A Comédia Humana 7: Ilusões Perdidas

Honoré de Balzac · Capítulo 6 de 6 · parte 1/9

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A Comédia Humana 7: Ilusões Perdidas

Terceira Parte • os Sofrimentos do Inventor

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 9 partes.

 

TERCEIRA PARTE

 

OS SOFRIMENTOS DO INVENTOR

 

INTRODUÇÃO

 

I – TRISTE CONFISSÃO DE UM FILHO DO SÉCULO[379]

 

No dia seguinte, Luciano mandou visar o passaporte, comprou uma bengala

de azevinho, tomou na praça da Rue d’Enfer uma diligência que, por dez

sous, o deixou em Longjumeau. Como primeira etapa, pousou na estrebaria

de uma quinta, a duas léguas de Arpajon. Ao atingir Orléans, já se achava

bastante alquebrado, bastante exausto; mas, por três francos, um barqueiro o

transportou a Tours e, durante o trajeto, só gastou dois francos de alimento.

De Tours a Poitiers, caminhou durante cinco dias. Muito além de Poitiers,

não possuía mais que cem sous, mas reuniu um resto de forças para

prosseguir caminho. Uma vez, surpreendido pela noite em pleno campo,

resolvera dormir ao relento quando, ao fundo de uma baixada, viu uma

caleça que subia a encosta. Sem que o postilhão, os viajantes e um lacaio

postado à boleia o notassem, pôde alojar-se atrás entre dois fardos, e

adormeceu, acomodando-se de modo a resistir aos solavancos. De manhã,

despertado pelo sol que lhe feria os olhos e por um rumor de vozes,

reconheceu Mansle, aquela cidadezinha onde, dezoito meses antes, fora

esperar a sra. de Bargeton, com o coração cheio de amor, de esperança e de

alegria. Ao ver-se coberto de poeira, no meio de um círculo de curiosos e de postilhões, compreendeu que devia ser objeto de alguma acusação; ergueu-

se imediatamente e ia falar quando dois viajantes que apearam da caleça lhe

cortaram a palavra: viu o novo prefeito de Charente, o conde Sixto du

Châtelet, e sua esposa, Luísa de Nègrepelisse.

— Se soubéssemos que companheiro o acaso nos deu! — disse a

condessa. — Suba conosco, senhor.

Luciano saudou friamente aquele casal, lançando-lhe um olhar ao

mesmo tempo humilde e ameaçador, meteu-se por uma estrada transversal

adiante de Mansle, a fim de alcançar alguma granja onde pudesse almoçar

pão e leite, repousar e deliberar em silêncio sobre o futuro. Tinha ainda três

francos. O autor das Boninas, impelido pela febre, correu durante muito

tempo; desceu o curso do rio, examinando a disposição dos lugares, que se

tornavam cada vez mais pitorescos. Pelo meio-dia, atingiu um local onde o

lençol d’água, cercado de salgueiros, formava uma espécie de lago. Parou

para contemplar aquele fresco e espesso bosque, cuja graça campestre lhe

tocou a alma. Uma casa, pegada a um moinho assente num braço do rio,

mostrava entre os cimos das árvores o seu teto de colmo ornado de saião. A

singela fachada tinha como únicos ornamentos algumas moitas de jasmim,

madressilva e lúpulo, e em redor brilhavam as flores do flox e das mais

esplêndidas plantas carnosas. Sobre o empedrado retido por uma paliçada

grosseira, que mantinha a calçada acima das maiores cheias, avistou umas

redes estendidas ao sol. Patos nadavam no claro tanque que se encontrava

além do moinho, entre as duas correntes de água que marulhavam nas

comportas. O moinho fazia ouvir seu rumor irritante. Assentada num banco

rústico, o poeta avistou uma boa e gorda dona de casa que fazia tricô,

enquanto vigiava um menino que perseguia as galinhas.

— Minha boa comadre — disse Luciano, avançando —, estou muito

cansado, tenho febre, e só possuo três francos; não quer alimentar-me a broa

e leite e deixar-me dormir na palha durante uma semana? Nesse ínterim,

terei tempo para escrever a meus parentes que me mandarão dinheiro ou

virão procurar-me.

— Pois não! — disse ela —, contanto que meu marido consinta. Vem cá,

homenzinho!

O moleiro saiu, contemplou Luciano e tirou o cachimbo da boca para dizer:

— Três francos por uma semana? É o mesmo que não cobrar nada.

“Talvez termine ajudante de moleiro”, pensou o poeta, contemplando

aquela deliciosa paisagem, antes de se deitar no leito que lhe preparou a

moleira e onde dormiu de modo a assustar os hospedeiros.

— Courtois, vai ver se esse rapaz está morto ou vivo, já faz catorze horas

que está deitado, não me animo a ir até lá — disse a moleira no dia seguinte,

por volta do meio-dia.

— Creio — disse o moleiro à mulher, acabando de preparar sua rede e

petrechos de pesca — que esse lindo rapaz bem poderá ser algum bonifrate

de comediante, sem vintém.

— Por que dizes isso, homenzinho? — indagou a moleira.

— Ora! não é nem um príncipe nem um ministro, nem deputado nem

bispo; por que então as suas mãos são brancas como as de um homem que

não faz nada?

— É muito de espantar então que a fome não o desperte — disse a

moleira, que acabava de preparar um almoço para o hóspede que o acaso

lhes enviara na véspera. — Um ator? — tornou ela. — Aonde iria? Ainda não

é tempo de feira em Angoulême.

Nem o moleiro nem a moleira podiam imaginar que, além do ator, do

príncipe e do bispo, há um homem ao mesmo tempo príncipe e ator, um

homem revestido de um magnífico sacerdócio, o poeta, que parece não fazer

nada e que todavia reina sobre a humanidade, quando bem a sabe

interpretar.

— Quem será então? — disse Courtois à mulher.

— Haverá perigo em abrigá-lo? — perguntou a moleira.

— Qual! Os ladrões são mais sabidos do que esse; senão já estaríamos

roubados — tornou o moleiro.

— Não sou nem príncipe nem ladrão, nem bispo nem ator — disse

tristemente Luciano, que apareceu de súbito e que decerto ouvira pela

janela o colóquio do casal. — Sou um pobre rapaz cansado, vindo a pé de

Paris. Chamo-me Luciano de Rubempré e sou filho do sr. Chardon,

predecessor de Postel, farmacêutico do Houmeau. Minha irmã casou com

David Séchard, o impressor da Place du Mûrier em Angoulême.

— Espere! — exclamou o moleiro. — Esse impressor não é filho do velho

espertalhão que explora a sua propriedade de Marsac?

— Precisamente — respondeu Luciano.

— Que diabo de pai! — prosseguiu Courtois. — Dizem que faz vender

tudo o que o filho tem em casa, quando possui mais de duzentos mil francos

de bens, sem contar com o pé-de-meia.

Quando alma e corpo se alquebraram em longa e dolorosa luta, à hora

em que as forças são ultrapassadas e seguida da morte, ou de um

aniquilamento igual à morte, mas em que as naturezas capazes de resistir

recuperam então as forças, Luciano, sob uma crise desse gênero, pareceu

prestes a sucumbir no momento em que soube, embora vagamente, de uma

catástrofe acontecida a David Séchard, seu cunhado.

— Oh! minha irmã! — exclamou. — Que fiz eu, meu Deus? Sou um

infame.

Depois deixou-se cair num banco de madeira, com a prostração e a

palidez de um moribundo; a moleira apressou-se em trazer-lhe uma jarra de

leite, que o forçou a beber; mas ele rogou ao moleiro que o ajudasse a meter-

se no leito, pedindo-lhe perdão de lhe causar o incômodo de sua morte, pois

julgou que era chegado o último instante. Ao avistar o fantasma da morte,

aquele gracioso poeta foi tomado de ideias religiosas: quis chamar o cura,

confessar-se e receber os sacramentos. Tais queixumes, exalados em flébil voz

por um jovem de rosto encantador e tão bem-apessoado como Luciano,

comoveram vivamente a sra. Courtois.

— Anda, homenzinho, monta a cavalo e vai chamar o dr. Marron, o

médico de Marsac; ele verá o que tem esse rapaz, que não me parece em

bom estado, e trarás também o cura. Talvez saibam melhor do que tu o que

há com esse impressor da Place du Mûrier, visto que Postel é genro do dr.

Marron.

Depois que Courtois partiu, a moleira, convencida, como toda gente do

campo, de que doença exige alimentação, tratou de restaurar as forças de

Luciano, que obedeceu, entregue a violentos remorsos que o salvaram do

abatimento com a revulsão que produz essa espécie de tópico moral.

O moinho de Courtois achava-se a uma légua de Marsac, cabeça de

cantão, situado a meio caminho de Mansle e de Angoulême: assim, o bravo moleiro trouxe logo o médico e o cura de Marsac. Esses dois personagens

tinham ouvido falar da ligação de Luciano com a sra. de Bargeton e, como

todo o departamento de Charente falava naquele momento no consórcio

dessa dama e na sua volta a Angoulême com o novo prefeito, o conde Sixto

du Châtelet, ao saberem que Luciano se achava em casa do moleiro, o

médico e o cura sentiram fortes desejos de saber as razões que tinham

impedido a viúva do sr. de Bargeton de desposar o jovem poeta com quem

fugira, e informar-se se ele voltava à terra para socorrer ao seu cunhado,

David Séchard. A curiosidade, a humanidade, tudo se conjugava, pois, para

trazer pronto socorro ao poeta moribundo. Assim, duas horas depois da

partida de Courtois, Luciano ouviu na calçada do moinho o barulho de

ferragens que fazia o velho cabriolé do médico de aldeia. Os srs. Marron

apresentaram-se em seguida, pois o médico era sobrinho do cura, de modo

que Luciano via naquele momento pessoas tão ligadas ao pai de David

Séchard como o podem ser vizinhos num pequeno burgo vinhateiro. Depois

que examinou o moribundo, e lhe tomou o pulso e observou a língua, o

médico olhou para a moleira, sorrindo de modo a dissipar qualquer

inquietação.

— Se a senhora — disse ele — tem na adega, como não duvido, uma boa

garrafa de vinho e no tanque uma boa enguia, queira servi-las ao seu doente,

que sofre apenas de esgotamento. Feito isto, o nosso grande homem logo

estará de pé.

— Ah! senhor — disse Luciano —, o meu mal não é do corpo, mas da

alma, e essa boa gente me disse uma coisa que me matou, ao anunciar-me

catástrofes em casa de minha irmã, a sra. Séchard! Em nome de Deus, o

senhor que, pelo que diz a sra. Courtois, casou sua filha com Postel, deve

saber algo dos negócios de David Séchard!

— Mas ele deve estar na prisão — respondeu o médico; — o pai recusou-

se a socorrê-lo...

— Na prisão! — exclamou Luciano. — E por quê?

— Por causa de promissórias enviadas de Paris e que Séchard decerto

havia esquecido, pois ele passa por não saber muito bem o que faz —

respondeu o dr. Marron.

— Peço que me deixem com o sr. cura — disse o poeta, cuja fisionomia se alterou gravemente.

O médico, o moleiro e a mulher se retiraram. Quando ficou a sós com o

velho padre, Luciano exclamou:

— Bem mereço a morte que sinto aproximar-se, senhor, e sou um grande

miserável a quem só resta lançar-se nos braços da religião. Eu, senhor, é que

sou o carrasco de minha irmã e de meu irmão, pois David Séchard é um

verdadeiro irmão para mim! Eu assinei as letras que David não pôde pagar...

Arruinei-o. Na horrível miséria em que caí, até esquecia esse crime. As

providências legais a que deram lugar essas letras foram sanadas com a

intervenção de um milionário, e eu pensava que ele as tivesse pago; quer

dizer que nada disso aconteceu?!

E Luciano contou os seus males. Terminado que foi tal poema, numa

ardente narrativa, verdadeiramente digna de um poeta, suplicou ao cura

que fosse a Angoulême e se informasse com Eva, sua irmã, e com sua mãe, a

sra. Chardon, do verdadeiro estado das coisas, a fim de saber se ainda lhes

podia remediar.

— Até a sua volta, senhor — disse ele, chorando copiosamente, — eu

poderei viver. Se minha mãe, se minha irmã, se David não me repelirem, eu

não morrerei.

A eloquência de parisiense, as lágrimas daquele terrível arrependimento,

aquele belo jovem pálido e quase a morrer de desespero, a narrativa de

infortúnios que ultrapassavam as forças humanas, tudo despertou a

piedade, o interesse do cura.

— Tanto na província como em Paris, senhor — disse-lhe este, — só se

deve crer na metade do que dizem; não se atemorize com um rumor que, a

três léguas de Angoulême, deve ser bastante infiel. O velho Séchard, nosso

vizinho, deixou Marsac há poucos dias; provavelmente está tratando de dar

um jeito nos negócios do filho. Vou a Angoulême e voltarei para lhe dizer se

pode regressar ao seio de sua família, junto à qual as suas confissões e o seu

arrependimento me ajudarão a defender a sua causa.

O cura não sabia que Luciano se arrependera tantas vezes naqueles

dezoito últimos meses que o seu arrependimento, por mais violento que

fosse, não tinha mais valor do que uma cena perfeitamente representada e,

ainda mais, representada de boa-fé! Ao cura seguiu-se o médico. Reconhecendo no enfermo uma crise nervosa cujo perigo começava a

passar, o sobrinho mostrou-se tão animador quanto o tio, e acabou

convencendo o seu cliente a tratar-se.

 

II – O COICE DO ASNO

 

O cura, que conhecia a terra e os seus costumes, fora a Mansle, por onde não

devia tardar a passar a diligência de Ruffec a Angoulême, na qual conseguiu

um lugar. Pretendia o velho padre pedir informações sobre David Séchard a

seu sobrinho-neto Postel, farmacêutico do Houmeau e antigo rival do

impressor junto à bela Eva. Pelas precauções que tomou o pequeno

farmacêutico para ajudar o velho a apear do horrível calhambeque que

então fazia o percurso de Ruffec a Angoulême, o mais obtuso observador

teria adivinhado que o casal Postel hipotecava todo o seu bem-estar sobre a

herança do velho tio.

— Já almoçou? Não quer alguma coisa? Não o esperávamos, foi uma

agradável surpresa...

Eram mil perguntas ao mesmo tempo. A sra. Postel nascera mesmo para

mulher de um farmacêutico do Houmeau. Da estatura do pequeno Postel,

tinha o rosto vermelho de uma rapariga criada no campo; seu porte era

comum, e toda a sua beleza consistia numa grande frescura. A cabeleira

ruiva implantada muito baixo na fronte, as maneiras, a linguagem

apropriada à simplicidade das feições de um rosto redondo, os olhos quase

amarelos, tudo nela indicava que a haviam desposado por interesse. Apenas

com um ano de casada, já era ela quem mandava, e parecia haver-se

tornado senhora absoluta de Postel, que se dava por muito feliz de ter

encontrado aquela herdeira. A sra. Leôncia Postel, nascida Marron, criava

um filho que era o amor do velho cura, do médico e de Pastel, um horrível

menino que se parecia com o pai e a mãe.

— E então, meu tio, que vem fazer em Angoulême — disse Leôncia, —

visto que não quer comer nada e já fala em partir, mal chegou?

Logo que o digno eclesiástico pronunciou o nome de Eva e de David

Séchard, Postel enrubesceu e Leôncia lançou ao homenzinho esse

obrigatório olhar de ciúme que uma mulher inteiramente dona do marido nunca deixa de manifestar quanto ao passado, no interesse do futuro.

— Mas que foi que essa gente lhe fez, meu tio, para que o senhor se meta

nos seus assuntos? — disse Leôncia, com visível acrimônia.

— Eles são infelizes, minha filha — respondeu o cura, que descreveu a

Postel o estado em que se encontrava Luciano no moinho dos Courtois.

— Oh! em que equipagem volta ele de Paris! — exclamou Postel. — E no

entanto possuía talento, e era ambicioso! Ia buscar lã e volta tosquiado. Mas

que vem fazer aqui? A irmã está na última miséria, pois todos esses gênios,

tanto esse David como Luciano, nada entendem de comércio. Tratamos dele

no tribunal, e eu, como juiz, tive de assinar a sentença... Isso me fez um mal!

Não sei se Luciano poderá, nas atuais circunstâncias, ir para casa da irmã;

mas, em todo caso, o quartinho que ele ocupava aqui está vago, e eu lho

ofereço de boa vontade.

— Está bem, Postel — disse o padre, colocando o tricórnio e dispondo-se

a deixar a botica, depois de ter beijado o menino que dormia nos braços de

Leôncia.

— Está visto que vai jantar conosco, meu tio — disse a sra. Postel, — pois

não acabará tão cedo se quiser desembrulhar os negócios daquela gente. Meu

marido o levará na sua carriola.

Os dois esposos ficaram a olhar o seu precioso tio-avô que se dirigia para

Angoulême.

— Ele ainda está bastante forte para a idade que tem — observou o

farmacêutico.

Enquanto o venerável eclesiástico sobe as encostas de Angoulême, não

será inútil explicar a trama de interesses em que vai meter os pés.

 

HISTÓRIA DE UMA DILIGÊNCIA JUDICIÁRIA

 

III – O PROBLEMA A RESOLVER

 

Depois da partida de Luciano para Paris, David Séchard, esse verdadeiro boi,

corajoso e inteligente como aquele que os pintores deram de companheiro ao

evangelista, resolveu fazer a grande e rápida fortuna que almejara, menos para si que para Eva e Luciano, uma noite em que Eva e ele estavam

sentados à margem do Charente, e em que ela lhe dera a mão e o coração.

Colocar a mulher na esfera de elegância e riqueza em que devia viver,

sustentar com o possante braço a ambição de Luciano, tal foi o programa que

se lhe desenhou a letras de fogo ante os olhos. Os jornais, a política, o imenso

desenvolvimento editorial e literário, o incremento das ciências, a tendência

para a discussão pública de todos os problemas do país, todo o movimento

social que se manifestou quando a Restauração pareceu assente ia exigir

uma produção de papel quase dez vezes maior, comparada com a

quantidade sobre a qual especulou o famoso Ouvrard[380] no início da

Revolução, guiado por semelhantes motivos. Mas, em 1821, as fábricas de

papel eram demasiado numerosas na França para que alguém pensasse em

monopolizá-las, como fez Ouvrard, que se apoderou das principais fábricas

depois de haver açambarcado a sua produção. David não possuía, aliás, nem

a audácia nem os capitais que tais especulações demandavam.

Naquele momento, começava a funcionar na Inglaterra a máquina de

fabricar papel contínuo. Nada mais necessário, pois, que adaptar o fabrico às

necessidades da civilização francesa, que ameaçava estender a discussão a

tudo e repousar na perpétua manifestação do pensamento individual, uma

verdadeira calamidade, pois os povos que deliberam agem muito pouco.

Assim — coisa estranha! —, enquanto Luciano entrava nas engrenagens

da imensa máquina do jornalismo, com o risco de ali deixar a honra e a

inteligência em frangalhos, David Séchard, do fundo da sua tipografia,

empenhava-se no movimento da imprensa periódica em suas consequências

materiais. Desejava colocar os meios em harmonia com o resultado a que

tendia o espírito do século. Via tão claro ao procurar fortuna no fabrico de

papel barato que os acontecimentos lhe justificaram as previsões. Durante os

quinze últimos anos, a repartição de patentes de invenção recebeu mais de

cem requerimentos de supostas descobertas de substâncias a introduzir na

fabricação do papel.

Mais certo do que nunca da utilidade dessa descoberta sem espalhafato

mas de proveito imenso, David, após a partida do cunhado para Paris, viveu

na constante preocupação que devia causar tal problema a quem quisesse

resolvê-lo. Como tinha esgotado todos os seus recursos para casar-se e para subvencionar as despesas da viagem de Luciano a Paris, viu-se, no princípio

do casamento, na mais profunda miséria. Guardara mil francos para as

necessidades da sua tipografia, e devia uma promissória de igual soma ao

farmacêutico Postel. Assim, para aquele profundo pensador, era duplo o

problema: era preciso inventar um papel de baixo custo, e inventar

imediatamente; era preciso enfim adaptar os proveitos da descoberta às

necessidades de seu lar e de seu comércio. Ora, que epíteto dar ao cérebro

capaz de sacudir as cruéis preocupações causadas por uma indigência que

procura ocultar, pelo espetáculo de uma família sem pão, e pelas exigências

de uma profissão tão meticulosa quanto a de impressor, ao mesmo tempo

que percorre os domínios do desconhecido, com o ardor e a embriaguez do

sábio na perseguição de um segredo que dia a dia escapa às mais sutis

pesquisas? Infelizmente, como se vai ver, os inventores têm ainda muitos

outros males que suportar, sem contar a ingratidão das massas, a quem

dizem os ociosos e os incapazes a respeito de um homem de gênio: “Ele

tinha nascido para inventor, não podia fazer outra coisa. Ninguém lhe deve

agradecer a descoberta, como não se agradece a um homem o ter nascido

príncipe! Exerce faculdades naturais! E, aliás, encontrou a sua recompensa

no próprio trabalho”.

 

IV – UMA MULHER DE CORAGEM

 

O casamento causa a uma rapariga profundas perturbações morais e físicas;

mas ao casar-se nas condições burguesas da classe média, deve ainda

estudar interesses inteiramente novos, e iniciar-se em negócios; daí, para ela,

uma fase em que necessariamente permanece em observação, sem nada

fazer. O amor de David retardou infelizmente a educação da mulher, pois

não se atreveu a contar-lhe o estado de coisas, nem no dia seguinte ao

casamento nem nos outros. Apesar da profunda penúria a que o condenava

a avareza do pai, não teve coragem de estragar a lua de mel com a triste

aprendizagem de sua laboriosa profissão e as lições necessárias à esposa de

um comerciante. De modo que os mil francos, seu único capital, foram

devorados mais pela casa do que pela oficina. A despreocupação de David e

a ignorância da mulher duraram quatro meses! Foi terrível o despertar. No vencimento da letra subscrita por David a Postel, o casal se viu sem dinheiro,

e Eva conhecia bastante a causa dessa dívida para que não hesitasse em

sacrificar ao seu resgate as suas joias de noiva e suas pratas. No mesmo dia

em que se efetuou o pagamento, quis Eva obrigar David a falar sobre os seus

negócios, pois notara que ele negligenciava a sua oficina para se entregar ao

problema de que antes lhe havia falado. No segundo mês de casado, David

passava a maior parte do tempo no barracão situado ao fundo do pátio,

numa peça que lhe servia para fundir os rolos. Três meses depois de sua

chegada a Angoulême, substituíra as bonecas de passar tinta nos tipos pelo

tinturador de cilindro, em que a tinta é distribuída por meio de rolos com

grude e melaço. Foi tão evidente esse primeiro aperfeiçoamento que os

irmãos Cointet o adotaram logo depois que lhe viram os resultados. David

encostara à parede divisória daquela espécie de cozinha uma fornalha com

caldeira de cobre, sob o pretexto de gastar menos carvão para refundir os

rolos, cujos moldes enferrujados eram empilhados ao longo da parede, e que

não chegou a fundir duas vezes. Não só mandou pôr naquela peça uma

sólida porta de carvalho, internamente chapeada de ferro, mas ainda

substituiu os vidros sujos da janela por vidraças opacas, a fim de impedir que

vissem de fora o objeto de suas ocupações.

À primeira frase que lhe disse Eva a respeito do futuro, David olhou-a

com ar inquieto e interrompeu-a com as seguintes palavras:

— Minha filha, bem sei tudo o que te deve sugerir a vista de uma oficina

deserta e a espécie de aniquilamento comercial em que me acho; mas olha

— continuou ele, levando-a à janela do quarto e mostrando-lhe o reduto

misterioso, — a nossa fortuna está ali... Teremos de sofrer ainda alguns

meses; mas soframos com paciência, e deixa-me resolver o problema

industrial que tu sabes e que acabará com todas as nossas misérias.

Tão bondoso era David, de tal modo o seu devotamento deveria ser

acreditado sob palavra, que a pobre mulher, preocupada, como todas as

esposas, com as despesas cotidianas, resolveu empenhar-se em ocultar ao

marido os aborrecimentos domésticos; deixou pois o lindo quarto azul e

branco onde se contentava em fazer trabalhos de agulha enquanto

conversava com a mãe, e desceu para uma das duas repartições de madeira

situadas ao fundo da oficina, a fim de estudar o mecanismo comercial da tipografia. Não era isso um verdadeiro heroísmo para uma mulher já

grávida?

Durante aqueles primeiros meses, a inerte tipografia de David fora

desertada pelos operários até então necessários para os trabalhos, e que se

retiraram um por um. Repletos de serviço, os irmãos Cointet empregavam

não só os operários do departamento, atraídos pela perspectiva de fazerem

boas diárias no estabelecimento, mas ainda alguns de Bordeaux, de onde

vinham principalmente os aprendizes que se julgavam bastante hábeis para

se subtraírem às condições do aprendizado. Examinando as possibilidades da

tipografia Séchard, Eva não encontrou mais que três pessoas. Primeiro

Cérizet, o aprendiz que David se empenhara em ensinar na casa Didot,

como fazem quase todos os mestres impressores, que se ligam mais

particularmente a alguns dos seus inúmeros empregados; David trouxera

esse aprendiz para Angoulême, onde se aperfeiçoara; depois havia Marion,

apegada à casa como um cão de guarda; e finalmente o alsaciano Kolb,

antigo operário dos Didot.

Apanhado pelo serviço militar, Kolb se encontrou por acaso em

Angoulême, onde David o reconheceu numa parada, ao expirar o seu tempo

de serviço. Kolb foi visitar David e se enamorou da robusta Marion, em que

descobriu todas as qualidades que um homem da sua classe exige das

mulheres: a vigorosa saúde que brune as faces, a força masculina que

permitia a Marion erguer facilmente uma caixa de tipos, a religiosa

probidade tão do agrado dos alsacianos, esse devotamento aos patrões que

revela um bom caráter e finalmente essa economia a que devia um

capitalzinho de mil francos, vestidos, roupa branca e mais pertences de um

asseio provinciano. Marion, que era grande e gorda e tinha trinta e seis anos,

muito lisonjeada por se ver alvo das atenções de um couraceiro de cinco pés

e sete polegadas de altura, de boa compleição, forte como um baluarte,

sugeriu-lhe naturalmente a ideia de se tornar impressor. No momento em

que lhe deram baixa, Marion e David já haviam transformado Kolb num urso

bastante notável, embora analfabeto.

A composição dos trabalhos chamados da cidade não foi tão abundante,

naquele trimestre, que Cérizet não bastasse para dar conta do serviço. Ao

mesmo tempo compositor, paginador e chefe de tipografia, Cérizet realizava o que Kant denomina triplicidade fenomenal: compunha, corrigia a

composição, atendia às encomendas e fazia as faturas; mas, sem trabalho na

maior parte do tempo, lia romances no seu cubículo, à espera da encomenda

de algum cartaz ou participação.

Marion, que fora ensinada pelo velho Séchard, preparava o papel,

molhava-o, ajudava Kolb a imprimi-lo, estendia-o a secar, e nem por isso

deixava de cozinhar e de ir ao mercado de manhã cedo.

Quando fez Cérizet prestar-lhe contas do primeiro semestre, Eva

verificou que a receita era de oitocentos francos. A despesa, à razão de três

francos por dia para Cérizet e Kolb, sendo dois para o primeiro e um para o

último, montava a seiscentos francos. Ora, como o preço do material exigido

pelas encomendas entregues subia a cento e poucos francos, tornou-se-lhe

patente que, durante os seis primeiros meses de casado, David tinha perdido

as rendas, os juros dos capitais representados pelo valor do material e da

licença, os ordenados de Marion, e enfim os lucros que deve tirar um

impressor, esse mundo de coisas expressas em linguagem de tipografia pela

palavra estofos, expressão proveniente dos panos e sedas empregados para

tornar a pressão do parafuso menos dura para os caracteres, por meio da

interposição de um retângulo de estofo entre a chapa da prensa e o papel

que recebe a impressão.

Depois que compreendeu sumariamente as possibilidades e os resultados

da tipografia, adivinhou Eva o pouco de recursos que oferecia aquela oficina,

debilitada pela atividade avassaladora dos irmãos Cointet, ao mesmo tempo

fabricantes de papel, jornalistas, impressores exclusivos do arcebispado,

fornecedores do município e da prefeitura. O jornal que os Séchard pai e

filho tinham vendido, dois anos antes, por vinte e dois mil francos, rendia

agora dezoito mil francos anuais. Eva reconheceu os cálculos ocultos sob a

aparente generosidade dos irmãos Cointet, que deixavam à tipografia

Séchard trabalho suficiente para subsistir, mas não o bastante para que lhe

fizesse concorrência. Tomando a direção dos negócios, começou por levantar

um inventário exato de todas as existências. Empregou Kolb, Marion e

Cérizet em arrumar a oficina, limpá-la e pôr tudo em ordem. Depois, numa

tarde em que David voltava de uma excursão pelo campo, acompanhado de

uma velha que lhe carregava um enorme embrulho, Eva lhe pediu conselhos para aproveitar os restos que lhes deixara o velho Séchard, prometendo

dirigir sozinha os negócios. A conselho do marido utilizou-se de todas as

sobras de papel que encontrara e classificara para imprimir em duas colunas

e numa única folha dessas lendas populares coloridas que os camponeses

pregam nas paredes de suas choupanas: a história do Judeu Errante, de

Roberto, o Diabo, da Bela Magalona, a narrativa de alguns milagres. Eva

transformou Kolb em vendedor ambulante. Cérizet não perdeu um

instante; da manhã à noite compunha aquelas páginas ingênuas e seus

grosseiros ornamentos. Marion bastava para os trabalhos da tiragem. A sra.

Chardon encarregou-se de todos os trabalhos domésticos, pois Eva coloria as

gravuras. Em dois meses, graças à atividade de Kolb e à sua probidade, a sra.

Séchard vendeu, por doze léguas em redor de Angoulême, três mil folhas,

que lhe custaram trinta francos de fabrico e que lhe renderam, à razão de

dois sous o exemplar, trezentos francos. Mas, quando todas as choupanas e

todas as tavernas já estavam adornadas com as referidas lendas, foi preciso

pensar nalguma outra especulação, pois o alsaciano não podia viajar além do

departamento. Eva, que revolvia todo o estabelecimento, veio a encontrar

uma série de figuras para a impressão do almanaque chamado Dos pastores,

onde as coisas são representadas por signos e imagens, em gravuras em

vermelho, preto ou azul. O velho Séchard, que não sabia ler nem escrever,

ganhara outrora muito dinheiro com a impressão deste folheto destinado aos

que não sabem ler. Esse almanaque, que se vende a um sou, consiste em uma

folha dobrada sessenta e quatro vezes, o que constitui um in-64 de cento e

vinte e oito páginas. Muito satisfeita com o sucesso de suas folhas soltas,

indústria a que se entregam principalmente as pequenas tipografias da

província, a sra. Séchard empreendeu a publicação do Almanaque dos

pastores em grande escala, empregando nisso todos os seus lucros. O papel

do Almanaque dos pastores, de que anualmente são vendidos milhões de

exemplares na França, é mais grosseiro que o do Liégeois, e que custa cerca

de quatro francos a resma. Depois de impressa, essa resma, que contém

quinhentas folhas, é vendida a vinte e cinco francos, à razão de um sou a

folha. A sra. Séchard resolveu empregar cem resmas na primeira tiragem, o

que importava em cinquenta mil almanaques a colocar e dois mil francos de

lucro a recolher.

Embora distraído como o devia ser um homem tão profundamente

ocupado, David, ao dar uma vista d’olhos à oficina, ficou surpreso ao ouvir

gemer um prelo e ver Cérizet sempre de pé, compondo sob a direção da sra.

Séchard. No dia em que ali entrou para vigiar as operações empreendidas

por Eva, foi um belo triunfo para esta a aprovação do marido, que achou

excelente o negócio do almanaque. David prometeu seus conselhos quanto

ao emprego das diversas tintas que necessita a apresentação desse

almanaque, em que tudo fala aos olhos. Finalmente, quis ele mesmo fundir

os rolos na sua misteriosa oficina para, na medida do possível, ajudar a

mulher naquela grande pequena empresa.

No princípio dessa furiosa atividade, chegaram as cartas desoladoras em

que Luciano informava a mãe, a irmã e o cunhado do seu insucesso e miséria

em Paris. Bem se compreende que, ao enviar trezentos francos àquela

criança mimada, Eva, a sra. Chardon e David tinham oferecido ao poeta,

cada um da sua parte, o mais puro do seu sangue. Acabrunhada com tais

notícias e desesperada de ganhar tão pouco trabalhando com tamanha

coragem, não foi sem terror que Eva acolheu o acontecimento que eleva ao

cúmulo a alegria dos jovens casais. Vendo-se a ponto de ser mãe, pensou:

— Se meu querido David não alcançar o fim das suas pesquisas até a

hora de meu parto, que vai ser de nós?... E quem dirigirá os negócios

nascentes da nossa pobre tipografia?

 

V – UM JUDAS EM ESBOÇO

 

O Almanaque dos pastores deveria ficar pronto muito antes do 1º de

janeiro; mas Cérizet, a quem incumbia toda a composição, fazia-o com uma

lentidão tanto mais desesperadora para a sra. Séchard porquanto ela não

conhecia suficientemente a matéria para que o pudesse repreender, de

modo que se limitou a observar o jovem parisiense.

Criado no grande orfanato dos Enjeitados de Paris, Cérizet fora colocado

como aprendiz no estabelecimento dos srs. Didot. Dos catorze aos dezessete

anos, foi o Seíd[381] de Séchard, que o colocou sob a direção de um dos mais

hábeis operários e fez dele o seu pupilo, seu ajudante tipógrafo; pois David

se interessou naturalmente por Cérizet, ao descobrir-lhe inteligência, e conquistou a sua afeição, proporcionando-lhe algumas distrações e

comodidades que a sua indigência lhe proibia. Dotado de uma bonita

carinha miúda, de cabelos ruivos e olhos de um azul turvo, Cérizet importara

os costumes do garoto de Paris para a capital do Angoumois. Seu espírito vivo

e trocista, sua malignidade o haviam tornado temível. Menos vigiado por

David em Angoulême, ou porque, com mais idade, inspirasse maior

confiança a seu mentor, ou porque o impressor contasse com a influência da

província, Cérizet se tornara, sem que o tutor o soubesse, o dom Juan de

boné de três ou quatro pequenas operárias, e depravara-se completamente.

Sua moralidade, filha das tavernas parisienses, tomou o interesse pessoal

como única lei. Aliás, Cérizet, que, segundo a expressão popular, devia ser

sorteado no ano seguinte, se viu sem carreira; de sorte que se pôs a contrair

dívidas, considerando que dentro em seis meses seria soldado, e que então

nenhum dos credores poderia correr no seu encalço. David conservava

alguma autoridade sobre o rapaz, não a título de chefe ou porque se

houvesse interessado por ele, mas porque o ex-garoto de Paris reconhecia

nele uma elevada inteligência. Cérizet logo confraternizou com os operários

de Cointet, atraído por eles pelo poder do uniforme, pelo espírito de

corporação em suma, mais influente talvez nas classes inferiores do que nas

classes elevadas. Em tal convívio, Cérizet perdeu o pouco de boas doutrinas

que David lhe incutira; todavia, quando gracejavam com ele a respeito dos

tamancos da sua oficina, termo depreciativo dado pelos ursos aos velhos

prelos dos Séchards, mostrando-lhe os doze magníficos prelos de ferro que

funcionavam na imensa oficina dos Cointet, onde o único prelo de madeira

existente apenas servia para tirar provas, Cérizet ainda tomava o partido de

David e lançava orgulhosamente estas palavras à cara dos trocistas:

— Pois com os seus tamancos, o meu patrão irá mais longe que os de

vocês com as suas caranguejolas de ferro de onde só saem livros de missa! Ele

está procurando um segredo que há de pôr no saco todas as tipografias da

França e de Navarra.

— Enquanto isto, seu tipógrafo a quarenta sous, tens como chefe uma

engomadeira! — respondiam-lhe.

— Olhem! Ela é bonita — replicava Cérizet — e mais agradável de ver do

que o focinho dos Cointet.

— Será que a vista da patroa te enche a barriga?

Da esfera da taverna ou da porta da tipografia onde surgiam essas

amigáveis querelas, chegaram aos ouvidos dos irmãos Cointet alguns rumores

sobre a situação da tipografia Séchard; souberam da especulação tentada

por Eva, e julgaram necessário deter no início uma empresa que podia

colocar a pobre mulher no caminho da prosperidade.

— Vamos dar-lhe uma pancadinha nos dedos, a fim de a desgostar do

comércio — pensaram os dois irmãos.

O Cointet que dirigia a tipografia encontrou Cérizet, e propôs-lhe um

serviço de revisão de provas para eles, a tanto por página, para aliviar o

revisor da casa, que não podia dar conta do trabalho. Trabalhando algumas

horas à noite, Cérizet ganhava mais com os irmãos Cointet do que com David

Séchard durante o dia. Seguiram-se algumas relações entre os Cointet e

Cérizet, no qual os primeiros reconheceram grandes méritos, lamentando

achar-se ele colocado em situação tão desfavorável a seus interesses.

— Você poderia — disse-lhe uma vez um dos Cointet — ser chefe de

oficina numa casa importante, a seis francos por dia, e, com a sua

inteligência, acabaria tendo parte nos lucros.

— Que me adianta ser um bom profissional? — respondeu Cérizet. —

Não tenho pais, faço parte do contingente do ano que vem, e, se for

sorteado, quem iria pagar um homem para o meu lugar?

— Se você souber tornar-se útil — retrucou o rico impressor, — por que

não lhe adiantariam a soma necessária para a sua liberação?

— Mas não havia de ser o meu patrão... — disse Cérizet.

— Quem sabe! Talvez até lá ele tenha encontrado o segredo que

procura...

Esta frase foi dita de modo a despertar os mais escusos pensamentos

naquele que a ouvia, tanto assim que Cérizet lançou a Cointet um olhar que

valia pela mais penetrante interrogação.

— Não sei em que é que ele se ocupa — respondeu prudentemente,

vendo que o outro permanecia mudo, — mas não é homem para procurar

versais na caixa baixa.[382]

— Olhe, meu amigo — disse-lhe o impressor, apanhando seis folhas do

livro de missa da diocese e entregando-as a Cérizet —, se puder corrigir-nos isto até amanhã, terá dezoito francos. Nós não somos maus, fazemos o chefe

de tipografia do nosso concorrente ganhar dinheiro! Enfim, poderíamos

deixar a sra. Séchard meter-se no negócio do Almanaque dos pastores e

arruiná-la: pois bem, permitimos que você lhe diga que nós também

empreendemos a publicação de um Almanaque dos pastores, e que a

previna de que ela não chegará em primeiro lugar no mercado...

Pode-se compreender agora por que Cérizet ia tão devagar na

composição do almanaque.

Ao saber que os Cointet perturbavam a sua pobre especulaçãozinha, Eva

encheu-se de terror, e preferiu ver uma prova de devotamento na

comunicação assaz hipócrita de Cérizet a respeito da concorrência que a

esperava; mas logo surpreendeu no seu único compositor certos indícios de

uma curiosidade demasiado viva, que ainda preferiu atribuir à sua idade.

— Cérizet — disse-lhe ela um dia, — você se coloca à porta e espera a

chegada do sr. Séchard a fim de espiar o que é que ele traz, você olha para o

pátio quando ele sai da oficina de fundir os rolos, em vez de terminar a

composição de nosso almanaque. Isso não está direito, ainda mais quando

você me vê, a mim, mulher dele, respeitar seus segredos e ter tantas

canseiras para lhe deixar inteira liberdade de dedicar-se a seus trabalhos. Se

você não tivesse perdido tempo, o almanaque estaria pronto, Kolb já andaria

a vendê-lo e os Cointet não nos poderiam prejudicar em nada.

— Pois bem, senhora! — retrucou Cérizet, — pelos quarenta sous que eu

ganho por dia aqui, já não acha bastante fazer-lhe cem sous de composição?

Se eu não tivesse provas a revisar à noite para os irmãos Cointet, estaria a

viver de brisas!

— Você há de ir longe, já se mostra ingrato muito cedo — respondeu Eva,

atingida no coração menos pelas censuras de Cérizet que pela grosseria do

seu tom, sua atitude ameaçadora e a agressividade de seus olhares.

— Poderei ir longe, mas não há de ser com uma mulher por patrão,

porque então o mês nem sempre terá trinta dias.

Sentindo-se ferida em sua dignidade de mulher, Eva lançou a Cérizet

um olhar fulminante e recolheu-se a seu quarto. Quando David veio jantar,

ela lhe disse:

— Tens confiança nesse maroto do Cérizet?

— Cérizet! — exclamou ele. — Pois não foi meu aprendiz, meu ajudante

de revisão? Ensinei-lhe a compor, deve-me enfim tudo o que sabe! É o

mesmo que perguntar a um pai se tem confiança no filho...

Eva comunicou ao marido que Cérizet revisava provas por conta dos

Cointet.

— Pobre rapaz! Ele tem de viver — respondeu David com a humildade

de um amo que se sente em falta.

— Que seja! Mas eis a diferença que existe entre Kolb e Cérizet: Kolb faz

vinte léguas todos os dias, gasta quinze ou vinte sous, traz-nos sete, oito, às

vezes nove francos de folhas vendidas, e só me pede os seus vinte sous,

descontadas as despesas. Kolb preferiria cortar a mão a puxar a alavanca de

um prelo nos Cointet, e não iria espiar as coisas que atiras no pátio, ainda que

lhe oferecessem mil escudos; ao passo que Cérizet as apanha e examina.

As belas almas dificilmente chegam a acreditar no mal, na ingratidão; é-

lhes preciso sofrer duras lições até reconhecerem a extensão da corrupção

humana; depois, feita a sua educação nesse gênero, elevam-se a uma

indulgência que é o mais alto grau do desprezo.

— Qual! Mera curiosidade de garoto de Paris! — exclamou pois David.

— Pois bem, meu caro, faze-me o favor de descer à oficina e examinar o

que o teu garoto compôs de um mês para cá, e vê se durante esse mês não

poderia ele ter concluído o nosso almanaque...

Após o jantar, David reconheceu que o almanaque poderia ter sido

composto em oito dias; depois, sabendo que os Cointet preparavam um

semelhante, acudiu em auxílio da mulher: fez com que Kolb interrompesse

a venda das folhas de imagens e pôs-se a dirigir tudo na oficina; ele mesmo

pôs na prancha uma fôrma que Kolb tirou com Marion e ele mesmo tirou a

outra com Cérizet, e vigiou as impressões em tintas de diversas cores. Cada

cor exige uma impressão separada. Quatro tintas diferentes exigem pois

quatro impressões. Impresso quatro vezes por tiragem, o Almanaque dos

pastores oferece tantas dificuldades que é exclusivamente impresso nas

oficinas de província, em que a mão de obra e os interesses do capital

empregado são quase nulos. Esse produto, por grosseiro que seja, fica pois

vedado às prensas de onde saem as mais belas obras. Pela primeira vez desde

a retirada do velho Séchard, viram-se dois prelos a trabalhar na velha oficina.

Embora o almanaque fosse, no gênero, uma obra-prima, Eva teve de o

dar a dois liards[383] porque os irmãos Cointet deram o seu a três cêntimos

aos revendedores; com os revendedores salvou apenas as despesas,

ganhando nas vendas efetuadas diretamente por Kolb; mas foi um negócio

gorado.

Ao ver-se objeto da desconfiança de sua bela patroa, Cérizet colocou-se

intimamente como adversário, dizendo consigo: “Tu desconfias de mim?

Pois eu me vingarei!”. O garoto de Paris é assim. Cérizet aceitou, pois, dos srs.

Cointet emolumentos evidentemente demasiado fortes pela revisão das

provas que ia buscar em seu escritório todas as noites e lhes devolvia todas as

manhãs. Conversando cada dia mais um pouco com eles, foi ganhando

familiaridade, e acabou por perceber a possibilidade de livrar-se do serviço

militar, que lhe apresentavam como engodo; e, longe de o terem de

corromper, os Cointet ouviram da sua boca as primeiras palavras relativas à

espionagem e exploração do segredo que David procurava.

Inquieta por ver quão pouco devia contar com Cérizet e na

impossibilidade de encontrar um outro Kolb, Eva resolveu despedir seu

único compositor, em quem sua segunda vista de esposa amante lhe fizera

ver um traidor; mas, como isso significava a morte do seu estabelecimento,

tomou uma resolução varonil: pediu por carta ao sr. Métivier,

correspondente de David Séchard, dos Cointet e de quase todos os

fabricantes de papel do departamento, que mandasse inserir no Jornal da

Livraria, em Paris, o seguinte anúncio:

“Transfere-se imprensa em plena atividade, material e licença, situada

em Angoulême. Dirigir-se, para as condições, ao sr. Métivier, Rue Serpente.”

 

VI – OS DOIS COINTET

 

Depois de ler o número do jornal em que se achava o referido anúncio, os

Cointet pensaram:

— Essa mulherzinha não é nada tola, é tempo de nos tornarmos donos

da sua tipografia, dando-lhe com o que viver; senão, poderíamos encontrar

um adversário no sucessor de David e é de nosso interesse estar sempre de

olho aquela oficina.

Movidos por esse pensamento, os irmãos Cointet foram falar com David

Séchard. Eva, a quem os dois irmãos se dirigiram, experimentou a mais viva

alegria ao ver o rápido efeito de seu estratagema, pois não ocultaram o

desígnio de propor a Séchard que fizesse impressões por conta deles:

estavam cheios de trabalho, seus prelos não bastavam para as encomendas,

tinham mandado buscar operários de Bordeaux, e tencionavam dar serviço

para os três prelos de David.

— Senhores — disse ela aos irmãos Cointet, enquanto Cérizet ia avisar

David da visita de seus confrades, — meu marido conheceu no

estabelecimento dos srs. Didot excelentes profissionais, honestos e ativos, e

sem dúvida escolherá um sucessor entre os melhores... Não será melhor

vender o estabelecimento por uns vinte mil francos, que nos darão mil

francos de renda, do que perder mil francos por ano com o negócio que os

senhores nos obrigam a fazer? Por que invejaram a pobre especulaçãozinha

de nosso almanaque, que aliás pertencia a esta casa?

— E por que não nos preveniu, minha senhora? Assim não nos teríamos

atravessado em seu caminho — disse graciosamente aquele a quem

chamavam o Cointet grande.

— Qual, meus senhores! Só principiaram o seu almanaque depois de

saberem por intermédio de Cérizet que eu estava fazendo o meu.

Dizendo vivamente estas palavras, olhou para o que chamavam de

Cointet grande, e fê-lo baixar os olhos. Adquiriu assim a prova da traição de

Cérizet.

Esse Cointet, diretor da fábrica e dos negócios, era muito mais hábil

comerciante do que o seu irmão João, que aliás conduzia a tipografia com

grande inteligência, mas cuja capacidade podia comparar-se à de um

coronel, ao passo que Bonifácio era um general a quem João deixava o

comando supremo.

Bonifácio, sujeito seco e magro, de rosto amarelo como um círio e

jaspeado de vermelho, de boca apertada e olhos de gato, jamais se

arrebatava; ouvia com a calma de um devoto as mais pesadas injúrias e

retrucava com voz macia. Ia à missa, confessava-se e comungava. Ocultava

sob as suas maneiras blandiciosas, sob um exterior quase mole, a tenacidade,

a ambição do padre e a cupidez do negociante devorado pela sede das riquezas e honrarias. Desde 1820 o Cointet grande aspirava a tudo o que a

burguesia acabou por obter na Revolução de 1830. Cheio de ódio à

aristocracia, indiferente em matéria de religião, foi devoto como Bonaparte

foi montanhês.[384] Sua espinha dorsal dobrava-se com maravilhosa

flexibilidade ante a nobreza e a administração, com quem se mostrava

pequeno, humilde e complacente. Enfim, para pintar esse homem com um

traço cujo valor será bem apreciado pelas pessoas habituadas ao trato dos

negócios, usava óculos de vidros azuis, com que ocultava o olhar, sob o

pretexto de preservar a vista da ofuscante reverberação da luz numa cidade

em que a terra e as construções são brancas, em que a intensidade do sol é

aumentada pela considerável altitude. Embora de estatura um pouco acima

da mediana, parecia alto devido à magreza, que denotava uma natureza

assoberbada de trabalho, um pensamento em contínua ebulição. Sua

fisionomia jesuítica era completada por uma cabeleira lisa, grisalha, longa,

cortada à maneira eclesiástica, e por sua indumentária que, havia sete anos,

se compunha de calças pretas, meias pretas, colete preto e um levita (nome

meridional da sobrecasaca) de cor marrom. Chamavam-no o Cointet grande

para distingui-lo de seu irmão, denominado o Cointet gordo, com o que se

exprimia o contraste existente tanto entre o físico como entre o intelecto dos

dois irmãos, aliás igualmente temíveis. De fato, João Cointet, moço

bonacheirão de face flamenga, brunida pelo sol do Angoumois, curto e

grosso, pançudo como Sancho, sempre com o sorriso nos lábios, as espáduas

largas, apresentava flagrante contraste com o irmão mais velho. João não

diferia do irmão apenas pelo rosto e pela inteligência: professava opiniões

quase liberais, era de centro-esquerda, só ia à missa aos domingos e entendia-

se às maravilhas com os comerciantes liberais. Opinavam alguns

comerciantes do Houmeau que tal divergência era uma farsa dos dois

irmãos. O Cointet grande explorava habilmente a aparente bonomia do

irmão, e servia-se dele como de um porrete. João encarregava-se das

palavras duras, das execuções que repugnavam à mansuetude de Bonifácio.

João tinha o departamento das cóleras, arrebatava-se, deixava escapar

propostas inaceitáveis, que tornavam mais suaves as do irmão; e assim, cedo

ou tarde, chegavam eles a seus fins.

Eva, com o tato peculiar às mulheres, logo adivinhou o caráter dos dois irmãos, de modo que se manteve em guarda na presença de tão perigosos

adversários. David, já informado pela mulher, ouviu com um ar

profundamente distraído as propostas de seus inimigos.

— Entendam-se com a minha esposa — disse ele aos Cointet, saindo do

gabinete envidraçado para voltar ao seu pequeno laboratório. — Estou agora

ocupado com um negócio que será mais lucrativo do que este pobre

estabelecimento e com o qual hei de recuperar as perdas que tive com os

senhores...

— Como? — perguntou a rir o gordo Cointet.

Eva fitou o marido para lhe recomendar prudência.

— Serão meus tributários, os senhores e todos os que consomem papel —

respondeu David.

— Mas que procura então? — indagou Benedito-Bonifácio Cointet.

Quando Bonifácio largou essa pergunta num tom suave e insinuante,

Eva fitou de novo o marido, para induzi-lo a nada responder, ou a responder

qualquer coisa sem significação.

— Procuro fabricar papel cinquenta por cento mais barato do que o atual

preço de custo...

E foi-se embora, sem notar o olhar que trocavam os dois irmãos, como

que a dizerem: “Esse homem deve ser mesmo um inventor; impossível ter

um corpo assim e ficar na ociosidade!”. “Exploremo-lo!”, parecia dizer

Bonifácio. “Mas como?”, indagava o olhar de João.

— David está fazendo com os senhores a mesma coisa que faz comigo —

explicou Eva. — Quando me mostro curiosa, ele decerto desconfia de meu

nome e larga-me essa frase, que afinal de contas não passa de um programa.

— Se o seu marido conseguir realizar esse programa, sem dúvida fará

fortuna mais rapidamente do que com a tipografia, e não me espanto de vê-

lo negligenciar este estabelecimento — replicou Bonifácio, voltando-se para a

oficina deserta, onde Kolb, sentado numa prancha, esfregava o seu pão com

um dente de alho —; mas não nos conviria muito ver essa tipografia em

mãos de um concorrente ativo, empreendedor, ambicioso, e talvez

pudéssemos chegar a entender-nos. Se, por exemplo, a senhora consentisse

em arrendar seu material, por certa soma, a um operário nosso que

trabalhasse para nós, sob o nome de Séchard, como se costuma fazer em Paris, daríamos a esse operário trabalho suficiente que lhe permitisse pagar

um bom aluguel e tirar algum lucro...

— Isso depende da soma — respondeu Eva. — Quanto pretendem

oferecer? — acrescentou, olhando para Bonifácio de maneira a dar-lhe a

entender que compreendia perfeitamente o seu plano.

— Mas quais seriam as suas pretensões? — replicou vivamente João

Cointet.

— Três mil francos por semestre — disse ela.

— Oh! E a senhora falava em vender a tipografia por vinte mil francos!

— replicou de mansinho Bonifácio. — Os juros de vinte mil francos são

apenas mil e duzentos francos, a seis por cento.

Eva permaneceu um momento interdita, reconhecendo então todo o

valor da discrição em negócios.

— Os senhores se serviriam de nossos prelos, de nossos tipos, com os quais

provei que ainda sabia fazer pequenos negócios — replicou ela —, e temos de

pagar aluguéis ao sr. Séchard pai, que não nos cumula de presentes.

Após uma luta de duas horas, Eva obteve dois mil francos por semestre,

sendo mil pagos adiantadamente. Depois que tudo ficou combinado,

revelaram-lhe os dois irmãos que tencionavam transpassar a Cérizet o

arrendamento dos utensílios da tipografia. Eva não pôde conter um gesto de

surpresa.

— Pois não é melhor tomar alguém que esteja a par dos negócios da

oficina? — disse o Cointet gordo.

Eva saudou os dois irmãos sem responder, prometendo a si mesma vigiar

pessoalmente a Cérizet.

— Com que então temos os inimigos na praça? — disse rindo David à

mulher, quando Eva, na hora do jantar, lhe deu a assinar os documentos.

— Ora! — disse ela. — Eu respondo pela fidelidade de Kolb e de Marion;

os dois sozinhos cuidarão de tudo. De resto, fazemos quatro mil francos por

ano, de um equipamento industrial que nos custava dinheiro, e tens um ano

pela frente para realizares as tuas esperanças!

— Devias mesmo ser, como me disseste à margem do rio, esposa de um

caçador de invenções! — exclamou Séchard, apertando ternamente a mão

da mulher.

Se a casa teve o suficiente para passar o inverno, viu-se sob a vigilância

Continuar: parte 2 de 9