A Escola de Minas de Ouro Preto: o peso da glória

José Murilo de Carvalho · Capítulo 9 de 18

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A Escola de Minas de Ouro Preto: o peso da glória

Parte 2: Nas Alturas

 

Impacto

 

Analisadas a criação e a consolidação da Escola, cabe perguntar pelo

impacto que teve sobre três campos de atividade: o que lhe era

diretamente vinculado, isto é, o ensino, a ciência e a tecnologia; o que a ela

se ligava de maneira indireta, mas explicita, como a mineração e a

siderurgia; um terceiro que, apesar de se localizar fora do raio previsto de

sua ação, terminou por constituir uma das principais contribuições dos ex-

alunos, qual seja, a política mineral. Embora reconhecidamente difícil, a

tentativa de avaliação do impacto da decisão de criar instituições de ensino

e pesquisa é útil como orientação para outras decisões semelhantes.

 

No caso da Escola de Minas, instituição criada mais por voluntarismo

político do que por exigências sociais, a avaliação se torna ainda mais

relevante para fornecer indicações sobre o alcance e limite desse tipo de

decisão. Em outras palavras, a avaliação pode permitir tirar conclusões

sobre vários pontos importantes, como o sentido de se tentar manipular a

educação como variável estratégica no processo de desenvolvimento

econômico; a importância de métodos pedagógicos e formatos

institucionais; e a relação entre formação profissional e mercado de

trabalho.

 

Examino em primeiro lugar o novo espírito de ensino e trabalho implantado

por Gorceix; a seguir, apresento um panorama da produção e atuação dos

ex-alunos; por fim, analiso a influência da Escola no ensino, na ciência, na

economia e na política.

 

O Espírito de Gorceix

 

É absolutamente preciso estudar os fatos, observar fenômenos.

 

Gorceix

 

Em contraposição à precariedade do conteúdo do ensino científico e

técnico predominante no país à época, e à inadequação dos métodos utilizados nesse ensino, Gorceix tentou implantar em Ouro Preto um

conteúdo e um método novos. Como diz em carta ao Imperador, sua

intenção era introduzir o estudo da geologia e da mineralogia, “mas

também criar um estabelecimento onde estas ciências pudessem ser

ensinadas com os métodos de meus mestres e onde fosse possível

submeter os alunos a um trabalho com base ao mesmo tempo teórica e

prática”1. Os novos métodos e o novo estilo de trabalho ficaram conhecidos

na Escola como “o espírito de Gorceix”. A seguir, busco identificar as

características fundamentais desse espírito.

 

ÊNFASE NA CRIATIVIDADE E NA PESQUISA

 

Em oposição ao ensino memorizante que predominava nas escolas

brasileiras, Gorceix fazia questão de insistir na compreensão e no

desenvolvimento da criatividade e do espírito de investigação. Os alunos

eram submetidos a constantes exames para verificação de aprendizado e

deles se exigiam intensos trabalhos práticos de laboratório. Havia dias da

semana especialmente destinados a esses trabalhos. As excursões eram

constantes, umas mais curtas, realizadas nas manhãs de domingo ao redor

de Ouro Preto, outras mais longas, até a fábrica de Ipanema em São

Paulo, feitas durante o período de férias. Para as excursões mais longas,

os alunos levavam, quando não acompanhados de professores, instruções

pormenorizadas sobre onde ir, o que observar, que material coletar, com

quem falar2.

 

Gorceix preocupava-se sobremaneira com a tendência à retórica vazia que

detectava nas escolas brasileiras. Daí insistir na combinação do ensino

teórico com a prática, com os estudos dos fatos e dos fenômenos, como

diz no prefácio ao primeiro número dos Anais da Escola. No mesmo

prefácio, diz ainda: “O tempo das discussões frívolas sobre palavras e

teorias, simples especulações do espírito, legadas pela Idade Média, das

quais há muito o velho mundo desembaraçou- se, já passou.” As teorias

poderiam ser desenvolvidas, mas somente após cuidadoso estudo da

realidade. Era preciso trabalhar cum mente et malleo, com a cabeça e com

o martelo. No discurso de inauguração, afirmou que “as minas, os

estabelecimentos metalúrgicos serão os melhores livros de nossa

biblioteca”3.

 

Tal orientação se fazia sentir no ambiente da Escola. Segundo depoimento

do deputado Felício dos Santos, que a visitou várias vezes, não havia ali o

domínio dos compêndios,

não ouvi a entonação oratória dos professores; achei os alunos

sempre trabalhando. Alguns, trajando aventais, dirigiam as forjas,

outros os fornos de reverbero, uns extraíam de linhitos excelente gás

de iluminação, outros analisavam minerais 4.

 

O novo estilo era parte da mudança que Derby percebera em 1883 e que,

segundo ele, se caracterizava pela substituição do estudo dos livros pelo

estudo da natureza.

 

TEMPO INTEGRAL PARA PROFESSORES E ALUNOS

 

Contrastando com a prática vigente nos estabelecimentos de ensino

superior do país, em que o professor frequentemente possuía outro ou

outros empregos e permanecia na escola o tempo justo para dar suas

aulas, o professor de Ouro Preto, a começar pelo diretor, ficava na Escola

das 8 horas da manhã às 5 horas da tarde, além de acompanhar os alunos

nas pequenas excursões de domingo e nas longas excursões das férias. O

diretor não admitia como professor quem não tivesse condições de se

dedicar ao trabalho em tempo integral. A dedicação dos professores pode

ser avaliada por informação constante do relatório de 1883. Até aquela

data, sete anos após a abertura do curso, nenhum dos professores faltara

a uma aula sequer, um recorde no Brasil, não igualado antes e certamente

nem mesmo depois.

 

O mesmo rigor se aplicava aos alunos, dos quais se exigia frequência

integral às aulas. Nesse ponto, Gorceix teve problemas com a reforma

Leôncio de Carvalho, de 1879, que introduziu a frequência livre. Combateu

vigorosamente a liberdade dada aos alunos de frequentar ou não as aulas.

Julgava que deveria haver liberdade de ensinar, mas de aprender só

poderia haver obrigação. Conseguiu, com apoio do Imperador, que a

reforma não fosse aplicada em seu estabelecimento, mas não sem

aborrecimentos. Os alunos do preparatório insistiram em fazer uso da

frequência livre. Um ex-aluno do curso superior, Crispiniano Tavares, que

nunca contara com as simpatias de Gorceix, aproveitou-se da polêmica

para combater os regulamentos da casa, estendendo os ataques aos

professores estrangeiros e à “autocracia” do diretor5. Mas a campanha,

aparentemente, não teve maiores consequências.

 

ENSINO INDIVIDUALIZADO

O pequeno número de estudantes e a dedicação exclusiva permitiam o

contato frequente entre professor e aluno, na sala de aula, nos

laboratórios, nas excursões. Os exames eram realizados num tête-à-tête

entre o professor e o aluno e só terminavam quando o primeiro se julgava

esclarecido sobre o nível de conhecimento do estudante. Arrojado Lisboa

menciona que, em certa ocasião, Archias Medrado examinou um aluno por

mais de três horas e, não satisfeito, mandou-o voltar no dia seguinte,

terminando por reprová-lo. Era proverbial a estreita vigilância que Gorceix

exercia sobre todos. Verificava as notas de cada aluno, chamava a seu

escritório os que não iam bem, comentava nos corredores as boas e más

notas6.

 

PREOCUPAÇÃO COM A REALIDADE BRASILEIRA

 

A preocupação com a realidade econômica brasileira e, sobretudo, mineira,

foi outra constante na atuação de Gorceix. A tarefa fundamental da Escola

deveria ser o levantamento das riquezas de Minas e do país e a promoção

de seu aproveitamento através da mineração e da siderurgia. Solicitou com

insistência recursos para iniciar, com o auxílio de Derby, a carta geológica

de Minas. Tentou atrair capitais franceses para a mineração e alimentava o

plano de envolver a Escola na implantação de uma usina siderúrgica

utilizando altos-fornos a carvão vegetal. A preocupação que hoje

chamaríamos de desenvolvimentista, as excursões pelo interior, e o próprio

ambiente da cidade de Ouro Preto, impregnado de história, contribuíram

para incutir nos ex-alunos um forte sentimento nacionalista, que se

manifestou mais tarde nos conflitos em torno da política mineral.

 

A influência de Ouro Preto foi grande também em outros aspectos. Seu

ambiente acanhado favorecia a concentração nos estudos (a Escola era o

lugar mais divertido da cidade) e o contato entre alunos e entre professores

e alunos. Ainda segundo o precioso depoimento de Arrojado Lisboa, os

estudantes passavam o dia todo na Escola. Ao final do dia, regressavam a

suas repúblicas, onde retomavam os estudos lã pelas 7 ou 8 horas da

noite. Diz o depoimento: “A vida do estudante de Ouro Preto tinha seu

ambiente próprio, era muito mais afetiva e pelo menos tão intelectual

quanto a vida do estudante de nossas Faculdades nas grandes cidades7.

Esse ambiente favorecia o desenvolvimento de um espírito, uma

mentalidade característicos que acompanhavam os ex-alunos pelo resto de

suas vidas.

Os resultados da orientação e dos métodos não se fizeram esperar. Das

excursões dos alunos da primeira turma já resultaram dois trabalhos que

Gorceix conseguiu publicar nos Anais do Museu Nacional. A prova mais

decisiva da eficácia dos novos métodos de ensino é o fato de que a Escola

conseguiu formar, quando o curso ainda durava apenas dois anos,

pesquisadores como Francisco de Paula Oliveira, Costa Sena e,

sobretudo, Luiz Felipe Gonzaga de Campos. No caso desse último, o

resultado foi mais admirável, pois, segundo Gorceix, Gonzaga era “muito

inteligente, infelizmente pouco trabalhador”. Quando hoje se discute se o

mestrado tem condições de formar pesquisadores completos, não deixa de

ser melancólica a lembrança de que a Escola de Minas já os formava em

dois anos de graduação.

 

Cabe aqui um pequeno parêntese sobre história intelectual. Ao contrário de

outras escolas técnicas brasileiras, sobretudo da Escola Militar, da

Politécnica e mesmo da Faculdade de Medicina do Rio, o positivismo não

teve influência em Ouro Preto. O fato é particularmente estranho por ser

essa filosofia geralmente associada à mudança de atitude em relação ao

estudo das ciências. Vimos, por exemplo, que Maria Odila tenta

estabelecer uma continuidade entre a geração ilustrada do começo do

século e o movimento positivista das últimas décadas. Ora, a Escola de

Minas, um dos principais representantes da nova atitude, ficou totalmente

imune a essa corrente de pensamento. Gorceix era católico, e seus

principais colaboradores eram materialistas, evolucionistas, livres

pensadores, mas não positivistas, como relembra Arrojado Lisboa. Djalma

Guimarães vincula o pensamento de Gorceix ao cartesianismo, devido a

sua preocupação com a clareza, a racionalidade, o exame dos fatos, a

ausência de preconceitos científicos. Segundo Djalma, Costa Sena teria

sido, quanto a esse ponto, o melhor continuador de Gorceix. A

preocupação prática dos estudos e a desconfiança em relação a

teorizações fáceis devem ter constituído um antídoto eficaz contra as

influências positivistas, tendo em vista, sobretudo, que no Brasil

predominou o positivismo ortodoxo, voltado mais para especulações

filosóficas do que para a pesquisa científica 8.

 

Alguns dos métodos introduzidos por Gorceix podem parecer hoje quase

policialescos e pode-se perguntar se, mesmo na época, não causavam

revolta entre alunos e professores. Quanto aos últimos, há o testemunho

de Arrojado Lisboa, que diz ter havido “uma perfeita identidade de vistas

entre o diretor e os professores”.9 A afirmação não é de todo verdadeira.

Houve, na verdade, alguns atritos. Já se fez menção às diatribes de Crispiniano Tavares contra a “autocracia” do diretor. Archias Medrado e

Antônio Ennes de Souza, este professor da Politécnica, foram os principais

instigadores de uma greve de alunos em 1883, de que se falará a seguir.

Mais tarde, Arthur Thiré, seguido de Domingos da Silva Porto e Domingos

José da Rocha, criaram dificuldades para Gorceix10.Houve ainda atritos

após a proclamação da República que contribuíram para o afastamento

definitivo do criador da Escola. Parece, no entanto, que, embora os

regulamentos fossem às vezes mencionados, a razão principal por trás

desses conflitos, poucos, aliás, para um período de 15 anos, eram disputas

de poder e não a filosofia de ensino adotada ou mesmo os métodos

pedagógicos. Os regulamentos não foram modificados após a saída do

“ditador”.

 

No que se refere aos alunos, há notícia de apenas uma greve em 1883. A

causa foi um incidente quase jocoso entre alunos do preparatório e o

professor Arthur Thiré. Segundo Gorceix, os instigadores do movimento

teriam sido os professores Archias Medrado e Ennes de Souza, que teriam

transformado o incidente em campanha contra os professores estrangeiros

e contra o regulamento. Archias lhe teria confessado a participação e se

desculpado. Ennes, aparentemente, desejava o posto de diretor. A situação

deteriorou-se a ponto de Gorceix pedir demissão do cargo ao ministro do

Império e sugerir a substituição total dos professores estrangeiros por

brasileiros, reconhecendo também que seu caráter e suas “maneiras

bruscas” poderiam ser uma das causas das dificuldades. A demissão não

foi aceita e, por interferência do presidente da Província, Antônio

Gonçalves Chaves, do deputado Felício dos Santos e de Calógeras, os

alunos voltaram às aulas, e a situação se acalmou11. Como se vê, a greve

teve mais a ver com disputas de poder entre professores do que com

revolta de alunos. Quando Gorceix regressou da Europa, em 1890, os

alunos o presentearam com uma placa de ouro; quando pediu demissão

em 1891 eles, juntamente com os da Escola de Farmácia, fizeram um

abaixo-assinado solicitando que voltasse atrás em sua decisão.

 

A pouca reação a regime tão rigoroso e tão destoante das práticas

nacionais só se pode explicar pelo fato de que, o diretor, ao mesmo tempo,

que exigia trabalho duro, fornecia liderança intelectual. Acima e além da

rigidez das normas, percebia-se a existência de um objetivo que era

valorizado por todos. Ao rigor das normas, correspondia um real

aproveitamento em termos de aprendizado e do desenvolvimento do

espírito de investigação.

Para criar e manter seu “espírito”, Gorceix foi extremamente cuidadoso na

seleção do corpo docente. Enquanto não pode contar com os ex-alunos,

recorreu de preferência a professores franceses ou a professores

brasileiros que já conhecia e que sabia não iriam destoar de suas

orientações. O ajustamento a seu estilo de trabalho era um critério

importante, ao lado da qualificação, para a contratação de um professor.

Exemplo disso foram as negociações para substituir Arthur Thiré quando

este pediu demissão em 1887. A dificuldade maior em contratar um

substituto no Brasil, supondo-se que existisse pessoa qualificada, estava

em que

 

os métodos seguidos no ensino da Escola de Minas de Ouro Preto, e o

espírito que anima o seu corpo docente, são totalmente diferentes dos

que prevaleceram até hoje em outros estabelecimentos de instrução

superior do Pais e são eles os elementos de sucesso do nosso ensino

que fazem hoje afluir alunos de todos os pontos do Brasil. Em todos os

nossos cursos reina uma harmonia de ideias que dão ao nosso ensino

uma homogeneidade que faz sua força e seu valor 12.

 

Do grupo de professores que ensinou até o final do século pode-se dizer

que foi todo ele escolhido a dedo por Gorceix. Os franceses Armand de

Bovet, Arthur Thiré e Paul Ferrancl, formados na Polytéchnique e na

Escola de Minas de Paris, foram escolhidos com a ajuda de ex-professores

e amigos de Gorceix na França, sobretudo Daubrée, Delesse e Des

Cloiseaux. Dos brasileiros, a grande maioria era composta de ex-alunos.

As exceções eram os preparadores que ajudaram Gorceix a iniciar o curso

em 1876: Archias Medrado, Leônidas Botelho Damázio, Francisco van

Erven e Bernarclino de Lima. Medrado já era conhecido de Gorceix, pois o

auxiliara na montagem do laboratório mineralógico do Rio. Era bacharel

pela Escola Central. Van Erven, que acabou sendo o substituto de Thiré,

ajudara Gorceix na organização da Escola. Damázio foi escolhido por

concurso, e a contratação de Bernardino de Lima foi solicitada diretamente

ao Imperador.

 

A Tabela 8 mostra o tempo de permanência dos professores que

contribuíram para a criação e consolidação da Escola.

 

O núcleo central, formado por Gorceix, Medrado e Damãzio, forneceu a

principal base de continuidade. Damázio lecionou 36 anos. Dos outros, o

que ficou menos tempo foi De Bovet, cuja permanência, mesmo assim, foi

de seis anos. A estabilidade dos professores, ao lado da cuidadosa seleção, foi certamente outro fator importante na criação e manutenção de

um estilo homogêneo de trabalho.

 

Tabela 8

Tempo de Permanência dos Professores de Fora

 

Nota: Não está incluído no quadro o francês Ferdinand Victor Langlet que

ensinou apenas dois meses, em 1878.

 

Quando Gorceix saiu, todos os outros professores eram ex-alunos. A única

exceção era Bernardino de Lima, formado pela Escola de Direito de São

Paulo, que lecionava legislação de minas, uma cadeira de menor

importância. Em 1893, dos 14 professores, 9 já eram ex-alunos. Com a introdução da endogenia, incentivada pelo próprio Gorceix, aumentou