A Escola de Minas de Ouro Preto: o peso da glória

José Murilo de Carvalho · Capítulo 13 de 18

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A Escola de Minas de Ouro Preto: o peso da glória

Sintomas e Causas do Declínio

Outro aspecto interessante da Tabela 19 é a distribuição de

residência de acordo com os departamentos a que pertencem os

professores. Nota-se, por exemplo, confirmando os argumentos dos

mudancistas da década de 40, que é no departamento de engenharia

civil onde predominam os professores residentes em Belo Horizonte.

A seguir, mas já sem maioria, vêm os departamentos de mineração e

de ciências sociais e econômicas. Nos demais departamentos,

sobretudo nos das áreas básicas (matemática, química e física), a

grande maioria é de residentes em Ouro Preto. Esse dado vem

novamente sugerir que a eliminação dos cursos não previstos

inicialmente poderia ser feita hoje e ter mesmo efeito benéfico. A

época sonhada por Gorceix em que o mercado de trabalho permitiria

manter uma escola só de mineração, metalurgia e geologia

certamente já chegou. Mas, de qualquer modo, o problema de

residência é hoje muito menos importante do que em 1939, quando

foi levantado com tanta virulência. Naquela época a viagem de trem

de Belo Horizonte a Ouro Preto levava 6 horas. Hoje, os 90 km de

asfalto não consomem muito mais tempo do que para se ir, com

trânsito lento, da Barra da Tijuca no Rio de Janeiro à ilha do Fundão,

onde se localiza a UFRJ.

 

Sintomas e Causas do Declínio

 

Uma sonolência soturna e mofada.

 

Odorico de Albuquerque

 

Ao longo do período 1939-1976, houve, em vários momentos,

manifestações dentro e fora da Escola denunciando que algo estava

errado, embora nem sempre se apontasse com precisão o que

exatamente não andava bem. Igualmente e concomitantemente, se

apontavam fatores que seriam responsáveis pelos males

diagnosticados. A lista das causas era grande e variava de acordo

com a posição de quem as apresentava. Defensores da Escola

tendiam a apontar causas externas, críticos preferiam indicar fatores

internos.

Antes de inventariar as causas, convém notar que já antes de 1939

houvera manifestações externas à Escola que sugeriam o início de

inflexão para baixo na curva de sua evolução. A primeira apareceu

na mensagem que Epitácio Pessoa enviou ao Congresso em 1921.

Dizia a mensagem sobre a Escola:

 

“O fato, porém, de viver longe dos centros de cultura e dos grandes

meios industriais explica naturalmente o estar decaindo, de certo

tempo a esta parte, do seu florescimento primitivo.”8. A estocada

pode ter sido consequência dos atritos do governo Epitácio Pessoa,

sobretudo de seu ministro Pires do Rio, com Clodomiro de Oliveira.

No entanto, Gonzaga de Campos, que era partidário das posições do

governo mineiro, e que na época era diretor do DNPM e muito

chegado ao ministro Simões Lopes, já manifestara também a

preocupação com os efeitos da localização da Escola sobre a

qualidade do ensino: “Ou o governo melhora o meio ou a Escola de

Minas deve sair”, teria dito. O problema da localização, identificado aí

como causa do declínio, acompanhou sempre a história da

instituição.

 

Outra menção à queda da qualidade do ensino se deve ao ministro

Francisco Campos e foi inserida em sua justificativa da incorporação

da Escola à Universidade do Rio de Janeiro, em 1931. Disse ele:

“Escola de notórias tradições científicas e didáticas, o isolamento em

que se encontra tem contribuído grandemente para que não venha

mantendo no mesmo alto nível a reputação de seu ensino9.

Novamente se responsabiliza o isolamento pela queda do nível do

ensino. Mas, como na mensagem de Epitácio, não se especifica em

que aspecto estaria o ensino decaindo.

 

Foi, no entanto, o memorial apresentado à Congregação, em 1939,

por Alberto Mazoni, que formulou pela primeira vez de maneira

sistemática o problema do declínio. Dada sua importância e sua

pouca divulgação, merece ser resumido.

 

O ponto central do memorial é a necessidade de separar a Escola de

Minas da cidade de Ouro Preto. Pelo espírito que as anima, as duas

são incompatíveis. A cidade é berço de tradições, volta-se para o passado e a ele deve se manter fiel. À Escola, pelo contrário, não

cabe a guarda do passado, mas do futuro e para este deve projetar-

se. “Contagiar-se da alma da cidade é o mal de que cumpre fugir10.

As condições necessárias para a conservação da cidade são

exatamente as que militam contra a vida da Escola. A cidade precisa

de silêncio e paz, a Escola precisa do fervilhar das indústrias e das

técnicas.

 

A localização em Ouro Preto, segundo o memorial, é, sobretudo,

nociva ao curso de engenharia civil (do qual Mazoni era professor).

Mas a parte técnica do ensino, em geral, se vê prejudicada, pois a

atividade metalúrgica já se deslocou para a região próxima de

Sabará. Gorceix estava certo ao escolher Ouro Preto, mas mudaram

as circunstâncias, e os próprios critérios usados por ele para

escolher a cidade e levariam agora a escolher outra localização. O

mal principal causado pela localização em Ouro Preto é a dificuldade

de recrutar professores e alunos. No primeiro caso, há cadeiras que

ficam vagas pela falta de candidatos para preenchê-las. A solução

sempre adotada era a da acumulação de cadeiras pelo mesmo

professor. Mas a acumulação está agora proibida. Além disso, a

instituição da livre-docência não tinha condições de prosperar em

Ouro Preto, pela falta de outras oportunidades de trabalho que

pudessem suplementar os salários. Caso se efetive a medida de

obrigar os professores a viverem em Ouro Preto, prevê o memorial,

ou ficarão sem preenchimento as vagas, ou serão recrutados

candidatos incompetentes, com consequências desastrosas para o

ensino.

 

O memorial faz também um histórico do movimento em favor da

transferência. A primeira manifestação da ideia é de 1894. Nesse

ano, tendo em vista a próxima transferência da capital para Belo

Horizonte, o governo de Floriano Peixoto baixou um decreto,

assinado por Fernando Lobo, determinando a transferência para

Barbacena. Houve reação de ex-alunos eleitos deputados, sobretudo

de Antônio Olinto. A Congregação foi consultada e votou contra a

mudança, em reunião de 23 de janeiro de 1895, pela estreita

margem de oito votos a cinco. O diretor, Archias Euripedes da Rocha

Medrado, votou pela mudança. A principal resistência parecia ser contra a transferência para Barbacena e não contra a transferência

em si11. Na justificação de seu voto favorável à mu-dança para Belo

Horizonte, Domingos Porto diz que, com a mudança da capital, o

centro cultural de Minas — uma das razões usadas por Gorceix para

escolher Ouro Preto -- também se deslocaria para a nova sede do

governo. Além disso, Belo Horizonte está tão bem situada do ponto

de vista da existência de minas e fábricas de ferro como Ouro Preto,

e é mais favorável do ponto de vista da engenharia civil, que não tem

aplicação na antiga capital. Ouro Preto irá decair com a mudança da

capital, e o governo terá provavelmente que fechar a Escola por falta

de alunos (ata de 19 de fevereiro de 1895).

 

O novo governo de Prudente de Morais sustou a transferência. Mas

em 1910, o ministro do recém-criado Ministério da Agricultura,

Indústria e Comércio, Pedro de Toledo, enviou telegrama à

Congregação pedindo opinião sobre a conveniência de transferir a

Escola para Belo Horizonte (ata de 22 de março de 1910). Dessa

vez, seis votos foram contra e apenas três a favor. Um dos votos a

favor foi de Augusto Barbosa da Silva, o construtor do forno elétrico,

que o justificou dizendo que em Belo Horizonte seria mais fácil

recrutar professores e alunos; que Belo Horizonte não era inferior a

Ouro Preto em nenhum aspecto referente ao ensino técnico, sendo

superior em alguns, sobretudo na parte da engenharia civil; e,

finalmente, que em Belo Horizonte a Escola estaria mais perto do

centro de poder e teria melhores condições de obter as medidas que

lhe interessassem (ata de 28 de março de 1910). O assunto, no

entanto, foi novamente esquecido. Costa Sena, o diretor na época,

era contrário à mudança, e seu prestígio como cientista e político era

suficiente para a fazer abortar.

 

Os argumentos do memorial em favor da transferência são mais ou

menos os mesmos utilizados em 1894 e 1910. Em 1939, porém, já

se percebiam como reais os problemas que antes se imaginavam

prováveis. Mas não havia ainda clara identificação dos pontos em

que estaria havendo decadência. Havia, sim, um sentimento

generalizado, mesmo entre o grupo ouro-pretano, de que a Escola

perdera o antigo dinamismo e entrara em período de estagnação. No

dizer de um dos mais convictos ouro-pretanos, Odorico de Albuquerque, sentia-se “sonolência sotuma e mofada” (ata de 12 de

abril de 1939).

 

Alves de Souza, em sua declaração de voto enviada ao presidente

da República, afirmara que a Escola, após meio século de brilhantes

realizações, estava “perdendo sua alta eficiência e,

consequentemente, sua excepcional reputação” (ata de 18 de maio

de 1943). Em carta a um professor, ele atribuíra o descrédito às

divergências entre os membros da Congregação e afirmara: “Choca

horrivelmente o crescimento rápido do descrédito [da Congregação]

no conceito público.”

 

Ante a reação da Congregação, negando que houvesse declínio, ele

volta a repetir as críticas, acrescentando que a eficiência de uma

escola se mede pela respeitabilidade da Congregação, pelo

ambiente de trabalho e pela eficiência dos profissionais diplomados.

Os dois primeiros itens, segundo ele, não se verificavam em Ouro

Preto, devido às divergências na Congregação, sobretudo entre o

diretor e o grupo mudancista.

 

Outras manifestações se seguiram. No projeto de criação do

Ministério de Minas e Energia, de 1945, Bernardino Correa de Mattos

Neto dizia que “o que se reclama para a Escola de Ouro Preto é

reformar-lhe os métodos, a estrutura, o ambiente, imprimindo-lhe

feição nova, proporcionando-lhe meios novos 12. Fracassada a

criação da Universidade Técnica, veio o novo regimento de 1946,

seguindo a reforma da Universidade do Brasil. Na discussão desse

regimento, Moacir Lisboa, também convicto ouro-pretano, insistiu em

medidas que modificassem o ambiente de Ouro Preto, responsável,

segundo ele, pela estagnação. Tentando especificar, disse que a

estagnação podia ser verificada pelo lento desaparecimento do

convívio entre os professores, do intercâmbio com os alunos, pela

interrupção da publicação dos Anais (ata de 2 de maio de 1946).

Uma comissão foi nomeada pela Congregação e apresentou, seis

meses depois, as medidas que se deveriam tomar em relação a Ouro

Preto para melhorar as condições da Escola. As medidas incluíam

melhoria dos serviços públicos, construção de praça de esportes, de campo de aviação, de residências para professores e alunos e outras

(ata de 28 de novembro de 1946).

 

Em 1949, é um editorial da Revista da Escola de Minas, dirigida

pelos alunos, que chama a atenção para a decadência. Comentando

o fato de se ter realizado o 3º Congresso Nacional de Geologia na

Bahia, sem que a Escola tivesse mandado um só representante e

nem tivesse dele tomado conhecimento, o editorialista, aluno do 6º

ano, verifica que “a Escola está perdendo a destacada posição

conquistada pelos que nos precederam” 13. Ela foi pioneira da

eletrossiderurgia, diz o editorial, mas agora, “por mais que

procuremos, não somos capazes de citar uma pesquisa, um trabalho

ou estudo que viesse colaborar na solução de algum problema

relacionado com a Metalurgia no Brasil14.

 

Apesar de todas as medidas tomadas no período, como a criação do

Parque Metalúrgico e posteriormente do Instituto de Mineração e

Siderurgia, da separação da Universidade do Brasil, da implantação

da Universidade de Ouro Preto, todas elas solicitadas ou apoiadas

pela Congregação, nenhum progresso real se notou e permaneceu o

sentimento de que o declínio persistia. Escrevendo em 1974, o

mesmo Moacir Lisboa, que falava em estagnação em 1946, comenta

que “a cultura dos professores e dos alunos, de modo geral, e em

relação ao desenvolvimento científico-tecnológico, está

progressivamente decaindo15.

 

Analistas externos insistiam, e insistem, nos mesmos pontos. Glycon

de Paiva, por exemplo, diz que a Escola já cumpriu sua missão e

agora é tempo de se pensar em outras maneiras de organizá-la 16.

Amaro Lanari Jr. afirma que ela estagnou e precisa de profunda

reformulação17. Há insatisfação geral, entre professores, ex-alunos,

alunos, simples observadores. Alguns dos antigos professores

chegam a desejar que a Escola acabe de uma vez. Assim, pelo

menos, ainda morreria com alguma dignidade.

 

A decadência pode ser em parte um problema de perspectiva. O que

era inovação e grande progresso no Brasil de 1876 pode estar hoje totalmente ultrapassado. A Escola foi, durante muito tempo, a única

instituição em sua área de especialização, sem ter que enfrentar

competidores. Parte do que se chama decadência poderia, nessa

hipótese, ser vista como ausência de evolução e de

acompanhamento dos progressos científicos, tecnológicos e

didáticos. No entanto, é possível argumentar que o declínio em

relação ao que existia antes não foi apenas relativo, mas também

absoluto. Ele se revelaria principalmente nos seguintes pontos.

 

A ESCOLA FECHOU-SE SOBRE SI MESMA

 

Em seus primeiros anos, graças à presença dos professores

franceses, ao envio de recém-formados ao exterior, à existência de

boa biblioteca, à constante participação em congressos e

exposições, a Escola se mantinha a par do que se passava na área

da ciência e da técnica em centros avançados. Após a saída dos

franceses (o último morreu em 1895), só muito recentemente, com a

criação do Instituto de Mineração e Metalurgia, é que se tentou

novamente atrair professores visitantes. Mesmo assim, a instituição

não foi mais capaz de os conservar, assim como não manteve os que

para lá foram por ocasião da implantação dos cursos da CAGE.

Consta que, por essa época, um professor norte-americano teria dito

que não seria possível colocar um conterrâneo em Ouro Preto por

falta de condições de ensino e pesquisa 18. Os pesquisadores

franceses do IRSID também permaneceram pouco tempo no Instituto

de Mineração e Metalurgia, retirando-se para seu país ou para outras

instituições brasileiras. O matemático italiano, Achille Bassi, tentou

criar um instituto de pesquisas matemáticas, mas não obteve o apoio

de que necessitava. Foi desenvolver suas pesquisas na Universidade

de São Carlos19.

 

O sistema de enviar alunos recém-formados ao exterior foi extinto

pela reforma Francisco Campos, em 1931. Embora tivesse

funcionado com irregularidade, foi responsável pelo envio de vários

engenheiros à França, como Augusto Barbosa, cuja bolsa foi

financiada por D. Pedro II, José Pires do Rio, Gastão Gomes, José

Barbosa da Silva, Armando Bretas Bhering e outros. Há tentativas

recentes de enviar jovens professores para realizar pós-graduação no exterior. Mas, como no caso dos professores estrangeiros, esses

pós- graduados, ao regressarem, tendem a abandonar a Escola em

busca de instituições onde o ambiente é mais favorável ao trabalho,

ou mais compensador financeiramente. Os poucos que permanecem

não têm influência suficiente para liderar reformas do ensino e da

pesquisa.

 

Desde o final da década de 20, a Escola deixou de se preocupar com

participação em congressos e exposições. Antes, sua presença era

frequente, sobretudo no período de Costa Sena como diretor.

Recebeu várias medalhas em exposições internacionais. Após 1930,

tem apenas servido de sede para congressos. Vimos a queixa dos

alunos de 1949 em relação ao desinteresse pelo 3º Congresso

Nacional de Geologia 20. Consta que um conhecido professor teria

dito, no regresso de viagem aos Estados Unidos, que lá nada vira de

novo em matéria de ensino e pesquisa.

 

A biblioteca também, segundo depoimento de quem a administrou

por longos anos, José Pedro Xavier da Veiga, foi perdendo o contato

com o exterior devido à redução e interrupção de assinaturas de

revistas técnicas. A interrupção da publicação dos Anais significou

grande perda em termos de atualização bibliográfica. Um simples

exemplar dos Anais correspondia a centenas de publicações

enviadas em permuta de todas as partes.

 

O ENSINO MASSIFICOU-SE E TORNOU-SE TEÓRICO

 

A partir dos aumentos de matrícula dos anos mais recentes, o ensino

perdeu a característica individualizada introduzida por Gorceix. Não é

mais possível ao professor acompanhar o aluno desde o início até o

final do curso, nas aulas, nos laboratórios, nas excursões práticas.

Paralelamente, a insistência no aprendizado teórico-prático, típica de

Gorceix, se tornou cada vez menos viável. O estudante tem muito

menos oportunidades de usar laboratórios, as excursões se limitam a

uma visita anual à Usiminas, os estágios não existem em número

suficiente para todos.

O estilo inicial de Gorceix só seria possível hoje em cursos de pós-

graduação. No entanto, a pós-graduação tem sido um dos fracassos

da Escola. Em 1972, foi criada uma pós- graduação em Metalurgia,

com o auxílio da Fundação Gorceix e do Instituto Costa Sena. O

último enviara vários ex-alunos ao exterior para especialização. O

curso pouco durou e, por várias razões, os professores, em sua

maioria, abandonaram a Escola para assumir postos em outras

universidades ou em órgãos como a Siderbras, que ofereciam

melhores salários. Seja qual for a origem do fracasso da pós-

graduação, externa ou interna, o fato é que em Belo Horizonte já

existe um promissor mestrado em engenharia metalúrgica21.

 

O TEMPO INTEGRAL TORNOU-SE EXCEÇÃO

 

Outro aspecto básico da organização original era a dedicação total

de professores e alunos à tarefa acadêmica. Seria irrealista, nas

circunstâncias brasileiras atuais, acreditar que fosse possível existir

hoje uma escola de graduação cujos professores estivessem todos

em dedicação exclusiva. Mas é também ilusório achar que possa

haver ensino de boa qualidade sem um número razoável de

docentes bem qualificados em tempo integral. À medida que a

Escola se foi expandindo a proporção de docentes em dedicação

exclusiva se foi reduzindo. Hoje, com mais da metade dos

professores em regime de 12 horas, mesmo que o tamanho das

turmas o permitisse, não seria possível o acompanhamento de perto

dos alunos.

 

Paradoxalmente, onde melhor se preservou a tradição foi na

dedicação integral dos alunos. As bolsas de estudo foram extintas

por Francisco Campos, mas desde 1961 a Fundação Gorceix vem

desenvolvendo amplo programa de bolsas de alimentação e de

estudo para alunos carentes. Em 1976, em torno de 20% dos alunos

recebiam bolsas de estudo ou de alimentação, ou ambas 22. Além

disso, o acanhado ambiente de Ouro Preto, que não mudou muito

nos últimos cem anos, e o sistema de repúblicas estudantis que,

longe de decair, continua crescendo, tornam os alunos seguramente

mais dedicados aos estudos do que o de outras universidades

localizadas em centros maiores 23. O fato é reconhecido mesmo pelos críticos. Desde a década de 1940, os alunos se transformaram no

componente mais dinâmico da Escola. São eles que publicam a

Revista da Escola de Minas, hoje o único veículo de divulgação dos

trabalhos científicos. Deles também foi a iniciativa de criar a

Sociedade de Intercâmbio Cultural e Estudos Geológicos (SICEG),

que até hoje mantém suas atividades.

 

NÃO HÁ MAIS O BAFEJO DO PODER

 

O apoio incondicional do governo, dirigido pela vontade imperial, foi

fator decisivo nos primeiros anos. Foi ele que permitiu a adoção e

manutenção de todas as medidas responsáveis pelo êxito,

destoantes embora da prática brasileira. Algumas das medidas

implicavam privilégios que desagradavam a outras escolas e

provocavam resistências e inimizades. Durante a República Velha, a

grande participação dos professores na política, inclusive em postos

ministeriais, e o prestigio de Costa Sena e Augusto Barbosa,

permitiram a manutenção, embora já algo enfraquecida, da atitude

favorável das autoridades governamentais. A situação sofreu a

primeira alteração séria com a reforma de 1931, que resultou na

incorporação à Universidade do Rio de Janeiro e ao Ministério da

Educação e Saúde.

 

O maior mal não veio da incorporação à Universidade do Rio de

Janeiro, mas ao novo ministério. É certo que, do ponto de vista

administrativo e didático, a vinculação à Universidade trouxe alguns

males a que a Congregação frequentemente se referia, sobretudo

durante as lutas pelo desligamento (ata de 31 de dezembro de 1959).

Mas os males atribuídos à Universidade eram consequência das

novas leis de ensino decretadas pelo ministro Francisco Campos.

Entre elas figuravam, por exemplo, a eliminação dos substitutos, o

fim das bolsas de estudo e das viagens ao exterior e a proibição do

concurso, ao final do curso geral, para ingresso no curso especial.

Como consequência da incorporação ao ministério, no entanto, a

Escola se tornou apenas um estabelecimento a mais, entre centenas

de outros, a serem financiados e supervisionados. Enquanto

pertencera ao Ministério da Agricultura, Comércio e Indústria era filha

única, além de ter vários de seus ex-alunos em postos importantes dentro do ministério, como na chefia do SGMB. Além disso, por

pertencer a um ministério não especializado na área de educação, a

Escola desfrutava de toda a liberdade para estabelecer seu regime

interno, administrativo e didático. No Ministério da Educação e

Saúde, depois da Educação e Cultura, tal liberdade foi

desaparecendo ao compasso das sucessivas leis de reforma do

ensino decretadas após 1931.

 

Após a saída de Gastão Gomes, em 1943, só houve real disposição

de ajuda por parte do governo federal durante o governo Kubitschek,

quando Clóvis Salgado ocupava o Ministério da Educação. A

incorporação ao Ministério das Minas e Energia, quando este foi

criado, poderia ter sido medida salvadora, se acompanhada de

outras capazes de renovar o corpo docente, o ensino e a pesquisa.

Algumas das melhores escolas técnicas brasileiras até hoje

pertencem a outros ministérios e talvez em parte por isso, sejam

boas. Tal é o caso, por exemplo, do Instituto de Tecnologia da

Aeronáutica e do Instituto Militar de Engenharia, do Exército. O

mesmo pode ser dito de institutos de ensino e pesquisa vinculados

ao CNPq, como o Instituto de Matemática Pura e Aplicada, o Instituto

de Pesquisas da Amazônia, entre outros. Mas o que não se

conseguiu então, certamente não se conseguirá hoje. A própria

situação de declínio da Escola estabeleceu uma relação de suspeita

mútua entre ela e os órgãos do Ministério da Educação. Formou-se o

círculo vicioso pelo qual a primeira atribui à omissão e à ação

negativa do segundo a causa de seus males; o ministério, por sua

vez, não se dispõe a auxiliar por não acreditar na eficácia de

qualquer ajuda sem mudança profunda nas estruturas da Escola.

 

PERDEU-SE O ESPÍRITO DE CRIATIVIDADE

 

O desenvolvimento da criatividade era a base da pedagogia de

Gorceix. A criatividade, desenvolvida nas salas de aula e nos

laboratórios, deveria frutificar nas pesquisas, nas publicações, nos

desenvolvimentos tecnológicos. Apesar da enorme carga

administrativa e de ensino, os professores da primeira fase

pesquisavam e publicavam seus trabalhos no Brasil e, no caso dos

estrangeiros, também na França. Graças a esse espírito, a Escola foi colocada por Derby, já em 1883, entre os três principais

estabelecimentos científicos do país. Mas, lentamente, a pesquisa se

foi atrofiando devido à saída de muitos dos melhores pesquisadores

e à fetichização dos métodos de ensino. A situação chegou ao ponto

de um professor ter reagido ao esforço da Fundação Gorceix no

sentido de retomar o fomento à pesquisa caracterizando-o de

“sonhos de pesquisa científica” que só serviam para ajudar

professores estrangeiros a fazer suas teses de doutoramento com

gastos astronômicos (ata de 4 de março de 1964).

 

Houve outras tentativas de desenvolver a pesquisa no período

posterior a 1939. A primeira delas foi a criação do Parque

Metalúrgico na década de 1940. O Parque foi construído sob a

supervisão dos professores José Barbosa da Silva e José Carlos

Ferreira Gomes. Mas nunca chegou a funcionar regularmente.

Problemas de custos de manutenção e de burocracia fizeram com

que permanecesse a maior parte do tempo inativo, como inativo se

acha desde 1963. Pensou-se em arrendá-lo a empresas particulares,

mas a ideia também não foi adiante. A criação do Instituto de

Mineração e Metalurgia foi outra tentativa fracassada.

 

Deve-se mencionar ainda a criação do Instituto Costa Sena, pela

Fundação Gorceix, cuja finalidade era promover a pesquisa em

estreita colaboração com as indústrias, sobretudo na área da

metalurgia. O Instituto iniciou suas atividades em 1964, e em 1969 já

contava com sete pesquisadores por ele mesmo enviados para

treinamento no exterior. Três tinham completado o doutorado na

França e quatro possuíam especialização no IRSID. Alguns trabalhos

importantes foram desenvolvidos, citando-se como o de maior

repercussão o da redução do consumo de lingoteiras na Usiminas a

quase a metade, o que permitiu economia de 2 milhões de cruzeiros.

Mais alguns trabalhos foram feitos, sobretudo na Usiminas. O

desinteresse de outras empresas em adotar as inovações ou em

contratar novas pesquisas fez, no entanto, que o grupo inicial

abandonasse a Escola, a maioria tendo sido absorvida pela própria

Usiminas. Atualmente, o Instituto mal sobrevive com dois

pesquisadores, cada um dirigindo um projeto 24.

Dentro da Escola são pouquíssimos os projetos de pesquisa em

andamento, limitando-se a atividade a poucos professores 25. Os

laboratórios, geralmente bem equipados, são subutilizados. Há

professores que se queixam de que não há recursos e apoio para

pesquisas, mas nunca se dirigiram aos órgãos de fomento, outra

consequência do isola-mento. Não existe agressividade em buscar

fora da Casa e fora do Ministério da Educação os recursos

necessários para custear pesquisas e suplementar salários. Se a

pesquisa tecnológica esbarra frequentemente no desinteresse das

empresas, mesmo estatais, resta ainda o recurso a órgãos como o

BNDE e a FINEP, como resta o CNPq para a área da pesquisa

científica, básica ou orientada. Há recursos disponíveis, sobretudo

dentro das prioridades do Plano Nacional de Desenvolvimento

Científico e Tecnológico26.

 

Independentemente da existência de fatores que dificultam a

atividade de pesquisa, já se vinha há algum tempo perdendo algo

fundamental do “espírito de Gorceix”: a ênfase na investigação e na

criatividade científicas. Em relação ao ensino, aos programas e

cargas horárias, pode-se dizer que ainda são satisfatórios, tanto na

parte especializada como, sobretudo, na parte básica. Alguns

observadores acham mesmo que é excessiva a carga horária de

aulas, em particular na matemática. Mas a pesada carga de trabalho

que se exige dos alunos e o rigor que ainda existe em matéria de

verificação de aprendizado não são hoje acompanhados da liderança

intelectual que lhes dava sentido e produtividade. Os métodos

transformaram-se em fetiche. Apesar de todo o rigor de Gorceix, e

mesmo de sua rudeza; os alunos fizeram um abaixo-assinado em

1891 pedindo que não renunciasse. Em contraste, após 1940, as

atas da Congregação estão repletas de reclamações de alunos

contra a excessiva rigidez didática, havendo casos de greves e

pedidos de afastamento de professores. A perda de liderança

certamente tem a ver com a redução da atividade de pesquisa dos

professores.

 

Esses pontos resumem o que se tem chamado de decadência. É

possível que o resumo tenha carregado um pouco nos aspectos

negativos. A Escola ainda forma bons profissionais. Embora já se compare desfavoravelmente com outras escolas na área, certamente

ainda mantém um nível de ensino satisfatório. Mas é inevitável que,

ao se avaliá-la hoje, se levem em conta os parâmetros por ela

mesma criados no passado. Tal procedimento, antes de ser injustiça,

é homenagem.

 

Identificados os sintomas de declínio, cabe relacionar as causas.

Dentro da Escola, há tendência em apontar causas externas. As

mais importantes são as seguintes:

 

A PERDA DA AUTONOMIA

 

Teria acontecido em 1931, com incorporação ao Ministério da

Educação e Saúde. As consequências, segundo a visão da Escola,

já foram discutidas e podem resumir-se na paulatina destruição das

características administrativas e pedagógicas que fizeram a

grandeza da instituição.

 

AS REFORMAS DO ENSINO

 

Alguns professores dividem a história da Escola em antes e depois

da Lei de Diretrizes e Bases. A obrigação de preencher as vagas,

incluída nessa lei, aliada ao vestibular classificatório e de múltipla

escolha, introduzido um pouco mais tarde, teria enchido a Escola de

alunos despreparados, tornando impossível a manutenção do ensino

de alto nível.

 

O DESCASO DAS AUTORIDADES

 

Não existe mais o carinho de antes para com o estabelecimento. Não

há verbas para as melhorias propostas. Chega a haver mesmo

desrespeito formal, como no caso da nomeação, em 1973, pelo

ministro Jarbas Passarinho, de um diretor que não constava sequer

na lista enviada ao ministério.

 

A FALTA DE CONDIÇÕES FÍSICAS

 

Este ponto se refere ao espaço físico e às condições de alojamento e

de vida dos professores e alunos.

A INSUFICIÊNCIA SALARIAL

 

Os salários vigentes não permitem atrair e manter bons professores

e pesquisadores brasileiros ou estrangeiros, como o tem

demonstrado a experiência.

 

A UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO

 

Pedida pelos professores como alternativa à incorporação à

Universidade Federal de Viçosa ou à Universidade Federal de Minas

Gerais, a Universidade Federal de Ouro Preto é hoje vista como uma

interferência externa a mais, sem a contrapartida de qualquer

benefício. A Universidade tem sido antes um peso, pois embora seja

em boa parte ainda uma ficção, ocupa espaço físico da Escola e,

sobretudo, estabelece normas e planos que afetam sua vida.

 

Há algo de verdade nessas alegações. Mas os fatores apontados

estão presentes em todas as escolas superiores federais submetidas

ao Ministério da Educação, não são privilégio da Escola de Minas.

Todas essas escolas estão sujeitas à política do Ministério; devem

submeter-se à legislação do ensino superior, com vestibular e tudo;

têm que adotar os mesmos níveis salariais para seus professores;

muitas apresentam sérios problemas de espaço físico e estão com

as obras dos campi paralisadas ou avançando lentamente, por falta

de verbas; todas estão sujeitas ao descaso das autoridades. O

importante é perguntar por que muitas delas, embora enfrentando

problemas semelhantes, conseguem desenvolver seu ensino, sua

pesquisa e sua extensão, ao passo que a Escola de Minas não

consegue.

 

Entre as causas de ordem interna, geralmente, mencionadas por

observadores externos, estão as seguintes:

 

O ISOLAMENTO GEOGRÁFICO

 

A localização em Ouro Preto impede a contratação de bons

professores e a atração de mais alunos. Impede também a comunicação com outros centros e o desenvolvimento de um ensino

de melhor qualidade.

 

O ISOLAMENTO CULTURAL

 

Para alguns, esse isolamento é simples consequência do isolamento

geográfico, mas, para outros, que não vêem no último um obstáculo

sério, ele é distinto, e vincula-se mais à mentalidade que domina o

corpo docente. A Escola encapsulou-se, fechou-se sobre si mesma e

não acompanhou a evolução da ciência, do ensino e do próprio país.

 

A EXCESSIVA ENDOGENIA DO CORPO DOCENTE

 

Se no início a endogenia se justificava e foi útil para estabelecer uma

nova tradição de ensino e pesquisa, com o passar do tempo

começou a pesar negativamente e se tornou fator de conservação e

de resistência a iniciativas renovadoras.

 

O ESPIRITO DE TRADIÇÃO

 

A melhor formulação dessa crítica está na comparação entre a

Escola e a cidade feita no memorial de 1939. O culto da tradição

volta-se contra seu próprio objeto, que é o “espírito de Gorceix”. O

fundador afirmava que não queria fazer obra acabada, mas algo que

fosse sendo aperfeiçoado e adaptado, à medida que as

circunstâncias o exigissem. A flexibilidade era característica básica

de seu espírito. Em contraste, a rigidez passou a marcar a atitude e a

ação dos cultores desse espírito. O culto da tradição também limita a

capacidade de autocrítica e de aceitação de críticas de outros.

 

A ATUAÇÃO DA ASSOCIAÇÃO DOS EX-ALUNOS

 

Da parte da Escola, a atuação dos ex-alunos é vista como positiva,

tanto no que se refere à preservação das tradições como ao apoio

em momentos de dificuldade, embora se ache também que o

interesse deles é muitas vezes mais sentimental do que qualquer

outra coisa. Mas para alguns observadores externos, a Associação

atua frequentemente como obstáculo à reforma, bloqueando medidas

que julga descaracterizadoras da instituição.

A ESTRUTURA DE CURSOS E A COMPOSIÇÃO DO CURRÍCULO

 

Esse ponto é controverso. Em relação ao currículo, por exemplo,

alguns acham excessiva a carga horária de aulas, muito acima do

requerido pelo Conselho Federal de Educação. O programa de

matemática, sobretudo, seria pretensioso. Mas há os que vêem na

maior carga didática, sobretudo nas áreas básicas, um dos aspectos

a preservar. Igualmente há discordância quanto ao tipo de cursos.

Alguns defendem a volta à ideia original de Gorceix e à eliminação

da engenharia civil, cujo ensino fica prejudicado em Ouro Preto.

Outros acham que se deveria voltar à estrutura antiga do curso geral

de seis anos, que formava engenheiros de minas, metalúrgicos e

civis.

 

As causas têm peso diferente. A questão da localização geográfica

que, tempos atrás, poderia ser importante, hoje já não parece tão

decisiva. A transferência, quando foi pela primeira vez discutida, em

1894, poderia sem dúvida ter evitado problemas posteriores. Mas

hoje a localização não é obstáculo sério, exceto para o curso de

engenharia civil. Um bom número de professores ainda mora em

Ouro Preto, e a viagem a Belo Horizonte é rápida. Para o estudo de

matérias básicas, a localização em Ouro Preto pode ser até

favorável. O problema de residências para professores e alunos é

perfeitamente solúvel, uma vez que se decida alocar recursos nesse

sentido. A atual localização favorece também a descentralização do

ensino, descongestionando a excessiva demanda sobre as

Universidades Federal de Minas Gerais e Católica, em Belo

Horizonte.

 

Outro ponto duvidoso é o referente ao peso dado às disciplinas

básicas. A questão só pode ser resolvida em função da alternativa

que for adotada para os cursos. Algumas propostas, como se verá,

sugerem que a Escola se dedique totalmente ao ensino dessas

matérias. Se, ao contrário, ela deve principalmente formar técnicos,

não há por que manter a ênfase. O aprofundamento nas áreas

básicas, nessa hipótese, seria deixada aos cursos de pós-graduação. Também não faz sentido voltar ao sistema antigo de seis anos, nem

parece que seu abandono tenha tido qualquer coisa a ver com o

declínio. O abandono do curso enciclopédico foi uma exigência da

especialização do mercado de trabalho do engenheiro de hoje e

nada leva a crer que ela vá mudar. Na mesma linha de argumento, a

introdução da engenharia civil, se foi um recurso salvador,

certamente reduziu a profundidade do treinamento nas outras áreas.

Hoje, já não haveria razões poderosas para manter o curso.

 

Quanto à atuação da Associação dos Ex-alunos, não se pode negar

que ela tenha sido útil, sobretudo quando atua via Fundação Gorceix.

É conhecida também a ação de ex- alunos em facilitar a colocação

dos recém-formados nas empresas que dirigem ou em que

trabalham. Os críticos referem-se à existência de uma pequena

máfia, cujos membros se protegem mutuamente. Em grande parte,

porém, a vinculação dos ex-alunos com a Escola é de natureza

sentimental. Muitos deles se limitam a cultivar as lembranças de seus

tempos de Ouro Preto, de sua “república”, e a tentar preservar o que

deles resta. Esse saudosismo é que pode constituir obstáculo a que

percebam com maior lucidez as necessidades da Escola e insistam

em medidas inúteis, se não prejudiciais. Dado o forte esprit de corps

que até hoje cultivam, e dado o fato de que muitos deles ocupam

posições importantes na indústria e em órgãos públicos, poderiam

constituir importante ponto de apoio para a reforma. Mas a maioria se

tem limitado aos melosos discursos do 12 de outubro, com as

indefectíveis referências ao “espírito sagrado de Gorceix”, à “família

da Escola de Minas”, às “gloriosas tradições da Casa de Gorceix”, à

“mística que envolva a Escola de Minas”, e outras preciosidades

semelhantes.

 

As causas internas, não comuns a outras universidades e que

parecem ter tido maior peso no declínio, são a endogenia, o

isolamento cultural e o culto da tradição, todas de alguma forma

relacionadas entre si. Para ilustrar o ponto, cabe rápida comparação

da Escola de Minas com dois outros estabelecimentos de ensino de

Minas Gerais.

Existe em Ouro Preto, desde 1839, uma escola superior de Farmácia

que nunca se salientou nacionalmente, que não consta ter produzido

um pesquisador de importância ou um tecnólogo de valor. No

entanto, assim como a Escola de Minas produziu bons matemáticos,

bons químicos, bons geólogos, ao lado de bons engenheiros, o

mesmo se poderia esperar da Escola de Farmácia, que também

ensinava disciplinas básicas como física, química e botânica, além

das especializadas. O método, a organização, a filosofia e os salários

da Escola de Minas fizeram a diferença.

 

Em 1922, foi criada uma Escola Superior de Agricultura e Veterinária

em Viçosa, pequena cidade do sul de Minas, distante 200 km de Belo

Horizonte e 400 km do Rio de Janeiro. A Escola, inaugurada em

1926, foi criada pelo presidente de Minas, Artur Bernardes, para

beneficiar sua terra natal. Para organizá-la, foi convidado o professor

americano Peter Henry Rolfs, do Florida Agricultural College. Num

paralelo curioso com o caso de Gorceix, foi convidado em primeiro

lugar o organizador da Escola Superior de Agricultura Luís de

Queiroz, de Piracicaba, Eugene Davenport. Por se julgar já muito

idoso para a tarefa, Davenport sugeriu Rolfs. Este, com o auxílio de

um ex-aluno de Ouro Preto, Astolfo da Silveira, e de Arduíno Bolivar,

iniciou a construção, tomando como modelo os Landgrant Colleges

que revolucionaram o ensino técnico na área agrícola nos fins do

século XIX nos Estados Unidos.

 

O estabelecimento iniciou modestamente seu curso de agricultura

em 1929, com nove alunos, e o de veterinária, em 1932, com oito

alunos. Transformado em Universidade Rural de Minas Gerais, em

1948, e federalizado em 1969, com o nome de Universidade Federal

de Viçosa, é hoje um exemplo de dinamismo na área do ensino, da

pesquisa e da extensão. Em 1961, a Universidade deu início, pela

primeira vez no Brasil, à pós-graduação em ciências agrárias, em

convênio com a Universidade de Purdue. Já formou mais de 500

mestres e alguns doutores. Em 1976, funcionavam 12 cursos de

mestrado e quatro de doutorado. Seu corpo docente, nesse mesmo

ano, incluía 67 doutores, a maioria com curso no exterior, 120

mestres, a maior parte formada por ela mesma, e 112 bacharéis. É

flagrante o contraste com Ouro Preto.