A Comédia Humana 7: Ilusões Perdidas

Honoré de Balzac · Capítulo 4 de 6 · parte 3/6

Páginas do PDF

A Comédia Humana 7: Ilusões Perdidas

Primeira Parte • os Dois Poetas

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

ficava a seu lado. O sr. du Châtelet ocupou uma poltrona. Luciano percebeu

então que estavam sós. A conversação da sra. de Bargeton foi embriagante para o poeta do Houmeau. As três horas passadas junto dela foram para

Luciano um desses sonhos que a gente desejaria tornar eternos. Achou-a

uma mulher antes emagrecida do que magra, amorosa sem amor, doentia

apesar de sua força; seus defeitos, que suas maneiras exageravam,

agradaram-lhe, porque os moços começam por amar a exageração, essa

mentira das almas belas. Não notou as faces sem frescura, ásperas nos

pômulos, às quais o tédio e alguns sofrimentos haviam dado uma coloração

de tijolo. Sua imaginação apossou-se daqueles olhos de fogo, daqueles

elegantes anéis de cabelo onde cintilava a luz, daquela esplêndida brancura,

pontos luminosos aos quais ele se prendeu como uma borboleta atraída pelas

lâmpadas. Depois, aquela alma falou muito à sua para que ele pudesse julgar

a mulher.

O encanto daquela exaltação feminina, o calor das frases um pouco

velhas que ela repetia há muito tempo, mas que lhe pareceram novas,

fascinaram-no tanto mais quanto ele desejava achar tudo bem. Ele não

levava poesias para ler; mas não se falou nisto: havia esquecido seus versos

para ter o direito de voltar; a sra. de Bargeton, aliás, nada dissera nesse

primeiro encontro, para o levar a fazer-lhe qualquer leitura noutra ocasião.

Não era já isso um primeiro entendimento entre ambos?

O sr. Sixto du Châtelet sentiu-se descontente com essa recepção. Já

tarde, percebeu um rival naquele belo rapaz, que reconduziu até a volta da

primeira rampa abaixo de Beaulieu, com o fito de submetê-lo à sua

diplomacia.

Luciano ficou bastante assombrado ao ouvir o diretor das contribuições

indiretas gabar-se de o haver introduzido, e, a esse título, dar-lhe conselhos.

Prouvesse a Deus que o rapaz fosse mais bem tratado do que ele, dizia o

sr. du Châtelet. A corte era menos impertinente que essa sociedade de

basbaques. Recebiam-se ali feridas mortais, tragavam-se espantosos desdéns.

A revolução de 1789 recomeçaria se essa gente não se reformasse. Quanto a

ele, se continuava a ir a tal casa, era por gostar da sra. de Bargeton, a única

mulher um pouco correta que havia em Angoulême, à qual começara a fazer

a corte por passatempo e de quem viera tornar-se loucamente enamorado.

Em breve a possuiria; era amado, tudo o demonstrava. A submissão dessa

orgulhosa rainha seria a única vingança que ele haveria de tirar daquela néscia ninhada de fidalgotes.

Du Châtelet pintava sua paixão como capaz de matar um rival, se o

encontrasse.

A velha borboleta imperial abateu-se com todo o seu peso sobre o pobre

poeta, tentando esmagá-lo sob a sua importância e amedrontá-lo.

Engrandecia-se contando, exagerados, os perigos de sua viagem; mas, se

assim se impôs à imaginação do poeta, não assustou o amante.

Depois dessa noite, apesar do velho fátuo, apesar de suas ameaças e do

seu jeito de espadachim burguês, Luciano voltou à casa da sra. de Bargeton.

A princípio, com a discrição de um homem do Houmeau; depois,

familiarizado de pronto com o que lhe parecera no começo um grande favor,

vinha vê-la cada vez mais frequentemente.

O filho do farmacêutico foi julgado pelas pessoas de tal sociedade como

criatura inofensiva. Nos primeiros tempos, se algum gentil-homem ou

algumas senhoras em visita a Naïs encontravam Luciano, tinham todos para

com ele a deprimente polidez usada pelas pessoas bem-nascidas para com os

inferiores.

Luciano achou, a princípio, muito graciosas todas essas pessoas; mais

tarde, porém, percebeu o sentimento de que provinham aquelas falaciosas

atenções. Em breve surpreendeu alguns ares protetores, que revoltaram sua

bílis e o confirmaram nas odiosas ideias republicanas graças às quais muitos

futuros aristocratas preludiam na alta sociedade. Mas que sofrimentos não

suportaria ele por Naïs, a quem ele ouvia chamar assim, porque entre eles, os

íntimos desse clã, como os grandes de Espanha e os personagens da nata em

Viena, tratavam-se, homens e mulheres, pelo primeiro nome, última sutileza

inventada para criar uma distinção no seio da própria aristocracia de

Angoulême.

Naïs foi amada como todo o jovem ama a primeira mulher que o lisonjeia,

pois Naïs prognosticava grande futuro, uma glória imensa para Luciano. A

sra. de Bargeton usou de toda a sua habilidade para estabelecer na própria

casa o seu poeta: não somente o exaltava sem medida, mas o apresentava

como um menino sem fortuna que desejava colocar; fazia-o mais criança

para olhar por ele; fazia dele seu leitor, seu secretário; mas amava-o mais do

que acreditava poder amar depois do terrível desgosto por que passara. Acusava-se muito, interiormente; dizia consigo que seria uma loucura amar

um rapaz de vinte anos, que tão longe dela estava por sua própria posição.

Suas familiaridades eram caprichosamente desmentidas pelo orgulho

inspirado por seus escrúpulos. Mostrava-se alternativamente altaneira e

protetora, meiga e lisonjeira. A princípio, intimidado pela alta posição dessa

mulher, Luciano passou por todos os terrores, esperanças e desesperos que

martelam o primeiro amor e o metem tão fundo dentro do coração com os

golpes dados ora pela dor, ora pelo prazer. Durante dois meses viu nela uma

benfeitora que iria ocupar-se dele maternalmente. Mas as confidências

começaram. A sra. de Bargeton passou a chamar o seu poeta de querido

Luciano; depois, de querido, simplesmente. O poeta, afoitando-se, chamou

de Naïs a grande dama. Ouvindo-o dar-lhe esse nome, teve ela uma dessas

cóleras que tanto seduzem as crianças; censurou-o por lhe dar o tratamento

usado por toda a gente. A orgulhosa e nobre Nègrepelisse ofereceu ao belo

anjo aquele de seus nomes que era ainda intato; quis ser Luísa para ele.

Luciano atingiu o terceiro céu do amor.

Uma tarde, tendo Luciano entrado enquanto Luísa contemplava um

retrato que guardou rapidamente, ele o quis ver. Para acalmar o desespero

de um primeiro acesso de ciúmes, Luísa mostrou-lhe o retrato do jovem De

Cante-Croix, e contou-lhe, não sem lágrimas, a história dolorosa de seus

amores, tão puros e tão cruelmente sufocados. Ensaiaria ela alguma

infidelidade para com o morto ou teria inventado fazer desse retrato um

rival para Luciano?

Luciano era muito jovem para analisar a amada; desesperou-se

ingenuamente, porque ela abrira a campanha durante a qual as mulheres

fazem com que sejam atacados escrúpulos mais ou menos engenhosamente

fortificados. Suas discussões sobre os deveres, sobre as conveniências, sobre a

religião, são como praças fortes que elas adoram ver tomar de assalto. O

inocente Luciano não precisava dessas provocações sedutoramente

femininas; teria guerreado espontaneamente.

— Não morrerei, viverei para a senhora — afirmou audaciosamente uma

tarde Luciano, que, desejando acabar com o sr. de Cante-Croix, lançou sobre

Luísa um olhar onde se estampava a paixão chegada a termo.

Assombrada com os progressos que o novo amor fazia nela e em seu poeta, pediu-lhe os versos prometidos para a primeira página do seu álbum,

buscando um motivo de querela na demora que ele punha em compô-los. E

o que não teria sentido ao ler as duas estrofes seguintes, que achou

naturalmente mais belas que as melhores de Canalis, poeta da aristocracia?

[48]

 

O mágico pincel, as musas embusteiras

Nem sempre adornarão estas folhas ligeiras

Com seu festivo encanto;

Mas a furtiva mão de minha bela ama

Muita vez me dirá sua secreta flama

Ou o seu mudo pranto.

 

Quando, velhinha, a estas páginas fanadas,

Ela vier indagar das coisas encantadas

Que o futuro lhe diz,

Queira então o Amor que a fecunda lembrança

Dessa viagem feliz

Seja doce de ver como um céu em bonança!

 

— Fui deveras eu quem as inspirei? — perguntou ela.

Essa desconfiança, causada pelo coquetismo de uma mulher que sentia

prazer em brincar com fogo, fez vir uma lágrima aos olhos de Luciano. Ela o

acalmou beijando-lhe a fronte pela primeira vez. Luciano era

decididamente o grande homem que ela queria formar; imaginou ensinar-

lhe o italiano e o alemão, e aprimorar-lhe as maneiras; encontrou nisso

pretextos para tê-lo constantemente em sua casa, nas barbas de seus

enfadonhos cortesãos. Que interesse em sua vida! Voltou-se de novo para a

música, pelo seu poeta, a quem revelou o mundo musical, tocou para ele

alguns belos trechos de Beethoven e o arrebatou; feliz com a sua alegria,

dizia-lhe hipocritamente ao vê-lo a ponto de desmaiar:

— Não nos poderíamos contentar com esta felicidade?

E o pobre poeta cometia a tolice de responder: — Sim.

As coisas chegaram, enfim, a tal ponto, que Luísa havia feito na semana

precedente Luciano jantar na intimidade, apenas com ela e o sr. de

Bargeton à mesa. Apesar dessa precaução, toda a cidade soube do fato e o

considerou tão exorbitante que cada qual se perguntava se seria mesmo

verdade. Fez-se um escarcéu terrível. A muitos, a sociedade pareceu em

vésperas de uma reviravolta. Outros gritavam: “Eis aí o fruto das doutrinas

liberais!”. O ciumento Du Châtelet soube então que a sra. Charlotte, que

cuidava das parturientes, era a sra. Chardon, mãe do Chateaubriand do

Houmeau, como ele dizia. Esse apelido foi considerado como muito

espirituoso. A sra. de Chandour foi a primeira a correr à casa da sra. de

Bargeton.

— Sabe, Naïs querida, o que toda Angoulême comenta? — disse-lhe. —

Esse pequeno poetastro é filho da sra. Charlotte, aquela que há dois meses

cuidou de minha cunhada, por ocasião do parto.

— Minha querida — disse a sra. de Bargeton assumindo ares

verdadeiramente reais —, que há de extraordinário nisso? Ela não é viúva de

um boticário? Triste destino para uma De Rubempré. Suponhamo-nos sem

um níquel... que faríamos nós para viver? Como alimentaria a senhora os seus

filhos?

O sangue-frio da sra. de Bargeton sufocou as lamentações da nobreza. As

almas grandes estão sempre dispostas a fazer de uma desgraça uma virtude.

Depois, na persistência em praticar uma boa ação que nos censuram

encontram-se invencíveis atrativos: a inocência tem o picante do vício.

Nessa noite o salão da sra. de Bargeton se encheu de amigos vindos para lhe

demonstrarem sua desaprovação. Ela desenvolveu então toda a causticidade

de seu espírito: disse que, se os gentis-homens não podiam ser nem Molière,

nem Racine, nem Rousseau, nem Voltaire, nem Massillon, nem

Beaumarchais, nem Diderot, era então preciso aceitar os lojistas, os

relojoeiros, os cuteleiros, cujos filhos conseguiam tornar-se grandes homens.

Afirmou que o gênio era sempre nobre. Censurou energicamente os

fidalgotes pelo pouco que entendem de seus verdadeiros interesses. Disse,

enfim, muitas tolices que teriam tornado tudo claro a pessoas menos tolas;

mas celebraram todas a sua originalidade. Conjurou a tempestade a tiros de

canhão. Quando Luciano, chamado por ela, entrou pela primeira vez no velho salão desbotado onde se jogava o uíste em quatro mesas, fez-lhe um

acolhimento gracioso e o apresentou como rainha que deseja ser obedecida.

Chamou o diretor de contribuições de “sr. du Châtelet”, e o deixou

petrificado, fazendo-o compreender que conhecia a ilegal superafetação de

sua partícula.

Luciano foi, desde essa noite, violentamente introduzido na sociedade

da sra. de Bargeton; foi, porém, aceito como uma substância venenosa que

cada qual promete a si mesmo que há de expulsar submetendo-as aos

reativos da impertinência. Apesar de seu triunfo, Naïs perdeu algo de seu

império: houve dissidentes que tentaram emigrar. Por conselho do sr. du

Châtelet, Amélia — sra. de Chandour — resolveu levantar altar contra altar,

recebendo em sua casa às quartas-feiras. A sra. de Bargeton abria os salões

todas as noites e as pessoas que vinham à sua casa eram tão rotineiras, tão

habituadas a se encontrarem diante dos mesmos tapetes, a jogar os mesmos

gamões, a ver as pessoas, as luzes, a pôr as capas, as galochas, os chapéus no

mesmo corredor, que amavam os degraus da escada tanto quanto a dona da

casa. Todos se resignaram a suportar o pintassilgo da selva sagrada, disse

Alexandre de Brébian, noutro dito de espírito.[49] Enfim, o presidente da

Sociedade de Agricultura apaziguou a sedição com uma observação

magistral:

— Antes da revolução — disse —, os mais nobres senhores recebiam

Duclos, Grimm, Crébillon,[50] todos pessoas que, como esse poetazinho do

Houmeau, eram inofensivos; mas não admitiam jamais os recebedores de

impostos, coisa de que não passa Du Châtelet.

Du Châtelet pagou por Chardon; todos lhe demonstraram frieza.

Sentindo-se atacado, o diretor de contribuições, que, desde o instante em

que fora chamado de Du Châtelet, jurara a si mesmo possuir a sra. de

Bargeton, passou a secundar os projetos da dona da casa; defendeu o jovem

poeta declarando-se seu amigo. Aquele grande diplomata de quem tão

desastradamente se havia privado o imperador lisonjeou Luciano, dizendo-

se seu camarada. Para lançar o poeta, deu um jantar a que compareceram o

prefeito, o recebedor geral, o coronel do regimento da guarnição, o diretor da

escola de marinha, o presidente do tribunal, enfim, todas as sumidades

administrativas. O pobre poeta foi festejado com tanto exagero que qualquer

outro que não fosse um rapaz de vinte e dois anos[51] teria concebido

veementes suspeitas de mistificação ao ouvir os louvores com que o

enganavam. À sobremesa, Du Châtelet fez o seu rival recitar uma ode a

Sardanapalo agonizante, a obra-prima do momento. Ouvindo-o, o diretor do

colégio, homem fleumático, bateu palmas afirmando que Jean-Baptiste

Rousseau[52] não teria feito melhor.

O barão Sixto du Châtelet imaginou que cedo ou tarde o pequeno

rimador rebentaria na fogueira dos louvores, ou que, na embriaguez da glória

antecipada, ele se permitisse algumas impertinências que o fariam voltar à

obscuridade primitiva. A esperar a morte desse gênio, ele fingiu imolar suas

pretensões aos pés da sra. de Bargeton; com a habilidade dos descarados,

havia sustido seu plano e seguia com atenção estratégica a marcha dos dois

amantes, espreitando a ocasião de exterminar Luciano. Elevou-se desde

então em Angoulême e pelos arredores um surdo rumor, que proclamava a

existência de um grande homem no Angoumois. A sra. de Bargeton era

geralmente louvada pelos cuidados que prodigalizava a essa jovem águia.

Uma vez aprovada sua conduta, quis ela obter uma sanção geral. Apregoou

pelo departamento um sarau com sorvetes, doces e chá, grande inovação

numa cidade onde o chá se vendia ainda nas farmácias, como droga

empregada contra as indigestões. A flor da aristocracia foi convidada para

ouvir uma grande obra que Luciano devia ler. Luísa ocultara ao amigo as

dificuldades vencidas mas confiou-lhe alguma coisa da conjuração formada

contra ele pela sociedade; não queria deixá-lo na ignorância dos perigos da

carreira que devem percorrer os homens de gênio, e na qual se encontram

obstáculos intransponíveis para as coragens medíocres. Fez dessa vitória uma

lição. Com suas brancas mãos, mostrou-lhe a glória comprada por contínuos

suplícios, falou-lhe da fogueira dos mártires a atravessar, pôs-lhe manteiga

em suas mais belas fatias, empenhando-se nas mais pomposas expressões.

Foi como que uma contrafação das improvisações que estragam o romance

de Corina.[53]

Luísa achou-se tão grande em sua eloquência que amou ainda mais o

Benjamin que lha inspirava; aconselhou-o a repudiar audaciosamente o pai,

passando a usar o nobre nome De Rubempré, sem se importar com a gritaria

levantada por uma troca que, de resto, o rei legitimaria. Aparentada com a marquesa d’Espard, uma nobre de Blamont-Chauvry, de grande prestígio na

Corte, ela se encarregaria de obter esse favor. A essas palavras — o rei, a

marquesa d’Espard, a Corte — Luciano viu como que um fogo de artifício, e

a necessidade desse batismo lhe pareceu provada.

— Caro jovem — disse-lhe Luísa com voz ternamente zombeteira —,

quanto mais cedo isso for feito, mais depressa será sancionado.

Enumerou uma por uma as camadas sucessivas da sociedade e fez o

poeta contar os degraus que escalaria de uma só vez por meio dessa hábil

resolução. Num momento, fez com que Luciano abjurasse suas ideias

plebeias sobre as quiméricas igualdades de 1793, reavivou nele a sede de

distinções que a fria razão de David havia amortecido, mostrou-lhe a alta

sociedade como o único palco sobre o qual ele se deveria manter. O

rancoroso liberal tornou-se monárquico in petto.[54] Luciano mordeu a

maçã do luxo aristocrático e da glória. Jurou depor aos pés de sua dama uma

coroa, mesmo que fosse ensanguentada; conquistá-la-ia a qualquer preço,

quibuscumque viis.[55] Para provar-lhe sua coragem, contou a Luísa

sofrimentos que lhe ocultara, levado por esse indefinível pudor que faz parte

dos primeiros sentimentos e que impede o jovem de estadear grandezas, de

tanto que gosta de ver apreciada sua alma em seu incógnito. Pintou os

apertos da miséria suportada com orgulho, seus trabalhos em casa de David,

as noites empregadas no estudo. Esse ardor jovem recordou à sra. de

Bargeton o coronel de vinte e seis anos; seus olhos se umedeceram. Vendo a

fraqueza apossar-se de sua imponente amada, Luciano tomou-lhe uma das

mãos, que ela lhe abandonou, e a beijou com fúria de poeta, de jovem e de

amante.

Luísa chegou a ponto de permitir ao filho do boticário atingir sua fronte

e nela imprimir os lábios palpitantes.

— Criança! criança! se nos vissem, como me julgariam ridícula! — disse

ela, acordando de um torpor extático.

Nessa noite, a inteligência da sra. de Bargeton fez grandes estragos no

que ela chamava os preconceitos de Luciano. Segundo ela, os homens de

gênio não tinham nem irmãos nem irmãs, nem pais nem mães; as grandes

obras que deviam edificar impunham-lhes um aparente egoísmo, obrigando-

os a tudo sacrificar à sua grandeza. Se a família sofria a princípio as devorantes exigências cobradas por um cérebro gigantesco, mais tarde

recebia centuplicadamente o preço dos sacrifícios de todo o gênero exigidos

pelas primeiras lutas de uma realeza contrariada, compartilhando os frutos

da vitória. O gênio não dependia senão de si mesmo; era o único juiz de seus

meios, porque somente ele conhecia os próprios fins: devia, pois, colocar-se

acima das leis, visto que era chamado a refazê-las; aliás, quem dá nome a um

século pode de tudo apossar-se e tudo arriscar, porque tudo lhe pertence.

Citava o começo da vida de Bernard Palissy, de Luís xi, de Fox, de Napoleão,

de Cristóvão Colombo, de César,[56] de todos os ilustres aventureiros, a

princípio crivados de dívidas ou miseráveis, incompreendidos, tidos por

loucos, por maus filhos, maus pais, maus irmãos, mas que mais tarde se

tornavam o orgulho da família, do país, do mundo. Esses arrazoados

condiziam com os vícios secretos de Luciano e lhe agravavam a corrupção da

alma, porque, no ardor de seus desejos, ele admitia os meios a priori. Não

triunfar, porém, é um crime de lesa-majestade social. Não fora então um

vencido quem golpeara todas as virtudes burguesas sobre as quais repousa a

sociedade que repele com horror os Mários[57] assentados diante de suas

ruínas? Luciano, que não se sabia entre a infâmia das galés e as palmas do

gênio, planava sobre o Sinai dos profetas sem ver, na depressão do Mar

Morto, o horrível sudário de Gomorra.

Luísa desenfreou tão bem o coração e a alma de seu poeta das faixas

com que o envolvera a vida de província que Luciano quis pôr à prova a sra.

de Bargeton, a fim de saber se podia, sem se expor à vergonha de uma

recusa, conquistar essa alta presa. A recepção anunciada deu-lhe ocasião

para essa prova. A ambição, nele, se misturava ao amor. Amava e queria

elevar-se, duplo desejo bem natural nos jovens que têm um coração a

satisfazer e uma indigência a combater. Convidando em nossos dias todos

esses moços para um mesmo festim, a sociedade acorda suas ambições desde

a manhã da vida. Despoja a mocidade de suas graças e vicia a maior parte de

seus sentimentos generosos neles misturando o cálculo. A poesia desejaria

que fosse de outro modo; mas os fatos vêm tão frequentemente desmentir a

ficção em que se desejaria crer que não nos podemos permitir imaginar o

jovem de maneira diversa daquela que ele tem neste século xix. O cálculo de

Luciano lhe parecia feito em proveito de um belo sentimento: a sua amizade por David.

Luciano escreveu uma longa carta à sua Luísa, porque se achava mais

ousado com a pena na mão do que com a palavra nos lábios. Em doze folhas

três vezes recopiadas, narrou-lhe o talento genial do pai, suas esperanças

perdidas e a miséria horrível que enfrentava. Pintou sua irmã querida como

um anjo e David como um futuro Cuvier[58] que, antes de ser um grande

homem, era para ele um pai, um irmão, um amigo; acreditar-se-ia indigno

de ser amado por Luísa se, como primeira graça, não lhe pedisse que fizesse

também para David o que estava fazendo para ele. Renunciaria a tudo,

antes que trair David Séchard, queria que David assistisse ao seu sucesso.

Escreveu uma dessas cartas loucas nas quais os moços opõem a pistola a uma

recusa, em que voltam ao casuísmo da infância, em que só fala a lógica

insensata das belas almas; delicioso palavreado bordado dessas declarações

ingênuas escapadas ao coração à revelia do escritor, e que tanto aprazem às

mulheres. Depois de entregar a carta à criada, Luciano fora passar a manhã

a corrigir provas, a dirigir alguns trabalhos, a pôr em ordem os pequenos

negócios da tipografia, sem nada dizer a David. Na época em que o coração é

ainda criança, os moços têm dessas sublimes distrações. Além disso, talvez

Luciano começasse a temer a acha de Fócion, que David sabia manejar;

receava talvez a lucidez de um olhar que fosse ao fundo d’alma. Depois da

leitura de Chénier, seu segredo havia passado do coração para os lábios,

atingido pela exprobração que sentia como o dedo que o médico põe numa

ferida.

Imaginai agora os pensamentos que deviam ter assaltado Luciano

enquanto descia de Angoulême para o Houmeau. A grande dama não se

teria zangado? Iria receber David em sua casa? O ambicioso não seria jogado

ao seu buraco do Houmeau? Embora, antes de beijar Luísa na fronte,

Luciano tivesse podido medir a distância que separa uma rainha de seu

favorito, não via como David não pudesse franquear num piscar de olhos o

espaço que ele levara cinco meses a percorrer. Ignorando o quanto era

absoluto o ostracismo pronunciado sobre os humildes, não sabia que uma

segunda tentativa desse gênero seria a perda da sra. de Bargeton. Acusada

de se haver plebeizado, Luísa seria obrigada, uma vez isso comprovado, a

deixar a cidade onde os de sua casta fugiriam dela como na Idade Média se fugia de um leproso. O clã da fina aristocracia e o próprio clero defenderiam

Naïs contra tudo e contra todos, caso ela se permitisse cometer uma falta;

mas o crime de estar em má companhia jamais lhe seria perdoado; porque,

se se escusam as faltas do poderoso, ele é condenado após a abdicação. Ora,

receber David não era acaso abdicar?

Se Luciano não chegava a perceber esse lado da questão, seu instinto

aristocrático lhe fazia pressentir muitas outras dificuldades que o

apavoravam. A nobreza de sentimentos não dá indefectivelmente a nobreza

de maneiras. Se Racine tinha ares de nobre cortesão, Corneille parecia-se

extraordinariamente com um vendedor de bois. Descartes tinha a aparência

de um bom negociante holandês. Muitas vezes, encontrando Montesquieu

com seu ancinho ao ombro, seu boné de noite à cabeça, os visitantes de

Brêde o tomavam por um vulgar jardineiro. A polidez mundana, quando não

é um dom do alto nascimento, uma ciência bebida com o leite ou

transmitida pelo sangue, constitui uma educação que o acaso deve secundar

com uma certa elegância de formas, com uma distinção nos traços, com um

timbre de voz. Todas essas grandes pequenas coisas faltavam a David,

enquanto delas a natureza havia dotado seu amigo. Nobre por parte de sua

mãe, Luciano possuía até mesmo o pé alto e arqueado do franco, enquanto

David Séchard tinha os pés chatos do camponês e o cachaço vulgar do pai, o

impressor.

Luciano ouvia de antemão as zombarias que iriam chover sobre David,

parecia-lhe ver o sorriso que a sra. de Bargeton reprimiria. Enfim, sem sentir

precisamente vergonha de seu irmão, tomava consigo mesmo o compromisso

de não mais seguir, assim, o seu primeiro impulso, e de, antes, discuti-lo no

futuro. Portanto, após a hora da poesia e do devotamento, após a leitura que

acabava de mostrar aos dois amigos as campanhas literárias iluminadas por

um novo sol, soava para Luciano a hora da política e dos cálculos. De volta ao

Houmeau arrependia-se de sua carta, desejaria retomá-la; percebia, num

relance, as impiedosas leis do mundo. Adivinhando o quanto a fortuna

adquirida favorecia a ambição, custava-lhe retirar o pé do primeiro degrau

da escada pela qual deveria subir ao assalto das grandezas.

Depois, as imagens da vida simples e tranquila, embelezada pelas mais

belas flores do sentimento; esse David cheio de gênio que o havia tão nobremente ajudado, que lhe daria sua vida se necessário fosse; sua mãe, tão

perfeita grande dama em sua humilhação, e que o julgava tão bom como

inteligente; sua irmã, essa menina tão graciosa na resignação, sua infância

tão pura e sua consciência ainda clara; suas esperanças, que nenhuma

tempestade havia desfolhado, tudo refloria em sua lembrança. Pensava

então que era mais belo transpor os espessos batalhões da turba aristocrática

ou burguesa a golpes de ousadia do que triunfar pelos favores de uma

mulher. Seu gênio brilharia cedo ou tarde como o de tantos homens, seus

predecessores, que haviam dominado a sociedade.; as mulheres o amariam

então! O exemplo de Napoleão, tão fatal no século xix pelas pretensões que

inspira a tanta gente medíocre, apareceu a Luciano, que lançou seus

cálculos ao vento, censurando-os consigo mesmo. Luciano era assim, ia do

mal ao bem e do bem ao mal com igual facilidade. Em lugar do amor que o

sábio leva ao afastar-se, Luciano sentia já havia um mês certa vergonha ao

avistar a loja onde se lia em letras amarelas sobre fundo verde:

 

farmácia de postel, sucessor de chardon.

 

O nome de seu pai, escrito assim num local por onde passavam todos os

carros, feria-lhe os olhos. Aquela noite, em que franqueou sua porta ornada

de pequena grade com varões de mau gosto para apresentar-se em Beaulieu,

por entre os jovens mais elegantes da cidade alta, dando o braço à sra. de

Bargeton, havia estranhamente deplorado o desacordo que reconhecia entre

essa habitação e sua boa fortuna.

— Amar a sra. de Bargeton, possuí-la em breve, talvez, e morar neste

ninho de ratos! — murmurava, desembocando pela aleia no pequeno pátio

onde vários maços de ervas fervidas estavam expostos ao longo das paredes,

onde o aprendiz areava os caldeirões do laboratório, onde o sr. Postel, cingido

de um avental de preparador, uma colher de osso na mão, examinava um

produto químico, lançando ao mesmo tempo os olhos sobre a loja; e, se

olhava mais atentamente sua droga, tinha os ouvidos presos à campainha. O

cheiro da camomila, da menta, de várias plantas destiladas, enchia o pátio e

o modesto apartamento para onde se subia por uma dessas escadas retas,

chamadas escadas de moleiro, sem outro corrimão além de duas cordas. Em cima ficava o quarto único da mansarda onde morava Luciano.

— Bom dia, meu filhote — disse o sr. Postel, verdadeiro tipo do boticário

do interior. — Como vai a nossa saúdezinha? Acabo de fazer uma

experiência com melaço, mas seria preciso seu pai para encontrar o que

procuro. Era um famoso homem, aquele! Se eu possuísse o segredo dele

contra a gota, rolaríamos hoje, os dois, de carruagem!

Não se passava uma única semana sem que o farmacêutico, tão tolo

como bom homem, não desse uma punhalada em Luciano, falando-lhe na

fatal discrição que seu pai guardara sobre a descoberta.

— É uma grande desgraça — respondia brevemente Luciano, que

começava a achar o discípulo do pai prodigiosamente vulgar depois de o

haver tantas vezes abençoado, por ter o honesto Postel socorrido mais de

uma vez a viúva e os filhos de seu mestre.

— Então, que é que tens? — perguntou o sr. Postel, pondo a proveta

sobre a mesa do laboratório.

— Veio alguma carta para mim?

— Veio, sim, uma que cheira como um bálsamo! Está junto à minha

escrivaninha, sobre o balcão.

A carta da sra. de Bargeton misturada aos bocais da farmácia! Luciano se

arremessou para a botica.

— Apressa-te, Luciano! O jantar te espera há uma hora, ficará frio —

gritou docemente uma linda voz pela janela entreaberta. Luciano nem a

ouviu.

— O seu irmão está avariado, senhorita — disse Postel levantando o

nariz. Esse celibatário, tão semelhante a um pequeno tonel de aguardente,

sobre o qual a fantasia de um pintor tivesse feito uma cara gorda, bexigosa e

rubicunda, tomou, ao olhar para Eva, um ar cerimonioso e agradável, prova

de que seu pensamento era desposar a filha do seu predecessor, sem que

entretanto pudesse pôr fim ao combate que o amor e o interesse travavam

em seu coração. Assim, com frequência dizia a Luciano, sorrindo, a frase que

lhe repetiu quando o jovem tornou a passar por ele: — É maravilhosamente

bonita a sua irmã! Você não está mal também! Seu pai fazia tudo bem.

Eva era uma morena vistosa, de cabelos negros e olhos azuis. Ainda que

aparentasse sintomas de caráter viril, era doce, terna e devotada. Sua candura, sua ingenuidade, sua tranquila resignação a uma vida laboriosa,

sua modéstia que maledicência alguma atacava haviam seduzido David

Séchard. Por isso, desde sua primeira entrevista, uma muda e ingênua

paixão despertara neles, à alemã, sem manifestações fogosas nem

declarações apressadas. Cada um deles pensava secretamente no outro,

como se estivessem separados por algum marido ciumento a quem aquele

sentimento pudesse ofender. Ambos se escondiam de Luciano, a quem

talvez temessem causar algum desgosto.

David receava não agradar a Eva, que, por sua vez, se deixava levar pela

timidez da indigência. Uma verdadeira operária teria tido ousadia, mas a

menina bem-educada e empobrecida conformava-se com sua fortuna

adversa. Aparentemente modesta, mas na realidade orgulhosa, Eva não

queria correr atrás do filho de um homem que passava por endinheirado.

Nessa ocasião, as pessoas a par do valor crescente das propriedades

avaliavam em mais de oitenta mil francos o sítio de Marsac, sem contar as

terras que o velho Séchard, enriquecido pelas economias, feliz na colheita,

hábil nas vendas, deveria ajuntar-lhe espreitando as ocasiões. David era

talvez a única pessoa que nada sabia da fortuna do pai. Para ele, Marsac era

um cochicholo comprado em 1810 por quinze ou dezesseis mil francos,

aonde ia uma vez por ano pelo tempo das vindimas e onde seu pai o fazia

passear por entre as vinhas, gabando-lhe as colheitas que o impressor jamais

via, e com as quais bem pouco se importava. O amor do sábio habituado à

solidão, e que aumenta ainda os sentimentos exagerando-lhes as

dificuldades, precisaria ser encorajado; porque, para David, Eva era uma

mulher mais imponente do que o seria uma grande dama para um simples

escrevente.

Desajeitado e inquieto junto de seu ídolo, tão apressado por partir como

por chegar, o impressor continha sua paixão em vez de exprimi-la. Muitas

vezes, à noite, depois de haver forjado algum pretexto para consultar

Luciano, descia da Place du Mûrier até ao Houmeau, pela Porte Palet; mas,

ao atingir a porta verde de varões de ferro, fugia, temendo que já fosse muito

tarde ou que parecesse importuno a Eva, que sem dúvida estaria já deitada.

Apesar de esse grande amor não se revelar senão por pequenas coisas, Eva o

havia compreendido; sentia-se lisonjeada, sem orgulho, por se ver objeto de um profundo respeito estampado nos olhares, nas palavras, nas maneiras de

David; mas a maior sedução do impressor era seu fanatismo por Luciano:

havia adivinhado a melhor maneira de agradar a Eva.

Para dizer em que as mudas delícias desse amor diferiam das paixões

tumultuosas, seria preciso compará-lo às flores campestres contrapostas às

brilhantes flores dos canteiros. Eram olhares doces e delicados como os lótus

azuis que vogam sobre as águas, expressões fugitivas como o frágil perfume

da rosa brava, melancolias ternas como o veludo do musgo; flores de duas

belas almas nascidas de uma terra rica, fecunda e imutável. Eva havia

muitas vezes já adivinhado a força escondida sob essa fraqueza;

compreendia tão bem tudo o que David não ousava, que o mais ligeiro

incidente podia ocasionar uma mais íntima união de suas almas.

Luciano encontrou a porta aberta por Eva e sentou-se, sem nada lhe

dizer, a uma mesinha posta sobre um cavalete em forma de x, sem toalha,

onde seu talher havia sido posto. O pobre larzinho possuía apenas três

talheres de prata. Eva empregava-os todos para o irmão querido.

— Que estás lendo aí? — disse depois de haver posto na mesa um prato

que retirou do fogo e de haver apagado o fogareiro de brasas, cobrindo-o com

o abafador. Luciano não respondeu. Eva tomou um pratinho lindamente

arranjado com folhas de vinha e o pôs na mesa com uma tigela cheia de

creme.

— Olha, Luciano, tenho morangos para ti.

Luciano prestava tanta atenção à sua leitura que nada ouviu. Eva veio

então sentar-se perto dele, sem um murmúrio, porque faz parte do

sentimento de uma irmã pelo irmão um prazer imenso em ser tratada sem

cerimônias.

— Mas que tens? — exclamou, vendo brilharem lágrimas nos olhos do

irmão.

— Nada, nada, Eva — disse ele tomando-a pela cintura, puxando-a para

si, beijando-a na fronte, sobre os cabelos, depois no pescoço, com uma

efervescência surpreendente.

— Tu me escondes alguma coisa.

— Pois bem: ela me ama!

— Eu bem sabia que não era a mim que beijavas — disse num tom amuado a pobre irmã, corando.

— Seremos todos felizes! — disse Luciano engolindo a sopa a grandes

colheradas.

— Nós? — repetiu Eva. E, inspirada pelo mesmo pressentimento que se

apossara de David, acrescentou: — Tu vais nos querer menos!

— Como podes acreditar nisso, se me conheces?

Eva lhe estendeu a mão para apertar a sua; retirou depois o prato vazio,

a sopeira de barro castanho, e avançou o prato que havia preparado. Em vez

de comer, Luciano releu a carta da sra. de Bargeton, que a discreta Eva não

pediu para ver, tanto era o respeito que sentia pelo irmão: se ele desejasse

dá-la a conhecer, ela devia esperar; e, se o não desejasse, poderia exigi-lo?

Ela esperou. Eis a carta:

 

“Meu amigo, por que recusaria eu a seu irmão em ciência o apoio que

lhe prestei? A meus olhos, os talentos têm direitos iguais; mas ignora os

preconceitos das pessoas que compõem minha sociedade. Não faremos

com que reconheçam o enobrecimento do espírito aqueles que formam

a aristocracia da ignorância. Se eu não tiver poder bastante para lhes

impor o sr. David Séchard, eu lhe sacrificarei de bom grado essa pobre

gente. Será como uma hecatombe antiga. Mas, caro amigo, não há de

querer sem dúvida fazer-me aceitar a companhia de uma pessoa cuja

inteligência e maneiras poderiam não me ser agradáveis. Suas lisonjas

me ensinaram como a amizade se torna facilmente cega! Levar-me-ia

a mal que eu pusesse uma restrição ao meu consentimento? Desejo ver

seu amigo, julgá-lo, saber por mim mesma, no interesse de seu futuro,

se não se engana. Não será esse um dos cuidados maternais que deve

ter por você, meu caro poeta,

 

luísa de nègrepelisse?”

 

Luciano ignorava com que arte o “sim” se emprega na alta sociedade para

chegar ao “não”, e o “não” para chegar ao “sim”. Aquela carta constituiu um

triunfo para ele. David iria à casa da sra. de Bargeton, brilharia ali com a majestade do gênio. Na embriaguez que lhe causava uma vitória que lhe

fazia crer no poder de sua ascendência sobre os homens, tomou uma atitude

tão orgulhosa, tantas esperanças se refletiam sobre seu rosto comunicando-

lhe um brilho radioso, que a irmã não pôde deixar de lhe dizer que era belo.

— Se é inteligente, como deve te amar essa mulher! Entretanto, esta

noite ela se verá atormentada, porque todas as mulheres vão te fazer mil

agrados. Serás belo lendo o teu São João em Patmos! Quisera eu ser um

ratinho para me introduzir lá sorrateiramente. Vem, preparei tua roupa no

quarto de mamãe.

Era aquela peça de uma miséria decente. Ali se encontrava um leito de

nogueira, guarnecido de cortinas brancas, ao pé do qual se estendia um ralo

tapete verde. Uma cômoda de tampo de madeira, ornada de espelho, e

cadeiras de nogueira completavam o mobiliário.

Sobre a lareira, uma pêndula lembrava os dias da antiga abastança

desaparecida. A janela tinha cortinas brancas. As paredes eram forradas de

papel cinzento com flores cinzentas. Os ladrilhos lustrados e brunidos por

Eva brilhavam de limpeza. No centro do quarto havia um velador onde,

sobre uma bandeja vermelha de rosaças douradas, viam-se três taças e um

açucareiro de porcelana de Limoges. Eva dormia num gabinete contíguo que

só continha uma cama estreita, uma velha poltrona e uma mesa de trabalho

junto à janela. A exiguidade desse beliche de marinheiro exigia que a porta

de vidro ficasse sempre aberta, a fim de renovar o ar. Apesar da pobreza que

se revelava nas coisas, respirava ali a modéstia de uma vida estudiosa. Para os

que conheciam a mãe e os dois filhos, aquele espetáculo oferecia

enternecedoras harmonias.

Luciano punha a gravata quando o passo de David se fez ouvir no

pequeno pátio, e o impressor apareceu em seguida com o andar e os modos

de um homem que tem pressa de chegar.

— Olha, David — exclamou o ambicioso —, triunfamos! Ela me ama! Tu

irás.

— Não — disse o impressor, com ar confuso —, venho agradecer-te essa

prova de amizade que me levou a fazer sérias reflexões. Minha vida,

Luciano, está decidida. Sou David Séchard, impressor do rei em Angoulême,

e meu nome se lê sobre todos os muros embaixo dos editais. Para as pessoas dessa casta, sou um artesão, um negociante, se quiseres, mas um industrial

estabelecido com loja na Rue de Beaulieu, esquina da Place du Mûrier. Não

tenho ainda nem a fortuna de um Keller nem o renome de um Desplein,

[59] duas formas de poder que os nobres tentam ainda negar, mas que, e

nisto estou de acordo com eles, nada são sem a urbanidade e as maneiras de

um gentil-homem. De que modo poderia eu legitimar essa súbita elevação?

Zombariam de mim os burgueses tanto como os nobres. Tu, tu te encontras

numa situação diferente. Um chefe de oficina não tem compromisso algum.

Trabalhas para adquirir os conhecimentos indispensáveis ao triunfo, podes

explicar tuas ocupações atuais pelo teu futuro. Ademais, podes amanhã

empreender outra coisa, estudar direito, diplomacia, entrar para a

administração. Enfim, não és nem fichado nem classificado. Aproveita tua

virgindade social, segue sozinho e lança mão das honrarias! Saboreia

alegremente todos os prazeres, mesmo os que a vaidade oferece. Sê feliz, eu

gozarei teus sucessos, serás um segundo “eu mesmo”. Sim, meu pensamento

me fará viver tua vida. Para ti as festas, o esplendor da sociedade e as

rápidas engrenagens de suas intrigas. Para mim a vida sóbria, laboriosa do

comerciante e as lentas ocupações da ciência. Tu serás a nossa aristocracia —

disse olhando para Eva. — Quando tropeçares, encontrarás meu braço para

te suster. Se tiveres de te lamentar de alguma traição, poderás te refugiar em

nossos corações, onde encontrarás um amor inalterável. A proteção, o favor,

o beneplácito das criaturas, divididos entre duas cabeças, poderiam cansar-

se, ambos nos afogaríamos; segue na frente, tu nos rebocarás se for preciso.

Longe de te invejar, eu me consagro a ti. O que acabas de fazer por mim,

arriscando-te a perder tua benfeitora, tua amada, talvez, de preferência a

me abandonar, a me renegar, essa coisa tão simples e tão grande, Luciano,

ah! ela me ligaria a ti para sempre, se não fôssemos já como dois irmãos. Não

tenhas remorsos nem cuidados de parecer tomar a melhor parte. Essa

partilha à Montgommery[60] faz parte de meus gostos. Mesmo, enfim, que

me viesses a causar algum tormento, quem sabe se eu não seria sempre teu

devedor?

Dizendo estas palavras, ele arriscou o mais tímido dos olhares para Eva,

que tinha os olhos cheios de lágrimas, porque tudo adivinhava.

— Enfim — disse a Luciano assombrado —, tu és bem-feito, tens um lindo talhe, sabes vestir um traje, tens o ar de um gentil-homem na tua

casaca azul com botões amarelos, e com uma calça simples de nanquim; eu

teria o ar de um operário no meio dessa sociedade, ficaria desajeitado,

constrangido, diria tolices ou nada diria; tu, tu podes, para obedecer ao

preconceito dos nomes, tomar o de tua mãe, e te fazer chamar Luciano de

Rubempré; eu sou e serei sempre David Séchard. Tudo te serve e tudo me

prejudica na sociedade para onde vais. Foste feito para triunfar nela. As

mulheres hão de adorar teu rosto de anjo. Não é verdade, Eva?

Luciano saltou ao pescoço de David e o beijou. Aquela modéstia cortava

pela raiz muitas dúvidas, muitas dificuldades. Como não sentir dobrada

ternura por um homem que chegava a fazer por amizade as mesmas

reflexões que ele acabava de fazer por ambição? O ambicioso e o enamorado

sentiam a estrada aplainada, o coração do moço e do amante se expandiu.

Foi um desses momentos raros na vida em que todas as forças se tornam

docemente tensas, em que todas as cordas vibram produzindo um som

pleno. Mas aquela prudência duma bela alma excitava mais em Luciano a

tendência que induz o homem a julgar-se o centro de tudo. Todos nós

dizemos, mais ou menos como Luís xiv: “O Estado sou eu!”.

A exclusiva ternura de sua mãe e de sua irmã, o devotamento de David,

o hábito que tinha de se ver objeto dos esforços secretos desses três entes

comunicaram-lhe os vícios do filho-família, engendraram nele esse egoísmo

que devora o nobre e que a sra. de Bargeton acariciava incitando-o a

esquecer suas obrigações para com a irmã, a mãe e David. Nada era ainda;

mas não seria de temer que estendendo em torno de si o círculo de sua

ambição fosse obrigado a não contar senão consigo mesmo para nele se

manter?

Passada a emoção, David fez observar a Luciano que seu poema de São

João em Patmos era talvez muito bíblico para ser lido diante de pessoas para

quem a poesia apocalíptica deveria ser pouco familiar. Luciano, que se

apresentaria diante do público mais difícil de Charente, pareceu inquieto.

David aconselhou-o a levar André de Chénier, e a trocar um prazer duvidoso

por um prazer certo. Luciano lia com perfeição, agradaria necessariamente e

mostraria uma modéstia que sem dúvida lhe seria útil. Como a maior parte

dos jovens, eles atribuíam às pessoas da sociedade sua inteligência e suas virtudes. Se a juventude, que ainda não pecou, é sem indulgência para as

faltas dos outros, empresta-lhes também suas magníficas crenças. É preciso,

com efeito, haver experimentado bem a vida antes de reconhecer que,

segundo as belas palavras de Rafael, compreender é igualar. Em geral, o

senso necessário à compreensão da poesia é raro na França, onde a

inteligência prontamente seca o manancial das santas lágrimas do êxtase,

onde ninguém quer dar-se ao trabalho de decifrar o sublime, de sondá-lo

para perceber o infinito. Luciano ia fazer sua primeira experiência das

ignorâncias e das friezas mundanas! Passou pela casa de David para

apanhar o volume de poesia.

Ao ficarem a sós os dois namorados, David se viu mais embaraçado do

que em qualquer outro momento de sua vida. Presa de mil terrores, desejava

e temia um elogio, desejava fugir, porque o pudor tem também seu

coquetismo! O pobre enamorado não ousava dizer uma palavra que tivesse o

ar de esmolar um agradecimento: achava todas as palavras

comprometedoras e calava-se guardando uma atitude de criminoso. Eva,

que adivinhava as torturas daquela modéstia, comprouve-se em gozar

daquele silêncio; mas, quando David começou a dar voltas ao chapéu entre

as mãos para ir-se, ela sorriu.

— Sr. David — disse —, se não passa o serão em casa da sra. de Bargeton,

poderemos passá-lo juntos. Faz um belo tempo; quer ir passear ao longo do

Charente? Falaremos sobre Luciano.

David teve vontade de se prosternar diante da deliciosa jovem. Eva

havia posto no som de sua voz recompensas inesperadas; tinha, pela ternura

do acento, resolvido as dificuldades da situação; sua proposta era mais que

um elogio, era a primeira dádiva de amor.

— Somente — disse ela a um gesto de David — dê-me alguns momentos

para me vestir.

David, que jamais em sua vida havia sabido o que fosse uma ária, saiu

cantarolando, coisa que surpreendeu o honesto Postel e lhe inspirou

profundas suspeitas sobre as relações entre Eva e o impressor.

 

III – A NOITE NUM SALÃO

As menores circunstâncias dessa noite influíram muito sobre Luciano, a

quem seu caráter levara a dar ouvidos às primeiras impressões. Como todos

os enamorados inexperientes, chegou tão cedo que Luísa não se achava

ainda no salão. O sr. de Bargeton ali estava só. Luciano havia já começado a

aprendizagem das pequenas covardias pelas quais o amante de uma mulher

casada compra sua felicidade, e que dão às mulheres a medida do que

podem exigir; mas não se havia ainda encontrado face a face com o sr. de

Bargeton.

O gentil-homem era um desses espíritos acanhados, pacificamente

estabelecidos entre a ofensiva nulidade que ainda compreende e a orgulhosa

estupidez que nada quer dar e nada receber.

Compenetrado de seus deveres para com a sociedade e se esforçando

para lhe ser agradável, havia adotado um sorriso de dançarino como única

linguagem. Contente ou descontente, ele sorria. Sorria a uma notícia

desastrosa tanto quanto ao anúncio de um feliz acontecimento. Aquele

sorriso a tudo respondia segundo as expressões que lhe dava o sr. de

Bargeton. Se era absolutamente necessária uma aprovação direta, ele

reforçava o sorriso com um riso complacente, não soltando uma palavra

senão em última instância. Um colóquio íntimo fazia-lhe sentir o único

embaraço que complicava sua vida vegetativa; era então obrigado a procurar

alguma coisa na imensidão de seu vazio interior. A maior parte do tempo ele

saía de apuros retomando os ingênuos costumes de sua infância: pensava

alto, iniciava o ouvinte nos pormenores de sua vida; exprimia suas

necessidades, suas pequenas sensações, que, para ele, assemelhavam-se a

ideias. Não falava da chuva nem do bom tempo; não caía nos lugares-

comuns da conversação onde se refugiam os imbecis, voltava-se para os mais

íntimos interesses da vida. “Por complacência para com a sra. de Bargeton”,

dizia ele, “esta manhã comi vitela, de que ela tanto gosta, e meu estômago

me faz sofrer. Sei disso, e caio sempre! Como se pode explicar uma coisa

destas?” Ou então: “Vou tocar a campainha para pedir um copo de água

com açúcar; quer também um?”. Ou ainda: “Amanhã montarei a cavalo e

irei ver meu sogro”. Essas pequenas frases, que não exigiam discussão,

arrancavam um sim ou um não ao interlocutor, e a conversa caía.

O sr. de Bargeton implorava então a assistência de seu visitante torcendo o nariz de velho doguezinho asmático; olhava com seus grandes olhos

estrábicos com um jeito que significava: O que é que você disse?

Gostava dos cacetes empenhados em falar de si mesmos, escutava-os

com uma honesta e delicada atenção que o fazia tão precioso que os

tagarelas de Angoulême lhe atribuíam uma inteligência velhaca e

pretendiam que ele era mal julgado. Por isso, quando não tinham mais

ouvintes, essas pessoas vinham acabar suas narrações ou seus arrazoados

junto do gentil-homem, certos de encontrar um sorriso elogioso. Como o

salão de sua mulher se encontrasse sempre cheio, ele ali se achava

geralmente à vontade. Ocupava-se das mais insignificantes minúcias: olhava

quem entrasse, saudava sorrindo e conduzia à sua mulher o recém-chegado;

observava os que partiam e os acompanhava, acolhendo seus adeuses com

seu eterno sorriso. Quando a reunião estava animada e via cada um absorto

em seus interesses, o feliz mudo ficava plantado sobre as altas pernas como

uma cegonha sobre as patas, com o ar de quem escuta uma conversa sobre

política; ou vinha estudar as cartas de um jogador sem nada compreender,

porque não conhecia jogo algum; ou então passeava aspirando seu rapé e

sofrendo a sua digestão. Anaïs era o lado formoso de sua vida e lhe dava

prazeres infinitos. Quando ela desempenhava seu papel de dona de casa,

ele se estendia numa poltrona, admirando-a, porque ela falava por ele: além

disso, constituía para ele um prazer procurar o espírito de suas frases, e,

como muitas vezes não as compreendia senão muito tempo depois de terem

sido ditas, permitia-se sorrisos que partiam como granadas enterradas que

explodissem. Aliás, seu respeito por ela ia até a adoração. Uma adoração

Continuar: parte 4 de 6