A Comédia Humana 7: Ilusões Perdidas
Primeira Parte • os Dois Poetas
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.
gregos, a brancura veludosa das mulheres, olhos negros de tão azuis, olhos
cheios de amor, cuja córnea rivalizava em brancura com a de uma criança.
Esses belos olhos eram encimados por sobrancelhas que pareciam traçadas
por um pincel chinês e eram bordados de longos cílios castanhos. Ao longo
de suas faces brilhava uma penugem sedosa, cuja cor se harmonizava com a
da cabeleira loura naturalmente ondeada. Uma suavidade divina
transparecia de suas têmporas de um branco dourado. Uma incomparável
nobreza se via impressa em seu queixo curto, levemente proeminente. O
sorriso dos anjos tristes errava em seus lábios de coral realçados por belos
dentes. As mãos eram fidalgas, de homem bem-nascido, mãos elegantes,
dessas que as mulheres gostam de beijar e a cujos acenos os homens se
sentem no dever de obedecer. Luciano era magro e de estatura mediana.
Ao ver-lhe os pés, os homens sentir-se-iam tentados a tomá-los pelos de
uma jovem disfarçada, sobretudo porque, à semelhança da maior parte dos
homens finos, para não dizer astuciosos, tinha as ancas conformadas como
as de uma mulher. Esse indício, que raramente engana, era verdadeiro em
Luciano, tanto que o pendor de seu espírito buliçoso o levava por vezes, ao
analisar o estado atual da sociedade, para o terreno da depravação peculiar
aos diplomatas que acreditam que o êxito é a justificativa de todos os meios,
ainda que vergonhosos. Uma das infelicidades a que estão sujeitas as grandes
inteligências é a de compreender forçosamente todas as coisas, tanto os
vícios como as virtudes.
Os dois jovens julgavam a sociedade tanto mais soberanamente quanto
mais baixo se achavam nela colocados, pois os homens esquecidos se vingam
da humildade de sua posição pela altivez do olhar. E o seu desespero era
tanto mais amargo quanto iam assim mais rapidamente aonde os conduziam
seus verdadeiros destinos. Luciano havia lido muito e muito comparado;
David pensara muito e muito meditara.
Apesar da aparência de uma saúde vigorosa e rústica, o tipógrafo tinha
um gênio melancólico e doentio, e duvidava de si próprio; Luciano,
entretanto, dotado de um espírito empreendedor, mas versátil, possuía uma
audácia em desacordo com seu ar mole, quase débil, mas cheio de graça
feminina. Luciano possuía no mais alto grau o caráter gascão, atrevido,
bravo, aventuroso, que encarece o bem e apequena o mal, que não recua
diante de uma falta se lhe dá proveito, e que se ri do vício se dele pode fazer
degrau. Tais tendências de ambicioso encontravam-se então amortecidas
pelas belas ilusões da juventude, pelo ardor que o levava para os nobres
meios que os homens enamorados da glória empregam antes que os demais.
Só lutava então com os seus desejos e não com as dificuldades da vida, com
sua própria força e não com a covardia dos homens, que é exemplo fatal
para os espíritos inconstantes.
Vivamente seduzido pelo brilhante espírito de Luciano, David o
admirava, justificando-lhe todos os erros nos quais a fúria francesa o lançava.
Aquele homem justo possuía um espírito tímido em desacordo com sua
constituição robusta, mas não lhe faltava a persistência dos homens do
norte. Se entrevia todas as dificuldades, jurava vencê-las sem desanimar, e, se possuía a firmeza de uma virtude verdadeiramente apostólica,
temperava-a com a flexibilidade de uma indulgência inesgotável. Nessa
amizade já velha, um dos dois amava com idolatria, e era David. Também
Luciano mandava, como uma mulher que se sabe amada. David obedecia
com prazer. A beleza física do amigo continha uma superioridade que ele
aceitava, achando-se comum e pesadão.
“Ao boi a paciente agricultura, e ao pássaro a vida indolente”, pensava o
tipógrafo. “Serei o boi e Luciano será a águia.”
Havia mais ou menos três anos que os dois rapazes tinham confundido
seus destinos, de tão brilhante futuro. Liam as grandes obras aparecidas,
depois da paz, nos setores literário e científico; as obras de Schiller, de
Goethe, de Lord Byron, de Walter Scott, de Jean Paul,[20] de Berzélius,[21]
de Davy,[22] de Cuvier,[23] de Lamartine etc. Aqueciam-se nesses grandes
focos, ensaiavam-se em trabalhos abortados ou começados, deixados e
retomados com entusiasmo. Trabalhavam continuamente sem cansar as
inesgotáveis forças da juventude. Igualmente pobres, mas devorados pelo
amor à ciência e à arte, esqueciam a miséria presente na preocupação de
lançar os alicerces de seu renome.
— Luciano, sabes o que acabo de receber de Paris? — perguntou o
tipógrafo tirando do bolso um volumezinho in-18. — Ouve!
David leu, como sabem ler os poetas, o idílio de André de Chénier
intitulado Neera, e depois o do Jovem doente, a elegia sobre o suicídio, ao
gosto antigo, e os dois últimos iambos.
— Eis pois o que é André de Chénier! — exclamou Luciano por diversas
vezes. — É de desesperar — repetia ele pela terceira vez, quando David,
emocionado demais para continuar, lhe deixou pegar o volume.
— Um poeta reencontrado por outro poeta![24] — observou ao ver a
assinatura do prefácio.
— Depois de haver escrito este volume — disse David —, Chénier
acreditava nada ter feito que fosse digno de se publicar.
Luciano leu por sua vez o épico trecho de O cego e várias elegias. Ao
chegar ao fragmento: “Se eles não são felizes, haverá felicidade sobre a
terra?”,[25] baixou o livro, e os dois amigos choraram, pois ambos amavam
com idolatria.
Os pâmpanos se coloriram, os velhos muros da casa, fendidos,
encurvados, cá e lá percorridos por ignóbeis fendas, se revestiram de
caneluras, de bastiões, de baixos-relevos, de inumeráveis obras-primas de não
sei que arquitetura, trabalhada pelas mãos de alguma fada. A fantasia
sacudira suas flores e seus rubis sobre o patiozinho obscuro. A Camila de
André de Chénier tornara-se para David a sua Eva adorada, e para Luciano
uma grande dama que ele cortejava. A poesia tinha agitado o planejamento
majestoso de seu vestido estrelado sobre a oficina onde gesticulavam os
símios e os ursos da tipografia.
As cinco horas haviam soado, mas os dois amigos não sentiam nem fome
nem sede; a vida se lhes tornara um sonho azul, possuíam todos os tesouros
da terra a seus pés. Avistavam aquela fímbria de horizonte azulado que o
dedo da Esperança aponta àqueles cuja vida é tempestuosa e a quem diz
com a sua voz de sereia: “Ide, voai, fugireis à desgraça por aquele espaço de
ouro, de prata ou de azul”.
Naquele instante, um aprendiz chamado Cérizet, um garoto de Paris
que David trouxera para Angoulême, abriu a pequena porta envidraçada
que comunicava a oficina com o pátio e apontou os dois amigos a um
desconhecido que avançou cumprimentando-os.
— Senhor — disse a David, tirando do bolso um enorme caderno —, aqui
está uma monografia que desejo publicar. Quer calcular quanto vai custar?
— Senhor, nós não imprimimos originais tão volumosos — respondeu
David sem olhar para o caderno —, procure os senhores Cointet.
— Mas temos, entretanto, um tipo belíssimo que poderia servir —
interrompeu Luciano, tomando o manuscrito. — Será necessário que tenha a
bondade de voltar amanhã, deixando-nos sua obra, para calcularmos as
despesas da impressão.
— Não é ao senhor Luciano Chardon que tenho a honra...
— Sim, senhor — respondeu o chefe da oficina.
— Sinto-me feliz, senhor — continuou o autor —, em conhecer um
jovem poeta destinado a tão belo futuro. Enviou-me aqui a sra. de Bargeton.
Ao ouvir esse nome, Luciano corou e balbuciou algumas palavras para
exprimir seu reconhecimento pelo interesse que por ele manifestava a sra.
de Bargeton. David notou o rubor e o embaraço do amigo e deixou-o a conversar com o fidalgo camponês, autor de uma monografia sobre a criação
do bicho-da-seda, a quem sua vaidade levava a procurar editá-la para poder
ser lido pelos seus colegas da Sociedade de Agricultura.
— E então, Luciano — disse David, depois de o cavalheiro sair —, será
que amas a sra. de Bargeton?
— Loucamente!
— Mas vocês estão mais separados pelos preconceitos do que se estivesse
ela em Pequim e tu na Groenlândia.
— A vontade de dois seres que se amam triunfa sobre tudo — disse
Luciano, baixando os olhos.
— Vais esquecer-nos — respondeu o tímido namorado da linda Eva.
— Ao contrário, talvez te haja sacrificado minha amada — exclamou
Luciano.
— Que queres dizer?
— Apesar do meu amor, apesar dos muitos motivos que me levam a
introduzir-me em sua casa, disse-lhe que lá não voltaria se um homem, cujos
dotes eram superiores aos meus, cujo futuro deverá ser de glórias, se David
Séchard, meu irmão, meu amigo, não fosse lá recebido. A resposta deve
encontrar-se lá em casa. Mas, ainda que todos os aristocratas sejam
convidados para me ouvir ler versos esta noite, se a resposta for negativa,
nunca mais porei os pés em casa da sra. de Bargeton.
David apertou violentamente a mão de Luciano, depois de haver
enxugado os olhos.
Soaram seis horas.
— Eva deve estar inquieta, adeus — disse bruscamente Luciano.
Saiu, deixando David entregue a uma dessas emoções que só se sentem
completamente nessa idade, sobretudo na situação em que se encontravam
esses dois jovens cisnes, aos quais a vida provinciana não cortara ainda as
asas.
— Coração de ouro! — exclamou David acompanhando com os olhos
Luciano, que atravessava a oficina.
Luciano desceu ao Houmeau pelo belo passeio de Beaulieu, pela Rue du
Minage e a Porte Saint-Pierre. Se tomava assim o caminho mais longo, certo
adivinhareis que a casa da sra. de Bargeton ficava nesse trajeto. Experimentava tanto prazer em passar sob as janelas daquela dama, mesmo
sem que ela o soubesse, que havia dois meses não voltava mais ao Houmeau
senão pela Porte-Palet.
Ao chegar às árvores de Beaulieu, contemplou a distância que separava
Angoulême do Houmeau. Os costumes do lugar haviam levantado entre
ambos barreiras morais bem mais difíceis de franquear que as ladeiras pelas
quais Luciano descia. O jovem ambicioso que acabava de se introduzir no
palácio de Bargeton, lançando a glória como uma ponte pênsil entre a
cidade e o bairro, sentia-se inquieto quanto à decisão de sua amada, tal como
um favorito teme uma desgraça após haver tentado estender o próprio
poder.
Estas palavras devem parecer obscuras aos que não tiveram ocasião de
observar os costumes peculiares às localidades que se dividem em cidade alta
e cidade baixa; entretanto, é necessário entrarmos aqui em algumas
explicações sobre Angoulême, tanto mais que elas farão com que melhor se
compreenda a sra. de Bargeton, personagem das mais importantes desta
história.
II – A SRA. DE BARGETON
Angoulême é uma velha cidade, construída no cimo de um rochedo da
forma cônica que domina as várzeas pelas quais rola o rio Charente. Tal
rochedo estende para o Périgord uma longa colina que termina bruscamente
sobre a estrada de Paris a Bordeaux, formando uma espécie de promontório
desenhado por três vales pitorescos. A importância desta cidade no tempo
das guerras religiosas é atestada por seus baluartes, por suas portas e pelos
restos de uma fortaleza levantada no cume do rochedo. Sua situação
tornava-a outrora um ponto estratégico igualmente precioso a católicos e
calvinistas; mas a sua força de então constituiu-se na sua fraqueza de hoje:
impedindo-a de instalar-se à margem do Charente, as suas muralhas e a
encosta muito íngreme do rochedo condenaram-na à mais funesta
imobilidade.
Ao tempo em que se passou esta história, seu governo ensaiou estender a
cidade para o Périgord, construindo ao longo da colina o palácio da Prefeitura, uma escola de marinha e estabelecimentos militares, abrindo
ruas.
O comércio, porém, lhe tomara a dianteira, e para outras bandas. Desde
muito o bairro do Houmeau crescera, como uma camada de cogumelos, ao
pé do rochedo e às margens do rio, ao longo do qual passa a grande estrada
Paris-Bordeaux. Ninguém ignora a celebridade das fábricas de papel de
Angoulême, que, há mais de três séculos, se haviam estabelecido
necessariamente junto ao rio e aos seus afluentes, onde encontraram quedas
d’água. O Estado estabelecera em Ruelle sua mais considerável fundição de
canhões para a marinha. As empresas de transporte, as de carruagens de
aluguel, o correio, as hospedarias, as oficinas de conserto de carros, todas as
indústrias que vivem da estrada e do rio, se agruparam na baixada de
Angoulême para evitar as dificuldades que apresenta o seu acesso.
Naturalmente, as fábricas de cerveja, as lavanderias, todo o comércio fluvial
ficou junto ao Charente; depois, os armazéns de aguardente, os depósitos de
todas as matérias-primas transportadas pelo rio, todo o tráfico, enfim,
marginou o Charente com os seus estabelecimentos. O bairro do Houmeau
tornou-se uma cidade rica e industriosa, uma segunda Angoulême, que
invejava a cidade alta onde ficaram o governo, o bispado, a justiça, a
aristocracia.
O Houmeau, assim, não obstante seu ativo e crescente poder, nunca
passou de uma dependência de Angoulême. No alto, a nobreza e o poder;
embaixo, o comércio e o dinheiro; duas zonas sociais constantemente
inimigas sob todos os aspectos; difícil era assim adivinhar qual das duas
cidades mais odiava a rival.
A Restauração havia agravado, fazia nove anos, esse estado de coisas,
bem mais calmo no tempo do Império. As casas da alta Angoulême são na
maior parte habitadas por famílias nobres ou por antigas famílias burguesas
que vivem de suas rendas, formando uma espécie de nação autóctone no
seio da qual jamais se recebem estranhos. A muito custo, após duzentos anos
de residência, após uma aliança com alguma das famílias primordiais, uma
família de alguma das províncias vizinhas é adotada; aos olhos dos nativos,
parece ter chegado ontem ao lugar.
Os prefeitos, os recebedores, as administrações que se sucederam durante quarenta anos tentaram civilizar essas velhas famílias empoleiradas
em sua rocha como corvos desconfiados: as famílias aceitaram suas festas e
seus jantares, mas se recusaram sempre a admiti-los em suas casas.
Escarninhas, maldizentes, ciumentas, avaras, essas casas casam-se entre
si, formam um batalhão cerrado para não deixar ninguém entrar nem sair;
as criações do luxo moderno, elas as ignoram; para elas, mandar um filho a
Paris é querer perdê-lo. Esta prudência pinta os hábitos e costumes
antiquados daquelas famílias presas de um monarquismo tolo, imbuídas de
devoção mais que de religiões, vivendo todas imóveis como a sua cidade e o
seu rochedo.
Angoulême, não obstante, goza de grande reputação nas províncias
adjacentes graças à educação que nela se ministra. As cidades vizinhas
enviam suas filhas para os seus internatos e conventos. Fácil é perceber
quanto o espírito de casta influi nos sentimentos que separam Angoulême do
Houmeau. O comércio é rico, e a nobreza, geralmente pobre. Esta vinga-se
daquele por um desprezo que é igual de ambos os lados. A burguesia de
Angoulême participa da querela. O comerciante da cidade alta diz de um
negociante do bairro de baixo, com expressão indefinível: — É um homem
do Houmeau!
Delineando a posição da nobreza na França e dando-lhe esperanças que
não se poderiam realizar sem um transtorno geral, a Restauração aumentou
a distância moral que separava, mais fortemente que a distância local,
Angoulême do Houmeau. A sociedade nobre, unida então ao governo,
tornou-se ali mais exclusivista que em qualquer outro lugar da França. O
habitante do Houmeau parecia-se muito a um pária. Daí procederam
aqueles ódios surdos e profundos que deram espantosa unanimidade à
insurreição de 1830 e destruíram na França os elementos de um estado
social durável. A arrogância da nobreza da corte desafeiçoou do trono a
nobreza da província, tanto quanto esta dele afastava a burguesia ferindo-
lhe todas as vaidades.
Um homem do Houmeau, filho de um farmacêutico, recebido em casa
da sra. de Bargeton, era, pois, uma pequena revolução. Quais os seus
autores? Lamartine e Victor Hugo, Casimir Delavigne e Canalis, Béranger e
Chateaubriand, Villemain e Aignan, Soumet e Tissot, Étienne e D’Avrigny,
Benjamin Constant e Lamennais, Cousin e Michaud,[26] enfim, tanto as
velhas como as jovens ilustrações literárias, os liberais como os monarquistas.
A sra. de Bargeton amava as letras e as artes, gosto extravagante, mania
grandemente deplorada em Angoulême, mas que é preciso justificar
esboçando a vida daquela mulher nascida para ser célebre, mantida na
obscuridade por circunstâncias fatais, e cuja influência determinou o
destino de Luciano.
O sr. de Bargeton era bisneto de um juiz de Bordeaux, chamado Mirault,
enobrecido por Luís xiii depois de longo exercício do cargo. Sob Luís xiv, seu
filho, tornado Mirault de Bargeton, foi oficial da guarda de palácio e realizou
tão brilhante casamento de interesse que, ao tempo de Luís xv, seu filho já
era chamado simplesmente sr. de Bargeton. Esse sr. de Bargeton, neto do sr.
de Mirault, o juiz, mostrou tanto empenho em se conduzir como perfeito
cavalheiro, que esbanjou todos os bens da família e pôs um paradeiro à sua
fortuna.
Dois de seus irmãos, tios-avós do De Bargeton atual, tornaram-se
negociantes, de modo que ainda se encontram alguns De Mirault no
comércio de Bordeaux. Como as terras de De Bargeton, situadas no
Angoumois, na zona do feudo de La Rochefoucauld, bem como a residência
de Angoulême, chamada palácio de Bargeton, fossem indivisíveis, o neto do
sr. de Bargeton, o dissipador, herdara as duas propriedades. Em 1789,
porém, perdeu o domínio útil, conservando apenas a renda da terra, que
ascendia mais ou menos a seis mil libras anuais. Se seu avô houvesse seguido
os gloriosos exemplos de De Bargeton i e De Bargeton ii, o De Bargeton v, que
se pode chamar o Mudo, teria sido marquês de Bargeton; e, se se houvesse
aliado a alguma grande família, poderia ter-se elevado, como tantos outros, a
duque e par do reino; em vez disso, achou-se muito lisonjeado ao desposar
em 1805 a srta. Maria Luísa Anaïs de Nègrepelisse, filha de um nobre
esquecido de há muito em seu domínio, embora pertencesse ao ramo mais
novo de uma das mais antigas famílias do sul da França. Houvera um De
Nègrepelisse entre os reféns de São Luís; o chefe do antigo ramo, porém,
trazia o nome ilustre D’Espard,[27] adquirido sob o reinado de Henrique iv
por um casamento com a herdeira desta família. Tal nobre, filho mais moço
de outro último rebento, vivia na propriedade da mulher, pequena terra próxima de Barbezieux, que ele explorava maravilhosamente, indo vender ao
mercado o seu trigo, fabricando ele próprio o seu vinho e rindo-se das
zombarias contanto que embolsasse os escudos e pudesse, de quando em
vez, ampliar suas terras.
Circunstâncias muito raras no fundo da província haviam inspirado à
sra. de Bargeton o gosto pela música e pela literatura. Durante a Revolução,
um padre Niollant, o melhor aluno do padre Rose,[28] escondera-se no
pequeno castelo de Escarbas, para lá levando sua bagagem de compositor.
Pagara largamente a hospitalidade do velho fidalgo, educando-lhe a filha
Anaïs, chamada Naïs por abreviação, a qual, sem essa aventura, teria sido
abandonada a si mesma, ou, por pior sorte, a uma qualquer criada de quarto.
O padre era não somente musicista, mas possuía extensos conhecimentos de
literatura, sabia o italiano e o alemão. Ensinou assim esses dois idiomas e
contraponto à srta. de Nègrepelisse; explicou-lhe as grandes obras literárias
da França, da Itália e da Alemanha, decifrando com ela a música de todos os
mestres. Para combater, por fim, a ociosidade da profunda solidão a que o
condenavam os acontecimentos políticos, ensinou-lhe o grego e o latim, e
deu-lhe algumas tinturas das ciências naturais. A presença da mãe não
modificou em nada essa educação masculina de uma jovem criatura já
bastante atraída para a independência pela vida do campo.
O padre Niollant, alma entusiástica e poética, era notado, sobretudo,
pelo espírito peculiar aos artistas, que, dotado de muitas qualidades
apreciáveis, se eleva, entretanto, acima das ideias burguesas pela liberdade
dos julgamentos e pela largueza de vistas. Se, na sociedade, tal espírito faz
com que se perdoem suas temeridades devido a sua profunda originalidade,
pode bem parecer prejudicial na vida privada pelos desatinos que inspira. Ao
padre não faltava coração, suas ideias tornaram-se contagiosas para a jovem
em quem a exaltação própria da mocidade se via estimulada pela solidão do
campo. O padre Niollant comunicou assim sua ousadia de crítica e sua
facilidade de julgamento à aluna, sem cuidar que essas qualidades, tão
necessárias a um homem, tornam-se defeitos numa mulher destinada às
humildes tarefas de mãe de família. E, embora lhe recomendasse
incessantemente que fosse tanto mais graciosa e modesta quanto maior fosse
o seu saber, a srta. de Nègrepelisse formou excelente opinião de si mesma e concebeu robusto desprezo pela humanidade.
Não vendo ao seu redor senão inferiores e criaturas solícitas em lhe
obedecer, apoderou-se dela a altivez das grandes damas, sem o leve lustro da
sua polidez. Lisonjeada em toda a sua vaidade por um pobre padre que nela
se contemplava como um autor em sua obra, teve a infelicidade de não
encontrar ponto algum de comparação que a ajudasse a se julgar.
A falta de companhia é um dos grandes inconvenientes da vida do
campo. Na impossibilidade de dedicar a alguém os pequenos sacrifícios
exigidos pela apresentação e pelo trato pessoal, perde-se o hábito de
incomodar-se pelos outros. Tudo em nós se vicia então, a forma e o espírito.
Não tendo sido reprimida pela prática da sociedade, a liberdade de ideias da
srta. de Nègrepelisse passou para os seus modos e para o seu olhar; tinha
esse ar de desembaraço que nos parece à primeira vista original, mas que só
aplica às mulheres de vida aventurosa. Desse modo, aquela educação, cujas
arestas ter-se-iam polido nas altas regiões sociais, torná-la-ia ridícula em
Angoulême, mal os seus adoradores deixassem de divinizar-lhe os erros, só
graciosos na juventude.
Quanto ao sr. de Nègrepelisse, daria todos os livros da filha para salvar
um boi doente; porque era tão avaro que não lhe concederia dois vinténs
além da renda a que ela tinha direito, mesmo quando se tratasse de
comprar-lhe a bagatela mais necessária à sua educação.
O padre faleceu em 1802, antes do casamento da discípula amada,
casamento que ele teria, sem dúvida, desaconselhado. O velho gentil-
homem viu-se bem embaraçado com a filha ao morrer o padre. Sentiu-se
fraco demais para suster a luta que se abriria entre a sua avareza e o espírito
independente da filha ociosa. Como todas as jovens saídas do caminho
restrito por onde devem andar as mulheres, Naïs prejulgara o casamento e
pouco se preocupava com ele. Repugnava-lhe submeter a sua inteligência e
a sua pessoa aos homens sem valor e sem grandeza pessoal que havia podido
encontrar. Queria mandar, e tinha de obedecer. Entre obedecer a caprichos
grosseiros, a espíritos sem indulgência para com seus gostos, e fugir com um
amante que lhe agradasse, ela não teria hesitado. O sr. de Nègrepelisse era
ainda bastante fidalgo para que lhe repugnasse um casamento desigual.
Como muitos outros pais, resolveu-se a casar a filha mais para sua própria tranquilidade do que por ela mesma. Era preciso encontrar um nobre ou um
cavalheiro não muito inteligente, incapaz de esmiuçar as contas da tutela
como as queria prestar, bastante nulo de espírito e de vontade para que Naïs
fosse livre de se conduzir a seu talante, assaz desinteressado para desposá-la
sem dote.
Mas como encontrar um genro que conviesse igualmente ao pai e à
filha? Tal homem seria a fênix dos genros. Com esse duplo fim, o sr. de
Nègrepelisse estudou os homens da província, e o sr. de Bargeton pareceu-
lhe ser o único que correspondia ao seu programa. O sr. de Bargeton,
quarentão muito estragado pelas dissipações amorosas da juventude, era
acusado de uma notável incapacidade intelectual; restava-lhe, porém,
suficiente bom senso para administrar a própria fortuna e bastante tino
social para permanecer na alta roda de Angoulême sem cometer faltas nem
fazer tolices.
O sr. de Nègrepelisse explicou cruamente à sua filha o valor negativo do
marido-modelo que lhe propunha, e lhe fez ver o partido que ela daí poderia
tirar para sua própria felicidade: desposaria armas com duzentos anos de
antiguidade, os De Bargeton esquartelam de ouro com três massacres de
veado de goles, postos dois e um, cruzados de três encontros de boi de
sable, postos um e dois; com um faixado de seis peças de blau e prata, o
blau carregado de seis vieiras de ouro, postas três, duas e uma.
Munida de um chaperon, ela administraria a seu sabor a fortuna, sob a
égide de uma razão social, e com o auxílio de relações que seu espírito e sua
beleza lhe proporcionariam em Paris. Naïs se deixou seduzir pela perspectiva
de semelhante liberdade. O sr. de Bargeton pensou fazer um brilhante
casamento, na esperança de que o sogro não tardasse muito a lhe deixar as
terras que arredondava com amor. A essa época, entretanto, o sr. de
Nègrepelisse tinha toda a aparência de que ainda haveria de redigir o
epitáfio do genro. A sra. de Bargeton encontrava-se então com trinta e seis
anos, e o marido com cinquenta e oito. Essa disparidade chocava tanto mais
quanto o sr. de Bargeton parecia ter setenta anos enquanto a mulher
poderia impunemente assumir ares de mocinha, vestir-se de cor-de-rosa ou
pentear-se como uma menina. Não obstante não exceder a sua fortuna a
doze mil libras de renda, fazia parte das seis fortunas mais consideráveis da velha cidade, se excetuarmos os negociantes e administradores. A
necessidade de cultivar a amizade do pai, de quem a sra. de Bargeton
esperava a herança, a fim de ir para Paris, e que tão bem soube fazer esperar
que o genro morreu antes dele, forçou o sr. e a sra. de Bargeton a habitar
Angoulême, onde as brilhantes qualidades de espírito e as gemas brutas
ocultas no coração de Naïs deveriam perder-se sem fruto, e mudar-se em
ridículo com o tempo. Efetivamente, os nossos ridículos são, em grande
parte, causados por um belo sentimento, por virtudes ou por faculdades
levadas ao extremo.
O orgulho não polido pelo roçar do grande mundo transforma-se em
emproamento, malbaratando-se em pequenas coisas em vez de
engrandecer-se num círculo de sentimentos elevados.
A exaltação, essa virtude na virtude, que cria as santas e inspira os
devotamentos ocultos e as poesias brilhantes, transforma-se em excessos
quando dedicada às ninharias da província. Longe do centro onde brilham
os grandes espíritos, onde o ar está carregado de ideias, onde tudo se renova,
a instrução envelhece, o gosto se corrompe como uma água estagnada. Na
falta de exercício, as paixões minguam avolumando as coisas mínimas. Aí
está a razão da avareza e dos diz que diz que empestam a vida da província.
Sem tardança, a imitação das ideias estreitas e das maneiras mesquinhas se
apossa da pessoa mais distinta. Assim perecem homens que haviam nascido
para ser grandes, e mulheres que, elevadas pelos ensinamentos da sociedade
e formadas por espíritos superiores, teriam sido encantadoras. A sra. de
Bargeton tangia a lira a propósito de uma bagatela, sem distinguir a poesia
íntima da poesia pública. Existem, sem dúvida, certas sensações
incompreendidas que devem ser guardadas em nós mesmos. Certamente
um pôr do sol é um grande poema, mas não será ridículo para uma mulher
descrevê-lo com palavras grandiloquentes diante de criaturas materialistas?
Há delicadas voluptuosidades que não podem ser saboreadas senão
entre duas criaturas, de poeta a poeta, de coração a coração. A sra. de
Bargeton tinha o defeito de empregar essas imensas frases eriçadas de
palavras enfáticas, tão engenhosamente chamadas tartines na gíria do
jornalismo, que todas as manhãs serve algumas bem pouco digeríveis aos
assinantes, e que entretanto eles engolem. Prodigalizava desmesuradamente superlativos que sobrecarregavam sua conversação, fazendo as menores
coisas assumirem proporções gigantescas. Começou desde essa época a tudo
tipificar, individualizar, sintetizar, dramatizar, superiorizar, analisar,
poetizar, prosaicizar, colossificar, angelizar, neologizar e tragificar;
porque é preciso violar por um momento a língua a fim de pintar os novos
caprichos que se apoderam de certas damas. Seu espírito se inflamava, aliás,
como sua linguagem. O ditirambo estava em seu coração e em seus lábios.
Palpitava, extasiava-se, entusiasmava-se por qualquer acontecimento: pelo
devotamento de uma irmã de caridade e pela execução dos irmãos Faucher,
[29] pelo Ipsiboé do sr. d’Arlincourt[30] como pela Anaconda de Lewis,[31]
pela evasão de Lavalette[32] como por uma de suas amigas que pusera em
fuga alguns ladrões, falando com voz grossa. Para ela, tudo era sublime,
extraordinário, estranho, divino, maravilhoso. Animava-se, encolerizava-se,
abatia-se, alcandorava-se, e quer olhando o céu ou a terra seus olhos se
enchiam de lágrimas. Gastava a vida em perpétuas admirações e se
consumia em estranhos desdéns. Compreendia o paxá de Janina,[33]
desejaria lutar com ele em seu serralho, e via qualquer coisa de grandioso em
ser cosida num saco e jogada à água. Invejava lady Esther Stanhope,[34]
essa pedante do deserto. Vinham-lhe desejos de se fazer irmã de santa
Camila e de ir morrer de febre amarela em Barcelona curando os pestosos:
seria um grande, um nobre destino! Tinha, enfim, sede de tudo o que não
fosse a água clara de sua vida, escondida entre as ervas. Adorava Lord Byron,
Jean-Jacques Rousseau, todas as existências poéticas e dramáticas. Tinha
lágrimas para todas as desgraças, e fanfarras para todas as vitórias.
Simpatizava com Napoleão vencido, simpatizava com Mehemet-Ali[35]
chacinando os tiranos do Egito. Revestia de uma auréola todas as criaturas
de gênio, e acreditava que elas viviam de perfumes e de luz. A muitas
pessoas parecia uma louca, mas de uma loucura sem perigo; a um
observador mais perspicaz, porém, essas coisas teriam parecido destroços de
magnífico amor que desabara apenas construído, restos de uma Jerusalém
celeste; em resumo, o amor sem o ser amado. E era verdade. A história dos
primeiros dezoito anos do casamento da sra. de Bargeton pode ser escrita em
poucas palavras: viveu durante algum tempo de sua própria essência e de
esperanças longínquas. Depois, quando viu que a vida de Paris, a que aspirava, lhe estava interdita pela mediocridade de sua fortuna, pôs-se a
examinar as pessoas que a cercavam, e sentiu um frêmito de solidão. Não
havia ao seu redor homem algum que lhe pudesse inspirar uma dessas
loucuras às quais se entregam as mulheres impelidas pelo desespero que lhes
causava a vida sem finalidade, sem acontecimentos, sem interesse.
Não podia contar com nada, nem mesmo com o acaso, porque há vidas
sem acasos. Ao tempo em que o Império brilhava em toda a sua glória,
quando da passagem de Napoleão pela Espanha, para onde enviara a nata
de suas tropas, as esperanças dessa mulher, frustradas até então, de novo
despertaram. A curiosidade a levou naturalmente a contemplar esses heróis
que conquistavam a Europa por uma palavra lida na ordem do dia, e que
renovavam os fabulosos feitos da cavalaria. As mais avarentas cidades, as
mais refratárias, eram obrigadas a festejar a guarda imperial, ao encontro da
qual saíam os maires e os prefeitos, com uma arenga nos lábios, dirigida à
realeza. A sra. de Bargeton, durante uma festa oferecida por um regimento à
cidade, enamorou-se de um gentil-homem, simples segundo-tenente a
quem a astúcia de Napoleão acenara com o bastão de marechal de França.
Essa paixão contida, nobre, grande, que contrastava com as de então, tão
facilmente atadas e desfeitas, foi castamente consagrada pela mão da morte.
Em Wagram, uma bala de canhão esmagou sobre o coração do marquês de
Cante-Croix o único retrato que atestava a beleza da sra. de Bargeton. Muito
tempo ela chorou o belo rapaz, que em duas campanhas se fizera coronel,
aquecido pela glória e pelo amor, e que punha uma carta de Naïs acima das
distinções imperiais. A dor depôs sobre a fisionomia dessa mulher um véu de
tristeza, uma nuvem que não se dissipou senão na idade terrível em que a
mulher começa a lamentar os belos anos passados sem os haver gozado, em
que vê suas rosas fanarem, em que os desejos de amor renascem na ânsia de
prolongar as últimas lembranças da juventude. Todas as suas qualidades
abriram-lhe feridas n’alma desde que o frio da província dela se apoderou.
Como o arminho, teria morrido de desgosto se, por acaso, se houvesse
manchado ao contato de homens que não pensavam senão em jogar alguns
níqueis, à noite, depois de um bom jantar. Seu orgulho a preservou dos
tristes amores da província. Entre a nulidade dos homens que a cercavam e
o nada, uma mulher tão superior teve de preferir o nada. Tanto o casamento como a sociedade constituíam, assim, um mosteiro para ela. Vivia pela
poesia, como a carmelita vive pela religião. As obras de estrangeiros ilustres,
até então desconhecidas, que se publicaram de 1815 a 1821, os grandes
tratados de De Bonald e os de De Maistre,[36] essas duas águias do
pensamento, e até as obras menos grandiosas da literatura francesa cujos
primeiros rebentos brotavam com tanto vigor, embelezaram-lhe a solidão,
mas não lhe abrandaram nem o espírito nem a personalidade. Permaneceu
ereta e forte como uma árvore que houvesse suportado o golpe de um raio
sem ser abatida. Sua dignidade se elevou, sua realeza a fez preciosa e
requintada. Como todos os que se deixam adorar por quaisquer cortesãos, ela
imperava com os seus defeitos.
Tal era o passado da sra. de Bargeton, fria história, necessária porém
para fazer compreender sua ligação com Luciano, que tão singularmente foi
introduzido em sua casa. No inverno anterior, chegara à cidade alguém que
animara a vida monótona levada pela sra. de Bargeton. Vagara o lugar de
diretor das contribuições indiretas. O sr. de Barante[37] enviara para ocupá-
lo um homem cuja vida aventurosa depunha em seu favor o bastante para
que a curiosidade feminina lhe servisse de passaporte para a casa da rainha
do lugar.
O sr. du Châtelet, que nascera Sixto Châtelet apenas, mas que desde
1806 tivera a inteligência de se enobrecer, era um desses agradáveis rapazes
que, sob Napoleão, escaparam a todas as conscrições permanecendo nas
proximidades do sol imperial. Havia começado a carreira com o lugar de
secretário de uma princesa imperial. O sr. du Châtelet possuía todas as
incapacidades exigidas para o seu cargo. Bem-feito, bonito homem, bom
dançarino, sabendo jogar o bilhar, perito em todos os exercícios, medíocre
ator de sociedade, cantor de romanças, apreciador de bons ditos, pronto
para tudo, ágil, invejoso, tudo sabia e tudo ignorava. Nulo em música,
acompanhava ao piano, mediocremente, uma senhora que desejasse cantar
por complacência uma romança estudada com mil dificuldades durante um
mês. Incapaz de sentir a poesia, pedia ousadamente licença para
concentrar-se durante dez minutos para fazer um improviso, uma
quadrinha qualquer, banalíssima, e em que a rima substituía a ideia. O sr. du
Châtelet era ainda dotado do talento de completar uma tapeçaria cujas flores tivessem sido começadas pela princesa; segurava com graça infinita as
meadas de seda que ela enovelava, dizendo-lhe pequenas tolices em que a
malícia se escondia sob gaze mais ou menos transparente. Ignorante em
pintura, sabia copiar uma paisagem, esboçar um perfil, rabiscar um vestuário
e colori-lo.
Possuía, enfim, todos esses pequenos talentos que eram os grandes
veículos da fortuna num tempo em que a influência das mulheres sobre os
negócios era muito maior do que se imagina. Acreditava-se muito forte em
diplomacia, a ciência daqueles que não possuem nenhuma outra, e que, por
seu próprio vazio, mais profundos parecem; ciência, aliás, bastante cômoda,
por isso que se demonstra pelo exercício mesmo de seus altos empregos;
porque precisando de homens discretos, ela permite aos ignorantes nada
dizerem, fecharem-se em acenos de cabeça misteriosos; porque, enfim, o
homem mais forte nesta ciência é aquele que nada conservando a cabeça
acima da onda dos acontecimentos que simula conduzir, tudo reduzindo,
assim, a uma questão de leveza específica. Aí, como nas artes, encontram-se
mil mediocridades para um homem de gênio. Não obstante o seu serviço
ordinário e extraordinário junto da alteza imperial, o prestígio de sua
protetora não o pudera elevar ao Conselho de Estado: não que ele não
pudesse dar um delicioso referendário como tantos outros, mas porque a
princesa o achava mais bem colocado a seu lado do que em qualquer outro
lugar. Entretanto, foi feito barão, veio a Cassel como enviado extraordinário e
aí pareceu, com efeito, muito extraordinário. Em outros termos, Napoleão
servira-se dele, em meio de uma crise, como correio diplomático. Ao tombar o
Império, o barão du Châtelet aguardava a realização da promessa de ser
nomeado ministro na Vestfália, junto a Jerônimo. Vendo falhar o que ele
chamava uma embaixada de família, ficou desesperado; fez uma viagem ao
Egito com o general Armando de Montriveau.[38] Separado de seu
companheiro por estranhos acontecimentos, errou durante dois anos de
deserto em deserto, de tribo em tribo, cativo dos árabes que o revendiam uns
aos outros, sem poder tirar o menor partido das aptidões dele. Atingiu,
enfim, as possessões do imã de Mascate,[39] enquanto Montriveau se dirigia
para Tânger; mas teve a felicidade de encontrar em Mascate um barco
inglês que se fazia a vela, e pôde voltar a Paris um ano antes do que o companheiro de viagem. Suas desgraças recentes, certas ligações do passado,
serviços prestados a pessoas então influentes, o recomendaram ao
presidente do conselho, que o colocou junto ao sr. de Barante, para aguardar
a primeira diretoria a vagar. O papel desempenhado pelo sr. du Châtelet
junto à alteza imperial, sua reputação de homem de sorte, os singulares
acontecimentos de sua viagem, seus sofrimentos, tudo fez com que se
excitasse a curiosidade das mulheres de Angoulême. Informado das
maneiras da cidade alta, o barão Sixto du Châtelet se conduziu segundo seus
ditames. Fingiu-se doente, desgostoso, fatigado. Sob qualquer pretexto,
tomava a cabeça entre as mãos, como se seus sofrimentos não lhe dessem um
só momento de trégua, pequena manobra que recordava logo sua viagem e o
tornava interessante. Apresentou-se às autoridades superiores, ao general, ao
prefeito, ao recebedor geral e ao bispo: mostrou-se, porém, em toda parte
polido, frio, ligeiramente desdenhoso, como os homens que não ocupam o
lugar que lhes é devido e que esperam os favores do poder. Deixou adivinhar
dotes sociais, que se valorizaram por se conservarem desconhecidos; em
seguida, depois de se ter feito desejar, sem deixar arrefecer a curiosidade,
após ter reconhecido a nulidade dos homens e sagazmente examinado as
mulheres durante vários domingos na catedral, descobriu na sra. de
Bargeton a pessoa cuja intimidade lhe convinha. Contava com a música para
ver-lhe abertas as portas desse solar impenetrável aos estranhos. Mandou vir
secretamente uma missa de Miroir, estudou-a ao piano; e num belo domingo
que levara toda a sociedade de Angoulême à missa, extasiou os ignorantes
tocando o órgão. Reavivou assim o interesse que se havia ligado à sua pessoa,
fazendo indiscretamente circular o seu nome através dos representantes do
baixo clero. Ao sair da igreja, a sra. de Bargeton cumprimentou-o,
lamentando não ter ocasião de com ele fazer música; nesse encontro de
antemão preparado, ele fez naturalmente com que lhe oferecessem o
passaporte que não teria conseguido se o houvesse solicitado.
O hábil barão compareceu à casa da rainha de Angoulême, a quem
rendeu comprometedoras homenagens. Esse velho casquilho, pois tinha
quarenta e cinco anos, reconheceu naquela mulher toda uma juventude a
reanimar, tesouros a valorizar, e, quem sabe, a esperança de uma viúva rica
para desposar, uma aliança afinal com a família De Nègrepelisse, que lhe permitiria abordar em Paris a marquesa d’Espard, cuja influência lhe
poderia reabrir a carreira política. Apesar da parasita sombria e luxuriante
que danificava aquela bela árvore, resolveu dedicar-se a ela, podá-la, cultivá-
la e obter belos frutos. A Angoulême nobre protestou contra a introdução de
um infiel na casba,[40] porque o salão da sra. de Bargeton era o cenáculo de
uma sociedade isenta de mistura. Apenas o bispo ali costumava ir; o prefeito
era recebido duas ou três vezes por ano; o recebedor geral ali não penetrava
jamais. A sra. de Bargeton ia aos seus saraus, aos seus concertos, mas jamais
jantava em casa dele. Não aceitar o recebedor geral e acolher de bom grado
um simples diretor de rendas, essa inversão da hierarquia pareceu
inconcebível às autoridades desdenhadas.
Os iniciados nas minudências próprias de cada esfera social devem
compreender como o palácio de Bargeton se impunha à burguesia de
Angoulême. Para o Houmeau, as grandezas desse Louvre em ponto
pequeno, a glória desse palácio de Rambouillet[41] angoulemense brilhava a
enorme distância. Quantos ali se reuniam eram os mais lamentáveis espíritos,
as mais mesquinhas inteligências, os mais pobres senhores de vinte léguas em
torno. Ali a política se espraiava em banalidades verbosas e apaixonadas; ali
La Quotidienne[42] parecia tépido e Luís xviii era tido como jacobino.
Quanto às mulheres, na maior parte tolas e sem graça, vestiam-se mal, todas
tinham alguma imperfeição mal disfarçada. Nelas, nada era completo, nem
a conversação nem a indumentária, nem o espírito nem a carne. Não fossem
seus projetos acerca da sra. de Bargeton, Du Châtelet não se teria
conservado ali. Entretanto, as belas maneiras, o espírito de casta, o ar fidalgo,
o orgulho da pequena nobreza e a prática das regras de polidez enchiam
todo esse vazio. A nobreza dos sentimentos era ali mais real que nas altas
esferas parisienses; dali brotava um respeitável apego, apesar dos pesares,
[43] aos Bourbon. Tal sociedade se poderia comparar, se é que a imagem é
admissível, a uma prataria de velho estilo, enegrecida, mas pesada. A
imobilidade de suas opiniões políticas assemelhava-se à fidelidade.
A distância posta entre ela e a burguesia e a dificuldade de se chegar até
ela simulavam uma espécie de elevação e lhe davam um valor convencional.
Cada um desses nobres tinha seu preço para os habitantes, assim como o
molusco cauri serve de dinheiro entre os negros de Bambarra.
Muitas mulheres, lisonjeadas pelo sr. du Châtelet e nele reconhecendo
qualidades que faltavam aos homens de sua sociedade, trataram de
apaziguar os pruridos de amor-próprio: todas esperaram apropriar-se da
sucessão da alteza imperial. Os puristas pensaram que, embora se visse o
intruso em casa da sra. de Bargeton, não seria recebido em nenhuma outra
casa. Du Châtelet engoliu muitas impertinências, mas se manteve em sua
posição achegando-se ao clero. Lisonjeou depois os defeitos que a província
havia comunicado à rainha de Angoulême; levava-lhe todos os livros novos,
lia-lhe as poesias que apareciam. Extasiavam-se juntos sobre as obras dos
poetas jovens, ela de boa-fé, ele caceteado, mas tolerando os poetas
românticos, que, como homem da escola imperial, pouco compreendia. A
sra. de Bargeton, entusiasmada com a renascença devida à influência da
flor-de-lis, admirava Chateaubriand por ter ele chamado Victor Hugo de
menino sublime. Triste por não conhecer o gênio senão de longe, suspirava
por Paris, onde viviam os grandes homens. O sr. du Châtelet pensou então
maravilhá-la informando-a de que havia em Angoulême um outro menino
sublime, um jovem poeta que, sem o saber, sobrepujava em brilho o raiar
sideral das constelações parisienses. Um futuro grande homem nascera no
Houmeau! O diretor do colégio mostrara ao barão poemas admiráveis. Pobre
e modesto, o rapaz era um Chatterton[44] sem covardia política, sem o ódio
feroz contra as grandezas sociais, que impeliu o poeta inglês a escrever
panfletos contra seus benfeitores. Cercada de cinco ou seis pessoas que
compartilhavam seu gosto pelas artes e pelas letras — este porque arranhava
um violino, aquele porque punha um ou outro borrão de sépia em papel
branco, um em sua qualidade de presidente da sociedade de agricultura,
outro em virtude de uma voz de baixo que lhe permitia cantar em forma de
halali o Se fiato in corpo avete[45] —, a sra. de Bargeton se encontrava
entre essas figuras fantásticas como um faminto diante de um jantar de
teatro onde as iguarias são de papelão. Assim, nada conseguiria pintar sua
alegria quando soube da novidade. Queria ver esse poeta, esse anjo!, tomou-
se de amores por ele, entusiasmou-se, falou dele horas inteiras. Dois dias
depois, o antigo correio diplomático já conseguira combinar com o diretor do
colégio a apresentação de Luciano em casa da sra. de Bargeton.
Apenas vós, pobres hilotas da província para quem as distâncias sociais são mais longas de percorrer do que para os parisienses, aos olhos dos quais
elas se encurtam todo dia, vós, sobre quem pesam tão duramente as grades
entre as quais cada um dos diferentes mundos do mundo se anatematiza e
se diz Raca,[46] somente vós compreendereis a agitação que lavrou na
cabeça e no coração de Luciano Chardon quando seu imponente diretor lhe
disse que as portas do palácio de Bargeton iriam abrir-se para ele! A glória as
havia feito girar sobre os gonzos! Seria bem acolhido naquela casa cujas
velhas pinhas atraíam seu olhar ao passear à tarde por Beaulieu com David,
pensando que seus nomes não chegariam talvez jamais àqueles ouvidos
duros à ciência quando ela partia de muito baixo.
Só sua irmã foi iniciada no segredo. Como boa dona de casa, como divina
adivinha, Eva tirou alguns luíses do seu mealheiro a fim de comprar sapatos
para Luciano na melhor casa de Angoulême, e um traje novo no mais célebre
alfaiate. Guarneceu-lhe a melhor camisa com um peitilho que ela mesma
engomou e pregueou. E que alegria, quando o viu assim vestido, como se
sentiu orgulhosa do irmão! Quantas recomendações! Lembrou-se de mil
pequenos nadas. O hábito da meditação havia dado a Luciano o costume de
apoiar os cotovelos assim que se sentava; chegava até a puxar uma mesa
para se apoiar. Eva lhe proibiu o deixar-se levar a movimentos descuidados
no aristocrático santuário. Acompanhou-o até a Porte Saint-Pierre, chegou
quase à frente da catedral, e ficou a vê-lo enquanto seguia pela Rue de
Beaulieu para chegar ao ponto onde o esperava o sr. du Châtelet. Depois a
pobre rapariga ficou toda emocionada como se um grande acontecimento se
houvesse passado. Luciano em casa da sra. de Bargeton representava para
Eva o madrugar da fortuna. A santa criatura ignorava que lá onde começa a
ambição cessam os sentimentos ingênuos. Ao chegar à rue du Minage, nada
nas coisas exteriores espantou Luciano. O Louvre posto tão alto na sua
imaginação era uma casa construída da pedra de talhe típica da região e
dourada pelo tempo. Seu aspecto, bastante triste visto da rua, revelava-se
muito simples interiormente: era a corte de província, fria e limpinha; uma
arquitetura sóbria, quase monástica, bem conservada. Luciano subiu por
uma velha escada de balaústres de castanheiro, cujos degraus eram de
pedra até o primeiro andar.
Havendo atravessado uma antecâmara mesquinha e um grande salão mal iluminado, foi encontrar a soberana num salãozinho com lambris de
madeira esculpida e pintada de cinzento, ao gosto do século passado. O alto
das portas era ornado de camaïeu.[47] Um velho damasco vermelho,
pobremente enquadrado, decorava os panos da parede. Os móveis de forma
antiquada se escondiam lastimosamente sob capas de xadrez vermelho e
branco. O poeta avistou a sra. de Bargeton instalada sobre um canapé
acolchoado, diante de uma mesa redonda coberta com uma toalha verde,
iluminada por um candelabro de tipo antigo, com duas velas e quebra-luz. A
rainha não se levantou; voltou-se com agrado sobre a cadeira, sorrindo ao
poeta, a quem esse bamboleio serpentino comoveu bastante, achando-o de
grande distinção. A excessiva beleza de Luciano, a timidez de suas maneiras,
sua voz, tudo nele encantou a sra. de Bargeton. O poeta era já a própria
poesia.
O rapaz examinou, com olhares discretos, aquela mulher que lhe
pareceu em harmonia com seu renome: não desmentia nenhuma das ideias
que fizera sobre a grande dama. A sra. de Bargeton usava, seguindo moda
então recente, um pequeno gorro talhado em veludo negro. Esse toucado
sugeria uma lembrança da Idade Média, que se impunha ao moço,
ampliando, por assim dizer, a mulher; dele se escapava uma doida cabeleira
de um loiro vermelho, dourado à luz, ardente no contorno dos seus anéis. A
nobre dama tinha a tez luminosa com que a mulher compensa os pretensos
inconvenientes dessa cor fulva. Seus olhos cinzentos cintilavam; sua fronte,
já com leves rugas, coroava-os dignamente com sua massa branca
ousadamente modelada; eram cercados por uma zona nacarada onde, a
cada lado do nariz, duas veias azuis faziam sobressair a brancura desse
delicado enquadramento. O nariz apresentava certa curva bourbônica, que
acentuava a expressão do rosto comprido, nele colocando como que um
ponto mais vivo onde se delineava a atração real dos Condé. Os cabelos não
encobriam inteiramente o pescoço. O vestido, negligentemente trespassado,
deixava ver um colo de neve, onde o olhar adivinhava seios intactos e bem
implantados. Com os dedos finos e cuidados, mas um pouco secos, a sra. de
Bargeton fez ao jovem poeta um gesto amável para lhe indicar a cadeira que