A Comédia Humana 7: Ilusões Perdidas
Primeira Parte • os Dois Poetas
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.
junto a uma fábrica, e desceu rumo a eles por um atalho.
IV – A NOITE À BEIRA D’ÁGUA
Enquanto Luciano corria, para seu tormento, à casa da sra. de Bargeton, a
irmã havia posto um vestido de percalina rosa de mil listas, seu chapéu de
palha cosida e um pequeno xale de seda, traje simples que fazia com que
parecesse bem-vestida como sucede a todas as pessoas em quem uma
distinção natural realça os menores acessórios. Por isso, quando tirava seu
costume de operária, intimidava prodigiosamente David. Ainda que o impressor se houvesse resolvido a falar de si, não achou nada para dizer ao
dar o braço à bela Eva para atravessar o Houmeau. O amor se apraz nesses
respeitosos terrores, semelhantes aos que a glória de Deus causa aos fiéis.
Encaminharam-se silenciosamente os namorados para a Pont Saint-Anne a
fim de passar à margem esquerda do Charente. Eva, que achou esse silêncio
constrangedor, parou na metade da ponte para contemplar o rio, que, dali
até o lugar onde se construía a fábrica de pólvora, formava um longo lençol
onde o sol poente punha então alegre rastro de luz.
— Que bela tarde! — disse ela, procurando um assunto de conversa. — O
ar está ao mesmo tempo tépido e fresco, as flores perfumam o ar, o céu está
magnífico.
— Tudo fala ao coração — respondeu David, tentando chegar ao seu
amor por analogia. — Há, para as criaturas que amam, um prazer infinito em
encontrar nos acidentes da paisagem, na transparência do ar, nos perfumes
da terra a poesia que têm na alma. A natureza fala por elas.
— E lhes desata também a língua — disse Eva, rindo. — Estava bem
silencioso ao atravessar o Houmeau. Sabe que me senti embaraçada...
— Achava-a tão bela que me senti embargado — respondeu
ingenuamente David.
— Sou menos bela neste momento? — perguntou ela.
— Não; mas sou tão feliz em passear a sós com você que...
Parou todo interdito e olhou as colinas por onde desce a estrada de
Saintes.
— Se encontrar algum prazer neste passeio, ficarei encantada, porque
me julgo obrigada a lhe dar uma tarde em troca da que me sacrificou.
Recusando ir à casa da sra. de Bargeton, você foi tão generoso como o foi
Luciano arriscando-se a enfadá-la com o seu pedido.
— Generoso, não; prudente — respondeu David. — Visto que estamos
sós sob o céu, sem outras testemunhas além dos caniços e dos silvados que
bordam o Charente, permita, querida Eva, que lhe diga algumas das
inquietações que me causa a rápida ascensão de Luciano. Depois do que
acabo de lhe dizer, espero que meus temores lhe pareçam apenas um
refinamento de amizade. Você e sua mãe tudo têm feito para colocá-lo
acima de sua posição; mas, ao lhe excitar a ambição, não o terão imprudentemente votado a grandes sofrimentos? Como se sustentará na
sociedade para onde o levam seus gostos? Eu o conheço! É da natureza dos
que amam as colheitas sem trabalho. Os deveres da sociedade lhe devorarão
o tempo, e o tempo é o mais precioso capital das pessoas que só têm a
inteligência por fortuna; gosta de brilhar, e a sociedade lhe exasperará os
desejos, que nenhuma soma poderá satisfazer; gastará dinheiro sem o
ganhar; enfim, habituaram-no a julgar-se grande; mas, antes de reconhecer
qualquer superioridade, o mundo exige êxitos brilhantes. Ora, os êxitos
literários só se conquistam na solidão e através de um trabalho obstinado.
Que dará a sra. de Bargeton a seu irmão em troca de tantos dias passados a
seus pés? Luciano é muito orgulhoso para aceitar auxílio, e nós o sabemos
ainda muito pobre para continuar a frequentar tal sociedade, que lhe é
duplamente ruinosa. Cedo ou tarde essa mulher abandonará nosso querido
irmão depois de o haver feito perder o gosto pelo trabalho, depois de haver
desenvolvido nele o gosto pelo luxo, o desprezo pela nossa vida sóbria, o amor
do gozo, seu pendor para a ociosidade, esse desregramento das almas
poéticas. Sim, temo que essa grande dama se divirta com Luciano como com
um brinquedo: ou ela o ama sinceramente e o fará tudo esquecer, ou não o
ama e o fará desgraçado, porque ele está louco por ela.
— Gela-me o coração — disse Eva, parando na barragem do Charente. —
Mas, enquanto minha mãe tiver forças para exercer o seu penoso mister e
enquanto eu viver, o produto de nosso trabalho será talvez suficiente para as
despesas de Luciano e lhe permitirá esperar o momento em que sua fortuna
comece. Não me faltará jamais coragem, porque a ideia de trabalhar por uma
pessoa amada — disse Eva, animando-se — tira ao trabalho toda a sua
amargura e os seus aborrecimentos. Sou feliz ao pensar por quem me dou a
tantas fadigas, se acaso é uma fadiga. Sim, não tema, nós ganharemos o
bastante para que Luciano possa frequentar a alta-roda. É lá que está a
fortuna dele.
— Lá está também sua perda — tornou David. — Ouça-me, Eva querida.
A lenta elaboração das obras do gênio exige a posse de uma fortuna
considerável já realizada ou o sublime cinismo de uma vida pobre. Acredite-
me! Luciano tem tão grande horror às privações e à miséria e tem saboreado
com tanta complacência o aroma dos festins, o fumo do êxito, seu amor-próprio aumentou tanto no toucador da sra. de Bargeton que há de tentar
tudo antes de decair, e o produto do trabalho de ambas não estará jamais em
relação com as necessidades dele.
— Você não é mais do que um falso amigo! — exclamou Eva,
desesperada. — Do contrário não nos desencorajaria assim.
— Eva! Eva! — respondeu David. — Eu quisera ser irmão de Luciano.
Somente você me pode dar esse título, que lhe permitiria tudo aceitar de
mim, que me daria o direito de me devotar a ele com o santo amor que você
põe em seus sacrifícios, mas neles pondo também o discernimento do
calculador. Eva, querida criança amada, faça com que Luciano tenha um
tesouro a que possa recorrer sem se envergonhar! A bolsa de um irmão não
será como se fosse a sua própria? Se soubesse todas as reflexões que me tem
sugerido a nova posição de Luciano! Se deve continuar a ir à casa da sra. de
Bargeton, o pobre rapaz não deve mais ser meu tipógrafo, não deve mais
morar no Houmeau, você não deve continuar sendo uma operária, sua mãe
não deve mais exercer sua profissão. Se consentisse em tornar-se minha
mulher, tudo se aplainaria: Luciano poderia morar em nossa casa, no
segundo andar, enquanto eu lhe construísse um apartamento por cima do
alpendre no fundo do pátio, a não ser que meu pai queira edificar um
segundo andar. Nós lhe arranjaríamos assim uma vida sem cuidados, uma
vida independente. Meu desejo de sustentar Luciano me dará uma coragem
para fazer fortuna que não teria se se tratasse apenas de mim; mas depende
de você autorizar meu devotamento. Um dia ele terá de ir para Paris, único
palco onde pode brilhar e onde seu talento poderá ser apreciado e
remunerado. A vida de Paris é cara, e não seremos demais os três para
sustentá-lo. Por outro lado, você e sua mãe não precisam de apoio? Eva
querida, case-se comigo por amor a Luciano. Mais tarde talvez me ame,
vendo os esforços que hei de fazer para servi-lo e para torná-la feliz. Somos
ambos modestos em nossos gostos, precisaremos de pouca coisa; a felicidade
de Luciano será nosso grande objetivo, e seu coração será o tesouro onde
poremos fortuna, sentimentos, sensações, tudo!
— As conveniências nos separam — disse Eva, comovida ao ver como
aquele grande amor se fazia pequeno —; você é rico e eu sou pobre. É
necessário muito amor para passar por cima de semelhante dificuldade.
— Não me ama então bastante ainda? — exclamou David, aterrado.
— Mas seu pai há de se opor, talvez...
— Bem, bem — respondeu David —, se há só meu pai a consultar, você
será minha mulher. Eva, minha Eva querida! Neste momento acaba de me
tornar a vida bem fácil de levar. Ah! Eu tinha o coração pejado de
sentimentos que não podia nem sabia exprimir! Diga-me somente que me
ama um pouco, isso me dará a coragem necessária para lhe dizer o resto.
— Em verdade — disse ela —, deixa-me bastante envergonhada; mas,
visto que nos confiamos nossos sentimentos, direi que jamais em minha vida
pensei em outro que não fosse você. Vi em você um desses homens aos quais
uma mulher pode orgulhar-se de pertencer, e não ousava esperar para mim,
pobre operária sem futuro, tão grande destino.
— Basta, basta — disse ele, sentando-se sobre o paredão da barragem,
para junto da qual tinham voltado, porque eles iam e vinham como dois
loucos percorrendo o mesmo espaço.
— Que tem? — disse-lhe ela, exprimindo pela primeira vez essa
inquietação carinhosa que as mulheres sentem pelas criaturas que lhes
pertencem.
— Nada, a não ser felicidade — disse ele. — Ao perceber toda uma vida
feliz, o espírito fica como que deslumbrado, a alma fica opressa. Por que sou
eu o mais feliz? — disse, com uma expressão de melancolia. — Mas eu sei.
Eva olhou para David com ar faceiro e dúbio, como que pedindo uma
explicação.
— Eva querida, recebo mais do que dou. Também hei de amá-la sempre
mais do que você me poderá amar, porque tenho mais razões para amar:
você é um anjo e eu sou um homem.
— Não sou tão culta — respondeu Eva sorrindo. — Eu o amo tanto...
— Tanto quanto a Luciano? — disse ele, interrompendo.
— O bastante para ser sua mulher, para me consagrar a você e tratar de
não lhe dar nenhuma tristeza na vida, a princípio bem penosa, que
levaremos.
— Percebeu que eu a amava, Eva querida, desde o primeiro dia em que a
vi?
— Qual é a mulher que não sente quando é amada? — perguntou ela.
— Deixe-me dissipar os escrúpulos que lhe causa minha suposta fortuna.
Sou pobre, Eva. Sim, minha querida, meu pai sentiu prazer em me arruinar,
especulou com o meu trabalho, fez como muitos pretensos benfeitores com
os seus protegidos. Se eu me tornar rico, será devido a você. Não lhe digo isto
como enamorado, mas como um pensador que reflete. Devo dar-lhe a
conhecer meus defeitos, e eles são enormes num homem obrigado a fazer a
própria fortuna. Meu caráter, meus hábitos, as ocupações que me agradam
tornam-me pouco apto para tudo o que é comércio e especulação, e, no
entanto, não se pode fazer fortuna senão com o exercício de alguma
indústria. Se sou capaz de descobrir uma mina de ouro, sou singularmente
inábil para explorá-la. Mas você, que, por amor a seu irmão, tem esmiuçado
as menores coisas, que tem o gênio da economia, a paciente atenção do
verdadeiro negociante, você recolherá a messe que eu semear. Nossa
situação, porque há muito tempo eu me integrei no seio de sua família, me
oprime tanto o coração que tenho consumido meus dias e minhas noites à
procura de uma ocasião de fazer fortuna. Meus conhecimentos de química e
a observação das necessidades do comércio puseram-me na pista duma
descoberta lucrativa. Nada lhe posso dizer ainda a respeito dela, prevejo
grande demora. Sofreremos durante alguns anos, talvez, mas acabarei por
encontrar os processos industriais a cuja cata não ando eu só e os quais, se eu
chegar primeiro, nos proporcionarão grande fortuna. Eu nada disse a
Luciano, porque seu caráter ardente estragaria tudo, converteria minhas
esperanças em realidades, ele passaria a viver como grão-senhor e talvez se
endividasse. Por isso, guarde segredo. Somente sua doce e querida
companhia me poderá consolar durante essas longas provações, assim como
o desejo de enriquecer a você e a Luciano me dará constância e
tenacidade...
— Eu havia também adivinhado — disse-lhe Eva, interrompendo-o —
que você era um desses grandes inventores aos quais é preciso, como a meu
pobre pai, uma mulher que deles tome conta.
— Você me ama, então! Ah! Diga-mo sem receio, a mim que vi no seu
nome um símbolo do meu amor. Eva era a única mulher que existia no
mundo, e o que era materialmente certo para Adão sê-lo-á moralmente para
mim. Meu Deus! Você me ama?
— Sim — disse ela, alongando a pronúncia dessa simples sílaba como
para pintar a extensão de seus sentimentos.
— Bem, sentemo-nos ali — disse ele, conduzindo Eva pela mão para uma
grande trave colocada abaixo das rodas de uma fábrica de papel. — Deixe-
me respirar o ar da tarde, ouvir o grito das rãs, admirar os raios da lua que
tremem sobre as águas; quero apossar-me desta natureza onde creio ver
minha felicidade escrita em cada coisa e que me aparece pela primeira vez
em seu esplendor, iluminada pelo amor, embelezada por você. Eva, minha
amada! Este é o primeiro momento de alegria pura que a sorte já me deu.
Não creio que Luciano seja tão feliz como eu!
Sentindo a mão de Eva úmida e trêmula na sua, David nela deixou cair
uma lágrima.
— Não posso conhecer o segredo? — perguntou Eva com voz carinhosa.
— Tem direito, porque seu pai se ocupou dessa questão que vai tornar-se
grave, e eis por quê: a queda do Império vai tornar o uso do tecido de
algodão quase geral, devido ao seu baixo preço em relação ao da fibra de
linho. Atualmente, o papel se faz ainda com trapos de cânhamo e de linho,
mas é uma matéria-prima cara, e essa carestia retarda o grande impulso que
a imprensa francesa necessariamente terá. Ora, não se pode forçar a
produção de trapos. O trapo é o resultado do uso da roupa interior, e a
população de um país não dá senão determinada quantidade dele. Essa
quantidade só pode crescer por um aumento na cifra dos nascimentos. Para
operar mudança sensível na população, um país precisa de um quarto de
século e de grandes revoluções nos costumes, no comércio e na agricultura.
Se então as necessidades da fabricação de papel se tornam superiores ao que
a França produz de trapos, seja o dobro ou o triplo, será preciso, para manter
o papel a baixo preço, introduzir em sua fabricação outro elemento além do
trapo. Este raciocínio repousa sobre um fato que se passa aqui. As fábricas de
Angoulême, as últimas em que se há de fabricar papel de trapo de linho,
veem o algodão invadir a pasta numa progressão assustadora.
A uma pergunta da jovem operária, que não sabia o que significava
“pasta”, David lhe deu sobre o papel explicações que não estarão deslocadas
numa obra cuja existência material se deve tanto ao papel como à imprensa;
mas esse longo parêntese entre um enamorado e sua amada ganhará sem dúvida em ser aqui resumido.
O papel, produto não menos maravilhoso que a imprensa, à qual serve
de base, existia há muito tempo na China quando, pelos condutos ignorados
do comércio, chegou à Ásia Menor, onde, por volta do ano de 750, segundo
algumas tradições, se fazia uso de um papel de algodão triturado e reduzido
a pasta. A necessidade de substituir o pergaminho, cujo preço era excessivo,
fez com que se encontrasse, por uma imitação do papel bombyx (tal era o
nome do papel de algodão no Oriente), o papel de trapos, dizem uns que em
Basileia, em 1170, por gregos refugiados; afirmam outros que em Pádua, em
1301, por um italiano chamado Pax. Assim, o papel se aperfeiçoou lenta e
obscuramente; mas o certo é que já no tempo de Carlos vi fabricava-se em
Paris a cartolina para cartas de jogar. Quando os imortais Faust,[70]
Coster[71] e Guttemberg[72] inventaram o livro, artesãos, desconhecidos
como tantos grandes artistas dessa época ajustaram o fabrico do papel às
necessidades da tipografia. Nesse século xv, tão vigoroso e tão simples, os
nomes dos diferentes formatos de papel, bem como os nomes dados aos
caracteres tipográficos, levaram a marca da ingenuidade do tempo. Assim o
Raisin, o Jesus, o Colombier, o papel Pot, o Ecu, o Coquille, o Couronne,
tomaram esses nomes do cacho de uvas, da imagem do Nosso Senhor, da
coroa, do escudo, do pote, enfim da filigrana marcada no meio da folha,
como mais tarde, sob Napoleão se pôs uma águia: daí o papel chamado
Grande Águia. Assim também se chamaram aos caracteres Cícero, Santo
Agostinho, Grande Cânon, segundo os livros de liturgia, as obras teológicas e
os tratados de Cícero nos quais esses caracteres foram pela primeira vez
empregados. O itálico foi inventado pelos Aldos,[73] em Veneza: daí seu
nome. Antes da invenção do papel mecânico, cujo comprimento é ilimitado,
os maiores formatos eram o Grande-Jesus e o Grande-Colombier, embora
este último servisse quase só para atlas ou para gravuras. Sem dúvida, as
dimensões do papel de impressão estavam subordinadas às das prensas. Na
época de que David falava, a existência do papel de bobina parecia uma
quimera na França, embora já Denis Robert d’Essonne houvesse, em 1799,
inventado, para o fabricar, uma máquina que Didot-Saint-Léger tentou
posteriormente aperfeiçoar. O papel velino, inventado por Ambroise Didot,
data somente de 1780. Este rápido bosquejo demonstra insofismavelmente que todas as grandes aquisições da indústria e da inteligência são feitas com
excessiva lentidão e por agregações despercebidas, exatamente como
procede a natureza. Para chegar à sua perfeição, a escrita, a linguagem
talvez!... passou pelo mesmo tatear que a tipografia e a fabricação do papel.
— Os trapeiros recolhem na Europa inteira trapos, roupas velhas e
compram os retalhos de toda a sorte de tecidos — disse o impressor,
terminando. — Esses restos, classificados por espécies, se armazenam nas
casas dos comerciantes de trapos por atacado, que os fornecem às fábricas
de papel. Para lhe dar uma ideia desse comércio, saiba que, em 1814, o
banqueiro Cardon, proprietário das cubas de Buges e de Langlée, onde
Léorier de l’Isle tentou já em 1776 a solução do problema de que se ocupou
seu pai, sustentou um processo com um tal sr. Proust a propósito de um erro
de dois milhões de libras, cerca de quatro milhões de francos. O fabricante
lava os trapos e os reduz a uma pasta clara, que é passada, exatamente como
uma cozinheira passa um molho pela peneira, por um caixilho de ferro
chamado fôrma, em cujo interior há um estofo metálico no qual se acha a
filigrana que dá o seu nome ao papel. Do tamanho da fôrma depende então
o tamanho do papel. Quando estive em casa dos srs. Didot, havia já interesse
por essa questão e ainda há, porque o aperfeiçoamento procurado por seu
pai tornou-se uma das necessidades mais imperiosas desta época. E eis por
quê: embora a duração do linho, comparada à do algodão, torne, afinal, o
linho menos caro que o algodão, como se trata sempre, para os pobres, de
tirar uma soma qualquer da bolsa, preferem dar o menos a dar o mais e
sofrem perdas enormes em virtude do vae victis![74] A classe burguesa
procede como a pobre. Assim, o trapo de linho vai faltando. Na Inglaterra,
onde o algodão substituiu o linho para quatro quintos da população, já não
se fabrica senão papel de algodão. Esse papel, que, antes de mais nada,
apresenta o inconveniente de se rasgar e amarrotar logo, dissolve-se na água
tão facilmente que um livro de papel de algodão se tornaria uma pasta se
nela ficasse um quarto de hora, enquanto um velho livro não se perderia se
nela permanecesse duas horas. Secando-o, embora amarelecido e apagado,
seria ainda legível o texto, a obra não estaria destruída. Chegamos a uma
época em que, diminuindo as fortunas por igualização, tudo se
empobrecerá: havemos de querer roupas e livros baratos, assim como se começa a procurar quadros pequenos por falta de espaço onde colocar os
grandes. As camisas e os livros pouco hão de durar, essa é a verdade. A
solidez dos produtos começa a desaparecer por toda a parte. Assim, o
problema a ser resolvido é da mais alta importância para a literatura, para as
ciências e para a política. Um dia em meu gabinete entabulou-se viva
discussão sobre os ingredientes de que na China se servem para fabricar
papel. Lá, graças às matérias-primas empregadas, a fabricação do papel,
desde sua origem, atingiu uma perfeição que falta à nossa. Falávamos então
com muito interesse do papel da China, cuja leveza e finura o tornam muito
superior ao nosso, visto que essas qualidades preciosas não o impedem de ser
consistente; e, por delgado que seja, não oferece transparência alguma.
Naquela ocasião, um revisor muito instruído (em Paris encontram-se sábios
entre os revisores: Fourier[75] e Pierre Leroux[76] são hoje revisores da casa
Lachevardière!...), o conde de Saint-Simon,[77] nos veio encontrar em meio
à discussão. Disse-nos então que, segundo Kaempfer[78] e Du Halde,[79] a
amoreira da China fornecia aos chineses o material para seu papel
inteiramente vegetal, como o nosso, aliás. Um outro revisor sustentou que o
papel da China se fabricava principalmente com matéria animal, com a
seda, muito abundante ali. Uma aposta se fez em minha presença. Como os
Didot são os impressores do Instituto, naturalmente o debate foi submetido a
membros dessa assembleia de sábios. Marcel,[80] antigo diretor da imprensa
imperial, designado para árbitro, remeteu os dois revisores ao padre Grozier,
[81] bibliotecário no Arsenal. Segundo o julgamento do padre Grozier, ambos
perderam a aposta. O papel da China não é fabricado com seda nem com a
fibra da amoreira; sua pasta provém de fibras do bambu trituradas. O padre
Grozier possuía um livro chinês, obra ao mesmo tempo iconográfica e
tecnológica, em que se viam numerosas figuras representando a fabricação
do papel em todas as suas fases, e nele se viam desenhadas as hastes de
bambu em montes no canto de uma fábrica de papel otimamente
representada. Quando Luciano me disse que seu pai, por uma intuição
peculiar aos homens de talento, havia entrevisto o meio de substituir os
trapos de linho por uma matéria vegetal extremamente comum, tirada
diretamente à produção local, como fazem os chineses, servindo-se de
hastes fibrosas, cataloguei todas as experiências feitas por meus predecessores e me pus, enfim, a estudar a questão. O bambu é uma cana:
pensei naturalmente nas canas do nosso país. A mão de obra nada custa na
China; um dia de trabalho vale três sous e podem assim os chineses, ao tirá-
lo da fôrma, aplicar seu papel folha por folha entre lâminas de porcelana
branca aquecidas, por meio das quais o prensam e lhe dão o lustro, a
consistência, a leveza, a suavidade de cetim, que fazem dele o primeiro
papel do mundo. Pois bem, o que é preciso é realizar mecanicamente os
processos chineses. Chegar-se-á pela máquina a resolver o problema do custo
que a China consegue com o preço vil de sua mão de obra. Se chegarmos a
fabricar por pouco preço papel de qualidade semelhante ao da China,
diminuiremos em mais da metade o peso e a espessura dos livros. Um
Voltaire encadernado, que, em nosso papel velino, pesa duzentas e
cinquenta libras, não pesaria sequer cinquenta em papel da China. E eis aí,
certamente, uma conquista. O espaço necessário às bibliotecas será uma
questão cada vez mais difícil de resolver numa época em que o
amesquinhamento geral das coisas e dos homens tudo atinge, até as
habitações. Em Paris, os grandes palácios, as grandes residências serão
demolidas mais cedo ou mais tarde; em breve, não haverá mais fortunas em
harmonia com as construções de nossos países. Que vergonha para nossa
época fabricar livros sem duração! Dez anos mais e o papel da Holanda, isto
é, papel feito com trapos de linho, será completamente impossível. Ora, seu
irmão me confiou a ideia que teve seu pai de empregar certas plantas
fibrosas na fabricação do papel; assim, já se vê que, se eu triunfar, vocês
terão direito a...
Naquele momento, Luciano, acercando-se da irmã, interrompeu a
generosa proposta de David.
— Não sei — disse ele — se vocês acharam bela esta noite. Para mim ela
foi cruel.
— Meu pobre Luciano, que te aconteceu? — perguntou Eva, observando
a alteração da fisionomia do irmão.
O poeta irritado narrou suas angústias, derramando naqueles corações
amigos a onda de pensamentos que o assaltava. Eva e David escutaram
Luciano em silêncio, aflitos ao ver passar essa torrente de dores que revelava
tanta grandeza e tanta mesquinharia.
— O sr. de Bargeton — disse Luciano, concluindo — é um ancião que
será, sem dúvida, em breve levado por alguma indigestão; pois bem, hei de
dominar essa sociedade orgulhosa, hei de desposar a sra. de Bargeton! Vi em
seus olhos, esta noite, um amor igual ao meu. Sim, ela sentiu também as
feridas que me fizeram e acalmou meus sofrimentos. É tão grande e tão
nobre quanto é bela e graciosa! Não, ela não me trairá jamais!
— Não é já tempo de se lhe dar uma existência tranquila? — perguntou
em voz baixa David a Eva.
Eva comprimiu silenciosamente o braço de David, que, compreendendo
seu pensamento, se apressou a contar a Luciano os projetos que delineara.
Os dois namorados estavam tão cheios de seu amor quanto Luciano de si
próprio; desse modo, Eva e David, empenhados em fazer aprovar sua
felicidade, não perceberam o movimento de surpresa que deixou escapar o
enamorado da sra. de Bargeton ao saber do noivado da irmã. Luciano, que
sonhava conseguir para a irmã uma bela aliança quando houvesse alcançado
uma alta posição, a fim de escorar sua ambição com a importância que lhe
daria uma família poderosa, ficou desolado ao ver naquela união um
obstáculo a mais aos seus triunfos na sociedade.
“Se a sra. de Bargeton consentir em se tornar sra. de Rubempré, jamais
quererá ser a cunhada de David Séchard!” Esta frase formulou nítida e
precisamente as ideias que atenazaram o coração de Luciano. “Luísa tem
razão; as criaturas de talento nunca são compreendidas por sua família!”,
pensou com amargura.
Se aquele projeto de união não lhe houvesse sido apresentado no
momento mesmo em que tão fantasticamente liquidara com o sr. de
Bargeton, teria sem dúvida despertado a mais viva alegria. Se refletisse sobre
sua situação atual, pesando o destino de uma moça bela e sem fortuna, de
Eva Chardon, teria olhado aquele casamento como uma felicidade
inesperada. Mas vivia um desses sonhos de ouro em que os jovens, montados
sobre um se, franqueiam todas as barreiras. Acabava de se ver dominando a
sociedade; o poeta sofria por descer tão depressa à realidade. Eva e David
pensaram que o irmão calava acabrunhado por tanta generosidade. Para
aquelas duas belas almas, essa aceitação silenciosa era a prova de uma
amizade verdadeira. O impressor se pôs a descrever com eloquência doce e cordial a felicidade que aguardava aos quatro. Malgrado as interjeições de
Eva, mobiliou seu primeiro andar com o luxo de um amoroso; construiu, com
ingênua boa-fé, o segundo andar para Luciano e os cimos do alpendre para
a sra. Chardon, para quem queria desenvolver todos os cuidados de uma
solicitude filial. Enfim, fez a família tão feliz e o irmão tão independente que
Luciano, encantado pela voz de David e pelas carícias de Eva, esqueceu sob
as sombras do caminho, ao longo do Charente calmo e brilhante, sob a
abóbada estrelada e na tépida atmosfera da noite, a dolorosa coroa de
espinhos que a sociedade lhe havia posto na cabeça. O sr. de Rubempré
reconheceu enfim David. A mobilidade de seu caráter o restituiu
imediatamente à vida pura, trabalhadora e burguesa que levara; viu-a
embelezada e sem cuidados.
Os ruídos do mundo aristocrático se afastaram mais e mais. Enfim, ao
atingirem as calçadas do Houmeau, o ambicioso apertou a mão do irmão e se
pôs em uníssono com os felizes enamorados.
— Contanto que teu pai não contrarie este casamento! — observou ele a
David.
— Sabes como ele se inquieta comigo! O velho vive para si; mas irei vê-lo
amanhã em Marsac, pelo menos para obter que ele faça as construções de
que precisamos.
David acompanhou o irmão e a irmã até a casa da sra. Chardon, a quem
pediu a mão de Eva com a pressa de um homem que não quer demora
alguma. A mãe tomou a mão da filha e a pôs na de David com alegria, e o
namorado, animado, beijou a fronte de sua bela prometida, que lhe sorriu,
corando.
— Esta é a cerimônia do contrato de casamento das pessoas pobres —
disse a mãe elevando os olhos como para implorar a bênção de Deus. — Você
tem coragem, meu filho — disse a David —, porque estamos no infortúnio e
temo que ele seja contagioso.
— Seremos ricos e felizes — disse gravemente David. — Para começar, a
senhora não exercerá mais seu mister de enfermeira e virá morar com sua
filha e Luciano em Angoulême.
Os três filhos apressaram-se então a contar à mãe assombrada seu
encantador projeto, entregando-se a uma dessas loucas conversas de família em que a gente se apraz em armazenar sonhos e semear os projetos, em
gozar de antemão todas as alegrias. Foi preciso levar David à porta, pois ele
teria desejado que esse serão fosse eterno. Uma hora da manhã soou quando
Luciano reconduziu o futuro cunhado até a Porte Palet.
O honesto Postel, inquieto com aqueles movimentos extraordinários,
estava de pé por trás da persiana; abrira a vidraça e murmurava, vendo luz
àquela hora em casa de Eva:
— Que será que se passa na casa dos Chardon? — Ao ver Luciano voltar,
disse: — Meu filhote, que é que lhe aconteceu? Precisa de mim?
— Não, senhor — respondeu o poeta —, mas, como é nosso amigo, posso
dizer-lhe o que há: minha mãe acaba de conceder a mão de minha irmã a
David Séchard.
Como única resposta, Postel fechou bruscamente a janela, desesperado
por não ter pedido antes a srta. Chardon.
Em vez de regressar para Angoulême, David tomou o caminho de
Marsac. Seguiu como a passeio até a propriedade do pai e chegou ao longo
do cercado que ficava junto à casa no momento em que o sol se erguia. O
enamorado percebeu sob uma amendoeira a cabeça do velho Urso que se
elevava acima de uma sebe.
— Bom dia, meu pai — disse-lhe David.
— Olá! És tu, meu rapaz? Por que cargas-d’água te mostras na estrada a
esta hora? Entra por ali — disse o vinhateiro, indicando ao filho uma
pequena porta envidraçada. — Minhas vinhas floresceram todas, nenhuma
cepa crestada! Darão mais de vinte bordalesas por jeira este ano; mas
também como foram estrumadas!
— Meu pai, venho falar-lhe um negócio importante.
— Muito bem; e como vão nossas prensas? Deves ganhar tanto quanto
pesas, não?
— Ganharei, meu pai, mas por enquanto não enriqueci.
— Censuram-me todos aqui por adubar demais — respondeu o pai. — Os
burgueses, isto é, o senhor marquês, o senhor conde, os senhores este e
aquele, pretendem que eu prejudico a qualidade do vinho. Para que serve a
educação? Para confundir o entendimento. Escuta! Esses senhores colhem
sete, algumas vezes oito barris por jeira e os vendem a sessenta francos o barril, o que faz no máximo quatrocentos francos por jeira nos anos bons.
Quanto a mim, colho vinte barris e os vendo a trinta francos! Onde está o
tolo? A qualidade! A qualidade! Que me importa a qualidade? Guardem
para eles a qualidade, esses senhores marqueses! Para mim, a qualidade são
os escudos. Que disseste?...
— Meu pai, vou me casar; vim pedir-lhe...
— Pedir-me? Quê? Nada, absolutamente nada, meu rapaz. Casa-te, eu
consinto; mas para te dar alguma coisa acho-me sem um cobre. O amanho
da vinha me arruinou! Há dois anos que fico a dever o cultivo da terra, os
impostos, gastos de toda a espécie; o governo fica com tudo, todo o lucro é
para o governo! Lá se vão já dois anos em que os pobres vinhateiros nada
fazem. Este ano não se apresenta mal; pois bem, os tratantes dos barris
custam já onze francos! Vai-se fazer a colheita para o tanoeiro. Por que te
casares antes das vindimas?
— Meu pai, venho pedir apenas o seu consentimento.
— Ah! Isso é outro negócio. Com quem te casas tu, sem curiosidade?
— Vou casar com a srta. Eva Chardon.
— Que coisa é isso? Que pito toca ela?
— É filha do falecido sr. Chardon, o farmacêutico do Houmeau.
— Vais casar-te com uma moça do Houmeau, tu, um burguês! Tu, o
impressor do rei em Angoulême! Eis os frutos da educação! Vá a gente pôr os
filhos no colégio! Ah, então ela é muito rica, meu rapaz? — disse o velho
vinhateiro aproximando-se do filho com um ar malicioso. — Porque, se te
casas com uma moça do Houmeau, ela deve ter centenas e milhares! Bom!
Pagar-me-ás meus aluguéis. Sabes, meu rapaz, que já lá vão dois anos e três
meses de aluguéis por pagar e que isso perfaz dois mil e setecentos francos,
que me viriam bem a tempo para pagar o tanoeiro? A qualquer outro que não
fosse meu filho, eu teria o direito de pedir juros, porque, afinal de contas,
negócio é negócio! Mas eu tos dispenso. E então, quanto tem ela?
— Mas tem o mesmo que possuía minha mãe.
O velho vinhateiro ia dizer: “Não tem senão dez mil francos!”, mas
lembrou que se havia recusado a prestar contas ao filho, e exclamou:
— Não tem coisa alguma!
— A fortuna de minha mãe era sua inteligência e sua beleza.
— Vai à feira com isso e verás o que te dão! Com todos os diabos, os pais
são infelizes nos filhos! David, quando eu me casei tinha na cabeça um boné
de papel por toda fortuna e meus dois braços, era um pobre urso; mas, com
a bela tipografia que te dei, com tua indústria e teus conhecimentos, deves
casar com uma burguesa da cidade, uma mulher rica, com trinta ou
quarenta mil francos. Deixa tua paixão e eu te casarei, eu! Temos a uma
légua daqui uma viúva de trinta e dois anos, moleira, que tem cem mil
francos de bens de raiz; eis o teu partido. Podes reunir seus bens aos de
Marsac, são lindeiros! Ah! O belo domínio que teríamos, e como eu o haveria
de administrar! Dizem que ela vai casar com Courtois, seu capataz; tu vales
mais que ele! Eu dirigiria o moinho, enquanto ela levaria boa vida em
Angoulême.
— Meu pai, eu estou comprometido...
— David, tu nada entendes de comércio, vejo-te arruinado. Sim, se te
casares com essa moça do Houmeau, tratarei de pôr em dia as nossas contas
e te citarei para o pagamento dos meus aluguéis, porque não prevejo nada
de bom. Ah, minhas pobres prensas! Minhas prensas! Era preciso dinheiro
para vos lubrificar, vos manter e vos fazer andar. Só mesmo um bom ano me
poderá consolar disto!
— Meu pai, parece-me que até agora eu lhe causei poucos dissabores...
— E muito poucos aluguéis pagaste — respondeu o vinhateiro.
— Eu vinha pedir, além do seu beneplácito para meu casamento, que o
senhor mandasse levantar um segundo andar em sua casa e construísse um
apartamento por cima do alpendre.
— Bolas! Não tenho um níquel, bem sabes. Além disso, seria dinheiro
atirado à água, porque que lucro isso me traria? Ah! Tu te levantas de
madrugada para me vir pedir construções capazes de arruinar um rei.
Apesar de te chamares David, não tenho os tesouros de Salomão. Mas estás
louco! Trocaram-me o filho quando estava com a ama! Olha, ali está uma
que dará uvas! — disse, interrompendo-se para mostrar uma cepa a David.
— Ali estão filhos que não iludem as esperanças dos pais: nós os adubamos e
eles nos compensam. Eu te coloquei no liceu, paguei somas enormes para
fazer de ti um sábio, foste estudar em casa dos Didot; e todas essas
demonstrações terminam dando-me por nora uma rapariga do Houmeau, sem um vintém de dote! Se não houvesses estudado, se tivesses ficado sob
meus olhos, tu te conduzirias a meu gosto e te casarias hoje com uma
moleira de cem mil francos, sem contar o moinho. Ah! Tua inteligência te
serve é para julgares que eu te recompensaria por esse belo sentimento
mandando construir palácios para ti?... Não haviam de dizer, em verdade,
que, há duzentos anos, a casa em que estás não alojou senão porcos, já que
tua jovem do Houmeau ali não pode deitar-se? Ah, e esta! É por acaso a
rainha da França?
— Está bem, meu pai, construirei eu o segundo andar à minha custa,
será o filho que enriquecerá o pai. Apesar de ser o mundo às avessas, isso se
vê algumas vezes.
— Como, meu rapaz, tens dinheiro para construir e não o tens para
pagar teus aluguéis? Velhaco, usas de astúcia com teu pai!
A questão posta nestes termos tornava-se difícil de resolver, pois o
homenzinho estava encantado em colocar o filho numa posição que lhe
permitia mostrar-se paternal sem nada lhe dar. David não pôde, assim, obter
do pai senão o consentimento puro e simples para o casamento e a
permissão para fazer à sua custa, na casa paterna, todas as construções de
que tivesse precisão. O velho Urso, modelo dos pais conservadores, fez ao
filho a mercê de não exigir os aluguéis e de não lhe tomar as economias que
tivera a imprudência de deixar perceber. David voltou triste: compreendeu
que na adversidade não poderia contar com o socorro do pai.
V – CATÁSTROFES DO AMOR NA PROVÍNCIA
Não se falou noutra coisa, por algum tempo, em toda Angoulême, senão na
frase do bispo e na resposta da sra. de Bargeton. Os menores acontecimentos
foram tão bem desnaturados, aumentados, embelezados, que o poeta se
tornou o herói do momento. Da esfera superior, onde ribombava essa
tempestade, algumas gotas tombaram sobre a burguesia. No dia em que
Luciano voltou a passar por Beaulieu, para ir à casa da sra. de Bargeton,
percebeu a atenção invejosa com que vários rapazes olhavam para ele e
apanhou algumas frases que o encheram de orgulho.
— Ali vai um rapaz feliz — dizia um escrevente de advogado, muito feio, chamado Petit-Claud, camarada de colégio de Luciano e para quem este
tomara um arzinho protetor.
— Sim, certamente, ele é um bonito rapaz, tem talento, e a sra. de
Bargeton está doida por ele! — respondeu um filho de família que havia
assistido à leitura dos poemas.
Havia impacientemente esperado a hora em que sabia encontrar Luísa
só. Tinha de fazer com que o casamento da irmã fosse aceito por essa
mulher, tornada árbitra de seu destino. Depois da reunião da véspera, Luísa
estaria talvez mais terna, e essa ternura poderia proporcionar-lhe momentos
de felicidade. Não se havia enganado: a sra. de Bargeton o recebeu com uma
ênfase de sentimento que pareceu àquele noviço em amor um tocante
progresso de paixão. Abandonou seus belos cabelos de ouro, as mãos, a
cabeça aos beijos inflamados do poeta que, na véspera, tanto sofrera!
— Se tivesses visto teu rosto enquanto lias! — disse ela, porque haviam
chegado na véspera ao tuteio, a essa carícia da linguagem, quando, no sofá,
Luísa enxugara com sua branca mão as gotas de suor que punham pérolas
na fronte onde ela pensava pôr uma coroa. — Escapavam-se faíscas de teus
belos olhos! Eu via sair de teus lábios as cadeias de ouro que prendem os
corações à boca dos poetas. Vais ler-me todo o Chénier, o poeta dos amantes.
Não sofrerás mais, eu não quero! Sim, anjo querido, farei para ti um oásis
onde viverás toda a tua vida de poeta, ativa, mole, indolente, laboriosa e
pensativa, alternativamente; mas não esqueças jamais que os teus louros me
são devidos, que isso será para mim a nobre indenização dos sofrimentos que
me advirão. Pobre querido, o mundo não me poupará mais do que te tem
poupado, ele se vinga de todas as felicidades que não partilha. Sim, serei
sempre invejada, não viu ontem? Essas moscas sugadoras de sangue
acorreram bem depressa para se saciarem nas picadas que fizeram! Mas eu
me sentia feliz! Eu vivia! Havia tanto tempo que as cordas do meu coração
não vibravam!
Lágrimas correram pelas faces de Luísa. Luciano tomou-lhe uma das
mãos e por única resposta beijou-a longamente. As vaidades do poeta foram,
assim, exaltadas por essa mulher como o haviam sido pela mãe, pela irmã e
por David. Todos em seu redor continuavam a elevar o pedestal imaginário
sobre o qual ele se punha. Mantido por toda a gente, tanto pelos amigos como pela raiva dos inimigos, em suas crenças ambiciosas, marchava numa
atmosfera plena de miragens. As imaginações moças são tão naturalmente
cúmplices desses louvores e dessas ideias, todos se empenham tanto em
servir a um jovem belo, cheio de futuro, que é necessária mais de uma lição
amarga e fria para dissipar tais quimeras.
— Queres, então, minha linda Luísa, ser a minha Beatriz, mas uma
Beatriz que se deixe amar?
Ela levantou os belos olhos que conservava baixos e disse, desmentindo as
palavras com um angélico sorriso:
— Se você o merecer... mais tarde! Não é feliz? Ter um coração
inteiramente seu, tudo poder dizer com a certeza de ser compreendido não
é a felicidade?
— Sim — respondeu ele, com um amuo de enamorado contrariado.
— Criança! — disse ela, zombeteira. — Não tinhas alguma coisa para me
dizer? Entraste tão preocupado, meu Luciano!
Luciano confiou timidamente à bem-amada o amor de David pela irmã,
e o desta por David, e o casamento planejado.
— Pobre Luciano — disse ela —, tem medo de ser batido, ralhado, como
se fosse ele quem se casasse! Mas onde está o mal? — tornou, passando as
mãos pelo cabelo de Luciano. — Que me importa tua família, onde és uma
exceção? Se meu pai casasse com a criada, isto te aborreceria muito?
Querida criança, os que se amam são por si só toda a sua família. Acaso tenho
no mundo outro interesse além de meu Luciano? Sê grande! Conquista a
glória! Essas as nossas preocupações!
Luciano tornou-se o homem mais feliz do mundo com essa resposta
egoísta. No momento mesmo em que ele escutava as loucas razões com as
quais Luísa lhe provava que estavam sozinhos no mundo, entrou o sr. de
Bargeton. Luciano franziu o sobrecenho e pareceu estupefato; Luísa fez-lhe
um sinal e o convidou a que ficasse para jantar com eles, pedindo-lhe que
lesse André de Chénier até que os jogadores e os frequentadores da casa
chegassem.
— Não dará prazer a ela somente — disse o sr. de Bargeton —, mas a mim
também. Nada me apraz tanto como ouvir ler depois do jantar.
Bem tratado pelo sr. de Bargeton, mimado por Luísa, servido pelos criados com o respeito que eles têm pelos favoritos dos amos, Luciano ficou
no palacete de Bargeton identificando-se com todos os gozos de uma
fortuna cujo usufruto lhe era concedido. Quando o salão se encheu de
gente, sentiu-se tão forte com a tolice de Bargeton e com o amor de Luísa
que assumiu um ar dominador, encorajado pela linda amante. Saboreou os
prazeres do despotismo conquistado por Naïs e que ela gostava de lhe fazer
compartilhar. Ensaiou-se, enfim, durante essa reunião, em desempenhar o
papel de um herói de pequena cidade. Ao ver a nova atitude de Luciano,
algumas pessoas deduziram que ele estava, segundo uma expressão do
tempo antigo, nas melhores graças da sra. de Bargeton.
Amélia, que viera com o sr. du Châtelet, afirmava essa grande desgraça
num canto do salão onde se haviam reunido os ciumentos e os invejosos.
— Não tornem Naïs responsável pela vaidade de um rapazinho todo
orgulhoso de se achar em um meio aonde não pensou jamais poder chegar
— disse Du Châtelet. — Não veem então que esse Chardon toma as palavras
amáveis de uma senhora da sociedade por concessões, que não sabe ainda
distinguir entre o silêncio que guarda a verdadeira paixão e a linguagem
protetora a que fazem jus sua beleza, sua mocidade e seu talento! As
mulheres seriam muito de lastimar se fossem culpadas de todos os desejos
que nos inspiram. Ele está por certo enamorado, mas quanto a Naïs...
— Oh! Naïs... — repetiu a pérfida Amélia. — Naïs está toda feliz com essa
paixão. Na sua idade, o amor de um jovem oferece tantas seduções! Torna-
nos jovens junto dele, faz-nos mocinhas das quais imitamos os escrúpulos e
as maneiras, e não pensamos no ridículo... Vejam só! O filho de um
farmacêutico dando-se ares de dono em casa da sra. de Bargeton!
— O amor não conhece essas distâncias — cantarolou Adriano.
No dia seguinte, não houve uma só casa em Angoulême onde não se
discutisse o grau de intimidade em que se achavam o sr. Chardon, aliás De
Rubempré, e a sra. de Bargeton: apenas culpados de alguns beijos, o mundo
os acusava já da mais criminosa felicidade. A sra. de Bargeton sofria a
consequência de sua realeza. Entre as extravagâncias da sociedade, não
notastes os caprichos de seus julgamentos e a loucura de suas exigências?
Há pessoas às quais tudo é permitido: podem fazer as coisas mais absurdas,
nelas tudo é decente, e todos porfiam em lhes justificar as ações. Mas há outras para quem o mundo é de uma severidade incrível: estas devem fazer
tudo bem, jamais se enganar, nunca falhar, nem mesmo deixar escapar uma
tolice; dir-se-ia que são como estátuas admiradas que tiramos dos pedestais
quando o inverno lhes tiver deixado cair um dedo ou quebrado o nariz; não
se lhes permite nada de humano, exige-se que sejam sempre divinas e
perfeitas. Um único olhar da sra. de Bargeton a Luciano equivalia aos doze
anos de felicidade de Zizine e de Francis. Um aperto de mão dos dois
enamorados atrairia sobre eles todos os raios de Charente.
David trouxera de Paris um pecúlio secreto que destinava às despesas
necessárias para o seu casamento e para a construção do segundo andar da
casa paterna. Aumentar essa casa não era trabalhar para si próprio? Cedo ou
tarde ela lhe pertenceria; seu pai tinha setenta e oito anos. O impressor fez,
pois, construir como um pombal o apartamento de Luciano, a fim de não
sobrecarregar as velhas paredes da casa cheia de fendas. Entreteve-se a
decorar e mobiliar galantemente o apartamento do primeiro andar, onde a
bela Eva deveria passar a vida. Foi uma época de alegrias e felicidade sem
jaça para os dois amigos. Apesar de farto das mesquinhas proporções da vida
de província e fatigado dessa sórdida economia que fazia de uma moeda de
cem sous uma enorme soma, Luciano suportou, sem se queixar, os cálculos
da miséria e suas privações. Sua sombria tristeza fora substituída pela radiosa
expressão da esperança. Via brilhar uma estrela sobre sua fronte; sonhava
com uma bela existência, assentando sua felicidade sobre a tumba do sr. de
Bargeton, o qual, de tempos em tempos, tinha digestões difíceis e a feliz
mania de olhar a indigestão de seu jantar como uma moléstia que se devia
curar com a da ceia.
No início do mês de setembro, Luciano não era mais um chefe de
oficina, era o sr. de Rubempré, instalado magnificamente em comparação
com a miserável mansarda de estreitos respiradouros onde morava o
pequeno Chardon no Houmeau; não era mais um homem do Houmeau,
habitava a alta Angoulême, e jantava cerca de quatro vezes por semana em
casa da sra. de Bargeton. Tendo caído nas boas graças do prelado, era
admitido no bispado. Suas ocupações o colocavam entre as pessoas mais
distintas. Enfim, deveria colocar-se um dia entre as pessoas ilustres da
França. Ao percorrer um bonito salão, um encantador quarto de dormir e um gabinete mobiliado com gosto, podia certamente consolar-se de retirar
trinta francos por mês dos salários tão penosamente ganhos pela irmã e pela
mãe, porque ele avistava já o dia em que o romance histórico no qual
trabalhava há dois anos, O arqueiro de Carlos ix, e um volume de poesias
intitulado As boninas dar-lhe-iam renome no mundo literário ao mesmo
tempo que dinheiro bastante para solver suas obrigações para com sua mãe,
a irmã e David. Assim, vendo-se engrandecido, prestando ouvidos ao
retumbar de seu nome no futuro, aceitava agora esses sacrifícios com uma
nobre segurança, sorria de seus apertos e divertia-se com suas últimas
misérias.
Eva e David haviam dado prioridade à felicidade do irmão. O casamento
fora retardado pelo tempo que precisavam ainda os operários para acabar os
móveis, as pinturas, os papéis destinados ao primeiro andar, porque os
assuntos de Luciano haviam tido a primazia. Quem quer que conhecesse
Luciano não se admiraria desse devotamento: ele era tão sedutor! Suas
maneiras eram tão meigas! Exprimia sua impaciência e seus desejos tão
graciosamente! Tinha sempre ganho de causa antes de haver falado.
Esse fatal privilégio, se salva alguns moços, leva a maioria deles à ruína.