A Escola de Minas de Ouro Preto: o peso da glória
Sintomas e Causas do Declínio
Outro aspecto interessante da Tabela 19 é a distribuição de
residência de acordo com os departamentos a que pertencem os
professores. Nota-se, por exemplo, confirmando os argumentos dos
mudancistas da década de 40, que é no departamento de engenharia
civil onde predominam os professores residentes em Belo Horizonte.
A seguir, mas já sem maioria, vêm os departamentos de mineração e
de ciências sociais e econômicas. Nos demais departamentos,
sobretudo nos das áreas básicas (matemática, química e física), a
grande maioria é de residentes em Ouro Preto. Esse dado vem
novamente sugerir que a eliminação dos cursos não previstos
inicialmente poderia ser feita hoje e ter mesmo efeito benéfico. A
época sonhada por Gorceix em que o mercado de trabalho permitiria
manter uma escola só de mineração, metalurgia e geologia
certamente já chegou. Mas, de qualquer modo, o problema de
residência é hoje muito menos importante do que em 1939, quando
foi levantado com tanta virulência. Naquela época a viagem de trem
de Belo Horizonte a Ouro Preto levava 6 horas. Hoje, os 90 km de
asfalto não consomem muito mais tempo do que para se ir, com
trânsito lento, da Barra da Tijuca no Rio de Janeiro à ilha do Fundão,
onde se localiza a UFRJ.
Sintomas e Causas do Declínio
Uma sonolência soturna e mofada.
Odorico de Albuquerque
Ao longo do período 1939-1976, houve, em vários momentos,
manifestações dentro e fora da Escola denunciando que algo estava
errado, embora nem sempre se apontasse com precisão o que
exatamente não andava bem. Igualmente e concomitantemente, se
apontavam fatores que seriam responsáveis pelos males
diagnosticados. A lista das causas era grande e variava de acordo
com a posição de quem as apresentava. Defensores da Escola
tendiam a apontar causas externas, críticos preferiam indicar fatores
internos.
Antes de inventariar as causas, convém notar que já antes de 1939
houvera manifestações externas à Escola que sugeriam o início de
inflexão para baixo na curva de sua evolução. A primeira apareceu
na mensagem que Epitácio Pessoa enviou ao Congresso em 1921.
Dizia a mensagem sobre a Escola:
“O fato, porém, de viver longe dos centros de cultura e dos grandes
meios industriais explica naturalmente o estar decaindo, de certo
tempo a esta parte, do seu florescimento primitivo.”8. A estocada
pode ter sido consequência dos atritos do governo Epitácio Pessoa,
sobretudo de seu ministro Pires do Rio, com Clodomiro de Oliveira.
No entanto, Gonzaga de Campos, que era partidário das posições do
governo mineiro, e que na época era diretor do DNPM e muito
chegado ao ministro Simões Lopes, já manifestara também a
preocupação com os efeitos da localização da Escola sobre a
qualidade do ensino: “Ou o governo melhora o meio ou a Escola de
Minas deve sair”, teria dito. O problema da localização, identificado aí
como causa do declínio, acompanhou sempre a história da
instituição.
Outra menção à queda da qualidade do ensino se deve ao ministro
Francisco Campos e foi inserida em sua justificativa da incorporação
da Escola à Universidade do Rio de Janeiro, em 1931. Disse ele:
“Escola de notórias tradições científicas e didáticas, o isolamento em
que se encontra tem contribuído grandemente para que não venha
mantendo no mesmo alto nível a reputação de seu ensino9.
Novamente se responsabiliza o isolamento pela queda do nível do
ensino. Mas, como na mensagem de Epitácio, não se especifica em
que aspecto estaria o ensino decaindo.
Foi, no entanto, o memorial apresentado à Congregação, em 1939,
por Alberto Mazoni, que formulou pela primeira vez de maneira
sistemática o problema do declínio. Dada sua importância e sua
pouca divulgação, merece ser resumido.
O ponto central do memorial é a necessidade de separar a Escola de
Minas da cidade de Ouro Preto. Pelo espírito que as anima, as duas
são incompatíveis. A cidade é berço de tradições, volta-se para o passado e a ele deve se manter fiel. À Escola, pelo contrário, não
cabe a guarda do passado, mas do futuro e para este deve projetar-
se. “Contagiar-se da alma da cidade é o mal de que cumpre fugir10.
As condições necessárias para a conservação da cidade são
exatamente as que militam contra a vida da Escola. A cidade precisa
de silêncio e paz, a Escola precisa do fervilhar das indústrias e das
técnicas.
A localização em Ouro Preto, segundo o memorial, é, sobretudo,
nociva ao curso de engenharia civil (do qual Mazoni era professor).
Mas a parte técnica do ensino, em geral, se vê prejudicada, pois a
atividade metalúrgica já se deslocou para a região próxima de
Sabará. Gorceix estava certo ao escolher Ouro Preto, mas mudaram
as circunstâncias, e os próprios critérios usados por ele para
escolher a cidade e levariam agora a escolher outra localização. O
mal principal causado pela localização em Ouro Preto é a dificuldade
de recrutar professores e alunos. No primeiro caso, há cadeiras que
ficam vagas pela falta de candidatos para preenchê-las. A solução
sempre adotada era a da acumulação de cadeiras pelo mesmo
professor. Mas a acumulação está agora proibida. Além disso, a
instituição da livre-docência não tinha condições de prosperar em
Ouro Preto, pela falta de outras oportunidades de trabalho que
pudessem suplementar os salários. Caso se efetive a medida de
obrigar os professores a viverem em Ouro Preto, prevê o memorial,
ou ficarão sem preenchimento as vagas, ou serão recrutados
candidatos incompetentes, com consequências desastrosas para o
ensino.
O memorial faz também um histórico do movimento em favor da
transferência. A primeira manifestação da ideia é de 1894. Nesse
ano, tendo em vista a próxima transferência da capital para Belo
Horizonte, o governo de Floriano Peixoto baixou um decreto,
assinado por Fernando Lobo, determinando a transferência para
Barbacena. Houve reação de ex-alunos eleitos deputados, sobretudo
de Antônio Olinto. A Congregação foi consultada e votou contra a
mudança, em reunião de 23 de janeiro de 1895, pela estreita
margem de oito votos a cinco. O diretor, Archias Euripedes da Rocha
Medrado, votou pela mudança. A principal resistência parecia ser contra a transferência para Barbacena e não contra a transferência
em si11. Na justificação de seu voto favorável à mu-dança para Belo
Horizonte, Domingos Porto diz que, com a mudança da capital, o
centro cultural de Minas — uma das razões usadas por Gorceix para
escolher Ouro Preto -- também se deslocaria para a nova sede do
governo. Além disso, Belo Horizonte está tão bem situada do ponto
de vista da existência de minas e fábricas de ferro como Ouro Preto,
e é mais favorável do ponto de vista da engenharia civil, que não tem
aplicação na antiga capital. Ouro Preto irá decair com a mudança da
capital, e o governo terá provavelmente que fechar a Escola por falta
de alunos (ata de 19 de fevereiro de 1895).
O novo governo de Prudente de Morais sustou a transferência. Mas
em 1910, o ministro do recém-criado Ministério da Agricultura,
Indústria e Comércio, Pedro de Toledo, enviou telegrama à
Congregação pedindo opinião sobre a conveniência de transferir a
Escola para Belo Horizonte (ata de 22 de março de 1910). Dessa
vez, seis votos foram contra e apenas três a favor. Um dos votos a
favor foi de Augusto Barbosa da Silva, o construtor do forno elétrico,
que o justificou dizendo que em Belo Horizonte seria mais fácil
recrutar professores e alunos; que Belo Horizonte não era inferior a
Ouro Preto em nenhum aspecto referente ao ensino técnico, sendo
superior em alguns, sobretudo na parte da engenharia civil; e,
finalmente, que em Belo Horizonte a Escola estaria mais perto do
centro de poder e teria melhores condições de obter as medidas que
lhe interessassem (ata de 28 de março de 1910). O assunto, no
entanto, foi novamente esquecido. Costa Sena, o diretor na época,
era contrário à mudança, e seu prestígio como cientista e político era
suficiente para a fazer abortar.
Os argumentos do memorial em favor da transferência são mais ou
menos os mesmos utilizados em 1894 e 1910. Em 1939, porém, já
se percebiam como reais os problemas que antes se imaginavam
prováveis. Mas não havia ainda clara identificação dos pontos em
que estaria havendo decadência. Havia, sim, um sentimento
generalizado, mesmo entre o grupo ouro-pretano, de que a Escola
perdera o antigo dinamismo e entrara em período de estagnação. No
dizer de um dos mais convictos ouro-pretanos, Odorico de Albuquerque, sentia-se “sonolência sotuma e mofada” (ata de 12 de
abril de 1939).
Alves de Souza, em sua declaração de voto enviada ao presidente
da República, afirmara que a Escola, após meio século de brilhantes
realizações, estava “perdendo sua alta eficiência e,
consequentemente, sua excepcional reputação” (ata de 18 de maio
de 1943). Em carta a um professor, ele atribuíra o descrédito às
divergências entre os membros da Congregação e afirmara: “Choca
horrivelmente o crescimento rápido do descrédito [da Congregação]
no conceito público.”
Ante a reação da Congregação, negando que houvesse declínio, ele
volta a repetir as críticas, acrescentando que a eficiência de uma
escola se mede pela respeitabilidade da Congregação, pelo
ambiente de trabalho e pela eficiência dos profissionais diplomados.
Os dois primeiros itens, segundo ele, não se verificavam em Ouro
Preto, devido às divergências na Congregação, sobretudo entre o
diretor e o grupo mudancista.
Outras manifestações se seguiram. No projeto de criação do
Ministério de Minas e Energia, de 1945, Bernardino Correa de Mattos
Neto dizia que “o que se reclama para a Escola de Ouro Preto é
reformar-lhe os métodos, a estrutura, o ambiente, imprimindo-lhe
feição nova, proporcionando-lhe meios novos 12. Fracassada a
criação da Universidade Técnica, veio o novo regimento de 1946,
seguindo a reforma da Universidade do Brasil. Na discussão desse
regimento, Moacir Lisboa, também convicto ouro-pretano, insistiu em
medidas que modificassem o ambiente de Ouro Preto, responsável,
segundo ele, pela estagnação. Tentando especificar, disse que a
estagnação podia ser verificada pelo lento desaparecimento do
convívio entre os professores, do intercâmbio com os alunos, pela
interrupção da publicação dos Anais (ata de 2 de maio de 1946).
Uma comissão foi nomeada pela Congregação e apresentou, seis
meses depois, as medidas que se deveriam tomar em relação a Ouro
Preto para melhorar as condições da Escola. As medidas incluíam
melhoria dos serviços públicos, construção de praça de esportes, de campo de aviação, de residências para professores e alunos e outras
(ata de 28 de novembro de 1946).
Em 1949, é um editorial da Revista da Escola de Minas, dirigida
pelos alunos, que chama a atenção para a decadência. Comentando
o fato de se ter realizado o 3º Congresso Nacional de Geologia na
Bahia, sem que a Escola tivesse mandado um só representante e
nem tivesse dele tomado conhecimento, o editorialista, aluno do 6º
ano, verifica que “a Escola está perdendo a destacada posição
conquistada pelos que nos precederam” 13. Ela foi pioneira da
eletrossiderurgia, diz o editorial, mas agora, “por mais que
procuremos, não somos capazes de citar uma pesquisa, um trabalho
ou estudo que viesse colaborar na solução de algum problema
relacionado com a Metalurgia no Brasil14.
Apesar de todas as medidas tomadas no período, como a criação do
Parque Metalúrgico e posteriormente do Instituto de Mineração e
Siderurgia, da separação da Universidade do Brasil, da implantação
da Universidade de Ouro Preto, todas elas solicitadas ou apoiadas
pela Congregação, nenhum progresso real se notou e permaneceu o
sentimento de que o declínio persistia. Escrevendo em 1974, o
mesmo Moacir Lisboa, que falava em estagnação em 1946, comenta
que “a cultura dos professores e dos alunos, de modo geral, e em
relação ao desenvolvimento científico-tecnológico, está
progressivamente decaindo15.
Analistas externos insistiam, e insistem, nos mesmos pontos. Glycon
de Paiva, por exemplo, diz que a Escola já cumpriu sua missão e
agora é tempo de se pensar em outras maneiras de organizá-la 16.
Amaro Lanari Jr. afirma que ela estagnou e precisa de profunda
reformulação17. Há insatisfação geral, entre professores, ex-alunos,
alunos, simples observadores. Alguns dos antigos professores
chegam a desejar que a Escola acabe de uma vez. Assim, pelo
menos, ainda morreria com alguma dignidade.
A decadência pode ser em parte um problema de perspectiva. O que
era inovação e grande progresso no Brasil de 1876 pode estar hoje totalmente ultrapassado. A Escola foi, durante muito tempo, a única
instituição em sua área de especialização, sem ter que enfrentar
competidores. Parte do que se chama decadência poderia, nessa
hipótese, ser vista como ausência de evolução e de
acompanhamento dos progressos científicos, tecnológicos e
didáticos. No entanto, é possível argumentar que o declínio em
relação ao que existia antes não foi apenas relativo, mas também
absoluto. Ele se revelaria principalmente nos seguintes pontos.
A ESCOLA FECHOU-SE SOBRE SI MESMA
Em seus primeiros anos, graças à presença dos professores
franceses, ao envio de recém-formados ao exterior, à existência de
boa biblioteca, à constante participação em congressos e
exposições, a Escola se mantinha a par do que se passava na área
da ciência e da técnica em centros avançados. Após a saída dos
franceses (o último morreu em 1895), só muito recentemente, com a
criação do Instituto de Mineração e Metalurgia, é que se tentou
novamente atrair professores visitantes. Mesmo assim, a instituição
não foi mais capaz de os conservar, assim como não manteve os que
para lá foram por ocasião da implantação dos cursos da CAGE.
Consta que, por essa época, um professor norte-americano teria dito
que não seria possível colocar um conterrâneo em Ouro Preto por
falta de condições de ensino e pesquisa 18. Os pesquisadores
franceses do IRSID também permaneceram pouco tempo no Instituto
de Mineração e Metalurgia, retirando-se para seu país ou para outras
instituições brasileiras. O matemático italiano, Achille Bassi, tentou
criar um instituto de pesquisas matemáticas, mas não obteve o apoio
de que necessitava. Foi desenvolver suas pesquisas na Universidade
de São Carlos19.
O sistema de enviar alunos recém-formados ao exterior foi extinto
pela reforma Francisco Campos, em 1931. Embora tivesse
funcionado com irregularidade, foi responsável pelo envio de vários
engenheiros à França, como Augusto Barbosa, cuja bolsa foi
financiada por D. Pedro II, José Pires do Rio, Gastão Gomes, José
Barbosa da Silva, Armando Bretas Bhering e outros. Há tentativas
recentes de enviar jovens professores para realizar pós-graduação no exterior. Mas, como no caso dos professores estrangeiros, esses
pós- graduados, ao regressarem, tendem a abandonar a Escola em
busca de instituições onde o ambiente é mais favorável ao trabalho,
ou mais compensador financeiramente. Os poucos que permanecem
não têm influência suficiente para liderar reformas do ensino e da
pesquisa.
Desde o final da década de 20, a Escola deixou de se preocupar com
participação em congressos e exposições. Antes, sua presença era
frequente, sobretudo no período de Costa Sena como diretor.
Recebeu várias medalhas em exposições internacionais. Após 1930,
tem apenas servido de sede para congressos. Vimos a queixa dos
alunos de 1949 em relação ao desinteresse pelo 3º Congresso
Nacional de Geologia 20. Consta que um conhecido professor teria
dito, no regresso de viagem aos Estados Unidos, que lá nada vira de
novo em matéria de ensino e pesquisa.
A biblioteca também, segundo depoimento de quem a administrou
por longos anos, José Pedro Xavier da Veiga, foi perdendo o contato
com o exterior devido à redução e interrupção de assinaturas de
revistas técnicas. A interrupção da publicação dos Anais significou
grande perda em termos de atualização bibliográfica. Um simples
exemplar dos Anais correspondia a centenas de publicações
enviadas em permuta de todas as partes.
O ENSINO MASSIFICOU-SE E TORNOU-SE TEÓRICO
A partir dos aumentos de matrícula dos anos mais recentes, o ensino
perdeu a característica individualizada introduzida por Gorceix. Não é
mais possível ao professor acompanhar o aluno desde o início até o
final do curso, nas aulas, nos laboratórios, nas excursões práticas.
Paralelamente, a insistência no aprendizado teórico-prático, típica de
Gorceix, se tornou cada vez menos viável. O estudante tem muito
menos oportunidades de usar laboratórios, as excursões se limitam a
uma visita anual à Usiminas, os estágios não existem em número
suficiente para todos.
O estilo inicial de Gorceix só seria possível hoje em cursos de pós-
graduação. No entanto, a pós-graduação tem sido um dos fracassos
da Escola. Em 1972, foi criada uma pós- graduação em Metalurgia,
com o auxílio da Fundação Gorceix e do Instituto Costa Sena. O
último enviara vários ex-alunos ao exterior para especialização. O
curso pouco durou e, por várias razões, os professores, em sua
maioria, abandonaram a Escola para assumir postos em outras
universidades ou em órgãos como a Siderbras, que ofereciam
melhores salários. Seja qual for a origem do fracasso da pós-
graduação, externa ou interna, o fato é que em Belo Horizonte já
existe um promissor mestrado em engenharia metalúrgica21.
O TEMPO INTEGRAL TORNOU-SE EXCEÇÃO
Outro aspecto básico da organização original era a dedicação total
de professores e alunos à tarefa acadêmica. Seria irrealista, nas
circunstâncias brasileiras atuais, acreditar que fosse possível existir
hoje uma escola de graduação cujos professores estivessem todos
em dedicação exclusiva. Mas é também ilusório achar que possa
haver ensino de boa qualidade sem um número razoável de
docentes bem qualificados em tempo integral. À medida que a
Escola se foi expandindo a proporção de docentes em dedicação
exclusiva se foi reduzindo. Hoje, com mais da metade dos
professores em regime de 12 horas, mesmo que o tamanho das
turmas o permitisse, não seria possível o acompanhamento de perto
dos alunos.
Paradoxalmente, onde melhor se preservou a tradição foi na
dedicação integral dos alunos. As bolsas de estudo foram extintas
por Francisco Campos, mas desde 1961 a Fundação Gorceix vem
desenvolvendo amplo programa de bolsas de alimentação e de
estudo para alunos carentes. Em 1976, em torno de 20% dos alunos
recebiam bolsas de estudo ou de alimentação, ou ambas 22. Além
disso, o acanhado ambiente de Ouro Preto, que não mudou muito
nos últimos cem anos, e o sistema de repúblicas estudantis que,
longe de decair, continua crescendo, tornam os alunos seguramente
mais dedicados aos estudos do que o de outras universidades
localizadas em centros maiores 23. O fato é reconhecido mesmo pelos críticos. Desde a década de 1940, os alunos se transformaram no
componente mais dinâmico da Escola. São eles que publicam a
Revista da Escola de Minas, hoje o único veículo de divulgação dos
trabalhos científicos. Deles também foi a iniciativa de criar a
Sociedade de Intercâmbio Cultural e Estudos Geológicos (SICEG),
que até hoje mantém suas atividades.
NÃO HÁ MAIS O BAFEJO DO PODER
O apoio incondicional do governo, dirigido pela vontade imperial, foi
fator decisivo nos primeiros anos. Foi ele que permitiu a adoção e
manutenção de todas as medidas responsáveis pelo êxito,
destoantes embora da prática brasileira. Algumas das medidas
implicavam privilégios que desagradavam a outras escolas e
provocavam resistências e inimizades. Durante a República Velha, a
grande participação dos professores na política, inclusive em postos
ministeriais, e o prestigio de Costa Sena e Augusto Barbosa,
permitiram a manutenção, embora já algo enfraquecida, da atitude
favorável das autoridades governamentais. A situação sofreu a
primeira alteração séria com a reforma de 1931, que resultou na
incorporação à Universidade do Rio de Janeiro e ao Ministério da
Educação e Saúde.
O maior mal não veio da incorporação à Universidade do Rio de
Janeiro, mas ao novo ministério. É certo que, do ponto de vista
administrativo e didático, a vinculação à Universidade trouxe alguns
males a que a Congregação frequentemente se referia, sobretudo
durante as lutas pelo desligamento (ata de 31 de dezembro de 1959).
Mas os males atribuídos à Universidade eram consequência das
novas leis de ensino decretadas pelo ministro Francisco Campos.
Entre elas figuravam, por exemplo, a eliminação dos substitutos, o
fim das bolsas de estudo e das viagens ao exterior e a proibição do
concurso, ao final do curso geral, para ingresso no curso especial.
Como consequência da incorporação ao ministério, no entanto, a
Escola se tornou apenas um estabelecimento a mais, entre centenas
de outros, a serem financiados e supervisionados. Enquanto
pertencera ao Ministério da Agricultura, Comércio e Indústria era filha
única, além de ter vários de seus ex-alunos em postos importantes dentro do ministério, como na chefia do SGMB. Além disso, por
pertencer a um ministério não especializado na área de educação, a
Escola desfrutava de toda a liberdade para estabelecer seu regime
interno, administrativo e didático. No Ministério da Educação e
Saúde, depois da Educação e Cultura, tal liberdade foi
desaparecendo ao compasso das sucessivas leis de reforma do
ensino decretadas após 1931.
Após a saída de Gastão Gomes, em 1943, só houve real disposição
de ajuda por parte do governo federal durante o governo Kubitschek,
quando Clóvis Salgado ocupava o Ministério da Educação. A
incorporação ao Ministério das Minas e Energia, quando este foi
criado, poderia ter sido medida salvadora, se acompanhada de
outras capazes de renovar o corpo docente, o ensino e a pesquisa.
Algumas das melhores escolas técnicas brasileiras até hoje
pertencem a outros ministérios e talvez em parte por isso, sejam
boas. Tal é o caso, por exemplo, do Instituto de Tecnologia da
Aeronáutica e do Instituto Militar de Engenharia, do Exército. O
mesmo pode ser dito de institutos de ensino e pesquisa vinculados
ao CNPq, como o Instituto de Matemática Pura e Aplicada, o Instituto
de Pesquisas da Amazônia, entre outros. Mas o que não se
conseguiu então, certamente não se conseguirá hoje. A própria
situação de declínio da Escola estabeleceu uma relação de suspeita
mútua entre ela e os órgãos do Ministério da Educação. Formou-se o
círculo vicioso pelo qual a primeira atribui à omissão e à ação
negativa do segundo a causa de seus males; o ministério, por sua
vez, não se dispõe a auxiliar por não acreditar na eficácia de
qualquer ajuda sem mudança profunda nas estruturas da Escola.
PERDEU-SE O ESPÍRITO DE CRIATIVIDADE
O desenvolvimento da criatividade era a base da pedagogia de
Gorceix. A criatividade, desenvolvida nas salas de aula e nos
laboratórios, deveria frutificar nas pesquisas, nas publicações, nos
desenvolvimentos tecnológicos. Apesar da enorme carga
administrativa e de ensino, os professores da primeira fase
pesquisavam e publicavam seus trabalhos no Brasil e, no caso dos
estrangeiros, também na França. Graças a esse espírito, a Escola foi colocada por Derby, já em 1883, entre os três principais
estabelecimentos científicos do país. Mas, lentamente, a pesquisa se
foi atrofiando devido à saída de muitos dos melhores pesquisadores
e à fetichização dos métodos de ensino. A situação chegou ao ponto
de um professor ter reagido ao esforço da Fundação Gorceix no
sentido de retomar o fomento à pesquisa caracterizando-o de
“sonhos de pesquisa científica” que só serviam para ajudar
professores estrangeiros a fazer suas teses de doutoramento com
gastos astronômicos (ata de 4 de março de 1964).
Houve outras tentativas de desenvolver a pesquisa no período
posterior a 1939. A primeira delas foi a criação do Parque
Metalúrgico na década de 1940. O Parque foi construído sob a
supervisão dos professores José Barbosa da Silva e José Carlos
Ferreira Gomes. Mas nunca chegou a funcionar regularmente.
Problemas de custos de manutenção e de burocracia fizeram com
que permanecesse a maior parte do tempo inativo, como inativo se
acha desde 1963. Pensou-se em arrendá-lo a empresas particulares,
mas a ideia também não foi adiante. A criação do Instituto de
Mineração e Metalurgia foi outra tentativa fracassada.
Deve-se mencionar ainda a criação do Instituto Costa Sena, pela
Fundação Gorceix, cuja finalidade era promover a pesquisa em
estreita colaboração com as indústrias, sobretudo na área da
metalurgia. O Instituto iniciou suas atividades em 1964, e em 1969 já
contava com sete pesquisadores por ele mesmo enviados para
treinamento no exterior. Três tinham completado o doutorado na
França e quatro possuíam especialização no IRSID. Alguns trabalhos
importantes foram desenvolvidos, citando-se como o de maior
repercussão o da redução do consumo de lingoteiras na Usiminas a
quase a metade, o que permitiu economia de 2 milhões de cruzeiros.
Mais alguns trabalhos foram feitos, sobretudo na Usiminas. O
desinteresse de outras empresas em adotar as inovações ou em
contratar novas pesquisas fez, no entanto, que o grupo inicial
abandonasse a Escola, a maioria tendo sido absorvida pela própria
Usiminas. Atualmente, o Instituto mal sobrevive com dois
pesquisadores, cada um dirigindo um projeto 24.
Dentro da Escola são pouquíssimos os projetos de pesquisa em
andamento, limitando-se a atividade a poucos professores 25. Os
laboratórios, geralmente bem equipados, são subutilizados. Há
professores que se queixam de que não há recursos e apoio para
pesquisas, mas nunca se dirigiram aos órgãos de fomento, outra
consequência do isola-mento. Não existe agressividade em buscar
fora da Casa e fora do Ministério da Educação os recursos
necessários para custear pesquisas e suplementar salários. Se a
pesquisa tecnológica esbarra frequentemente no desinteresse das
empresas, mesmo estatais, resta ainda o recurso a órgãos como o
BNDE e a FINEP, como resta o CNPq para a área da pesquisa
científica, básica ou orientada. Há recursos disponíveis, sobretudo
dentro das prioridades do Plano Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico26.
Independentemente da existência de fatores que dificultam a
atividade de pesquisa, já se vinha há algum tempo perdendo algo
fundamental do “espírito de Gorceix”: a ênfase na investigação e na
criatividade científicas. Em relação ao ensino, aos programas e
cargas horárias, pode-se dizer que ainda são satisfatórios, tanto na
parte especializada como, sobretudo, na parte básica. Alguns
observadores acham mesmo que é excessiva a carga horária de
aulas, em particular na matemática. Mas a pesada carga de trabalho
que se exige dos alunos e o rigor que ainda existe em matéria de
verificação de aprendizado não são hoje acompanhados da liderança
intelectual que lhes dava sentido e produtividade. Os métodos
transformaram-se em fetiche. Apesar de todo o rigor de Gorceix, e
mesmo de sua rudeza; os alunos fizeram um abaixo-assinado em
1891 pedindo que não renunciasse. Em contraste, após 1940, as
atas da Congregação estão repletas de reclamações de alunos
contra a excessiva rigidez didática, havendo casos de greves e
pedidos de afastamento de professores. A perda de liderança
certamente tem a ver com a redução da atividade de pesquisa dos
professores.
Esses pontos resumem o que se tem chamado de decadência. É
possível que o resumo tenha carregado um pouco nos aspectos
negativos. A Escola ainda forma bons profissionais. Embora já se compare desfavoravelmente com outras escolas na área, certamente
ainda mantém um nível de ensino satisfatório. Mas é inevitável que,
ao se avaliá-la hoje, se levem em conta os parâmetros por ela
mesma criados no passado. Tal procedimento, antes de ser injustiça,
é homenagem.
Identificados os sintomas de declínio, cabe relacionar as causas.
Dentro da Escola, há tendência em apontar causas externas. As
mais importantes são as seguintes:
A PERDA DA AUTONOMIA
Teria acontecido em 1931, com incorporação ao Ministério da
Educação e Saúde. As consequências, segundo a visão da Escola,
já foram discutidas e podem resumir-se na paulatina destruição das
características administrativas e pedagógicas que fizeram a
grandeza da instituição.
AS REFORMAS DO ENSINO
Alguns professores dividem a história da Escola em antes e depois
da Lei de Diretrizes e Bases. A obrigação de preencher as vagas,
incluída nessa lei, aliada ao vestibular classificatório e de múltipla
escolha, introduzido um pouco mais tarde, teria enchido a Escola de
alunos despreparados, tornando impossível a manutenção do ensino
de alto nível.
O DESCASO DAS AUTORIDADES
Não existe mais o carinho de antes para com o estabelecimento. Não
há verbas para as melhorias propostas. Chega a haver mesmo
desrespeito formal, como no caso da nomeação, em 1973, pelo
ministro Jarbas Passarinho, de um diretor que não constava sequer
na lista enviada ao ministério.
A FALTA DE CONDIÇÕES FÍSICAS
Este ponto se refere ao espaço físico e às condições de alojamento e
de vida dos professores e alunos.
A INSUFICIÊNCIA SALARIAL
Os salários vigentes não permitem atrair e manter bons professores
e pesquisadores brasileiros ou estrangeiros, como o tem
demonstrado a experiência.
A UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO
Pedida pelos professores como alternativa à incorporação à
Universidade Federal de Viçosa ou à Universidade Federal de Minas
Gerais, a Universidade Federal de Ouro Preto é hoje vista como uma
interferência externa a mais, sem a contrapartida de qualquer
benefício. A Universidade tem sido antes um peso, pois embora seja
em boa parte ainda uma ficção, ocupa espaço físico da Escola e,
sobretudo, estabelece normas e planos que afetam sua vida.
Há algo de verdade nessas alegações. Mas os fatores apontados
estão presentes em todas as escolas superiores federais submetidas
ao Ministério da Educação, não são privilégio da Escola de Minas.
Todas essas escolas estão sujeitas à política do Ministério; devem
submeter-se à legislação do ensino superior, com vestibular e tudo;
têm que adotar os mesmos níveis salariais para seus professores;
muitas apresentam sérios problemas de espaço físico e estão com
as obras dos campi paralisadas ou avançando lentamente, por falta
de verbas; todas estão sujeitas ao descaso das autoridades. O
importante é perguntar por que muitas delas, embora enfrentando
problemas semelhantes, conseguem desenvolver seu ensino, sua
pesquisa e sua extensão, ao passo que a Escola de Minas não
consegue.
Entre as causas de ordem interna, geralmente, mencionadas por
observadores externos, estão as seguintes:
O ISOLAMENTO GEOGRÁFICO
A localização em Ouro Preto impede a contratação de bons
professores e a atração de mais alunos. Impede também a comunicação com outros centros e o desenvolvimento de um ensino
de melhor qualidade.
O ISOLAMENTO CULTURAL
Para alguns, esse isolamento é simples consequência do isolamento
geográfico, mas, para outros, que não vêem no último um obstáculo
sério, ele é distinto, e vincula-se mais à mentalidade que domina o
corpo docente. A Escola encapsulou-se, fechou-se sobre si mesma e
não acompanhou a evolução da ciência, do ensino e do próprio país.
A EXCESSIVA ENDOGENIA DO CORPO DOCENTE
Se no início a endogenia se justificava e foi útil para estabelecer uma
nova tradição de ensino e pesquisa, com o passar do tempo
começou a pesar negativamente e se tornou fator de conservação e
de resistência a iniciativas renovadoras.
O ESPIRITO DE TRADIÇÃO
A melhor formulação dessa crítica está na comparação entre a
Escola e a cidade feita no memorial de 1939. O culto da tradição
volta-se contra seu próprio objeto, que é o “espírito de Gorceix”. O
fundador afirmava que não queria fazer obra acabada, mas algo que
fosse sendo aperfeiçoado e adaptado, à medida que as
circunstâncias o exigissem. A flexibilidade era característica básica
de seu espírito. Em contraste, a rigidez passou a marcar a atitude e a
ação dos cultores desse espírito. O culto da tradição também limita a
capacidade de autocrítica e de aceitação de críticas de outros.
A ATUAÇÃO DA ASSOCIAÇÃO DOS EX-ALUNOS
Da parte da Escola, a atuação dos ex-alunos é vista como positiva,
tanto no que se refere à preservação das tradições como ao apoio
em momentos de dificuldade, embora se ache também que o
interesse deles é muitas vezes mais sentimental do que qualquer
outra coisa. Mas para alguns observadores externos, a Associação
atua frequentemente como obstáculo à reforma, bloqueando medidas
que julga descaracterizadoras da instituição.
A ESTRUTURA DE CURSOS E A COMPOSIÇÃO DO CURRÍCULO
Esse ponto é controverso. Em relação ao currículo, por exemplo,
alguns acham excessiva a carga horária de aulas, muito acima do
requerido pelo Conselho Federal de Educação. O programa de
matemática, sobretudo, seria pretensioso. Mas há os que vêem na
maior carga didática, sobretudo nas áreas básicas, um dos aspectos
a preservar. Igualmente há discordância quanto ao tipo de cursos.
Alguns defendem a volta à ideia original de Gorceix e à eliminação
da engenharia civil, cujo ensino fica prejudicado em Ouro Preto.
Outros acham que se deveria voltar à estrutura antiga do curso geral
de seis anos, que formava engenheiros de minas, metalúrgicos e
civis.
As causas têm peso diferente. A questão da localização geográfica
que, tempos atrás, poderia ser importante, hoje já não parece tão
decisiva. A transferência, quando foi pela primeira vez discutida, em
1894, poderia sem dúvida ter evitado problemas posteriores. Mas
hoje a localização não é obstáculo sério, exceto para o curso de
engenharia civil. Um bom número de professores ainda mora em
Ouro Preto, e a viagem a Belo Horizonte é rápida. Para o estudo de
matérias básicas, a localização em Ouro Preto pode ser até
favorável. O problema de residências para professores e alunos é
perfeitamente solúvel, uma vez que se decida alocar recursos nesse
sentido. A atual localização favorece também a descentralização do
ensino, descongestionando a excessiva demanda sobre as
Universidades Federal de Minas Gerais e Católica, em Belo
Horizonte.
Outro ponto duvidoso é o referente ao peso dado às disciplinas
básicas. A questão só pode ser resolvida em função da alternativa
que for adotada para os cursos. Algumas propostas, como se verá,
sugerem que a Escola se dedique totalmente ao ensino dessas
matérias. Se, ao contrário, ela deve principalmente formar técnicos,
não há por que manter a ênfase. O aprofundamento nas áreas
básicas, nessa hipótese, seria deixada aos cursos de pós-graduação. Também não faz sentido voltar ao sistema antigo de seis anos, nem
parece que seu abandono tenha tido qualquer coisa a ver com o
declínio. O abandono do curso enciclopédico foi uma exigência da
especialização do mercado de trabalho do engenheiro de hoje e
nada leva a crer que ela vá mudar. Na mesma linha de argumento, a
introdução da engenharia civil, se foi um recurso salvador,
certamente reduziu a profundidade do treinamento nas outras áreas.
Hoje, já não haveria razões poderosas para manter o curso.
Quanto à atuação da Associação dos Ex-alunos, não se pode negar
que ela tenha sido útil, sobretudo quando atua via Fundação Gorceix.
É conhecida também a ação de ex- alunos em facilitar a colocação
dos recém-formados nas empresas que dirigem ou em que
trabalham. Os críticos referem-se à existência de uma pequena
máfia, cujos membros se protegem mutuamente. Em grande parte,
porém, a vinculação dos ex-alunos com a Escola é de natureza
sentimental. Muitos deles se limitam a cultivar as lembranças de seus
tempos de Ouro Preto, de sua “república”, e a tentar preservar o que
deles resta. Esse saudosismo é que pode constituir obstáculo a que
percebam com maior lucidez as necessidades da Escola e insistam
em medidas inúteis, se não prejudiciais. Dado o forte esprit de corps
que até hoje cultivam, e dado o fato de que muitos deles ocupam
posições importantes na indústria e em órgãos públicos, poderiam
constituir importante ponto de apoio para a reforma. Mas a maioria se
tem limitado aos melosos discursos do 12 de outubro, com as
indefectíveis referências ao “espírito sagrado de Gorceix”, à “família
da Escola de Minas”, às “gloriosas tradições da Casa de Gorceix”, à
“mística que envolva a Escola de Minas”, e outras preciosidades
semelhantes.
As causas internas, não comuns a outras universidades e que
parecem ter tido maior peso no declínio, são a endogenia, o
isolamento cultural e o culto da tradição, todas de alguma forma
relacionadas entre si. Para ilustrar o ponto, cabe rápida comparação
da Escola de Minas com dois outros estabelecimentos de ensino de
Minas Gerais.
Existe em Ouro Preto, desde 1839, uma escola superior de Farmácia
que nunca se salientou nacionalmente, que não consta ter produzido
um pesquisador de importância ou um tecnólogo de valor. No
entanto, assim como a Escola de Minas produziu bons matemáticos,
bons químicos, bons geólogos, ao lado de bons engenheiros, o
mesmo se poderia esperar da Escola de Farmácia, que também
ensinava disciplinas básicas como física, química e botânica, além
das especializadas. O método, a organização, a filosofia e os salários
da Escola de Minas fizeram a diferença.
Em 1922, foi criada uma Escola Superior de Agricultura e Veterinária
em Viçosa, pequena cidade do sul de Minas, distante 200 km de Belo
Horizonte e 400 km do Rio de Janeiro. A Escola, inaugurada em
1926, foi criada pelo presidente de Minas, Artur Bernardes, para
beneficiar sua terra natal. Para organizá-la, foi convidado o professor
americano Peter Henry Rolfs, do Florida Agricultural College. Num
paralelo curioso com o caso de Gorceix, foi convidado em primeiro
lugar o organizador da Escola Superior de Agricultura Luís de
Queiroz, de Piracicaba, Eugene Davenport. Por se julgar já muito
idoso para a tarefa, Davenport sugeriu Rolfs. Este, com o auxílio de
um ex-aluno de Ouro Preto, Astolfo da Silveira, e de Arduíno Bolivar,
iniciou a construção, tomando como modelo os Landgrant Colleges
que revolucionaram o ensino técnico na área agrícola nos fins do
século XIX nos Estados Unidos.
O estabelecimento iniciou modestamente seu curso de agricultura
em 1929, com nove alunos, e o de veterinária, em 1932, com oito
alunos. Transformado em Universidade Rural de Minas Gerais, em
1948, e federalizado em 1969, com o nome de Universidade Federal
de Viçosa, é hoje um exemplo de dinamismo na área do ensino, da
pesquisa e da extensão. Em 1961, a Universidade deu início, pela
primeira vez no Brasil, à pós-graduação em ciências agrárias, em
convênio com a Universidade de Purdue. Já formou mais de 500
mestres e alguns doutores. Em 1976, funcionavam 12 cursos de
mestrado e quatro de doutorado. Seu corpo docente, nesse mesmo
ano, incluía 67 doutores, a maioria com curso no exterior, 120
mestres, a maior parte formada por ela mesma, e 112 bacharéis. É
flagrante o contraste com Ouro Preto.