A Escola de Minas de Ouro Preto: o peso da glória

José Murilo de Carvalho · Capítulo 7 de 18

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A Escola de Minas de Ouro Preto: o peso da glória

Criação

A extinção da Comissão indica que os governantes não valorizavam os estudos geológicos ao ponto de comprometer recursos orçamentários para sua promoção. No entanto, algo estava, de fato, mudando no país, conforme registrou Derby em precioso documento escrito em 1883. Segundo o norte- americano, “os últimos 10 ou 15 anos testemunharam um notável despertar no Brasil para a

importância da pesquisa cientifica”27. Tratava-se, para ele, de nova era, da qual os brasileiros não pareciam estar ainda bem conscientes e da qual a criação da Escola de Minas era parte importante. Em sua opinião, as causas da renovação eram o aumento das comunicações com outros países, as novas energias geradas pela Guerra do Paraguai, a visita de Agassiz e, sobretudo, as visitas do Imperador aos Estados Unidos e à Europa. Nessas viagens, o Imperador entrara em contato com cientistas e instituições de pesquisa e regressara com “noção mais clara sobre o que devia ser

encorajado e promovido em seu próprio país”28.

 

A reforma do Museu Nacional e do Observatório Nacional, a criação da Escola de Minas e da Politécnica, as tentativas de reforma das Escolas de Medicina e mesmo pesquisas feitas por particulares em seus laboratórios eram os principais indicadores da renovação em andamento.

A mudança foi reforçada pelo movimento que Roque Spencer chamou de ilustração brasileira e que, segundo ele, teria tido início em torno de 1868 e duraria até a Primeira Guerra. Os líderes dessa ilustração estavam preocupados com problemas de natureza mais filosófica do que científica. Mas sua preocupação com a renovação do ensino, a nova confiança no valor da ciência e a quebra do domínio do ecletismo católico no pensamento foram elementos importantes para o renascimento científico. A ação prática dos ilustrados foi, no entanto, limitada por sua visão equivocada sobre a maneira de promover as reformas. Insistiram na faculdade livre, na frequência livre e na livre-docência. As medidas foram úteis para quebrar a rigidez anterior, elas não produziram os efeitos desejados. A retirada do poder público do ensino, uma reivindicação dos positivistas, se efetivada, seria desastrosa nas circunstâncias em que se achava o país. Na pesquisa científica, foi exatamente

o apoio governamental que garantiu o que de bom se fez29. Quanto à frequência livre, ela foi um dos inimigos que Gorceix teve de enfrentar para preservar o tipo de ensino que desejava implantar em Ouro Preto.

A atmosfera de renovação pode ter afetado a decisão de criar a Escola, mas essa última foi, ela própria, um capítulo importante do renascimento. A situação do ensino e da pesquisa no país, como se verá adiante, foi um dos principais obstáculos à implantação de uma instituição renovadora como queria Gorceix que fosse a sua.

Foi nessa conjuntura de pequena demanda social pela engenharia de minas e metalúrgica, de interesse apenas incipiente pelos estudos científicos, centrado, sobretudo, no Imperador, que Gorceix foi convidado para criar no Brasil o que ele quis chamar no início de uma “Escola de Mineiros”.

 

Criação

 

A iniciativa foi toda de D. Pedro II. Em viagem à Europa, entre maio de 1871 e março de 1872, o Imperador entrou em contato com Auguste Daubrée, seu colega na Academia de Ciências de Paris e diretor da Escola de Minas, também de Paris. Pediu-lhe um documento sobre a melhor maneira de conhecer e explorar as riquezas minerais no Brasil. Daubrée sugeriu a elaboração da carta geológica e o ensino da geologia por professores estrangeiros ou por brasileiros treinados no exterior. De volta ao país, em carta pessoal de 6 de julho de 1872, enviada por intermédio do ministro do Império, João Alfredo Correa de Oliveira, um pernambucano formado em direito, o Imperador convidou Daubrée a visitar o Brasil. Com a visita, disse na carta, “não somente o país ganhará com o maior aproveitamento de suas minas; as ciências naturais, em geral, dela receberão forte impulso”. E traindo talvez sua maior preocupação com a ciência do que com a economia, acrescentou: “Embora

simples amador, sabeis que lhes dedico [às ciências naturais] afeição 30.

Daubrée, recém-nomeado diretor da Escola de Minas de Paris, não quis abandonar o posto. Ofereceu, em compensação, seus serviços no sentido de procurar alguém que pudesse encarregar-se da tarefa. Mas só em 29 de dezembro de 1873 conseguiu anunciar que “uma das pessoas que poderiam convir encontra-se momentaneamente na Grécia, onde faz muito boas observações”. Em 28 de março de 1874, de volta da Grécia, Gorceix assinou em Paris o contrato para organizar no Rio de Janeiro o ensino da mineralogia e da geologia, com o salário de 8:000$000 anuais. Em fins de julho de 1874 chegou ao Rio, com 32 anos incompletos.

 

CLAUDE HENRI GORCEIX

O melhor da seção de física: muito fogo e zelo.

Pasteur

É consensual entre os estudiosos da Escola da Minas, e entre os que de alguma forma a conheceram, a opinião de que ela em grande parte foi Gorceix, tanto pela organização que ele lhe deu, como, sobretudo, pelo espírito que lhe imprimiu. É importante então dar uma ideia, mesmo que ligeira, de quem era esse cientista e da formação que trouxe para o Brasil.

Filho de pequenos proprietários rurais, Gorceix ficou órfão de pai aos 9 anos de idade. Com auxílio de uma bolsa do governo (este fato teve influência na organização da Escola), frequentou o Liceu de Limoges e, ainda com a bolsa, entrou para a Escola Normal Superior de Paris em 1863, na seção de ciências. Licenciou-se em ciências físicas e matemáticas em 1866. No ano seguinte, por sugestão de seu professor Achille Delesse, que era também professor da Escola de Minas de Paris e, como Daubrée, membro da Academia de Ciências, foi nomeado agregé-préparateur de geologia e mineralogia na Escola Normal. Nessa Escola ele fora aluno de Pasteur, sobre quem fizera muito boa

impressão, como indica a citação acima31. Dois anos depois, seu espírito de aventura foi satisfeito com a ida para a Escola Francesa de Atenas, para onde eram anualmente enviados os melhores entre os diplomados pela Escola Normal,

Na Grécia, dedicou-se principalmente ao estudo do vulcanismo. Em 1870, voltou à França para lutar na guerra contra a Prússia, mas regressou logo à Grécia, onde retomou o estudo do vulcão Nisiros, que dera sinais de erupção. Em 1874, voltou à França e publicou várias memórias nos Anais da Escola Normal e nos Anais de Química e Física de Paris. Foi então que recebeu o convite para vir ao Brasil e o aceitou.

A estada na Grécia serviu para revelar seu temperamento arrebatado, sua resistência física e seu entusiasmo pelo trabalho. Um historiador da Escola Francesa de Atenas deixou dele essas impressões: “Uma figura curiosa... Henri Gorceix deveria ter vivido à época do Diretório e deveria ter participado da expedição ao Egito. Ele nasceu para observar a natureza sob o troar dos canhões.” Tal espírito se reflete na carta que escreveu ao irmão antes de viajar para o Brasil, pedindo-lhe que lhe remetesse o fuzil de viagem: “Ele voltou do fundo da cratera do Nisiros; ele retornará a salvo do Brasil!” E acrescentou uma das poucas confissões mais íntimas que deixou escapar em sua correspondência: “Sonhei com um pouco de glória, com um pouco de barulho ao meu redor: carrego

o peso do meu orgulho!”32. Esse jovem entusiasmado pelo trabalho e pela ciência, cujo temperamento os brasileiros considerariam rude, chegou ao Brasil em 1874 para dar início a uma tarefa que lhe consumiria 17 dos anos mais produtivos da vida.

Sua formação científica era sólida e possuía já boa experiência de trabalho de campo. Daubrée o chama de “jovem sábio”. A Escola Normal em que se formou fora criada pela Convenção em 1794 e, junto com a Politécnica, renovara o ensino na França, além de ter sido

o estabelecimento de ensino superior que exerceu maior influência na formação sistemática das

elites intelectuais francesas até 1903, quando se transformou na Escola Pedagógica de Paris.

Quando Gorceix a cursou, de 1863 a 1866, ela se encontrava no apogeu da eficiência e

reputação 33.

O ensino era gratuito e os alunos do primeiro ano (100 vagas) eram selecionados entre os melhores egressos dos liceus. Os bacharéis dos liceus, candidatos a ingressar na Escola Normal, tinham que se submeter a aulas de reforço em matemática e outras ciências, antes de tentar o concurso. Os cursos duravam três anos. Uma série era dedicada às letras, outra às ciências físicas e matemáticas. De seus bancos saíram nomes como Victor Cousin, Pasteur, Lemoine, Levasseur, Georges Dumas, Henri Bergson, Pierre Dénis, Langevin, Picarei, Halévy e outros. Na época de Gorceix, a instituição possuía excelentes laboratórios, onde trabalhavam Pasteur, Delesse, Saint-Claire Deville entre outros. Igualmente seletiva era a Escola Francesa de Atenas, que só recrutava os melhores professores entre os de menos de 30 anos, para um estágio de dois a três anos de aperfeiçoamento e pesquisa.

Acrescente-se que a França da época de Gorceix estava na fronteira da ciência em algumas áreas básicas. O próprio Gorceix era ligado por parentesco ao químico Gay-Lussac. O laboratório de química orgânica da Escola Normal, quando Gorceix a cursou, era dirigido por Pasteur, o de química inorgânica seria logo depois dirigido por Saint-Claire Deville, os dois maiores químicos da França de então. Gorceix trouxe para o Brasil o que de melhor havia na química européia do momento. Também em física sua formação era excelente. Foi aluno de Des Cloiseaux, um dos pioneiros do que seria a petrologia, desenvolvida depois pelo alemão Rosenbuch. Segundo Arrojado Lisboa, que me serve de fonte nessa parte, Gonzaga de Campos reconheceu no ensino de Gorceix, em Ouro Preto, a clarividência em preparar os alunos para o futuro uso das técnicas microscópicas. Gorceix também trabalhou na Itália com Fouquet, continuador de Des Cloiseaux no campo da física mineral e um dos iniciadores da petrologia.

 

A geologia vivia na França um período de grande dinamismo. Alguns cientistas franceses começavam a desafiar o neptunismo de Werner e a teoria das crateras de levantamento de von Bush, os dois alemães que tinham dominado o pensamento geológico francês até a segunda metade do século XIX. Entre os contestadores dessas teorias, estavam Fouquet, com quem Gorceix trabalhou na Itália, numa rápida fugida da Grécia, Delesse, professor de Gorceix na Escola Normal, e Daubrée, muito chegado a Delesse e amigo também de Gorceix.

Arrojado Lisboa conclui sua análise da formação de Gorceix dizendo que, ao chegar ao Brasil, era ele “um completo químico e mineralogista, e um consumado geólogo, colaborador da mais adiantada

ciência de seu tempo” 34.

A CRIAÇÃO DA ESCOLA

Logo após sua chegada, em julho de 1874, Gorceix partiu, acompanhado por Ladislau Neto, diretor do Museu Nacional, para uma excursão ao Rio Grande do Sul, não se sabe bem por quê. De volta ao Rio de Janeiro, começou a organizar um laboratório de mineralogia e geologia, tarefa para a qual contou com o auxílio de um dos futuros professores da Escola de Minas e seu sucessor na direção, Archias Eurípedes da Rocha Medrado.

Só em fins de 1874 foi enviado a Minas Gerais pelo ministro do Império, para escolher um local para a instalação de uma escola de minas. Em julho de 1875, submeteu ao governo o relatório indicando o local e sugerindo o regulamento do estabelecimento. Esse relatório contém suas ideias básicas sobre o que se deveria fazer. Pode-se dizer que até 1891, quando, por razões políticas, teve que abandonar o país, ele nada mais fez do que defender as ideias nele expostas, cedendo quando necessário, mas insistindo sempre nos princípios fundamentais.

Partindo da necessidade do controle do Estado sobre as riquezas minerais e da importância do desenvolvimento da mineração e da metalurgia, o futuro diretor colocou como objetivo básico da instituição a ser criada

fornecer administradores para a exploração das minas e para as empresas metalúrgicas e

engenheiros empregados pelo Estado nas diversas províncias do Império para se encarregarem

das explorações geológicas e da fiscalização dos trabalhos de mineração35.

Para atingir o objetivo, ele dispunha de dois modelos de organização, a Escola de Minas de Paris e a Escola de Minas de Saint-Étienne. A primeira tinha um curso de três anos de duração e dava formação básica mais sólida. Recrutava os alunos de um curso anexo que mantinha e dentre os melhores ex-alunos da Escola Politécnica. Formava “não apenas engenheiros, mas homens capazes de resolver problemas pertencentes ao domínio das ciências físicas e matemáticas”. A Escola de Minas de Saint-Êtienne, criada em 1817, formava os alunos em dois anos e fornecia, no que se refere à matemática e à física, as partes “indispensáveis para tratar das questões de mecânica de máquinas, de metalurgia e de exploração”. Essa formação básica era suficientemente sólida para permitir, aos que assim o desejassem, dedicar-se à pesquisa puramente científica. Na verdade, segundo Gorceix, muitos dos ex-alunos de Saint-Étienne se tornaram cientistas ilustres.

Tendo em vista as circunstâncias brasileiras, a opção foi feita pelo modelo de Saint-Étienne. Era mais fácil de implantar e daria resultados mais rapidamente, isto é, forneceria logo engenheiros para desenvolver a indústria mineradora. A preocupação prática refletia-se no nome que sugeria para a escola, École des Mineurs, Escola de Mineiros, e era certamente uma reação ao caráter livresco que detectara no ensino brasileiro. A mesma preocupação levou a algumas interpretações equivocadas de suas ideias. Quando alguns adversários da Escola insistiram em que ela devia formar apenas fiscais de minas e mestres ferreiros, como a Escola de Saint-Etienne, Gorceix respondeu que, em primeiro lugar, havia ignorância do que fosse o ensino de Saint-Étienne. Em segundo lugar, não era absolutamente essa sua intenção. Queria formar engenheiros de minas e não apenas técnicos ou

“mestres mineiros”36.

Além desses dois modelos, Gorceix tinha diante de si, inevitavelmente, o exemplo da Escola Normal, pelo menos para a parte referente aos métodos de ensino. Segundo Arrojado Lisboa, “a prática e os métodos de ensino introduzido em Ouro Preto vieram da Escola Normal Superior e não de Saint-

Étienne”37. Quanto ao conteúdo do ensino, com a evolução da Escola e a introdução de mais anos de estudo, certos traços da Escola de Minas de Paris se fizeram notar também, no sentido de que foi sempre dada ênfase especial às matérias básicas, a matemática, a física e a química. É um traço que ainda hoje marca a instituição.

Essa filosofia concretizou-se em dispositivos que se chocavam com a prática vigente no país e foram motivos de resistências e críticas. Os mais importantes eram os seguintes:

1 – curso de dois anos, com dez meses de aulas, iniciando em agosto e terminando em junho;

os dois meses restantes seriam empregados em excursões e trabalhos práticos;

2 – tempo integral para professores e alunos, com aproveitamento inclusive de sábados e

domingos;

 

3 – seleção dos alunos por concurso e um sistema de exames frequentes durante o ano;

4 – limitação do número de alunos a dez por turma;

5 – boa remuneração para professores;

6 – intensa prática de laboratório e viagens de estudos;

7 – bolsas de estudos para os estudantes pobres e prêmios de viagem à Europa ou aos Estados

Unidos para os melhores alunos, a fim de se aperfeiçoarem em escolas e estabelecimentos

mineiros e metalúrgicos;

8 – contratação pelo Estado dos que melhor aproveitassem a viagem de aperfeiçoamento;

9 – ensino gratuito.

Completando o relatório, Gorceix sugeriu a cidade de Ouro Preto para a sede da Escola, com base na ideia de que urna escola técnica e prática não precisava localizar-se em centros de civilização. Ela devia, antes, estabelecer-se em centros industriais e mineiros, para os quais forneceria engenheiros. Tal proximidade permitiria que aos estudos teóricos se aliassem demonstrações práticas. Exemplos desse tipo de escola podiam ser encontrados, ainda segundo Gorceix, em Freyberg, na Alemanha, e em Saint-Etienne. Ouro Preto, além das riquezas minerais, encontrava-se no centro de grande número de pequenas fábricas de ferro, que poderiam constituir a futura riqueza da Província. Esperava que fosse uma glória da escola dar nova vida a essa indústria. Em outra oportunidade, justificando a escolha de Ouro Preto, afirmou que na cidade, se o professor quisesse

falar de veieiros, em vez de os desenhar no quadro, abriria a janela e os apontaria com o dedo38.

O projeto inicial foi enviado a Daubrée, que o aprovou plenamente, fazendo o mesmo com o relatório. Foi também enviado à Congregação da Escola Politécnica, ao engenheiro Francisco Pereira Passos e ao Visconde do Rio Branco, diretor interino, para comentários. A decisão de criar a escola, no entanto, a essa altura, já estava tornada. O ofício do ministro do Império, José Bento da Cunha Figueiredo, que encaminhou o projeto de Gorceix ao diretor interino da Politécnica, dizia: “Tendo o Governo Imperial resolvido criar uma Escola de Mineiros na Província de Minas Gerais (...)

foi incumbido o professor Henrique Gorceix de organizar os respectivos planos e orçamentos.” 39. A lei orçamentária para 1875/1876 já incluíra urna verba de 60 contos de réis para a instalação. A autorização legislativa já teria sido dada pela lei de 1832. Faltava apenas o decreto de criação que viria em novembro de 1875.

 

A Congregação da Politécnica nomeou uma comissão composta dos professores José de Saldanha, Miguel Antônio da Silva e Joaquim Duarte Murtinho, para dar parecer. Aprovado integralmente pela Congregação, o parecer já antecipava a rivalidade que iria acompanhar a história das duas escolas por um longo tempo, exigindo por vezes a intervenção pessoal do Imperador em favor da Escola de Minas. As objeções principais do parecer se referiam aos seguintes pontos:

1 – não havia necessidade de assinatura do ministro nos diplomas dos engenheiros da Escola

de Minas, pois os diplomas das outras escolas eram assinados apenas pelos diretores (Gorceix

fizera a reivindicação por se tratar de instituição nova e de um diretor desconhecido);

2 – a Escola de Ouro Preto devia limitar-se a formar homens “puramente práticos” e não

“engenheiros de vasta ciência como soem ser os que saem das Faculdades do Império”;

 

3 – o concurso para admissão podia ser substituído por exames perante as Comissões de

Instrução Pública das Províncias;

4 – o ano letivo devia durar sete meses, de abril a outubro;

5 – os salários das outras escolas do Império deviam ser equiparados aos pedidos para a

Escola de Ouro Preto 40.

Pereira Passos observou que:

1 – como consequência da criação da Escola, deveria ser fechado o curso de engenharia de

minas criado na Escola Politécnica em 1874;

2 – não deveria haver limitação do número de alunos a 10 por turma;

3 – não havia necessidade de duplo exame de admissão (Gorceix, além do exame perante

professores da Escola, pedira outro preliminar nas províncias para uma primeira seleção);

4 – não se devia dar bolsa de estudo a alunos pobres;

5 – não se deviam enviar recém-formados ao exterior, mas exigir, primeiro, experiência no

Brasil;

 

6 – os salários dos professores eram muito altos;

 

7 – o Estado não devia ser obrigado a contratar engenheiros da Escola41.

Rio Branco manifestou-se fortemente contrário à limitação do número de alunos. Só o número dos alunos pobres deveria ser limitado, por causa das pensões. Disse que devia ser eliminado o concurso de admissão e adotado o sistema das outras escolas superiores, que aceitavam todos os que fossem aprovados nos exames preparatórios do ensino secundário. O Estado não deveria ser

obrigado a contratar. Para ele, também os dez meses de aulas eram excessivos42.

Consegui localizar as respostas de Gorceix às observações de Pereira Passos e da Congregação. Nelas, ele repete o que estava no relatório inicial, aduzindo novos argumentos para defender seus pontos de vista. No que se refere aos comentários da Congregação, responde que a ideia básica desse colegiado parecia ser

não rejeitar a criação de uma escola de minas em Ouro Preto, mas reduzir seu papel à formação

de mestres operários, ou criar para o diretor dificuldades tão grandes no recrutamento de alunos

e de funcionários que fosse impossível para um homem superá-las por mais dotado que fosse

de boa vontade e energia 43.

Defende especialmente a necessidade do concurso, cuja eliminação seria fatal. Sem ele não haveria maneira de garantir a entrada de bons alunos e predominaria a mediocridade. Se o concurso é contra os hábitos do país, pergunta, será isto razão para eliminá-lo?

Com relação à proposta de Pereira Passos de acabar com o curso de minas da Politécnica, opina que essa Escola deveria copiar exatamente seu modelo francês e tornar-se uma instituição de ensino teórico geral. As escolas técnicas, como a de Ouro Preto, deveriam ser espalhadas pelo país de acordo com as exigências locais. A pensão para alunos pobres era, segundo ele, uma medida de justiça “que não gostaria nem mesmo de defender”, e ai pensava certamente no fato de que também fora bolsista do governo. Quanto aos salários (ele pedira 8 contos anuais, Pereira reduzira para 6), diz que mesmo por 8 contos não seria fácil achar bons professores. Em documentos posteriores, defenderia os salários altos, dizendo que, para uma escola nova como a de Ouro Preto, a qualidade dos professores era fundamental. Os de geologia, mineralogia e exploração de minas teriam provavelmente que vir do exterior, o que tornaria mais difícil o recrutamento. Além disso, seria exigido tempo integral dos professores. Em Ouro Preto não seria possível complementar salários com outros empregos. Em certa ocasião, recusou um professor porque ele seria, ao mesmo tempo, diretor geral de obras públicas da Província. Finalmente, diz ele, o programa de Ouro Preto prevê uma carga didática para cada professor equivalente a umas três cadeiras nas outras escolas, sendo, portanto, o salário muito razoável e talvez até relativamente mais baixo em relação ao trabalho

exigido44.

No regulamento definitivo, promulgado pelo decreto de 6 de novembro de 1875, o diretor teve confirmados os principais pontos de seu projeto. As únicas mudanças referiam-se a itens que implicavam gastos e apenas atenuavam os dispositivos originais. As bolsas de estudos, chamadas de pensões, o envio de alunos ao exterior e a contratação de engenheiros pelo Estado deixaram de ser obrigação para se tornarem opção. O governo poderia dar as bolsas etc. O resto permaneceu conforme queria Gorceix, mudando-se o nome, que em vez de Escola de Mineiros ficou sendo