A Escola de Minas de Ouro Preto: o peso da glória

José Murilo de Carvalho · Capítulo 11 de 18

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A Escola de Minas de Ouro Preto: o peso da glória

Impacto

Saturnino de Brito, multiplicando desse modo o impacto da Escola. Mas, de

modo geral, o recrutamento fora de Minas, por sua paulatina redução, não

parece ter sido dos principais fatores do impacto. A razão mais importante

da ampliação geográfica da influência dos ex-alunos talvez tenha sido sua

conhecida disposição de trabalhar em lugares remotos e de empreender

longas e exaustivas excursões, no início em lombo de burro, na prática da

profissão. Trata-se de mais uma herança do espírito de trabalho e pesquisa

implantado por Gorceix e da localização interiorana de Ouro Preto.

 

Impacto

 

Avaliar impactos é difícil, porque muitas vezes o importante não são

números, mas dimensões mais sutis, de difícil mensuração, como liderança

intelectual, influência política, formato institucional. Não é fácil chegar a

acordo sobre o peso real que possa ter tido determinada pessoa, ideia ou

instituição. Como era de se esperar, há divergência na avaliação do

impacto da Escola de Minas: ex-alunos e amigos tendem a exagerá-lo,

pessoas estranhas, ou, mais ainda, inimigas, tendem a diminuí-lo.

Avaliação equilibrada exige muita informação, boa capacidade analítica e

bom senso, qualidades que não estou seguro de possuir.

 

O que farei a seguir é aproveitar avaliações já realizadas por outros, dar-

lhes alguma sistematização e acrescentar observações críticas. Para maior

facilidade de exposição, o exame do impacto será dividido em três campos:

o da ciência, ensino e tecnologia; o da economia; e o da política.

 

A ESCOLA DE MINAS E O DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO

 

Aspecto mais importante aqui é certamente o que se refere ao progresso

dos estudos de geologia e mineralogia feitos no Brasil por brasileiros. A

partir de 1876, até mais ou menos 1930, a produção geológica e

mineralógica devida a brasileiros foi quase toda oriunda de ex-alunos de

Ouro Preto. Uma bibliografia da geologia, mineralogia e paleontologia do

Brasil, organizada por John Casper Branner e publicada em 1909 no

Bulletin of the Geological Society of America, demonstra esse ponto com

clareza.

 

Foram incluídos na Tabela 14 os autores com dez títulos ou mais, divididos

entre brasileiros e estrangeiros16. Apesar de a produção brasileira ser

ainda constrangedoramente escassa em relação à estrangeira, uma primeira geração de brasileiros começava a surgir, formada quase que

exclusivamente por ex-alunos de Ouro Preto (só Capanema não pertencia

a esse grupo). Antes da geração de Ouro Preto, a produção brasileira era

esparsa e escassa, limitando-se a um ou outro diretor da Seção de

Mineralogia e Geologia do Museu Nacional e à cadeira de Geologia e

Mineralogia da Escola Central, às vezes a mesma pessoa. Os Anais da

Escola de Minas começaram a publicar, partir de 1881, os primeiros

trabalhos do grupo, liderado por Gorceix. O Arquivos do Museu Nacional

da época dava vazão, sobretudo, à produção de pesquisadores

estrangeiros que lá trabalhavam sob a liderança de Frederick Hartt, e

depois de Orville A. Derby.

 

Outros levantamentos dos estudos de geologia, mineralogia e

paleontologia no Brasil também reconhecem o papel fundamental exercido

pela Escola e seus ex-alunos. Uma avaliação insuspeita, por ter sido

escrita por ex-aluno da Escola Politécnica, velha rival da Escola de Minas,

é a de Othon H. Leonardos. Entre os nomes que esse autor julga

importante mencionar na mineralogia e petrologia até mais ou menos 1940,

a grande maioria é constituída de ex-alunos de Ouro Preto. O que ele

estranhamente chama de “o grupo moderno do Rio de Janeiro”, que girou

principalmente em torno do SGMB e do DNPM, é composto de 19 ex-

alunos e de apenas 16 formados no exterior ou em outra escola brasileira.

O “grupo de Minas”, organizado em torno do Instituto de Tecnologia

Industrial e da Divisão de Fomento Mineral, sob a liderança de Djalma

Guimarães, compõe-se quase totalmente de ex-alunos. Na formação do

novo grupo de São Paulo há a contribuição de egressos de Ouro Preto,

como Luiz Flores Morais Rego, Otávio Barbosa, Alceu Barbosa. O grupo

que trabalha no Rio Grande do Sul é todo ele de ex-alunos 17.

Tabela 14

Publicações de Geologia, Mineralogia e Paleontologia – 1850/1909

 

Autores Estrangeiros Nº Autores Brasileiros Nº

 

Louis Agassiz 26 Capanema 13

 

Orville Derby 108 Francisco de Paula Oliveira 20

 

Henry Gorceix 53 Costa Sena 20

 

John C. Branner 49 Antônio Olinto 10

 

E. Hussak 40 Gonzaga de Campos 13

 

Charles F. Hartt 37 Arrojado Lisboa 11

H. von Ihering 16

F. Katzer 25

R. Rathbun 11

TOTAL 365 87

 

Fonte – BRANNER, John Casper. A Bibliography of the Geology,

Mineralogy and Paleontology of Brazil. Bulletin of the Geological Society of

America, 22, p. 1-132, 1909.

 

Viktor Leinz, aglutinador de novo grupo de geólogos em São Paulo,

expressa opinião semelhante na revisão que faz da literatura geológica,

podendo dizer-se o mesmo da avaliação de José Veríssimo da Costa

Pereira no que se refere à geografia18. A única apreciação que destoa é a

de Aziz Ab Sáber. Esse autor reconhece em um parágrafo que a Escola

formou a primeira geração de geólogos brasileiros, mas, logo a seguir,

busca claramente valorizar pesquisadores de outros centros, do Museu

Nacional, da antiga Escola Central, da Politécnica e, sobretudo, autores

norte-americanos19. Em parte, a discordância pode ser explicada pelo fato

de o autor se referir apenas ao século XIX, quando a melhor e maior

produção de Ouro Preto ainda era incipiente. Mesmo assim, ele não inclui

a criação da Escola de Minas entre o que chama de iniciativas básicas na

área da geologia no século passado, atitude que só pode ser atribuída a

má vontade.

 

A apreciação de Aziz Ab Sáber destoa da dos próprios americanos, a

quem tanto admira. Orville Derby, ao organizar a Comissão Geográfica de

São Paulo, em 1886, levou consigo três ex-alunos: Francisco de Paula Oliveira, Gonzaga de Campos e Teodoro Sampaio. Os dois primeiros, e

mais o filho de Francisco de Paula, Euzébio de Oliveira, estiveram com ele

também na organização do SGMB. Em sua revisão do estado da ciência

no Brasil, já citada, Derby afirma:

 

No momento, o Museu e o Observatório nacionais no Rio e a Escola

de Minas em Ouro Preto são os principais centros de atividade

científica. A última, sendo um estabelecimento comparativamente

novo, distante das tendências centralizadoras da capital, organizado

segundo modelos europeus, e controlado por um corpo de

competentes especialistas franceses, escapou de muitos dos vícios de

organização das instituições mais antigas 20.

 

E John Casper Branner menciona, em 1919, no Bulletin da Geological

Society, a fundação da Escola como um “passo da maior importância para

a engenharia e a geologia”, e acrescenta que “alguns dos mais capazes

engenheiros brasileiros e, com poucas exceções, todos os seus geólogos e

engenheiros de minas formaram-se nessa Escola”21.

 

A predominância, entre os geólogos, dos egressos da Escola de Minas era

de se esperar, tendo em vista que, após o fechamento do curso de

engenharia de minas da Politécnica, em 1899, somente em Ouro Preto se

formavam alunos com algum treinamento em geologia. O importante, no

entanto, é que, apesar das modificações que foi obrigado a introduzir,

Gorceix ainda conseguiu manter um sistema de ensino que permitia formar

engenheiros bem preparados na área de minas, metalurgia e geologia. No

caso da geologia, sobretudo, a formação em Ouro Preto foi fundamental no

sentido de incutir nos alunos o espírito e a disposição para a pesquisa de

campo.

 

Tal espírito e disposição se revelaram sobretudo no âmbito do SGMB,

dirigido inicialmente por Derby. Após a morte do norte-ameriano, verificada

em 1915, o Serviço foi dirigido por Gonzaga de Campos e, em 1925, por

Euzébio de Oliveira, passando às mãos de Domingos Fleury da Rocha,

outro ex-aluno de Ouro Preto, em 1933, quando se transformou em DNPM.

Os engenheiros desse órgão salientavam-se pela disposição de enfrentar

os incômodos de palmilhar o país, fosse na região mineratória do centro,

fosse nos campos carboníferos do Sul, fosse na área das secas no

Nordeste. Depois deles, Agassiz não teria mais razão de mencionar como

uma das causas do atraso da ciência experimental no Brasil a ojeriza pelo

trabalho manual.

Se foi importante o grande número de ex-alunos que ingressou no SGMB e

no DNPM, mais importante ainda talvez tenha sido a orientação imprimida

ao SGMB por Gonzaga de Campos, quando assumiu sua direção. Derby

era acima de tudo um cientista, um paleontólogo. Sua preocupação era a

“investigação estrutural, petrográfica e paleontológica, de preferência ao

estudo da geologia econômica e da mineralogia”22. Gonzaga de Campos,

nas trilhas de Gorceix, instaurou filosofia totalmente nova, voltada para o

estudo dos recursos minerais e de fontes de energia para o

desenvolvimento econômico. Criou no SGMB a Seção de Forças

Hidráulicas e a Estação Experimental de Combustíveis e Minérios. Mandou

Euzébio de Oliveira pesquisar petróleo em Alagoas e Fleury da Rocha

estudar a possibilidade de obtenção de coque metalúrgico como carvão

nacional23. Impulsionou, ao mesmo tempo, estudos sobre siderurgia e

eletrometalurgia, sobre indústrias de cimento e químicas. Essa visão

desenvolvimentista passou a orientar a ação do órgão e se transmitiu ao

DNPM e a suas várias seções. A obra de Gonzaga de Campos é das que,

como diz Glycon de Paiva, sentem-se mais pelas consequências que pelos

escritos.

 

Ponto importante a notar é que a maior produção científica dos ex-alunos

foi feita fora da Escola, após a criação do SGMB. Parece que foi nessa

instituição, no DNPM, no Instituto de Tecnologia Industrial de Minas Gerais

e em outros órgãos do governo que se refugiaram os melhores

pesquisadores para executar seu trabalho. Tal foi o caso, entre outros, de

Gonzaga de Campos, de Francisco de Paula Oliveira, de Euzébio de

Oliveira, de Fleury da Rocha, de Arrojado Lisboa, de Luciano Jacques de

Morais, de Pedro de Moura, de Avelino de Oliveira, de Morais Rego, de

Glycon de Paiva e, mais recentemente, de Djaima Guimarães, talvez a

maior vocação de cientista produzida na Escola. Isso sem esquecer o

talento de pesquisador que foi José Carneiro Felipe, levado para a seção

de química do Instituto Oswaldo Cruz. O próprio Fleury da Rocha, que foi o

primeiro diretor do DNPM, além de ter sido duas vezes diretor da Escola,

reconhece nesse órgão e no antigo SGMB uma complementação, um

centro de especialização e treinamento avançado para os ex-alunos de

Ouro Preto24.

 

A produção científica em órgãos como o SGMB e o DNPM ainda poderia

ter sido maior se o trabalho de importantes pesquisadores não ficasse

muitas vezes prejudicado por tarefas burocráticas e políticas. No caso de

Gonzaga de Campos, boa parte do seu tempo era gasto no Congresso,

tentando convencer parlamentares da necessidade das iniciativas que propunha. No DNPM, Fleury da Rocha prestou sua melhor contribuição na

elaboração da política mineral, incorporada no Código de Minas, no Código

de Águas, na legislação do petróleo. Um contraste com a atuação de

Derby, que produziu muito como cientista mas que não teve quase

influência alguma na política econômica e mineral, tanto na Comissão

Geológica e Geográfica de São Paulo, onde se desentendeu com o

governo, como no SGMB. Djalma Guimarães parece ter conseguido

combinar melhor do que Derby a atuação política e a pesquisa. Mesmo

assim, conforme afirmou um seu colega e amigo, ele se preocupava em

primeiro lugar com a possibilidade de fazer pesquisa. Ia para onde pudesse

levar seu microscópio25.

 

Em Ouro Preto, com a saída de Gorceix e com a crescente dificuldade de

atrair e manter os melhores alunos, a atividade de pesquisa foi aos poucos

mirrando, e o ensino foi absorvendo quase todo o tempo e a energia dos

professores. Depois de Costa Sena e dos trabalhos iniciais de Antônio

Olinto, poucos nomes se salientaram, até 1931, na área da pesquisa

científica. Os Anais da Escola tiveram sua publicação interrompida durante

toda a primeira década republicana. Só foi retomada em 1902, sob a

administração de Costa Sena, tendo sido paralisada novamente de 1925 a

1931. Entre 1902 e 1925, quando foram publicados 17 números, o

professor que mais apareceu com trabalhos na área de mineralogia foi

Costa Sena. Vários dos principais colaboradores não eram professores:

Arrojado Lisboa, Euzébio de Oliveira, Francisco de Paula Oliveira, Morais

Rego e E. Hussak.

 

A maior contribuição da Escola no período foi na área da tecnologia. Com o

auxílio do Ministério da Viação, Augusto Barbosa da Silva conseguiu

projetar e construir um forno elétrico para a produção de ferro manganês26.

Durante a Primeira Guerra Mundial, o forno foi dos principais fornecedores

da Central do Brasil. O próprio Augusto Barbosa foi convidado a ir para os

Estados Unidos desenvolver seus estudos, não o tendo feito por falta de

permissão do governo brasileiro. Outro ex-aluno, que como Augusto

Barbosa ganhara prêmio de viagem ao exterior, também explorou as

possibilidades da eletrossiderurgia, sem aparentemente ter passado à fase

de construção do forno. Trata-se de Alceu Soares de Lelis Ferreira. As

experiências de Augusto Barbosa não foram além do forno experimental.

 

Outro destaque na área tecnológica foi Alberto Augusto Magalhães Gomes.

Emygdio Ferreira da Silva Jr. resume assim sua contribuição:

Sob sua inspiração e segundo projeto seu, construiu-se o primeiro par

de aparelhos Cowper no Brasil, os da usina Burnier; o forno nº 2 da

usina Esperança, moderno, de funcionamento perfeito, é também de

sua autoria; a primitiva instalação de Sabará foi feita sob sua

orientação, a usina Gorceix, com projeto para a instalação de dois

fornos, é ainda outro exemplo da sua competência nos domínios da

prática27.

 

Embora não se pudesse esperar da Escola de Minas uma produção

científica da qualidade e quantidade da do Instituto Oswaldo Cruz, que era

formado só de pesquisadores selecionados, dedicados em tempo integral a

seu trabalho, parece que algo se perdeu da orientação inicial de Gorceix no

que se refere ao papel da pesquisa. A carga didática já era pesada ao

tempo do fundador, mas mesmo assim ele e seus colegas, inclusive

brasileiros, encontravam tempo para desenvolver pesquisas, e essas eram

parte importante do ensino. Aos poucos, o ensino foi se tornando quase

absoluto com prejuízo da pesquisa e, naturalmente, embora isso talvez não

tenha sido percebido, em prejuízo do próprio ensino.

 

Mesmo assim, a qualidade do ensino, pelo menos até 1931, era suficiente

para produzir os pesquisadores e técnicos que forneceram o material

humano que iria possibilitar os estudos feitos no SGMB, no DNPM e na

Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas. Na ausência dessa reserva

de pessoal capacitado, o atraso brasileiro nas áreas da pesquisa geológica

e de recursos naturais teria sido muito mais difícil de superar no momento

em que, finalmente, se decidiu atacar de frente o problema. Mais ainda, a

própria decisão de enfrentar o problema se deveu em boa parte à

influência do grupo de Ouro Preto.

 

Note-se, por fim, a colaboração de ex-alunos na criação de várias escolas

técnicas, sobretudo de engenharia. Quase todas as escolas técnicas de

Minas contaram com os engenheiros de Ouro Preto entre seus fundadores.

Tal é o caso das escolas de Engenharia de Belo Horizonte, Juiz de Fora e

Itajubá e da atual Universidade Federal de Viçosa. Fora de Minas, a

contribuição se fez sentir na criação de escolas de Engenharia do Pará, de

Goiás, do Ceará, e na Escola de Agricultura de Piracicaba.

 

A ESCOLA DE MINAS E O DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO

 

Será, espero, um dos títulos de glória dos engenheiros da escola dar

nova vida a essa indústria [do ferro].

Gorceix

 

A citação acima, tirada do discurso pronunciado por Gorceix na sessão de

inauguração em 1876, deixa claro que sua preocupação não era apenas

formar engenheiros, mas influir profundamente no conhecimento e no

desenvolvimento das riquezas naturais de Minas e do país. Entre essas

riquezas, a que lhe parecia de maior futuro econômico, para Minas pelo

menos, era a do ferro, sem excluir, no entanto, a possibilidade de recuperar

com melhor técnica as tradicionais minerações de ouro e diamantes.

 

O impacto na área industrial se fez sentir de maneira menos perceptível e

mais lenta do que no ensino e na pesquisa. Aqui não bastava que o Estado

criasse comissões e empregasse os engenheiros para que os resultados

aparecessem. Pesavam muito mais as limitações de ordem econômica. A

grande siderurgia no Brasil só surgiu no começo da década de 40 do

século XX, o mesmo acontecendo com os grandes projetos de mineração.

E isso graças às circunstâncias extraordinárias de antes e durante a

Guerra, que facilitaram ao governo a obtenção de financiamento. No

entanto, houve tentativas, de parte da Escola e de seus engenheiros, de

dinamizar a siderurgia através da ação direta ou de políticas de incentivo.

 

Dentro da Escola, os três professores de metalurgia e exploração de

minas, Bovet, Ferrand e Thiré, fizeram estudos sobre a indústria

siderúrgica e propuseram medidas para melhorá-la. Os mesmos

professores, com o incentivo de Gorceix, estiveram envolvidos em

tentativas de projetar e construir um alto-forno a carvão vegetal, sob o

patrocínio da Escola. Gorceix, em uma de suas cartas ao Imperador, fala

em entregar a Paul Ferrand a direção do “grande estabelecimento

metalúrgico de cuja organização o Sr. Conselheiro João Alfredo quer a toda

força que eu me encarregue”28. As tentativas não tiveram êxito. Gorceix

insistiu também com Augusto Barbosa no sentido de que fizesse estágio

em Audincourt para se familiarizar com os altos-fornos a carvão vegetal

que considerava os mais adequados para Minas Gerais. Foi, no entanto, o

sogro de Augusto Barbosa quem construiu esses fornos, como se verá,

enquanto o genro se dedicava à montagem de um forno elétrico.

 

A Escola oferecia assistência a pequenos produtores de ferro e a

pequenos mineradores, no intuito de auxiliá-los a introduzir modificações

tecnológicas que melhorassem a produtividade. No relatório de 1881,

Bovet diz que “todos que se dedicam ao fabrico do ferro se acham hoje

dispostos a adotar nossos processos”. E espera que o exemplo dos ex-alunos faça “completa revolução” nas técnicas rudimentares utilizadas em

Minas 29. Os laboratórios da Escola forneciam análises de minérios de toda

espécie a quem solicitasse. A correspondência de Gorceix indica ainda que

pessoas interessadas em investir em projetos de mineração recorriam a

seus conselhos profissionais. Não há informação sobre os resultados

dessa atividade de assistência. O mais provável é que tenham sido

modestos, devido às dificuldades de natureza econômica enfrentadas

pelas pequenas fábricas. Do forno elétrico já se disse que não foi

industrializado.

 

Passando para a atuação de ex-alunos, a primeira iniciativa de que se tem

notícia foi a de Francisco de Paula Oliveira, que montou, entre 1880 e

1883, uma forja catalã em Abaeté, na qual chegou a produzir ferro de boa

qualidade. O primeiro alto-forno construído em Minas após a

Independência, no entanto, só teve vinculação indireta com a Escola de

Minas. Trata-se da usina Esperança, construída em Itabirito pelo “mestre

de forjas” Jean-Albert Gerspacher, ex-diretor da usina de Audincourt na

França, onde estagiara Augusto Barbosa da Silva. Gerspacher chegou ao

Brasil em 1887, a convite de Gorceix e por sugestão de Augusto

Barbosa30. Em 1891, o alto-forno iniciou a produção. A fábrica passou ao

filho Joseph-Albert Gerspacher, que a vendeu ao banqueiro Queiroz Júnior.

Sob o nome do último, existe até hoje.

 

Joseph-Albert construiu, depois, vários altos-fornos em Minas Gerais, como

os da usina Wigg, em Miguel Burnier, e no Estado do Rio, como os da

usina da Saudade, em Barra Mansa. Vários engenheiros da Escola

empregaram-se nessas usinas, embora os projetos fossem provavelmente

do desenho de Joseph-Albert.

 

A contribuição mais substancial dos ex-alunos verificou-se na criação da

Companhia Siderúrgica Mineira, em Sabará, em 1917. Essa companhia foi

criada por Amaro Lanari, Cristiano Guimarães e Gil Guatimosin, todos ex-

alunos. O perfil e o projeto do alto-forno foram calculados na Escola, por

Alberto Magalhães Gomes, e a construção foi supervisionada pelos

diretores. A produção, iniciada em 1919, foi de 25 toneladas de gusa por

dia, na época o maior alto-forno da América Latina31. Em 1921, a

Companhia se uniu à ARBED, transformando-se na Cia. Siderúrgica Belgo-

Mineira, hoje a maior siderúrgica a carvão vegetal no mundo, desmentindo

muitos técnicos da época, inclusive F. Labouriau, que não acreditavam no

carvão vegetal como combustível para siderúrgicas de grande porte.

A Belgo-Mineira sempre contou com a colaboração de engenheiros da

Escola de Minas, embora um grande impulso a suas atividades tenha sido

dado também pela chegada ao Brasil, em 1927, do engenheiro Luís Ensch,

que participou ativamente dos planos de expansão da empresa na década

de 30. A Belgo começou a produzir aço em 1938, em sua nova usina de

Monlevade, e instalou a primeira laminação em 1940. Por essa época,

dominava a produção de aço, pois era responsável por 85.000 das 141.000

toneladas que se produziam no Brasil.

 

Ex-alunos também tentaram montar uma eletrossiderúrgica em Juiz de

Fora, desconhecendo-se os resultados do empreendimento. Fundaram,

ainda, uma Cia. Eletro-Metalúrgica em Ribeirão Preto. Mário Álvaro Rache

e José Jorge da Silva, ex-alunos, construíram um alto-forno perto de

Lafaiete para 50 toneladas. Euvaldo Lodi e José da Silva Brandão, dois ex-

alunos, construíram um alto-forno em Caeté e criaram, em 1931, a

Companhia Ferro Brasileiro. Mário Rache fora gerente de uma empresa de

mineração de Carlos Wigg e também gerente da usina Queiroz Júnior,

antiga Esperança. Seu irmão, Pedro Rache, participou intensamente das

lutas da Itabira Iron na década de 30 e ajudou a fundar, com Percival

Farquhar, a Acesita, em 1944. Euvaldo Lodi foi industrial de grande

projeção e presidente de várias empresas de mineração e siderurgia.

 

Entre 1900 e 1940, a produção de gusa no Brasil passou de 2.000

toneladas, em um alto-forno (Esperança), para 185.000 toneladas, em 19

altos-fornos. Embora ainda modesta, a produção de 1940 satisfazia

totalmente o consumo interno. A produção de aço em lingotes nesse ano,

de 141.000 toneladas, também quase cobria o consumo, que era de

147.000 toneladas. No progresso feito, grande parcela se deve à

contribuição técnica e empresarial dos engenheiros de Ouro Preto32.

 

A participação da Escola no planejamento e construção de Volta Redonda,

no início da década de 40, não foi grande, devido a fatores de natureza

política. O primeiro deles foi que os militares passaram a tomar cada vez

mais a iniciativa na área siderúrgica, por razões de segurança nacional,

deslocando-se o assunto do Ministério da Agricultura e Obras Públicas, ao

qual sempre fora afeto, para os ministérios militares, sobretudo o do

Exército. Além disso, houve um afastamento de Minas das decisões

políticas nacionais. Na década de 30, não seria mais possível o que

aconteceu em 1920 quando a oposição do presidente do Estado, Artur

Bemardes, foi suficiente para fazer abortar o contrato assinado pelo

governo federal com a Itabira Iron. Finalmente, a posição predominante na Escola de Minas e nas associações de classe do estado, em que atuavam

os ex-alunos, era a de se construir uma usina a carvão de madeira em

Minas Gerais. Como consequência, a Escola foi marginalizada na criação

de Volta Redonda, embora fosse cordial seu relacionamento com o

negociador e construtor da usina, o então Major Edmundo de Macedo

Soares, engenheiro pela Escola Militar, com especialização em metalurgia

na França. Quando os brasileiros assumiram o controle da fábrica em

1947, foram, sobretudo, engenheiros militares que o fizeram, formados em

metalurgia pelo próprio Exército. Só aos poucos é que os engenheiros da

Escola foram sendo admitidos à CSN, chegando a postos de direção. Em

1946, José A. Alves de Souza e Américo Renné Giannetti foram nomeados

para o Conselho Consultivo da empresa, merecendo da Congregação um

telegrama de congratulações por serem os primeiros ex-alunos a terem

nela voz de direção.

 

O peso de razões políticas no caso da CSN pode ser aferido pelo fato de

que na Vale do Rio Doce, criada logo depois com a expropriação das

reservas de Itabira, os engenheiros da Escola participaram desde o início,

inclusive em postos de direção. A presença deles foi hegemônica em todas

as grandes empresas siderúrgicas de Minas, exceto na única com capital

totalmente estrangeiro, a Mannesmann. Da criação da Acesita participou

um industrial ex-aluno, Pedro Rache, velho aliado de Farquhar. Da criação

da Usiminas, participaram ativamente vários ex-alunos que na época

dirigiam a Sociedade Mineira de Engenheiros e a Associação Comercial de

Minas. A Alumínio Minas Gerais S/A foi criada por Américo Renné

Giannetti, que foi também um dos renovadores da administração pública

em Minas. A presidência da Açominas também foi entregue a um

engenheiro de Ouro Preto.

 

Na mineração, os progressos foram mais modestos, embora não

desprezíveis. A primeira turma de alunos a excursionar pelo interior já

voltara entusiasmada com a possibilidade de desenvolver explorações

minerais. Vários ex-alunos de fato se envolveram nessas explorações. Em

suas viagens à França, Gorceix tentou convencer companhias francesas a

investir em projetos de mineração, sobretudo do diamante, que era objeto

predileto de seus estudos. Chegou a imaginar o Brasil competindo com o

Cabo na produção diamantífera, mediante um empreendimento que aliaria

capitais franceses aos conhecimentos técnicos desenvolvidos em sua

Escola 33. Armand de Bovet e Arthur Thiré também se meteram em

explorações de ouro e diamantes. Ambos foram diretores da Societé des

Mines d’Or de Faria, em Sabará, de propriedade francesa. Bovet dirigiu ainda mineração de diamantes em Diamantina, de capital franco-brasileiro.

Mas o grande projeto de mineração só foi mesmo implantado em 1942,

com a criação da Vale do Rio Doce, cujo primeiro diretor foi Israel Pinheiro,

um ex-aluno.

 

Na área da siderurgia e mineração, portanto, apesar dos constrangimentos

existentes, o que se fez no Brasil foi, em boa parte, graças à contribuição

dos ex-alunos como técnicos apenas, ou como técnicos e empresários.

 

Foram até aqui mencionadas apenas as atividades didáticas, científicas,

técnicas e empresariais mais diretamente ligadas às áreas da mineração,

da metalurgia e da geologia.

 

Mas, como indica a Tabela 10, grande parte da atividade dos ex-alunos até

1930 se deu na área da engenharia civil, onde vários se salientaram. É

possível encontrá-los em praticamente todas as estradas de ferro do país,

do Acre ao Rio Grande do Sul, sem falar no próprio Departamento Nacional

de Estradas de Ferro. Encontramo-los nos programas de luta contra a seca

no Nordeste, e dirigindo obras de saneamento, abastecimento d’água e

construção de estradas em inúmeros municípios. Vemo-los, também, na

direção de companhias de eletricidade, de cimento, de tecidos, de

refinarias de petróleo, de bancos, de firmas particulares de engenharia.

Estão na direção do Departamento Nacional do Café, do Instituto do

Açúcar e do Álcool, do Conselho Nacional do Petróleo, da Inspetoria de

Obras Contra as Secas.

 

Nos trabalhos da engenharia civil, tanto quanto nos da engenharia de

minas e da geologia, manifesta-se a vocação desbravadora que levava os

engenheiros de Ouro Preto a se aventurarem por todos os quadrantes do

país, fugindo da concentração das grandes cidades e conferindo a sua

atividade um caráter nitidamente nacional.

 

A ESCOLA DE MINAS, A POLÍTICA E A POLÍTICA MINERAL

 

Uma última dimensão da influência, e não a menos importante, é a que se

refere à política em geral e à política mineral em particular. Quanto à

política em geral, a pergunta a ser feita é se a formação na Escola de

Minas apresentava alguma característica que marcasse a ação dos ex-

alunos. Quanto à política mineral, trata-se de perguntar até que ponto, e de

que modo, os ex-alunos interferiram em sua formulação. Sendo a última

pergunta de mais fácil resposta, concentro nela a atenção, fornecendo, ao

final, algumas indicações sobre a primeira.

A influência dos professores e alunos na política mineral do governo

provincial ou estadual e do governo federal se fez sentir desde o início.

Antes da criação da Escola, era praticamente nula a atenção que o

governo provincial dava às atividades mineratórias, conforme atesta estudo

de Francisco Iglésias. Até 1873, o governo só tinha concedido três

privilégios de invenção na área da mineração34. A presença da Escola

trouxe alguma mudança neste cenário 35. As três leis decretadas após 1873

sofreram, de alguma maneira, sua influência.

 

A primeira se referia à garantia de juros concedida a João Monlevade em

1879 para construir um alto-forno. Na discussão do projeto de lei na

Assembleia, Gorceix foi citado pelos defensores da necessidade de se

apoiar a indústria siderúrgica. Em 1882, votou-se outra garantia de juros

para a exploração de uma jazida argentífera pelo ex-aluno Crispiniano

Tavares. Finalmente, ainda em 1882, aprovou-se um projeto de lei,

proposto pelo ex-aluno e professor Costa Sena, também deputado

provincial, que abria verba para financiar a transformação de cadinhos em

forjas catalãs. Esse projeto era consequência direta das ideias de Gorceix,

que defendia essa transformação como primeiro passo para a

modernização da indústria siderúrgica. A lei permitia a Gorceix contratar

mestres na Europa para introduzir a modificação.

 

A posição de Gorceix, defendida na Assembleia provincial por Costa Sena,

era idêntica à de Eschwege, exposta 70 anos antes. Mas não havia

consenso dentro da Escola quanto a essa política. Arthur Thiré achava que

somente a introdução de altos-fornos resolveria o problema siderúrgico de

Minas. Forjas catalãs eram um processo por demais primitivo e ineficiente

para dar resultados satisfatórios. Devia-se começar, segundo ele, por um

pequeno alto-forno a carvão de madeira, com capacidade de 10 toneladas

por dia, e uma unidade de refino. As pequenas usinas não sofreriam com

isso, porque poderiam transformar-se em unidades de refino do gusa

produzido no alto-forno. Além de fornecerem mercado para o alto-forno,

elas teriam mais lucro, pois o refino seria mais fácil e mais barato do que a

produção direta do ferro36.

 

Havia maior acordo entre Gorceix e Thiré sobre qual deveria ser a política

do governo em relação à indústria siderúrgica. Em geral, eram contrários à

concessão de privilégios de exploração ou fabricação. Thiré era mesmo

contra os sistemas de garantia de juros. Mas ambos achavam necessária a

interferência do Estado, que devia se dar, sobretudo, mediante a garantia

de mercado e de preços, na visão de Thiré, e na garantia de capitais, tarifas especiais nas estradas de ferro, isenção de direitos de exportação,

segundo Gorceix.

 

O privilégio e a garantia de juros, segundo os dois professores, resultariam

em bloqueio de outras iniciativas, no primeiro caso, e em excessivo

controle do Estado sobre o empresário e exagerados gastos para o

Tesouro, no segundo. O fato, no entanto, de ambos admitirem a

interferência do Estado para contrabalançar efeitos que vinham, em boa

medida, da competição do ferro mais barato da Europa, já indicava, da

parte dos dois franceses, uma percepção lúcida dos problemas

econômicos enfrentados por países como o Brasil.

 

No âmbito nacional, desde 1880 já se pensava na elaboração de uma lei

de minas. Gorceix, que sempre insistira na necessidade dessa lei,

consultado pelo ministro da Agricultura, Comércio e Obras Públicas,

ofereceu emendas ao projeto e manteve contatos com Conselheiros de

Estado sobre o assunto. Preocupava-se, sobretudo, em que fossem

criadas autoridades competentes para julgar os pedidos de exploração que

frequentemente eram concedidos por razões políticas ou de maneira a

tornar o empreendimento inviável, tal a natureza das exigências feitas.

Sugeria, como solução, a criação de Conselhos de Minas junto a cada

presidente de Provincia37. O projeto de lei não foi adiante.

 

Logo após a proclamação da República, vemos outro professor envolvido

com o problema da legislação mineira. A Constituição de 1891, no que se

refere à propriedade das minas, como em quase tudo, copiou o sistema

norte-americano da acessão, pelo qual o dono da mina era o dono da terra

em que ela se achava. Ou, como dizia o artigo 22, parágrafo 17: “As minas

pertencem aos proprietários do solo, salvas as limitações que forem

estabelecidas por lei a bem da exploração deste ramo de indústria.” Isto

significava mudança importante em relação à legislação imperial, que

adotava o chamado sistema domanial, pelo qual a propriedade das minas

era da nação 38. Antônio Olinto dos Santos Pires, professor da Escola, e

Serzedelo Correia apresentaram na Câmara projeto que procurava

estabelecer um sistema intermediário entre o domanial e o de acessão.

Separavam a propriedade da terra da propriedade das minas, tendo a

última que ser legitimada separadamente. A lavra e exploração das minas

só poderiam ser feitas com permissão do governo 39. Os esforços dos dois

deputados não levaram a modificação da legislação.

A próxima tentativa de modificar a lei de propriedade das minas veio em

1910, por iniciativa de Gonzaga de Campos. Como primeiro engenheiro do

SGMB e representante do Ministério da Agricultura, Gonzaga de Campos

apresentou à Comissão de Leis de Minas, criada pelo Ministério do Interior,

longo projeto sobre o assunto. Nele também separava a propriedade das

minas da propriedade do solo. A mina podia ser registrada e colocada sob

a tutela do governo, que podia também desapropriá-la40. O projeto foi ao

Congresso, onde foi nomeada comissão própria, que apresentou

substitutivo, redigido por outro ex-aluno, João Pandiá Calógeras, um dos

melhores conhecedores do problema da legislação mineira no Brasil41. O

substitutivo, que aperfeiçoava o projeto de Gonzaga de Campos, foi

transformado em lei, em 1915, com a assinatura do próprio Calógeras,

então ministro da Agricultura42.

 

Finalmente, em 1934, foi publicado o Código de Minas e o Código de

Águas, que tiveram como principal redator Domingos Fleury da Rocha,

então diretor do DNPM, firmemente apoiado pelo ministro Juarez Távora e

pelos deputados federais Furtado de Menezes e Euvaldo Lodi43. O Código

de 1934, o primeiro que o país teve, reduzia os direitos do proprietário da

terra à preferência para a concessão de licença para a lavra das minas

porventura nela existentes. As minas desconhecidas na época da

publicação do Código foram declaradas de propriedade nacional44. A

criação do Conselho Nacional de Petróleo foi também sugestão de Fleury,

bem como quase toda a legislação petrolífera da época, inclusive o

imposto único sobre combustíveis. Fleury foi vice-presidente do CNP de

1938 a 1944.

 

Com relação ao Código de Minas, a Congregação manifestou-se em 1944,

em telegrama ao presidente da República, protestando contra a anunciada

revisão do dispositivo referente à propriedade pública do subsolo (ata de

15 de março de 1944). Na Constituinte de 1946, o ex-aluno Israel Pinheiro

da Silva foi dos que lutaram contra a tendência ao regime de acessão.

 

A atuação dos ex-alunos foi intensa, embora nem sempre homogênea, na

política de incentivo a empresas de mineração e metalurgia. A partir de

1910, com as concessões feitas a Carlos da Costa Wigg e Trajano de

Medeiros, teve início uma série de medidas da mesma natureza referentes

a diversos projetos, que culminou com o contrato da Itabira Iron, em 1920.

Tratava-se, em parte, de uma “indústria da concessão”, já amplamente

praticada em relação às estradas de ferro, e dela pouca coisa resultou de concreto. Mas as concessões indicavam mudança de mentalidade no

sentido de maior consciência da necessidade da implantação da siderurgia.

A Guerra contribuíra para essa consciência ao introduzir no debate razões

de segurança nacional.

 

A participação dos ex-alunos verificou-se, sobretudo, no caso do contrato

da Itabira Iron, motivo de 20 anos de debates, às vezes violentos. No início

do conflito, dois ex-alunos lideravam os lados opostos: a favor do contrato,

tendo sido um dos responsáveis por sua feitura, estava José Pires do Rio,

ministro da Viação e Obras Públicas de Epitácio Pessoa; ferrenhamente

contra, colocava-se Clodomiro de Oliveira, Secretário da Agricultura do

presidente de Minas Gerais, Artur Bernardes. Tudo indica, no entanto, que

a opinião dominante entre os ex-alunos e dentro da Escola era a favor de

Clodomiro, embora talvez não com o ardor que este punha na disputa.

Clodomiro era, na época, professor da Escola e foi depois diretor de 1930 a

1931. Em 1924, o Centro Acadêmico o convidou para falar sobre sua luta

contra a Itabira, em claro gesto de simpatia por sua posição. Outros ex-

alunos de prestígio, como Gonzaga de Campos e Eleury da Rocha, se

manifestaram favoráveis às posições do governo mineiro.

 

Ao chegar à presidência da República, Artur Bernardes tratou de elaborar

um projeto alternativo ao da Itabira que, em consequência da oposição

contra ele levantada, tivera seu registro negado pelo Tribunal de Contas.

Para tal fim, nomeou uma comissão que elaborou o que seria o primeiro

esboço de um plano siderúrgico nacional. Na comissão teve papel

importante o próprio Clodomiro de Oliveira, tendo sido consultados também

outros professores da Escola, engenheiros e industriais. O trabalho da

comissão forneceu as bases para uma lei votada pelo Congresso e

sancionada por Artur Bernardes em 1924. Entre muitos outros dispositivos,

a lei previa a construção de três usinas siderúrgicas, com a produção de

50.000 toneladas de aço cada uma. Uma seria localizada no vale do Rio

Doce e utilizaria energia elétrica e carvão vegetal, outra em Santa Catarina

e a terceira no vale do Paraopeba, ambas a carvão mineral.

 

A lei sofreu a oposição de Ferdinand Labouriau, ex-aluno e professor da

Escola Politécnica do Rio, um dos maiores adversários de Clodomiro de

Oliveira e defensor do projeto Itabira. Para Labouriau, as usinas propostas

eram antieconômicas e seriam deficitárias. Eletrossiderurgia, segundo ele,

só servia para aços especiais, e carvão vegetal não era aplicável à grande

siderurgia. Só um grande projeto, com coque estrangeiro, seria

economicamente viável. Labouriau atribuía as conclusões da comissão à influência de Clodomiro, cujas ideias se baseariam nas seguintes

falsidades: o perigo do esgotamento das reservas minerais do Brasil e a

prevenção contra o capital estrangeiro e a exportação de minérios. E

concluía que a solução proposta era “poesia siderúrgica”, fruto de

“jacobinismo pretensioso”. Liberal ortodoxo, não concordava com a

exigência feita na lei de que o contratado fosse brasileiro, nem com a

opção por ela aberta a que o Estado construísse algumas das usinas

propostas45.

 

Não cabe aqui uma história da luta em torno da Itabira Iron, que só

terminou em 1942, com a expropriação de suas reservas e a criação da

Vale do Rio Doce. Mas cabe indicar a participação da Escola na fase final

da luta, em que ficou mareada a continuidade com a posição nacionalista

de Clodomiro de Oliveira, e a defesa de certas soluções técnicas para a

siderurgia, que muitos não aceitavam, mas que por fim se mostraram

viáveis.

 

Nos últimos combates, houve outro ex-aluno do lado oposto. O relatório do

Conselho Técnico de Economia e Finanças do Ministério da Fazenda,

publicado em 1938 e relatado pelo ex-aluno e industrial Pedro Demóstenes

Rache, representou o último apoio de importância ao projeto da Itabira.

Pedro Rache era amigo de Farquhar, a quem se ligou mais tarde para criar

a Acesita. O parecer, seguindo as ideias do relator, era favorável ao

contrato, mesmo que este não incluísse a obrigação de construir uma usina

siderúrgica, ponto que tinha sido a origem principal de toda a discussão. O

parecer era igualmente um protesto contra a intervenção do Estado na

economia, refletindo a posição de grupos privados fortemente

representados no Conselho: “Consideramos um erro o Estado industrial e

negociante”46.

 

O relatório provocou várias reações. O projeto Itabira tinha muitos inimigos:

o Exército, a Escola de Minas, os pequenos produtores de gusa, os outros

proprietários estrangeiros de jazidas, os grupos ligados ao carvão de Santa

Catarina e Rio Grande do Sul, um irmão de Oswaldo Aranha,

representante dos interesses da Krupp no Brasil. Getúlio Vargas teve que

descartar o relatório e procurar melhores conselhos. Após muitas

peripécias, envolvendo a política nacional e internacional, chegou-se, por

fim, à solução da Companhia Siderúrgica Nacional.

 

Após ser dado a público o relatório, a Congregação da Escola, por

proposta de Francisco Magalhães Gomes, enviou a Getúlio Vargas um telegrama em que apelava

 

no sentido ter problema exportação minério de ferro e siderurgia uma

solução genuinamente nacional. Manifesta a V. Exa. que considera

contrato Itabira como prejudicial interesses país e que é dever dos

brasileiros fazer com que uma riqueza tão considerável como minérios

de ferro nosso solo seja aproveitada ou exportada para melhoria nossa

economia, nossas estradas e defesa nacional e não para beneficiar

quase exclusivamente uma empresa estrangeira (ata de 3 de agosto

de 1938).

 

No mesmo ano, a Sociedade Mineira dos Engenheiros entregou ao

ministro da Guerra, general Mendonça Lima, longo relatório elaborado por

seu Conselho Técnico intitulado “Siderurgia nacional e exportação do

minério de ferro”, elaborado por Francisco de Magalhães Gomes e

assinado por mais dez engenheiros, dos quais seis formados em Ouro

Preto. O relatório insistia na oposição ao projeto Itabira, citando Clodomiro

de Oliveira e a tradição da Escola e do Estado de Minas em defender os

interesses nacionais. Propunha a criação de uma empresa nacional a

carvão vegetal e acusava Labouriau de ter difundido o preconceito contra o

uso desse combustível. A usina de Monlevade, da BelgoMineira, já

demonstrara a viabilidade do uso de carvão vegetal em siderúrgicas de

maior porte. O relatório propunha, ainda, a localização da usina no Rio

Doce, citando opiniões favoráveis de Euzébio de Oliveira e Gonzaga de

Campos. Finalmente, defendia a planificação e a intervenção do Estado na

economia, em mais uma divergência com o relatório do Conselho Técnico

e com as posições de Labouriau47.

 

A Revista Mineira de Engenharia foi obrigada pela censura estadonovista a

restringir a circulação do número especial em que divulgou o relatório. A

decisão sobre o problema já estava sendo tomada pela Comissão

Executiva do Plano Siderúrgico, e “o ambiente político e militar então

reinante era de hostilidade à pretensão dos mineiros”48. Da Comissão

Executiva não participava nenhum representante da Escola ou mesmo do

Estado de Minas. Volta Redonda foi escolhida como local da usina, o

carvão mineral foi adotado como combustível, o financiamento veio do

Eximbank, e o projeto foi entregue à firma norte-americana MacKee.

 

A última manifestação de cunho nacionalista partiu dos alunos do curso de

geologia, implantado em 1957. Esses alunos criaram, em 1959, a

Sociedade de Intercâmbio Cultural e Estudos Geológicos (SICEG) que, em sua primeira Semana de Estudos, já debatia o problema do ferro e do

manganês em Minas, combatendo as pretensões da Hanna Corporation.

Dessa luta, e do grupo que dela participou, saiu a inspiração para a

campanha do início da década de 60 em torno do slogan criado por Artur

Bernardes: “Minério não dá duas safras.” A campanha teve o apoio do

então governador Magalhães Pinto, mas foi interrompida após o golpe de

1964. Era, em parte, uma reedição da campanha contra a Itabira Iron. Mas

agora eram novos tempos, e a Hanna acabou vencendo, aliada ao grupo

Antunes, mediante a criação da MBR, que faz hoje exatamente o que

pretendia a Itabira, com o agravante de usar os trens da Central do Brasil,

prejudicando o transporte de passageiros, e de destruir a paisagem da

capital mineira. De positivo da última campanha resultou a Metamig,

empresa hoje dirigida por um ex-aluno.

 

Pode-se dizer que a participação da Escola e dos ex-alunos teve caráter

nacionalista, sobretudo quando se tratava do problema do minério de ferro.

Esse caráter se acentuava à medida que a pessoa estivesse mais

estreitamente ligada à Escola, o que leva a pensar que parte do

nacionalismo era antes uma questão de localismo, ou de defesa dos

interesses do Estado e não da nação. O localismo se tornou mais nítido em

conflitos posteriores sobre a localização de usinas siderúrgicas, como nos

casos da Cosipa e da Usiminas. Os ex-alunos atuaram, então, sobretudo,

por intermédio da Sociedade Mineira de Engenheiros, da Associação

Comercial e da Federação das Indústrias, representando já interesses

econômicos mais articulados. Amaro Lanari Jr., Gil Guatimosin e Demerval

Pimenta, ex-alunos, participaram do grupo executivo escolhido para

negociar com os japoneses a criação da Usiminas. Amaro Lanari Jr. foi por

longo tempo presidente dessa siderúrgica. A Usiminas foi a empresa que

manteve contatos mais estreitos com a Escola, concretizados na

contratação de engenheiros e de pesquisas.

 

No entanto, a vitória nesse caso se deveu ao fato de que, pela primeira vez

após 1926, havia um mineiro na Presidência da República, Juscelino

Kubitschek, outro no Ministério da Fazenda, José Maria Alkmin, e o filho de

um ex-aluno e secretário da Escola no BNDE, Lucas Lopes. Essa situação

favorável era comum na República Velha. Basta lembrar o número de ex-

alunos que foram ministros entre 1910 e 1926. Francisco Sá foi ministro de

Nilo Peçanha de 1909 a 1910 e ministro da Viação de Artur Bernardes de

1922 a 1926. Cal& geras foi ministro da Agricultura de Wenceslau Braz de

1914 a 1915, ministro da Fazenda do mesmo presidente de 1915 a 1917,

ministro da Guerra de Epitácio Pessoa de 1919 a 1922. Pires do Rio foi ministro da Viação de Epitácio de 1919 a 1922. Um admirador da Escola,

Miguel Calmon, foi ministro da Viação de Afonso Pena de 1906 a 1909 e

ministro da Agricultura de Artur Bernardes de 1922 a 1926.

 

A partir da década de 30, o Estado de Minas perdeu poder no governo

federal, a influência da Escola só se podia fazer sentir mediante os órgãos

técnicos do governo federal. O DNPM foi por muito tempo dirigido por ex-

alunos. Após a morte de Derby, o SGMB foi chefiado por Gonzaga de

Campos e depois por Euzébio de Oliveira. Fleury de Oliveira assumiu a

direção quando o Serviço foi transformado em DNPM, em 1933, sendo

sucedido por Luciano Jacques de Morais. Avelino de Oliveira foi outro

diretor do Departamento. Na direção de divisões e seções do DNPM

também estiveram muitos ex-alunos, como Glycon de Paiva, Paulino

Franco de Carvalho, Evaristo Pena Scorza, Djalma Guimarães. O CNP

teve como vice-presidentes Fleury de Oliveira e Avelino de Oliveira, e nele

trabalharam também Pedro de Moura e Irnack do Amaral, que foi

presidente da Petrobrãs. No Conselho Nacional de Minas e Metalurgia,

criado em 1940, a Escola possuía um representante permanente49. No

Conselho Federal de Comércio Exterior, o principal órgão de assessoria do

governo no Estado Novo, esteve por longo tempo José Antônio Alves de

Souza, sempre preocupado com os destinos da Escola, e também Américo

Renné Giannetti.

 

A diversificação desses órgãos e o aumento do número de pessoal

qualificado egresso de outras escolas, sobretudo a partir do fim da década

de 30, reduziram ainda mais a influência da Escola, embora a bem

organizada Associação de Ex-alunos ainda a mantenha mais forte do que a

de qualquer outra instituição.

 

Com referência a possíveis diferenças na orientação e no estilo político,

seria necessário examinar em maior profundidade do que é possível fazer

aqui a carreira dos políticos formados em Ouro Preto50. No entanto, é

possível examinar alguns casos mais notórios. Os políticos oriundos de

Ouro Preto exibem maior preocupação com problemas de desenvolvimento

econômico, sobretudo quando este é visto pela perspectiva do

aproveitamento de recursos naturais, do que os bacharéis formados nas

Escolas de Direito. A observação vale principalmente para o período

anterior à introdução dos cursos de Economia nas universidades e antes

da generalização dos cursos de Engenharia. Os políticos egressos da

Escola eram geralmente guindados a postos públicos por sua competência técnica e não por influências eleitorais, e por isso se preocupavam menos

com patronagem política e mais com programas de governo.

 

O exemplo mais claro desse tipo de político é, sem dúvida, João Pandiá

Calógeras. Deputado federal em várias legislaturas, graças à decisão do

Partido Republicano Mineiro de incluí-lo nas chapas, ministro de várias

pastas (foi o único ministro civil da pasta da Guerra na República), foi

sempre um estudioso de problemas nacionais, preocupou-se sempre com

o desenvolvimento econômico e a eficiência administrativa. Daí,

provavelmente, o ostracismo a que foi submetido desde 1922 até sua

morte, em 1934, época de intensa movimentação política. Dele, disse

Azevedo Amaral que estava à frente de seu tempo. Djalma Guimarães

considerava-o exemplo típico do despertar de nova mentalidade entre os

políticos brasileiros no início do século, devido ao treinamento recebido na

Escola de Minas51.

 

Exemplos semelhantes são os de Costa Sena, ao discutir na Assembleia

de Minas a necessidade de promover a indústria siderúrgica; de Antônio

Olinto, ao debater na Câmara a lei de minas e ao dirigir o serviço de obras

contra as secas; de José Pires do Rio, ministro e grande estudioso do

problema siderúrgico; de Clodomiro de Oliveira, com a mesma

preocupação, embora em campo oposto; de Francisco de Sá; de Israel

Pinheiro da Silva, primeiro diretor da Vale do Rio Doce e construtor de

Brasília; de Américo Renné Gianetti, o precursor do planejamento público

em Minas Gerais. Além de outros que trabalharam dentro das fronteiras

estaduais, como Amaro Lanari, Demerval José Pimenta, Alfredo Baeta

Neves, Alcides Lins.

 

Pode-se perguntar se a orientação distinta desses políticos não se devia

simplesmente ao treinamento técnico recebido e não ao fato de terem

estudado em Ouro Preto. Já no Império, Rio Branco, formado pela Escola

Militar, dera uma orientação mais “desenvolvimentista” à sua ação política.

Também é possível que o simples fato de estudar geologia e mineralogia,

independentemente da Escola, tenha sido fator importante na presença da

preocupação com o desenvolvimento dos recursos naturais, embora ela

estivesse ausente no caso de Derby. Nada disso exclui o fato de que era

parte essencial do espírito de Gorceix a preocupação em traduzir os

conhecimentos científicos em políticas de desenvolvimento e que essa

preocupação foi passada aos alunos.

Os egressos estavam conscientes da influência do espírito de Gorceix.

Djalma Guimarães era um dos que percebiam a diferença nos políticos

formados na Escola em relação aos bacharéis e literatos. Em conferência

por ocasião do centenário do nascimento de Calógeras, afirmou:

 

É provável que os ex-alunos da Escola de Minas tenham exercido

influência de vulto nos dois primeiros decênios deste século, dentro de

um ambiente político não preparado para o debate de assuntos que

exigiam conhecimentos científicos e tecnológicos. Calógeras, Pires do

Rio, Francisco de Sá e outros eminentes ex-alunos desta Escola

ingressaram no cenário político dos país armados de conhecimentos

objetivos dos recursos naturais e condições de meio físico de um

continente que estava sendo vasculhado por outros técnicos saídos

dos bancos escolares do mesmo instituto de ensino superior 52.

 

Em recente tese de doutoramento, Luciano Martins atribui aos engenheiros

da Escola de Minas o primeiro desafio feito aos bacharéis na área da

política econômica (na área puramente política o desafio teria vindo dos

militares). Esses engenheiros se teriam infiltrado na burocracia do Estado,

sobretudo via SGMB, utilizando, pela primeira vez no Brasil independente,

o domínio do conhecimento técnico como recurso político. Foram, ainda

segundo Luciano Martins, os pioneiros do estrato burocrático superior que

iriam povoar as comissões técnicas, principais centros de formação da

política econômica na década de 3053.

 

A penetração desses técnicos no interior do Estado, durante a Primeira

República, foi muito facilitada pelo fato de alguns deles terem também

ocupado cargos eletivos. É esclarecedor o contraste com os militares. A

ação renovadora dos militares no campo da política econômica foi

prejudicada pela ênfase que deram aos aspectos político-filosóficos do

positivismo e pela necessidade de lutar por parcela maior de poder dentro

do Estado. Os engenheiros de Ouro Preto não eram positivistas e não

tinham nenhuma organização ou partido em que se apoiar para fazer valer

suas ideias. Daí que, em vez da contestação aberta, o caminho mais

indicado para eles era a infiltração pacífica do aparato estatal. Após 1930,

quando o Exército se implanta solidamente no centro do poder, os

engenheiros e os militares rebeldes se viram lado a lado na luta pela

defesa e pela exploração dos recursos naturais. O ministro e “tenente”

Juarez Távora foi o grande esteio de Domingos Fleury da Rocha,

sobretudo na elaboração e aprovação do Código de Minas. Começava a ser construída a ponte entre militares e a incipiente tecnocracia civil que

adquiriria tão grande importância mais tarde.

 

A influência da Escola de Minas na área do ensino, da tecnologia, da

economia e da política foi muito grande relativamente ao número de ex-

alunos, se a compararmos, por exemplo, com a da Politécnica. A

Politécnica, sem dúvida, forneceu, também, elementos de valor, tanto na

área da ciência como da política, mas, proporcionalmente, o impacto da

Escola de Minas foi muito maior. A conclusão pode ser polêmica se a

qualidade do ensino da Escola de Minas, responsável por seu maior

impacto, for creditada, como em parte deve ser, ao pequeno número de

alunos. Mas não há por que não se perguntar sobre a possibilidade de

obter os mesmos resultados num modelo escolar menos seletivo.

 

1 Citado em SILVA. Estado de Minas, p. 1. 2ª seção.

 

2 As instruções de Gorceix à primeira turma de alunos, em 1877, estão

reproduzidas em A ESCOLA DE MINAS 1876/1966, p. 22-25.

 

3 O discurso está reproduzido em A ESCOLA DE MINAS 1876/1966. A

citação está à p. 15.

 

4 Ver discurso do deputado Felício dos Santos na sessão do dia 30 de

junho de 1884, em ANAIS DO CONGRESSO NACIONAL. Câmara dos

Deputados, 1884, Apêndice, v. V, p. 250.

 

5 Carta ao Imperador, de 1º de janeiro de 1883. AHMI, POB, Maço 190,

doc. 8628.

 

6 O episódio é relatado em LISBOA. REM, p. 33. As cartas de Gorceix ao

Imperador estão cheias de comentários sobre o desenvolvimento de cada

aluno, principalmente nos anos iniciais.

 

7 LISBOA. REM, p.34.

 

8 Sobre este ponto, ver LISBOA. REM, p. 35; e GUIMARÃES. REM, ano

XVII, n. 4, p. VII-VIII. Ver também GOMES. REM, ano IX, n. 7, p. 279-280.

Exemplo curioso da influência negativa do positivismo na ciência é o de um

professor de eletricidade da antiga Universidade de Minas Gerais, formado

na Politécnica do Rio, que não acreditava em eletromagnetismo e análise espectral, pois, segundo o Mestre, não era possível conhecer a estrutura

das estrelas.

 

9 LISBOA. REM, p. 34.

 

10 Ver Cartas ao Imperador, de 15 de agosto e de 10 de dezembro de

1886. AHMI, POB, Maço 196, doc. 8889.

 

11 O incidente se deu com o professor Arthur Thiré. Um aluno do

preparatório atirara água de uma sala de aula e acidentalmente atingira o

professor que invadiu a sala e atirou bacia e bilha pela janela. Os alunos se

sentiram ofendidos e entraram em greve, exigindo reparação. O episódio é

relatado por Gorceix em: RELATORIO DO MINISTRO DO IMPERIO, de

1884, Anexo B, p. 5-6. Ver também Carta ao Imperador, de 24 de

dezembro de 1888. AHMI, POB, Maço 198, doc. 9010. Margarida Rosa de

Lima data a carta de 24 de dezembro de 1883, o que é plausível, uma vez

que o incidente se deu nesse ano. Ver LIMA. D. Pedro II e Gorceix, nota

233, p. 97. Ver também carta de 29 de fevereiro de 1884. AHMI, POB,

Maço 192, doc. 8723.

 

12 Cartas ao ministro do Império, em 20 de julho e 26 de maio de 1887. AN,

1E3 129, pasta 8, docs. 401 e 392. Gorceix insiste na importância de ter ex-

alunos como professores no capítulo já mencionado que escreveu para Le

Brésil en 1889, organizado por Santa-Anna Néry. No capítulo, afirma ainda:

“Eles (os professores) estão imbuídos das mesmas ideias, seguem os

mesmos métodos, de sorte que o resultado é idêntico ao que seria

alcançado se o mesmo professor acompanhasse os alunos durante toda a

sua permanência na Escola.” Ver GORCEIX. Minéralogie, p. 96.

 

13 Desenvolveram-se, em alguns casos, verdadeiras dinastias de

professores, com filhos seguindo os pais, sobrinhos aos tios etc. Entre

essas dinastias estão as de Augusto Barbosa da Silva, que teve três filhos

professores; a dos Magalhães Gomes (Carlos Thomas, Henrique Alberto

Augusto, Paulo Francisco); a dos Alves de Brito (Fausto, Reinaldo, Sérgio,

Otávio Elisio). Os casos de pais e filhos são frequentes. Basta citar

Clodomiro de Almeida e José Pedro Xavier da Veiga; Alberto e João Lucas

Mazoni; Gastão e José Carlos Ferreira Gomes; Domingos José e

Domingos Fleury da Rocha. Ou de irmãos, como os Barbosa da Silva;

Cristovão e Lúcio dos Santos; Alcides e Emídio Ferreira da Silva. A ligação

familiar mais curiosa foi a de Gorceix, Calógeras e Paul Ferrand. Os três se casaram com filhas do desembargador Joaquim Caetano da Silva

Guimarães. O desembargador foi também o avô de Djalma Guimarães.

 

14 Ver a respeito ADELMAN. Urban planning and reality in republican

Brazil: Belo Horizonte, 1890-1930, p. 30-68.

 

15 Sobre esse tipo de engenheiro ver BRITO FILHO. REM, ano XVI, n. 6, p.

45-50.

 

16 Uma sequência dessa bibliografia foi feita por LISBOA. Anais da Escola

de Minas de Ouro Preto, n. 8 e 9.

 

17 LEONARDOS. A mineralogia e a petrologia no Brasil, v. I, p. 265-313.

 

18 Ver LEINZ. A Geologia e a Paleontologia no Brasil, v. I, p. 244-261; e, no

mesmo volume, PEREIRA. A Geografia no Brasil, p. 315-412.

 

19 Ver SÁBER. O Estado de S. Paulo. Suplemento do Centenário, p. 13.

 

20 DERBY. Science, p. 213.

 

21 BRANNER. Bulletin of the Geological Society of America, v. 30, p. 263.

 

22 Ver BRITO FILHO. REM, p. 48. Sobre Gonzaga de Campos, ver também

PAIVA. Meio século de engenharia. Discurso no aniversário da Escola, p.

7-8.

 

23 Alguns resultados desses trabalhos estão em ROCHA. Anais da Escola

de Minas de Ouro Preto, n. 19, p. 37-68; e OLIVEIRA. Anais da Escola de

Minas de Ouro Preto, n. 5, p. 105-116.

 

24 Ver ROCHA. Discurso de agradecimento reproduzido na REM, v. XX, n.

2, p. 58.

 

25 Entrevista com o Prof. Manuel Teixeira da Costa. Ver, também, do

mesmo professor, “A obra de Djalma Guimarães”. REM, v. XXXI, n. 3, p. 6-

8.

 

26 Para uma descrição das primeiras experiências com o forno, ver A

ELETROMETALURGIA do ferro no Brasil. Jornal do Comércio, p. 2.

27 Amaro Lanari refere-se à fundação dessa empresa em Escola de Minas,

palavras de devoção e amizade, ª discurso no 83 aniversário, 1959. Sobre a

obra de Alberto Augusto Magalhães Gomes como projetista de altos-

fornos, ver seu necrológico em SILVA Jr. Anais da Escola de Minas de

Ouro Preto, n. 25, p. I-III, 1934.

 

28 Ver Carta ao Imperador, de 1º de outubro de 1882. AHMI, POB, Maço

187, doc. 8490.

 

29 3 RELATÓRIO DE GORCEIX, de 19 de junho de 1881. AN, 1E 126, pasta

2, p. 327.

 

30 O interesse de Augusto Barbosa em sugerir a vinda de Gerspacher foi

mais do que científico, como ficou demonstrado quando se casou com a

filha do “maître de forges”. Sobre Gerspacher, ver SILVA. Jornal do Brasil,

p. 35.

 

31 Ver SILVA. Revista do Serviço Público, ano VIII, v. VI, n. 2; e BAER.

Siderurgia e desenvolvimento brasileiro, p. 86. Sobre a siderurgia no Brasil

e a contribuição da Escola de Minas, ver também BAETA. Revista da

UFMG, n. 17, p. 68-84; PIMENTA. Implantação da grande siderurgia em

Minas Gerais; PELAEZ. Revista Brasileira de Economia, v. 24, n. 2, p. 191-

217; OLIVEIRA. Anais da Escola de Minas de Ouro Preto, n. 5 e 6, p. 57-

112, 14-81; RIO. O nosso problema siderúrgico.

 

32 Sobre o problema siderúrgico na década de 1930, ver WIRTH. The

politics of Brazilian development, 1930/1954, p. 71-89. Sobre a participação

da engenharia brasileira na construção da Companhia Siderúrgica

Nacional, ver SILVA. REM, ano IX, n. 7, p. 281-296.

 

33 Ver Carta ao Imperador, de 5 de maio de 1881. AHMI, POB, Maço 186,

doc. 8455.

 

34 Ver IGLÉSIAS. Política econômica do governo provincial mineiro (1835/

1889), p. 95. Ver também a compilação LEIS da Província de Minas Gerais

se referindo à mineração e à indústria. Anais da Escola de Minas de Ouro

Preto, n. 3, p. 239-250.

 

35 IGLÉSIAS. Política econômica do governo provincial mineiro

(1835/1889); e ANAIS DA ASSEMBLEIA PROVINCIAL DE MINAS GERAIS, 1879, p. 578- 581, 218-220.

 

36 Ver THIRÉ. L’industrie du fer dans la Province de Minas Gerais.

 

37 Ver Cartas ao Imperador, de 1º de março e 3 de setembro de 1880 e 9

de abril de 1882. AHMI, POB, Maço 184, doc. 8385 e Maço 187, doc. 8490.

 

38 Havia no Império alguma incerteza quanto ao tipo de legislação que de

fato prevalecia. Um decreto de 1829 dava ao dono da terra a propriedade

das minas nela existentes, mas, segundo Calógeras, os atos oficiais

aplicavam o conceito da propriedade nacional, que teria substituído o da

propriedade régia vigente na Colônia. O Conselho de Estado confirmou

essa interpretação em 1866. Faltava, no entanto, um código que

sistematizasse e uniformizasse a legislação. Gorceix várias vezes chamou

a atenção para esse ponto.

 

39 CONGRESSO NACIONAL. Anais da Câmara dos Deputados, 1891, v. I,

p. 487-495 e v. IV, p. 293-299.

 

40 O projeto de Gonzaga está incluído no RELATÓRIO DO MINISTRO DA

AGRICULTURA, INDÚSTRIA E COMÉRCIO, 1910, p. 157-190.

 

41 Ver CONGRESSO NACIONAL. Anais da Câmara dos Deputados, 1916,

v. X, p. 37-129. Calógeras credenciara-se como especialista no problema

da legislação de minas no Brasil por seu monumental parecer apresentado

à Comissão Especial de Minas da Câmara, depois publicado como livro

sob o título As minas do Brasil e sua legislação, em três volumes.

 

42 Ver COLEÇÃO DE LEIS DA REPÚBLICA DOS ESTADOS UNIDOS DO

BRASIL, 1915, v. I, p. 192-209.

 

43 Ver depoimento de ROCHA. Anais da Escola de Minas de Ouro Preto, n.

26, p. 119. Ver também SOUZA. REM, ano XI, n. 5, p. 27-30.

 

44 COLEÇÃO DE LEIS DA REPÚBLICA DOS ESTADOS UNIDOS DO

BRASIL, 1934, v. IV, P parte, p. 655-679.

 

45 Ver LABOURIAU. O nosso problema siderúrgico, p. 76 passim. A

posição de Clodomiro de Oliveira está em A concessão Itabira Iron e

Problema siderúrgico. Sobre Farquhar, ver GAULD. The last titan. Percival

Farquhar, American entrepreneur in Latin America.

46 Ver MINISTÉRIO DA FAZENDA. Conselho Técnico de Economia e

Finanças. A grande siderurgia e a exportação de minério de ferro brasileiro

em larga escala. Ver também, a respeito, WIRTH. The politics of Brazilian

development.

 

47 Ver SIDERURGIA nacional e exportação de minério de ferro. Revista

Mineira de Engenharia, n. 7, p. 3-51. Ver, no mesmo número, o discurso de

Francisco Magalhães Gomes por ocasião da entrega do relatório do

Ministro Mendonça Lima, p. 1-3.

 

48 Ver PIMENTA. Implantação da grande siderurgia em Minas Gerais, p.

25.

 

49 A representação não estava prevista na criação do órgão. A

Congregação protestou contra o fato e foi rapidamente atendida por Getúlio

Vargas (atas de 23 de outubro e 13 de novembro de 1940).

 

50 Para uma lista de ex-alunos que se salientaram na política, ver LISBOA.

REM, ano XXXVI, v. XXVII, n. 3, p. 1-6. Separata.

 

51 Ver GUIMARÃES. Digesto Econômico, ano XXVI, n. 214, p. 8; e LANARI

JR. Digesto Econômico, ano XXVI, n. 214, p. 16-27.

 

52 GUIMARÃES. Digesto Econômico, ano XXVI, n. 214, p. 8.

 

53 Ver MARTINS. Politique et développement économique: structures de

pouvoir et système de décisions au Brésil, 1930/1964, p. 77-85, 196-230.