A Bomba de Hiroxima
Capítulo 1
Na manhã de 7 de agosto, os líderes japoneses já sabiam que Hiroxima fora atingida por uma nova espécie de bomba. Foram informados de que a destruição era de proporções incalculáveis. Mas para quem estava acostumado com uma Tóquio devastada, tais notícias não causavam muito espanto.
A declaração do Presidente Truman, descrevendo a arma com alguns detalhes, que havia sido divulgada para um mundo atônito e para um delirante público americano no dia anterior, fora em seguida transmitida para o Japão. Muitos políticos japoneses a encararam como propaganda. O povo japonês não foi informado de coisa alguma por seus líderes.
A reação mundial foi confusa.
O Vaticano condenou a nova bomba como uma “conclusão catastrófica para as surpresas apocalípticas da guerra”. Um porta- voz comparou a invenção da bomba com a do submarino por Leonardo da Vinci, lamentando que os cientistas nucleares, como Da Vinci, não tivessem “destruído sua criação no interesse da Humanidade”.
Na Inglaterra, o governo recebeu bem a bomba como um meio de apressar o final da guerra. H.G. Wells, que previra a bomba atômica 12 anos antes em seu livro The Shape of Things to Come, comentou:
— A bomba pode acabar com tudo, bom ou mau. Compete ao homem decidir qual o caminho que escolherá.
Num campo de prisioneiros de guerra no Luxemburgo, alguns criminosos de guerra nazistas do primeiro escalão, entre os quais Goering, Von Ribbentrop e o Marechal-de-Campo Keitel, concordaram que a guerra moderna chegara a seu ponto crítico. Von Ribbentrop, o antigo Ministro do Exterior nazista, disse:
— Ninguém seria tão estúpido a ponto de começar uma guerra agora. É a oportunidade para a Humanidade acabar para sempre com a guerra.
Na União Soviética, os jornais não consideraram a bomba atômica como digna de uma manchete. Embora manifestando “interesse pela nova arma”, jornais e emissoras de rádio disseram que os cientistas russos estavam também “bem adiantados em pesquisa atômica”.
Em Washington, senadores pediram à recém-criada Organização das Nações Unidas para assegurar que “as nações amantes da paz partilhem dos benefícios das descobertas que levaram à bomba”.
Houve uma coisa em que todos concordaram: o mundo nunca mais voltaria a ser o mesmo.
Quando o Gabinete japonês soube da bomba, indicou o Major-General Arisue para chefiar um grupo de altos oficiais e cientistas que iria a Hiroxima para investigar. Entre os cientistas, estava o Professor Asada, o físico que trabalhara na tentativa de fabricar a bomba atômica japonesa e que ainda procurava aperfeiçoar o seu raio da morte.
Em Hiroxima, com o prefeito morto, o Marechal-de-Campo Hata havia assumido o controle administrativo da cidade. Ele próprio ficara apenas ligeiramente ferido, embora a esposa estivesse bastante queimada. O marechal transferiu seu quartel-general para o abrigo subterrâneo ao pé do Monte Futaba.
Muitos dos seus oficiais superiores estavam mortos. O Príncipe RiGu e seu garanhão branco tinham desaparecido. O Coronel Katayama também sumira. Seu cavalo fora encontrado numa fenda no chão, espremido à metade de sua largura. As ordens de Hata eram transmitidas através do Coronel Imoto, que estava bastante ferido, mas era o oficial de patente mais alta, abaixo do Marechal- de-Campo, que ainda estava vivo.
As turmas de socorro demoraram a chegar a Hiroxima. A primeira ajuda veio dos soldados baseados em Ujina. O porto ficava a mais de três quilômetros do epicentro e pouco sofrera. Fuzileiros retiraram das enseadas em torno do porto de Hiroxima os barcos que haviam sido escondidos, cheios de explosivos, nos preparativos para a invasão americana. Os explosivos foram retirados e os barcos presos uns nos outros, sendo cobertos por pranchas. E subiram lentamente pelos rios, até o centro de Hiroxima, recolhendo feridos e levando-os para o hospital militar em Ujina. A passagem dos barcos era dificultada pelos cadáveres que atravancavam os rios. Durante vários dias, os cadáveres ficaram flutuando.
O destino dos prisioneiros de guerra americanos é incerto. Houve informações de que dois deles foram levados para Ujina, feridos, mas ainda em condições de andar. Um outro teria sido avistado debaixo de uma ponte, agonizante, usando apenas uma cueca vermelha e branca. Dois teriam sido espancados até a morte por seus captores, no Castelo de Hiroxima.
O Suboficial Hiroshi Yanagita, da Kempei Tai, estava dormindo, ainda de ressaca, quando a bomba explodiu. A menos de um quilômetro do epicentro, ele foi atirado para fora da cama inteiramente nu, em seu quarto no segundo andar. A casa estava em chamas: Hiroshi foi até a janela e pulou ... para descobrir que a casa desabara e seu quarto estava agora ao nível da rua. Envolvendo-se num lençol, conseguiu chegar a Ujina. Ali, arrumou algumas roupas e foi para o local onde outrora existia o Castelo de Hiroxima. Não encontrou nenhum dos prisioneiros de guerra americanos. Mas ao chegar ao quartel-general divisional da Kempei Tai no oeste da cidade, um dos seus homens disse-lhe que tentara levar dois americanos até ali, mas constatara que era impossível e os deixara na Ponte Aioi. Somente uma pessoa informou ter visto dois americanos na Ponte Aioi, com as mãos amarradas nas costas, sendo apedrejados até a morte.
Os registros americanos já liberados revelam que pelo menos o piloto Thomas Cartwright e o artilheiro de cauda William Abel sobreviveram à guerra. Ambos foram condecorados com a Purple Hcart. Cartwright deixou o serviço ativo em 1953. Abel só saiu das Forças Armadas americanas em 1968. É possível que eles e outros prisioneiros de guerra tenham sido transferidos de Hiroxima antes do lançamento da bomba.
* * *
Em Tinian, no dia seguinte ao lançamento da bomba atômica sobre Hiroxima, algumas tripulações do 509º, inclusive a do Enola Gay, com Lewis no comando, decolaram para um ataque ao Japão, usando bombas convencionais. Tibbets voou para Guam, onde deu uma entrevista coletiva, a 8 de agosto, na qual limitou seus comentários a um relato objetivo dos fatos da missão.
O Presidente Truman advertira os líderes japoneses de que, “se não aceitarem agora os nossos termos, podem esperar uma chuva de ruína do céu, como jamais se viu antes”.
Os japoneses não aceitaram os termos.
Os líderes americanos, receando que a bomba de Hiroxima pudesse ter aumentado a vontade de resistir do Japão e fosse encarada como um fenômeno impossível de ser repetido, decidiram usar a segunda bomba, que era a única que havia disponível naquele momento. Esperavam convencer os líderes do Japão de que a capacidade nuclear da América era muito maior do que na realidade.
LeMay perguntou a Tibbets:
— Acha que deve comandar o segundo ataque?
Ao que Tibbets respondeu:
— Não. Já tive publicidade suficiente. Os outros também trabalharam e se esforçaram muito e podem realizar a missão tão bem quanto eu.
Sweeney foi escolhido para comandar a segunda missão atômica. Ele disse a sua tripulação que queria fazer “exatamente como Paul fez”. Entre os que iriam a bordo, estaria Jacob Beser, o único homem a participar do lançamento das duas bombas atômicas contra o Japão. Cheshire e Penney, os representantes britânicos, seguiríam num dos dois aviões de observação. Havia apenas dois alvos em potencial: Kokura era o alvo primário, Nagasaki, a alternativa. As duas cidades ficavam na ilha de Kyushu, a sudoeste de Hiroxima.
Desde o início que a missão foi confusa. O tempo previsto sobre os alvos não era promissor. O avião de Sweeney, o Great Artiste, tinha sido equipado com instrumentos científicos para a primeira missão atômica e seria usado novamente na segunda, da mesma forma. Para levar a bomba, Sweeney tomou emprestado outro B-29, o Bock’s Car. Pouco antes da decolagem, descobriu-se um defeito no avião: 2.250 litros de gasolina estavam obstruídos num dos tanques e não estariam disponíveis durante o vôo. Sweeney decidiu arriscar.
Quando chegou ao ponto de encontro, onde os dois outros aviões se iriam juntar a ele, Sweeney divisou apenas um dos aparelhos. Depois de esperar por 40 minutos pelo terceiro bombardeiro, Sweeney resolveu partir só com um avião de observação, seguindo para Kokura.
O Bock’s Car passou três vezes sobre o objetivo, mas o ponto de alvo, um complexo fabril de munições, estava completamente oculto pelas nuvens. Podia-se ver a fumaça do fogo antiaéreo. Beser informou que havia sinais de atividade nos circuitos japoneses de controle de caças que ele vigiava. Aviões de interceptação estavam a caminho.
Sweeney, sem muita reserva de combustível, decidiu “ir para Nagasaki”. A cidade estava coberta também por um lençol de nuvens. Subitamente, o bombardeador Kermit Beahan, que era também, como Ferebee, um veterano de combate na Europa, gritou que avistara uma abertura entre as nuvens. E disse a Sweeney:
— Vou aproveitá-la!
Beahan fez pequenos ajustamentos no curso e lançou a bomba de plutônio. Caiu longe do ponto de alvo, explodindo acima da área noroeste da cidade. Embora a bomba de plutônio fosse mais potente do que a de urânio usada em Hiroxima, causou menos danos e bem menos vítimas, principalmente por causa da diferença do terreno de Nagasaki. Mesmo assim, o efeito foi devastador.
Depois de um pouso difícil em Okinawa, quase sem combustível, o Bock’s Car voltou para Tinian, 20 horas depois de sua partida.
Tibbets elogiou Sweeney e Beahan pela missão. Particularmente, ele decidiu que, se fosse necessário outro ataque atômico, ele próprio iria comandá-lo.
* * *
Enquanto isso, em Moscou, a 8 de agosto, Naotake Sato, o Embaixador japonês que tentara várias vezes persuadir seu governo a render-se antes que fosse tarde demais, foi informado, bruscamente, pelo Ministro do Exterior Vyacheslav Molotov, de que a partir de meia-noite a União Soviética estaria em guerra com o Japão.
Na manhã seguinte, quando os seis membros do Gabinete Interior do Japão reuniram-se pela primeira vez desde o lançamento da bomba atômica em Hiroxima, foram informados de que tropas russas haviam entrado na Mandchúria e que uma segunda bomba atômica fora lançada em Nagasaki.
Mas os membros do Gabinete Interior não conseguiram chegar a um acordo sobre a rendição. Conversaram pela manhã inteira, pela tarde, pelo início da noite. Os que eram a favor de continuar a guerra argumentavam que milhões de soldados japoneses ainda não haviam sido lançados em combate. Estavam ansiosos por uma luta e provavelmente não se renderíam, mesmo que lhes fosse ordenado.
O Primeiro-Ministro Suzuki, desesperado, sem encontrar uma saída para o impasse, sugeriu que o Imperador Hirohito poderia ajudar a encontrar uma solução.
Às duas horas da madrugada de 10 de agosto, o divino soberano do Japão declarou que estava de pleno acordo com seu Ministro do Exterior, retirando-se em seguida da reunião.
A posição do Ministro do Exterior Togo era a de que o Japão deveria aceitar os termos da Proclamação de Potsdam, desde que as exigências dos Aliados não afetassem “as prerrogativas de Sua Majestade como Soberano”.
Quando Truman e seus assessores souberam dessa condição, também ficaram divididos. O Secretário de Estado Byrnes acabou apresentando uma fórmula aceitável. Embora deixando claro que a autoridade do Imperador para governar estaria inicialmente sujeita ao Comandante Supremo Aliado no Japão, reiterava que o povo japonês posteriormente teria liberdade para escolher a forma de governo que mais lhe aprouvesse.
Quando os líderes japoneses receberam a resposta americana, não conseguiram novamente chegar a um acordo sobre a capitulação. Conversaram durante os dias 12, 13 e 14 de agosto. Depois, o Imperador Hirohito novamente interveio. Disse aos líderes militares e civis que deveríam “suportar o insuportável e aceitar a resposta Aliada”. Concordou em informar pessoalmente a seu povo pelo rádio, no dia seguinte, sobre a decisão tomada.
* * *
A rendição japonesa foi divulgada para o povo americano na tarde de 14 de agosto. A maioria não teve a menor dúvida de que fora a bomba atômica que apressara o fim da guerra.
O público russo foi informado de que o Exército Vermelho forçara o Japão a render-se.
Na verdade, foi provavelmente a bomba e o medo da intervenção russa que levaram os japoneses a se renderem.
A 15 de agosto, pouco antes do meio-dia, todos os japoneses aguardavam ansiosamente as palavras de seu Imperador. Haviam sido informados no passado, e muitos ainda acreditavam, de que estavam ganhando a guerra. Não sabiam direito o que acontecera com Hiroxima e Nagasaki.
Em Hiroxima, uma multidão se reuniu junto a um alto-falante na estação ferroviária demolida para ouvir o discurso do divino monarca.
O Imperador Hirohito usou palavras tão formais e oblíquas — o termo rendição não foi pronunciado em momento algum — que se tornou quase impossível ao homem comum compreender o verdadeiro significado do discurso.
Mas quando Hirohito terminou de falar, muitas pessoas deixaram de acreditar que estavam ganhando a guerra. Pensavam agora que já tinham vencido! Foi o que comentou um dos homens que estava na multidão junto à estação ferroviária em Hiroxima:
— De que outra forma a guerra poderia terminar?