A Comédia Humana 7: Ilusões Perdidas
Segunda Parte • um Grande Homem da Província em Paris
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 12 partes.
SEGUNDA PARTE
UM GRANDE HOMEM DA PROVÍNCIA EM PARIS
I – AS PRIMÍCIAS DE PARIS
Jamais Luciano ou a sra. de Bargeton, e sequer Gentil ou Albertina, a criada
de quarto, falaram dos acontecimentos daquela viagem; mas fácil é supor o
quanto a contínua presença de outras pessoas a tornou sem graça para um
enamorado que imaginava todos os prazeres de um rapto.
Luciano, que pela primeira vez na vida viajava em diligência, mostrou-se
assombrado ao ver semear pela estrada de Angoulême a Paris quantia
equivalente a quase toda a soma que destinava ao custeio de um ano de vida
na capital. E, como todos os homens que reúnem as graças da mocidade à
força do talento, cometeu o erro de exprimir suas ingênuas surpresas ante o
aspecto das coisas para ele novas.
Um homem deve estudar bem uma mulher antes de lhe deixar perceber
como se manifestam suas emoções e pensamentos. As amantes cheias de
ternura e dotadas de grandeza d’alma sorriem às infantilidades e as
compreendem; entretanto, se vaidosas, por menos que o sejam, nunca
perdoarão ao amado o mostrar-se criança, mesquinho ou vão. Mulheres há
que põem tão grande exagero no seu culto que desejam encontrar sempre
um deus em seu ídolo; enquanto outras amam os homens por eles mesmos,
antes de os amar por elas, e adoram, assim, tanto os seus ridículos como suas
grandezas. Luciano não adivinhara ainda que na sra. de Bargeton o amor se enxertava no orgulho. Cometeu o erro de não procurar explicação para
certos sorrisos que escapavam a Luísa durante a viagem, sempre que, em vez
de as conter, ele se entregava às suas alegrias de camundongo recém-saído
da toca.
Os viajantes desceram no hotel do Gaillard-Bois, na Rue de l’Échelle,
antes do amanhecer. Os dois amantes estavam tão fatigados que, antes de
tudo o mais, Luísa quis deitar-se e foi, não sem haver antes ordenado a
Luciano que pedisse um quarto por cima do apartamento que ela tomou.
Luciano dormiu até as quatro da tarde. A sra. de Bargeton o mandou
acordar para jantar. Ele vestiu-se precipitadamente ao ver que horas eram e
foi encontrar Luísa num desses ignóbeis quartos que são a vergonha de Paris,
onde, apesar de tantas pretensões à elegância, não existe ainda um único
hotel onde o viajante rico possa encontrar-se como em casa. Não obstante ter
ainda nos olhos as nuvens que nos deixa o brusco despertar, Luciano não
reconheceu a sua Luísa naquele quarto frio, sem sol, de reposteiros
desbotados, cujo assoalho gasto parecia miserável e cujos móveis eram
usados, de mau gosto, velhos ou de segunda mão.
Há, sem dúvida, pessoas que não têm o mesmo aspecto nem o mesmo
valor, quando separadas das pessoas, das coisas, dos lugares que lhes servem
de moldura. As fisionomias vivas têm uma espécie de atmosfera que lhes é
própria, tal como o claro-escuro dos quadros flamengos é necessário à vida
das figuras que o gênio dos pintores ali colocou. A gente da província é quase
toda assim. Além disso, a sra. de Bargeton parecia mais digna, mais pensativa
do que deveria estar no momento em que começava uma felicidade sem
entraves.
Luciano não se podia queixar: Gentil e Albertina os serviam. O jantar não
tinha ali o aspecto de abundância e de bondade essencial que distingue a
vida na província. Os pratos, racionados pela especulação, vinham de um
restaurante vizinho, parcamente servidos, cheirando a jejum. Paris não é
nada agradável nessas pequenas coisas a que são condenadas as pessoas de
fortuna medíocre.
Luciano esperou o fim da refeição para interrogar Luísa, cuja mudança
lhe parecia inexplicável. Não se enganava. Um grave acontecimento, porque
as reflexões são os acontecimentos da vida moral, sobreviera enquanto dormia. Às duas horas da tarde Sixto du Châtelet se apresentara no hotel,
fizera acordar Albertina e, havendo manifestado o desejo de falar à ama
desta, voltara em seguida, mal dando à sra. de Bargeton o tempo para se
arrumar. Anaïs, cuja curiosidade fora excitada pela singular aparição do sr.
du Châtelet, pois se julgava muito bem oculta, o recebera pelas três horas.
— Segui-a arriscando-me a receber uma reprimenda da administração —
disse, saudando-a — porque previa o que lhe está acontecendo. Mas, ainda
que tivesse de perder meu lugar, ao menos a senhora não ficaria perdida!
— Que quer dizer? — exclamou a sra. de Bargeton.
— Bem vejo que ama Luciano — tornou ele com um ar ternamente
resignado —, porque é preciso sentir um grande amor para não refletir em
coisa alguma, para esquecer todas as conveniências, a senhora que tão bem
as conhece! Acredita então, Naïs adorada, que possa ser recebida em casa da
sra. d’Espard, ou em outro salão de Paris, seja qual for, quando souberem que
saiu como que fugida de Angoulême com um rapaz, e sobretudo depois do
duelo do sr. de Bargeton com o sr. de Chandour? A estada de seu marido em
Escarbas tem toda a aparência de uma separação. Em casos semelhantes, as
pessoas corretas começam a bater-se por suas mulheres para, em seguida,
deixá-las livres. Ame o sr. de Rubempré, proteja-o, faça tudo o que quiser
dele, mas não morem juntos! Se alguém aqui souber que fizeram a viagem na
mesma carruagem, a senhora será posta no índex pela sociedade que deseja
frequentar. Além disso, Naïs, não faça tais sacrifícios por um rapaz que a
senhora não comparou com ninguém ainda, que não foi submetido a prova
alguma, e que pode esquecê-la aqui por uma parisiense julgando-a mais
necessária que a senhora às suas ambições. Não quero desfazer daquele a
quem ama, mas permita-me que coloque os seus interesses acima dos dele, e
que lhe diga: “Estude-o! Meça bem toda a importância do passo que vai
dar”. Se vier a encontrar as portas fechadas, se as mulheres se recusarem a
recebê-la, que ao menos não sinta pesar algum por tantos sacrifícios, tendo a
certeza de que aquele por quem os fez saberá sempre merecê-los e os
compreender. A sra. d’Espard tem de ser mais prudente e severa que as
outras, por estar separada do marido, sem que a sociedade tenha podido
saber a causa dessa desunião; mas os Navarreins, os Blamont-Chauvry, os
Lenoncourt,[86] todos os parentes, a apoiam, e as mulheres mais cheias de preconceitos vão à sua casa e a acolhem com respeito, de modo a evidenciar
que o marquês d’Espard é quem não tem razão. Já à primeira visita que lhe
fizer, a senhora reconhecerá a verdade da minha advertência. Posso fazer
essa predição, porque conheço Paris: ficará desesperada em casa da
marquesa se ela viesse a saber que está no hotel Gaillard-Bois com o filho de
um boticário, por mais sr. de Rubempré que ele queira ser. Terá aqui rivais
bem mais astutas e espertas do que Amélia; elas não deixarão de saber quem
é a senhora, onde está, de onde vem, e o que faz. Vejo que conta com o
incógnito, mas esquece que é dessas pessoas para as quais o incógnito não
existe. Acaso não irá encontrar Angoulême por toda a parte? São os
deputados de Charente que vêm para a abertura das Câmaras; é o general
que está em Paris, em gozo de licença; mas bastará que um único habitante
de Angoulême a aviste para que sua vida seja tolhida de um modo estranho:
não passará da amante de Luciano. Se precisar de mim, seja para o que for,
estou em casa do recebedor geral, Rue du Faubourg Saint-Honoré, a dois
passos da casa da sra. d’Espard. Conheço bastante a marechala de
Carigliano, a sra. de Sérisy[87] e o presidente do Conselho para a apresentar
lá, mas conhecerá tanta gente em casa da sra. d’Espard que, certamente,
não precisará de mim. Longe de ter que desejar ir a este ou àquele salão, a
senhora é que será neles desejada.
Du Châtelet pôde falar sem que a sra. de Bargeton o interrompesse,
assombrada como ficou pela justeza daquelas observações. A rainha de
Angoulême havia, sem dúvida, contado com o incógnito.
— Tem razão, caro amigo — disse ela —, mas que fazer?
— Deixe-me — respondeu Du Châtelet — procurar-lhe um apartamento
mobiliado em condições. Levará assim uma vida menos cara que a vida de
hotel, e estará em sua casa; e, se me der ouvidos, ali dormirá já esta noite.
— Mas como descobriu meu endereço? — indagou ela.
— Sua carruagem é fácil de reconhecer; além disso, eu a seguia. Em
Sèvres, o postilhão que a trouxe deu ao meu o seu endereço. Permite que me
faça seu ajudante de ordens? Escrever-lhe-ei dentro em pouco para dizer-
lhe onde a terei alojado.
— Pois bem, faça-o — disse ela.
Essas palavras nada pareciam, e eram tudo. O barão du Châtelet falara na linguagem da sociedade a uma mulher da sociedade. Apresentara-se em
toda a elegância de um traje parisiense; trouxera-o um bonito cabriolé bem
aparelhado. Por acaso, a sra. de Bargeton pôs-se à sacada para refletir sobre a
situação e viu o velho janota partir. Instantes depois, Luciano, bruscamente
acordado e bruscamente vestido, apresentou-se a seus olhos metido em suas
calças de nanquim do ano anterior, e na sua feia sobrecasaca. Ele era belo,
mas apresentava-se ridiculamente vestido. Vesti o Apolo de Belvedere[88]
ou o Antínoo[89] de aguadeiro e vede se é possível reconhecer neles a divina
criação do cinzel grego e romano. Os olhos comparam antes que o coração
possa retificar esse rápido julgamento maquinal. O contraste entre Luciano e
Du Châtelet foi brusco demais para não chocar os olhos de Luísa.
Quando pelas seis horas terminou o jantar, a sra. de Bargeton fez sinal a
Luciano para vir sentar-se ao seu lado num velho canapé de percal
vermelho com flores amarelas.
— Meu Luciano — disse —, não concordas em que, se fizemos uma
loucura que nos pode matar a ambos, o razoável é que a reparemos? Não
devemos, queridinho, morar juntos em Paris nem deixar supor que viemos ao
mesmo tempo. Teu futuro depende muito da minha posição e não a devo
pôr a perder de maneira alguma. Assim, vou alojar-me desde já a alguns
passos daqui; mas ficarás neste hotel e poderemos ver-nos todos os dias sem
que ninguém tenha coisa alguma a dizer.
Luísa esmiuçou as leis da sociedade a Luciano, que ouviu atônito. Sem
saber que as mulheres que voltam atrás nas suas loucuras voltam atrás em
seu amor, compreendeu bem que não era mais o Luciano de Angoulême.
Luísa não lhe falava senão de si própria, de seus interesses, de sua
reputação, da sociedade; e, para escusar seu egoísmo, tentava fazê-lo crer
que se tratava dele. Não tinha direito algum sobre Luísa, tão rapidamente
tornada de novo sra. de Bargeton, e, coisa mais grave, não tinha poder
algum. Não pôde reter, por isso, duas grandes lágrimas que lhe rolaram dos
olhos.
— Se sou a sua glória, você é ainda mais para mim, você é a minha única
esperança, todo o meu futuro. Pensei que, se esposava meu êxito, devia
esposar meu infortúnio, e eis que já nos separamos.
— Você julga meu proceder — retrucou ela —, você já não me ama!
Luciano olhou-a com expressão tão dolorosa que ela não pôde deixar de
dizer:
— Queridinho, ficarei se quiseres, embora nos percamos, ficando sem
apoio. Mas, quando nos virmos igualmente miseráveis e repelidos, quando o
insucesso, porque é preciso tudo prever, nos tiver atirado para Escarbas,
lembra-te, meu amor, de que eu havia previsto esse fim, e que te propusera
antes triunfar segundo as leis do mundo, obedecendo-lhes.
— Luísa — respondeu ele beijando-a —, estou aterrado por te ver tão
prudente. Faz de conta que sou apenas uma criança e que me abandonei
inteiramente à sua vontade, minha querida. Por mim, desejaria triunfar
sobre os homens e sobre as coisas à viva força; mas, se com tua ajuda puder
chegar mais depressa do que sozinho, serei muito feliz em te dever todos os
meus triunfos. Perdoa! Confiei demais em ti para não ter agora medo de
tudo. Para mim, a separação é o prenúncio do abandono; e o abandono é a
morte.
— Mas, meu querido, a sociedade te pede pouca coisa — respondeu ela.
— Trata-se apenas de dormir aqui, para poder ficar o dia todo em minha
casa sem que nisso encontrem do que falar.
Algumas carícias acabaram por acalmar Luciano. Uma hora depois,
apareceu Gentil com um bilhete de Du Châtelet, que dizia em poucas
palavras à sra. de Bargeton que lhe havia achado um apartamento na Rue
Neuve-du-Luxembourg. Ela indagou da situação dessa rua, que não era
muito distante da Rue de l’Échelle, e disse a Luciano:
— Somos vizinhos.
Duas horas depois, Luísa subiu a uma carruagem que lhe enviara Du
Châtelet para que ela se dirigisse a seus novos cômodos. O apartamento,
desses em que os tapeceiros põem móveis e que alugam a deputados ricos ou
a grandes personagens vindos a Paris por pouco tempo, era suntuoso, mas
sem conforto. Luciano regressou pelas onze horas a seu pequeno hotel do
Gaillard-Bois, não tendo visto de Paris senão a parte da Rue Saint-Honoré,
que se situa entre a Rue Neuve-du-Luxembourg e a Rue de l’Échelle.
Deitou-se em seu quartinho miserável, não sem deixar de o comparar
com o magnífico apartamento de Luísa.
Mal saíra ele de casa da sra. de Bargeton, ali chegava o barão du Châtelet, de volta da casa do ministro das Relações Exteriores, no esplendor
de um traje de cerimônia. Vinha prestar contas das comissões que
desempenhara para a sra. de Bargeton.
Luísa estava inquieta; aquele luxo a amedrontava. Os costumes da
província tinham acabado por atuar sobre ela, tornando-a meticulosa nas
contas; punha tanta ordem em tudo que em Paris iria parecer avara.
Trouxera cerca de vinte mil francos num vale do recebedor geral,
destinando essa soma a cobrir as suas despesas comuns e as extraordinárias
durante quatro anos; temia já não ter o bastante e fazer dívidas.
Du Châtelet comunicou-lhe que o apartamento lhe custaria só
seiscentos francos por mês.
— Uma miséria — acrescentou, vendo o sobressalto de Naïs. — Terá
ainda às suas ordens uma carruagem por quinhentos francos mensais,
importando tudo em cinquenta luíses. Terá de pensar apenas nos seus
trajes. Uma senhora que vai frequentar a alta sociedade não se poderia
instalar de outra maneira. Se pretende fazer do sr. de Bargeton um
recebedor geral ou lhe obter um lugar na casa do rei, não deve mostrar
aparências de miséria. Aqui não se dá senão aos ricos. Por felicidade — disse
ele —, a senhora dispõe de Gentil para a acompanhar e de Albertina para a
vestir, porque os criados são umas pestes em Paris. Comerá poucas vezes em
casa, lançada como vai ser na sociedade.
A sra. de Bargeton e o barão falaram, afinal, de Paris. Du Châtelet contou
as novidades do dia, os mil nadas que é preciso saber sob pena de não ser de
Paris. Deu em seguida conselhos a Naïs sobre as lojas onde deveria comprar:
indicou-lhe Herbault para as barretinas, Juliette para os chapéus e os bonés;
deu-lhe o endereço da costureira que podia substituir Vitorina; fez-lhe,
enfim, sentir a necessidade de se desangoulemar. Despediu-se com o
último dito feliz que achou à mão:
— Amanhã — disse negligentemente — obterei, sem dúvida, um
camarote para algum espetáculo; virei buscar a senhora e o sr. de
Rubempré, pois me permitirão, decerto, que lhes faça a ambos as honras de
Paris. “Tem no caráter mais generosidade do que eu supunha”, pensou a sra.
de Bargeton ao vê-lo incluir Luciano no convite.
No mês de junho, os ministros não sabem o que fazer de seus camarotes nos teatros: os deputados ministeriais e seus constituintes realizam vindimas
ou velam pelas colheitas; suas relações mais exigentes estão no campo ou em
viagem: por isso, nessa época, os melhores camarotes dos teatros de Paris
recebem hóspedes heteróclitos que os habitués não tornam a ver e que dão
ao público a impressão de tapeçaria usada. Du Châtelet calculara que, graças
à referida circunstância, poderia, sem gastar muito, oferecer a Naïs as
diversões mais apetecidas pelos provincianos.
No dia seguinte, Luciano não encontrou Luísa, quando de sua primeira
visita. A sra. de Bargeton saíra para algumas compras indispensáveis. Fora
aconselhar-se com as graves e ilustres autoridades em matéria de
indumentária feminina que Du Châtelet lhe havia indicado. Antes escrevera
à sra. d’Espard avisando-a de sua chegada. Não obstante ter em si mesma a
confiança que dá o longo hábito de dominar, a sra. de Bargeton tinha um
medo extraordinário de parecer provinciana. Possuía tato bastante para
saber o quanto as relações entre mulheres dependem das primeiras
impressões, e, ainda que se soubesse com forças para se pôr rapidamente ao
nível das mulheres superiores como a sra. d’Espard, sentia que precisava de
benevolência em sua estreia; sobretudo, não queria negligenciar nenhum
elemento de êxito. Sentia, em consequência, por Du Châtelet infinita
gratidão, por lhe haver indicado os meios de se pôr em harmonia com a alta-
roda parisiense.
Por singular acaso, a marquesa encontrava-se em situação de sentir-se
encantada por prestar um serviço a uma pessoa da família do marido. Sem
causa aparente, o marquês d’Espard se havia retirado da sociedade;[90] não
se preocupava com os negócios nem com os assuntos políticos, nem com a
família, nem com a mulher. Tornando-se assim dona de si própria, a
marquesa sentia a necessidade de ser aprovada pelo mundo; sentia-se, pois,
feliz em substituir o marquês naquela oportunidade, tornando-se protetora
da família dele. Ia pôr ostentação nesse empenho a fim de tornar mais
evidente a culpa do marido.
Escreveu, no mesmo dia, à sra. de Bargeton, nascida Nègrepelisse, um
desses encantadores bilhetes em que a forma é tão bonita que é preciso
algum tempo antes de se lhes reconhecer a falta de fundo:
Sentia-se feliz diante daquela circunstância que aproximava da família
uma pessoa de quem ouvira falar e a quem desejava conhecer, porque
as amizades de Paris não eram suficientemente sólidas para que ela
não desejasse ter alguém mais para amar na terra; se isso não
acontecesse, não seria uma ilusão a mais a sepultar com as outras.
Punha-se inteiramente à disposição da prima, que teria ido ver, não
fora uma indisposição que a retinha em casa; mas considerava-se
desde logo agradecida por ter sido alvo do pensamento dela.
Durante o seu primeiro passeio vagabundo através dos bulevares e da Rue
de la Paix, Luciano, como todos os recém-chegados, ocupou-se mais das
coisas que das pessoas. Em Paris, o conjunto das construções e das atividades
urbanas chama logo atenção: o luxo das lojas, a altura das casas, a afluência
das carruagens, os permanentes contrastes que apresentam o extremo luxo e
a extrema miséria antes de tudo despertam o interesse. Surpreendido por
aquela multidão em meio à qual se sentia estranho, aquele homem de
imaginação sentiu como que uma imensa diminuição de si mesmo. As
pessoas que, no interior, gozam de certa consideração, e que ali a cada passo
encontram provas de sua importância, não se acostumam de modo algum a
essa perda total e súbita de seu valor. Ser algo em sua terra e nada ser em
Paris são dois estados que requerem transições; e aqueles que passam muito
bruscamente de um para o outro caem numa espécie de aniquilamento.
Para o jovem poeta habituado a encontrar eco para cada um dos seus
sentimentos, um confidente para todas as suas ideias, uma alma para
compartilhar as suas menores sensações, Paris ia ser um espantoso deserto.
Luciano não tinha ido buscar a bela casaca azul remetida como encomenda,
de sorte que se sentiu vexado com a mesquinhez, para não dizer a ruína, de
sua roupa, ao ir ter à casa da sra. de Bargeton à hora em que esta deveria
estar de volta. Encontrou lá o barão du Châtelet, que levou ambos a jantar no
Rocher de Cancale.[91] Luciano, aturdido pela rapidez do redemoinho
parisiense, nada pôde dizer a Luísa, enquanto para lá se dirigiam os três de
carro, mas apertava-lhe a mão, e ela respondia amigavelmente a todos os
pensamentos que ele assim exprimia. Depois do jantar, Du Châtelet
conduziu seus dois convivas ao Vaudeville.[92] Luciano sentia um secreto descontentamento ao aspecto de Du Châtelet; maldizia o acaso que o
conduzira a Paris. O diretor de contribuições narrou o motivo de sua viagem
levando-o a conta da ambição: esperava ser nomeado secretário-geral de um
departamento e entrar para o Conselho de Estado como referendário; viera
exigir o cumprimento de promessas que lhe haviam sido feitas, porque um
homem como ele não podia permanecer sempre diretor de contribuições;
preferia antes nada ser, tornar-se deputado, entrar para a diplomacia.
Engrandecia-se; Luciano reconhecia vagamente nesse velho elegante a
superioridade do homem do mundo a par da vida parisiense; sentia-se
sobretudo envergonhado de lhe dever seus prazeres. Ali, onde o poeta se
sentia inquieto e constrangido, o antigo secretário privado se achava como
um peixe na água. Du Châtelet sorria às hesitações, aos espantos, às
perguntas, aos pequenos enganos que a falta de experiência social arrancava
ao rival, tal como os velhos lobos do mar zombam dos marinheiros de
primeira viagem. O prazer que Luciano sentiu ao assistir pela primeira vez a
um espetáculo em Paris compensou os aborrecimentos que lhe causavam
suas confusões.
Aquela noite fez-se para ele notável pelo repúdio secreto de um grande
número de ideias suas sobre a vida do interior. Alargava-se o círculo, a
sociedade tomava outras proporções. A vizinhança de diversas parisienses
bonitas, muito elegantes e deliciosamente vestidas, fez-lhe notar o
anacronismo da indumentária da sra. de Bargeton, apesar de sofrivelmente
pretensiosa: nem as fazendas, nem o feitio, nem as cores estavam na moda.
O penteado que tanto o seduzia em Angoulême pareceu-lhe de gosto
horrível comparado às graciosas invenções pelas quais se destacava cada
uma das outras mulheres. “Irá ela continuar assim?”, pensava ele, sem saber
que o dia fora empregado em preparar uma transformação. Na província,
não há escolha nem comparação a fazer: o hábito de ver as fisionomias dá-
lhes uma beleza convencional. Transportada para Paris, uma mulher que
passa por bonita no interior não desperta a menor atenção, porque não é
bela senão pela aplicação do provérbio: Em terra de cegos, quem tem um
olho é rei. Os olhos de Luciano faziam a comparação que a sra. de Bargeton
fizera na véspera entre ele e Du Châtelet. Esta, por sua vez, permitia-se
estranhas reflexões sobre o seu amado. Não obstante sua rara beleza, o pobre poeta não tinha garbo. Sua sobrecasaca de mangas muito curtas, as feias
luvas provincianas, o colete repuxado tornavam-no prodigiosamente ridículo
ao lado dos jovens postados no balcão: a sra. de Bargeton achava-lhe um
jeito lastimável. Du Châtelet, ocupando-se dela sem ostentação, velando por
ela com cuidados que traíam uma paixão profunda; Du Châtelet, elegante e
à vontade como um ator de volta ao palco de seu teatro, reconquistou em
dois dias o terreno que perdera em seis meses. Apesar de o vulgo não admitir
que os sentimentos mudem repentinamente, o certo é que dois amantes
separam-se mais depressa do que se ligam. Preludiava-se na sra. de Bargeton
e em Luciano um desencantamento mútuo cuja causa era Paris. A vida
adquiria nela mais vastas dimensões aos olhos do poeta, tal como a sociedade
tomava novo aspecto aos olhos de Luísa. Quer em relação a uma, quer ao
outro, bastaria um acidente fortuito para quebrar os laços que os uniam. Esse
golpe de machado, terrível para Luciano, não se fez esperar por muito
tempo.
A sra. de Bargeton deixou o poeta no hotel e voltou para casa
acompanhada de Du Châtelet, coisa que desagradou terrivelmente ao pobre
enamorado.
“Que irão dizer de mim?”, pensava ao subir para seu triste quarto.
— Esse pobre rapaz é singularmente enfadonho — observou Du
Châtelet, sorrindo, quando a portinhola se fechou.
— Assim acontece com todos aqueles que têm um mundo de
pensamentos no coração e no cérebro. Os homens que têm tantas coisas a
exprimir em belas obras por muito tempo sonhadas professam cerro
desprezo pela conversa, comércio em que o espírito se amesquinha,
malbaratando-se — disse a orgulhosa De Nègrepelisse, que teve ainda a
coragem de defender o poeta, menos por Luciano do que por ela mesma.
— Concordo de boa vontade — respondeu o barão —, mas vivemos com
as pessoas e não com os livros. Eu bem vejo, querida Naïs, que nada existe
ainda entre você e ele; estou encantado com isso. Se se decidir a pôr em sua
vida um interesse que até aqui lhe faltou, suplico-lhe que não seja por esse
pretenso homem de gênio. Se você se enganasse! E se daqui a dias
comparando-o aos verdadeiros talentos, aos homens verdadeiramente
notáveis que vai ver, reconhecesse, bela sereia querida, haver tomado sobre o seu dorso deslumbrante e conduzido ao porto, em vez de um homem
armado de lira,[93] um macaquinho desajeitado, sem compreensão,
presumido e tolo, que pode ter espírito no Houmeau, mas resulta em Paris
extremamente vulgar? Afinal de contas, publicam-se aqui todas as semanas
volumes de versos dos quais o pior vale mais que toda a poesia do sr.
Chardon. Por favor, espere e compare! Amanhã, sexta-feira, é dia de ópera
— disse ele ao ver a carruagem entrar na Rue Neuve-du-Luxembourg —; a
sra. d’Espard dispõe do camarote dos altos dignitários da Corte e sem dúvida
a convidará. Para vê-la em sua glória, estarei no camarote da sra. de Sérisy.
Levam As danaides.[94]
— Adeus — disse ela.
No dia seguinte, a sra. de Bargeton tratou de arranjar um traje de
manhã conveniente para ir ver a prima, a sra. d’Espard. Fazia ligeiro frio, e
nada encontrou de melhor nas suas velharias de Angoulême que certo
vestido de veludo verde, guarnecido de modo assaz extravagante. Luciano,
por sua vez, sentiu necessidade de ir buscar sua famosa casaca azul, pois se
havia tomado de horror pela feia sobrecasaca e desejava mostrar-se sempre
bem-vestido, pensando que poderia encontrar a marquesa d’Espard ou ter
de ir à sua casa de um momento para outro. Tomou um fiacre a fim de
trazer imediatamente o seu pacote. Em duas horas gastou três ou quatro
francos, o que lhe deu muito que pensar sobre as proporções financeiras da
vida parisiense. Após haver atingido ao superlativo de sua vestimenta, foi à
Rue Neuve-du-Luxembourg, onde, no limiar da porta, encontrou Gentil em
companhia de um lacaio magnificamente emplumado.
— Ia à sua casa; a senhora me confiou umas palavrinhas para o senhor
— disse Gentil, que não conhecia as fórmulas do respeito parisiense,
habituado como estava à bonomia dos costumes provincianos.
O lacaio tomou o poeta por um criado. Luciano abriu o bilhete, pelo qual
soube que a sra. de Bargeton passaria o dia com a marquesa d’Espard e iria à
noite à Opéra. Mas ela dizia a Luciano que lá se encontrasse; a prima
prometia-lhe ceder um lugar no camarote ao jovem poeta, dizendo-se
encantada em proporcionar-lhe tal prazer.
“Ela me ama, então! Meus temores são loucos”, pensou Luciano; “ela me
apresentará à prima já esta noite.”
Saltou de prazer e quis passar alegremente o tempo que o separava
ainda da feliz noitada. Lançou-se para as Tuileries pensando em flanar até a
hora do jantar no Véry.[95] E eis que Luciano, buliçoso, saltitante, lépido de
felicidade, desemboca no Terrasse des Feuillants[96] e a percorre
examinando os passeantes, as lindas mulheres e seus adoradores, os
elegantes a andar, dois a dois, de braço dado, saudando-se uns aos outros
por um olhar amável ao passar.
Que diferença entre aquele terraço e Beaulieu! Os pássaros do magnífico
viveiro eram bem mais belos que os de Angoulême! Ostentavam todo o luxo
de cores que brilha nas famílias ornitológicas das Índias ou da América, em
contraste com as cores baças dos pássaros da Europa.
Luciano passou duas horas cruéis nas Tuileries: voltou-se então
bruscamente para si mesmo e se julgou. Não viu, para começar, uma só
casaca nesses jovens elegantes. Se avistava alguém de casaca, era um velhote
antiquado, qualquer pobre-diabo, um rendeiro vindo do Marais[97] ou
algum contínuo de escritório. Após descobrir que havia um traje para a
manhã e um traje para a noite, o poeta das emoções vivas e de olhar
penetrante reconheceu a fealdade de seus trapos, os defeitos que marcavam
de ridículo sua casaca de corte fora de moda, cujo azul era falso, cuja gola
era ultrajantemente desgraciosa, cujas abas de frente, de tão usadas,
pendiam uma para outra; os botões se haviam avermelhado, as dobras
desenhavam fatais linhas brancas. Depois, o colete era curto demais e seu
feitio tão grotescamente provinciano que, para o esconder, abotoou
rapidamente a casaca. Não via, enfim, com calças de nanquim senão a gente
comum. As pessoas distintas usavam deliciosos tecidos de fantasia ou um
branco sempre impecável! Aliás, todas as calças tinham presilhas, e as suas
casavam-se muito mal com os saltos das botas, pelas quais as bordas do estofo
encarquilhado manifestavam violenta antipatia. Tinha posto uma gravata
branca de pontas bordadas pela irmã, que, depois de ter visto no sr. de
Hautoy e no sr. de Chandour gravatas semelhantes, se havia empenhado em
fazer as do irmão parecidas. Ninguém, exceto as pessoas graves, alguns
velhos financistas, alguns severos administradores, usava gravata branca pela
manhã; para cúmulo, o pobre Luciano viu passar do outro lado da grade,
pela calçada da Rue de Rivoli, um caixeiro de confeitaria com um cesto à cabeça, e no qual o homem de Angoulême surpreendeu duas pontas de
gravata bordadas pela mão de alguma costureirinha querida. A essa visão,
Luciano recebeu um golpe no peito, nesse órgão ainda mal definido onde se
refugia nossa sensibilidade, ao qual, desde que o sentimento existe, os
homens levam a mão tanto nas alegrias como nas dores excessivas. Não
tacheis de pueril esta narrativa! Os ricos que jamais conheceram tal espécie
de sofrimento encontrarão certamente aqui algo de mesquinho e de incrível,
mas as angústias dos desgraçados não merecem menos atenção do que as
crises que revolucionam a vida dos poderosos e dos privilegiados da terra. E,
depois, não haverá igual dor nuns e noutros? O sofrimento engrandece
tudo. Mudai apenas os termos: em lugar de uma roupa mais ou menos bem-
feita, colocai uma fita, uma distinção, um título. Essas coisas aparentemente
tão pequenas não atormentaram acaso as mais brilhantes existências? O
problema da indumentária é aliás enorme para aqueles que desejam
aparentar o que não têm, porque é quase sempre o melhor meio de vir a
possuí-lo mais tarde.
Luciano sentiu um suor frio ao pensar que à noite teria de comparecer
vestido assim diante da marquesa d’Espard, parenta de um dos mais
importantes membros da Câmara Real, diante de uma mulher habituada a
receber pessoas ilustres de todos os gêneros, ilustres e escolhidas.
— Tenho a aparência de um filho de boticário, de um verdadeiro lavador
de vidros de farmácia! — confessou a si mesmo com raiva ao ver passar os
desempenados, os janotas, os elegantes rapazes das famílias do Faubourg
Saint-Germain. Possuíam maneiras próprias que os tornavam a todos
semelhantes pela delicadeza das palavras, pela nobreza dos gestos, pelo ar
de superioridade, e todos diferentes pela moldura que cada qual escolhera
para se fazer valer. Faziam sobressair seus dotes por uma espécie de
encenação de que, em Paris, os rapazes entendem tão bem como as
mulheres. Luciano herdara da mãe preciosos dotes físicos cujos privilégios
cintilavam a seus olhos; mas esse ouro se achava ainda na jazida e não
trabalhado. Seus cabelos estavam mal cortados. Em vez de manter o rosto
erguido por meio de brandas barbatanas, sentia-se amortalhado num
ordinário colarinho; e a gravata, pouco resistente, deixava pender-lhe a
cabeça entristecida. Que mulher poderia adivinhar seus bonitos pés metidos nas botas ignóbeis que trouxera de Angoulême? Que rapaz poderia invejar
seu lindo talhe deformado por aquele saco azul que até então acreditara ser
uma casaca? Via lindos botões em camisas cintilantes de alvura, e a sua
estava puída! Todos aqueles elegantes cavalheiros estavam
maravilhosamente enluvados, e ele usava luvas de polícia! Este brincava com
uma bengala deliciosamente encastoada. Vestia, aquele outro, uma camisa
com os punhos presos por pequenos botões de ouro. Falando a uma senhora,
agitava, um terceiro, um encantador chicote, e as rugas abundantes de suas
calças manchadas de pequenos salpicos de lama, as esporas a retinir, a curta
sobrecasaca fechada mostravam que iria de novo montar um dos cavalos
sujeitos por um tigre[98] não mais volumoso que um punho. Outro tirava do
bolso do colete um relógio chato como uma peça de cem sous e olhava a
hora, como quem se houvesse adiantado ou deixado passar o momento
aprazado para um encontro.
Percebendo essas lindas bagatelas de que, antes, nem suspeitava,
Luciano viu diante de si o mundo das superfluidades necessárias e
estremeceu ao pensar que era preciso um capital enorme para chegar às
alturas de um rapaz da moda! Quanto mais admirava aqueles jovens de ar
feliz e desenvolto, mais tinha consciência de seu ar canhestro, ar de homem
que ignora aonde vai dar o caminho que segue, que não sabe onde se situa o
Palais-Royal mesmo quando o está tocando, e que pergunta onde fica o
Louvre a um transeunte que lhe responde: “Senhor, é aqui mesmo”.
Luciano via-se separado daquele mundo por um abismo e imaginava por
que meios o poderia franquear, pois desejava igualar a esbelta e delgada
juventude parisiense. Todos aqueles nobres rapazes saudavam mulheres
deliciosamente vestidas e divinamente belas, mulheres pelas quais Luciano
se deixaria cortar em pedaços em troca de um único beijo, como o pajem da
condessa de Konismarck.[99]
Nas trevas de sua memória, Luísa, comparada a essas soberanas,
delineava-se como uma mulher velha. Encontrou várias daquelas mulheres
de quem se haveria de falar na história do século xix, de quem o espírito, a
beleza, os amores não serão menos célebres que os das rainhas do passado.
Viu passar uma jovem sublime, a srta. des Touches, muito conhecida sob o
pseudônimo de Camille Maupin,[100] escritora eminente, tão notada por sua beleza como pela inteligência superior, e cujo nome foi repetido baixinho
pelos passeantes e pelas mulheres.
“Ah!”, pensou ele, “eis ali a poesia.”
O que era a sra. de Bargeton ao lado daquele anjo estuante de mocidade,
de esperança, de futuro, dona de um doce sorriso, e cujos olhos negros eram
vastos como o céu e ardentes como o sol? Ela ria conversando com a sra.
Firmiani,[101] uma das mais encantadoras mulheres de Paris.
Uma voz lhe dizia claramente: “A inteligência é a alavanca com a qual se
move o mundo”. Mas outra voz lhe gritava que o ponto de apoio da
inteligência era o dinheiro. Não quis ficar em meio às ruínas e sobre o palco
de sua derrota; tomou o caminho do Palais-Royal, depois de haver
perguntado por ele, pois não conhecia ainda a topografia de sua zona.
Entrou no Véry e pediu, para se iniciar nos prazeres de Paris, um jantar que
o consolasse de seu desespero. Uma garrafa de vinho de Bordeaux, ostras de
Ostende, peixe, perdiz, macarrão e frutas foram o nec plus ultra de seus
desejos. Saboreou esse pequeno rega-bofe pensando em dar prova de espírito
à noite junto da marquesa d’Espard e em redimir assim a mesquinhez de sua
bizarra indumentária pelo estadear de seus dotes intelectuais. Arrancou-o
de tais sonhos o total da conta, que lhe levou os cinquenta francos com os
quais acreditava ir muito longe em Paris. Aquele jantar equivalia a um mês
de sua existência em Angoulême. Fechou, por isso, respeitosamente a porta
daquele palácio, pensando em nunca mais pôr ali os pés.
“Eva tinha razão, os preços de Paris não são os do Houmeau”, pensou,
seguindo pela Galeria de Pedra em direção ao hotel para buscar dinheiro.
Pelo caminho, admirava as lojas dos alfaiates, a pensar nas roupas que vira
pela manhã:
— Não — exclamou —; não aparecerei mal-amanhado como estou
diante da sra. d’Espard. — Correu com uma velocidade de cervo até o hotel
do Gaillard-Bois, subiu ao quarto, tomou cem escudos e tornou a descer para
o Palais-Royal, para se vestir dos pés à cabeça. Tinha visto sapateiros,
camiseiros, coleteiros e cabeleireiros no Palais-Royal, onde sua futura
elegância estava esparsa por dez seções. O primeiro alfaiate em cuja loja
entrou fê-lo provar tantas casacas quantas quis vestir e o persuadiu de que
eram todas da última moda. Luciano saiu possuidor de uma casaca verde, calças brancas e um colete de fantasia, pela soma de duzentos francos.
Encontrou logo adiante um par de botinas elegantíssimas e da sua medida.
Enfim, depois de haver adquirido tudo de que precisava, chamou o
cabeleireiro ao seu quarto, para onde fez cada fornecedor enviar as compras.
Às sete horas tomou um fiacre e se fez conduzir à Opéra, frisado como um
São João de procissão, bem encoletado, bem engravatado, mas um pouco
constrangido naquela espécie de estojo em que se via pela primeira vez.
Cumprindo a recomendação da sra. de Bargeton, perguntou pelo
camarote dos dignitários da Câmara Real. Ao aspecto de um homem cuja
elegância de empréstimo o fazia assemelhar-se a um padrinho de
casamento, um dos porteiros pediu-lhe que mostrasse o bilhete.
— Não o tenho.
— Não pode entrar — responderam-lhe secamente.
— Mas sou das relações da sra. d’Espard — disse ele.
— Não somos obrigados a saber isso — disse o empregado, que não pôde
deixar de trocar quase imperceptível sorriso com seus colegas de inspeção.
Uma carruagem parou naquele mesmo instante sob o peristilo. Um
lacaio, que Luciano não reconheceu, desdobrou o estribo dum cupê de onde
saíram duas mulheres paramentadas. Luciano, que não queria receber do
porteiro algum impertinente aviso para se desviar, deu lugar às duas
senhoras.
— Mas esta senhora é a marquesa d’Espard que o senhor pretende
conhecer — observou ironicamente o porteiro a Luciano.
Mais aturdido ainda ficou Luciano por não dar a sra. de Bargeton
mostras de o reconhecer em sua nova plumagem; apenas quando a abordou,
ela lhe sorriu e disse:
— Vai tudo às mil maravilhas. Venha!
Os empregados da inspeção haviam se tornado sérios. Luciano seguiu a
sra. de Bargeton, que, ao subir a vasta escadaria da Opéra, apresentou o seu
De Rubempré à prima.
O camarote dos dignitários da Corte era o que se encontra na parte mais
larga, ao fundo da plateia: ali cada um é visto e vê por todos os lados.
Luciano colocou-se numa cadeira por trás da prima de Naïs, satisfeito
por ficar na sombra.
— Sr. de Rubempré — disse a marquesa com um tom de voz lisonjeiro —,
você vem à Opéra pela primeira vez, coloque-se de modo a abranger tudo
com a vista, tome esta cadeira, passe aqui para a frente, nós o permitimos.
Luciano obedeceu. O primeiro ato da ópera terminava.
— Empregou bem o tempo — disse-lhe Luísa ao ouvido, no primeiro
instante de surpresa causada pela mudança de Luciano.
Luísa continuava a mesma. A vizinhança de uma mulher da moda, da
marquesa d’Espard, essa sra. de Bargeton de Paris, como a prejudicava! A
brilhante parisiense fazia sobressair tanto as imperfeições da provinciana que
Luciano, duplamente esclarecido pela bela sociedade daquela pomposa sala
e por aquela mulher eminente, viu enfim na pobre Anaïs de Nègrepelisse a
mulher real, a mulher que os parisienses viam: uma mulher grande, seca, de
pele áspera, fanada, mais que ruiva, angulosa, afetada, pretensiosa,
provinciana no falar, e, sobretudo, mal-amanhada. Sem dúvida, o
amarfanhado de um velho vestido de Paris atesta ainda o bom gosto; a gente
compreende, adivinha o que ele foi; mas um velho vestido provinciano é
incompreensível, é risível. O vestido e a mulher eram sem graça nem
frescura, o veludo mostrava-se lustroso como a face. Luciano, envergonhado
de haver amado aquela espinha de peixe, prometeu a si mesmo aproveitar o
primeiro acesso de virtude de sua Luísa para a deixar. Sua excelente vista
permitia-lhe ver os binóculos assestados para o camarote aristocrático por
excelência. As mais elegantes mulheres examinavam certamente a sra. de
Bargeton, porque todas sorriam falando umas às outras. Se a sra. d’Espard
reconheceu, nos gestos e sorrisos femininos, a causa dos sarcasmos, a eles
permaneceu insensível. Todos deveriam ter, imediatamente, reconhecido
em sua companheira a parenta pobre vinda da província, mal de que
padecem talvez todas as famílias parisienses. Demais, a prima lhe falara em
vestuário, manifestando algum temor, e ela a havia tranquilizado,
percebendo que Anaïs, uma vez bem-vestida, tomaria logo maneiras
parisienses. Se à sra. de Bargeton faltava tino social, tinha a altivez nativa da
mulher nobre e esse não sei quê que se pode chamar de berço. Na segunda-
feira próximas ela tomaria sua desforra. Aliás, desde que o público soubesse
que aquela mulher era sua prima, a marquesa sabia que ele suspenderia o
curso dos seus gracejos e aguardaria novo exame para a julgar.
Luciano não imaginava sequer a transformação que fariam na pessoa de
Luísa uma echarpe passada em torno do pescoço, um lindo vestido, um
elegante penteado e os conselhos da sra. d’Espard. Já ao subir a escada, a
marquesa havia dito à prima que não conservasse o lenço aberto, na mão. O
bom ou mau gosto dependem de mil pequenas coisas desse gênero, que uma
mulher inteligente percebe imediatamente, e que certas mulheres jamais
compreenderão. A sra. de Bargeton, já cheia de boa vontade, era
suficientemente inteligente para reconhecer aquilo em que pecava.
A sra. d’Espard, segura de que a discípula lhe faria honra, não se
recusara a formá-la. Estabelecera-se, enfim, entre as duas mulheres, um
pacto cimentado por seus mútuos interesses.
A sra. de Bargeton havia votado súbito culto ao ídolo do dia, cujo espírito,
maneiras e relações a haviam seduzido e deslumbrado. Reconhecera na sra.
d’Espard o poder oculto da grande dama ambiciosa, e a si mesma prometera
triunfar fazendo-se satélite desse astro: ela a havia de imediato fascinado
totalmente. A marquesa mostrou-se sensível a essa ingênua conquista e se
havia interessado pela prima, achando-a fraca e pobre; além disto, gostaria
bastante de ter uma discípula para fazer escola, e nada pedia de melhor que
adquirir na sra. de Bargeton uma espécie de dama de honor, uma escrava
para cantar em seu louvor, tesouro muito mais raro entre as mulheres de
Paris que um crítico devotado no mundo literário. O movimento de
curiosidade se fazia, entretanto, visível demais para que a recém-chegada
não o percebesse, e a sra. d’Espard quis polidamente enganá-la quanto ao
motivo daquela agitação.
— Se nos vierem visitas — disse-lhe — saberemos talvez a que devemos a
honra de termos a atenção dessas senhoras...
— Desconfio muito que meu velho vestido de veludo e meu aspecto
provinciano divirtam as parisienses — disse rindo a sra. de Bargeton.
— Não, não se trata de você, há qualquer coisa que não estou
compreendendo — acrescentou ela olhando para o poeta, que observou pela
primeira vez e que pareceu achar singularmente vestido.
— Ali está o sr. du Châtelet — disse naquele momento Luciano,
levantando o dedo para mostrar o camarote da sra. de Sérisy, onde o velho
casquilho remoçado acabava de entrar. Àquele gesto, a sra. de Bargeton mordeu os lábios de despeito, porque a marquesa não pôde reter um olhar e
um sorriso de espanto, que dizia desdenhosamente: “De onde saiu este
rapaz?”. Luísa sentiu-se humilhada em seu amor, a sensação mais pungente
para uma francesa, e que não perdoa ao amante lhe ter causado. Nesse
mundo em que as pequenas coisas se tornam grandes, um gesto, uma
palavra perde um estreante. O mérito principal das belas maneiras e do
bom-tom da alta sociedade é oferecer um todo harmonioso onde tudo se
combina tão bem que nada choca. Aqueles mesmos que, já por ignorância, já
por um assomo qualquer do pensamento, não observarem as leis dessa
ciência, compreenderão logo que, em tal matéria, uma única dissonância é,
como na música, uma negação completa da própria arte, cujas regras devem
ser todas observadas nas menores coisas, sob pena de não existir.
— Quem é aquele senhor? — perguntou a marquesa, mostrando Du
Châtelet. — Você já conhece a sra. de Sérisy?
— Ah! aquela é a famosa sra. de Sérisy que tantas aventuras tem tido e
que, no entanto, é por todos recebida!
— Uma coisa inaudita, minha querida — respondeu a marquesa —, uma
coisa explicável, mas inexplicada! Os homens mais temíveis são seus amigos,
e por quê? Ninguém ousa sondar esse mistério. Aquele senhor é então o leão
de Angoulême?
— O sr. barão du Châtelet — disse Anaïs, que, por vaidade, concedia em
Paris o título que contestava ao seu adorador — é um homem de quem se
falou muito. Foi companheiro do sr. de Montriveau.
— Ah! — observou a marquesa —, nunca ouço esse nome sem pensar na
pobre duquesa de Langeais, que desapareceu como uma estrela cadente.
[102] Ali estão — tornou ela indicando outro camarote — o sr. de Rastignac e
a sra. de Nucingen,[103] mulher de um provedor real, banqueiro, homem de
negócios, adeleiro em grande escala, homem que se impõe à sociedade de
Paris por sua fortuna, e que dizem pouco escrupuloso quanto aos meios de
aumentá-la; faz os maiores esforços para que se acredite no seu
devotamento aos Bourbon. Já tentou vir à minha casa. Ocupando o
camarote da sra. de Langeais, sua mulher pensou que teria também a graça,
o espírito e o êxito dela! Sempre a fábula do gaio a se enfeitar com penas de
pavão!
— Como podem o sr. e a sra. de Rastignac, que sabemos não terem
sequer mil escudos de renda, sustentar o filho em Paris? — perguntou
Luciano à sra. de Bargeton, admirado com a elegância e o luxo que revelava
o traje do rapaz.
— Vê-se logo que vem de Angoulême — respondeu a marquesa com
grande ironia, sem afastar a luneta de teatro.
Luciano não compreendeu. Prestava atenção ao aspecto dos camarotes,
adivinhando os julgamentos que ali se faziam sobre a sra. de Bargeton e a
curiosidade da qual ele próprio era objeto. Luísa, por sua vez, sentia-se
singularmente mortificada pelo pouco valor que a marquesa dava à beleza
de Luciano.
— Não será tão belo como eu julgava? — murmurava ela. Daí a achá-lo
menos inteligente não havia senão um passo.
O pano baixara. Du Châtelet, que viera fazer uma visita ao camarote da
duquesa de Carigliano, vizinho do da sra. d’Espard, saudou a sra. de
Bargeton, que respondeu com uma inclinação de cabeça. Uma mulher da
sociedade tudo vê, e a marquesa notou a perfeita apresentação de Du
Châtelet.
Quatro pessoas entraram sucessivamente, naquele instante, no camarote
da marquesa, quatro celebridades parisienses. O primeiro era o sr. de Marsay,
[104] homem famoso pelas paixões que inspirava, notável sobretudo por
uma beleza de moça, mole, efeminada, mas corrigida por um olhar fixo,
calmo, selvagem e duro como o de um tigre; apreciavam-no, e ele aterrava.
Luciano era tão belo como o outro; mas seu olhar era tão doce, seus olhos
azuis eram tão límpidos que ele não parecia capaz de possuir aquela força e
aquele poder pelos quais se encantam tantas mulheres. Nada, aliás,
valorizava ainda o poeta, enquanto De Marsay possuía uma atração de
espírito, uma certeza de agradar, uma indumentária apropriada ao seu tipo
que esmagava em torno todos os rivais. Julgai o que poderia ser a seu lado
Luciano, empertigado, engomado, rígido e novo como suas roupas. De
Marsay conquistara o direito de dizer impertinências pelo espírito que lhes
dava e pela graça dos gestos com que as acompanhava. O acolhimento da
marquesa indicou imediatamente à sra. de Bargeton o poder daquele
personagem. O segundo era um dos De Vandenesse,[105] o que causara o escândalo de lady Dudley, um rapaz doce, inteligente, modesto, que
triunfava justamente pelas qualidades opostas àquelas que faziam a glória de
De Marsay, e que a prima da marquesa, sra. de Mortsauf, havia-lhe
ardentemente recomendado. O terceiro era o general Montriveau, o autor
da perda da duquesa de Langeais. O quarto era o sr. de Canalis,[106] um dos
mais ilustres poetas da época, rapaz ainda na alvorada da glória e que, mais
orgulhoso de ser gentil-homem que grande poeta, mostrava-se servidor
atento da sra. d’Espard, para esconder sua paixão pela duquesa de
Chaulieu. Adivinhava-se, apesar de sua graça já contaminada pela afetação,
a imensa ambição que mais tarde o lançaria aos embates da vida política. Sua
beleza, quase melindrosa, seus modos acariciantes mal disfarçavam um
egoísmo profundo e os cálculos permanentes de uma existência ainda
problemática; mas a escolha que fizera da sra. de Chaulieu, mulher de
quarenta anos feitos, valia-lhe nessa ocasião os favores da Corte, os aplausos
do Faubourg Saint-Germain e as injúrias dos liberais, que o chamavam de
poeta de sacristia.
Ao ver aquelas quatro figuras tão notáveis, a sra. de Bargeton teve a
explicação da pouca atenção concedida a Luciano pela marquesa. Depois,
quando a palestra se generalizou, quando cada um desses espíritos tão finos,
tão delicados, se revelou por traços que tinham mais sentido, mais
profundeza do que tudo o que Anaïs ouvia durante um mês na província;
sobretudo quando o grande poeta fez ouvir palavras vibrantes em que se
encontrava o espírito positivo daquela época, mas redourado de poesia,
Luísa compreendeu o que Du Châtelet lhe dissera na véspera: Luciano não
era mais nada. Olhavam todos para o pobre desconhecido com uma
indiferença tão cruel, ele tanto parecia ali um estrangeiro que
desconhecesse a língua, que a marquesa teve piedade dele.
— Permita-me — disse ela a Canalis — que lhe apresente o sr. de
Rubempré. Ocupa o senhor uma posição bastante alta no mundo literário
para não dar acolhida a um estreante. O sr. de Rubempré chega de
Angoulême; terá sem dúvida necessidade de sua proteção junto àqueles que
põem aqui o gênio em evidência. Não tem ainda inimigos que lhe possam
proporcionar fortuna, atacando-o. Não é uma empresa originalíssima a ser
tentada, fazê-lo obter pela amizade o que o senhor consegue pelo ódio?
As quatro personagens olharam então para Luciano enquanto a
marquesa falava. Apesar de se achar a dois passos apenas do recém-chegado,
De Marsay tomou a luneta para vê-lo. Seu olhar ia de Luciano à sra. de
Bargeton e da sra. de Bargeton a Luciano, emparelhando-os num
pensamento zombeteiro que mortificou cruelmente tanto a um como ao
outro; examinava-os como a dois animais curiosos, e sorria. Esse sorriso foi
como uma punhalada para o grande homem da província. Félix de
Vandenesse assumiu um ar de piedade. Montriveau lançou sobre Luciano
um olhar que o sondava até à medula.
— Senhora — disse o sr. de Canalis, inclinando-se —, eu lhe obedecerei,
apesar do interesse pessoal que nos leva a jamais favorecer um rival; mas a
senhora já nos habituou aos milagres.
— Muito bem! Dê-me então o prazer de jantar segunda-feira em minha
casa com o sr. de Rubempré. Conversarão mais à vontade do que aqui sobre
assuntos literários; tratarei de reunir alguns dos tiranos da literatura e as
celebridades que a protegem, a autora de Ourika[107] e alguns jovens
poetas inteligentes.
— Senhora marquesa — disse De Marsay —, se protege este senhor por
sua inteligência, eu o protegerei por sua beleza; dar-lhe-ei conselhos que o
farão o mais feliz janota de Paris. Depois disso, será poeta se quiser.
A sra. de Bargeton agradeceu à prima com um olhar cheio de
reconhecimento.
— Não sabia que tinha ciúmes dos intelectuais — disse Montriveau a De
Marsay. — A felicidade mata os poetas.
— É por isso que pensa em casar? — tornou o elegante, dirigindo-se a
Canalis, a fim de ver se a sra. d’Espard se sentia atingida por essas palavras.
Canalis alçou as espáduas, e a sra. d’Espard, amiga da sra. de Chaulieu,
pôs-se a rir. Luciano, que se sentia naquelas roupas como uma múmia
egípcia no seu ataúde, estava envergonhado por nada ter respondido.
Afinal, disse com sua voz terna à marquesa:
— Sua bondade, senhora, condena-me a ter somente êxitos.
Du Châtelet entrou nesse instante, agarrando pelos cabelos a ocasião de
se fazer apoiar junto à marquesa por Montriveau, um dos reis de Paris.
Saudou a sra. de Bargeton e pediu à sra. d’Espard que lhe perdoasse a liberdade que tomara de invadir o seu camarote: estava separado há tanto
tempo de seu companheiro de viagem! Ele e Montriveau se reviam pela
primeira vez depois de se haverem separado em meio do deserto.
— Separar-se no deserto e reencontrar-se na Opéra! — disse Luciano.
— É um verdadeiro reconhecimento de teatro — observou Canalis.
Montriveau apresentou o barão du Châtelet à marquesa e esta fez ao
antigo secretário particular da alteza imperial um acolhimento tanto mais
lisonjeiro quanto o havia visto já bem recebido em três camarotes, inclusive
no da sra. de Sérisy, que não admitia senão pessoas bem colocadas, e porque,
enfim, era companheiro de Montriveau. Este último motivo tinha tão grande
valor que a sra. de Bargeton pôde notar no tom, nos olhares e nos modos dos
quatro personagens que eles reconheciam em Du Châtelet, sem discussão,
um de seus pares. O procedimento sultanesco de Du Châtelet na província
foi repentinamente explicado a Naïs. Du Châtelet viu enfim Luciano e lhe
fez um desses pequenos cumprimentos secos e frios pelos quais um homem
desconsidera outro, indicando ao mundo o ínfimo lugar que este ocupa na
sociedade. Acompanhou a saudação com um ar sardônico que parecia dizer: