A Escola de Minas de Ouro Preto: o peso da glória
Apresentação
Duas instituições de ensino têm importância decisiva na vida de
Minas Gerais: o Caraça e a Escola de Minas de Ouro Preto. Elas
realizaram, em certa época, trabalho expressivo em matéria de
educação, valendo pelo que foi feito no preparo de pessoal e pelo
acento de originalidade dado à vida da área. Daí o seu relevo,
justificativo de atenções. Mais que simples escolas, são unidades
formadoras de determinada marca regional. Seu estudo se impõe e
pode contribuir para esclarecimento da realidade tanto como as
notas políticas ou econômicas. E ele vem sendo feito, como se vê
pelas obras dedicadas à fixação de trajetórias de escolas e cursos,
reveladoras de algo mais que resultado de aulas, ou de centros de
investigação.
A Escola de Minas vem de ser objeto de bem elaborado livro, pelo
sociólogo e cientista político José Murilo de Carvalho, A Escola de
Minas de Ouro Preto – o peso da glória. Nele, mais uma vez se
evidenciam suas qualidades de pesquisador, já afirmadas antes, em
tese de doutorado, na Universidade de Stanford, sobre as elites
políticas na construção do Estado no Brasil imperial (Califórnia,
1974)1.O pesquisador fez levantamento tão completo quanto
possível do material indispensável à compreensão de seu tema e o
elabora com metodologia severa, de pronunciada conotação
histórica. Com o domínio de instrumental teórico e fina acuidade,
pôde realizar interpretação dos elementos obtidos, de modo que os
temas são convenientemente explicados em análises que se
afirmam pela abrangência e profundidade.
Assim é este livro. O Autor dividiu-o em três partes: criação e
consolidação da Escola, seu impacto, dificuldades e declínio. Na
primeira, os antecedentes da iniciativa, a personalidade do fundador,
o ato de fundação, os embaraços até que a ideia se consolidasse;
na segunda, a peculiaridade da promoção, o destino dos ex-alunos
e o papel da Escola no desenvolvimento econômico, na política e na política mineral; na terceira, como as dificuldades levam ao
crepúsculo, com os sintomas de decadência e suas causas
convenientemente apontadas, bem como a alternativa possível ante
o dilema de morte digna ou vida nova. A sólida arquitetura do
trabalho permite ao Autor escrever a conclusão de modo objetivo,
pois desenvolveu o esforço em busca de um resultado. É
interessante, assim, acompanhar a iniciativa em todas as
vicissitudes, da criação à atualidade.
Como esclarece, “dificilmente se poderia dizer que havia uma
demanda efetiva por geólogos e engenheiros de minas na economia
exportadora e escravocrata de 1876. A criação da Escola foi, antes
de tudo, um ato de vontade política orientado em boa parte por
motivos de natureza antes ideológica do que econômica”. De fato, a
criação àquela altura se explica como decisão política: o país tinha
economia eminentemente agrícola, pesando pouco a atividade
industrial, muito incipiente. Ensino do gênero oferecido pela Escola,
no entanto, era solicitado pela Província de Minas, como se vê pela
insistência na ideia desde bem antes.
A solução para o declínio econômico em que se debatia era
apontada, por vezes, na indústria mineral, já pelos administradores
portugueses, como em 1780; e, depois, por encarregados pelo
governo de estudar a realidade, que visitam a Província no fim do
século XVIII e início do seguinte. Brasileiros e portugueses são
incumbidos de cursos técnicos em grandes centros europeus, com
vistas à elevação econômica, como decorrência da mentalidade
ilustrada, crente na contribuição da ciência para o bom desempenho
da política, existente em Portugal desde a reforma pombalina da
Universidade de Coimbra, e que se mantém mesmo depois da
queda do ministro, na conhecida ação da chamada Viradeira. A
favor de uma orientação mais técnica que humanística do ensino se
empenham os reformadores.
Daí e de razões regionalistas a ideia de uma escola de minas na
Província central, como se vê nos debates da Assembléia
Constituinte em 1823. O curso então proposto será criado em lei da Regência, em 1832, mas não terá pronta execução; será reclamado
diversas vezes, até ser repetido em lei de 1875, posta em prática no
ano seguinte. O êxito se deverá em grande parte aos favores de D.
Pedro II: é ele que, em viagem à Europa no início da década de
setenta, entra em contato com membros da Academia de Ciências
de Paris, pelo culto que sempre teve da produção intelectual
estrangeira, e pede a Auguste Daubrée orientação quanto às
riquezas minerais, convidando-o a vir ao Brasil. Daubrée não aceita,
mas indica pessoa capaz de realizar trabalho de vulto. A indicação
não podia ser mais feliz, pois Claude Henri Gorceix possuía alto
preparo e capacidade de direção. Ele escolheu o local e indicou as
linhas básicas do estabelecimento; trabalhou até 1891, como seu
primeiro diretor, executando tarefa meritória.
Teve dificuldade de todo tipo, como a insuficiência de recursos de
Ouro Preto, a campanha de políticos inimigos e a rivalidade da
Escola Politécnica do Rio de Janeiro; se conseguiu sobrepor-se a
tudo foi pela proteção permanente de D. Pedro II, que o sustentou
na defesa de suas ideias e práticas.
As atividades da Escola eram rigidamente traçadas, com tempo
integral de professores e alunos. O ensino era eminentemente
objetivo, e a pesquisa cultivada de forma ainda desconhecida no
Brasil. Criou-se, assim, um estilo de trabalho, com a formação
severa de quadro docente e preparo técnico dos estudantes. Ao fim
de poucos anos começam os efeitos positivos: diplomados ocupam
posições relevantes no ensino, repartições públicas e empresas
particulares; da investigação de professores e alunos resulta bom
conhecimento da realidade mineral da Província, como resultam,
ainda, contribuições para a ciência no país. Poucos
estabelecimentos de ensino tiveram, como a Escola de Minas de
Ouro Preto, impacto na vida social, econômica e científica: ela criou
um estilo, um padrão de trabalho.
As dificuldades aumentaram, e Gorceix preferiu voltar a seu país,
em 1981. Com a República, faltou a proteção de D. Pedro II; vários
professores eram políticos e ocuparam postos no Executivo e no Legislativo do Estado de Minas; a capital se transferiria para Belo
Horizonte. Se antes era possível à Escola superar as dificuldades,
às vezes adaptando-se com concessões não-desfiguradoras de
suas características, tem agora de vencer os embaraços do meio, o
isolamento de Ouro Preto, a falta de professores qualificados.
Em 1931, a Escola passa para o Ministério da Educação, como
órgão da Universidade do Brasil, do Rio de Janeiro. A discussão
sobre qual a melhor forma de sobreviver é frequente: se no
Ministério da Educação, no da Agricultura, ou no das Minas e
Energia; como escola técnica isolada ou como parte de uma
universidade, se unida à de Viçosa ou à de Minas Gerais, de Belo
Horizonte. Em 1960, é desligada da Universidade do Brasil, voltando
a ser apenas Escola de Minas de Ouro Preto. Temerosa da ligação
com Viçosa ou Belo Horizonte, empenha-se em passar a ser
Universidade de Ouro Preto, o que consegue em 1969, sob a forma
de fundação de direito público. Após algumas dúvidas, o Estatuto de
1972, baseado na Universidade de Brasília, transforma a Fundação
Escola de Minas em Universidade Federal de Ouro Preto. Vários
problemas precisam ser vencidos, acumulados já de muitos anos;
as críticas se sucedem, não só de fora como também partindo da
própria congregação, sobretudo depois de 1939, quando se
agravam as questões.
O Autor sumaria as críticas nos seguintes pontos, convenientemente
esclarecidos no texto: a Escola se fechou sobre si mesma; o ensino
massificou-se e tornou-se mais teórico; o tempo integral passa a
exceção; sente-se a falta do bafejo do poder (amplo no Império, raro
depois, como na gestão do ministro da Educação Clóvis Salgado, no
governo Kubitschek); a perda do sentido de criatividade. São
sintomas facilmente identificáveis de declínio, para o qual se
apontam fatores externos e internos, como perda da autonomia,
reformas do ensino, descaso das autoridades, condições físicas,
insuficiência salarial, Universidade de Ouro Preto (sua interferência
nos negócios da Escola), isolamento geográfico e cultural, excessivo
inbreeding do corpo docente, culto da tradição, atividade da
Associação dos Ex-alunos, estrutura dos cursos e dos currículos. Ante a crise, coloca-se a alternativa: morte digna ou vida nova?
Como se vê, há dificuldades e há consciência de embaraços,
hesitando os responsáveis — a congregação ou o serviço federal —
ante o caminho a adotar. O certo, como está na conclusão de José
Murilo de Carvalho, é que só um pensamento superior, com vistas a
fazer que a Escola retome a sua grandeza, terá sentido, pois de
nada adiantam providências tímidas, parciais. A conclusão é
otimista: para uma volta a Gorceix, “não seria preciso hoje buscar
outro Gorceix na França ou em qualquer outro lugar. Já existem
muitos Gorceix no Brasil, capazes de enfrentar com êxito a tarefa.”
É essa trajetória, da criação à crise atual, que o livro estuda. De
maneira segura, pois o Autor acerta na escolha do essencial para
caracterizar cada momento. As fontes esclarecedoras são
consultadas em pesquisas nos arquivos. A secretaria da Escola, as
atas da congregação, testemunhos de professores, alunos,
autoridades — todos são ouvidos, no escrito que ficou ou nas
entrevistas com elementos que podem ser encontrados. As fontes
são inteligentemente usadas; o Autor sabe construir a narrativa com
segurança, em harmoniosa coerência entre os capítulos. Daí o valor
do presente estudo: retrato fiel de uma instituição, do que ela é e do
que foi em diferentes momentos. Caracteriza-se, assim, o
significado da Escola de Minas de Ouro Preto como órgão de ensino
e de pesquisa, sua contribuição para a sociedade e a economia de
Minas Gerais e do Brasil; para a ciência, como atitude ou maior
conhecimento de mineração e geologia. A Escola terá contribuído
para uma linha nacionalista na política mineral brasileira, como se
nota das posições de seus ex-alunos na maior parte dos
pronunciamentos.
Estudos monográficos do gênero permitem aprofundar quanto se
conhece da história intelectual brasileira. Espera-se por outros, pois
há diversas instituições de ensino, investigação científica ou
associações de especialistas — a Escola de Direito de São Paulo, a
Academia Brasileira de Ciências, a Sociedade Brasileira de Física,
por exemplo — que exigem estudo, pela produção realizada e seus
impactos, no plano nacional ou nos diversos planos regionais.
A história do Brasil será melhor conhecida quando se escreverem
monografias sobre unidades como o Jardim Botânico, o Museu
Nacional, a Escola Militar, o Observatório Astronômico, a Escola
Politécnica, o Instituto Agronômico de Campinas, o Museu Goeldi, o
Instituto Butantã, a Sociedade Brasileira para o Progresso da
Ciência, o Departamento Nacional de Produção Mineral, a
Universidade de São Paulo e de vários Estados, já de alguns anos,
ou as Universidade de Brasília e de Campinas, entre experiências
recentes. A trajetória de instituições culturais tem muito a dizer. O
desenvolvimento da atividade científica, em seus avanços,
estagnações e recuos, é interessante e útil, pelo que esclarece ou
pelo muito que dá, como se vê nesta contribuição segura e
inteligente de José Murilo de Carvalho, modelo a ser seguido.
Francisco Iglésias
1 A mais recente edição da tese foi feita pelas Editoras
UFRJ/Relume Dumará em 1996 sob o título A construção da ordem:
a elite política imperial e Teatro de sombras: a política imperial. (N.E)