A Escola de Minas de Ouro Preto: o peso da glória
Parte 2: Nas Alturas
Impacto
Analisadas a criação e a consolidação da Escola, cabe perguntar pelo
impacto que teve sobre três campos de atividade: o que lhe era
diretamente vinculado, isto é, o ensino, a ciência e a tecnologia; o que a ela
se ligava de maneira indireta, mas explicita, como a mineração e a
siderurgia; um terceiro que, apesar de se localizar fora do raio previsto de
sua ação, terminou por constituir uma das principais contribuições dos ex-
alunos, qual seja, a política mineral. Embora reconhecidamente difícil, a
tentativa de avaliação do impacto da decisão de criar instituições de ensino
e pesquisa é útil como orientação para outras decisões semelhantes.
No caso da Escola de Minas, instituição criada mais por voluntarismo
político do que por exigências sociais, a avaliação se torna ainda mais
relevante para fornecer indicações sobre o alcance e limite desse tipo de
decisão. Em outras palavras, a avaliação pode permitir tirar conclusões
sobre vários pontos importantes, como o sentido de se tentar manipular a
educação como variável estratégica no processo de desenvolvimento
econômico; a importância de métodos pedagógicos e formatos
institucionais; e a relação entre formação profissional e mercado de
trabalho.
Examino em primeiro lugar o novo espírito de ensino e trabalho implantado
por Gorceix; a seguir, apresento um panorama da produção e atuação dos
ex-alunos; por fim, analiso a influência da Escola no ensino, na ciência, na
economia e na política.
O Espírito de Gorceix
É absolutamente preciso estudar os fatos, observar fenômenos.
Gorceix
Em contraposição à precariedade do conteúdo do ensino científico e
técnico predominante no país à época, e à inadequação dos métodos utilizados nesse ensino, Gorceix tentou implantar em Ouro Preto um
conteúdo e um método novos. Como diz em carta ao Imperador, sua
intenção era introduzir o estudo da geologia e da mineralogia, “mas
também criar um estabelecimento onde estas ciências pudessem ser
ensinadas com os métodos de meus mestres e onde fosse possível
submeter os alunos a um trabalho com base ao mesmo tempo teórica e
prática”1. Os novos métodos e o novo estilo de trabalho ficaram conhecidos
na Escola como “o espírito de Gorceix”. A seguir, busco identificar as
características fundamentais desse espírito.
ÊNFASE NA CRIATIVIDADE E NA PESQUISA
Em oposição ao ensino memorizante que predominava nas escolas
brasileiras, Gorceix fazia questão de insistir na compreensão e no
desenvolvimento da criatividade e do espírito de investigação. Os alunos
eram submetidos a constantes exames para verificação de aprendizado e
deles se exigiam intensos trabalhos práticos de laboratório. Havia dias da
semana especialmente destinados a esses trabalhos. As excursões eram
constantes, umas mais curtas, realizadas nas manhãs de domingo ao redor
de Ouro Preto, outras mais longas, até a fábrica de Ipanema em São
Paulo, feitas durante o período de férias. Para as excursões mais longas,
os alunos levavam, quando não acompanhados de professores, instruções
pormenorizadas sobre onde ir, o que observar, que material coletar, com
quem falar2.
Gorceix preocupava-se sobremaneira com a tendência à retórica vazia que
detectava nas escolas brasileiras. Daí insistir na combinação do ensino
teórico com a prática, com os estudos dos fatos e dos fenômenos, como
diz no prefácio ao primeiro número dos Anais da Escola. No mesmo
prefácio, diz ainda: “O tempo das discussões frívolas sobre palavras e
teorias, simples especulações do espírito, legadas pela Idade Média, das
quais há muito o velho mundo desembaraçou- se, já passou.” As teorias
poderiam ser desenvolvidas, mas somente após cuidadoso estudo da
realidade. Era preciso trabalhar cum mente et malleo, com a cabeça e com
o martelo. No discurso de inauguração, afirmou que “as minas, os
estabelecimentos metalúrgicos serão os melhores livros de nossa
biblioteca”3.
Tal orientação se fazia sentir no ambiente da Escola. Segundo depoimento
do deputado Felício dos Santos, que a visitou várias vezes, não havia ali o
domínio dos compêndios,
não ouvi a entonação oratória dos professores; achei os alunos
sempre trabalhando. Alguns, trajando aventais, dirigiam as forjas,
outros os fornos de reverbero, uns extraíam de linhitos excelente gás
de iluminação, outros analisavam minerais 4.
O novo estilo era parte da mudança que Derby percebera em 1883 e que,
segundo ele, se caracterizava pela substituição do estudo dos livros pelo
estudo da natureza.
TEMPO INTEGRAL PARA PROFESSORES E ALUNOS
Contrastando com a prática vigente nos estabelecimentos de ensino
superior do país, em que o professor frequentemente possuía outro ou
outros empregos e permanecia na escola o tempo justo para dar suas
aulas, o professor de Ouro Preto, a começar pelo diretor, ficava na Escola
das 8 horas da manhã às 5 horas da tarde, além de acompanhar os alunos
nas pequenas excursões de domingo e nas longas excursões das férias. O
diretor não admitia como professor quem não tivesse condições de se
dedicar ao trabalho em tempo integral. A dedicação dos professores pode
ser avaliada por informação constante do relatório de 1883. Até aquela
data, sete anos após a abertura do curso, nenhum dos professores faltara
a uma aula sequer, um recorde no Brasil, não igualado antes e certamente
nem mesmo depois.
O mesmo rigor se aplicava aos alunos, dos quais se exigia frequência
integral às aulas. Nesse ponto, Gorceix teve problemas com a reforma
Leôncio de Carvalho, de 1879, que introduziu a frequência livre. Combateu
vigorosamente a liberdade dada aos alunos de frequentar ou não as aulas.
Julgava que deveria haver liberdade de ensinar, mas de aprender só
poderia haver obrigação. Conseguiu, com apoio do Imperador, que a
reforma não fosse aplicada em seu estabelecimento, mas não sem
aborrecimentos. Os alunos do preparatório insistiram em fazer uso da
frequência livre. Um ex-aluno do curso superior, Crispiniano Tavares, que
nunca contara com as simpatias de Gorceix, aproveitou-se da polêmica
para combater os regulamentos da casa, estendendo os ataques aos
professores estrangeiros e à “autocracia” do diretor5. Mas a campanha,
aparentemente, não teve maiores consequências.
ENSINO INDIVIDUALIZADO
O pequeno número de estudantes e a dedicação exclusiva permitiam o
contato frequente entre professor e aluno, na sala de aula, nos
laboratórios, nas excursões. Os exames eram realizados num tête-à-tête
entre o professor e o aluno e só terminavam quando o primeiro se julgava
esclarecido sobre o nível de conhecimento do estudante. Arrojado Lisboa
menciona que, em certa ocasião, Archias Medrado examinou um aluno por
mais de três horas e, não satisfeito, mandou-o voltar no dia seguinte,
terminando por reprová-lo. Era proverbial a estreita vigilância que Gorceix
exercia sobre todos. Verificava as notas de cada aluno, chamava a seu
escritório os que não iam bem, comentava nos corredores as boas e más
notas6.
PREOCUPAÇÃO COM A REALIDADE BRASILEIRA
A preocupação com a realidade econômica brasileira e, sobretudo, mineira,
foi outra constante na atuação de Gorceix. A tarefa fundamental da Escola
deveria ser o levantamento das riquezas de Minas e do país e a promoção
de seu aproveitamento através da mineração e da siderurgia. Solicitou com
insistência recursos para iniciar, com o auxílio de Derby, a carta geológica
de Minas. Tentou atrair capitais franceses para a mineração e alimentava o
plano de envolver a Escola na implantação de uma usina siderúrgica
utilizando altos-fornos a carvão vegetal. A preocupação que hoje
chamaríamos de desenvolvimentista, as excursões pelo interior, e o próprio
ambiente da cidade de Ouro Preto, impregnado de história, contribuíram
para incutir nos ex-alunos um forte sentimento nacionalista, que se
manifestou mais tarde nos conflitos em torno da política mineral.
A influência de Ouro Preto foi grande também em outros aspectos. Seu
ambiente acanhado favorecia a concentração nos estudos (a Escola era o
lugar mais divertido da cidade) e o contato entre alunos e entre professores
e alunos. Ainda segundo o precioso depoimento de Arrojado Lisboa, os
estudantes passavam o dia todo na Escola. Ao final do dia, regressavam a
suas repúblicas, onde retomavam os estudos lã pelas 7 ou 8 horas da
noite. Diz o depoimento: “A vida do estudante de Ouro Preto tinha seu
ambiente próprio, era muito mais afetiva e pelo menos tão intelectual
quanto a vida do estudante de nossas Faculdades nas grandes cidades7.
Esse ambiente favorecia o desenvolvimento de um espírito, uma
mentalidade característicos que acompanhavam os ex-alunos pelo resto de
suas vidas.
Os resultados da orientação e dos métodos não se fizeram esperar. Das
excursões dos alunos da primeira turma já resultaram dois trabalhos que
Gorceix conseguiu publicar nos Anais do Museu Nacional. A prova mais
decisiva da eficácia dos novos métodos de ensino é o fato de que a Escola
conseguiu formar, quando o curso ainda durava apenas dois anos,
pesquisadores como Francisco de Paula Oliveira, Costa Sena e,
sobretudo, Luiz Felipe Gonzaga de Campos. No caso desse último, o
resultado foi mais admirável, pois, segundo Gorceix, Gonzaga era “muito
inteligente, infelizmente pouco trabalhador”. Quando hoje se discute se o
mestrado tem condições de formar pesquisadores completos, não deixa de
ser melancólica a lembrança de que a Escola de Minas já os formava em
dois anos de graduação.
Cabe aqui um pequeno parêntese sobre história intelectual. Ao contrário de
outras escolas técnicas brasileiras, sobretudo da Escola Militar, da
Politécnica e mesmo da Faculdade de Medicina do Rio, o positivismo não
teve influência em Ouro Preto. O fato é particularmente estranho por ser
essa filosofia geralmente associada à mudança de atitude em relação ao
estudo das ciências. Vimos, por exemplo, que Maria Odila tenta
estabelecer uma continuidade entre a geração ilustrada do começo do
século e o movimento positivista das últimas décadas. Ora, a Escola de
Minas, um dos principais representantes da nova atitude, ficou totalmente
imune a essa corrente de pensamento. Gorceix era católico, e seus
principais colaboradores eram materialistas, evolucionistas, livres
pensadores, mas não positivistas, como relembra Arrojado Lisboa. Djalma
Guimarães vincula o pensamento de Gorceix ao cartesianismo, devido a
sua preocupação com a clareza, a racionalidade, o exame dos fatos, a
ausência de preconceitos científicos. Segundo Djalma, Costa Sena teria
sido, quanto a esse ponto, o melhor continuador de Gorceix. A
preocupação prática dos estudos e a desconfiança em relação a
teorizações fáceis devem ter constituído um antídoto eficaz contra as
influências positivistas, tendo em vista, sobretudo, que no Brasil
predominou o positivismo ortodoxo, voltado mais para especulações
filosóficas do que para a pesquisa científica 8.
Alguns dos métodos introduzidos por Gorceix podem parecer hoje quase
policialescos e pode-se perguntar se, mesmo na época, não causavam
revolta entre alunos e professores. Quanto aos últimos, há o testemunho
de Arrojado Lisboa, que diz ter havido “uma perfeita identidade de vistas
entre o diretor e os professores”.9 A afirmação não é de todo verdadeira.
Houve, na verdade, alguns atritos. Já se fez menção às diatribes de Crispiniano Tavares contra a “autocracia” do diretor. Archias Medrado e
Antônio Ennes de Souza, este professor da Politécnica, foram os principais
instigadores de uma greve de alunos em 1883, de que se falará a seguir.
Mais tarde, Arthur Thiré, seguido de Domingos da Silva Porto e Domingos
José da Rocha, criaram dificuldades para Gorceix10.Houve ainda atritos
após a proclamação da República que contribuíram para o afastamento
definitivo do criador da Escola. Parece, no entanto, que, embora os
regulamentos fossem às vezes mencionados, a razão principal por trás
desses conflitos, poucos, aliás, para um período de 15 anos, eram disputas
de poder e não a filosofia de ensino adotada ou mesmo os métodos
pedagógicos. Os regulamentos não foram modificados após a saída do
“ditador”.
No que se refere aos alunos, há notícia de apenas uma greve em 1883. A
causa foi um incidente quase jocoso entre alunos do preparatório e o
professor Arthur Thiré. Segundo Gorceix, os instigadores do movimento
teriam sido os professores Archias Medrado e Ennes de Souza, que teriam
transformado o incidente em campanha contra os professores estrangeiros
e contra o regulamento. Archias lhe teria confessado a participação e se
desculpado. Ennes, aparentemente, desejava o posto de diretor. A situação
deteriorou-se a ponto de Gorceix pedir demissão do cargo ao ministro do
Império e sugerir a substituição total dos professores estrangeiros por
brasileiros, reconhecendo também que seu caráter e suas “maneiras
bruscas” poderiam ser uma das causas das dificuldades. A demissão não
foi aceita e, por interferência do presidente da Província, Antônio
Gonçalves Chaves, do deputado Felício dos Santos e de Calógeras, os
alunos voltaram às aulas, e a situação se acalmou11. Como se vê, a greve
teve mais a ver com disputas de poder entre professores do que com
revolta de alunos. Quando Gorceix regressou da Europa, em 1890, os
alunos o presentearam com uma placa de ouro; quando pediu demissão
em 1891 eles, juntamente com os da Escola de Farmácia, fizeram um
abaixo-assinado solicitando que voltasse atrás em sua decisão.
A pouca reação a regime tão rigoroso e tão destoante das práticas
nacionais só se pode explicar pelo fato de que, o diretor, ao mesmo tempo,
que exigia trabalho duro, fornecia liderança intelectual. Acima e além da
rigidez das normas, percebia-se a existência de um objetivo que era
valorizado por todos. Ao rigor das normas, correspondia um real
aproveitamento em termos de aprendizado e do desenvolvimento do
espírito de investigação.
Para criar e manter seu “espírito”, Gorceix foi extremamente cuidadoso na
seleção do corpo docente. Enquanto não pode contar com os ex-alunos,
recorreu de preferência a professores franceses ou a professores
brasileiros que já conhecia e que sabia não iriam destoar de suas
orientações. O ajustamento a seu estilo de trabalho era um critério
importante, ao lado da qualificação, para a contratação de um professor.
Exemplo disso foram as negociações para substituir Arthur Thiré quando
este pediu demissão em 1887. A dificuldade maior em contratar um
substituto no Brasil, supondo-se que existisse pessoa qualificada, estava
em que
os métodos seguidos no ensino da Escola de Minas de Ouro Preto, e o
espírito que anima o seu corpo docente, são totalmente diferentes dos
que prevaleceram até hoje em outros estabelecimentos de instrução
superior do Pais e são eles os elementos de sucesso do nosso ensino
que fazem hoje afluir alunos de todos os pontos do Brasil. Em todos os
nossos cursos reina uma harmonia de ideias que dão ao nosso ensino
uma homogeneidade que faz sua força e seu valor 12.
Do grupo de professores que ensinou até o final do século pode-se dizer
que foi todo ele escolhido a dedo por Gorceix. Os franceses Armand de
Bovet, Arthur Thiré e Paul Ferrancl, formados na Polytéchnique e na
Escola de Minas de Paris, foram escolhidos com a ajuda de ex-professores
e amigos de Gorceix na França, sobretudo Daubrée, Delesse e Des
Cloiseaux. Dos brasileiros, a grande maioria era composta de ex-alunos.
As exceções eram os preparadores que ajudaram Gorceix a iniciar o curso
em 1876: Archias Medrado, Leônidas Botelho Damázio, Francisco van
Erven e Bernarclino de Lima. Medrado já era conhecido de Gorceix, pois o
auxiliara na montagem do laboratório mineralógico do Rio. Era bacharel
pela Escola Central. Van Erven, que acabou sendo o substituto de Thiré,
ajudara Gorceix na organização da Escola. Damázio foi escolhido por
concurso, e a contratação de Bernardino de Lima foi solicitada diretamente
ao Imperador.
A Tabela 8 mostra o tempo de permanência dos professores que
contribuíram para a criação e consolidação da Escola.
O núcleo central, formado por Gorceix, Medrado e Damãzio, forneceu a
principal base de continuidade. Damázio lecionou 36 anos. Dos outros, o
que ficou menos tempo foi De Bovet, cuja permanência, mesmo assim, foi
de seis anos. A estabilidade dos professores, ao lado da cuidadosa seleção, foi certamente outro fator importante na criação e manutenção de
um estilo homogêneo de trabalho.
Tabela 8
Tempo de Permanência dos Professores de Fora
Nota: Não está incluído no quadro o francês Ferdinand Victor Langlet que
ensinou apenas dois meses, em 1878.
Quando Gorceix saiu, todos os outros professores eram ex-alunos. A única
exceção era Bernardino de Lima, formado pela Escola de Direito de São
Paulo, que lecionava legislação de minas, uma cadeira de menor
importância. Em 1893, dos 14 professores, 9 já eram ex-alunos. Com a introdução da endogenia, incentivada pelo próprio Gorceix, aumentou