A Comédia Humana 7: Ilusões Perdidas
Primeira Parte • os Dois Poetas
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.
qualquer não é o bastante para a felicidade de uma vida? Como criatura
inteligente e generosa, Anaïs não abusara de suas vantagens ao reconhecer
no marido a natureza fácil de uma criança que nada pede de melhor que ser
governada.
Cuidava dele como se cuida de um capote; trazia-o limpo, escovava-o,
mimava-o, dirigia-o; e, sentindo-se dirigido, escovado, cuidado, o sr. de
Bargeton contraíra para com a mulher uma afeição canina. É tão fácil dar
uma felicidade que nada custa!
Não conhecendo a sra. de Bargeton no marido nenhum outro prazer
além do da mesa, mandava-lhe preparar excelentes jantares: tinha piedade dele; jamais se queixava; e algumas pessoas, que não compreendiam o
silêncio de seu orgulho, emprestavam ao sr. de Bargeton virtudes ocultas. Ela
o havia, aliás, disciplinado militarmente, e a obediência desse homem às
vontades da mulher era passiva. Ela lhe dizia: “Vá fazer uma visita ao sr.
Fulano ou à sra. Beltrana”, e ele ia como um soldado ao seu posto. Também
diante dela conservava-se imóvel e em atitude de sentido. Tratava-se na
ocasião de nomear esse mudo deputado. Luciano não frequentava ainda a
casa por tempo suficiente para levantar o véu sob o qual se escondia aquele
caráter inimaginável. O sr. de Bargeton, enterrado em sua poltrona,
parecendo tudo ver e tudo compreender e fazendo uma dignidade de seu
silêncio, pareceu-lhe prodigiosamente imponente. Em vez de tomá-lo por
um marco de granito, Luciano fez do gentil-homem uma esfinge temível,
dado o pendor que leva os homens de imaginação a tudo engrandecer ou a
emprestar uma alma a todas as formas, e achou necessário dirigir-lhe
algumas lisonjas.
— Sou o primeiro a chegar — disse ao saudá-lo com um pouco mais de
respeito do que o que se concedia ao velhote.
— É muito natural — respondeu o sr. de Bargeton.
Luciano tomou essas palavras pelo epigrama de um marido ciumento,
ficou vermelho e olhou-se ao espelho procurando uma atitude.
— Reside no Houmeau — observou o sr. de Bargeton — , e as pessoas que
moram longe chegam sempre mais cedo do que as que moram perto.
— Por que será? — perguntou Luciano, tomando um ar agradável.
— Não sei — respondeu o gentil-homem, reentrando na sua imobilidade.
— É que o senhor não quis procurar — tornou Luciano —; um homem
capaz de fazer a observação pode encontrar a causa.
— Ah! — fez o sr. de Bargeton. — As causas finais! Hé! hé!...
Luciano deu tratos à bola para reanimar a conversa, que morreu ali.
— A sra. de Bargeton está a vestir-se, sem dúvida — disse ele,
estremecendo com a tolice da observação.
— Sim, está se vestindo — respondeu naturalmente o marido.
Luciano levantou os olhos para as duas vigas salientes, pintadas de
cinza, cujos intervalos eram estucados, sem encontrar uma frase para
recomeçar, e foi então que viu, não sem terror, despojado de sua gaze e guarnecido de velas, o pequeno lustre de velhos pingentes de cristal. As
cobertas dos móveis haviam sido retiradas e a lustrina vermelha mostrava
suas flores fanadas. Tais aprestos anunciavam uma reunião extraordinária. O
poeta concebeu dúvidas sobre a conveniência de seu traje, porque calçava
botas. Foi olhar com o estupor do medo um vaso do Japão que ornava um
aparador com guirlandas do tempo de Luís xv; depois teve receio de
desgostar a esse marido não o cortejando e resolveu indagar se o velhote não
teria um fraco que se pudesse lisonjear.
— O senhor sai raramente da cidade? — disse ao sr. de Bargeton, para
junto de quem voltara.
— Raramente.
O silêncio recomeçou. O sr. de Bargeton espreitou como uma gata
desconfiada os menores movimentos de Luciano, que perturbava seu
repouso. Sentiam, afinal, medo um do outro. “Terá concebido alguma
desconfiança da minha assiduidade?” , pensou Luciano. “Porque ele me
parece bem hostil!”
Nesse momento, felizmente para Luciano, muito embaraçado por
sustentar os olhares inquietos com os quais o sr. de Bargeton o examinava
indo e vindo, o velho empregado, que vestira uma libré, anunciou o sr. Du
Châtelet. O barão entrou muito naturalmente, saudou seu amigo Bargeton, e
fez a Luciano um pequeno aceno com a cabeça como era o costume, mas
que o poeta achou tremendamente impertinente. Châtelet usava uma calça
de um branco deslumbrante, com presilhas internas que lhe mantinham as
pregas. Usava sapatos finos e meias de fio de lorgnon. Por fim, sua casaca
preta era perfeita para o corte e o estilo parisienses. Era, realmente, o janota
que seus antecendentes anunciaram. Mas a idade avançada já lhe dera uma
barriguinha redonda muito difícil de conter nos limites da elegância. Tinha
os cabelos e as suíças tingidos pelos sofrimentos das viagens, o que lhe dava
um ar duro. Sua pele, antes muito delicada, tinha adquirido o tom de cobre
das pessoas que voltam das Índias; mas sua aparência, apesar de risível para
suas pretensões, revelava o agradável secretário particular de uma alteza
imperial. Tomou o lorgnon, olhou para a calça de nanquim, as botas, o colete
e a casaca azul de Luciano, feita em Angoulême, enfim, para todo seu rival.
Depois meteu secamente o lorgnon no bolso do colete como se dissesse: “Estou contente”. Já humilhado pela elegância do financista, Luciano
pensou que descontaria quando mostrasse à assembleia seu rosto vivificado
pela poesia, mas mesmo assim sofreu profundamente, prolongando o mal-
estar interior causado pela pretensa hostilidade do sr. de Bargeton. O barão
parecia jogar sobre Luciano o peso de sua fortuna para melhor humilhar
aquela miséria. O sr. de Bargeton, que esperava não ter mais nada a dizer,
ficou consternado com o silêncio que os dois rivais sustentaram ao se
examinar; mas sempre que chegava ao fim de seus esforços tinha uma
pergunta que se reservava, como último trunfo, para o que desse e viesse, e
julgou necessário fazê-la assumindo ares atarefados:
— Muito bem, cavalheiro — disse a Du Châtelet —, o que há de novo? O
que anda dizendo?
— Mas — respondeu, maldoso, o diretor de impostos — o novo é o senhor
Chardon. Dirija-se a ele. Está nos trazendo algum belo poema? — perguntou
o buliçoso barão endiretando numa das têmporas o cacho maior, que lhe
pareceu desarrumado.
— Para saber se fui bem-sucedido, eu deveria tê-lo consultado —
respondeu Luciano. — O senhor praticou poesia antes de mim.
— Ora! Uns vaudeviles um tanto agradáveis feitos a pedidos, canções
ocasionais, romanças que a música valoriza, uma grande epístola que escrevi
a uma irmã de Buonaparte (que ingratidão se referir a Napoleão por este
nome!) não são títulos para a posteridade!
Nesse momento, a sra. de Bargeton mostrou-se em todo o esplendor de
uma vestimenta estudada. Trazia um turbante judeu ornado de um broche
oriental. Um lenço de gaze sob o qual brilhavam os camafeus de um colar
envolvia-lhe graciosamente o pescoço. O vestido de musselina estampada,
de mangas curtas, permitia-lhe mostrar vários braceletes dispostos sobre seus
brancos e belos braços. Esse traje teatral encantou Luciano. O sr. du Châtelet
dirigiu galantemente àquela rainha repugnantes cumprimentos que a
fizeram sorrir de prazer, tanto se sentiu feliz em ser louvada diante de
Luciano. Não trocou senão um olhar com o seu caro poeta e respondeu ao
diretor das contribuições mortificando-o com uma polidez que o excetuava
de sua intimidade.
Começaram a chegar os convidados. Em primeiro lugar, apresentaram-se o bispo e seu vigário-geral, duas figuras dignas e solenes que, entretanto,
formavam um violento contraste: o prelado era comprido e magro; seu
acólito era curto e gordo. Ambos tinham olhos brilhantes, mas o bispo era
pálido e seu vigário-geral mostrava um rosto purpureado pela mais rica
saúde. Tanto num como noutro os gestos e os movimentos eram raros. Ambos
pareciam prudentes, sua reserva e silêncio intimidavam, dizia-se que eram
muito inteligentes.
Os dois padres foram seguidos pela sra. de Chandour e seu marido,
personagens tão extraordinários que as pessoas que não conhecem a
província poderão ser tentadas a crer numa fantasia. O marido de Amélia, a
mulher que se apresentava como antagonista da sra. de Bargeton, o sr. de
Chandour, que se chamava Estanislau, era um pretenso jovem, elegante
ainda aos quarenta e cinco anos, cujo rosto parecia um crivo. A gravata era
sempre atada de maneira a apresentar duas pontas ameaçadoras, uma à
altura da orelha direita, outra que baixava em direção da fita vermelha de
sua cruz. As abas de sua casaca apresentavam-se violentamente dobradas. O
colete, muito aberto, deixava ver uma camisa estofada, engomada, fechada
com alfinetes sobrecarregados de obras de ourivesaria. Enfim, todo o seu
traje tinha um caráter exagerado que lhe dava tão grande semelhança com
uma caricatura que ao vê-lo os estranhos não podiam evitar um sorriso.
Estanislau se remirava continuamente, de alto a baixo, com certa satisfação,
verificando o número de botões do colete, seguindo as linhas ondulosas
desenhadas pelas calças colantes, acariciando as pernas com um olhar que
terminava amorosamente sobre as pontas das botas. Quando cessava de se
contemplar assim, seus olhos buscavam um espelho, examinava se os cabelos
conservavam a ondulação; interrogava as mulheres com um olhar feliz,
metendo um dos dedos no bolso do colete, curvando-se para trás e
colocando-se de três quartos em trejeitos de galo que o faziam notado na
sociedade aristocrática da qual era expoente. Seus discursos encerravam
quase sempre indecências como se usava no século xviii. Esse detestável
gênero de conversa lhe proporcionava alguns sucessos junto das mulheres,
fazendo-as rir. O sr. du Châtelet começava a lhe dar inquietações. Com
efeito, intrigadas pelo desdém do enfatuado titular das contribuições
indiretas, estimuladas por sua afetação em pretender que era impossível fazê-lo sair de seu marasmo e picadas por seu tom de sultão enfadado, as
mulheres o procuravam mais vivamente ainda que à sua chegada desde que
a sra. de Bargeton se havia apaixonado pelo Byron de Angoulême.
Amélia era uma mulherzinha desajeitadamente comediante, gorda, alva,
de cabelos negros, exagerando tudo, falando alto, fazendo roda com a
cabeça carregada de plumas no verão e de flores no inverno; boa
conversadora, não podia porém acabar os períodos sem lhes dar por
acompanhamento os silvos de uma asma inconfessada.
O sr. de Saintot, chamado Astolfo, presidente da Sociedade de
Agricultura, homem vermelho, alto e gordo, apareceu rebocado pela mulher,
tipo de rosto semelhante a um feto seco, a quem chamavam Lili, abreviatura
de Elisa. Esse nome, que sugeria na pessoa qualquer coisa de infantil,
contrastava com o caráter e as maneiras da sra. de Saintot, mulher solene,
extremamente piedosa, jogadora difícil e trapaceira. Astolfo passava por
sábio de primeira ordem. Ignorante como uma carpa, nem por isso deixara
de escrever os verbetes “açúcar” e “aguardente” de um dicionário de
agricultura, dois artigos compilados aos pedaços de todos os comentários de
jornal e obras antigas que tratassem desses dois produtos. Todo o
departamento o julgava ocupado num compêndio sobre a cultura moderna.
Não obstante passar toda a manhã encerrado em seu gabinete, não escrevera
sequer duas páginas nos últimos doze anos. Se alguém ia vê-lo, deixava-se
surpreender misturando papéis, procurando uma nota perdida ou
aparando a pena; empregava, porém, em frioleiras todo o tempo que ficava
em seu gabinete: lia demoradamente o jornal, esculpia rolhas a canivete,
traçava desenhos fantásticos sobre a pasta ou folheava Cícero para tomar ao
acaso uma frase ou passagens cujo sentido se pudesse aplicar aos
acontecimentos do dia; depois, à noite, esforçava-se para levar a conversa a
um assunto que lhe permitisse dizer: “Há em Cícero uma página que parece
ter sido escrita para o que se passa em nossos dias”. Recitava então sua
passagem com grande assombro dos ouvintes, que diziam entre eles:
“Verdadeiramente, Astolfo é um poço de sabedoria”. O fato curioso
espalhava-se por toda a cidade e a mantinha naquela crença lisonjeira sobre
o sr. de Saintot.
Depois dessa dupla, veio o sr. de Bartas, chamado Adriano, o homem que cantava árias de barítono e que tinha enormes pretensões em música. O
amor-próprio fizera com que dominasse o solfejo: começara por admirar-se a
si mesmo ao cantar, depois pôs-se a falar sobre música e acabara por ocupar-
se dela exclusivamente. A arte musical se havia tornado nele uma
monomania; só se animava ao falar sobre música, sofria durante uma
reunião enquanto não lhe pediam que cantasse. Uma vez que houvesse
bramido uma de suas árias, sua vida começava: envaidecia-se, alçava-se
sobre os calcanhares recebendo os cumprimentos, fazia-se de modesto, mas
ia, não obstante, de grupo em grupo para recolher elogios; depois, quando
tudo havia sido dito, voltava à música entabulando uma discussão a
propósito das dificuldades de sua ária ou gabando o compositor.
O sr. Alexandre de Brébian, o herói da sépia, o desenhista que infestava
as salas de seus amigos com produções absurdas e estragava todos os álbuns
do departamento, acompanhava o sr. de Bartas. Cada um deles dava o braço
à mulher do outro. Segundo dizia a crônica escandalosa, essa transposição
era completa. As duas mulheres, Lolota (sra. Carlota de Brébian) e Fifin (sra.
Josefina de Bartas), igualmente preocupadas com um fichu, uma guarnição
e com a combinação de algumas cores heterogêneas, sentiam-se devoradas
pelo desejo de parecer parisienses e negligenciavam suas casas, onde tudo ia
mal. Se as duas mulheres, comprimidas como bonecas em vestidos
economicamente arranjados, ostentavam uma coleção de cores
ultrajantemente bizarras, os maridos se permitiam, na qualidade de artistas,
um desleixo de província que os tornava curiosos de ver. Seus trajes
amarrotados lhes davam o ar dos comparsas que nos pequenos teatros
figuram a alta sociedade convidada para as núpcias.
Entre as figuras que aportaram no salão, uma das mais originais foi a do
sr. conde de Sénonches, aristocraticamente chamado Jaques. Grande
caçador, arrogante, seco, a cara crestada, amável como um javali,
desconfiado como um veneziano, ciumento como um mouro, vivia em muito
boa camaradagem com o sr. de Hautoy, também chamado Francis, o amigo
da casa.
A sra. de Sénonches (Zefirina) era alta e bela, mas já com a pele áspera,
devido a certa ardência do fígado que a fazia passar por mulher exigente.
Seu talhe fino, suas proporções delicadas permitiam-lhe ter maneiras langorosas que cheiravam a afetação, mas exteriorizavam a paixão e os
caprichos sempre satisfeitos de uma pessoa amada.
Francis era um homem muito distinto, que deixara o consulado de
Valência e suas esperanças na diplomacia para viver em Angoulême junto a
Zefirina, também chamada Zizina. O ex-cônsul cuidava da casa, tratava da
educação dos filhos, ensinava-lhes as línguas estrangeiras e dirigia as
fortunas do sr. e da sra. de Sénonches com absoluto devotamento. A
Angoulême nobre, a Angoulême administrativa e a Angoulême burguesa
glosaram por muito tempo a perfeita unidade desse casal de três pessoas;
mas, com o tempo, esse mistério de trindade conjugal pareceu tão raro e tão
bonito que seriam capazes de julgar o sr. de Hautoy prodigiosamente imoral
se pensasse em casar. Além disso, começava-se a suspeitar mistérios
inquietantes no afeto da sra. de Sénonches por uma afilhada, srta. de La
Haye, que lhe servia de dama de companhia; e, apesar de algumas
impossibilidades aparentes, oferecidas pelas datas, encontravam-se
semelhanças surpreendentes entre Francisca de La Haye e Francis de
Hautoy.
Quando Jaques caçava pelos arredores, todos lhe pediam notícias de
Francis, e ele contava as pequenas indisposições de seu intendente
voluntário, mesmo antes de falar em sua mulher. Essa cegueira parecia tão
curiosa num homem ciumento que seus melhores amigos se divertiam em
fazê-lo falar e a explicavam aos que não conheciam o mistério a fim de os
divertir.
De Hautoy era um precioso janota cujos pequenos cuidados pessoais se
haviam transformado em efeminação e puerilidade. Ocupava-se de sua
tosse, de seu sono, de sua digestão e de sua comida. Zefirina havia levado o
seu factótum a considerar-se homem de saúde delicada: ela o agasalhava;
mimava-o; medicava-o; empanturrava-o de iguarias escolhidas como um
cãozinho fraldiqueiro; indicava-lhe ou lhe proibia este ou aquele alimento;
bordava-lhe coletes, pontas de gravatas e lenços; acabara por habituá-lo a
usar coisas tão bonitas que o metamorfoseava numa espécie de ídolo japonês.
Seu acordo era aliás perfeito: Zizine olhava Francis a propósito de tudo, e
Francis parecia ir buscar suas ideias nos olhos de Zizine. Censuravam ou
sorriam ao mesmo tempo, e pareciam consultar-se para dizer o mais simples bom-dia.
O mais rico proprietário dos arredores, o homem invejado por todos, o sr.
marquês de Pimentel e sua mulher, que reuniam entre os dois quarenta mil
francos de renda e passavam o inverno em Paris, vieram do campo em
caleça com seus vizinhos, o sr. barão e sra. baronesa de Rastignac,[61]
acompanhados da tia da baronesa e de suas filhas, duas encantadoras
raparigas, bem-educadas, pobres, mas vestidas com essa simplicidade que
tanto valoriza as belezas naturais. Tais pessoas, que eram certamente o escol
das amizades da casa, foram recebidas com um frio silêncio e com um
respeito cheio de inveja, sobretudo quando se viu a distinção do acolhimento
que lhes fez a sra. de Bargeton. As duas famílias pertenciam ao pequeno
número das pessoas que, na província, se conservam fora dos diz que diz
que, não se misturam a nenhuma sociedade, vivem num retraimento
silencioso e guardam uma imponente dignidade. O sr. de Pimentel e o sr. de
Rastignac eram chamados por seus títulos; nenhuma familiaridade
confundia suas mulheres e suas filhas à alta-roda de Angoulême;
aproximavam-se muito da nobreza da corte para se ocupar com as tolices da
província.
Por último chegaram o prefeito e o general, acompanhados pelo
cavalheiro camponês que, pela manhã, havia levado à casa de David a
monografia sobre o bicho-da-seda. Era, sem dúvida, algum maire de cantão,
recomendável por suas belas propriedades; mas suas maneiras e roupas
traíam um desambientamento completo da sociedade: não sabia onde meter
as mãos, andava à roda de seu interlocutor ao falar, levantava-se e tornava a
sentar-se para responder quando lhe falavam, parecia pronto a prestar um
serviço doméstico; mostrava-se alternativamente obsequioso, inquieto e
grave, apressava-se a rir de um gracejo, escutava com jeito servil e às vezes
tomava um ar sonso pensando que zombavam dele. Várias vezes durante a
reunião, sufocado pela sua monografia, tentou falar sobre o bicho-da-seda;
mas o infortunado sr. de Séverac caiu sobre o sr. de Bartas, que lhe
respondeu com música, e sobre o sr. de Saintot, que lhe citou Cícero. Lá pelo
meio da noite, o pobre maire acabou por se entender com uma viúva e sua
filha, sra. e srta. du Brossard, que não eram as figuras menos interessantes
daquela sociedade. Uma só frase dirá tudo: eram tão pobres quanto nobres. Tinham em suas roupas essa pretensão a enfeites que revela uma secreta
miséria. A sra. du Brossard gabava muito desajeitadamente e a todo
propósito sua grande e gorda filha de vinte e sete anos, que passava por ser
muito forte no piano; fazia-a oficialmente compartilhar os gostos das pessoas
casadouras e, em seu desejo de estabelecer sua cara Camila, havia na mesma
noite pretendido que Camila amava a vida errante das tropas e a vida
tranquila dos proprietários que cultivam suas terras. Ambas tinham a
dignidade dengosa e agridoce das pessoas que cada qual se sente encantado
de lastimar e pelas quais a gente se interessa por egoísmo, dessas que já
sondaram o vazio das frases consoladoras com que a sociedade sente prazer
em acolher os desgraçados. O sr. de Séverac contava cinquenta e nove anos,
era viúvo e sem filhos; mãe e filha escutaram, portanto, com devota
admiração os detalhes que ele lhes deu sobre sua criação de bicho-da-seda.
— Minha filha sempre amou os animais — disse a mãe. — Por isso, como
a seda que é feita por esses bichinhos interessa às mulheres, se me permitisse
eu iria a Séverac mostrar a Camila como isso se colhe. Camila é tão inteligente
que compreenderá imediatamente tudo o que lhe disser. Pois não é que ela
compreendeu um dia a razão inversa do quadrado das distâncias!
Esta frase fechou com chave de ouro a conversa entre o sr. de Séverac e
a sra. du Brossard, já depois da leitura de Luciano.
Alguns mais íntimos se insinuaram familiarmente na assembleia,
seguidos de dois ou três filhos de família, tímidos, silenciosos, enfeitados
como relicários, felizes por terem sido convidados para aquela solenidade
literária, e dos quais o mais ousado se emancipou a ponto de conversar muito
com a srta. de La Haye. Todas as mulheres se dispuseram gravemente num
círculo, por trás do qual os homens ficaram de pé. Aquela assembleia de
personagens bizarras, com roupas heteróclitas e caras mascaradas, pareceu
muito imponente a Luciano, cujo coração palpitou ao ver-se objeto de todos
os olhares. Por mais ousado que fosse, não pôde enfrentar facilmente essa
primeira prova, apesar dos encorajamentos de sua amada, que desenvolveu
todo o fausto de suas reverências e de suas mais preciosas graças ao receber
as ilustres sumidades do Angoumois. O mal-estar de que se achava possuído
foi aumentando por uma circunstância fácil de prever, mas que devia
perturbar um rapaz ainda pouco familiarizado com a tática do mundo. Luciano, todo olhos e todo ouvidos, ouvia que era chamado de sr. de
Rubempré por Luísa, pelo sr. de Bargeton, pelo bispo, por alguns outros,
complacentes para com a dona da casa, e de sr. Chardon pela maioria desse
temível público. Intimidado pelas olhadelas interrogativas dos curiosos,
pressentia seu nome burguês somente pelo movimento dos lábios;
adivinhava os julgamentos antecipados que dele se faziam com a franqueza
provinciana, sempre muito próxima da impolidez. Essas contínuas
alfinetadas que não esperava o puseram ainda menos à vontade. Aguardava
com impaciência o momento de começar a leitura, a fim de tomar uma
atitude que pusesse fim àquele suplício interior; Jaques, porém, contava sua
última caçada à sra. de Pimentel; Adriano ocupava-se do novo astro musical
— Rossini — com a srta. Laura de Rastignac; Astolfo, que havia decorado
num jornal a descrição de uma nova charrua, falava dela ao barão.
Luciano, o pobre poeta, não sabia que nenhuma dessas inteligências,
exceto a da sra. de Bargeton, seria capaz de compreender a poesia. Todas
aquelas pessoas, privadas de emoção, haviam acorrido enganadas quanto à
natureza do espetáculo que as esperava. Há palavras que, semelhantes às
trombetas, aos címbalos, ao bombo dos saltimbancos, atraem sempre o
público. As palavras “beleza”, “glória”, “poesia” possuem sortilégios que
seduzem mesmo os espíritos mais grosseiros.
Chegados afinal todos os convidados e cessadas as conversas, graças às
mil advertências feitas aos interruptores pelo sr. de Bargeton, que a mulher
pusera como um porteiro de igreja que faz ressoar seu bastão sobre as lajes,
Luciano pôs-se à mesa redonda, junto à sra. de Bargeton, sentindo um
violento abalo de alma. Anunciou com voz turbada que, para não iludir a
expectativa de ninguém, ia ler obras-primas recentemente descobertas de
um grande poeta ainda pouco conhecido. Não obstante as poesias de André
de Chénier terem sido publicadas já em 1819, ninguém em Angoulême
ouvira ainda falar em tal poeta. Todos julgaram ver, nessa declaração, um
subterfúgio encontrado pela sra. de Bargeton para preservar o amor-próprio
do poeta e pôr os ouvintes à vontade. Luciano leu primeiro “O jovem
doente”, que foi acolhido com murmúrios lisonjeiros; depois, “O cego”,
poema que aqueles espíritos medíocres acharam longo. Durante sua leitura,
Luciano foi presa de um desses sofrimentos infernais que só podem ser perfeitamente compreendidos pelos grandes artistas ou por aqueles a quem
o entusiasmo ou uma alta inteligência põem ao seu nível. Para ser
interpretada pela voz, como para ser inteiramente sentida, a poesia exige
uma atenção religiosa. Deve estabelecer-se entre o leitor e o auditório uma
íntima comunicação, sem o que não se produzem as elétricas transmissões
dos sentimentos. Falte essa coesão de almas, e o poeta se encontra então
como um anjo tentando cantar um hino celeste em meio dos motejos do
inferno. Ora, na esfera em que se desenvolvem suas faculdades, os homens
de inteligência possuem a visão circular do caracol, o faro do cão e o ouvido
da toupeira; veem, cheiram, ouvem tudo a seu redor. O músico e o poeta
sabem-se tão imediatamente admirados ou incompreendidos como uma
planta revive ou seca em atmosfera amiga ou inimiga. Os murmúrios dos
homens que haviam vindo apenas por causa de suas mulheres e que falavam
de seus negócios repercutiam nos ouvidos de Luciano pelas leis dessa
acústica particular, assim como via os hiatos simpáticos de algumas
mandíbulas violentamente entreabertas e cujos dentes o afrontavam. Ao
procurar, tal como a pomba do dilúvio, um canto favorável onde seu olhar
pudesse pousar, só encontrava os olhos impacientes de pessoas que
pensavam evidentemente aproveitar-se da reunião para tratar de alguns
interesses positivos. Com exceção de Laura de Rastignac, de duas ou três
pessoas moças e do bispo, todos os assistentes se aborreciam. Sem dúvida, os
que compreendem a poesia procuram desenvolver em sua alma aquilo que o
autor pôs em germe nos seus versos; aqueles ouvintes frios, porém, longe de
aspirar a alma do poeta, nem sequer ouviam suas inflexões. Luciano sentiu
então um desânimo tão profundo que um suor frio molhou-lhe a camisa.
Um olhar de fogo, lançado por Luísa, para a qual se voltou, deu-lhe coragem
para ir até o fim; mas seu coração de poeta sangrava por mil feridas.
— Está achando interessante, Fifine? — perguntou à vizinha a seca Lili,
que se continha talvez por um supremo esforço.
— Não peça a minha opinião, querida, meus olhos se fecham assim que
ouço alguém ler.
— Espero que Naïs não nos ofereça frequentemente versos à noite —
disse Francis. — Se escuto uma leitura após o jantar, a atenção que sou
forçado a prestar perturba-me a digestão.
— Pobre gatinho — disse Zefirina em voz baixa —, bebe um pouco de
água com açúcar.
— Muito bem declamado — disse Alexandre —, mas prefiro o uíste.
Ouvindo essa resposta, que passou por espirituosa dada a significação
inglesa da palavra, [62] algumas jogadoras pretenderam que o leitor
precisava repousar. E, sob esse pretexto, um ou dois pares se esquivaram
para o gabinete da dona da casa. Luciano, instado por Luísa, pela
encantadora Laura de Rastignac e pelo bispo, despertou, porém, a atenção,
graças ao calor contrarrevolucionário dos Iambos,[63] que muitas pessoas,
levadas pelo ardor da declamação, aplaudiram sem compreender. Essa
espécie de pessoas é influenciável pela vociferação como os paladares
grosseiros são excitados pelos licores fortes. Num intervalo, enquanto se
tomavam sorvetes, Zefirina mandou Francis ver o volume e disse à sua
vizinha Amélia que os versos lidos por Luciano eram impressos.
— Mas — respondeu Amélia com visível satisfação — é bem simples, o sr.
de Rubempré trabalha em casa de um impressor. É — disse, olhando para
Lolotte — como se uma mulher bonita fizesse seus próprios vestidos.
— Ele próprio imprimiu suas poesias — diziam as mulheres umas para as
outras.
— Por que se chama então sr. de Rubempré? — perguntou Jaques. —
Um nobre, quando se dedica a um trabalho manual, deve abandonar seu
nome.
— Deixou efetivamente o seu, que era plebeu — disse Zizine —, mas para
tomar o da mãe, que é nobre.
— Visto que esses versos estão impressos, poderemos nós mesmos lê-los —
disse Astolfo.
Essa estupidez complicou a questão até que Sixto du Châtelet dignou-se
dizer à ignorante assembleia que a declaração não fora precaução oratória e
que aquelas belas poesias pertenciam a um irmão monarquista do
revolucionário Marie Joseph Chénier. Com exceção do bispo, da sra. de
Rastignac e das duas filhas, a quem os grandes poemas haviam arrebatado, a
sociedade de Angoulême acreditou-se lograda e se ofendeu com o embuste.
Um surdo murmúrio se elevou, mas Luciano nada ouviu. Isolado daquele
mundo odioso pela embriaguez produzida por uma melodia interior, esforçava-se por repeti-la; via as figuras como através de uma nuvem. Leu a
sóbria elegia sobre o suicídio, aquela no gosto antigo que respira uma
melancolia sublime; depois outra, onde se encontra este verso: “São doces os
teus versos, gosto de repeti-los”.[64] E terminou, enfim, pelo suave idílio
intitulado Neera.
Mergulhada num sonho delicioso, uma das mãos no cabelo, que havia
desfrisado sem se aperceber, a outra pendente, os olhos distraídos, sozinha
no meio de seu salão, a sra. de Bargeton sentiu-se pela primeira vez na vida
transportada para a esfera que lhe era própria. Julgai, pois, como não foi
desagradavelmente distraída por Amélia, que se encarregara de lhe exprimir
a opinião geral.
— Naïs, viemos para ouvir as poesias do sr. Chardon, e você nos dá versos
impressos. Ainda que esses fragmentos sejam muito bonitos, por bairrismo
estas senhoras prefeririam a prata da casa.
— Não acha que a língua francesa se presta pouco à poesia? — disse
Astolfo ao diretor das rendas. — Acho a prosa de Cícero mil vezes mais
poética.
— A verdadeira poesia francesa é a poesia ligeira, a canção — respondeu
Du Châtelet.
— A canção prova que nossa língua é muito musical — acrescentou
Adriano.
— Gostaria bastante de conhecer os versos que causaram a perda de Naïs
— disse Zefirina —, mas, dada a maneira como acolhe o pedido de Amélia,
vê-se que não está disposta a nos dar uma amostra.
— Ela deve a si mesma fazer com que ele os diga — respondeu Francis —
porque o talento desse rapazinho é toda a sua justificação.
— O senhor, que esteve na diplomacia, consiga isso — disse Amélia ao sr.
du Châtelet.
— Nada mais fácil — disse o barão.
O antigo secretário particular, habituado a esses pequenos manejos, foi
procurar o bispo e soube induzi-lo a fazer o pedido. À solicitação de sua
excelência reverendíssima, Naïs viu-se obrigada a pedir a Luciano que
dissesse um trecho qualquer que soubesse de cor. O pronto êxito do barão
nessa negociação valeu-lhe um lânguido sorriso de Amélia.
— Decididamente, o barão tem muito espírito — disse ela a Lolotte.
Lolotte lembrava ainda as palavras agridoces de Amélia sobre as
mulheres que fazem seus próprios vestidos.
— Desde quando admite os barões do Império? — respondeu, sorrindo.
Luciano havia tentado deificar a amada numa ode que lhe era
endereçada sob o título usado por todos os jovens ao sair do colégio. Essa ode,
tão complacentemente acariciada, embelezada por todo o amor que sentia
no coração, pareceu-lhe a única digna de se equiparar à poesia de Chénier.
Olhou, com um ar ligeiramente fátuo, para a sra. de Bargeton, ao dizer: “a
ela!”. Depois, tomou uma atitude orgulhosa para desenvolver essa peça
ambiciosa, pois seu amor-próprio de autor sentia-se à vontade por trás das
saias da sra. de Bargeton. Naquele instante, Naïs deixou que se revelasse seu
segredo aos olhos das mulheres. Apesar de habituada a dominar aquela
gente do alto de sua inteligência, não pôde deixar de tremer por Luciano.
Sua atitude tornou-se constrangida, seus olhares como que pediram
indulgência; depois, foi obrigada a permanecer de olhos baixos e a esconder
seu contentamento à medida que se sucederam as estrofes seguintes:[65]
a ela
Dos páramos da luz onde os anjos, atentos,
Ferindo as cordas de ouro em arpejos profundos,
Aos pés de Jeová repetem o lamento
Infindável dos mundos,
Quantas vezes um loiro querubim, de leve
Sombreando a luz de Deus que em sua fronte erra,
Deixa às portas do Céu as asas cor de neve
E desce sobre a Terra!
Nos olhos do Senhor viu ele a compaixão,
Do gênio perseguido ele adormenta a ânsia;
Como adorada filha, embala o pobre ancião
Entre as flores da infância;
“Espera!”, em sonhos diz à mãe aflita...
E, enquanto os remorsos tardios de pecador anota,
Vai colhendo, feliz, cada gota de pranto
Que da piedade brota.
Desses anjos do Céu um entre nós existe,
A que a Terra detém o passo, enamorada;
Mas ele chora, e fita o olhar saudoso e triste
Na paternal morada.
Não foi daquela fronte a alvura imaculada
Que assim me revelou sua nobre ascendência,
Nem o fulgor do olhar nem aquela ousada
E divina inocência...
É que, cego de luz, tentou meu coração
Unir-se finalmente à santa criatura:
Do terrível arcanjo eu encontrei então
A impenetrável armadura.
Não o deixem rever, quando ainda entre nós,
O serafim de luz que para o céu revoa!
Ele cedo demais compreenderia a voz
Que no mistério ecoa.
Vê-lo-iam, da noite a espedaçar os véus,
Como um raio da aurora, ir alcançando os astros,
Em um voo fraterno;
E o marujo que busca um presságio nos céus
De seu pé luminoso apontaria o rastro
Como um farol eterno.
— Compreende essa charada? — perguntou Amélia ao sr. du Châtelet,
dirigindo-lhe um olhar sedutor.
— São versos como os que todos nós, mais ou menos, fizemos ao sair do
colégio — respondeu o barão com um ar de tédio, para ficar fiel ao seu papel
de juiz a quem nada surpreende. — Outrora caíamos nas brumas ossiânicas:
[66] eram Malvina, Fingal, aparições nebulosas, guerreiros que saíam das
tumbas com estrelas sobre a fronte. Agora, esse ferro-velho poético foi
substituído por Jeová, pelos sistros, pelos anjos, pelas penas dos serafins, por
todo o guarda-roupa do paraíso renovado pelas palavras “imenso”, “infinito”,
“solitude”, “inteligência”. São lagos, palavras de Deus, uma espécie de
panteísmo cristianizado, enriquecido de rimas raras, penosamente
procuradas, como “esmeralda e fralda”, “Bósforo e fósforo” etc. Enfim,
mudamos de latitude: em vez de estarmos no Norte, estamos no Oriente,
mas as trevas são espessas da mesma forma.
— Se a ode é obscura — disse Zefirina —, a declaração me parece muito
clara.
— E a armadura do arcanjo é um vestido de musselina bem leve — disse
Francis.
Embora exigisse a polidez que, ostensivamente, se achasse a ode
arrebatadora em atenção à sra. de Bargeton, as mulheres, furiosas por não
terem poeta a seu serviço para chamá-las de anjos, levantaram-se como que
fastidiadas, murmurando com ar glacial: muito bem, bonito, perfeito.
— Se me ama, não cumprimente o autor nem o seu anjo — disse Lolotte a seu querido Adriano com ar despótico, ao qual foi forçoso obedecer.
— Afinal, são apenas frases — disse Zefirina a Francis —, e o amor é uma
poesia em ação.
— Você disse agora, Zizine, uma coisa que eu pensava, mas que não teria
enunciado tão finamente — replicou Estanislau, esquadrinhando-se dos pés
à cabeça com olhar acariciador.
— Não sei o que daria — disse Amélia a Du Châtelet — para ver abatido o
orgulho de Naïs, que se faz tratar de arcanjo, como se fosse mais do que nós,
e que nos avilta com o filho de um boticário e de uma enfermeira, que tem
por irmã uma costureirinha e que trabalha em casa de um impressor.
— Já que o pai vendia biscoitos contra vermes[67] — disse Jaques —,
devia ter feito o filho comer alguns.
— Ele continua o ofício do pai, porque o que acaba de nos dar me parece
mesmo uma droga — disse Estanislau, tomando uma de suas atitudes mais
irritantes. — Droga por droga, prefiro outra coisa.
Num momento todos se puseram de acordo para humilhar Luciano com
alguma palavra de aristocrática ironia. Lili, a mulher piedosa, viu nisso uma
ação caridosa, dizendo que era tempo de esclarecer Naïs, prestes a cometer
uma loucura. Francis, o diplomata, encarregou-se de levar a bom termo a
tola conspiração em que todos aqueles espíritos tacanhos se interessaram
como no desenrolar de um drama e na qual viram uma aventura para contar
no dia seguinte. O antigo cônsul, com pouca vontade de se ver obrigado a
bater-se com o jovem poeta que, sob os olhos da amada, se enraiveceria por
qualquer palavra insultante, compreendeu que era preciso matar Luciano
com um ferro sagrado contra o qual fosse impossível a vingança. Imitou o
exemplo que lhe havia dado o hábil Du Châtelet, quando se tratou de fazer
Luciano dizer versos. Foi conversar com o bispo fingindo compartilhar do
entusiasmo que a ode de Luciano inspirara à Sua Grandeza; depois, logrou-
o, fazendo-lhe crer que a mãe de Luciano era mulher superior e de excessiva
modéstia, que fornecia ao filho os assuntos de todas as suas composições, e
que o maior prazer de Luciano era ver fazer justiça à mãe que adorava.
Inculcada essa ideia ao bispo, Francis contava com os acasos da conversa
para provocar a palavra ferina que premeditara fazer com que fosse dita
pelo monsenhor. Quando Francis e o bispo voltaram para o círculo em cujo centro estava Luciano, a atenção redobrou entre as pessoas que já o faziam
beber a cicuta a pequenos goles. Completamente estranho ao manejo dos
salões, o pobre poeta não sabia senão olhar para a sra. de Bargeton e
responder desajeitadamente às desajeitadas perguntas que lhe eram
endereçadas. Ignorava os nomes e as qualidades da maior parte das pessoas
presentes e não sabia que conversa entabular com as mulheres que lhe
diziam disparates que o envergonhavam. Sentia-se, aliás, a mil léguas dessas
divindades de Angoulême ouvindo-se chamar ora sr. Chardon, ora sr. de
Rubempré, enquanto elas se chamavam Lolotte, Adriano, Astolfo, Lili, Fifine.
Sua confusão foi extrema quando, tendo tomado Lili por um nome de
homem, chamou sr. Lili ao brutal sr. de Sénonches. O Nemrod interrompeu
Luciano com um “sr. Lulu?” que fez enrubescer a sra. de Bargeton até as
orelhas.
— É preciso estar bem cega para admitir aqui e nos apresentar esse
rapazinho — disse ele a meia-voz.
— Senhora marquesa — disse Zefirina à sra. de Pimentel, em voz baixa,
mas de maneira a se fazer ouvir —, não encontra uma grande semelhança
entre o sr. Chardon e o sr. de Cante-Croix?
— A semelhança é ideal — respondeu sorrindo a sra. de Pimentel.
— A glória tem seduções que se devem reconhecer — disse a sra. de
Bargeton à marquesa. — Há mulheres que se apaixonam pela grandeza
como outras pela pequenez — acrescentou, olhando para Francis.
Zefirina não compreendeu, pois achava o seu cônsul muito grande; mas
a marquesa se colocou ao lado de Naïs, pondo-se a rir.
— O senhor é bem feliz — disse a Luciano o sr. de Pimentel, que se
conteve para chamá-lo sr. de Rubempré depois de o haver chamado
Chardon —; não se aborrece nunca?
— Trabalha rapidamente? — perguntou Lolotte com o ar com que teria
dito a um marceneiro: “Leva muito tempo a fazer uma caixinha?”.
Luciano ficou completamente atordoado sob esse golpe de maça; mas
levantou a cabeça, ao ouvir a sra. de Bargeton responder, sorrindo:
— Minha querida, a poesia não brota na cabeça do sr. de Rubempré
como a erva em nossos pátios.
— Senhora — disse o bispo a Lolotte —, nunca chegaremos a ter respeito bastante pelos nobres espíritos em que Deus põe um de seus raios. Sim, a
poesia é coisa santa. Quem diz poesia diz sofrimentos. Quantas noites
silenciosas não custaram as estrofes que admira! Saúdem com amor o poeta
que leva quase sempre uma vida infeliz e a quem Deus reserva sem dúvida
um lugar no céu entre seus profetas. Este moço é um poeta — acrescentou,
pondo a mão sobre a cabeça de Luciano —, não vê como que uma fatalidade
impressa sobre esta bela fronte?
Feliz de ser tão nobremente defendido, Luciano saudou o bispo com um
olhar suave, sem saber que o digno prelado iria ser o seu carrasco.
A sra. de Bargeton lançou sobre o círculo inimigo olhares cheios de
triunfo que se cravaram, como outros tantos dardos, no coração de suas
rivais, em quem a raiva redobrou.
— Ah! Monsenhor — respondeu o poeta, esperando castigar com seu
cetro de ouro aquelas cabeças imbecis —, as pessoas vulgares não têm o seu
espírito nem a sua caridade. Nossas dores são ignoradas, ninguém sabe de
nossos trabalhos. Ao mineiro custa menos extrair o ouro da mina do que a nós
arrancar nossas imagens às entranhas da mais ingrata das línguas. Se a
finalidade da poesia é pôr as ideias no ponto preciso onde todo o mundo as
possa ver e sentir, o poeta deve incessantemente percorrer a escala das
inteligências humanas, a fim de a todas satisfazer; deve esconder sob as
cores mais vivas a lógica e o sentimento, duas potências inimigas; é-lhe
necessário encerrar numa só palavra todo um mundo de pensamentos,
resumir filosofias inteiras por uma pincelada; seus versos são, enfim, as
sementes cujas flores devem desabrochar nos corações, buscando neles os
sulcos abertos pelos sentimentos pessoais. Não é preciso tudo haver sentido
para tudo poder dar? E sentir vivamente não é sofrer? Por isso, as poesias
não nascem senão depois de penosas viagens empreendidas pelas vastas
regiões do pensamento e do mundo. Não são imortais aqueles trabalhos aos
quais devemos criaturas cuja vida se torna mais autêntica do que as dos
entes que verdadeiramente viveram, como a Clarissa de Richardson, a
Camila de Chénier, a Délia de Tíbulo, a Angélica de Ariosto, a Francesca de
Dante, o Alceste de Molière, o Fígaro de Beaumarchais, a Rebeca de Walter
Scott, o Dom Quixote de Cervantes?
— E o senhor, o que criará? — perguntou Du Châtelet.
— Anunciar uma tal concepção — respondeu Luciano — não seria
outorgar-se alguém um alvará de homem de gênio? Além disso, para dar à
luz uma obra sublime é necessária uma longa experiência do mundo, um
estudo das paixões e dos interesses humanos que eu não poderia ter feito,
mas começo — disse com amargura, lançando um olhar vingativo sobre o
grupo. — O cérebro leva muito tempo...
— Seu parto será laborioso — disse o sr. du Hautoy, interrompendo-o.
— Sua excelente mãe poderá ajudá-lo — observou o bispo.
Essas palavras tão habilmente preparadas, essa vingança esperada
acenderam em todos os olhos um clarão de alegria. Por todas as bocas passou
um sorriso de aristocrática satisfação, aumentada pela imbecilidade do sr. de
Bargeton, que se pôs a rir fora de tempo.
— Vossa reverendíssima foi fino demais para nós, neste momento; estas
damas não o compreenderam — disse a sra. de Bargeton, que, só com estas
palavras, paralisou os risos e atraiu olhares admirados. — Um poeta que vai
buscar todas as suas inspirações na Bíblia tem na Igreja uma verdadeira mãe.
Sr. de Rubempré, recite-nos São João em Patmos ou O festim de Baltazar
para mostrar a sua reverendíssima que Roma é sempre a magna
parens[68] de Virgílio.
As mulheres trocaram um sorriso ao ouvir Naïs pronunciar as duas
palavras latinas.No começo da vida, a coragem mais orgulhosa não está a
salvo do abatimento. O golpe havia arremessado imediatamente Luciano ao
fundo da água; mas bateu com os pés e voltou à superfície, jurando a si
mesmo dominar aquela sociedade. Como o touro picado por mil farpas,
levantou-se furioso e ia obedecer à voz de Luísa, declamando São João em
Patmos; mas a maior parte das mesas de jogo havia atraído os jogadores, que
recaíam na trilha de seus hábitos, achando nisso o prazer que a poesia não
lhes dera. Depois, a vingança de tantos amores-próprios irritados não ficaria
completa sem o desdém negativo pela poesia nativa, que testemunharam
abandonando Luciano e a sra. de Bargeton. Cada qual pareceu preocupado:
este foi falar de um caminho vicinal com o prefeito, aquela falou em variar os
prazeres do sarau fazendo um pouco de música. A alta sociedade de
Angoulême, sentindo-se mau juiz em matéria de poesia, mostrava-se
sobretudo ansiosa por conhecer a opinião dos Rastignac e dos Pimentel sobre Luciano, e várias pessoas os rodearam. A grande influência que as duas
famílias exerciam no departamento era sempre reconhecida nas grandes
circunstâncias; todos os invejavam e cortejavam, porque todo o mundo
previa que poderia vir a precisar-lhes da proteção.
— Que acha do nosso poeta e da sua poesia? — perguntou Jaques à
marquesa, em casa de quem costumava caçar.
— Para versos de província — respondeu ela sorrindo —, não estão maus;
aliás, um poeta tão bonito não poderia fazer nada mal.
Acharam a sentença adorável, e cada qual foi repeti-la pondo-lhe mais
malícia do que a marquesa lhe quisera dar.
Du Châtelet foi então convidado a acompanhar o sr. de Bartas, que
assassinou a grande ária de Fígaro. Uma vez aberta a porta à música,
tornou-se necessário ouvir a romança cavalheiresca feita no tempo do
Império por Chateaubriand,[69] cantada por Du Châtelet. Depois vieram os
trechos a quatro mãos executados por moças e reclamados pela sra. du
Brossard, que desejava fazer brilhar aos olhos do sr. de Séverac o talento da
sua querida Camila.
A sra. de Bargeton, ferida pelo desprezo que todos mostraram ao seu
poeta, devolveu desdém com desdém, retirando-se para o seu gabinete
durante o tempo em que se fez música. Seguiu-a o bispo, a quem o vigário-
geral explicara a profunda ironia de seu involuntário epigrama, e que
desejava vê-lo perdoado. A srta. de Rastignac, a quem a poesia seduzira, se
esgueirou até o gabinete da sra. de Bargeton sem ser vista pela mãe.
Sentando-se no canapé acolchoado para onde levou Luciano, Luísa pôde,
sem ser ouvida nem vista, dizer-lhe ao ouvido:
— Anjo querido, eles não te compreendem! mas... “São doces os teus
versos, gosto de repeti-los.”
Luciano, consolado por essa carinhosa lisonja, esqueceu por um
momento as próprias dores.
— Não há glória barata — disse a sra. de Bargeton, tomando-lhe a mão e
apertando-a. — Sofra, sofra, meu amigo, e será grande; as dores serão o
preço de sua imortalidade. Eu bem desejaria ter de suportar as vicissitudes
de uma luta. Guarde-o Deus de uma vida atônica e sem combates, na qual
as asas da águia não encontram espaço. Invejo seus sofrimentos, porque ao menos você vive! Desenvolverá suas forças, e terá a vitória! Sua luta será
gloriosa. Quando chegar à esfera imperial onde reinam as grandes
inteligências, lembre-se das pobres criaturas deserdadas da sorte, cuja
inteligência se anula sob a opressão de um tóxico moral e que parecem ter
sabido sempre o que era a vida sem poder viver, que tiveram olhos
penetrantes e nada viram, cujo olfato era delicado e não aspiraram senão
flores empestadas. Cante então a planta que seca no fundo da floresta,
sufocada pelas lianas, por uma vegetação gulosa e espessa, sem ter sido
amada pelo sol e que morre sem haver florescido! Não será esse um poema
de horrível melancolia, um assunto fantástico? Que composição sublime a
descrição de uma menina nascida sob os céus da Ásia ou de uma filha do
deserto transportada para um frio país do Ocidente, clamando pelo seu sol
bem-amado, morrendo de dores incompreendidas, igualmente abatida pelo
frio e pelo amor! Seria a imagem de muitas existências.
— Pintaria assim a alma que se recorda do céu — disse o bispo — um
poema que deve ter sido escrito outrora e do qual suponho ver um
fragmento no Cântico dos Cânticos.
— Escreva-o — disse Laura de Rastignac, exprimindo uma ingênua
crença no talento de Luciano.
— Falta à França um grande poema sacro — disse o bispo. — Acredite, a
glória e a fortuna pertencerão ao homem de talento que trabalhar pela
religião.
— Ele o empreenderá, excelência — disse a sra. de Bargeton com ênfase.
— Não vê a ideia do poema apontando já como um resplendor de aurora nos
olhos dele?
— Naïs nos trata bem mal — disse Fifine. — Que estará fazendo?
— Não a ouve? — respondeu Estanislau. — Cavalga suas grandes
palavras sem pé nem cabeça.
Amélia, Fifine, Adriano e Francis apareceram à porta do gabinete
acompanhando a sra. de Rastignac, que vinha em busca da filha para partir.
— Naïs — disseram as duas mulheres, encantadas por perturbar a
intimidade do gabinete —, seria bem amável se nos tocasse qualquer trecho.
— Minha filha — respondeu a sra. de Bargeton —, o sr. de Rubempré vai
dizer-nos seu “São João em Patmos”, um magnífico poema bíblico.
— Bíblico! — repetiu Fifine, admirada.
Amélia e Fifine voltaram ao salão, levando essa palavra como pasto à
zombaria.
Luciano escusou-se de dizer o poema objetando sua falta de memória.
Quando reapareceu, já não excitou o menor interesse. Todos conversavam
ou jogavam. O poeta havia sido despojado de todos os seus raios. Os
proprietários nada de útil viam nele; as pessoas pretensiosas o temiam como
um poder hostil à sua ignorância; as mulheres, invejosas da sra. de Bargeton,
a Beatriz desse novo Dante, segundo o vigário-geral, lançavam-lhe olhares
friamente desdenhosos.
“Eis a sociedade!”, pensou Luciano descendo para o Houmeau pelas
rampas de Beaulieu, porque há momentos na vida em que gostamos de
tomar os caminhos mais longos, a fim de manter pela marcha o movimento
de ideias que nos domina e a cujo influxo nos queremos entregar. Longe de
desencorajá-lo, a raiva do ambicioso repelido dava novas forças a Luciano.
Como todas as criaturas levadas pelo próprio instinto a uma esfera elevada, a
que chegam antes de nela se poderem suster, ele jurava tudo sacrificar para
permanecer na alta sociedade. Enquanto andava, ia arrancando um a um os
dardos envenenados que recebera, falava alto consigo mesmo, criticava
asperamente os tolos com quem tratara, encontrava respostas finas para as
perguntas idiotas que lhe haviam formulado e se desesperava de ter assim
presença de espírito já tarde demais. Ao chegar à estrada de Bordeaux que
serpenteia pelo sopé da montanha e costeia as margens do Charente, julgou
ver, ao clarão do luar, Eva e David sentados sobre uma viga à beira do rio,