunhado e exausto, Fuchida vagueou a esmo pela cidade devastada.

 

8

 

O Enola Gay estava a 585 quilômetros de Hiroxima quando Caron informou que a nuvem de cogumelo não era mais visível. Somente então é que Tibbets resolveu cochilar um pouco, deixando Lewis no comando do avião.

Às 2:20 horas da tarde, horário de Tinian, Tibbets foi acordado por Farrell, chamando da torre do Campo Norte para dar parabéns. Depois de tomar uma lata de suco de fruta, Tibbets reassumiu o comando do bombardeiro. Às 2:58 horas, o Enola Gay aterrou no Campo Norte. Havia passado 12 horas e 13 minutos no ar.

Duzentos homens estavam à espera para saudá-los, na pista. Outros milhares encontravam-se agrupados mais além.

Começaram a aclamar quando Tibbets e sua tripulação deixaram o avião. Foram imediatamente cercados pelos fotógrafos e homens a lhes darem os parabéns. Um general ordenou que a multidão recuasse. Pelo espaço aberto, o General Spaatz avançou. Aproximou-se de Tibbets e pregou-lhe a Cruz do Mérito no peito do macacão. Os dois homens se afastaram, ainda sem se terem falado, batendo continência. Depois, Spaatz virou-se e deixou o local, seguido por um séquito de oficiais. Os outros homens voltaram a cercar os aviadores, crivando-os de perguntas.

Um oficial pegou a câmara de Caron. As fotografias foram reveladas e despachadas para Washington, para uma distribuição mundial.

Outro oficial pegou o gravador de Beser. As gravações desapareceram.

A reunião para se prestar as informações sobre a missão foi informal, com generosas doses de bourbon e ampla distribuição de cigarros. Quando terminou, a festa de Perry já estava em pleno andamento.

Mas, de alguma forma, parecia não ter a menor importância. Tudo o que Paul Tibbets e os outros tripulantes do Enola Gay desejavam era dormir um pouco.