A Escola de Minas de Ouro Preto: o peso da glória

José Murilo de Carvalho · Capítulo 5 de 18

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A Escola de Minas de Ouro Preto: o peso da glória

Introdução

 

Este estudo pretende ser uma história institucional da Escola de

Minas de Ouro Preto, que, em 1976, completou cem anos de

existência 1. Pretende ainda fornecer elementos para a discussão

dos problemas que afetam a Escola, dentro da perspectiva mais

ampla da história das instituições de ensino e pesquisa no Brasil.

 

Já surgem estudos sobre tais instituições, alguns com importantes

contribuições, como o de Nancy Stepan sobre o Instituto Oswaldo

Cruz2. A Escola de Minas difere um pouco desse Instituto que é,

sobretudo, um órgão de pesquisa. Com o correr do tempo, ela se foi

transformando em instituição quase que exclusivamente de ensino.

No entanto, por sua orientação original, pela prática de seus anos

iniciais e mesmo pela natureza de seu ensino, deve ser considerada

instituição fundamental para a implantação no Brasil da ciência

geológica, da mineralogia, da metalurgia e do desenvolvimento

tecnológico nessas áreas. Além disso, foi fator importante na

implantação do espírito científico, graças à valorização da pesquisa

empírica, feita na contramão da tradição livresca predominante no

país. A ênfase que sempre deu às ciências básicas, a matemática, a

física, a química, impediu que a preocupação com a aplicação

prática dos ensinamentos transformasse os ex-alunos em simples

técnicos ou tecnólogos. Vários deles, os mais inclinados ao estudo,

se dedicaram à pesquisa científica e constituíram a primeira geração

de geólogos brasileiros.

 

Como no caso do Instituto Oswaldo Cruz, a Escola foi também

exemplo da transplantação, com êxito, do que havia de melhor na

ciência européia da época em seu campo de conhecimento 3. As

duas instituições contribuíram poderosamente para colocar a

geologia e a pesquisa biológica no ponto de passagem do que

Basalla chama de ciência colonial para a ciência nacional, isto é, da

ciência feita totalmente na dependência de pesquisadores e centros externos para a ciência realizada em instituições nacionais por

pesquisadores nacionais1. Como esse processo se prolongou no

Brasil por muito tempo, podendo-se dizer que em vários campos

ainda não se completou, o estudo das causas do êxito, ou fracasso,

da experiência adquire interesse que ultrapassa as fronteiras das

duas instituições.

 

O exame da implantação da Escola de Minas, mais ainda do que o

do surgimento do Instituto Oswaldo Cruz chama a atenção para um

ponto que distingue países como o Brasil de outros, como os

Estados Unidos, no que se refere à criação de instituições

científicas. Neste último país, por exemplo, a introdução de escolas

técnicas, ou mesmo das ciências naturais, nas universidades se deu

após ter havido considerável desenvolvimento tecnológico

independente da ciência, incentivado e financiado por industriais

interessados em seus possíveis benefícios2. Embora houvesse nos

Estados Unidos a mesma resistência das universidades tradicionais

em aceitar as escolas de engenharia e o ensino de ciências, lá

essas escolas e esse ensino surgiram em função do que se poderia

chamar de demanda social por seus produtos. No Brasil, sobretudo

no caso da Escola de Minas, tal não se deu. Dificilmente se poderia

dizer que havia demanda por geólogos e engenheiros de minas na

economia exportadora e escravocrata de 1876. A criação da Escola

foi, antes de tudo, um ato de vontade política, orientado em boa

parte por motivos de natureza antes ideológica do que econômica.

Embora os efeitos deste voluntarismo tenham sido limitados por

restrições econômicas, não há dúvida de que eles se fizeram sentir

com nitidez e exerceram impacto sobre o próprio desenvolvimento

econômico e tecnológico do país.

 

Ao lado das razões do êxito das instituições, não menos importante

é estudar as causas de sua decadência. Como o Instituto Oswaldo

Cruz e quase todas as outras instituições brasileiras de pesquisa, a

Escola de Minas conheceu, e conhece ao celebrar o centenário de

sua criação, uma fase de decadência. Sua sobrevivência foi mais

prolongada do que a daquele Instituto porque, tendo-se

transformado quase que exclusivamente em instituição de ensino, era-lhe mais fácil resistir aos fatores de desgaste e ocultar os

sintomas da decadência. Uma escola medíocre pode sobreviver

indefinidamente, ou quase, mas não assim uma instituição de

pesquisa.

 

O trabalho divide-se em três partes. A primeira é dedicada ao

estudo das circunstâncias em que foi criada a Escola, das razões da

implantação, dos obstáculos que teve de vencer e dos fatores de

êxito. A segunda trata de seu espírito, ou etos, e de seu impacto na

ciência, na tecnologia, na economia e na política. A terceira discute

sua situação nos últimos anos, a natureza e as causas do declínio, e

algumas possíveis opções de renovação. Esta divisão, que atende à

necessidade de discutir os problemas que me pareceram mais

importantes, fez com que o trabalho se concentrasse sobretudo nas

fases mais antiga e mais recente: os períodos que vão de 1876 a

1893 e de 1939 a 1976, aproximadamente. Os fatos relevantes do

período intermediário são, no entanto, mencionados e analisados.

 

As principais fontes primárias utilizadas foram, para as duas

primeiras partes, a correspondência de Gorceix com o Imperador,

com os ministros do Império e com os presidentes da Província de

Minas Gerais, além de seus relatórios anuais e dos relatórios dos

ministros. Para a terceira parte, servi-me, sobretudo, das atas da

Congregação e de entrevistas.

 

Antes de iniciar a exposição, dirijo uma palavra especial aos

professores, sobretudo aos da geração mais antiga, que ainda

carregam todo o peso da tradição, vários dos quais se dispuseram

com grande generosidade a discutir comigo os problemas da

Escola. Este trabalho, em sua última parte, contém diagnósticos que

lhes parecerão injustos, se não equivocados. Só posso dizer-lhes

que os resultados a que cheguei foram fruto de lição que faz parte

do espírito que Gorceix pretendeu introduzir, ou seja, só concluí

após cuidadoso levantamento de dados em várias fontes, inclusive

depoimentos de professores. Se, apesar disso, as análises e

conclusões forem consideradas incorretas, o caminho está aberto

para revisões e correções. Só espero que, ao ser contestado, se o for, o seja dentro dos mesmos padrões de trabalho estabelecidos

por Gorceix. O debate só poderá ser benéfico para a instituição.

 

Seja como for, comigo ficam, ao término do trabalho, ao lado da

admiração por um cientista francês dedicado à ciência e ao Brasil, o

respeito pela dedicação com que serviram à sua obra os

professores da Escola de Minas e a esperança de que, de algum

modo, o esplendor antigo possa ser restaurado.

 

1 O nome da Escola variou ao longo das transformações por que

passou. Para maior simplicidade, usei neste trabalho os nomes de

Escola de Minas de Ouro Preto, Escola de Minas, ou, simplesmente,

Escola.

 

2 Ver STEPAN. Gênese e evolução da ciência brasileira: Oswaldo

Cruz e a política de investigação científica e médica. Sobre

Manguinhos, ver também FONSECA FILHO. A Escola de

Manguinhos. Contribuição para o estudo do desenvolvimento da

medicina experimental no Brasil. Tomo II.

 

3 Outra instituição importante em nossa história científica, e que está

a pedir um estudo, é o Museu Nacional que foi durante o século XIX,

por muito tempo, um dos refúgios da pesquisa no Brasil.

 

1 Ver BASALLA. Science, v. 156, p. 611-622.

 

2 Ver STRUIK. Yankee science in the making, sobretudo p. 421-444.