A Escola de Minas de Ouro Preto: o peso da glória
Parte 1: Subida Aos Céus
Criação e consolidação
Nesta parte analiso os antecedentes da Escola, isto é, os fatores que condicionaram sua criação; a própria criação, com ênfase na personalidade do criador e na organização inicial; e a consolidação a despeito dos obstáculos enfrentados nos anos heróicos, sobretudo os provenientes da situação do ensino no país, do mercado de trabalho e das injunções políticas.
Antecedentes
Ao estudar a Escola de Minas, é importante tomar sua criação como problema e não como dado. Por que foi criada? Por que uma escola de minas em 1876? Por que não simplesmente uma outra escola de engenharia civil em Minas ou mesmo uma escola de direito? Havia pessoas ou grupos que lutavam por uma escola de minas? Havia a percepção de que uma escola de minas seria fundamental ou simplesmente importante para resolver problemas econômicos ou sociais do país ou da Província de Minas? Estavam, por fim, as finanças públicas em condições de arcar com os custos de uma escola de cuja utilidade não se tinha muita certeza? As perguntas são importantes para o
entendimento correto da criação e da evolução da Escola1.
Entre as possíveis razões para a criação oficial de um estabelecimento de ensino dessa natureza, podem ser apontadas as de natureza cultural ou ideológica e as de natureza social ou econômica. A Escola poderia ter sido criada porque havia no Brasil uma tradição de ensino na área da geologia e da mineralogia; porque havia um consenso entre os grupos dirigentes quanto ao valor da ciência natural. Ou poderia ter sido criada porque, na época, a economia estava enfrentando problemas para cuja solução o ensino da geologia, da mineralogia e da metalurgia poderia contribuir. Ou poderia ter sido criada pelas duas razões.
IDEOLOGIA E ECONOMIA
Para responder à pergunta sobre as possíveis origens culturais e ideológicas será necessário examinar alguns aspectos da tradição cultural do país. A primeira reação de quem conhece um pouco dessa tradição será apontar para os efeitos do Iluminismo, introduzido em Portugal pela reforma da Universidade de Coimbra, promovida por Pombal em 1772, um século antes da criação da Escola de Minas. Apesar da distância no tempo, convém examinar se esses efeitos perduraram o suficiente no Brasil para constituir tradição capaz de ter influenciado a criação da Escola.
A reforma pombalina, como se sabe, mudou radicalmente os métodos e o conteúdo da educação coimbrã, anteriormente controlada pelos jesuítas. A ênfase do ensino deslocou-se da teologia e do direito civil e canônico para a história natural, a botânica, a mineralogia, a química, a física, a matemática. Apesar de ter sido severamente prejudicada pela reação, chamada de Viradeira, que se seguiu à queda de Pombal, a reforma produziu um dedicado grupo de cientistas. Muitos desses cientistas eram brasileiros que atuaram no país a partir da última década do século XVIII e estavam ainda presentes à época da Independência. Entre seus principais representantes estavam José Bonifácio de Andrada e Silva e Manuel Ferreira da Câmara Bitencourt. O impacto da reforma sobre a
matrícula de estudantes por cursos na Universidade de Coimbra pode ser visualizado na Tabela 1.
Tabela 1
Matrícula em Coimbra, por Cursos – 1772/1773
CURSOS ANOS
1772 1773
Direito (Civil e Canônico)Direito (Civil e Canônico) 360 531
Teologia 14 Medicina 14 62
Matemática 5 162 Filosofia 78
TOTAL 393 833
Fonte – BRAGA. História da Universidade de Coimbra, p. 465-527. Os dados para 1772 não estão
completos. Para uma discussão do impacto da reforma sobre a elite política brasileira ver
CARVALHO. A construção da ordem e Teatro de sombras, p. 55-82.
Segundo dados calculados por Maria Odila da Silva Dias, nos vinte anos que se seguiram à reforma da Universidade, 430 brasileiros lá se formaram em ciências, e apenas 262 em humanidades,
sobretudo direito2. Lembre-se, em relação à Tabela 1, que o que na época se entendia por filosofia era antes história natural, física, química, mineralogia, isto é, ciências da natureza.
Desta geração de cientistas, muitos, sobretudo os brasileiros, foram enviados ao Brasil para estudar suas riquezas vegetais e minerais. Tinham instruções para mandar relatórios a Portugal, com sugestões sobre aproveitamentos que pudessem ser úteis às combalidas finanças do Reino. Pombal
foi o primeiro a enviá-los à colônia, em busca de riquezas exploráveis 3. Uma consequência disso foi que a primeira atividade científica exercida no país foi realizada por brasileiros, o que contrasta com o modelo geral de implantação da ciência moderna em colônias européias. Essa implantação se iniciou, em geral, pela atividade de cientistas, a maioria botânicos e mineralogistas, ou naturalistas, como eram chamados, pertencentes aos países colonizadores que buscavam nas colônias riquezas exploráveis. Em Minas Gerais, pela concentração de recursos e de explorações minerais, houve também urna concentração desses cientistas. Ao fim do período colonial, havia 34 deles ocupando postos públicos na Capitania. A liderança da Inconfidência contou com a presença de alguns deles, que viam exatamente nas riquezas locais uma justificativa para a independência. Como era de esperar, ao tirarem tal conclusão, os cientistas perderam o apreço do governo colonial e sentiram o
peso de sua coerção4.
O auge da atuação dos cientistas verificou-se durante o governo do Conde de Linhares, D. Rodrigo de Souza Coutinho, que se estendeu de 1796 a 1812. Na área que mais nos interessa, D. Rodrigo, secundado por José Bonifácio e Manuel Ferreira da Câmara, tomou várias medidas de importância. A primeira foi enviar esses dois cientistas em longa viagem de estudos, de quase dez anos, por vários países da Europa. Levaram consigo cuidadosas instruções no sentido de se especializarem
na teoria e na prática da mineralogia e da siderurgia5. No início do século XIX, os dois já eram os responsáveis pela política mineralógica do reino, em Portugal e no Brasil. José Bonifácio, além de dirigir a cadeira de mineralogia, para ele criada na Universidade de Coimbra, era o Intendente Geral das Minas e Metais do Reino. Manuel Ferreira da Câmara fora nomeado Intendente Geral das Minas
na Capitania de Minas Gerais e no Serro Frio 6.
A pedido de D. Rodrigo, o naturalista mineiro José Vieira Couto, residente em Diamantina, escreveu, em 1799, uma Memória, em que sugeria a implantação de grandes usinas de produção de ferro, além da construção de estradas para o escoamento da produção. Segundo Calógeras, essa Memória foi o documento básico por trás da política siderúrgica de D. João. Já anteriormente, governadores portugueses da Capitania haviam sugerido medidas para a melhoria da mineração do ouro e para a implantação de fábricas de ferro. A Exposição sobre o estado de decadência da Capitania de Minas Gerais, escrita em 1780 pelo governador D. Rodrigo José de Menezes, sugeria a criação de uma fábrica de ferro, pelo Estado ou por particulares, por razões estratégicas e econômicas. Segundo o Governador, o ferro era excessivamente caro em Minas porque todo ele era comprado aos suecos, hamburgueses e biscainhos. Em caso de guerra na Europa, haveria total
interrupção da importação, paralisação da mineração do ouro e grandes perdas para a Coroa7.
O próprio José Vieira Couto escreveu, em 1801, outra Memória em que também fala da decadência total das minas: “tudo são ruirias, tudo despovoação”, devido ao alto preço do ferro, da roupa e dos alimentos, sujeitos à importação e a altos impostos. Mas desta vez preferiu sugerir, como solução
para a crise, medidas fiscais e a promoção da agricultura8.
Outro produto típico da Ilustração foi o bispo Azeredo Coutinho, ex-senhor de engenho. O bispo escreveu, em 1804, um livro sobre o estado das minas do Brasil em que repetia e desenvolvia as discussões anteriores. Aparecem de novo as convicções iluministas quanto ao poder da ciência sobre as “artes” e a preocupação com o que se chamaria hoje de desenvolvimento econômico. O próprio livro é dedicado à “Ciência do Governo e a esta ciência que se ocupa essencialmente da
prosperidade do Estado, da Felicidade dos Povos e dos verdadeiros meios de a procurar”9. No exame da situação das minas, denunciava sua decadência, em boa parte devida à escassez do ferro, que era o elemento que mais pesava nos custos da mineração. Um quintal (60 kg) de ferro, segundo ele, custava na metrópole 3.800 réis e em Minas 19.200 réis. Como o ferro vem de fora, “o
mineiro português não faz mais do que trabalhar para o sueco e para o biscainho10.
Como remédio, Azeredo Coutinho sugeria a exploração de outros minerais que não o ouro. Mas para isto seria necessário conhecimento da mineralogia para “os saber distinguir e extrair das suas minas”. E perguntava-se como fazer progressos se nas serranias de Minas não havia
um só homem inteligente na mineralogia? Logo, é absolutamente necessário que se
estabeleçam escolas de mineralogia nas praças principais das Capitanias e especialmente na
de São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Cuiabá, Mato Grosso 11.
É também da época de Pombal a criação da Academia Cientifica do Rio de Janeiro, que durou de 1772 a 1779, seguida pela da Sociedade Literária, que sobreviveu de 1786 a 1794. Ambas dedicavam-se a estudos práticos de agricultura, promoviam culturas novas, incentivavam produtores. D. Rodrigo mandou publicar e distribuir os 11 volumes do Fazendeiro do Brasil, coletânea de instruções práticas aos agricultores, organizada pelo botânico Frei Mariano da Conceição Veloso.
Nos primeiros anos do século XIX, sobretudo durante o governo de D. Rodrigo, prevaleceu entre a elite governante portuguesa, com a franca colaboração de muitos cientistas brasileiros, uma forte mentalidade iluminista, caracterizada pela fé no poder da ciência e pela preocupação pragmática de aplicar os conhecimentos científicos a bem da “prosperidade do Estado e da felicidade dos Povos”, no dizer de Azeredo Coutinho. Na prática, mais a bem daquela do que desta. Na interpretação de Maria Odila, a preocupação básica dos ilustrados era “integrar o Brasil na cultura ocidental traduzindo, aprendendo e, sobretudo, tentando aplicar”. Não foi por outro motivo que eles foram enviados à Europa, aos Estados Unidos, às Antilhas para observar, anotar e depois adaptar ao Brasil
e a Portugal, ou mesmo tentar soluções originais12.
Na área do ensino da mineralogia deve-se notar a criação, em 1810, do Real Gabinete de Mineralogia do Rio de Janeiro, destinado a administrar as 3.500 amostras da chamada Coleção Werner, trazida para o Rio pelo Príncipe Regente. Para dirigir o Gabinete foi contratado o Barão de Eschwege, aluno de Werner, o primeiro sistematizador da mineralogia. Eschwege já trabalhara para o governo em Portugal em estabelecimentos metalúrgicos. O gabinete foi transferido em 1811 para a Academia Militar e foi incorporado ao Museu Nacional em 1818. O próprio Museu, outra instituição que se destacou durante o século XIX na pesquisa científica, fora criado com a finalidade de “propagar os conhecimentos e estudos das ciências naturais no Brasil”. Nele foi criada uma Seção de Mineralogia e Geologia que, juntamente com uma cadeira na Escola Militar, foram os únicos instrumentos de ensino e pesquisa dessa ciência até a criação da Politécnica e da Escola de Minas, na década de 70.
No que se refere a medidas de política mineral, o primeiro documento importante, após o alvará de 1795 que liberou a produção de ferro em Minas, foi outro alvará de 1803, cuja redação teria sofrido influência de Manuel Ferreira da Câmara. Seu objeto foi a criação da Real Junta Administrativa de Mineração e Moedagem na Capitania de Minas Gerais. Entre as medidas que a Junta deveria tomar a fim de melhorar a situação das minas e, portanto, do erário régio, incluía-se “o estabelecimento de escolas mineralógicas e metalúrgicas, semelhantes às de Freyberg e Schemnitz, de que têm
resultado àqueles países tão grandes e assinaladas vantagens”13. O alvará de 1803 criou ainda o cargo de Intendente Geral das Minas, para o qual D. Rodrigo nomeou logo a seguir Manuel Ferreira da Câmara.
Ainda no período de D. Rodrigo verificaram-se as primeiras tentativas de implantar no país a indústria siderúrgica. Antes, só houvera os frustrados esforços de Afonso Sardinha, feitos em Sorocaba no século XVI. Pombal tentara retornar as experiências de Sorocaba, tendo instruído nesse sentido o governador D. Luiz Antônio de Souza. Apesar dos esforços oficiais, não foi à frente o empreendimento. Segundo o Governador, “tudo isto se malogra pela pouca experiência do Mestre e pela falta de pessoas hábeis e curiosas, pois me não tem sido possível descobrir sujeitos que, aplicando-se, conseguissem o descobrimento deste segredo”, diz ele em carta de 1769 ao Conde de Oeiras, futuro Marquês de Pombal. O que mais valia ao Governador era a “rude inteligência de um
negro” que tirava melhores fundições que o Mestre14. Das tentativas da época de D. Rodrigo, duas foram oficiais, a de Ipanema e a de Gaspar Soares, e uma particular, embora com o apoio público, a de Congonhas do Campo.
Para Ipanema, foram trazidos, em 1810, técnicos suecos, dirigidos por Hedberg. A experiência fracassou devido à incompetência dos suecos. Só em 1814, já sob a direção de Varnhagen, é que começaram a surgir resultados. Varnhagen construiu dois altos-fornos que em 1818 produziram fonte em condições industriais. A história da fábrica de ferro de Ipanema atravessou todo o século XIX, com altos e baixos. Fechada em 1860, foi reaberta por ocasião da Guerra do Paraguai. Em 1895, foi fechada em definitivo por causa dos grandes prejuízos em que incorria. Segundo Calógeras, nos oito últimos exercícios antes de ser fechada, a fábrica dera prejuízo de mais ou menos 750 contos de
reis15. À época de seu fechamento, graças a análises feitas na Escola de Minas e estudos de especialistas, evidenciara-se a presença de titânio e fósforo no minério por ela utilizado. Tal presença fora uma das principais causas das constantes dificuldades lã encontradas para a redução do minério.
Uma carta régia de 1808, assinada por D. Rodrigo, encarregou Manuel Ferreira da Câmara de construir uma usina estatal de ferro no morro do Gaspar Soares, em Minas Gerais. Câmara tentou pela primeira vez no Brasil a redução do minério pelo método indireto de altos-fornos. Aparentemente, a tentativa não foi muito bem-sucedida, tendo seu alto-forno produzido apenas 300 arrobas de fonte. Câmara construiu então fornos suecos com o auxilio do técnico alemão SchÉ5newolf, cedido de má vontade por Eschwege. Foi provavelmente o ferro produzido nesses fornos que em 1815 foi transportado em caravana para o arraial do Tijuco em meio a grandes festividades em homenagem ao Intendente. Voltando Schõnewolf à Alemanha, o empreendimento foi
abandonado, e em 1830 já quase nada existia em Gaspar Soares16.
A tentativa de maior êxito foi a de Eschwege em Congonhas do Campo. Optando por empresa particular, encorajada por D. Rodrigo e com a participação acionária do governador da Capitania, D. Francisco de Assis Mascarenhas, Eschwege deu rápido inicio aos trabalhos, numa corrida para produzir ferro antes de Ipanema e de Gaspar Soares. Escolhendo o método direto, Eschwege adaptou o processo dos cadinhos trazido pelos escravos, aperfeiçoando-o pela introdução de uma trompa hidráulica para injeção de ar no forno. Calógeras considera esta inovação uma verdadeira revolução tecnológica, que rapidamente se espalhou por Minas Gerais. A força hidráulica foi também usada para movimentar os martelos ou malhos usados para a expulsão das escórias. Antes trabalhava-se com foles e martelos manuais de muito baixo rendimento. Em 1812, conseguindo bater Câmara, Eschwege produziu ferro em seus fornos, para o que contou com a preciosa colaboração de Schi5newolf, depois requisitado por Câmara.
Um depoimento de José de Sá Bitencourt fala da rápida difusão da técnica da trompa hidráulica, cuja introdução, em Minas Gerais, ele atribui ao irmão. Diz ele: “todo aquele que pode levantar a sua trompa a fabrica”, e mais adiante:
Não se pode meter mais a ridículo aos fabricantes de ferro da Europa do que o que vi no Sítio
do Campeble onde um crioulo alfaiate tinha uma pequena trompa muito malconstruída, com o
cano condutor do ar para a fornalha de embaúba, com tubo que introduzia o ar no algaraviz da
forja de taquara e, deste modo, fazia o seu ferro muito bom a quem comprei oito arrobas 17.
A última experiência feita no período colonial, já após a morte de D. Rodrigo, se deveu a um particular, aparentemente sem nenhuma ligação com o governo. Trata-se da iniciativa de João Antônio de Monlevade, “grande mineralógico, grande químico, além de outros conhecimentos de física, matemática e literatura”, no dizer de José de Sá Bitencourt. Monlevade chegou a Minas em 1817, onde construiu um alto-forno em Caeté e, posteriormente, uma forja catalã. Esses estabelecimentos desapareceram após sua morte, surgindo em seu lugar uma forja do tipo italiano que também influenciou outras fundições. Até o último quartel do século, predominou em Minas o método dos cadinhos, reformado por Eschwege, e o método italiano. Nenhuma outra inovação foi feita por iniciativa oficial ou particular.
A Independência trouxe preocupações políticas imediatas para o novo governo. Apesar da participação nos acontecimentos, pelo menos no início, de dois mineralogistas e cientistas, José Bonifácio e seu irmão Martim Francisco, outras eram as prioridades. O próprio José Bonifácio se dedicou em tempo integral à construção do novo país, deixando de lado a pesquisa científica. As duas últimas manifestações em favor do desenvolvimento do ensino técnico na área de mineralogia se deram na Assembléia Constituinte de 1823 e no Conselho da Província de Minas em 1832.
Na Constituinte, ao ser discutida a criação de universidades, Manuel Ferreira da Câmara apresentou emenda que previa o estabelecimento, em Minas, de uma escola mineralógica. Seu discurso não foi captado pelo taquígrafo, de modo que só nos restou a emenda que dizia:
Que haverá na Província de Minas Gerais uma academia montanistica, na qual se ensinarão as
seguintes doutrinas: 1ª. a química em geral; 2ª. a docimasia e metalurgia; 3ª. a mineralogia
compreendendo a orictognosia, a geognosia e a teoria dos filões e mais formações metálicas;
4ª. a geometria e trigonometria, como os primeiros elementos do cálculo, aplicando todos estes
conhecimentos à geometria subterrânea, à mecânica e à hidráulica; 5ª. a arte de edificar as
minas com segurança; 6ª. a agricultura e a arte veterinária18.
A Constituinte foi dissolvida e nada se fez. Quando da discussão da criação dos cursos jurídicos em 1827, ninguém mais se lembrou da academia montanística. Somente no Conselho Geral da Província de Minas — em parte por não ter sido a Província, uma das mais importantes do Império, aquinhoada com um curso superior — continuou a discussão em torno do assunto. As discussões, que contaram com a participação decisiva de Bernardo Pereira de Vasconcelos, resultaram num projeto que foi aprovado pela Assembléia Geral Legislativa e transformado em lei em 1832. Essa lei é considerada o documento oficial de criação da Escola de Minas de Ouro Preto, efetivada 43 anos
depois19. (Ver Apêndice)
A justificativa do Conselho Geral para o projeto de lei ainda refletia as preocupações do período anterior com o estado de decadência das minas e com a necessidade de desenvolver a ciência e a técnica como solução para o problema. Dizia ela:
Considerando que a arte das minas consiste em muitos conhecimentos científicos e
especialmente em mineralogia, química e mecânica, e convencido de que o estado estacionário
da mineração nesta Província provém da falta de conhecimentos destas ciências, das quais, no
porvir, poderá ela tirar urna fonte perene de riqueza, por isto que as suas montanhas encerram
incalculáveis produtos do reino mineral, os quais se acham hoje desprezados, resolveu etc 20.
A organização dada por Gorceix à Escola de Minas, intencionalmente ou não, apresentava várias semelhanças com as indicações da lei de 1832, que previa um curso preparatório, exame de entrada, curso de quatro anos, ano letivo de setembro a maio, com quatro meses para excursões e trabalhos práticos, e a contratação de professores estrangeiros para as cadeiras novas. Quase tudo isso se concretizou na Escola de Minas.
Salvas algumas menções esporádicas nas mensagens dos presidentes da Província pedindo sua
efetivação, a lei de 1832 foi a última manifestação importante antes da criação da Escola em 187521. Na prática, cessaram também os esforços oficiais para implantar a siderurgia. O ensino de mineralogia reduziu-se à cadeira da Escola Militar — que servia para fornecer os diretores de Ipanema, todos militares —, e a pesquisa limitou-se aos poucos trabalhos da Seção de Mineralogia e Geologia do Museu Nacional. Teriam mudado os homens ou teria mudado o país?
Mudaram os dois. É preciso não esquecer que a reforma pombalina do ensino era parte de um esforço mais amplo de reerguer a economia portuguesa, em grandes dificuldades por causa da decadência das minas de ouro, das flutuações nos preços do açúcar e da dependência em relação à
Inglaterra22. A ênfase na ciência natural, na botânica, na mineralogia; os relatórios pedidos aos governadores; as memórias solicitadas aos cientistas; as medidas práticas de difusão do conhecimento técnico via sociedades científicas e publicação de livros do tipo Fazendeiro do Brasil; tudo isto tinha a finalidade de encontrar alternativas econômicas para o Reino. A essas medidas se juntaram outras, como a criação de companhias de comércio, a tentativa de desenvolver a siderurgia, o combate aos jesuítas e à nobreza, a luta contra o domínio inglês. A preocupação com a aplicação dos conhecimentos, tão em evidência entre os cientistas da época, tinha um alvo muito claro e era, certamente, motivada pelos interesses da economia portuguesa. Como boa parte das receitas do Reino provinha da extração do ouro, nada mais razoável do que a direção dos esforços dos cientistas para as possibilidades de revitalizar a mineração ou encontrar para ela um substituto. A própria crise na mineração do ouro, conforme o relatório já citado de D. Rodrigo José de Menezes, chamava a atenção para a necessidade de introduzir a siderurgia, a fim de baratear os custos da atividade. É possível que a preocupação tenha pesado na decisão de enviar José Bonifácio e Manuel Ferreira da Câmara à Europa para se especializarem em mineralogia e metalurgia. Certamente, pesou nas medidas concretas tomadas no Brasil em relação à siderurgia. Até a Independência, a situação não melhorara para Portugal, pois não melhorara para os produtos básicos da colônia mais rica. O ouro continuava minguando e os preços do açúcar não eram bons. Continuava, por isso, a busca de alternativas que os líderes mais influenciados pelo espírito ilustrado acreditavam poder vir da aplicação do conhecimento científico.
Poder-se-ia perguntar aqui pelas razões do fracasso das iniciativas siderúrgicas da época, urna vez que estavam presentes a demanda econômica e a convicção da necessidade de uma abordagem técnica do problema. As causas são várias. Podem citar-se o curto tempo de experiências (apenas uma década), dificuldades que as próprias ciência e técnica de então não poderiam resolver, como as da qualidade do minério de Ipanema; problemas de técnica produtiva (a opção por pequenos fornos e pelo método direto adotada por Eschwege, por exemplo, parece que seria a mais acertada para a época, em comparação com os altos-fornos tentados por Câmara); a própria incompetência técnica das pessoas envolvidas; e problemas econômicos derivados da dificuldade de competir com o produto europeu mais barato. De qualquer modo, como vimos algo restou de importante em Ipanema e nas dezenas de pequenas forjas espalhadas por Minas Gerais que, bem ou mal, contribuíram para reduzir a dependência da importação do ferro e serviram de base para os desenvolvimentos do final do século, já com nova técnica e urna economia em transformação.
Seja como for, a situação predominante à época da Independência sofreu grandes mudanças que afetaram a demanda por medidas econômicas na área mineira e metalúrgica e a oferta de conhecimentos nestas áreas e na área das ciências naturais em geral.
Quanto ao primeiro ponto, o processo da Independência e, posteriormente, as lutas políticas da Regência não permitiam maior atenção ao desenvolvimento de urna alternativa econômica que se tinha mostrado custosa e de resultado duvidoso pelas experiências iniciais. Além disso, os orçamentos na época eram deficitários. O início do Segundo Reinado trouxe redução dos conflitos internos e folga no orçamento, graças à diminuição dos gastos com as forças armadas. Parecia que o país entraria num período de certa tranquilidade. Mas nesse momento a alternativa econômica tão procurada desde Pombal fazia sua entrada triunfal no país: o café assumia o primeiro lugar na pauta de exportação. Ele já conquistara a Província do Rio de Janeiro, sede do governo e terra de alguns dos principais políticos responsáveis pela reação centralizadora que deu base ao Segundo Reinado. Nem mesmo um homem ligado à mineração, autor do projeto que levou à lei de 1832 e autor também, ou inspirador, das principais leis da centralização, Bernardo Pereira de Vasconcelos, se
lembrou mais de tentar promover o ensino ou a prática da mineralogia e da siderurgia23. Nas próximas décadas, o destino do país estaria ligado à economia do café.
Paralelamente a essa transformação, mudaram também os homens. A geração ilustrada desapareceu ao final do Primeiro Reinado. Houve um grande lapso de tempo até que outra geração, chamada por alguns também de ilustrada, dominasse o cenário cultural do país. Há quem discorde dessa afirmação. Maria Odila, por exemplo, sustenta ter havido uma continuidade do Iluminismo, Segundo Reinado adentro, através da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional, criada em 1827, e da publicação d’O auxiliador da indústria nacional. A ilustração teria sobrevivido até fundir-se com a corrente positivista do último quartel do século, que retomou a bandeira ilustrada do cientificismo e
do pragmatismo24.
A tese é duvidosa. Roque Spencer Maciel de Barros exagera ao considerar a renovação intelectual, que teve início ao redor de 1870, como a ilustração brasileira, réplica do Iluminismo europeu do século XVIII. Ele se esquece do Iluminismo de fins do século XVIII e começos do século XIX, estudado por Maria Odila. Mas os dois movimentos foram distintos, sem a continuidade entre um e outro, pretendida por Maria Odila. Uma indicação da ruptura é a ausência de cientistas no período intermediário e, portanto, de produção científica.
A ausência era inevitável, uma vez que a educação superior implantada pelo Império não era de molde a formar cientistas. O predomínio era das escolas de direito, mais próximas da Coimbra pré-pombalina. As escolas de medicina, dada a natureza de seu ensino, só excepcionalmente poderiam produzir cientistas. E foi, de fato, necessário surgir o Instituto Oswaldo Cruz para iniciar a pesquisa biológica em escala significativa. Restava a Escola Militar, posteriormente Escola Central, como o único centro de treinamento científico nas ciências exatas, na engenharia e nas ciências naturais. No entanto, a Escola Militar tinha pouca influência fora do Exército, e só raramente seus ex-alunos atingiam posição de importância política, como foi o caso do Visconde do Rio Branco. Como instituição de pesquisa propriamente dita, restava apenas o Museu Nacional. No entanto, o Museu passou também por um longo período de estagnação e, somente após o início da nova ilustração, com a incorporação de vários pesquisadores estrangeiros, é que recobrou dinamismo. Na área geológica e mineralógica, por exemplo, o único pesquisador a se salientar foi o Barão de Capanema, que trabalhava na Seção de Mineralogia e Geologia do Museu e lecionava na Escola Central. A grande obra de geologia até a criação da Comissão Geológica do Império continuou sendo o Pluto
brasiliensis, de Eschwege, publicada em 1833 25.
A descontinuidade pode ser verificada também na formação dos políticos da época. A Tabela 2 indica a formação dos ministros de Estado. Vê-se que a geração de políticos da independência ainda incluía um bom número de cientistas remanescentes da reforma pombalina. Seu número é reforçado pela substancial presença de militares, na sua maioria formados no Colégio dos Nobres, instituição criada por Pombal em 1761 para treinar os filhos da nobreza, também com muita ênfase em ciências exatas e naturais. Contando também os militares, pode-se ver que quase a metade dos ministros do Primeiro Reinado tinha formação em ciências, a outra metade, em direito. Em contraste, no último período, de 1871 a 1889, os civis formados em ciências tinham desaparecido totalmente. Restavam apenas os militares, mas em número bem menor e certamente com formação menos apurada do que a do Colégio dos Nobres. O mesmo quadro poderia ser obtido para senadores do Império.
Tabela 2
Tipo de Formação dos Ministros, por Períodos – 1822/1889
FORMAÇÃO PERÍODOS TOTAL
1822/31 1831/40 1840/53 1853/71 1871/89
Direito 51,29 56,67 85,00 77,09 85,73 72,50
Ciências Exatas 20,51 13,33 5,00 2,08 0,00 7,00
Militar 28,20 20,01 10,00 18,75 7,93 16,50
Medicina 0,00 6,66 0,00 2,08 6,34 3,50
Religiosa 0,00 3,33 0,00 0,00 0,00 0,50
TOTAL 100,00 100,00 100,00 100,00 100,00 100,00
(N=39) (N=30) (N=20) (N-48) (N=63) (N=200)
Fonte – CARVALHO. A construção da ordem, p. 4.
Tudo indica, portanto, que houve corte entre um período e outro. A geração ilustrada desapareceu e foi substituída por magistrados e advogados. A economia passou a girar em torno do café, inclusive a de Minas Gerais. O tipo de formação técnica exigido por essa economia restringia-se à engenharia civil e militar e à agronomia. Na área civil, precisava-se de construtores de estradas de ferro e da clássica engenharia de “pontes e calçadas”. Tais necessidades eram inicialmente supridas pela Escola Militar, posteriormente pela Escola Central. O aumento da demanda de engenheiros civis levou à transformação da Escola Central em Politécnica, em 1874. A agronomia só veio mais tarde. Em Minas Gerais, os únicos estabelecimentos que requeriam engenheiros não civis eram as minerações pertencentes a estrangeiros, especialmente ingleses, que não utilizavam técnicos brasileiros. A produção de ferro se dava em umas 75 pequenas fábricas, que utilizavam cadinhos ou
forjas italianas, sem capital para ampliar a produção e introduzir novas técnicas26. Era esse, simplificadamente, o panorama da oferta e da demanda de tecnologia no Brasil em torno de 1870. Quase o oposto daquele verificado no início do século.
SINAIS DE MUDANÇA
O quadro apresentado acima levaria a crer na inexistência de qualquer motivação, ideológica, cultural ou econômica, para a criação da Escola de Minas. Não é bem assim. No mundo das ideias, algumas mudanças já se faziam sentir, sobretudo no que se refere aos estudos geológicos. O fato mais importante talvez tenha sido a visita de Agassiz acompanhando a expedição Thayer em 1865. A fama desse sábio despertou interesse pelas pesquisas geológicas, sobretudo por parte do Imperador, conhecido entusiasta da ciência, não obstante as observações desairosas feitas pelo próprio Agassiz em relação aos cientistas brasileiros e aos brasileiros em geral.
O mais importante da expedição, no entanto, foi a presença de Frederick Hartt, geólogo de Cornell, que regressou ao Brasil em 1870 com a primeira expedição Morgan, para continuar os estudos iniciados em 1865. Hartt voltou ainda outra vez e foi encarregado, em 1875, de organizar a Comissão Geológica do Império. A Comissão foi extinta dois anos depois pelo recém-empossado gabinete liberal, cujo presidente, o visconde de Sinimbu, se recusou a receber Hartt para discutir o assunto. A razão apresentada para a extinção foi a escassez de recursos. Hartt morreu em 1876, no Rio de Janeiro, de febre amarela. Apesar da curta existência, a Comissão reuniu um grupo de excelentes geólogos, quase todos estrangeiros. Os mais importantes foram Orville A. Derby, John Casper Branner e R. Rathbun. Desses pesquisadores sairia a maior parte da produção cientifica brasileira na área da geologia até o final do século, realizada, sobretudo, no Museu Nacional.