A Escola de Minas de Ouro Preto: o peso da glória
Introdução
Este estudo pretende ser uma história institucional da Escola de
Minas de Ouro Preto, que, em 1976, completou cem anos de
existência 1. Pretende ainda fornecer elementos para a discussão
dos problemas que afetam a Escola, dentro da perspectiva mais
ampla da história das instituições de ensino e pesquisa no Brasil.
Já surgem estudos sobre tais instituições, alguns com importantes
contribuições, como o de Nancy Stepan sobre o Instituto Oswaldo
Cruz2. A Escola de Minas difere um pouco desse Instituto que é,
sobretudo, um órgão de pesquisa. Com o correr do tempo, ela se foi
transformando em instituição quase que exclusivamente de ensino.
No entanto, por sua orientação original, pela prática de seus anos
iniciais e mesmo pela natureza de seu ensino, deve ser considerada
instituição fundamental para a implantação no Brasil da ciência
geológica, da mineralogia, da metalurgia e do desenvolvimento
tecnológico nessas áreas. Além disso, foi fator importante na
implantação do espírito científico, graças à valorização da pesquisa
empírica, feita na contramão da tradição livresca predominante no
país. A ênfase que sempre deu às ciências básicas, a matemática, a
física, a química, impediu que a preocupação com a aplicação
prática dos ensinamentos transformasse os ex-alunos em simples
técnicos ou tecnólogos. Vários deles, os mais inclinados ao estudo,
se dedicaram à pesquisa científica e constituíram a primeira geração
de geólogos brasileiros.
Como no caso do Instituto Oswaldo Cruz, a Escola foi também
exemplo da transplantação, com êxito, do que havia de melhor na
ciência européia da época em seu campo de conhecimento 3. As
duas instituições contribuíram poderosamente para colocar a
geologia e a pesquisa biológica no ponto de passagem do que
Basalla chama de ciência colonial para a ciência nacional, isto é, da
ciência feita totalmente na dependência de pesquisadores e centros externos para a ciência realizada em instituições nacionais por
pesquisadores nacionais1. Como esse processo se prolongou no
Brasil por muito tempo, podendo-se dizer que em vários campos
ainda não se completou, o estudo das causas do êxito, ou fracasso,
da experiência adquire interesse que ultrapassa as fronteiras das
duas instituições.
O exame da implantação da Escola de Minas, mais ainda do que o
do surgimento do Instituto Oswaldo Cruz chama a atenção para um
ponto que distingue países como o Brasil de outros, como os
Estados Unidos, no que se refere à criação de instituições
científicas. Neste último país, por exemplo, a introdução de escolas
técnicas, ou mesmo das ciências naturais, nas universidades se deu
após ter havido considerável desenvolvimento tecnológico
independente da ciência, incentivado e financiado por industriais
interessados em seus possíveis benefícios2. Embora houvesse nos
Estados Unidos a mesma resistência das universidades tradicionais
em aceitar as escolas de engenharia e o ensino de ciências, lá
essas escolas e esse ensino surgiram em função do que se poderia
chamar de demanda social por seus produtos. No Brasil, sobretudo
no caso da Escola de Minas, tal não se deu. Dificilmente se poderia
dizer que havia demanda por geólogos e engenheiros de minas na
economia exportadora e escravocrata de 1876. A criação da Escola
foi, antes de tudo, um ato de vontade política, orientado em boa
parte por motivos de natureza antes ideológica do que econômica.
Embora os efeitos deste voluntarismo tenham sido limitados por
restrições econômicas, não há dúvida de que eles se fizeram sentir
com nitidez e exerceram impacto sobre o próprio desenvolvimento
econômico e tecnológico do país.
Ao lado das razões do êxito das instituições, não menos importante
é estudar as causas de sua decadência. Como o Instituto Oswaldo
Cruz e quase todas as outras instituições brasileiras de pesquisa, a
Escola de Minas conheceu, e conhece ao celebrar o centenário de
sua criação, uma fase de decadência. Sua sobrevivência foi mais
prolongada do que a daquele Instituto porque, tendo-se
transformado quase que exclusivamente em instituição de ensino, era-lhe mais fácil resistir aos fatores de desgaste e ocultar os
sintomas da decadência. Uma escola medíocre pode sobreviver
indefinidamente, ou quase, mas não assim uma instituição de
pesquisa.
O trabalho divide-se em três partes. A primeira é dedicada ao
estudo das circunstâncias em que foi criada a Escola, das razões da
implantação, dos obstáculos que teve de vencer e dos fatores de
êxito. A segunda trata de seu espírito, ou etos, e de seu impacto na
ciência, na tecnologia, na economia e na política. A terceira discute
sua situação nos últimos anos, a natureza e as causas do declínio, e
algumas possíveis opções de renovação. Esta divisão, que atende à
necessidade de discutir os problemas que me pareceram mais
importantes, fez com que o trabalho se concentrasse sobretudo nas
fases mais antiga e mais recente: os períodos que vão de 1876 a
1893 e de 1939 a 1976, aproximadamente. Os fatos relevantes do
período intermediário são, no entanto, mencionados e analisados.
As principais fontes primárias utilizadas foram, para as duas
primeiras partes, a correspondência de Gorceix com o Imperador,
com os ministros do Império e com os presidentes da Província de
Minas Gerais, além de seus relatórios anuais e dos relatórios dos
ministros. Para a terceira parte, servi-me, sobretudo, das atas da
Congregação e de entrevistas.
Antes de iniciar a exposição, dirijo uma palavra especial aos
professores, sobretudo aos da geração mais antiga, que ainda
carregam todo o peso da tradição, vários dos quais se dispuseram
com grande generosidade a discutir comigo os problemas da
Escola. Este trabalho, em sua última parte, contém diagnósticos que
lhes parecerão injustos, se não equivocados. Só posso dizer-lhes
que os resultados a que cheguei foram fruto de lição que faz parte
do espírito que Gorceix pretendeu introduzir, ou seja, só concluí
após cuidadoso levantamento de dados em várias fontes, inclusive
depoimentos de professores. Se, apesar disso, as análises e
conclusões forem consideradas incorretas, o caminho está aberto
para revisões e correções. Só espero que, ao ser contestado, se o for, o seja dentro dos mesmos padrões de trabalho estabelecidos
por Gorceix. O debate só poderá ser benéfico para a instituição.
Seja como for, comigo ficam, ao término do trabalho, ao lado da
admiração por um cientista francês dedicado à ciência e ao Brasil, o
respeito pela dedicação com que serviram à sua obra os
professores da Escola de Minas e a esperança de que, de algum
modo, o esplendor antigo possa ser restaurado.
1 O nome da Escola variou ao longo das transformações por que
passou. Para maior simplicidade, usei neste trabalho os nomes de
Escola de Minas de Ouro Preto, Escola de Minas, ou, simplesmente,
Escola.
2 Ver STEPAN. Gênese e evolução da ciência brasileira: Oswaldo
Cruz e a política de investigação científica e médica. Sobre
Manguinhos, ver também FONSECA FILHO. A Escola de
Manguinhos. Contribuição para o estudo do desenvolvimento da
medicina experimental no Brasil. Tomo II.
3 Outra instituição importante em nossa história científica, e que está
a pedir um estudo, é o Museu Nacional que foi durante o século XIX,
por muito tempo, um dos refúgios da pesquisa no Brasil.
1 Ver BASALLA. Science, v. 156, p. 611-622.
2 Ver STRUIK. Yankee science in the making, sobretudo p. 421-444.