À Espera de um Milagre
Parte Três .........................................................................................
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
A história do Roy Delfines era apenas uma de entre muitas; eu cresci numa tradição de milagres e de curas. Cresci também na crença das bruxarias: água mágica para as verrugas, musgo colocado debaixo da almofada para aliviar os desgostos de amor, e, é claro, aquilo a que costumávamos chamar haints - mas eu não estava em crer que o John Coffey fosse um homem de bruxarias. Eu tinha-o olhado bem no fundo dos olhos. Porém, mais importante do que isso, tinha sentido o toque da sua mão. Ter sido tocado por ele foi como se tivesse sido tocado por um médico estranho e maravilhoso. Eu consegui evitar o mal, não é verdade?
Aquilo continuava a ressoar na minha cabeça, como o trecho de uma canção que não conseguimos afastar do pensamento, ou palavras que se proferissem para lançar um encantamento.
Eu consegui evitar o mal, não é verdade?
Só que ele não o tinha feito. Deus tinha. A utilização que o John Coffey fazia da palavra “eu” poderia ser levada à conta da ignorância, e não à do orgulho, mas eu sabia – pelo menos acreditava - no que tinha aprendido sobre as curas nessas igrejas de Jesus Seja Louvado, o Senhor É Todo-Poderoso, améns proferidos no meio de igrejas em pinhais, que tanto a minha mãe de vinte e dois anos como as minhas tias muito amavam: esse gênero de curas nunca tem nada a ver com o que é curado, nem com o que cura, mas sim com a vontade de Deus. Que alguém rejubile perante os doentes que são curados é normal, mas a pessoa que foi curada passa a ter a obrigação de perguntar porquê - de meditar na vontade de Deus, assim como em todas as coisas que Deus teve de fazer para cumprir a Sua vontade.
O que é que Deus queria de mim, em relação a este caso? O que é que Ele desejava com tanta intensidade para colocar o poder da cura nas mãos de um assassino de crianças? Estar no bloco em vez de em casa, doente que nem um cão, a tremer na cama com o fedor das sulfamidas a ser expelido pelos poros? Talvez; é possível que o destino me tenha colocado ali, em vez de ter ficado em casa, para o caso de o Bill “Selvagem” Wharton decidir desencadear outra fúria, ou ainda para me assegurar de que o Percy Wetmore não enveredava por outra situação perigosa e potencialmente destrutiva. Nesse caso, muito bem. Pois que o fosse. Eu manter-me-ia de olhos bem abertos... e de boca bem fechada, muito em especial quanto às curas milagrosas.
Ninguém sentiria curiosidade, por eu estar com melhor aspecto; eu dissera a toda a gente que já me sentia melhor, e até esse dia acreditara sinceramente que era esse o caso. Dissera mesmo ao diretor Moores que já estava a caminho da cura. Apesar de o Delacroix ter visto qualquer coisa, eu estava certo de que ele também ficaria calado (provavelmente com receio de que o John Coffey lançasse um encantamento sobre ele próprio, caso falasse do assunto). Quanto ao próprio Coffey, muito possivelmente já se havia esquecido de tudo. Ao fim e ao cabo, ele não passava de um mero veículo de transmissão, além de que não existia em todo o mundo um único cano de esgoto que se recordasse da água que tinha corrido pelo seu interior, depois de a chuva ter amainado. Nesta conformidade, resolvi manter a minha boca completamente selada quanto àquele assunto, sem fazer idéia de que em breve estava a contar a história e de a quem a contaria.
O certo é que sentia curiosidade quanto ao nosso vadio, não servindo de nada querer negar esse fato. Depois do que me tinha acontecido ali, na cela, sentia-me mais curioso do que nunca.
4
Antes de me ir embora nessa noite, combinei com o Brutal para que me substituísse no dia a seguir, no caso de eu chegar um pouco mais tarde. Quando me levantei na manhã seguinte, pus-me a caminho de Tefton, localidade situada no município de Trapingus.
- Não sei se gosto que te preocupes tanto com esse fulano, o Coffey - dissera a minha mulher, entregando-me a merenda que preparara; a Janice nunca confiou nessas bancas de hambúrgueres que existem à beira da estrada; costumava dizer que em cada uma delas havia uma dor de barriga à espera., - Isso não parece nada teu, Paul.
- Eu não estou preocupado com ele - retorqui. - Estou apenas curioso e nada mais.
- A minha experiência diz-me que uma coisa leva à outra - retorquiu a Janice num tom acerbado, e deu-me um beijo na boca, vindo bem do fundo do coração. - Pelo menos estás com melhor aspecto, tenho de admitir isso. Durante algum tempo conseguiste pôr-me nervosa. A canalização está toda curada?
- Completamente curada - confirmei e lá me pus a caminho, entoando canções como por exemplo, Come, Josephine, in My Flying Machine e We're in the Money, a fim de fazer companhia a mim próprio.
Em primeiro lugar, dirigi-me para os escritórios do Intelligencer de Tefton, onde fui informado de que o Burt Hammersmith, o sujeito com quem eu queria falar, devia estar no tribunal. De fato assim fora, de acordo com o que me disseram no tribunal, mas ele saíra depois de ter rebentado um cano da água a meio do julgamento de um caso de estupro (nas páginas do Intelligencer o caso seria referido como “ataque a uma mulher”, que era a forma de descrever esse gênero de ocorrência nesses tempos, antes do aparecimento em cena de Ricki Lake e Carnie Wilson). Calcularam que o mais certo seria ele ter ido para casa. Numa estrada de terra batida tão estreita e cheia de sulcos que nem sequer me atrevia a percorrê-la com o meu Ford, deram-me algumas indicações que segui até ter encontrado o homem que procurava. Fora o Hammersmith quem escrevera a maior parte dos artigos relativos ao julgamento do Coffey, e através dele eu tomara conhecimento da maior parte dos pormenores que haviam envolvido a breve caçada ao homem que culminara na detenção do Coffey.
Como é evidente, estou a referir-me aos aspectos que a redação do Intelligencer considerou serem demasiado macabros para publicação.
Mrs. Hammersmith era uma mulher ainda bastante jovem, senhora de um rosto bonito, mas que acusava cansaço, e tinha as mãos vermelhas por causa da lixívia. Não me perguntou o que é que me levara ali, limitando-se a conduzir-me através de uma pequena casa cheia da fragrância de biscoitos a cozerem no forno até um alpendre nas traseiras, onde o marido se sentava com uma garrafa de refrigerante na mão, tendo em cima das coxas uma edição da revista Liberty por abrir. O pequeno jardim das traseiras era em declive; na base deste encontravam-se dois garotos que discutiam e riam por causa de um balanço. Do alpendre era impossível dizer qual era o seu sexo, mas fiquei com a impressão de que eram um rapaz e uma rapariga. É possível que fossem gêmeos, o que colocava o pai numa perspectiva bastante interessante á luz do papel periférico que desempenhara no julgamento do Coffey. Mais próximo, como se fosse uma ilha no meio de uma zona coberta de cagalhões onde não havia nada plantado, encontrava-se uma casinha de cão. Não se via o mais pequeno sinal do Fido; era outro dia anormalmente quente, e calculei que deveria estar dentro da sua casinha, a passar pelas brasas.
- Burt, tens visitas - anunciou Mrs. Hammersmith. - Está bem - replicou ele. Olhou para mim, olhou para a mulher, depois olhou para os filhos, onde era óbvio que o seu coração se encontrava.
Era um homem magro - quase doentiamente magro, como se só há muito pouco tempo é que houvesse começado a recuperar de uma doença grave - e nas fontes o cabelo já começava a deixar ver umas entradas. A medo, a mulher tocou-lhe num dos ombros com as mãos avermelhadas e inchadas da lavagem da roupa. O marido não a olhou nem fez qualquer menção de lhe desejar tocar; momentos depois, ela retirou a mão. Foi então que me ocorreu, de uma maneira imprecisa, que eles mais pareciam irmã e irmão, em vez de marido e mulher - ele tinha a inteligência, enquanto ela possuía a beleza, mas nem um nem outro conseguira escapar a algumas parecenças que se adivinhavam mais do que se viam, a uma hereditariedade a que nunca se podia escapar. Mais tarde, já a caminho de casa, compreendi que eles não tinham nenhuma semelhança entre si; aquilo que dava essa impressão era o rescaldo de uma tensão latente e um desgosto que teimosamente se recusava a desaparecer. É bastante estranha a forma como o sofrimento marca as nossas feições, emprestando-nos as parecenças existentes entre familiares.
- Apetece-lhe uma bebida fresca, Mister?... - perguntou ela pouco depois.
- O nome é Edgecombe - apresentei-me. - Paul Edgecombe. Muito agradecido. Uma bebida refrescante seria uma maravilha, minha senhora.
Ela regressou ao interior de casa. Estendi a mão a Hammersmith, que a apertou num gesto breve. O seu apertar de mão era flácido e frio. Nunca afastou o olhar dos garotos que brincavam ao fundo do jardim.
- Mister Hammersmith, eu sou o superintendente do Bloco E da Prisão Estadual de Cold Mountain. E...
- Eu sei o que é - atalhou ele, fitando-me com um pouco mais de interesse. - Com que então, o manda-chuva dos guardas prisionais da Milha Verde encontra-se no jardim da minha casa, tão grande como a própria vida. O que é que o fez percorrer oitenta quilômetros para conversar com o único repórter a tempo inteiro do pasquim local?
- O John Coffey - respondi.
Estou convencido de que eu esperava que ele reagisse de uma maneira mais intensa (as crianças, que poderiam ter sido gêmeos, gravadas no fundo da minha mente... e talvez também a casinha do cão; os Detterick tinham tido um cão), contudo, o Hammersmith limitou-se a soerguer o sobrolho, bebendo um gole da sua bebida.
- Neste momento, o Coffey é um problema seu, não é verdade? – perguntou o Hammersmith.
- Ele não constitui um grande problema - repliquei. - Não gosta do escuro e passa muito tempo a chorar, mas na nossa linha de trabalho nenhum destes aspectos constitui um problema por aí além. Costumamos ver muito pior.
- Com que então chora muito? - comentou o Hammersmith. - Pois bem, eu diria que ele tem muitas razões para chorar. Tendo em consideração o que fez. O que é que deseja saber?
- Tudo o que me possa dizer. Eu já li os artigos que escreveu para o jornal; portanto, aquilo que me interessa é qualquer coisa que não tenha sido publicada na altura.
Lançou-me um olhar agreste e cheio de secura.
- Tal como por exemplo qual era o aspecto das garotinhas? O que é que ele lhes fez exatamente? É esse o gênero de pormenores que lhe interessam, Mister Edgecombe?
- Não - respondi, mantendo uma voz calma. - Não é nas gêmeas Detterick que eu estou interessado, meu caro senhor. As pobrezinhas já morreram. Mas o Coffey não... pelo menos, ainda não, e sinto-me curioso a respeito dele.
- Muito bem - acedeu o Hammersmith. - Puxe uma cadeira e sente-se, Mister Edgecombe. Desculpar-me-á se lhe dei a impressão de ser um pouco acerbo, mas na minha profissão deparo com muitos abutres. Que diabo, eu próprio já fui acusado muitas vezes de ser um deles. Só queria certificar-me da espécie de pessoa que o senhor é.
- E conseguiu certificar-se? - perguntei.
- Calculo que sim - retorquiu ele num timbre de voz quase de indiferença.
A história que ele me contou assemelha-se bastante ao que eu descrevi anteriormente nesta narrativa - amaneira como Mrs. Detterick deparou com o alpendre vazio e com a porta de rede solta da dobradiça superior, os cobertores amontoados a um canto e o sangue nos degraus, a forma como o marido e o filho tinham ido em perseguição do raptor das garotas; como o corpo dos guardas civis os tinham alcançado em primeiro lugar e encontrado o John Coffey não muito depois. A forma como o Coffey estivera sentado na margem do rio a lamentar-se e a chorar, com os corpos envolvidos pelos seus braços maciços, como se as garotas fossem grandes bonecas de trapos. O repórter, magro que nem um espeto, com a camisa branca aberta no colarinho e calças cinzentas, expressava-se numa voz baixa desprovida de qualquer emoção... embora os seus olhos jamais se houvessem despregado dos seus próprios dois filhos, enquanto estes riam e implicavam um com o outro, sentando-se um de cada vez no balanço colocado à sombra, ao fundo do declive do jardim. A certa altura a meio da história, Mrs. Hammersmith regressou com uma garrafa que continha uma bebida caseira não alcoólica feita de raízes, forte e deliciosa. Deixou-se ficar junto de nós por algum tempo, ouvindo a narrativa que interrompeu durante o tempo necessário para chamar as crianças, dizendo-lhes que tinha os biscoitos prestes a saírem do forno.
- Vamos já, mamã! - gritou a garotinha; a mãe voltou a entrar em casa.
- Portanto, o que é que o leva a querer saber mais? - perguntou o Hammersmith depois de ter concluído a sua narrativa. - Nunca fui visitado por um guarda prisional, é a primeira vez que isso acontece.
- Eu já lhe disse...
- Sim, a curiosidade. Eu sei que as pessoas se sentem curiosas, chego mesmo a dar graças a Deus por isso, pois se assim não fosse ficaria sem emprego e talvez me visse obrigado a trabalhar para ganhar a vida. Mas oitenta quilômetros é um percurso bastante grande apenas para satisfazer uma simples curiosidade, especialmente quando os últimos trinta e dois são por estradas más. Por conseguinte, porque é que não me diz a verdade, Edgecombe? Já satisfiz a sua curiosidade, agora é a sua vez de satisfazer a minha.
Pois bem, poderia eu dizer, eu tinha uma infecção urinária e o John Coffey pôs as suas mãos no meu corpo e curou-a. O homem que violou e assassinou essas duas garotinhas fez isso mesmo. Assim, comecei a questionar-me a seu respeito, é claro... qualquer outra pessoa também o faria. Cheguei mesmo a perguntar a mim mesmo se o Homer Cribus e o seu assistente Rob McGee não teriam prendido o homem errado.
Apesar de todas as provas incriminatórias que existiam contra ele, interroguei-me a esse respeito. Porque quando um homem tem nas suas mãos poderes como esse, regra geral não o consideramos capaz de violar e assassinar crianças. Não, talvez isso não fosse o mais adequado.
- Há duas coisas que me intrigam - continuei. - A primeira é saber se ele já tinha feito uma coisa semelhante anteriormente.
O Hammersmith voltou-se para mim; subitamente, os seus olhos refletiam argúcia aliada a um brilho de interesse, e apercebi-me de que era um fulano inteligente. Talvez fosse mesmo brilhante.
- Porquê? - perguntou. - O que é que você sabe, Edgecombe? O que é que ele lhe disse?
- Nada. Mas um tipo que faz este gênero de coisa uma vez, normalmente já a fez noutra ocasião. Adquirem o gosto por isso.
- Sim - concordou ele. - De fato. Lá isso adquirem. - E ocorreu-me que seria bastante fácil investigar o seu passado e saber se é ou não verdade. Um homem do tamanho dele e ainda por cima negro, não deve ser muito difícil de localizar.
- Isso é o que o senhor pensa, mas chegaria à conclusão de que está redondamente enganado - retorquiu ele. - Pelo menos no caso do Coffey. Eu sei o que estou a dizer.
- Já tentou?
- Já e não cheguei a conclusão nenhuma. Dois homens que trabalham na estrada-de-ferro pensaram tê-lo avistado nos estaleiros de Knoxville, dois dias antes de as garotas Detterick terem sido mortas. O que não constituiu grande surpresa; ele encontrava-se do outro lado do rio em relação à linha da estrada-de-ferro da Great Southern quando eles o apanharam e, provavelmente, foi dessa maneira que aqui chegou vindo do Tennessee. Recebi uma carta de um homem que me disse que tinha contratado um negro, corpulento e calvo, para carregar e descarregar caixotes, no início da Primavera desse ano, no Kentucky. Enviei-lhe uma fotografia do Coffey e ele confirmou que se tratava do mesmo homem. Mas para além disso... - O Hammersmith encolheu os ombros e abanou a cabeça.
- Não acha que isso é um pouco estranho? - perguntei. - Parece-me que é até muitíssimo estranho, Mister Edgecombe. É como se ele tivesse caído do céu. E ele próprio não serve de grande ajuda; não é capaz de se recordar esta semana daquilo que aconteceu na anterior.
- Não, de fato, não é - concordei. - Como é que o senhor explica isso?
- Estamos no meio da Grande Depressão - respondeu ele -, é assim que eu explico a situação. Por todas as estradas só se vê gente. Os de Oklahoma querem ir para a Califórnia apanhar pêssegos, enquanto os brancos pobres vindos dos confins pretendem ir para Detroit trabalhar nas fábricas de automóveis; por seu lado, os negros do Mississipi desejam ir para a Nova Inglaterra trabalhar nas fábricas de calçado ou na indústria têxtil. Todos, quer sejam brancos ou negros, estão convencidos de que, a sua situação econômica melhorará noutro lugar qualquer. E o raio da maneira de viver dos Americanos. Até mesmo um gigante como o Coffey não desperta as atenções onde quer que vá... isto é, até decidir matar duas menininhas. Duas menininhas brancas.
- Acredita realmente nisso? - perguntei.
- Por vezes acredito - respondeu o Hammersmith, lançando-me um olhar brando com o seu rosto demasiado magro. Entretanto, a mulher assomara à janela da cozinha, qual maquinista na dianteira de uma automotora.
- Meninos! Os biscoitos estão prontos! - Voltou-se para mim. - Apetece-lhe um biscoito de aveia com passas, Mister Edgecombe?
- Tenho a certeza de que estão deliciosos, minha senhora, mas desta vez declino a oferta.
- Está bem - redarguiu ela, regressando à cozinha. - Já reparou nas cicatrizes que ele tem no corpo? - perguntou o Hammersmith abruptamente. Continuava a observar os filhos, os quais não conseguiam afastar-se dos prazeres do balanço, nem sequer perante a perspectiva de poderem comer biscoitos de aveia com passas.
- Sim - respondi, sentindo-me surpreendido por ele as ter visto.
O Hammersmith reparou na minha reação e riu-se.
- A grande vitória do advogado de defesa foi fazer com que o Coffey despisse a camisa para mostrar essas mesmas cicatrizes ao júri. O advogado da acusação, o George Peterson, protestou que se fartou, mas o juiz permitiu que ele as mostrasse. O velho George poderia ter poupado o seu fôlego... Os jurados por estas bandas não se deixam convencer por toda essa psicologia da treta de que as pessoas que foram maltratadas não são capazes de conter os seus impulsos malévolos. Acreditam que as pessoas podem evitar essas ações. É um ponto de vista por que eu nutro bastante simpatia... mas o certo é que essas cicatrizes eram bastante chocantes. Reparou em alguma coisa de especial nelas, Edgecombe?
Tivera oportunidade de ver o homem nu no chuveiro... e claro que reparara; compreendia perfeitamente de que é que o Hammersmith estava a falar.
- São todas entrecruzadas, chegam mesmo a assemelhar.Se quase a uma treliça.
- Sabe o que é que isso significa?
- Que alguém o zurziu com toda a violência quando ainda era criança, como se quisesse matá-lo - respondi. - Antes de ter crescido tudo o que tinha a crescer.
- Mas a realidade é que ele não morreu, não é verdade, Edgecombe? Poderiam ter poupado o chicote, limitando-se a afogá-lo no rio, como se fosse um gatinho abandonado, não lhe parece?
Suponho que teria sido de boa política eu ter concordado, pondo-me a andar dali para fora, mas senti-me incapaz de o fazer. Eu tinha-o visto. E também o tinha sentido. Sentira o toque das suas mãos.
- Ele é... estranho - acrescentei. - Mas o certo é que parece não existir uma violência verdadeira no seu íntimo. Estou a par das circunstâncias em que ele foi encontrado, e é bastante difícil equacionar isso com o que vejo nele, dia após dia, lá na prisão. Sei como são os homens violentos, Mister Hammersmith. - Naquele momento, como é evidente, era no Wharton que eu pensava, no Wharton a tentar estrangular o Dean Stanton com a corrente que lhe prendia os pulsos, gritando: Ennaaa, rapazes! Isto é que é uma festa de arromba, não acham?
Naquele momento, o Hammersmith olhava para mim com toda a sua atenção, esboçando um pequeno sorriso de incredulidade que, devo confessar, não me agradou muito.
- O senhor não veio até minha casa para saber se ele teria ou não morto qualquer outra garotinha algures - observou ele. - Veio cá para averiguar se eu acho que ele possa tê-lo feito. É isso, não é verdade? Confesse-se, Edgecombe. Bebi o que restava da minha bebida e coloquei a garrafa sobre uma mesinha.
- Pois bem. Acha que sim? - perguntei.
- Meninos! - gritou ele, chamando os filhos, e inclinando-se um pouco para a frente. - Venham já para aqui e vão comer os vossos biscoitos! - Em seguida, voltou a recostar-se para trás na cadeira, olhando para mim. Aquele pequeno sorriso, aquele que não me agradava muito, voltou a reaparecer nos seus lábios. - Vou dizer-lhe uma coisa - continuou ele. - Também vai querer ouvir com bastante atenção, porque isto poderá ser a tal coisa que precisa de saber.
- Estou a ouvir - redargui.
- Nós tínhamos um cão a que chamávamos Sir Galahad - disse ele, indicando a casinha do cão com o polegar apontado. - Era um bom cão. De nenhuma raça em especial, mas meigo. Calmo. Sempre pronto a lamber-nos a mão ou a ir buscar um pau que tivéssemos arremessado. Há uma data de cães rafeiros como ele, não lhe parece?
Encolhi os ombros e assenti.
- Sob muitos aspectos, um bom cão rafeiro assemelha-se muito ao seu negro - continuou o Hammersmith. - Ficamos a conhecê-lo e com muita freqüência começamos a dedicar-lhe afeto. Não serve qualquer objetivo em particular, mas ainda assim continuamos a mantê-lo conosco, porque pensamos que ele gosta de nós. Quando se tem sorte, Mister Edgecombe, nunca se chega a verificar que isso não corresponde à verdade. A Cynthia e eu não tivemos essa sorte. - Suspirou... um som alongado e de uma certa forma fantasmagórico, como o vento a dispersar folhas mortas caídas no chão. Uma vez mais, apontou na direção da casinha do cão, o que me fez perguntar a mim mesmo como é que eu não tinha ainda reparado no estado geral de abandono a que fora votada, ou no fato de muitos dos excrementos terem adquirido na superfície uma camada esbranquiçada e esboroável. - Eu costumava limpar as porcarias que ele fazia - continuou o Hammersmith -, e mantinha sempre o teto da casinha em boas condições, para que não entrasse chuva no interior. Nesse aspecto, o Sir Galahad também era como o seu negro do Sul, que não é capaz de fazer essas coisas para seu benefício. Agora nem lhe toco, desde o acidente que não me aproximo da casinha... se é que se lhe pode chamar um acidente. Fui até ali com a minha carabina e disparei sobre ele, mas desde então mantenho-me afastado. Não consigo aproximar-me. Suponho que acabarei por o fazer, com o tempo. Limparei as porcarias e destruirei a casinha.
Naquele momento, as crianças dirigiam-se para casa e, de repente, eu não quis que elas avançassem; de súbito, aquela era a última coisa à face da Terra que eu desejava que acontecesse. A garotinha não apresentava nada de anormal, mas o rapazinho...
Subiram os degraus com estrépito, olharam para mim e começaram a rir-se à socapa, dirigindo-se para a porta da cozinha...
- Caleb - chamou o Hammersmith. - Vem até aqui. Só por um minuto...
A garotinha - de certeza que era gêmea do garoto, ambos tinham de ser da mesma idade - continuou em direção à cozinha. O rapazinho aproximou-se do pai, mantendo o olhar preso nos pés. Tinha consciência de que era feio. Teria apenas uns quatro anos, calculei eu, mas com aquela idade já tinha a percepção du que era feio. O pai colocou dois dedos por baixo do queixo do filho, tentando obrigá-lo a erguer o rosto. De início, o garoto opôs resistência, até o pai ter recomeçado a falar.
- Por favor, meu filho - proferiu ele num tom de tanta doçura, amor e tranqüilidade, que o garoto fez como lhe era pedido.
Da linha do couro cabeludo, atravessando-lhe a testa, saía uma cicatriz enorme e circular, que percorria um olho sem vista, indiferente e retorcido, e se estendia até um dos cantos da boca, que apresentava um aspecto desfigurado, semelhante ao esgar cheio de cinismo de um batoteiro, ou talvez de um homem libertino. Uma das faces era macia e bonita; a outra estava toda arrepanhada como o cepo irregular de uma árvore. Calculo que naquela superfície tivesse existido um buraco, mas, pelo menos isso havia sarado.
- Ele só vê de uma vista - informou o Hammersmith, acariciando a face deformada do filho num gesto cheio de amor. - Suponho que ele teve sorte por não ter cegado dos dois olhos. Costumamos ajoelharmo-nos e dar graças a Deus por essa benesse. Não é verdade, Caleb?
- Sim, senhor - respondeu o garoto com timidez... o garoto que seria espancado sem qualquer piedade no recreio da escola pelos colegas arruaceiros que fariam troça de si, a troco de uns miseráveis anos de uma educação escolar de má qualidade; o garoto que nunca iriam chamar para tomar parte nas suas brincadeiras, e que, provavelmente, jamais haveria de ter oportunidade de dormir com uma mulher cujos serviços não houvesse pago antecipadamente, quando chegasse àquela idade adulta em que isso passaria a ser uma necessidade; o garoto que iria estar sempre à margem do círculo iluminado e acolhedor formado pelos seus pares, o garoto que iria olhar-se ao espelho durante os próximos cinqüenta, sessenta ou setenta anos, pensando sempre: “Feio, feio, feio!”
- Vai à cozinha buscar os teus biscoitos - disse-lhe o pai, beijando a boca de esguelha do filho.
- Sim, senhor - aquiesceu Caleb, correndo para dentro de casa.
O Hammersmith retirou um lenço do bolso de trás das calças, e limpou os olhos: naquele momento estavam secos, mas imagino que se tenha habituado a tê-los sempre umedecidos.
- O cão já estava cá em casa quando eles nasceram - continuou ele. - Levei-o até casa para os farejar quando a Cynthia regressou com eles da maternidade; o Sir Galahad lambeu-lhes as mãos. As mãos pequenas dos meus filhos. - O Hammersmith acenou com a cabeça como se estivesse a confirmar aquele fato perante si mesmo. - Costumava brincar com eles; lambia o rosto da Arlen até ela não poder conter o riso. O Caleb costumava puxar-lhe as orelhas e, quando começou a dar os primeiros passos, às vezes circundava o jardim agarrado à cauda de Sir Galahad. O cão nem sequer lhe dirigia um rosnar. A nenhuma das crianças.
Naquele momento as lágrimas já lhe tinham assomado aos olhos; limpou-as num gesto automático, tal como um homem costuma fazer depois de ter adquirido muita prática.
- Não havia qualquer razão para isso - prosseguiu ele. - O Caleb não lhe fazia mal, não gritava com o animal, nada de nada. Eu sei. Estava sempre presente. Se não estivesse, quase de certeza que o meu filho teria morrido. O que aconteceu, Mister Edgecombe, resume-se a nada. O garoto limitou-se a colocar a sua face diretamente em frente do focinho do cão, e ocorreu à mente do Sir Galahad... ou ao que quer que seja que um cão tem por mente... atirar-se a ele para lhe morder. Com a intenção de matar, se a oportunidade lhe surgisse. A criança encontrava-se mesmo à sua frente e o cão não hesitou em morder. E foi isso mesmo que aconteceu com o Coffey. Ele estava lá, viu as garotas no alpendre, apossou-se delas, violou-as e depois assassinou-as. O senhor diz que deve haver qualquer indício de que ele tenha cometido anteriormente algo semelhante, e eu compreendo o que quer dizer, mas acontece que talvez ele não tenha feito nada disso antes. O meu cão nunca tinha abocanhado ninguém; isso só aconteceu dessa vez. Talvez, caso o Coffey fosse libertado, nunca mais voltasse a cometer um ato desses. É possível que o meu cão jamais voltasse a morder em alguém. No entanto, eu não me preocupei com essa probabilidade, bem vê. Fui buscar a minha carabina, agarrei-o pela coleira e alvejei-o em cheio no focinho.
O Hammersmith respirava a custo.
- Sou uma pessoa tão esclarecida como qualquer outra, Mister Edgecombe. Freqüentei a Universidade em Bowling Green, formei-me em História e Jornalismo, e também estudei Filosofia. Gosto de me considerar um homem esclarecido. Não me parece que a gente do Norte fosse dessa opinião, mas agrada-me pensar que sou um homem esclarecido. Por nada deste mundo estaria disposto a fazer reviver a escravatura. Na minha opinião, devemos ser humanos e generosos e envidar todos os esforços para resolver os problemas de natureza racial. Todavia, não podemos esquecer-nos de que o seu negro voltará a morder se a oportunidade lhe voltar a aparecer, tal como um cão rafeiro abocanhará se a hipótese lhe surgir e caso se lhe meta isso na cabeça. O senhor quer saber se ele cometeu esse ato, o seu Coffey lacrimoso, com o corpo coberto de cicatrizes, não é verdade?
Acenei afirmativamente.
- Oh, sim - prosseguiu o Hammersmith. - O fez, sim. Que não lhe reste a mais pequena dúvida e tome a precaução de não se pôr de costas para ele. É possível que não lhe aconteça nada uma vez, ou cem vezes... até mesmo um milhar de vezes... mas no fim... - Ergueu uma mão em frente dos meus olhos e fez estalar os dedos rapidamente, transformando a mão numa boca que morde. - Está a compreender o que lhe digo?
Acenei que sim uma vez mais.
- Ele violou as garotas, em seguida matou-as e depois lamentou o seu ato... mas, apesar disso, essas duas meninas não deixaram de ter sido violadas, essas duas meninas continuaram mortas. Mas vai tratar-lhe da saúde, não é verdade, Edgecombe? Daqui a algumas semanas, certificar-se-á de que ele jamais volta a ter a oportunidade de cometer um ato desses. - Com aquelas palavras, o Hammersmith ergueu-se da cadeira e dirigiu-se para o alpendre, lançando um olhar vago na direção da casinha do cão, erguida no meio daquele bocado de terreno mal cuidado, no centro daqueles excrementos já antigos. - Talvez possa desculpar - continuou ele -, mas, uma vez que não tenho de passar a tarde no tribunal, pensei em aproveitar a oportunidade para estar um pouco com a família. Os filhos só são crianças uma vez.
- Não se prenda por mim - disse eu. Sentia os lábios dormentes, como se não me pertencessem. - Permita-me que lhe agradeça o tempo que me dispensou.
- Não tem importância - retorquiu ele.
Conduzi diretamente da casa do Hammersmith para a penitenciária. Foi um percurso bastante longo, e desta feita não consegui encurtá-lo entoando canções. Tinha a impressão de que todas as canções me haviam abandonado, pelo menos durante algum tempo. Continuava a ter gravada na mente a imagem daquele garotinho com a face desfigurada. Assim como a mão do Hammersmith, com os dedos a deslocarem-se para cima e para baixo contra o polegar, simulando algo que abocanhava.
5
O Bill “Selvagem” Wharton efetuou a sua primeira jornada até à cela do isolamento logo no dia seguinte. Passou a manhã e a tarde sossegado e manso que nem um cordeirinho, um estado de espírito que, viemos a descobrir ao fim de pouco tempo, não era nada normal na sua maneira de ser e que só significava a aproximação de complicações. Então, por volta das sete e meia desse fim de tarde, o Harry sentiu algo morno a molhar-lhe a bainha das calças do uniforme que vestira limpas nesse mesmo dia. Era mijo. O William Wharton estava de pé junto das barras da cela, mostrando os seus dentes enegrecidos num esgar desmesuradamente arreganhado, e mijava na direção dos sapatos e das calças do Harry Terwilliger.
- O porco do filho da puta deve ter andado a conter o mijo durante todo o dia - disse o Harry mais tarde, ultrajado e enfurecido.
Pois bem, foi assim que as coisas aconteceram. Tinha chegado a altura de mostrar ao William Wharton quem é que era o dono da festa do Bloco E. O Harry chamou-nos, ao Brutal e a mim; eu alertei o Dean e o Percy, que também estavam de serviço. Como estão recordados, naquela altura tínhamos três encarcerados e procedíamos àquilo a que chamávamos uma vigilância apertada, com o meu grupo a entrar ao serviço às sete da tarde e a sair às três da manhã - período da noite em que era mais provável ocorrerem complicações - e dois outros turnos cobriam o resto do dia. Estes dois últimos grupos eram constituídos majoritariamente por temporários, e o Bill Dodge era, por via de regra, o responsável por eles. Levando tudo em consideração, até que não era uma maneira ineficaz de gerir a situação, e eu achava que, assim que conseguisse transferir o Percy para o turno do dia, a vida melhoraria bastante. Contudo, nunca cheguei a ter oportunidade de concretizar esse plano. Por vezes, pergunto a mim mesmo se a situação se teria alterado, tivesse eu conseguido levar essa idéia a bom termo.
Seja como for, na arrecadação existia um ramal da canalização da água, numa das paredes afastada da Velha Faísca. O Dean e o Percy ligaram-lhe uma mangueira de lona. Ficavam junto da válvula para poderem abrir, caso tal fosse necessário.
O Brutal e eu dirigimo-nos num passo apressado para a cela do Wharton, onde este continuava de pé com o mesmo esgar e com a ferramenta pendurada fora da braguilha. Eu já tinha retirado a camisa-de-força da cela do isolamento e pusera-o em cima de uma prateleira no meu gabinete na noite anterior antes de ir para casa, pensando que o mais certo seria virmos a precisar dele para a nossa nova criança problemática. Naquele momento, já o tinha na mão, com o dedo indicador debaixo de uma das correias de lona. O Harry vinha atrás de nós, arrastando a mangueira, que atravessava o meu gabinete, descia pelos degraus da sala da arrecadação e ia até à válvula que deveria ser acionada pelo Percy logo que possível.
- Ei, gostaram da minha brincadeira? - perguntou o Bill Selvagem. Ria-se como uma criança num parque de diversões, as suas gargalhadas eram tantas que quase o impediam de falar, e pelas faces começaram a escorrer-lhe lágrimas gordas. - Vocês vieram todos tão depressa que devem ter gostado. Agora estou a preparar alguns cagalhões para acompanhar o mijo. Uns que sejam bem bons, macios. Amanhã já poderei oferecê-los a todos...
Entretanto, ele viu que eu abria a porta da cela; os seus olhos estreitaram-se. Viu que o Brutal empunhava o revólver numa das mãos e o bastão na outra; os seus olhos semicerraram-se ainda mais.
- Vocês podem entrar aqui trazidos pelas vossas pernas, mas sairão deitados de costas. É o Billy the Kid quem vos garante isso - disse-nos ele todo cheio de fanfarronice. O seu olhar desviou-se para mim. - E se estão a pensar que vão conseguir vestir-me esse casaco de malucos, preparem-se para uma grande surpresa, meus velhos.
- Não és tu quem dá as ordens por aqui - repliquei. - Já devias ter compreendido isso, mas calculo que sejas demasiado idiota para conseguir aprender alguma coisa.
Acabei de abrir a porta da cela, tendo-a feito correr sobre a calha. O Wharton recuou até junto da tarimba, continuando a manter a picha pendurada de fora da braguilha, embora tivesse as mãos estendidas na minha direção, com as palmas para cima, indicando-me com os dedos que me aproximasse. - Chega-te cá, meu grandessíssimo filho da puta. - insultou-me ele. - Podes ter a certeza que alguém vai aprender alguma coisa, mas aqui o rapaz é que está preparado para ser o professor. - Desviou o olhar para o Brutal, tendo-o mimoseado com o seu esgar de dentes enegrecidos. - Aproxima-te, vadio, tu vais ser o primeiro a levá-las. Desta vez não podes apanhar-me de surpresa pelas costas. Baixa a arma... em qualquer dos casos, não vais atrever-te a dispará-la, não tens coragem, vamos lá, de homem para homem. Vamos ver quem é que leva a melhor...
O Brutal entrou na cela, mas não se dirigiu ao Wharton. Depois de ter transposto a porta, deslocou-se para a esquerda. Os olhos que o Wharton mantivera semicerrados até então começaram a arregalar-se ao ver a mangueira apontada ao seu peito.
- Não, vocês não vão fazer isso - atalhou ele. - Oh, não, vocês...
- Dean! - gritei. - Abre a válvula! Abre-a toda!
O Wharton deu um salto em frente, e o Brutal acertou-lhe em cheio na testa - a espécie de golpe com que certamente o Percy passava a vida a sonhar - assentando o bastão com toda a força acima do sobrolho do Wharton. Este, que dava a impressão de estar convencido de que nunca nos víramos em situações daquelas antes de ele ter aparecido no bloco, caiu logo de joelhos, com os olhos abertos mas sem ver nada. Em seguida, a água começou a jorrar da mangueira, fazendo com que o Harry cambaleasse para trás devido ao impacte do jorro, mas ele equilibrou-se logo, mantendo o bocal nas mãos apontado como se fosse uma arma. O forte esguicho de água apanhou o Bill “Selvagem” Wharton em cheio no peito, fazendo-o rodopiar descontroladamente e arremessando-o para debaixo da tarimba. Na sua cela, mais abaixo no corredor, o Delacroix saltava ora em cima de um pé ora em cima do outro, cacarejando numa voz esganiçada e praguejando contra o John Coffey, exigindo que este lhe dissesse o que é que estava a passar-se, enquanto este, por seu lado, choramingava; no meio de toda aquela algaraviada, o Delacroix perguntava ainda como é que o grand foul 7 do novo rapaz gostava daquele tratamento de água, estilo tortura chinesa. O John não lhe respondeu, limitando-se a ficar em silêncio com as suas calças demasiado curtas e as pantufas da prisão. Só lhe lancei um rápido olhar, mas este foi o suficiente para ver nele a mesma velha expressão, a qual refletia uma mistura de tristeza e serenidade. Ficava-se com a sensação de que ele já tinha assistido a situações daquelas, não apenas uma ou duas vezes, mas sim num milhar de ocasiões diversas.
- Fecha a água! - gritou o Brutal por cima do ombro antes de avançar a correr pela cela adentro. Agarrou firmemente no semiconsciente Wharton por baixo dos sovacos, começando a arrastá-lo de debaixo da tarimba. O Wharton tossia, emitindo sons gorgolejados. O sangue escorria-lhe para os
7 (Em francês no original: “grande louco”. (N. da T.) olhos esbugalhados, vindo da região acima das sobrancelhas, onde o bastão do Brutal lhe abrira um rasgo na pele.
Para o Brutal Howell e para mim, a rotina da camisa-de-força já se tinha transformado numa ciência cheia de precisão; ambos praticáramos o processo, como se fôssemos um par de dançarinos de sapateado a executar um novo número. De vez em quando, essa prática pagava os seus dividendos. Como por exemplo, naquela circunstância. O Brutal ajudou o Wharton a levantar-se do chão, estendendo os braços para mim, da mesma maneira que uma criança seguraria num boneco desconjuntado. A percepção do que tinha acontecido só naquele momento começava a espelhar-se no olhar do Wharton, ciente de que, se não começasse a debater-se de imediato, pouco depois seria tarde de mais, mas a ligação entre o seu cérebro e os músculos continuava sem funcionar e, antes que ele conseguisse voltar a ativá-la, enfiei-lhe nos braços as mangas da camisa-de-força, enquanto o Brutal prendia as fivelas nas costas. Entretanto, agarrei nas correias dos punhos, puxei os braços do Wharton de forma a rodearem-lhe os flancos e uni-lhe os pulsos com outra correia de lona. O resultado final foi ele parecer que estava a abraçar-se.
- Raios te partam, meu grandessíssimo atrasado mental... Como é que eles se estão a sair com ele? - perguntava o Delacroix em altos berros. Também ouvi os guinchos do Mister Jingles, como se o rato também desejasse inteirar-se da situação.
Entretanto, apareceu o Percy com a camisa toda molhada e com a fralda de fora, devido ao esforço com a válvula da água; era tanta a excitação que ele sentia que tinha o rosto iluminado. O Dean surgiu logo atrás dele, trazendo à volta da garganta um colar formado por hematomas de tom púrpura, e com uma expressão muito menos excitada do que a do colega.
- Agora toca a andar, Bill Selvagem - disse eu, puxando pelo Wharton, para que ele se levantasse do chão. - Seu pacóvio.
- Não me chames isso! - vociferou ele, gritando esganiçadamente, e parece-me que, pela primeira vez, tivemos ocasião de detectar emoções verdadeiras, e não apenas aspectos camuflados de um animal esperto. - O Bill “Selvagem” Hickok 8 não era nenhum montanhês! Também nunca lutou contra nenhum urso com uma faca Bowie! 9 Não passava de um outro tarado do mato que obedecia à lei! Um idiota de um filho da puta que se sentou de costas para a porta e foi morto por um bêbedo!
- Ora não querem lá ver isto, uma lição de história! - exclamou o Brutal, empurrando o Wharton para fora da cela. - Um tipo nunca sabe o que lhe vai acontecer quando inicia o seu dia de trabalho por aqui, só sabe que até pode ser uma coisa agradável. Mas com tanta gente simpática como tu por estas bandas, calculo que isso tenha uma certa razão de ser, não concordas? E sabes que mais? Daqui a pouco tempo, serás tu quem terá passado à história, Bill Selvagem. Entretanto, toca a andar pelo corredor. Temos uma sala à tua espera. É um lugar onde podes arrefecer as idéias.
O Wharton soltou um berro enfurecido e desarticulado, investindo contra o Brutal, apesar de se encontrar manietado pela camisa-de-força, com os braços em redor do torso e presos nas costas. O Percy fez menção de sacar do seu bastão - a Solução Wetmore para todos os problemas da vida - mas o Dean deteve-o, colocando-lhe uma mão no pulso. O Percy lançou-lhe um olhar intrigado e um tanto indignado, como que a dizer-lhe que, depois de tudo o que o Wharton lhe tinha feito, o Dean deveria ser a última pessoa à face da Terra a desejar impedi-lo de prosseguir.
O Brutal empurrou o Wharton para trás. Agarrei-o e empurrei-o na direção do Harry. Por seu lado, este impeliu-o através da Milha Verde, passando pelo jubilante Delacroix e pelo impassível Coffey. O Wharton prosseguiu a correr para não cair de rosto em cheio no chão; durante todo o
8 James Butler Hickok “Bill Wild”, 1837-1876. (N. da T. 9 (Faca de grandes dimensões com lâmina de um só gume, que deve o seu nome a James Bowie, e foi concebida por ele próprio ou pelo irmão Rezin P. Bowie. (N. da T.) percurso não deixou de soltar imprecações. Cuspia-as da mesma forma que o maçarico de um soldador cospe fogo. Atiramo-lo para dentro da última cela do lado direito, enquanto o Dean, o Harry e o Percy (que para variar não reclamava pelo fato de o fazerem trabalhar em excesso) retiravam toda a tralha que se encontrava no interior da cela do isolamento. Enquanto eles tratavam daquela tarefa, tive uma pequena conversa com o Wharton.
- Estás convencido de que és um tipo duro - comecei a dizer -, e talvez sejas, meu menino, mas aqui a dureza não tem o mínimo significado. Os teus dias de arruaceiro chegaram ao fim. Se nos facilitares as coisas, nós também facilitaremos a tua vida aqui. Caso decidas dificultar a situação, acabarás por morrer à mesma, com a diferença de que te aguçaremos como a ponta de um lápis antes de marchares para o além.
- Vais sentir-te muito feliz quando me vires pelas costas - replicou o Wharton numa voz enrouquecida. Não parava de se debater dentro da camisa-de-força, embora soubesse que não lucraria nada com os seus esforços; as suas bochechas estavam tão vermelhas como um tomate maduro.
- Mas até eu desaparecer, hei de transformar a vossa vida num verdadeiro inferno. - Arreganhou-me os dentes como se fosse um gorila enfurecido.
- Se é isso o que desejas, transformar a nossa vida num inferno, podes desistir já, uma vez que conseguiste alcançar o teu objetivo - interveio o Brutal. - Mas quanto ao tempo que hás de passar na Milha, Wharton, não nos incomoda minimamente que o passes todo fechado na sala com as paredes almofadadas. Também poderás usar esse casaco para tarados até os teus braços gangrenarem devido à falta de circulação sanguínea, acabando por te cair do corpo. - Fez uma pausa. - Não sei se sabes, mas não costuma vir muita gente até aqui abaixo. E se pensas que alguém se importa com o que possa acontecer-te, seja lá o que for, acho que é melhor reconsiderares. Para o mundo, tu já és um criminoso morto.
O Wharton examinava o Brutal com toda a atenção, tendo começado a desaparecer-lhe do rosto a fúria que sentira. - Deixem-me sair disto - pediu ele num tom de voz apaziguador... Um tom demasiado racional e sensato para ser verdadeiro. - Eu porto-me bem. Prometo que sim.
O Harry surgiu à entrada da cela. A extremidade do corredor assemelhava-se muito a uma venda ao ar livre, mas depois de metermos mãos à obra iríamos pôr tudo aquilo em ordem num ápice. Não seria a primeira vez que teríamos de dar conta daquela tarefa, já conhecíamos a rotina.
- Está tudo a postos - anunciou o Harry.
O Brutal agarrou na saliência da lona, por baixo da qual se encontrava o cotovelo direito do Wharton, e puxou-o para que se pusesse de pé.
- Vamos lá, Billy Selvagem. Olha para o lado positivo da situação. Vais ter pelo menos vinte e quatro horas para recordar a ti mesmo que nunca deverás sentar-te de costas para a porta, nem agarrar-te demasiado aos trunfos.
- Deixem-me sair disto - repetiu o Wharton. Olhou para o Brutal, para o Harry e por último para mim, com o tom avermelhado a voltar a apossar-se do seu rosto: - Eu porto-me bem... Garanto-vos que aprendi a lição. Eu... eu... aaaaahhhhhhh!...
De repente, sucumbiu; metade do corpo caiu dentro da cela e a outra metade estatelou-se sobre a Milha Verde, dando pontapés e contorcendo-se todo.
- Jesus Cristo! Ele está a ter uma convulsão - sussurrou o Percy.
- Com certeza, e a minha irmã é a prostituta da Babilônia - retorquiu o Brutal. - Ela costuma executar a dança do ventre para o Moisés aos sábados à noite, com um véu branco muito comprido. - Baixou-se e passou uma mão por baixo de um dos sovacos do Wharton. Agarrei-o pelo outro. O homem debatia-se entre nós como se fosse um peixe que tivesse acabado de morder o anzol. Transportar o seu corpo que não parava de se agitar, ouvi-lo resmungar por uma das aberturas e a peidar-se pela outra, foi uma das minhas experiências de vida menos agradáveis. -
Ergui o olhar e por breves segundos ele cruzou-se com o do John Coffey. Os olhos dele estavam raiados de sangue e tinha as faces umedecidas. Uma vez mais, o homem havia estado a chorar. Ocorreu-me a imagem do Hammersmith a fazer com a mão o gesto de abocanhar, e senti o corpo percorrido por um pequeno arrepio. Voltei a dedicar toda a minha atenção ao Wharton.
Atiramos com ele para dentro da cela do isolamento, como se fosse uma saca de batatas, e vimo-lo no chão a escoicear dentro da camisa-de-força, junto do ralo onde em tempos havíamos procurado o rato que começara a sua existência no Bloco E sob o nome de Steamboat Willy.
- Não me incomodo muito se ele engolir a língua ou qualquer outra coisa e morra - disse o Dean na sua voz áspera e enrouquecida -, mas, rapazes, pensem na papelada a que isso dará origem! Nunca mais tinha fim.
- Não te incomodes com a papelada, pensa mas é no inquérito - atalhou o Harry com uma expressão desalentada. - Acabaríamos por perder a porra dos nossos empregos.
O nosso destino seria apanhar ervilhas no Mississípi. Sabem o que é o Mississípi, não sabem? É a palavra índia para olho do cu.
- Ele não vai morrer nem vai engolir a língua - atalhou o Brutal. - Amanhã, quando abrirmos esta porta, vão ver que estará bem de saúde. Acreditem no que vos digo.
E de fato foi assim que as coisas se passaram. O homem que conduzimos de regresso à sua cela na noite seguinte ia calado e pálido, dando a impressão de ter sido disciplinado.
Caminhava de cabeça baixa, não tendo feito menção de atacar alguém quando o retiramos da camisa-de-força, limitando-se a fitar-me com uma expressão absorta quando eu lhe disse que aquele processo se repetiria da próxima vez, pelo que ele só tinha de se interrogar sobre quanto mais tempo desejava passar a mijar nas próprias calças e a ingerir comida em papas que lhe eram dadas à colher.
- Eu porto-me bem, chefe. Já aprendi a lição - murmurou ele numa voz humilde e a medo quando o colocamos de novo na sua cela. O Brutal olhou para mim e piscou-me o olho.
Mais tarde, no dia seguinte, o William Wharton, que para si próprio era Billy the Kid e nunca aquele tarado do mato, o Hickok, homem cumpridor da lei, o Bill Selvagem, comprou um bolo ao velho Pouca Terra. O Wharton havia sido expressamente proibido de efetuar esse tipo de transação comercial, mas o turno da tarde era composto apenas por temporários, tal como parece que já vos disse, pelo que o negócio se verificou. Sem dúvida que o próprio Pouca Terra deveria ter estado alertado em relação a tal fato, mas para ele o carrinho onde transportava a comida era sempre uma fonte de lucro.
Nessa mesma noite, quando o Brutal efetuou a ronda, o Wharton estava de pé junto das barras da cela. Aguardou que o Brutal erguesse o olhar para si, depois bateu fortemente com a palma das mãos nas bochechas que estavam inchadas, fazendo jorrar da boca um jato espesso e espantosamente comprido de massa de chocolate, que foi acertar em cheio no rosto do Brutal. Tinha enfiado o bolo inteiro na boca, mantivera-o lá até se ter liquefeito e cuspira-o como se fosse um naco de tabaco mascado.