A Comédia Humana 7: Ilusões Perdidas

Honoré de Balzac · Capítulo 4 de 6 · parte 6/6

Páginas do PDF

A Comédia Humana 7: Ilusões Perdidas

Primeira Parte • os Dois Poetas

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

Habituados às atenções que inspira uma bela mocidade, felizes com essa

egoísta proteção que o mundo concede a um ente que lhe é agradável, como

dá esmola ao mendigo que desperta um sentimento e lhe dá uma emoção,

muitas dessas crianças grandes gozam esse favor em lugar de o explorar.

Enganados sobre o sentido e o móvel das relações sociais, pensam que hão de

encontrar sempre falazes sorrisos; mas chegam nus, calvos, despojados, sem

valor nem fortuna, ao momento em que, como velhas coquetes e velhos

farrapos, o mundo os abandona à porta de um salão ou ao canto de uma

esquina.

Eva tinha desde o começo desejado essa demora, queria adquirir

economicamente as coisas necessárias a um jovem casal. Que poderiam

recusar dois noivos a um irmão que, vendo a irmã trabalhar, dizia com um

acento vindo do coração: “Eu desejaria saber coser!”?

Além de tudo, o grave e observador David era cúmplice desse

devotamento. Todavia, depois do triunfo de Luciano em casa da sra. de

Bargeton, teve medo da transformação que se operava em Luciano; temia vê-lo desprezar os costumes burgueses. Desejando pôr o irmão à prova,

David o colocou algumas vezes entre as alegrias patriarcais da família e os

prazeres da alta sociedade, e, ao ver Luciano lhes sacrificar suas vaidosas

satisfações, exclamara:

— Não no-lo corromperão jamais!

Várias vezes os três amigos e a sra. Chardon saíram a divertir-se num

passeio dos que se fazem na província: iam perambular pelos bosques

vizinhos de Angoulême e ao longo do Charente, jantavam no campo com

provisões que o aprendiz de David levava a um certo lugar e numa hora

combinada; depois voltavam ao anoitecer, um pouco fatigados, sem ter

dispendido três francos.

Nas grandes ocasiões, quando jantavam no que se chama um restaurât,

espécie de restaurante campestre que se classifica entre o bouchon das

províncias e a guinguette de Paris, gastavam até cem sous repartidos entre

David e os Chardon. David sentia uma gratidão infinita por Luciano

esquecer, nesses passeios campestres, as satisfações que encontrava em casa

da sra. de Bargeton e os suntuosos jantares da sociedade. Todos queriam

então festejar o grande homem de Angoulême.

Nessa conjuntura, quando já quase nada faltava ao futuro casal, durante

uma viagem feita por David a Marsac para conseguir que o pai viesse assistir

ao seu casamento, na esperança de que o velhote, conquistado pela nora,

contribuísse para as enormes despesas necessárias ao arranjo da casa, teve

lugar um desses acontecimentos que, numa cidade pequena, mudam

inteiramente a face das coisas.

Luciano e Luísa tinham em Du Châtelet um espião íntimo que

espreitava, com a persistência de um ódio mesclado de paixão e de avareza,

a ocasião de fazer estalar um escândalo. Sixto queria forçar a sra. de

Bargeton a se pronunciar tão claramente por Luciano que se tornasse o que

se chama perdida. Ele se fizera humilde confidente da sra. de Bargeton;

mas, se admirava Luciano na rue du Minage, desprestigiava-o por toda a

parte. Havia insensivelmente conquistado intimidade em casa de Naïs, que

não mais desconfiava de seu antigo adorador; mas havia presumido demais

quanto aos dois amantes, cujo amor continuava platônico, para grande

desespero de Luísa e Luciano. Há sem dúvida paixões que se iniciam mal ou bem, como quiserdes. Duas pessoas lançam-se na tática dos sentimentos,

falam em lugar de agir e se batem em campo raso em vez de fazer um cerco.

Cansam-se, assim, a si próprios, fatigando seus desejos em vão. Os amantes

têm então tempo para refletir e para se julgarem. Muitas vezes, paixões que

haviam entrado em campo de estandartes desfraldados, orgulhosas, com um

ardor capaz de tudo lançar por terra, acabam por voltar sem vitória,

envergonhadas, desarmadas, atoleimadas por seu barulho vão. Essas

fatalidades são explicáveis por vezes pela timidez da mocidade e pelas

contemporizações em que se comprazem as mulheres sem experiência,

porque essa espécie de enganos mútuos não acontece nem aos fátuos que

sabem como agir nem às coquetes habituadas aos manejos da paixão.

A vida de província é, aliás, singularmente contrária às satisfações do

amor e favorece os debates intelectuais da paixão, como também os

obstáculos que ela opõe ao doce comércio que tanto liga os amantes

precipitam as almas ardentes em lances extremos. Tal vida é baseada numa

espionagem tão meticulosa, numa tão grande transparência dos interiores,

admite tão pouco a intimidade que consola sem ofender a virtude, as mais

puras relações são nela tão desarrazoadamente incriminadas que muitas

mulheres são desacreditadas, apesar de inocentes. Algumas delas se

arrependem então de não fruírem todas as felicidades de uma falta da qual

sofrem todos os desgostos. A sociedade que vitupera ou critica sem nenhum

exame sério os fatos patentes pelos quais terminam longas lutas secretas é

assim primitivamente cúmplice desses escândalos; mas a maior parte das

pessoas que deblateram contra os pretensos escândalos dados por mulheres

caluniadas sem razão jamais pensaram nas causas que nelas determinam

uma resolução pública. A sra. de Bargeton ia encontrar-se na bizarra situação

em que se têm encontrado tantas mulheres que não se perderam senão

depois de serem injustamente acusadas.

No começo da paixão, os obstáculos aterram as criaturas inexperientes, e

aqueles com que se defrontavam os dois amantes assemelhavam-se muito

aos laços com os quais os liliputianos amarraram Gulliver. Eram ninharias

multiplicadas que tornavam qualquer movimento impossível e que anulavam

os mais violentos desejos. Assim, a sra. de Bargeton devia estar sempre visível.

Se mandasse fechar sua porta nas horas em que Luciano vinha, diriam tudo a seu respeito; seria o mesmo que fugir com ele. Recebia-o, é verdade, nesse

toucador ao qual ele tão bem se havia acostumado que se acreditava dono

dele; mas as portas permaneciam conscienciosamente abertas.

Tudo se passava do modo mais virtuoso deste mundo. O sr. de Bargeton

passeava pela casa como um besouro, sem pensar que sua mulher quisesse

estar só com Luciano. Se não houvesse outro obstáculo senão ele, Naïs

poderia muito bem afastá-lo ou lhe dar uma ocupação; mas via-se

sobrecarregada de visitas, e tanto mais visitantes apareciam quanto mais a

curiosidade ia sendo despertada.

Os provincianos são naturalmente importunos, gostam de contrariar as

paixões nascentes. Os criados iam e vinham pela casa sem ser chamados e

sem anunciar sua entrada, em virtude de velhos hábitos adquiridos, e que

uma mulher que nada tinha a esconder os havia deixado tomar. Mudar os

hábitos internos da casa não seria confessar o amor de que toda Angoulême

ainda duvidava? A sra. de Bargeton não podia pôr o pé fora de casa sem que

a cidade soubesse aonde ela ia. Passear só com Luciano fora da cidade seria

um passo decisivo: menos perigoso seria fechar-se em casa com ele. Se

Luciano ficasse até depois de meia-noite em casa da sra. de Bargeton, sem

ali estar acompanhado, isso seria glosado no dia seguinte. Assim, no interior

como fora, a sra. de Bargeton vivia sempre em público. Estes pormenores

pintam toda a província: as faltas são ali confessadas ou impossíveis.

Luísa, como todas as mulheres arrastadas por uma paixão sem ter dela

experiência, reconhecia uma por uma as dificuldades de sua posição e se

assustava. Seu temor reagia então sobre essas discussões amorosas que

tomam as mais belas horas de dois amantes quando se encontram a sós. A

sra. de Bargeton não possuía terras para onde pudesse levar seu querido

poeta, como fazem algumas mulheres que, sob pretextos habilmente

forjados, vão-se enterrar no campo. Fatigada de viver em público, levada ao

extremo por essa tirania, achando maior a dureza do seu jugo que a doçura

do seu prazer, lembrou-se de Escarbas e pensou em ir até lá ver seu velho

pai, tanto a irritavam esses miseráveis obstáculos.

Du Châtelet não acreditava em tanta inocência. Espreitava as horas em

que Luciano vinha à casa da sra. de Bargeton, e lá ia ter, passados alguns

instantes, fazendo-se sempre acompanhar do sr. de Chandour, o homem mais indiscreto do bando e ao qual cedia o passo para entrar, esperando

sempre uma surpresa ao procurar tão porfiadamente um acaso. Seu papel e

o êxito do seu plano eram tanto mais difíceis quanto devia ficar neutro, a fim

de dirigir todos os atores do drama que desejava fazer representar. Assim,

para sossegar Luciano, a quem lisonjeava, e a sra. de Bargeton, a quem não

faltava perspicácia, havia-se ligado aparentemente à ciumenta Amélia. Para

melhor fazer espionar Luísa e Luciano, havia conseguido desde alguns dias

estabelecer entre ele e Chandour uma controvérsia sobre os dois

enamorados. Du Châtelet pretendia que a sra. de Bargeton zombava de

Luciano, que era muito orgulhosa, muito bem-nascida para descer até o filho

de um farmacêutico. Esse papel de incrédulo convinha ao plano que havia

traçado, pois desejava passar por defensor da sra. de Bargeton. Estanislau

sustentava que Luciano não era um amante infeliz. Amélia aguilhoava a

discussão desejando saber a verdade. Cada um dava suas razões. Como

acontece nas cidades pequenas, muitas vezes alguns íntimos da casa

Chandour chegavam ao meio de uma conversa em que Du Châtelet e

Estanislau justificavam à porfia suas opiniões através de excelentes

observações. Era difícil que cada adversário não procurasse partidários

perguntando ao vizinho:

— E você, qual é o seu parecer?

Essa controvérsia mantinha a sra. de Bargeton e Luciano

constantemente em foco. Um dia, enfim, Du Châtelet fez notar que, todas

as vezes que Chandour e ele se apresentavam em casa da sra. de Bargeton e

que Luciano lá se encontrava, nenhum indício traía relações suspeitas: a

porta do toucador estava aberta, os criados iam e vinham, nada de misterioso

revelava os doces crimes do amor etc.

Estanislau, a quem não faltava certa dose de tolice, resolveu chegar no

dia seguinte andando na ponta dos pés, ao que a pérfida Amélia com

empenho o instigou. Esse dia seguinte foi para Luciano um daqueles em que

os jovens se arrancam alguns cabelos, jurando a si próprios não continuar o

néscio papel de aspirantes. Estava já habituado com a sua posição. O poeta

que havia tão timidamente tomado um lugar no sagrado toucador da rainha

de Angoulême metamorfoseara-se em apaixonado exigente. Seis meses

haviam bastado para que ele se acreditasse um igual de Luísa e desejasse agora tornar-se seu senhor. Partiu de casa prometendo a si mesmo que

haveria de ser muito desarrazoado, de pôr sua vida em jogo, de empregar

todos os recursos de uma eloquência inflamada, de dizer que havia perdido

a cabeça, que se tornara incapaz de um pensamento e de escrever uma

linha.

Existe em certas mulheres um horror às situações definidas com

antecipação, que faz honra à sua delicadeza. Querem ceder a um

arrebatamento e não a convenções. Geralmente ninguém aceita um prazer

imposto. A sra. de Bargeton notou na fronte de Luciano, em seus olhos, em

sua fisionomia e em suas maneiras esse ar agitado que trai uma resolução

assentada: propôs-se a frustrá-la, um pouco por espírito de contradição, mas

também por sua nobre concepção do amor. Mulher exagerada que era,

exagerava também o valor de sua pessoa. A seus próprios olhos, a sra. de

Bargeton era uma soberana, uma Beatriz, uma Laura. Sentava-se, como na

Idade Média, sob o pálio das justas literárias, e Luciano deveria merecê-la

depois de muitas vitórias. Ele deveria suplantar a criança sublime,[82]

Lamartine, Walter Scott, Byron. A pobre criatura considerava seu amor como

um princípio generoso: os desejos que inspirava a Luciano deveriam ser para

ele um motivo de glória. Esse quixotismo feminino é um sentimento que dá

ao amor uma consagração respeitável; ela o utiliza, engrandece-o, honra-o.

Obstinada em representar o papel de Dulcineia na vida de Luciano durante

sete ou oito anos, a sra. de Bargeton queria, como muitas outras mulheres da

província, fazer comprar sua pessoa por uma espécie de servidão, por um

tempo de constância que lhe permitisse julgar o amigo.

Quando Luciano se empenhou na luta por um desses fortes amuos de

que se riem as mulheres ainda donas de si mesmas e que só entristecem as

mulheres amadas, Luísa tomou um ar digno e começou um de seus longos

discursos lardeados de pomposas palavras.

— Foi isso o que você me prometeu, Luciano? — disse ela, concluindo: —

Não ponha num presente tão doce remorsos que mais tarde envenenariam

minha vida. Não estrague o futuro! E, com orgulho o digo, não estrague o

presente! Não tem todo o meu coração? Que lhe falta então? Seu amor se

deixará influenciar pelos sentidos, quando o mais belo privilégio de uma

mulher amada é o de lhes impor silêncio? Por quem me toma então? Não sou mais a sua Beatriz? Se não sou para você qualquer coisa mais que uma

mulher, sou menos que uma mulher.

— Não diria outra coisa a um homem a quem não amasse! — exclamou

Luciano, furioso.

— Se não sente tudo o que há de verdadeiro amor em minhas ideias, não

será jamais digno de mim.

— Põe em dúvida o meu amor para se dispensar de corresponder a ele —

disse Luciano, atirando-se aos pés dela e chorando.

O pobre rapaz chorou realmente ao se ver por tão longo tempo à porta

do paraíso. Foram lágrimas de poeta que se julgava humilhado em seu

poderio, lágrimas de criança desesperada por ver que lhe recusavam o

brinquedo que pedia.

— Não me amou nunca! — exclamava ele.

— Bem sabe que não é verdade o que está dizendo — respondeu ela,

lisonjeada por aquela violência.

— Prove-me então que me pertence — disse Luciano, desgrenhado.

Nesse momento, Estanislau chegou sem ser pressentido, viu Luciano

meio curvado, com os olhos cheios de lágrimas e a cabeça apoiada nos joelhos

de Luísa. Satisfeito com esse quadro suficientemente suspeito, Estanislau

voltou-se bruscamente para Du Châtelet, que se conservara à porta do salão.

A sra. de Bargeton se arremessou vivamente, mas não alcançou os dois

espiões, que se haviam precipitadamente retirado como pessoas importunas.

— Quem esteve aqui? — perguntou aos criados.

— Os srs. de Chandour e Du Châtelet — respondeu Gentil, seu velho

criado de quarto.

Ela voltou para o toucador, pálida e trêmula.

— Se eles o viram assim, estou perdida — disse a Luciano.

— Tanto melhor! — exclamou o poeta.

Ela sorriu a esse brado de egoísmo cheio de amor. Na província, uma tal

aventura se agrava pela maneira como é contada. Num momento todos

souberam que Luciano tinha sido surpreendido aos joelhos de Naïs. O sr. de

Chandour, feliz com a importância que o fato lhe dava, foi imediatamente

contar o grande acontecimento no Clube e depois de casa em casa. Du

Châtelet apressou-se a dizer por toda a parte que nada tinha visto; mas, pondo-se assim fora de causa, excitava Estanislau a falar e o fazia exagerar os

detalhes; e Estanislau, julgando-se espirituoso, acrescentava novas minúcias

em cada relato. À noite, a sociedade afluiu à casa de Amélia, porque à noite

as versões mais exageradas circulavam na Angoulême nobre, onde cada novo

narrador imitara Estanislau. Mulheres e homens estavam impacientes por

conhecer a verdade. As mulheres que velavam a face condenando mais o

escândalo, a perversidade, eram precisamente Amélia, Zefirina, Fifine e

Lolotte, que viviam todas mais ou menos sobrecarregadas de felicidades

ilícitas. O tema cruel sofreu variações em todos os tons.

— Então — dizia uma —, essa pobre Naïs, sabem? Por mim eu não creio,

ela tem diante de si toda uma vida irrepreensível, é muito orgulhosa para ser

algo mais que a protetora do sr. Chardon. Mas, se isso aconteceu, eu a lastimo

de todo o meu coração.

— Ela é tanto mais de lamentar quanto se dá a um ridículo espantoso,

visto que poderia ser mãe do sr. Lulu, como o chamou Jaques. Esse poetastro

tem, quando muito, vinte e dois anos, e Naïs, seja dito entre nós, tem os seus

quarenta.

— Eu — dizia Du Châtelet — acho que a situação mesma em que estava

o sr. de Rubempré prova a inocência de Naïs. Ninguém se põe de joelhos

para tornar a pedir o que já se obteve.

— Isto é conforme! — disse Francis com um ar malicioso que lhe valeu

uma olhadela reprovadora de Zefirina.

— Conte bem como foi — pediam a Estanislau, formando um comitê

secreto a um canto do salão.

Estanislau havia terminado por compor uma pequena história cheia de

indecências e a acompanhava de gestos e de atitudes que agravavam

prodigiosamente a coisa.

— É incrível! — repetiam.

— Ao meio-dia! — dizia uma.

— Naïs seria a última de quem eu haveria de suspeitar.

— Que irá ela fazer?

Depois, comentários, suposições infinitas!... Du Châtelet defendia a sra.

de Bargeton, mas a defendia tão desajeitadamente que atiçava o fogo do

falatório em lugar de apagá-lo. Lili, desolada com a queda do mais belo anjo do Olimpo de Angoulême, foi, toda em prantos, levar a nova ao bispado. Ao

ter certeza de que a cidade inteira se enchera de boatos, o feliz Du Châtelet

dirigiu-se à casa da sra. de Bargeton, onde não havia, ó infelicidade!, senão

uma mesa de uíste, e convidou diplomaticamente Naïs para conversar no

toucador. Sentaram-se ambos no pequeno canapé.

— Sabe sem dúvida — disse Du Châtelet em voz baixa — de que assunto

Angoulême toda se ocupa?

— Não — disse ela.

— Pois bem — tornou ele —, sou muito seu amigo para deixá-la na

ignorância. Devo mesmo avisá-la para que faça cessar as calúnias, sem

dúvida inventadas por Amélia, que tem a petulância de se acreditar sua

rival. Eu vinha vê-la esta manhã com esse macaco do Estanislau, que me

precedia de alguns passos, quando, ao chegar ali — disse, mostrando a porta

do toucador —, pretende ele tê-la visto com o sr. de Rubempré em uma

situação que não lhe permitia entrar; voltou-se para mim consternado,

arrastando-me, sem me dar tempo de compreender; estávamos já em

Beaulieu, quando me deu a razão de sua partida. Se eu a tivesse sabido logo,

não me teria movido desta casa, a fim de esclarecer o caso em seu proveito;

mas voltar aqui depois de haver saído nada provaria. Agora, quer Estanislau

tenha visto mal, quer bem, ele não deve ter razão. Naïs querida, não deixe

que sejam postos em jogo sua vida, sua honra e seu futuro por um tolo;

imponha-lhe silêncio imediatamente. Conhece minha posição no caso?

Apesar de precisar de todos aqui, eu lhe sou inteiramente devotado.

Disponha de uma vida que lhe pertence. Não obstante ter repelido meu

amor, meu coração será sempre seu e em qualquer ocasião saberei provar

quanto a amo. Sim, hei de velar pela senhora como um servidor fiel, sem

esperança de recompensa, unicamente pelo prazer que encontro em servi-la

mesmo à sua revelia. Esta manhã, afirmei por toda a parte que estava à porta

do salão e que nada vi. Se lhe perguntarem quem a informou sobre as

observações feitas a seu respeito, sirva-se de mim. Eu me sentiria bem

orgulhoso de ser seu defensor reconhecido; mas, aqui para nós, o sr. de

Bargeton é o único que pode pedir satisfações a Estanislau... Mesmo que esse

pequeno De Rubempré tivesse feito qualquer loucura, a honra de uma

mulher não poderia ficar à mercê do primeiro estúrdio que se põe a seus pés. É o que tenho dito.

Naïs agradeceu a Du Châtelet com uma inclinação de cabeça e ficou

pensativa. Estava cansada, enjoada até, da vida de província. Desde as

primeiras palavras de Du Châtelet, voltara os olhos para Paris.

O silêncio da sra. de Bargeton punha seu sábio adorador numa situação

incômoda.

— Disponha de mim, repito — disse ele.

— Obrigada — respondeu ela.

— Que pensa fazer?

— Verei.

Longo silêncio.

— Ama tanto assim esse pequeno De Rubempré?

Ela deixou escapar um orgulhoso sorriso e cruzou os braços olhando os

cortinados de seu toucador.

Du Châtelet saiu sem ter podido decifrar o coração daquela mulher

altiva. Ao saírem os quatro velhos fiéis que tinham vindo jogar sua partida

sem se importar com os mexericos problemáticos, a sra. de Bargeton deteve o

marido, que se dispunha a ir deitar-se, e isto no momento mesmo em que

abria a boca para desejar boa-noite à mulher.

— Venha até aqui, querido, preciso falar-lhe — disse com certa

solenidade.

O sr. de Bargeton seguiu a mulher até o toucador.

— Senhor — disse ela —, talvez eu tenha errado em pôr no meu interesse

protetor pelo sr. de Rubempré um calor tão mal compreendido pelas tolas

criaturas desta cidade como por ele mesmo. Esta manhã Luciano se atirou a

meus pés, aqui, fazendo-me uma declaração de amor. Estanislau entrou no

momento em que eu levantava essa criança. Desprezando os deveres que a

cortesia impõe a um gentil-homem para com uma mulher em qualquer

circunstância, pretendeu ele haver-me surpreendido numa situação

equívoca com esse rapaz, a quem eu tratava como merece. Se esse jovem

estouvado soubesse as calúnias a que sua loucura deu margem, eu o

conheço, iria insultar Estanislau e o forçaria a duelar. Essa ação seria como

uma confissão pública de seu amor. Não preciso dizer-lhe que sua mulher é

pura, mas há de julgar que seria desonroso, para o senhor e para mim, o fato de ser o sr. de Rubempré quem a defenda. Vá neste momento à casa de

Estanislau e peça-lhe seriamente uma satisfação pelos insultantes

comentários que fez a meu respeito. Pense bem: não deve consentir que o

caso se arranje, a menos que ele se retrate em presença de numerosas e

importantes testemunhas. O senhor conquistará assim a estima de todas as

pessoas honestas, se conduzirá como homem inteligente, como homem

galante, e terá maiores direitos à minha estima. Vou fazer partir Gentil a

cavalo para Escarbas, meu pai deverá ser sua testemunha; apesar da idade

dele, sei que é homem para calcar aos pés esse boneco que enodoa a

reputação de uma De Nègrepelisse. O senhor tem a escolha das armas,

batam-se a pistola, já que atira maravilhosamente.

— Vou até lá — respondeu o sr. de Bargeton, pegando a bengala e o

chapéu.

— Ótimo, meu amigo — disse a mulher, comovida —; assim é que gosto

dos homens. O senhor é um cavalheiro.

Ofereceu-lhe a fronte, que o ancião beijou todo orgulhoso e feliz.

Aquela mulher, que dedicava uma espécie de sentimento maternal

àquela criança grande, não pôde reprimir uma lágrima ao ouvir bater a porta

principal ao fechar-se atrás dele.

— Como me ama! — disse consigo. — O pobre homem, que é tão apegado

à vida, perdê-la-ia por mim sem pena.

O sr. de Bargeton não se inquietava por ter de postar-se no dia seguinte

diante de um homem, a olhar friamente a boca de uma pistola apontada

para ele; não, ele não se sentia embaraçado senão por uma coisa, e se

arrepelava todo ao se dirigir à casa do sr. de Chandour. “Que é que vou

dizer?”, pensava. “Naïs bem que poderia ter-me dado uma fórmula!” E

quebrava a cabeça para alinhavar algumas frases que não parecessem

ridículas.

Mas as pessoas que vivem, como vivia o sr. de Bargeton, mergulhadas no

silêncio imposto pela estreiteza de sua inteligência e seu pequeno alcance

têm, nas grandes circunstâncias da vida, uma solenidade maternal. Falando

pouco, naturalmente poucas asneiras lhes escapam; além disso, como a

extrema desconfiança de si próprias leva-as a refletir muito sobre o que

desejam dizer, estudam tão bem seus discursos que se exprimem maravilhosamente por um fenômeno igual ao que desatou a língua da burra

de Balaão.[83] O sr. de Bargeton se comportou, assim, como homem

superior. Justificou a opinião daqueles que o consideravam um filósofo da

escola de Pitágoras. Entrou em casa de Estanislau às onze horas da noite e ali

encontrou numerosas pessoas. Foi saudar silenciosamente Amélia e ofereceu

a todos seu parvo sorriso, que, dada a circunstância, pareceu

profundamente irônico. Fez-se então um grande silêncio, como acontece na

natureza à aproximação de uma tempestade.

Du Châtelet, que regressara, olhou, sucessivamente, de modo

significativo, para o sr. de Bargeton e para Estanislau, a quem o marido

ofendido polidamente abordou.

Du Châtelet compreendeu o sentido da visita feita àquela hora em que o

ancião costumava estar já deitado: Naïs guiava evidentemente aquele braço

débil, e, como sua posição junto de Amélia dava-lhe o direito de se imiscuir

nos negócios do casal, levantou-se, tomou o sr. de Bargeton à parte e lhe

disse:

— Quer falar a Estanislau?

— Sim — disse o velhote, feliz por encontrar um intermediário que talvez

tomasse a palavra por ele.

— Pois bem, vá ao quarto de dormir de Amélia — respondeu-lhe o diretor

das contribuições, feliz com esse duelo que poderia deixar a sra. de Bargeton

viúva, interdizendo-lhe o casamento com Luciano, causa do embate.

— Estanislau — disse Du Châtelet ao sr. de Chandour —, Bargeton vem,

sem dúvida, tomar-lhe satisfação do que você tem dito de Naïs. Venha aos

aposentos de sua mulher e procedam ambos como cavalheiros. Não façam

barulho algum, afetem muita polidez, tenham, enfim, toda a frieza de uma

dignidade britânica.

Num momento Estanislau e Du Châtelet dirigiram-se ao encontro de

Bargeton.

— Senhor — disse o marido ofendido —, pretende ter encontrado a sra.

de Bargeton numa situação equívoca com o sr. de Rubempré?...

— Com o sr. Chardon — corrigiu ironicamente Estanislau, que não

supunha Bargeton um homem forte.

— Que seja — tornou o marido. — Se não desmentir essa acusação em presença de todos os que estão em sua casa neste momento, peço-lhe que

indique uma testemunha. Meu sogro, o sr. de Nègrepelisse, virá procurá-lo às

quatro horas da manhã. Façamos cada um nossas disposições, porque o caso

não se poderá solucionar senão pelo modo que acabo de indicar. Escolho a

pistola, sou o ofendido.

Pelo caminho, o sr. de Bargeton havia ruminado esse discurso, o mais

longo de sua vida. Disse-o sem paixão e com o ar mais simples do mundo.

Estanislau empalideceu e pensou consigo: “Que foi que vi, afinal de

contas?”.

Mas, entre a vergonha de desmentir suas afirmações diante de toda a

cidade, em presença daquele mudo que parecia não querer tolerar

zombarias, e o medo, o pavoroso medo que lhe apertava a garganta com suas

mãos ardentes, escolheu o perigo mais afastado.

— Está bem. Até amanhã — disse ao sr. de Bargeton, pensando que o

caso talvez se pudesse ainda resolver.

Os três homens voltaram à sala e todos estudaram suas fisionomias: Du

Châtelet sorria, o sr. de Bargeton estava exatamente como se se encontrasse

em sua casa; mas Estanislau estava pálido. A esse aspecto, algumas das

senhoras adivinharam o objeto da conferência. As palavras “Eles vão bater-

se!” circularam de boca em boca. Metade da assembleia fixou-se na opinião

de que Estanislau era culpado, sua palidez e seus modos acusavam uma

mentira; a outra metade admirava a atitude do sr. de Bargeton. Du Châtelet

mostrava-se sério e misterioso. Depois de haver ficado alguns instantes a

examinar os semblantes, o sr. de Bargeton retirou-se.

— Tem pistolas? — disse Du Châtelet ao ouvido de Estanislau, que

estremeceu da cabeça aos pés.

Amélia compreendeu tudo e sentiu-se mal. As mulheres apressuraram-

se em levá-la para o quarto. Fez-se um barulho espantoso, todos falavam ao

mesmo tempo. Os homens ficaram no salão e declararam unanimemente

que o sr. de Bargeton estava em seu direito.

— Vocês acreditavam que o velhote fosse capaz de agir desta maneira?

— perguntou o sr. de Saintot.

— Mas — disse o impiedoso Jaques — na mocidade foi dos mais destros

nas armas. Meu pai muitas vezes me falou nas façanhas de De Bargeton.

— Bah! Ponha-os a vinte passos e errarão os tiros, se os fizer usar pistolas

de cavalaria — disse Francis a Du Châtelet.

Após todos haverem partido, Du Châtelet acalmou Estanislau e a mulher

assegurando-lhes que tudo iria bem, pois, num duelo entre um homem de

sessenta anos e um de trinta e seis, este levava todas as vantagens.

No dia seguinte pela manhã, no momento em que Luciano almoçava

com David, que voltara de Marsac sem o pai, a sra. Chardon entrou muito

assustada:

— Luciano, sabes a novidade em que se fala até no mercado? O sr. de

Bargeton quase matou o sr. de Chandour, esta manhã às cinco horas, nos

campos do sr. Tulloye, nome que dá lugar a trocadilhos.[84] Parece que o sr.

de Chandour andou dizendo ontem que te havia surpreendido com a sra.

de Bargeton.

— É falso! A sra. de Bargeton é inocente — exclamou Luciano.

— Um homem do campo, a quem ouvi contar os pormenores, viu tudo

de cima de sua carroça. O sr. de Nègrepelisse lá estava desde as três horas da

manhã para assistir o sr. de Bargeton e disse ao sr. de Chandour que, se

alguma desgraça acontecesse ao genro, ele se encarregaria de vingá-lo. Um

oficial do regimento de cavalaria emprestou as pistolas, que foram

experimentadas várias vezes pelo sr. de Nègrepelisse. O sr. du Châtelet quis

opor-se a que se experimentassem as pistolas, mas o oficial, que haviam

tomado como árbitro, disse que, a menos que se quisessem conduzir como

crianças, deveriam servir-se de armas em condições. As testemunhas

colocaram os adversários a vinte e cinco passos um do outro. O sr. de

Bargeton, que lá estava como se andasse a passear, atirou primeiro e alojou

uma bala no pescoço do sr. de Chandour, que caiu sem ter podido atirar. O

cirurgião do hospital declarou há pouco que o sr. de Chandour vai ficar com

o pescoço torto para o resto de seus dias. Vim contar-te o resultado desse

duelo para que não vás à casa da sra. de Bargeton e não te mostres em

Angoulême, porque os amigos do sr. de Chandour poderiam provocar-te.

Nesse momento, Gentil, o criado de quarto do sr. de Bargeton, entrou

conduzido pelo aprendiz da tipografia e entregou a Luciano uma carta de

Luísa.

Você já soube, sem dúvida, meu amigo, do resultado do duelo entre De

Chandour e meu marido. Não receberemos ninguém hoje; seja

prudente, não se mostre, peço-lhe em nome da afeição que tem por

mim.

Não acha que o melhor emprego a dar a este triste dia é vir escutar

sua Beatriz, cuja vida foi completamente mudada por este

acontecimento e que tem mil coisas para lhe dizer?

 

— Felizmente — disse David — meu casamento está marcado para depois de

amanhã; terás um pretexto para ir menos frequentemente à casa da sra. de

Bargeton.

— Querido David — respondeu Luciano —, ela me pede que vá vê-la

hoje. Creio que é preciso obedecer-lhe, ela saberá melhor do que nós como

me devo portar nas circunstâncias atuais.

— Tudo está pronto então aqui? — perguntou a sra. Chardon.

— Venha ver — exclamou David, feliz por mostrar a transformação por

que havia passado o apartamento do primeiro andar, onde tudo era

flamante e novo.

Respirava-se ali a doce atmosfera que reina nos lares jovens onde as

flores de laranjeira e o véu da desposada coroam ainda a vida interior, onde

a primavera do amor se reflete nas coisas, onde tudo é branco, limpo e

florido.

— Eva será como uma princesa — disse a mãe —; mas você gastou

dinheiro demais, fez loucuras!

David sorriu sem responder, porque a sra. Chardon pusera o dedo sobre

a chaga secreta que fazia o pobre enamorado sofrer cruelmente: suas

previsões haviam sido ultrapassadas de tal modo pela execução que lhe era

agora impossível fazer a edificação de cima do alpendre. Sua sogra não

poderia ter tão cedo o apartamento que ele lhe queria dar. Os espíritos

generosos sofrem a mais viva dor ao faltar a essa espécie de promessas que

são, de certo modo, como que as pequenas vaidades do carinho. David

escondia cuidadosamente o seu vexame, a fim de poupar o coração de

Luciano, que teria podido sentir-se acabrunhado com os sacrifícios por ele

feitos.

— Eva e as amigas têm trabalhado bastante também por seu lado — disse

a sra. Chardon. — O enxoval, a roupa da casa, tudo está pronto. Essas

meninas a querem tanto que, sem que ela soubesse, cobriram-lhe os

acolchoados com fustão branco, guarnecido de orlas cor-de-rosa. É lindo! Dá

mesmo vontade de casar.

Mãe e filha haviam empregado todas as suas economias para fornecer à

casa de David as coisas em que os rapazes nunca pensam.

Sabendo como ele estava fazendo tudo com luxo, pois havia até mesmo

um serviço de porcelana encomendado de Limoges, haviam tratado de pôr

em harmonia as coisas que trariam com as que David comprara. Essa

pequena luta de amor e generosidade deveria levar os dois esposos a se

acharem em apertos financeiros desde os primeiros tempos do casamento,

no meio de todos os sintomas de uma abastança burguesa que poderia ser

até considerada como luxo numa cidade atrasada como era então

Angoulême. Quando Luciano viu a mãe e David passarem para o quarto de

dormir, cujas tapeçarias azuis e brancas ele já conhecia, assim como o belo

mobiliário, esquivou-se para a casa da sra. de Bargeton. Encontrou Naïs

almoçando com o marido, que, com o apetite aguçado pelo passeio matinal,

comia sem preocupação alguma pelo que se havia passado. O velho gentil-

homem camponês, sr. de Nègrepelisse, uma imponente figura, resto da

velha nobreza de França, estava ao lado da filha. Quando Gentil anunciou o

sr. de Rubempré, o velho de cabeça branca lançou-lhe o olhar inquisidor de

um pai empenhado em julgar o homem que sua filha distinguiu. A

extraordinária beleza de Luciano impressionou-o tão vivamente que não

pôde reter um olhar de aprovação; pareceu-lhe, porém, ver na ligação da

filha mais um capricho que uma paixão duradoura. Terminado o almoço,

Luísa pôde levantar-se e, deixando o pai e o sr. de Bargeton, fez a Luciano

sinal para que a seguisse.

— Meu amigo — disse ela com um tom de voz triste e alegre ao mesmo

tempo —, vou a Paris, e meu pai leva Bargeton a Escarbas, onde ele ficará

durante minha ausência. A sra. d’Espard, uma dama de Blamont-Chauvry, a

quem estamos ligados pelos D’Espard, troncos da família dos Nègrepelisse, é

lá nesse momento muito influente por ela mesma e por seus parentes. Se se

dignar acolher-nos, pretendo frequentá-la muito: ela pode obter-nos por sua influência um lugar para Bargeton. Minhas solicitações poderão conseguir

que a Corte aceite fazê-lo deputado por Charente, o que auxiliará sua

nomeação aqui. Essa deputação poderá mais tarde favorecer meus passos

em Paris. E foste tu, minha criança querida, quem me inspirou esta

mudança de vida. O duelo desta manhã me obriga a fechar a casa por algum

tempo, pois haverá quem tome partido pelos Chandour contra nós. Na

situação em que nos encontramos, e numa cidade pequena, uma ausência é

sempre necessária para deixar aos ódios o tempo de se acalmarem. Mas ou

triunfarei para não mais ver Angoulême ou nada conseguirei e então hei de

esperar em Paris até que possa passar todos os verões em Escarbas e os

invernos em Paris. É a única vida digna de uma mulher que se preza, já

tardei bastante em tomá-la. Um dia será suficiente para todos os nossos

preparativos, partirei amanhã à noite, e você me acompanhará, não é

verdade? Você irá primeiro. Entre Mansle e Ruffec, eu o tomarei em minha

carruagem, e logo estaremos em Paris. Lá, querido, é que há vida para

criaturas superiores. Ninguém se encontra a gosto senão entre os seus pares;

sofre-se em qualquer outra parte. Depois, Paris, capital do mundo

intelectual, é o teatro para seu triunfo! Transponha logo o espaço que o

separa dela! Não deixe suas ideias criarem ranço na província, conviva logo

com os grandes homens que hão de representar o século xix. Aproxime-se da

Corte e do poder. Nem distinções nem dignidades vêm procurar o talento

que se estiola numa cidadezinha. Cite-me as belas obras executadas na

província! Veja, pelo contrário, o sublime e pobre Jean-Jacques

invencivelmente atraído por esse sol moral que cria a glória ao aquecer os

espíritos pelo atrito das rivalidades. Não acha que deve apressar-se a tomar

seu lugar entre a plêiade que se produz em cada época? Você não pode

imaginar o quanto é útil a um jovem talento ser posto em evidência pela alta

sociedade. Farei com que seja recebido em casa da sra. d’Espard; ninguém

consegue facilmente entrada em seu salão, onde há de encontrar todas as

grandes personagens, os ministros, os embaixadores, os oradores da Câmara,

os pares mais influentes, pessoas ricas ou célebres. Seria preciso ser bem

desasado para não despertar interesse quando se é belo, jovem e cheio de

talento. Os grandes talentos não conhecem a mesquinhez, e lhe darão apoio.

Quando souberem que você tem uma alta colocação, suas obras adquirirão imenso valor. Para os artistas, o grande problema a resolver é pôr-se em

evidência. Surgirão logo para você mil oportunidades para fazer fortuna,

sinecuras, uma pensão do governo. Os Bourbon gostam tanto de proteger as

letras e as artes! Seja ao mesmo tempo poeta religioso e poeta monarquista.

Não somente lhe ficará bem, mas fará fortuna. É a oposição, é o liberalismo

que dá os lugares, as recompensas, e que faz a fortuna dos escritores? Tome,

pois, o bom caminho e vá lá para onde vão todos os homens de gênio. Você

possui o meu segredo, guarde o mais profundo silêncio, e resolva-se a me

seguir. Não quer? — acrescentou, admirada da silenciosa atitude do amado.

Luciano, estonteado pelo rápido volver de olhos que lançara sobre Paris

ao ouvir aquelas palavras sedutoras, acreditou que não havia até então usado

senão metade do seu cérebro; pareceu-lhe que a outra metade se descobria,

tanto suas ideias se ampliavam. Viu-se em Angoulême como uma rã debaixo

de sua pedra ao fundo de um pântano. Paris e seus esplendores, Paris, que

se apresenta a todas as imaginações provincianas como um Eldorado,

apareceu-lhe com seu vestido de ouro, a cabeça cingida de pedrarias régias,

os braços abertos aos talentos. As pessoas ilustres iriam dar-lhe o abraço

fraternal. Lá, tudo sorriria ao gênio. Lá, nem fidalgotes ciumentos para

humilhar o escritor nem estúpida indiferença pela poesia. De lá brotavam as

obras dos poetas, lá elas eram pagas e trazidas à luz. Depois de haver lido as

primeiras páginas de O arqueiro de Carlosix, os livreiros abririam seus cofres

e lhe diriam: “Quanto quer?”. Compreendia além disso que, depois de uma

viagem em que se veriam unidos pelas circunstâncias, a sra. de Bargeton

seria inteiramente sua, viveriam juntos.

A essas palavras — “Não quer?” — ele respondeu com uma lágrima,

tomou Luísa pela cintura, apertou-a contra o coração e lhe jaspeou o

pescoço com beijos violentos. Depois, parou repentinamente como que

ferido por uma lembrança e exclamou:

— Meu Deus, minha irmã casa depois de amanhã!

Essa exclamação foi o último suspiro da criança nobre e pura. Os laços

poderosíssimos que ligam os jovens corações à família, ao primeiro amigo, a

todos os sentimentos primitivos, iam receber terrível golpe de machado.

— E então! — exclamou a altiva De Nègrepelisse. — Que tem de comum

o casamento de sua irmã e a marcha de nosso amor? Faz tanto empenho em ser corifeu dessas núpcias de burgueses e operários que não possa me

sacrificar suas nobres alegrias? Grande sacrifício! — disse ela com desprezo.

— Mandei meu marido esta manhã bater-se por sua causa! Vá, senhor,

deixe-me! Eu me enganei.

Caiu como que desfalecida sobre o canapé. Luciano a seguiu, pedindo

perdão, maldizendo a família, David e a irmã.

— Acreditava tanto em você! — disse ela. — O sr. de Cante-Croix tinha

uma mãe que ele idolatrava, mas para obter uma carta em que eu lhe dizia:

Estou contente! morreu em meio ao fogo. E você, quando se trata de viajar

comigo, não sabe renunciar a um banquete de núpcias!

Luciano quis matar-se e seu desespero foi tão verdadeiro, tão profundo,

que Luísa perdoou, mas fazendo sentir a Luciano que teria de resgatar

aquela falta.

— Vá, então — disse por fim. — Seja discreto e esteja amanhã à meia-

noite a uma centena de passos depois de Mansle.

Luciano sentiu pequena a terra sob seus pés. Voltou à casa de David,

seguido por suas esperanças como Orestes pelas fúrias, pois entrevia mil

dificuldades que se resumiam todas nestas palavras terríveis: “E o

dinheiro?”. A perspicácia de David o atemorizava tanto que ele se fechou em

seu lindo gabinete para serenar o aturdimento que lhe causava aquele novo

acontecimento. Era preciso então abandonar esse apartamento tão

carinhosamente montado, tornar inúteis tantos sacrifícios? Pensou que a

mãe poderia alojar-se ali. David economizaria assim a custosa construção que

projetara mandar fazer ao fundo do pátio. Sua partida iria acomodar a

família. Encontrou mil razões peremptórias para a fuga, porque nada há

mais jesuíta que um desejo. Correu em seguida ao Houmeau, à casa da irmã,

para lhe contar seu novo destino e tudo combinar com ela. Ao chegar diante

da botica de Postel, pensou que, se não houvesse outro meio, pediria

emprestada ao sucessor do pai a soma necessária à sua manutenção durante

um ano.

“Se eu viver com Luísa, um escudo por dia será para mim como uma

fortuna e isso não representa senão mil francos por ano”, pensou. “Ora,

dentro de seis meses estarei rico!”

Eva e a mãe ouviram, sob promessa de profundo segredo, as confidências de Luciano. Ambas choraram ao escutar o ambicioso; e, ao

indagar ele da causa daquela tristeza, disseram-lhe que tudo o que possuíam

fora absorvido pela roupa de mesa e da casa, pelo enxoval de Eva, por uma

quantidade de compras nas quais David não pensara e que elas se sentiam

felizes por ter feito, porque o impressor reconhecera a Eva o direito a um

dote de dez mil francos. Luciano comunicou-lhes então a ideia do

empréstimo, e a sra. Chardon se encarregou de ir pedir a Postel mil francos

por um ano.

— Mas, Luciano — disse Eva com um aperto no coração —, não vais

assistir então ao meu casamento? Oh! volta, eu esperarei alguns dias! Ela te

deixará por certo voltar aqui depois de quinze dias, uma vez que a tenhas

acompanhado! Ela nos concederá certamente oito dias, a nós que te criamos

para ela! Nossa união não será feliz se não estiveres presente... Mas terás o

bastante com mil francos? — disse ela interrompendo-se de chofre. — Ainda

que teu traje te vá divinamente, só tens um! Não tens mais que duas camisas

finas, as outras seis são de fazenda grosseira. Tens apenas três gravatas de

batista, as três outras são de tecido comum e, depois, teus lenços não são

bonitos. Acharás em Paris uma irmã para lavar tua roupa no dia mesmo em

que a vais precisar? Isso te é bem necessário. Não tens mais que um par de

calças de nanquim feito este ano; as do ano passado já te ficam curtas. É

preciso portanto que em Paris compres roupas; e os preços de Paris não são

os de Angoulême. Só tens dois coletes brancos convenientes, aos outros já

tive de cerzir. Olha, aconselho-te a que leves dois mil francos.

Nesse momento, David, que entrava, pareceu ter ouvido as últimas

palavras, porque examinou o irmão e a irmã guardando silêncio.

— Não me escondam nada — disse ele.

— Pois bem — exclamou Eva —, ele parte com ela!

— Postel — disse a sra. Chardon entrando sem ver David — consente em

emprestar os mil francos, mas apenas por seis meses, e quer uma letra de

câmbio tua abonada por teu cunhado, porque diz que não ofereces garantia

alguma.

A mãe voltou-se, viu o genro, e os quatro guardaram profundo silêncio. A

família Chardon sentiu o quanto havia abusado de David. Todos estavam

envergonhados. Uma lágrima rolou dos olhos do impressor.

— Não assistirás então ao meu casamento? — disse. — Não ficarás então

conosco? E eu que dissipei tudo o que tinha! Ah! Luciano, eu que trazia a

Eva suas pobres, modestas joias de noiva, não sabia — disse enxugando os

olhos e tirando os escrínios do bolso — que teria de lamentar havê-las

comprado.

Pousou várias caixinhas cobertas de marroquim sobre a mesa, diante da

futura sogra.

— Por que pensas tanto em mim? — disse Eva com um sorriso de anjo

que corrigia as palavras.

— Querida mamãe — disse o impressor —, diga ao sr. Postel que consinto

em dar minha assinatura, porque vejo em teu rosto, Luciano, que estás bem

decidido a partir.

Luciano inclinou mole e tristemente a cabeça, e um momento depois

disse:

— Não me julguem mal, meus anjos amados.

Abraçou Eva e David e os beijou apertando-os contra si, dizendo:

— Esperem o resultado e saberão quanto os quero. David, de que serviria

a grandeza de nossos pensamentos, se ela não nos permitisse fazer abstração

das pequenas cerimônias com que as leis emaranham os sentimentos? Minha

alma não estará aqui, apesar da distância? O pensamento não nos

aproximará? Não tenho acaso um destino a cumprir? Não virão as livrarias

procurar aqui meu Arqueiro de Carlos ix e As boninas? Um pouco mais

cedo, um pouco mais tarde, não será preciso fazer um dia o que hoje faço? E

poderei encontrar circunstâncias mais favoráveis? Não é uma grande

fortuna conquistar, para minha estreia em Paris, o salão da marquesa

d’Espard?

— Tem razão — disse Eva. — Você mesmo não me dizia que ele deveria ir

logo para Paris?

David tomou Eva pela mão, levou-a para o estreito gabinete onde havia

sete anos ela dormia, e lhe disse ao ouvido:

— Meu amor, tu dizias que ele precisa de dois mil francos? Postel

empresta apenas mil.

Eva olhou para o noivo com um olhar assustado que revelava todos os

seus sofrimentos.

— Escuta, minha Eva adorada, vamos começar mal a vida. Sim, minhas

despesas absorveram tudo quanto eu possuía. Não me restam senão dois mil

francos, dos quais a metade é indispensável para fazer andar a tipografia.

Dar mil francos a teu irmão é dar o nosso pão, comprometer a nossa

tranquilidade. Se eu fosse só, sei o que faria, mas somos dois. Decide.

Eva, fora de si, atirou-se nos braços do noivo, beijou-o ternamente e lhe

disse ao ouvido, chorando:

— Faze como se estivesses só; trabalharei para tornar a ganhar essa

quantia!

Apesar do beijo mais ardente que dois noivos jamais tenham trocado,

David deixou Eva abatida e voltou à procura de Luciano.

— Não te entristeças — disse-lhe —, terás teus dois mil francos.

— Vão ver Postel — disse a sra. Chardon —, porque ambos têm de assinar

o papel.

Quando os dois amigos voltaram, surpreenderam Eva e a mãe de joelhos,

a rezar. Se elas sabiam quantas esperanças a mudança devia realizar,

sentiam naquele instante tudo o que perdiam nesse adeus, pois achavam a

felicidade futura paga demasiadamente caro com uma ausência que lhes ia

dilacerar as vidas e enchê-las de mil receios sobre o destino de Luciano.

— Se um dia esqueceres esta cena — disse David ao ouvido de Luciano

—, serás o último dos homens.

O impressor julgou, sem dúvida, necessárias essas graves palavras. A

influência da sra. de Bargeton não o assustava menos que a funesta

volubilidade de caráter que tanto poderia jogar Luciano em bom como em

mau caminho. Eva fez rapidamente os pacotes de Luciano. Esse Hernan

Cortez[85] literário pouca coisa levava. Pôs sua melhor sobrecasaca, seu

melhor colete, e uma das duas camisas finas. Toda a roupa interior, seu

famoso traje, seus pertences e seus manuscritos formaram um pacote tão

pequeno que, para escondê-lo aos olhos da sra. de Bargeton, David propôs

enviá-lo pela diligência a seu correspondente, um negociante de papel, ao

qual escreveria para que o conservasse à disposição de Luciano.

Apesar das precauções tomadas pela sra. de Bargeton para ocultar sua

partida, Du Châtelet soube dela e quis saber se ela faria a viagem só ou

acompanhada de Luciano. Mandou seu criado de quarto a Ruffec, com a missão de examinar todas as carruagens que fizessem mudas na posta.

“Se ela levar seu poeta”, pensou ele, “será minha.”

Luciano partiu no dia seguinte de madrugada, acompanhado por

David, que obteve um cabriolé e um cavalo, anunciando que ia tratar de

negócios com o pai, pequena mentira que, nas atuais circunstâncias, era

provável. Os dois amigos foram a Marsac, onde passaram parte do dia com o

velho Urso; depois, já de tarde, dirigiram-se para além de Mansle a fim de

esperar a sra. de Bargeton, que chegou madrugada alta.

Ao ver a velha caleça sexagenária que tantas vezes avistara na cocheira,

Luciano sentiu uma das maiores emoções de sua vida. Atirou-se nos braços

de David, que lhe disse:

— Permita Deus que seja para teu bem!

O impressor subiu de novo para o velho cabriolé e desapareceu com o

coração apertado, pois o assaltavam pressentimentos horríveis sobre o

destino de Luciano em Paris.