A Comédia Humana 7: Ilusões Perdidas
Primeira Parte • os Dois Poetas
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.
PRIMEIRA PARTE
OS DOIS POETAS
I – UMA TIPOGRAFIA DE PROVÍNCIA
Na época em que começa esta história,[3] a impressora de Stanhope[4] e os
rolos de distribuição de tinta não funcionavam ainda nas pequenas
tipografias de província. Não obstante a especialidade que a põe em relação
com a tipografia parisiense,[5] Angoulême ainda se servia de prensas de
madeira, às quais a língua deve a expressão “fazer gemer os prelos”,
atualmente sem aplicação.
A arte tipográfica atrasada empregava ainda ali almofadas de couro
repassadas de tinta, com as quais um dos impressores batia os tipos. A
plataforma móvel em que se coloca a fôrma cheia de letras, sobre a qual se
aplica a folha de papel, era ainda de pedra e justificava o seu nome de
mármore. As devoradoras prensas mecânicas fizeram hoje tão
completamente esquecido aquele mecanismo a que devemos, não obstante
suas imperfeições, os belos livros dos Elzevier, dos Plantin, dos Aldo e dos
Didot,[6] que se torna necessário lembrar os velhos utensílios aos quais
Jerônimo Nicolau Séchard consagrava supersticiosa afeição, pois têm eles o
seu papel nesta grande pequena história.
Esse Séchard era um antigo oficial tipógrafo dos que, na sua gíria
tipográfica, os obreiros encarregados de juntar as letras chamam de ursos. O
movimento de vaivém, muito semelhante ao de um urso enjaulado, pelo qual os impressores iam da prensa ao tinteiro e do tinteiro à prensa, lhes
valera, sem dúvida, tal apelido. Por vingança, os ursos chamavam os
tipógrafos de símios, por causa do contínuo exercício que fazem esses
senhores para tirar as letras dos cento e cinquenta e dois caixotins em que se
encontram.
Na desastrosa época de 1793, Séchard, na idade de mais ou menos
cinquenta anos, estava casado. A idade e o casamento permitiram-lhe
escapar à grande convocação que levou quase todos os operários às fileiras do
Exército. O velho impressor ficara só na tipografia cujo dono, chamado então
Bobo, acabara de morrer deixando viúva sem filhos. O estabelecimento
pareceu ameaçado de destruição imediata: o urso solitário era incapaz de se
transformar em símio, pois, na sua qualidade de impressor, nunca aprendera
a ler e escrever.
Sem ter em conta a sua incapacidade, um Representante do Povo,
apressado em espalhar os belos decretos da Convenção, investiu o manejador
de prensas na patente de mestre impressor e requisitou-lhe a tipografia.
Após aceitar aquele perigoso diploma, o cidadão Séchard indenizou a
viúva do patrão levando-lhe as economias da esposa, com as quais pagou o
material da tipografia pela metade do valor. Isso não era nada. Tinha de
imprimir sem erro nem demora os decretos republicanos. Nessa difícil
conjuntura, Jerônimo Nicolau Séchard teve a felicidade de encontrar um
nobre marselhês que não queria nem emigrar, para não perder as terras, nem
se mostrar, para não perder a cabeça, e que só poderia arranjar o que comer
por um trabalho qualquer. O sr. conde de Maucombe[7] envergou assim o
humilde avental de um chefe de oficina de província: compôs, leu e revisou
os decretos que impunham a pena de morte aos cidadãos que escondessem
nobres; o Urso tornado Bobo os imprimiu e fez afixar; e ambos se
conservaram sãos e salvos. Em 1795, passada a borrasca do Terror, Nicolau
Séchard viu-se forçado a procurar outro chefe que pudesse compor, revisar
e conduzir a oficina. Um padre, depois bispo com a Restauração, e que se
recusava por esse tempo a prestar juramento, substituiu o conde de
Maucombe até o dia em que o primeiro-cônsul restabeleceu a religião
católica. O conde e o bispo viriam a encontrar-se mais tarde na mesma
bancada da Câmara dos Pares.
Se em 1802 Jerônimo Nicolau Séchard não sabia nem ler nem escrever
melhor do que em 1793, arranjara um material bastante sólido para poder
pagar um chefe de oficina. O oficial tão descuidoso do seu futuro tornara-se
temível para os seus símios e ursos. A avareza começa onde cessa a pobreza.
No dia em que o impressor lobrigou a possibilidade de fazer fortuna, o
interesse desenvolveu-lhe uma inteligência material ávida, suspeitosa e
penetrante. Sua prática desafiava a teoria. Acabara por calcular à simples
vista o preço de uma página ou duma folha, segundo a espécie dos
caracteres. Provava aos seus ignaros fregueses que a composição das letras
maiores custava mais caro que a das pequenas; mas se fosse o caso destas,
dizia logo que eram muito mais difíceis de manejar. Sendo a composição a
parte da tipografia de que nada conseguira entender, tinha tanto medo de
enganar-se que só fazia contratos leoninos. Se seus tipógrafos trabalhavam
por hora, seus olhos não os deixavam nunca. Se sabia de um fabricante em
apertos, adquiria seu estoque de papel a preço vil e o guardava. Desse modo,
sem demora se tornara proprietário da casa onde a tipografia se alojava
desde tempos imemoriais. Conheceu toda a espécie de felicidade: enviuvou,
ficando com um único filho; colocou-o no liceu da cidade, menos para dar-
lhe educação do que para preparar um sucessor; tratava-o severamente a
fim de prolongar a duração do poder pátrio; nos dias de férias fazia-o
trabalhar nas caixas aconselhando-o a aprender a ganhar a vida para poder
um dia recompensar seu pobre pai, que sangrava para educá-lo.
Por ocasião da partida do padre, Séchard escolheu para chefe da oficina
aquele dentre os quatro tipógrafos que o futuro bispo lhe indicara como
possuidor de tanta probidade quanta inteligência. Assim, o velhote achou-se
em condições de esperar o momento em que o filho pudesse dirigir o
estabelecimento, que prosperaria então dirigido por mãos hábeis e jovens.
David Séchard completou no liceu de Angoulême os mais brilhantes
estudos. E embora o Urso, que prosperara sem conhecimentos e sem
educação, desprezasse inteiramente a ciência, o pai Séchard enviou o filho a
Paris para estudar a alta tipografia; fez-lhe, porém, tão violenta
recomendação no sentido de economizar boa soma na capital que ele
denominava o paraíso dos trabalhadores, advertindo-lhe que não contasse
com a bolsa paterna, que aquela estada no país de Sapiência devia afigurar-se-lhe um meio de chegar aos seus fins.
Aprendendo o ofício, David acabou sua educação em Paris. Chefe das
oficinas dos Didot, tornou-se um sábio. Pelo fim do ano de 1819, David
Séchard deixou Paris sem ter custado sequer uma moeda de cobre ao pai,
que o chamava para entregar-lhe o timão dos negócios. A tipografia de
Nicolau Séchard possuía então o único jornal de editais que existia no
departamento, a exclusividade das publicações da Prefeitura e do bispado,
três clientelas que deveriam proporcionar grande fortuna a um rapaz ativo.
Precisamente por essa época, os irmãos Cointet, fabricantes de papel,
haviam comprado a segunda patente de impressor da cidade de
Angoulême, que até então o velho Séchard soubera reduzir à mais completa
inutilidade, graças às crises militares que, durante o Império,
comprometeram todo o desenvolvimento industrial; e, por isso mesmo, não
procurara adquirir mais esse privilégio, e sua parcimônia viria a ser uma das
causas de ruína da velha tipografia.
Ao saber da novidade, o velho Séchard pensou alegremente que a luta
que iria travar-se entre o seu estabelecimento e o dos Cointet seria
sustentada não por ele, mas pelo filho. “Eu sucumbiria nela”, pensou, “mas
um rapaz educado pelos senhores Didot saberá safar-se.” O septuagenário
suspirava pelo momento em que lhe fosse possível viver a seu modo. Se não
tinha conhecimentos de alta tipografia, em troca passava por ser
extremamente forte na arte que os operários, por caçoada, apelidaram de
ebriografia, arte muito estimada pelo divino autor do Pantagruel,[8] mas
cujo exercício, perseguido pelas sociedades chamadas de temperança, se
encontra dia a dia mais abandonado.
Jerônimo Nicolau Séchard, fiel ao destino que o nome lhe traçara, sentia
uma sede inextinguível. A esposa havia contido nos justos limites, durante
muito tempo, aquela paixão pela uva esmagada, gosto tão natural nos ursos
que o sr. de Chateaubriand a fez notar entre os verdadeiros ursos da
América;[9] mas os filósofos observaram que os hábitos da juventude voltam
com mais força na velhice. Séchard confirmava essa lei moral: quanto mais
envelhecia, mais gostava de beber. A paixão deixava-lhe na fisionomia ursina
marcas que a tornavam original: o nariz tomara o desenvolvimento e a forma
de um A maiúsculo corpo triple canon, suas faces reticuladas de veias pareciam-se a essas folhas de parra cheias de gibosidades violáceas,
purpurinas e por vezes matizadas; julgar-se-ia uma trufa monstruosa
envolta em pâmpanos de outono. Escondidos sob grandes sobrancelhas, que
pareciam dois silvados cobertos de neve, seus pequenos olhos cinzentos, nos
quais crepitava a manha de uma avareza que nele amortecia tudo, inclusive
a paternidade, conservavam seu brilho mesmo na embriaguez. Sua cabeça
calva e descorada, mas cintada de cabelos grisalhos ainda crespos, trazia à
imaginação os frades dos Contos de La Fontaine.[10] Era parrudo e bojudo
como muitos desses velhos lampiões que consomem mais óleo do que mecha;
aliás, os excessos em todas as coisas modelam os corpos segundo suas
características. A bebedeira, como o estudo, engorda mais aos gordos e
emagrece aos magros.
Jerônimo Nicolau Séchard havia trinta anos usava o famoso tricórnio
municipal, que, nalgumas províncias, ainda se encontra à cabeça do
tamboreiro da cidade. O colete e as calças eram de veludo verdoso. Vestia
uma velha sobrecasaca castanho, meias variegadas de algodão e sapatos com
fivelas de prata. Tais vestes burguesas mal disfarçavam o operário e
condiziam tão bem com os seus hábitos e vícios, exprimiam tão bem a sua
vida, que o velhote parecia haver nascido com elas: não se poderia imaginá-
lo sem elas tal como não se concebe uma cebola sem casca.
Se o velho impressor nunca houvesse dado medida de sua cega avidez,
sua retirada dos negócios seria suficiente para pintar-lhe o caráter. Não
obstante os conhecimentos que o filho deveria trazer da grande escola dos
Didot, propusera-se fazer com ele o bom negócio que ruminava havia muito.
Se o pai fazia boa transação, o filho só poderia fazer má. Mas, para o velhote,
não havia nem pai nem filho nos negócios. Se considerara de início David
como seu filho único, nele veria mais tarde um comprador natural cujos
interesses eram contrários aos seus: queria vender caro, e David deveria
querer comprar barato; o filho tornava-se, portanto, um inimigo a vencer.
Essa transformação do sentimento em interesse pessoal, ordinariamente
lenta, tortuosa e hipócrita nas criaturas bem-educadas, foi rápida e direta no
velho Urso, que mostrou quanta vantagem a ebriografia esperta levava
sobre a tipografia instruída.
À chegada do filho, testemunhou-lhe o velhote a ternura comercial que as pessoas hábeis concedem às suas vítimas: acolheu-o tal como um
apaixonado teria acolhido a amante; deu-lhe o braço, mostrou-lhe onde
deveria pôr os pés para não tropeçar; fizera com que lhe aquecessem o leito,
lhe acendessem a lareira e lhe preparassem o jantar. No dia seguinte, após
ter tentado embriagar o filho num copioso almoço, Jerônimo Nicolau
Séchard, grandemente avinhado, lhe atirou um: — Falemos de negócios?
que passou tão milagrosamente entre dois soluços a ponto de David suplicar-
lhe que adiasse os negócios para outro dia. O velho Urso, entretanto, sabia
muito bem tirar partido da sua embriaguez para não abandonar uma batalha
preparada há tanto tempo. Ademais, depois de ter arrastado os seus grilhões
durante cinquenta anos, não os queria conservar nem por uma hora mais.
No dia seguinte o filho seria o Bobo.
A esta altura talvez seja necessário dizer uma palavra sobre o
estabelecimento. A tipografia, situada no local onde a Rue de Beaulieu
desemboca na Place du Mûrier, estabelecera-se em tal casa lá pelo fim do
reinado de Luís xiv. Desde muito, assim, os diferentes locais haviam sido
dispostos para a exploração daquela indústria. O andar térreo era formado
por imensa peça iluminada do lado da rua por uma velha vidraça, e de outro
por um grande caixilho que dava para o pátio. Podia-se chegar ao escritório
do mestre por um corredor. Mas, na província, os trabalhos tipográficos são
objeto sempre de tão viva curiosidade que os clientes preferiam entrar por
uma porta envidraçada presente na fachada externa, embora tivessem que
descer alguns degraus, por estar o assoalho da oficina abaixo do nível do
passeio.
Os curiosos, embasbacados, nunca se precaviam quanto aos
inconvenientes da passagem através dos desfiladeiros da oficina. Se
contemplavam os caramanchéis formados pelas folhas estendidas sobre
cordas presas ao forro, chocavam-se nas longas fileiras de caixas, ou se viam
despenteados pelas barras de ferro que escoravam as prensas. Se seguiam os
ágeis movimentos de um dos compositores rebuscando os tipos nos cento e
cinquenta e dois caixotins de sua caixa, lendo o seu original, relendo a linha
no componedor e nele introduzindo uma entrelinha, davam contra uma
resma de papel umedecido sobrecarregada de pesos ou batiam com o quadril
contra o ângulo de um banco; tudo isto para grande divertimento dos símios e dos ursos.
Pessoa alguma jamais chegara sem acidentes às duas grandes gaiolas
situadas ao fundo daquela caverna, as quais formavam dois miseráveis
pavilhões sobre o pátio, e onde dominavam, de um lado, o chefe da oficina,
e, de outro, o mestre impressor.
No pátio, as paredes eram decoradas por parreiras, que, dada a
reputação do mestre, contribuíam para a cor local. Ao fundo, arrimado à
parede divisória, elevava-se um telheiro em ruínas em que se molhava e
cortava o papel. Lá ficava o tanque em que se lavavam, antes e depois da
tiragem, as fôrmas, ou, para empregar a linguagem vulgar, as pranchas de
tipos; dele se escapava uma decocção de tinta misturada às águas servidas
da casa, que fazia crer aos camponeses vindos às feiras que o diabo se asseava
naquela casa. O telheiro era flanqueado de um lado pela cozinha e de outro
pelo depósito de lenha.
O primeiro andar da casa, acima do qual só havia dois quartos de
mansarda, continha três peças. A primeira, do comprimento do corredor
menos a caixa da velha escada de madeira, iluminada da rua por um
pequeno caixilho oblongo e do pátio por um respiradouro circular, servia ao
mesmo tempo de antecâmara e de sala de jantar. Pura e simplesmente
branqueada com cal, fazia-se notada pela cínica simplicidade da avareza
mercantil; o ladrilho sujo nunca fora lavado; o mobiliário consistia em três
cadeiras ordinárias, uma mesa redonda e um aparador colocado entre duas
portas que davam para uma alcova e para uma sala; as janelas e a porta
estavam negras de imundície; papéis em branco ou impressos a
atravancavam quase todo o tempo; por vezes a sobremesa, as garrafas, os
pratos do jantar de Jerônimo Nicolau Séchard se viam sobre os pacotes.
O quarto de dormir, cujo caixilho tinha um vitral que recebia luz do
pátio, era forrado dessas velhas tapeçarias que se veem no interior, ao longo
das casas, no dia de Corpus Christi. Havia ali um grande leito com colunas,
guarnecido de cortinas e babados e de uma colcha de sarja vermelha, duas
poltronas carunchosas, duas cadeiras de nogueira estofadas, uma velha
secretária e, sobre a lareira, um relógio. Aquele quarto, em que se respirava
uma bonomia patriarcal e cheia de meios-tons, fora disposto pelo sr.
Rouzeau, predecessor e chefe de Jerônimo Nicolau Séchard. A sala, modernizada pela falecida sra. Séchard, mostrava incríveis guarnições de
madeira pintada de azul vivo; as paredes eram decoradas com papel que
tinham cenas do Oriente em tom bistre sobre fundo branco; a mobília
consistia em seis cadeiras guarnecidas de couro azul, cujos espaldares
representavam liras. As duas janelas grosseiramente abobadadas, e pelas
quais a vista abarcava a Place du Mûrier, estavam sem cortinas; a lareira não
possuía nem candelabros, nem pêndula, nem espelho. A sra. Séchard
morrera em meio dos seus projetos de embelezamento, e o Urso, sem
adivinhar a utilidade de melhoramentos que nada rendiam, havia-os
abandonado.
Foi para ali que, pede titubante, Jerônimo Nicolau Séchard conduziu o
filho para mostrar-lhe sobre a mesa redonda um rol dos materiais do
estabelecimento, levantado, sob sua direção, pelo chefe da oficina.
— Lê isto, meu rapaz — disse Jerônimo Nicolau Séchard, fazendo errar
seus olhos tontos do papel para o filho e do filho para o papel. — Verás que
encanto de tipografia te dou.
— Três prensas de madeira, sustidas por barras de ferro, com “mármore”
de ferro fundido...
— Um aperfeiçoamento que fiz — disse o velho Séchard interrompendo
o filho.
— Com todos os seus utensílios: tinteiros, papeleiras e banco etc., mil e
seiscentos francos! Mas, meu pai — observou David Séchard deixando cair o
inventário —, suas prensas são trastes que não valem cem escudos, e bons só
para o fogo.
— Trastes?... — exclamou o velho Séchard — trastes?... Pega o inventário
e desçamos! Vais ver se vossas invenções de péssima serralheria andam como
estes bons velhos utensílios experimentados. Depois não terás coragem de
injuriar honestas prensas que rodam como diligências e que hão de durar
toda tua vida sem necessitarem o menor conserto. Trastes! Sim, são trastes
nos quais encontrarás sal bastante para cozinhar ovos! Trastes que teu pai
manobrou durante vinte anos e que lhe serviam para fazer de ti o que és.
O pai despenhou-se pela escada tosca, gasta, frouxa, sem falsear o pé;
abriu a porta do corredor que dava para a oficina, precipitou-se para a
primeira de suas prensas habilmente limpas e engraxadas e apontou para as fortes pranchas de carvalho polidas por um aprendiz.
— Não é um amor de prensa?
Estava a imprimir uma participação de casamento. O velho Urso abaixou
a frasqueta sobre o tímpano, e o tímpano sobre o mármore que fez rolar sob
a prensa; puxou o varão, desenrolou a corda para fazer voltar o mármore,
levantou o tímpano e a frasqueta com a agilidade de um jovem urso. A
prensa assim manobrada lançou um grito tão lindo que se poderia julgar ser
de um pássaro que tivesse vindo bicar uma vidraça e houvesse fugido.
— Haverá um único prelo inglês capaz de andar assim? — perguntou o
pai ao filho atônito.
O velho Séchard correu sucessivamente à segunda e à terceira prensa,
fazendo em cada uma delas a mesma manobra com igual habilidade. Na
última, deparou-se-lhe aos olhos turvados pelo vinho um lugar
negligenciado pelo aprendiz; o bêbado, depois de soltar notáveis pragas,
tomou da aba da própria sobrecasaca para esfregá-la, tal como um vendedor
de cavalos lustra o pelo do animal que oferece à venda.
— Com estas três prensas, sem chefe de oficina, podes ganhar teus nove
mil francos por ano, David. Como teu futuro associado, oponho-me a que as
substituas por esses malditos prelos de ferro que gastam os tipos. Vocês em
Paris ficaram boquiabertos diante da invenção desse maldito inglês, um
inimigo da França, que quis enriquecer os fundidores. Ah! vocês adotaram as
stanhopes! Muito obrigado pelas stanhopes que custam dois mil e
quinhentos francos cada uma, quase duas vezes mais do que valem minhas
três joias em conjunto, e que destroçam as letras com a sua falta de
elasticidade. Não sou instruído como tu, mas guarda bem isto: a vida das
stanhopes é a morte do tipo. Estas três prensas te prestarão ótimos serviços,
as obras serão tiradas com limpeza, e os angoulemenses não te pedirão nada
mais. Quer imprimas com ferro, quer com madeira, com ouro ou com prata,
não te pagarão nem mais um cobre.
— Item — disse David —, cinco mil libras de caracteres, provenientes da
fundição do sr. Vaflard...
A esse nome, o aluno dos Didot não pôde evitar um sorriso.
— Ri! Ri! Com doze anos de uso, os tipos estão ainda novos. Aí está o que
se chama um fundidor! O sr. Vaflard é homem honesto que fornece material durável; e, para mim, o melhor fundidor é aquele a cuja casa se vai menos
vezes.
— Estimados em dez mil francos — continuou David. — Dez mil francos,
meu pai! Mas estão a quarenta sous[11] a libra, e os srs. Didot vendem o seu
cícero novo por apenas trinta e seis sous. Estas cabeças de prego não valem
mais que o preço da fundição, dez sous a libra.
— Chamas cabeças de prego aos bastardos e cursivos, aos redondos do sr.
Gillé, que foi impressor do imperador! Caracteres que valem seis francos a
libra, obras-primas de gravura compradas há cinco anos, das quais muitas
conservam ainda o branco da fundição, ora! — O velho Séchard pegou de
alguns pacotes de sortes que jamais haviam servido e mostrou-lhas.
— Não sou sábio, não sei ler nem escrever, mas sei o bastante para
adivinhar que os caracteres da casa Gillé foram os pais dos ingleses dos teus
Didot. Olha aqui um redondo — fez ele designando uma caixa e nela
pegando um M, um redondo de cícero que não foi sequer tocado.
David percebeu que não havia meio de discutir com o pai. Cabia ou tudo
admitir ou tudo recusar, achava-se entre um não e um sim. O velho Urso
incluíra no inventário até os cordões do estendedouro. A menor das ramas,
as galeras, as escudelas, a pedra e as escovas de lavar, tudo fora apreçado
com o escrúpulo de um avaro. O total ia a trinta mil francos, compreendidas
nessa soma a patente de mestre impressor e as luvas pela freguesia.
O rapaz pensava consigo mesmo se era ou não viável o negócio. Ao ver o
filho mudo diante do preço, o velho Séchard tornou-se inquieto; preferiria
um debate violento a uma conformidade silenciosa. Nessa espécie de
transações, o debate denuncia o comerciante capaz de defender seus
interesses. Quem topa tudo, dizia o velho Séchard, não paga nada. À
espreita do pensamento do filho, foi fazendo a enumeração dos maus
utensílios necessários à exploração de uma tipografia no interior; conduziu-o
sucessivamente a uma prensa de envernizar, a uma outra de aparar,
destinadas à feitura das encomendas da cidade, e gabou-lhes a utilidade e a
solidez.
— Os velhos utensílios são sempre os melhores — observou. — Numa
tipografia devia-se pagá-los mais caro que aos novos, como fazem os
laminadores de ouro.
Espaventosas vinhetas representando himeneus, amores, mortos a
levantar a pedra do sepulcro descrevendo um V ou um M, enormes
cercaduras de máscaras para os cartazes de espetáculos tornaram-se, por
efeito da eloquência avinhada de Jerônimo Nicolau, objetos de imenso valor.
Disse ao filho que os hábitos da gente do interior estavam tão fortemente
enraizados que ele experimentaria em vão dar-lhes mais belas coisas. Ele,
Jerônimo Nicolau Séchard, tentara vender-lhes almanaques melhores que o
Double Liégeois,[12] impresso em papel de embrulho! pois bem! o
verdadeiro Double Liégeois fora preferido aos mais magníficos almanaques.
David iria reconhecer em breve a importância dessas velharias, vendendo-as
a maior preço que as mais caras novidades.
— Ha! ha! meu rapaz, a província é a província, e Paris é Paris. Se um
homem do Houmeau vem te encomendar uma participação de casamento,
e tu a imprimires sem um Cupido com guirlandas, ele não se acreditará
casado e ta devolverá se nela enxergar só um M, como põem os teus Didot,
que são a glória da tipografia, mas cujas invenções não serão adotadas na
província antes de cem anos. Aí está.
As pessoas generosas dão maus comerciantes. David possuía uma
natureza pudica e terna, dessas que se assustam com uma discussão e que
cedem no momento em que o adversário lhes pica um pouco mais o coração.
Seus sentimentos elevados e o império que o velho bêbado conservava sobre
ele o tornavam ainda menos capaz de sustentar um debate sobre dinheiro
com o pai, sobretudo por acreditá-lo na melhor das intenções; pois atribuía a
voracidade do interesse, antes do mais, ao amor que o impressor tinha por
seus utensílios. Entretanto, como Jerônimo Nicolau Séchard havia obtido
tudo da viúva Rouzeau por dez mil francos em promissórias, e como no
estado atual das coisas trinta mil francos era um preço exorbitante, o filho
exclamou:
— Meu pai, o senhor me enforca!
— Eu, que te dei a vida?... — disse o velho ébrio levantando as mãos para
o teto. — Mas, David, em quanto avalias tu a patente? Sabes o que vale o
jornal de editais a dez sous a linha, privilégio que, por si só, rendeu
quinhentos francos no mês passado? Meu rapaz, abre os livros, vê o que
produzem os cartazes e os registros da Prefeitura, as publicações da
mairie[13] e as do bispado! És um mandrião que não quer fazer a própria
fortuna. Negocias o cavalo que há de te conduzir a um domínio tão belo
como o de Marsac!
Ao inventário estava apenso um contrato de sociedade entre o pai e o
filho. O bom pai alugava à firma a casa pela soma de mil e duzentos francos,
embora não lhe houvesse custado mais de seis mil libras e nela reservava um
dos dois quartos existentes na mansarda. Enquanto David Séchard não o
houvesse reembolsado dos trinta mil francos, os lucros seriam partilhados em
partes iguais; pagos os trinta mil francos, tornar-se-ia o único proprietário da
tipografia.
David estimou as possibilidades da patente, da clientela e do jornal, sem
se preocupar com os utensílios; julgou poder vencê-las e aceitou as
condições. Habituado ao regateio dos camponeses, e nada sabendo dos
largos cálculos dos parisienses, admirou-se o velho de tão pronta conclusão.
“Será que meu filho enriqueceu?”, pensou, “ou projeta ele, desde agora,
não me pagar?”
Com esse pensamento, interrogou-o para saber se tinha algum dinheiro
para dar por conta. A curiosidade do pai despertou a desconfiança do filho.
David abotoou-se até o queixo. No dia seguinte, o velho Séchard fez
transportar pelo seu aprendiz para o quarto da mansarda os seus móveis,
que contava mandar levar para o campo pelas carretas que para lá voltassem
vazias. Entregou as três peças do primeiro andar inteiramente nuas ao filho,
tal como o investiu na posse da tipografia sem dar-lhe sequer um níquel para
pagar os operários.
Ao pedir-lhe David que, na sua qualidade de associado, contribuísse com
a entrada necessária à exploração comum do negócio, o velho impressor se
fez de ignorante. Não se obrigara, disse, a dar dinheiro dando a tipografia;
seu aporte de capital estava feito. Apertado pela lógica do filho, respondeu-
lhe que, quando comprara o estabelecimento da viúva Rouzeau, livrara-se
das dificuldades sem um vintém. Se ele, pobre operário despido de
conhecimentos, conseguira vencer, melhor o faria um aluno dos Didot.
Ademais, David ganhara o dinheiro com a educação paga com o suor da
fronte do seu velho pai, e bem podia empregá-lo agora.
— Que fizeste de teus ordenados? — perguntou-lhe voltando à carga, a fim de esclarecer o problema que o silêncio do filho deixara indeciso na
véspera.
— Mas não tive então de viver, não tive de comprar livros? — respondeu
David indignado.
— Ah! comprava livros? Farás maus negócios. As pessoas que compram
livros não são as mais indicadas para imprimi-los — respondeu o Urso.
David experimentou a mais penosa das humilhações, a que é causada
pelo rebaixamento de um pai: foi-lhe preciso sofrer o fluxo das razões vis,
chorosas, covardes, comerciais, através das quais o velho avaro formulou sua
recusa. Recalcou na alma as suas dores vendo-se só, sem apoio, ao enfrentar
um especulador no pai, a quem, por curiosidade filosófica, quis conhecer a
fundo. Fez-lhe assim observar que nunca lhe pedira contas da herança da
mãe. Se essa herança não podia entrar como compensação no preço da
tipografia, deveria ao menos servir à sua exploração em comum.
— A fortuna de tua mãe? — disse o velho Séchard. — Mas se era só a sua
inteligência e a sua beleza!
A esta resposta David percebeu por inteiro o pai, e compreendeu que,
para obter contas dele, seria necessário intentar um processo interminável,
caríssimo e desonroso. Aquele nobre coração aceitou o fardo que iria pesar
sobre ele, pois sabia bem quanto esforço precisaria desenvolver para cumprir
as obrigações do contrato firmado com o pai.
“Trabalharei”, pensou. “Afinal de contas, se tiver dificuldade, o velho as
teve também. Não será aliás trabalhar para mim mesmo?”
— Deixo-te um tesouro — acrescentou o pai, inquieto com o silêncio do
filho.
David indagou qual seria esse tesouro.
— Marion — concluiu ele.
Marion era uma gorda filha da roça, indispensável à exploração da
tipografia: molhava o papel e o aparava, fazia recados e tratava da cozinha,
lavava a roupa, descarregava as carroçadas de papel, cobrava contas e
limpava os tampões. Se Marion soubesse ler, o velho Séchard já a teria posto
na composição.
O pai partiu a pé para o campo. Se bem que felicíssimo com a venda
disfarçada com o nome de sociedade, sentia-se inquieto quanto ao modo pelo qual seria pago. Depois das angústias da venda surgem sempre as de
sua realização. Todas as paixões são essencialmente jesuíticas. Aquele
homem, que via a instrução como coisa inútil, fazia agora esforços para crer
na influência da instrução. Hipotecara seus trinta mil francos às ideias de
honra que a educação deveria ter desenvolvido no filho. Como jovem bem-
educado, David suaria sangue e água para pagar seus compromissos, seus
conhecimentos o fariam encontrar recursos, mostrara-se cheio de belos
sentimentos, ele pagaria!
Muitos pais que assim agem acreditam ter agido paternalmente, tal
como o velho Séchard ao atingir o seu vinhedo situado em Marsac, pequena
aldeia a quatro léguas de Angoulême. Esse domínio, onde o proprietário
anterior fizera construir uma linda casa, aumentara de ano para ano a partir
de 1809, época em que o velho Urso o havia adquirido. Trocou os cuidados
da prensa pelos do lagar de vinho e vivia, como ele mesmo afirmava, há
muito tempo nas vinhas para não as conhecer bem. Durante o primeiro ano
de sua ida para o campo, o pai Séchard manteve por cima de suas estacas
uma fisionomia preocupada; vivia em seu vinhedo como outrora em meio da
oficina. Aqueles trinta mil francos inesperados o embriagavam mais que o
mosto de setembro, e imaginava já contá-los entre os dedos. Quanto menos
lhe era devida aquela soma, tanto mais desejava tê-la em caixa. Desse modo,
muitas vezes acorria de Marsac a Angoulême, atraído por suas inquietudes.
Galgava as encostas do rochedo no alto do qual se situa a cidade e entrava
na oficina para verificar se o filho ia conseguindo livrar-se das dificuldades.
Ora, os prelos estavam nos seus lugares. O único aprendiz, com um boné de
papel à cabeça, limpava as prensas. O velho Urso ouvia então gemer um dos
prelos sobre qualquer cartão de participação, reconhecia seus velhos
caracteres e via o filho e o chefe da oficina a ler em suas caixas livros que o
Urso tomava por originais. Depois de jantar com David, voltava ao sítio de
Marsac, a ruminar seus temores.
A avareza, como o amor, tem o dom da vidência quanto às contingências
futuras, fareja-as, apressa-as. Longe da oficina, onde o aspecto dos utensílios
o fascinava, transportando-o aos dias em que fazia fortuna, o vinhateiro
passava a encontrar no filho inquietantes sintomas de inatividade. A firma
Irmãos Cointet o amedrontava, via-a dominando a de Séchard & Filho. Sentia enfim o velhote o vento da desgraça. O pressentimento era justo: a
desgraça pairava sobre a casa Séchard. Os avaros, porém, têm o seu deus. Por
obra de acasos imprevistos, esse deus faria cair na bolsa do ébrio o preço de
sua venda usurária. Eis por que a tipografia Séchard decaía, apesar dos seus
indícios de prosperidade.
Indiferente à reação religiosa que a Restauração ia produzindo no
governo, e igualmente descuidoso quanto ao liberalismo, David se conservava
na mais nociva neutralidade em matéria política e religiosa. Encontrava-se
numa época em que o comerciante de província devia professar uma
opinião a fim de ter fregueses, pois era necessário optar entre a freguesia dos
liberais e a dos monarquistas.
Um amor que invadiu o coração de David, as suas preocupações
científicas e o seu bom caráter o impediram de ter aquele apego ao lucro que
caracteriza o verdadeiro comerciante, e que o teria feito estudar as
diferenças que distinguem a indústria do interior da indústria parisiense. As
nuanças tão decisivas nos departamentos desaparecem no grande
movimento da capital.
Os irmãos Cointet se puseram em consonância com as opiniões
monárquicas, fizeram jejum ostensivamente, frequentaram a catedral,
cultivaram relações com os padres, e reimprimiram os primeiros livros
religiosos cuja necessidade se fez sentir. Tomaram assim os Cointet a
dianteira nesse ramo lucrativo e caluniaram David Séchard acusando-o de
liberalismo e de ateísmo. Como, diziam eles, dar trabalho a um homem que
tinha como pai um beberrão, um setembrista,[14] um bonapartista, um velho
avaro que, cedo ou tarde, haveria de deixar-lhe montões de ouro? Eles eram
pobres, carregados de família, enquanto David era rapaz e seria riquíssimo;
por isso, não fazia mais que divertir-se etc.
Influenciados por essas acusações lançadas contra David, a prefeitura e
o bispado acabaram por conceder o privilégio de suas impressões aos irmãos
Cointet. Não tardou muito, esses ávidos antagonistas, animados pela incúria
do rival, criaram um segundo jornal de editais. A velha tipografia ficou
reduzida às encomendas da cidade, e a renda da sua folha de anúncios
diminuiu pela metade. Enriquecida com os lucros consideráveis realizados
com os livros de Igreja e de orações, a casa Cointet propôs sem demora aos Séchard comprar-lhes o jornal, a fim de obter os editais do departamento e
as inserções judiciárias sem partilha. Logo que David transmitiu essa notícia
ao pai, o velho vinhateiro, já espavorido com os progressos da casa Cointet,
voou de Marsac até a Place du Mûrier com a rapidez do corvo que fareja
cadáveres num campo de batalha.
— Deixa os Cointet por minha conta, não te metas neste negócio — disse
ao filho.
O velhote adivinhara imediatamente o interesse dos Cointet e os
espantou com a sagacidade de suas observações. Seu filho cometia uma
tolice que ele vinha impedir, dizia.
— Sobre o que se firmará a nossa clientela, se ele cede o nosso jornal?
Os advogados, os tabeliães, todos os comerciantes do Houmeau são
liberais; os Cointet haviam querido prejudicar aos Séchard, acusando-os de
liberalismo, e haviam, assim, lhes fornecido uma tábua de salvação; os
anúncios dos liberais permaneceriam com os Séchard! Vender o jornal?...
Seria vender o material e a patente.
Pedia então aos Cointet sessenta mil francos pela tipografia para não
arruinar o filho: ele amava o filho, defendia o filho. O vinhateiro se serviu do
filho como os camponeses se servem de suas mulheres: o filho queria ou não
queria, segundo as propostas que arrancava uma a uma aos Cointet, e os
levou assim, não sem esforço, a pagarem a soma de vinte e dois mil francos
pelo Jornal de Charente.
David, porém, teve de obrigar-se a jamais imprimir qualquer outro jornal,
fosse qual fosse, sob pena da multa de trinta mil francos por danos e
prejuízos.
Tal venda era o suicídio da tipografia Séchard; mas o vinhateiro pouco
se importava com isso. Depois do roubo vem sempre o assassínio. O velhote
contava aplicar aquela soma ao pagamento do seu capital; e, para a
empalmar, teria até dado o filho como estranho ao negócio, tanto mais que
aquele incômodo filho tinha direito à metade do tesouro inesperado. Em
compensação, o generoso pai lhe abandonava a tipografia, mas mantendo o
aluguel da casa pelos famosos mil e duzentos francos.
Depois da venda do jornal aos Cointet, o velho só muito raramente vinha
à cidade, alegando sua idade avançada; a verdadeira razão, porém, era o pouco interesse que lhe dispensava uma tipografia que não era mais sua.
Contudo, não pôde repudiar inteiramente a velha afeição que consagrava
aos seus instrumentos de trabalho. Quando os negócios o traziam a
Angoulême, seria muito difícil decidir o que mais o atraía à velha casa, se os
seus prelos de madeira ou se o seu filho, de quem vinha pró-forma cobrar
seus aluguéis. Seu antigo chefe de oficina, que era agora o dos Cointet, sabia
o que devia pensar de tal generosidade paterna; dizia que essa astuta raposa
se reservava assim o direito de intervir nos negócios do filho, tornando-se seu
credor privilegiado com a acumulação dos aluguéis.
A incúria de David Séchard tinha causas que bem definiam o caráter
desse jovem. Dias após a sua instalação na tipografia paterna, encontrara um
de seus amigos do colégio, então vítima de profunda miséria. O amigo de
David Séchard era um jovem de cerca de vinte e um anos chamado Luciano
Chardon e filho de um antigo cirurgião-major dos exércitos republicanos,
afastado do serviço por um ferimento. A natureza fizera de Chardon pai um
químico, e o acaso o fizera farmacêutico em Angoulême. A morte o
surpreendera em meio aos preparativos indispensáveis para uma lucrativa
descoberta em cujas pesquisas consumira muitos anos de estudos científicos.
Queria curar todas as espécies de gota. A gota é a doença dos ricos, e os ricos
pagam caro pela saúde quando dela estão privados. Desse modo, o
farmacêutico escolhera esse problema a resolver entre todos os que se
ofereciam às suas meditações.
Colocado entre a ciência e o empirismo, o falecido Chardon
compreendera que só a ciência poderia assegurar-lhe o êxito: estudara assim
as causas da moléstia e baseava seu remédio em certo regime que o
apropriava a todos os temperamentos. Morreu durante uma viagem a Paris,
onde fora solicitar a aprovação da Academia de Ciências, e perdeu-se assim o
fruto de seus trabalhos.
Na expectativa de fazer fortuna, o farmacêutico em nada negligenciara
a educação do filho e da filha, de modo que a manutenção da família
devorara invariavelmente o que produzia a farmácia. Deixou, assim, não só
os filhos na miséria, mas, o que é pior, educara-os na esperança de destinos
brilhantes que com ele se extinguiram. O ilustre Desplein,[15] que o tratou,
viu-o morrer entre convulsões de raiva. Sua ambição tinha como móvel o violento amor que o antigo cirurgião dedicava à mulher, último rebento da
família Rubempré, miraculosamente salva por ele do cadafalso em 1793.
É que, mesmo sem que a jovem quisesse consentir em tal mentira, ele
ganhara tempo afirmando que ela estava grávida. Depois de assim criar de
certo modo o direito de a desposar, casou-se com ela, não obstante a pobreza
que lhes era comum. Seus filhos, como todos os filhos do amor, tiveram por
herança a maravilhosa beleza da mãe, esse presente tantas vezes fatal
quando a miséria o acompanha.
Tais esperanças, tais trabalhos, tais desesperos tão vivamente partilhados
haviam alterado profundamente a beleza da sra. Chardon, assim como as
lentas degradações da indigência lhe haviam demudado os costumes; mas a
sua coragem e a dos filhos igualou a sua desventura.
A pobre viúva vendeu a farmácia, situada na rua principal do Houmeau,
o mais importante dos bairros de Angoulême. O preço da venda lhe permitiu
constituir uma renda de trezentos francos, soma insuficiente para a sua
própria manutenção; ela e a filha, porém, aceitaram a situação sem corar e
voltaram-se a trabalhos mercenários. A mãe cuidava das parturientes, e a sua
boa educação a fazia preferida a qualquer outra nas casas ricas, onde vivia
sem nada custar aos filhos, ganhando ainda vinte sous por dia. Para evitar ao
filho o pesar de ver a mãe em situação tão baixa, adotara o nome de sra.
Charlotte. As pessoas que reclamavam seus cuidados dirigiam-se ao sr. Postel,
o sucessor de Chardon.
A irmã de Luciano trabalhava em uma lavanderia fina com uma mulher
honestíssima, sua vizinha, muito considerada no Houmeau, chamada sra.
Prieur, e ganhava mais ou menos quinze sous por dia. Dirigia as operárias e
gozava na oficina certa supremacia que lhe permitia sobressair um pouco da
classe das grisettes.[16]
O modesto produto do trabalho de ambas, acrescentado aos trezentos
francos de renda da sra. Chardon, perfazia cerca de oitocentos francos por
ano, com os quais tinham de viver, morar e vestir-se essas três pessoas. A
estrita economia daquele lar fazia essa soma, quase que por inteiro absorvida
por Luciano, apenas suficiente. A sra. Chardon e Eva, sua filha, acreditavam
em Luciano como a mulher de Maomé acreditava no marido; seu
devotamento ao futuro dele era sem limites. Morava essa pobre família no Houmeau, num apartamento alugado por quantia modicíssima pelo
sucessor de Chardon, e situado num pátio interior, em cima do laboratório.
Luciano ocupava nele um miserável quarto de mansarda.
Estimulado pelo pai, que apaixonado pelas ciências naturais o havia de
logo iniciado nesse caminho, Luciano foi dos alunos mais brilhantes do
colégio de Angoulême, onde cursava o terceiro ano ao tempo em que
Séchard ali terminava os estudos.
Quando o acaso fez com que se tornassem a encontrar os dois antigos
colegas, Luciano, farto de beber na grosseira taça da miséria, estava a ponto
de tomar um desses partidos extremos aos quais nos decidimos aos vinte
anos. Quarenta francos por mês que David deu generosamente a Luciano,
oferecendo-se para ensinar-lhe o mister de chefe de oficina, embora um
chefe de oficina lhe fosse perfeitamente inútil, salvaram-no do desespero.
Os laços daquela amizade de escola, assim renovados, estreitaram-se logo
pela semelhança de seus destinos e pela diferença de seus caráteres. Ambos,
com espírito pleno de muitos dons, possuíam a alta inteligência que põe o
homem ao nível de todas as sumidades, e viam-se, não obstante, lançados ao
fundo da sociedade. Essa injustiça da sorte foi-lhes um liame poderoso. Além
disto, ambos haviam chegado à poesia por caminhos diferentes.
Embora destinado às mais altas especulações das ciências naturais,
Luciano se voltava com ardor para a glória literária; enquanto David, cujo
gênio meditativo o predispunha à poesia, inclinava-se por gosto para as
ciências exatas. Esta interposição de papéis engendrou como que uma
fraternidade espiritual. Luciano não tardou a comunicar a David as altas
cogitações que herdara do pai sobre as aplicações da ciência à indústria, e
David o fez divisar os novos caminhos que deveria percorrer na literatura
para conquistar nela nome e fortuna. A amizade dos dois jovens tornou-se
em poucos dias uma dessas paixões que só nascem ao sair da adolescência.
David entreviu logo depois a bela Eva, e apaixonou-se por ela como se
apaixonam os espíritos melancólicos e meditativos. O Et nunc et semper et
in secula seculorum[17] da liturgia é a divisa desses sublimes poetas
desconhecidos cujas obras consistem em magníficas epopeias surgidas e
perdidas entre dois corações! Ao penetrar o segredo das esperanças que a
mãe e a irmã de Luciano punham naquela bela fronte de poeta, ao conhecer-lhes o cego devotamento, o apaixonado achou agradável
aproximar-se da amada, partilhando suas emoções e suas esperanças.
Luciano foi assim para David um irmão de eleição. Como os ultramontanos
que queriam ser mais realistas que o rei, David exagerou a fé que a mãe e a
irmã tinham no gênio de Luciano, e o mimou como uma mãe mima o filho.
Durante uma das conversações nas quais, premidos pela falta de
dinheiro que lhes atava as mãos, ruminavam, como todos os jovens, meios de
realizar rápida fortuna, sacudindo todas as árvores já despojadas pelos
primeiros que passaram, sem obter frutos, Luciano lembrou-se de duas ideias
do pai. O sr. Chardon falava em reduzir à metade o preço do açúcar pelo
emprego de um novo agente químico, e de diminuir de outro tanto o preço
do papel, trazendo da América certas matérias vegetais análogas às de que se
serviam os chineses e que quase nada custavam. David, que conhecia a
importância do problema levantado já pelos Didot, apoderou-se da ideia,
vendo nela uma fortuna, e considerou Luciano como um benfeitor a quem
nunca poderia recompensar devidamente.
Adivinham todos a que ponto os pensamentos dominantes e a vida
interior dos dois amigos os tornavam incapazes de dirigir uma tipografia.
Longe de render quinze a vinte mil francos, como a dos irmãos Cointet,
livreiros-impressores do bispado, proprietários do Correio de Charente,
então o único jornal do departamento, a tipografia de Séchard filho
produzia apenas trezentos francos por mês, com os quais tinha que prover
aos vencimentos do chefe de oficina, o ordenado de Marion, os impostos, o
aluguel; o que reduzia David a uma centena de francos mensais. Homens
ativos e industriosos teriam renovado os tipos, adquirido prelos de ferro,
teriam buscado nas livrarias parisienses obras que imprimiriam a baixo preço:
mas o mestre e o chefe da oficina, perdidos nos absorventes trabalhos da
inteligência, contentavam-se com as encomendas que lhes confiavam os
últimos clientes. Os irmãos Cointet acabaram por conhecer o caráter e os
costumes de David, e não o caluniavam mais; ao contrário, uma sábia
política lhes aconselhava deixar vegetar a tipografia, entretendo-a numa
honesta mediocridade, para que não viesse a cair nas mãos de algum temível
antagonista; enviavam-lhe mesmo trabalhos dos chamados “da praça”.
Assim, sem o saber, David Séchard não existia, comercialmente falando, senão por hábil cálculo de seus concorrentes. Felizes com o que
denominavam sua mania, os Cointet tinham para com ele procedimento na
aparência cheio de retidão e lealdade; agiam, porém, na realidade, como a
administração das empresas de transporte, quando simulam uma
concorrência para evitar alguma de verdade.
O exterior da casa Séchard estava em harmonia com a crassa avareza
que reinava no seu interior, onde o velho Urso jamais consertara coisa
alguma. A chuva, o sol, as intempéries de cada estação haviam dado o
aspecto de um velho tronco de árvore à porta do corredor, tão sulcada
estava de fendas irregulares. A fachada, mal construída de pedras e tijolos
misturados sem simetria, parecia curvar-se sob o peso do telhado carcomido,
sobrecarregado dessas telhas côncavas que constituem todos os tetos no sul
da França. As vidraças carunchosas eram guarnecidas de enormes postigos
revestidos de espessas travessas como o exige o clima quente. Seria impossível
encontrar em toda Angoulême casa mais estragada que aquela, que parecia
só se suster pela força da argamassa. Imaginai aquela oficina, clara nas
extremidades, escura no meio, com paredes cobertas de cartazes, brunida,
embaixo, pelo contato dos operários que por ali haviam rolado durante trinta
anos, seus aprestos de cordas no forro, suas pilhas de papel, seus velhos
prelos, seus montes de lousas para apertar o papel umedecido, suas filas de
caixas, e, ao fundo, os dois cubículos de grades, onde, cada um de seu lado,
conservavam-se o dono e o chefe; compreendereis então a existência dos
dois amigos.
Em 1821, nos primeiros dias de maio, David e Luciano estavam junto às
vidraças do pátio no momento em que, pelas duas horas, os seus quatro ou
cinco operários deixavam a oficina para irem jantar. Ao ver o aprendiz
fechar a porta com sineta que dava para a rua, David levou Luciano para o
pátio, como se o cheiro do papel, dos tinteiros, dos prelos e da madeira velha
lhe fosse insuportável. Sentaram-se os dois sob uma latada de onde podiam
ver quem quer que entrasse na oficina. Os raios do sol que brincavam nas
folhas da parreira acariciavam os dois poetas, envolvendo-os com a sua luz
como uma auréola. O contraste marcado pela oposição daqueles dois
caracteres e daquelas duas fisionomias acusou-se então tão vigorosamente
que teria seduzido o pincel de um grande pintor.
David tinha as formas que a natureza dá aos seres destinados a grandes
lutas, abertas ou secretas. Seu largo busto era flanqueado por fortes espáduas
em harmonia com a plenitude de toda a sua figura. Seu rosto, de tom
moreno, corado, largo, suportado por forte pescoço, envolto por abundante
floresta de cabelos negros, parecia-se à primeira vista com o dos cônegos
cantados por Boileau;[18] um segundo exame, porém, nos revelaria nas
pregas dos lábios espessos, na covinha do queixo, nos contornos do nariz reto,
emoldurado entre planos revoltos, sobretudo nos olhos, o brilho contínuo de
um amor único, a sagacidade do pensador, a ardente melancolia de um
espírito que podia abarcar os dois extremos do horizonte, penetrando-lhe
todas as sinuosidades, e que se aborrecia facilmente com os gozos puramente
ideais, submetendo-os à luz da análise. Se se adivinhavam em sua face os
clarões do gênio que desponta, viam-se também cinzas junto ao vulcão; a
esperança ali se amortecia pelo profundo sentimento do vazio social, em que
o nascimento obscuro e a falta de fortuna mantêm tantos espíritos
superiores.
Ao lado do pobre tipógrafo, a quem seu estado, embora muito próximo
da inteligência, enjoava, ao lado daquele Sileno[19] pesadamente apoiado
sobre si mesmo, bebendo a longos tragos da taça da ciência e da poesia, com
elas se inebriando para esquecer as desventuras da vida de província,
Luciano conservava a atitude graciosa que os escultores deram ao Baco
hindu. Seu rosto tinha a distinção de linhas da beleza antiga: testa e nariz