A Filha da Floresta
Capítulo Oito
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
— Para ti, isto não é fácil, pois não? — comentou ele. — Podias decidir-te a falar comigo, claro. Isso ajudaria muito. Mas vejo na tua expressão que não estás disposta.
Não posso.
— Diz-me uma coisa — disse ele, olhando-me de perto. — Se quisesses, poderias falar comigo agora? Poderias falar-me do meu irmão e do que lhe aconteceu?
Nunca conseguira mentir. Acenei com a cabeça miseravelmente, desejando que ele não continuasse.
— Por que não me dizes? — disse ele suavemente. — Deixar-te-ia ir, bem sabes. Fosse o que fosse que aconteceu a Simon, não deve ter sido feito por ti. Tu não passas de uma criança. Eu deixar-te-ia partir. Mas preciso de saber antes. Se ele está morto, então posso dizê-lo à minha mãe e assim a sua sombra descansará e tudo isto terminará. Esta guerra não é minha e não a continuarei. Não tenciono derramar mais sangue, nem que o dos meus homens seja derramado. Se ele está vivo, pode ser encontrado e eu hei de encontrá-lo. Não gostarias de saber, se ele fosse teu irmão?
Acenei com a cabeça e virei-me subitamente, de maneira a ele não me ver o rosto. Houve um longo silêncio. Senti que não devia sair de ao pé dele; as suas palavras tinham-me feito sentir mal. Não percebia por que me perguntava ele aquilo, quando guardara o que sabia para si próprio, escondendo-o da própria mãe e, pelos vistos, dos próprios amigos. Talvez, pensei, ele tivesse sido chamado para me proteger enquanto eu termino a minha tarefa, agindo assim contra a sua vontade. Se não, já me teria obrigado a fornecer-lhe a informação, tê-lo-ia já conseguido, sem dúvida. Não precisava de ser amável, não precisava de ter paciência. Mas mesmo que eu pudesse falar, não tinha verdadeiras respostas para lhe dar. Quando olhei de novo já ele tinha fechado o livro e pusera de lado a pena e o tinteiro.
— Preciso de fazer exercício com esta perna — disse ele, levantando-se. — Anda por este lado, quero mostrar-te uma coisa.
Ainda coxeava e eu consegui manter o passo, apesar das compridas pernas dele. Seguimos o caminho que rodeava o muro coberto de líquen do pomar e subimos uma colina, abaixo de uns carvalhos jovens, vestindo ainda as últimas folhas douradas. Alys trotava galantemente atrás de nós.
— Eu tinha cinco ou seis anos quando o meu pai e eu plantámos estes — disse ele. —
Ele tinha um grande respeito por árvores. Quando se cortavam, plantavam-se. Um carvalho
leva uma vida a crescer. Tal como o pai dele antes, via longe.
O caminho continuava a subir e as árvores espreguiçavam-se de um lado e de outro em filas ordenadas. Alys cansava-se e atrasava-se e nós esperámos que ela nos apanhasse. Era demasiado velha para continuar, mas recusou-se a ser carregada. No fim, convenci-a, por meio de gestos e expressões, que devia esperar ali por mim e ela deixou-se ficar, resmungando, sobre as folhas caídas no carreiro. Os seus olhos líquidos seguiram-nos reprovadoramente enquanto continuávamos a subir. Sentia-se uma brisa matinal, cortante; olhando para trás, vi as primeiras nuvens de fumo de fogueiras recentemente acesas na casa e nas cabanas. O povo começava a acordar.
Chegámos ao topo, onde estava uma grande pedra, isolada, rodeada de trepadeiras. A vista era vastíssima; reparei de novo como as terras dele estavam tão bem tratadas, limpas, controladas, como tudo estava bem, se assim se pode dizer. Não admira que todos tenham ficado surpreendidos quando ele decidiu trazer-me. Eu não fazia parte daquele padrão tão asseado. O rio espreguiçava-se preguiçosamente pelo vale; daqui, podia-se ver a vasta extensão do seu domínio, os campos amplos após a ceifa, com os molhos de palha cónicos, as vastas pastagens dotadas aqui e ali com animais, os moinhos e os celeiros, as cabanas brancas aninhadas entre as árvores. Tantas árvores; e os carvalhos, reparei, eram não só jovens, mas já os havia meio crescidos, e já adultos, e para leste eram grossos e velhos, quase uma floresta.
— Enquanto Simon aprendia as primeiras letras, eu vinha aqui para cima com o meu avô colher bolotas, vê-lo erguer um muro e ajudar as ovelhas a parir. Enquanto Simon atirava paus para o cão os ir buscar, eu plantava árvores com o meu pai, aprendia a atar feixes de palha e a cobrir um telhado de colmo para proteger a casa das tempestades. Enquanto Simon aprendia a matar um homem silenciosamente e a não deixar rasto, eu levava lenha aos camponeses para as suas fogueiras de Inverno e aprendendo os nomes de todas as pessoas do domínio. O meu irmão e eu passámos ao lado um do outro, como estranhos. O tempo muda as coisas. O meu pai morreu cedo, o que despedaçou o coração do meu avô. Ambos se foram. — Disse aquilo como se fosse um facto como outro qualquer; não havia maneira de dizer se lamentava ou não. Achei que lamentava. É difícil fazermo-nos compreender sem palavras, a não ser que o que se pretende dizer seja simples. De qualquer modo tentei, usando as mãos e os olhos. Aquelas árvores; tão antigas, certamente guardavam o conhecimento e a sabedoria de todos aqueles que tinham passado por aquele vale. Seguramente guardavam os espíritos dos homens que tinham trabalhado aquela terra com amor, com a força dos seus braços. Tentei mostrar aquilo a Red. Árvores velhas jovens. Homens velhos novos. Crescer. Coração. Vale coração.
Pelo menos não se riu de mim, antes me observou seriamente e acenou com a cabeça quando os meus esforços terminaram.
— Simon nunca compreendeu — disse ele. — Estava sempre ocupado com outra coisa qualquer, sempre para a frente, desafiando, tentando sempre algo novo. O que tínhamos nunca lhe parecia suficiente. No entanto, tínhamos tanto. — Baixou-se até ao chão; ainda não se sentia confortável com a perna. Apontei-lha e levantei as sobrancelhas, ao mesmo tempo que me sentava ao pé dele, mas não muito perto.
— A ferida está com bom aspecto — disse ele. — Não te preocupes, eu chamo-te quando chegar a hora de desfazeres o teu trabalho manual. Não deixaria mais ninguém tocar-lhe. — Usei os dedos para lhe dizer. 20 dias. Os pontos que eu suturara deviam ficar 20 dias sem serem tocados. Ligar e voltar a ligar a ferida. Um cataplasma. Talvez eu pudesse... E então tirar-lhe-ia os pontos e tudo ficaria bem. Red acenou com a cabeça; a mensagem fora mais fácil de transmitir, desta vez.
Ficámos sentados em silêncio por uns momentos a ver o dia a nascer, ouvindo os débeis sons da casa e da herdade a acordarem e a despontarem para a vida. Era um bom lugar, suficientemente perto do céu, suficientemente longe do homem.
— Quero avisar-te d— isse Red, torcendo uma erva entre os dedos. — Porque não sei bem se compreendes como é importante que faças como eu te digo; que deves permanecer perto da casa e não te afastares. Aqui é seguro, se bem que receie que nem todos os da minha família te tratem com gentileza. Isso pode alterar-se. Não são as pessoas desta casa que me preocupam. — Apontou para norte, para a entrada do vale. — Naquela direcção estão as terras do meu tio Richard — disse ele. — Ele é irmão da minha mãe, um homem poderoso, um homem de grande riqueza e influência. Foi uma batalha dele que o meu irmão foi combater; é a guerra dele, que tem custado às mulheres tantos filhos, maridos e amantes. O meu povo sente-se amargurado; será difícil para ele fazer-te sentir em casa. O que ele não consegue ver é que é esta demanda de um homem por poder, a sua sede de sangue, que mantém a velha guerra viva, que envenena as mentes dos homens, fazendo com que o sigam até à morte ou à destruição. O meu irmão era jovem; demasiado jovem para se empenhar em semelhante causa. Não tinha necessidade nenhuma de odiar. Mas Richard deslumbra-os, a estes jovens, com as suas palavras prontas. Talvez tu conheças tais palavras. Talvez tu tenhas ouvido esta história dos lábios do meu irmão.
Abanei a cabeça, espantada por ele ter decidido contar-me aquilo. Essa história, não. Para um homem que falava tão pouco, revelara-me mais dele próprio do que imaginava.
— Estás a tentar imaginar porque te disse eu isto — disse Red, parecendo ler-me os pensamentos. — Disse-to porque o irmão da minha mãe há de saber, em breve, que tu estás aqui. Ele tem informadores por toda a parte e ouvidos aguçados para os rumores. Há de ficar interessado. Mais do que interessado. Pode ser que nos faça uma visita. Podes não acreditar, mas há alguns na minha família que te ajudarão. Quero ter a certeza de que estarás preparada para uma tal visita. É por isso que preciso de saber por onde andas, sempre. Ele é um homem muito esperto. Convinha-lhe muito apanhar-te, como que por sorte, quando estás fora a cavalgar ou a passear sozinha, sem mais nada senão uma amostra de cão para te proteger. Quero que me prometas que não permitirás que isso aconteça.
É fácil, disse eu silenciosamente e expliquei-lho por meio de gestos. Por que não me fechas no meu quarto e metes a chave no bolso?
O mais estranho dos olhares passou-lhe pelo rosto, como se estivesse a fazer um esforço para não se rir.
— Não me parece — disse ele, levantando-se. — A luz não é boa para fiar. Além disso, como arranjava eu maneira de manter o Ben e o Jonh ocupados, sem nada para fazerem à noite? A ociosidade não é nada boa para a saúde. Não, não me parece que seja uma boa ideia. Então, prometes-me?
Acenei com a cabeça. Tinha a certeza que não esperava menos. Não era verdade que todos faziam o que ele dizia?
A conversa parecia ter acabado. Estendeu uma mão para me ajudar e eu tomei-a sem pensar, abafando um grito de dor quando ele ma agarrou com firmeza. O que não lhe passou despercebido. Os olhos azuis-claros concentraram-se nas minhas mãos, abrindo-as para as inspeccionar. As suas próprias eram suficientemente grandes para se fecharem em volta das minhas por completo; mas ele relaxara o aperto até um mero toque, examinando a aspereza da pele, o começo de uma ferida aberta, o remanescente dos espinhos da morugem. As minhas mãos não eram nada agradáveis à vista. Senti-me desconfortável, tão perto dele. O rosto dele mostrava pouco dos seus sentimentos.
— Não gosto — disto comentou ele sem ênfase. — Talvez devesse fechar-te, no fim de contas. Mas duvido que isso te impedisse de continuar, fizesse eu o que fizesse, não é verdade?
Disse que sim com a cabeça.
Não faças demasiadas perguntas. Há coisas que não devo dizer. Não te aproximes.
— Devia estar louco — disse ele para si próprio deixando-me cair as mãos, e começámos a descer a colina. — Todos dizem o mesmo. Louco ou enfeitiçado. Estão cheios de teorias. Eu não me preocupo com elas. De qualquer maneira, podemos ser um pouco melhores do que temos sido.
O terrier já estava descansado e recebeu-nos com um latido agudo e umas violentas abanadelas de cauda. Fartou-se de fazer cabriolas à nossa frente, cheio de importância. Havia olhos em nós à medida que íamos caminhando, mas nada mais foi dito senão «Que bela manhã, meu senhor!» e «Parece que vamos ter bom tempo». Achei que havia em redor dele um espaço encantado e que, enquanto estivesse dentro dele, estaria segura. Se me aventurasse para fora, a história seria diferente. O que não me dava nenhum conforto, porque não gostava de estar dependente de nenhum homem, quanto mais daquele bretão de olhos vivos, que não me dera outra escolha senão a de abandonar a minha terra. E não tinha ilusões quanto aos esforços dele para me proteger, já que eram apenas os seus. No fim, teria conseguido o que queria de mim e pronto. Tira-se o sumo de um fruto maduro, atira-se a casca fora, os corvos vêm e debicam o que sobra até ao último bocado. Se bem que, no fim de contas, pouco interessasse. Porque nunca lhe diria uma palavra até as camisas estarem terminadas. Quando estivessem, então tudo mudaria. Quando os meus irmãos regressassem. Se regressassem.
Fiquei com a certeza, à medida que o tempo passava e a Lua aumentava e diminuía, que havia uma efectiva rede de protecção à minha roda, controlada por Red, como tudo o mais no seu domínio. Havia Margery, que em breve se tornou numa amiga. O que era uma novidade para mim. Nunca tivera uma amiga, se não se contasse com Eilis, que eu sempre achara chata e tola, se bem que não desgostasse do gosto dela por homens. Margery era doce, mas também forte, de uma maneira que se me tornou aparente à medida que os dias se seguiam e ela me defendia dos comentários das outras mulheres com firme polidez, continuando com as usuais pequenas gentilezas para comigo. Foi forte quando admoestou a rapariga que disse, meio a brincar, que Margery não devia deixar que eu lhe tocasse no estômago onde crescia agora o bebé, grande e pesado, não fosse eu lançar-lhe uma maldição e ele nascer morto ou deformado. Foi forte quando perguntou a Lady Anne, muito cortesmente, se eu podia ter outra muda de roupa e uma boa lâmpada de óleo no meu quarto, à noite. Começou a falar comigo sobre outras coisas; sobre como tivera saudades de John quando ele estivera ausente e o bebé a crescer rapidamente no útero. Como esperavam ansiosamente aquela criança, porque ela tivera antes uma que apenas vivera uns momentos e já tinham passado tantas luas desde que a tinham posto a descansar sob os grandes carvalhos. Sobre como Red não quisera que John fosse com ele para o outro lado do mar, porque, dizia ele, um homem deve ficar com a sua mulher numa ocasião destas e que seria suficiente levar Ben. Como John também fora, porque tinha tido sonhos maus, pressentimentos e temia pela segurança de Red. E como John temia que Red tivesse abandonado a busca a meio, para que o companheiro pudesse chegar a casa a tempo.
Não era que ninguém tivesse tentado encontrar Simon quando ele desapareceu. O irmão de Lady Anne, Richard, instigara uma busca que não fora em vão, porque descobriu 12 dos seus homens degolados. Mas o filho mais novo de Harrowfield não estava entre eles. Assim, finalmente, Red decidira ir e ver por si próprio. E pela mãe. Margery disse-me que tinham ficado todos aliviados por apenas a perna de Red ter ficado ferida e por ter regressado, trazendo-me consigo. John dissera que esperava que não houvesse mais surpresas. Geralmente, com Red não aconteciam surpresas. Ele era o centro forte e imutável em volta do qual todo o seu pequeno mundo rodava. Comecei, gradualmente, a perceber a magnitude da sua decisão em me trazer com ele.
A rede continuou apertada em volta de mim. Fui fiel à minha promessa e não me aventurei sozinha para lá das proximidades da casa. As manhãs eram passadas na sala de costura e os comentários sussurrados e olhares dissimulados das mulheres continuaram, mas Margery estava presente e a sua calma presença e sorriso doce faziam com que a dor fosse mais fácil de suportar. De tarde, fazia um pequeno intervalo na minha tarefa, já que as minhas mãos me doíam demais para me permitirem trabalhar o dia todo. Às vezes sentava-me no jardim e Ben aparecia inesperadamente, de pá na mão. Era simples mostrar-lhe o que precisava de ser feito. Ele tinha uns braços fortes e um vasto repertório de anedotas tolas. Outras vezes aparecia John enquanto eu me sentava no muro de pedra a admirar as ovelhas, pálidas e prístinas após a tosquia do Outono e ia comigo até ao rio, falando de tudo e de nada, sentados, como companheiros, sobre as rochas, enquanto eu chapinhava com as mãos e os pés e Alys caçava esquilos ao longo das margens. Mas não esquecera a minha tarefa e estava dolorosamente doente da lentidão dos meus progressos, apesar dos benefícios da boa comida e abrigo, de um fuso adequado, de uma roca e de um tear. Terminara a terceira camisa, que era a de Cormack e estava a fiar o fio para a de Conor. Não tinha esperança de as terminar antes do solstício do Inverno.
Não via muito Red e perguntava-me se sentiria falta das conversas comigo. Ocorreu-me que, devido ao meu silêncio, já que nunca lhe podia responder, ou repetir as suas palavras, ele falava comigo como se falasse com ele próprio. Não me evitava, propriamente; estava muitas vezes por perto, indo de um lado para o outro nos trabalhos da herdade e vigiava-me, mas nunca mais voltou a falar comigo a sós. À noite, a vigília continuava no lado de fora da minha janela.
O irmão de Lady Anne levou tempo a aparecer. Estava-se perto de Samhain, o ar estava frio e as últimas folhas caíam dos carvalhos e das faias. Lorde Richard apareceu com grande pompa, cavalgando ao longo da avenida de álamos nus com a sua companhia montada em cavalos parecidos e os seus acompanhantes bem-vestidos de seda e veludo, para impressionar. Observámo-los das janelas da grande sala, Margery e eu, enquanto Lady Anne e as outras mulheres pousavam o trabalho e se apressavam. Era preciso fazer preparativos e rapidamente, para semelhantes visitantes.
— É a filha dele — disse Margery e eu vi a alta e sumptuosa rapariga cavalgando ao lado do chefe, o cabelo castanho suave apanhado atrás, numa rede adornada de jóias. — Chama-se Elaine. Elaine de Northwoods. Richard não tem filhos. Quando ela se casar com Red, os dois domínios ficarão ligados. Quem os controlar, fica com a melhor parte costeira do noroeste nas mãos.
Observei a cavalgada até aos degraus da entrada. Lady Elaine tinha as costas muito direitas; fazia uma bela figura nas suas largas vestes de montar e nas suas pequenas botas negras. Foi o próprio chefe da casa que a foi ajudar a descer do cavalo. Como não estava preparado para a visita, vestia ainda as roupas de trabalho e um cheiro duvidoso a estábulo. O sol da manhã tocou-lhe no cabelo cortado curto, provocando-lhe reflexos de fogo.
— Uma aliança estratégica — observou Margery secamente. — Prometidos um ao outro desde crianças. Tal casamento, entre primos, é, geralmente, proibido. Mas o pai dela tem amigos em lugares-chave. O bispo foi persuadido a dar a sua aprovação. Acontecerá no próximo Verão, penso. Já devia ter sido há mais tempo; mas Red foi para fora, em vez disso. Richard não gostou nada.
Olhei para Richard de Northwoods enquanto ele desmontava com um movimento fluido e passava as rédeas ao servo que esperava. Vinha vestido de negro e movia-se com a mesma elegância sem esforço da sua filha. Vi-o saudar Red, apertar-lhe o braço e depois saírem da minha vista.
Não regressei ao meu quarto nesse dia. Em vez disso, Margery levou-me até à parte da casa onde ela e John viviam e mostrou-me o berço de madeira com bolotas e folhas gravadas na cabeça e nos pés, recentemente forrado com linho suave e lã; e as minúsculas roupas que fizera. Manteve-me ali durante um certo tempo, com uma coisa e outra e eu observei-a, preocupada. Andava demasiado ocupada, pensei, para quem transportava uma criança tão grande, o rosto inchado, assim como as ancas, coisas que eu já tinha visto em mulheres já perto do parto; não era bom sinal. Quis falar com ela sobre o assunto, talvez perguntar-lhe se a podia tocar, sentir a criança; mas não esquecera as palavras da mulher. É melhor não a deixares aproximar-se do teu bebé, não vá ele nascer mono ou deformado. E ela já tinha perdido um.
Porém, a jovem facilitou-me a tarefa.
— Jenny — disse ela, sentando-se ao pé de mim e trazendo uma caixa de bálsamo e um instrumento que me era desconhecido, que eu soube mais tarde servir para as mulheres arrancarem pêlos das sobrancelhas, das faces, ou de onde quisessem. — Espero que não leves a mal — disse ela timidamente. — Mas nós... eu pensei, as tuas mãos não precisam de sofrer tanto, se tiverem uma pequena ajuda. — Gostaria que parasses com esse teu trabalho, mas disseram-me que não o farás e não vale a pena pedir-to. Pelo menos, deixa-me tirar-te alguns desses espinhos e passar-te um pouco deste bálsamo pelas mãos. Desse modo, penso que poderás movimentar melhor os dedos e talvez a dor seja menor. — Começou a trabalhar nas minhas mãos e eu rendi-me aos seus cuidados, fechando os olhos. E vi Finbar, tantos anos antes, com a língua entre os dentes, usando dois paus aguçados para retirar os espinhos, enquanto eu chorava, em voz alta, lágrimas não reprimidas de criança e Conor contava uma história. O nome dela era Deidre, Dama da Floresta...
— Estou-te a magoar muito? — perguntou Margery ansiosamente e eu estremeci e pestanejei.
Havia lágrimas nos meus olhos. Abanei a cabeça e esbocei uma espécie de sorriso.
— Deve ser muito difícil para ti — disse ela, puxando pacientemente os finos espinhos, um a um. — Não falar, quero dizer. Deves sentir-te tão só. E tão longe de casa. Suponho que tens família, irmãos e irmãs. Deves ter imensas saudades deles.
Acenei com a cabeça.
Não te aproximes demasiado.
— Eu tenho uma irmã — disse ela. — Mas eu casei com John, vim para aqui e ela ficou em casa. É muito longe. Não a vejo há dois anos, desde que...
Desde que perdeste o teu bebé, pensei. Chegara a hora de perguntar. Mas eu não podia falar sem as mãos, ela tinha-as cativas até o trabalho estar terminado e a mistura curativa de consolda e campainhas, com a cera de abelha e um óleo aromático, foi-me aplicado na pele ferida.
— Far-te-ei isto todas as tardes — disse ela. — Não precisas de as ter piores do que o necessário. — Deu um súbito bocejo, enorme. — Oh, meu Deus. Desculpa. Tenho andado um pouco cansada, ultimamente.
Gesticulei o melhor que pude.
Devias descansar. Criança muito grande. Descansa, dorme.
Margery riu-se.
— Não tenho essa sorte! Há muito que fazer para Lady Anne e tenho que manter o John feliz. Ele é um bom homem; foi difícil, quando ele esteve fora. Agora não quero perder um único minuto.
Tentei de novo, indicando que gostaria de lhe tocar, sentir como estava a criança. Ela ficou séria, de repente.
— Se queres — disse ela e havia um toque de ansiedade na voz dela. — Tu sabes mais destas coisas do que eu, espero, se bem que sejas ainda tão pequena. Temos aqui uma parteira; ela fará o que for preciso, suponho, quando chegar a altura.
O bebé ainda estava muito acima, no útero e a cabeça dele estava mesmo por baixo dos seios. Ainda estava a tempo de virar, mas não muito. Dava pontapés e torcia-se, demasiado grande para se sentir confortável. Dei a Margery o melhor sorriso que consegui. O bebé está bem. O que era verdade, pelo menos por agora. Mas tu tu deves descansar. Descansar Dormir. Era fácil demonstrar-lho com as mãos e os olhos. Se ela o pudesse ou quisesse fazer, isso era outra história.
Tinha a minha trouxa comigo e tirei dela o pequeno novelo de fibras de morugem, que era tudo o que me restava. Puxei-a pelo braço, apontei para o que tinha na mão e tentei mostrar-lhe uma planta a crescer até ao joelho ou um pouco mais. Fortes caules a estenderem-se. Fui até à janela, fiz um gesto na direcção do vale e virei-me com uma pergunta nos olhos. Onde? Onde é que ela cresce?
— Oh, Jenny — disse ela reprovadoramente. — De certeza que não queres continuar com isto? Magoa-te tanto.
Agarrei-a pelos ombros e acenei com a cabeça. Oh sim. Ajuda-me.
— Preferia não ser eu a dizer-te — disse ela e por um momento o meu coração parou, porque pensei que ela ia dizer que a planta não crescia ali. — Não gosto nada do que estás a fazer a ti própria e Red também não. Mas esta planta, a que chamamos zaragatoa, cresce muito por aqui. Mas não aqui, perto da casa; mais para norte do vale, do outro lado do rio, subindo uma ravina por onde corre um ribeiro. Há lá uma ponte. É muito longe. Se precisas de mais, é melhor mandares o John ou o Ben buscar-ta. Se quiseres, peço ao John.
Mas eu abanei a cabeça, porque devo ser eu a colher a planta. A Dama da Floresta tornara isso bastante claro. Dei a Margery um abraço de conforto e agradecimento.
Lorde Richard tinha que me ver, mais tarde ou mais cedo. A intimação foi-me trazida por Megan, que de todas as servas parecia a que menos me temia. Eu devia ir ao salão, disse ela. Eu e Margery. Lady Anne disse que devíamos estar todos presentes, como sinal de respeito para com os nossos visitantes. Imediatamente, disse Lady Anne. Margery fez uma careta e disse a Megan que Lady Anne teria que esperar. Não parecia particularmente apressada. Desfez-me a trança, escovou-me o cabelo e entrançou-mo de novo, murmurando para si própria.
— Nunca vi cabelo mais indomável! Passo o pente e logo estes caracóis saem do sítio, como se tivessem vida própria. Bem, terá que servir. Não podemos fazer Lady Anne esperar eternamente. Ela tem uma língua afiada, quando quer usá-la. Cabeça direita, Jenny, estás muito bem assim.
Segui-a ao longo do átrio e pela escadaria de pedra abaixo até ao andar inferior. Talvez não fosse assim tão mau, disse para mim própria. No fim de contas, vai lá estar toda a gente; podemos esgueirar-nos, ficar atrás de toda a gente, fazer uma aparição para satisfazer a dona da casa e depois desaparecer. As minhas mãos estavam melhor; talvez voltasse para o meu quarto para fiar um pouco mais. Seguramente, ninguém daria pela minha falta.
As minhas esperanças desvaneceram-se assim que entrei no salão. Porque se tratava de uma reunião selecta. Não havia possibilidade de anonimato. Lady Anne estava sentada num dos lados da lareira e Elaine no outro. Esta tinha o porte de uma rainha e o rosto era tão delicado e fino como a flor mais premiada de um jardineiro. Os seus grandes olhos azuis observaram-me tranquilamente, sem qualquer tipo de julgamento. Ao lado dela senti-me como a criança selvagem, grosseira, que todos, sem dúvida, me julgavam.
Red estava ao pé da janela, de costas para a sala. Perto dele estava Lorde Richard e eu pude ver, mais de perto, parecenças de família; não muitas, mas elas estavam lá, no cabelo claro acinzentado levemente ondulado e o mesmo olhar perspicaz, calculista, que eu vira nos olhos de Lady Anne. Não era um homem particularmente alto; Red era bem uma cabeça mais alto do que ele. Mas havia nele uma autoridade, uma presença, algo que se sentia instantaneamente. Algo que me pôs em guarda. Sentirás uma certa dificuldade, dissera Red, falando do tio e como seria quando eu o conhecesse. Mas tudo bem. Eu era filha de Lorde Colum de Sevenwaters. Por que haveria de me sentir assustada com um bretão qualquer, mesmo que o seu nome fosse Northwoods?
— Então é esta a rapariga — observou Lorde Richard. A sua voz era propositadamente suave. Suave, pensei, como a pata de um gato quando brinca com um rato. — Bem, avança. Deixa-me olhar para ti, rapariga.
Margery deu-me um ligeiro empurrão nas costas e retirou-se para o canto mais longínquo do salão, onde estava o seu marido, que parecia querer confundir-se com a tapeçaria na parede. Vi que Ben também lá estava; deu-me uma piscadela de olhos tranquilizadora e Lady Anne franziu as sobrancelhas. Havia também dois ou três homens com as cores de Richard, castanho-avermelhado com laivos negros e todos eles olhavam para mim. Red não se virara. Olhei para Lady Anne. Ela acenou-me com a cabeça, um aceno frio e eu avancei um passo, dois passos. Mantive a cabeça bem direita. Olhei-o bem nos olhos. Eu sou a filha da floresta. Não tenho medo de ti.
— É mais nova do que pensava — disse Lorde Richard, escrutinando-me de perto. — Não que isso faça alguma diferença. Está-lhes no sangue, absorvem-no com o leite das mães. Uma espécie de raiva; uma dedicação cega que gera assassinos, fanáticos e loucos. Duvido que algum dia aceitem que o que lhes tirámos nunca lhes pertenceu por direito. Umas reles rochas no meio do mar, uma caverna ou duas, um par de árvores atrofiadas. Mas matam por isso. Morrem por isso. Até que o último caia a fio de espada. Está-lhes no sangue. Reparai no porte dela e no ódio que lhe vai nos olhos. Uma causa perdida. Mas pode ser-nos útil, irmã. Ouvi dizer que não é nenhuma rapariga de aldeia. Pode render-te ouro; o suficiente para comprar uma bela parcela de terra na tua fronteira sul, ou construir uma poderosa torre de menagem. O suficiente para uma bela troca de armamento ou um belo garanhão. Quem é ela? Que família abre assim as garras e entrega assim, de mão beijada, um pedaço destes? Como é que te chamas, rapariga?
Mantive o meu olhar fixo no dele, resoluta.
— Ela não fala — disse Lady Anne. — Esta rapariga tem uma... uma doença qualquer. Creio que não tem os parafusos todos e insiste em magoar-se a si própria. Não sabemos quem ela é.
O tom dela era apologético; pensei que estava embaraçada e receosa. Mas ele era irmão dela. Talvez eu estivesse enganada.
— Não fala? — perguntou Richard suavemente, inspeccionando-me sob todos os ângulos. — Ou não quer falar? — Tinha as mãos juntas atrás das costas; mantive-as descontraídas, respirando devagar. Arrisquei um olhar para Red. Não dissera ele que me ajudaria? Parecia muito interessado no que se passava no exterior.
— Onde a encontraste, Hugh? Um troféu de alguma batalha?
— Pai. — Fora Elaine que falara, surpreendendo-nos a todos, penso. — Não deveis falar da rapariga assim, como se ela não vos compreendesse. Como se não estivesse aqui.
Richard riu-se. Não era um som agradável.
— A tua amabilidade faz-te justiça, minha querida. Mas esqueces-te que esta gente não é como tu, ou como eu. Se visses as coisas que eu vi, se tivesses testemunhado as atrocidades. Deus queira que nunca sejas exposta a tais horrores. Não imaginas, com certeza, que isto pensa e sente como tu, a filha de uma das maiores famílias de Northumbria. Ela é menos do que o chão que tu pisas com a tua bota, minha querida. Além disso, não acredito que uma rapariga da idade dela seja capaz de compreender a nossa língua. A educação dela deve ter sido bem rudimentar, se teve alguma. A não ser, claro, que tenha sido treinada para espia. Isso levanta questões mais interessantes Pensaste nisso, quando a trouxeste para cá?
Elaine fez menção de falar de novo, mas depois pensou melhor. Richard continuou o seu passeio.
— Ela não nos pode dizer quem é murmurou. Que conveniente. Dá muito jeito. Portanto, não podes conseguir um resgate por ela. Eu posso tentar adivinhar, talvez. Talvez esta rapariga tenha ouvido falar de Seamus Redbeard, cujos bárbaros assassinaram homens bons nos desfiladeiros por cima do grande lago? — Olhou para os meus olhos e de súbito senti-me como se estivesse defronte de Lady Oonagh, fazendo apelo a toda a minha força de vontade para não mostrar o menor sinal de conhecimento, mantendo o rosto tão imóvel como uma pedra. — Talvez ela tenha ouvido falar de Eamonn de Marshes, cunhado de Redbeard; o truque dele é a utilização do fogo, de noite. Um fogo bem quente, que só deixa ossos. — Circulou de novo em volta de mim. — Talvez ela tenha ouvido falar de Lorde Colum de Sevenwaters, o mais esquivo de todos, uma seta na minha carne, se eu tivesse uma. Foi contra ele que a fina-flor dos meus homens morreu. Talvez ela tenha ouvido falar deles. Porque todas as raparigas são filhas, ou irmãs; a não ser que acreditemos em fadas. Olha para mim, rapariga. De quem és tu filha?
Silêncio. O silêncio era a única defesa. Inspirar; expirar. Tentar não pensar em nada. Tentar sufocar a raiva que me ia no peito; tentar afastar a dor do rosto. Os teus pensamentos brilham nos teus olhos como faróis; os teus e os de Fimbar. Escondê-los. Imóvel. Imóvel como uma pedra.
— És demasiado brando, Hugh. Isto podia ser como uma brincadeira de crianças. Mas tu nunca gostaste de ter sangue nas mãos.
Virou-se para Lady Anne.
— E o teu filho mais novo, irmã? Quanto darias para o teres em casa, são e salvo? Se ela te pudesse levar até ele, não a farias falar por todos os meios? Seria fácil fazê-la falar, tão fácil. Mas aqui o Hugh, por razões que só ele sabe, não parece preparado para o fazer. Isso faz-me pensar. E levanta muitas outras questões.
Não olhar para Lady Anne. Respirar, apenas. Para dentro. Para fora.
— Ela não passa de uma criança — disse Red, muito sereno. E de súbito percebi que tudo aquilo não era comigo. Era-lhe destinado. Fazia parte de um jogo que apenas aqueles dois homens compreendiam. Era uma espécie de teste. Mas, qual deles estava a ser testado? — Não tem nada a dizer. Ajudou-me quando eu estava em dificuldades; ofereci-lhe abrigo. É tudo.
Houve um silêncio completo na sala. Richard ergueu as sobrancelhas, zombeteiramente.
— Esta criança? — disse ele, insinuante. Tinha as costas viradas para a filha e para Lady Anne. A sua mão levantou-se, um dedo tocou-me na face delicadamente e depois percorreu-me lentamente o rosto, o pescoço e o seio, mesmo acima do decote do vestido. Senti o sangue fugir-me do rosto, as minhas entranhas apertaram-se devido a terrores recordados e suspendi a respiração. Não vi Red mexer-se, tão rápido ele foi. Mas ali estava ele com a sua grande mão em volta do braço de Richard, firme, desviando-o.
— Chega — disse ele suavemente. Não precisava de levantar a voz; o tom dizia tudo. — Estais em minha casa, tio. A dama é minha hóspede. Talvez não tenha sido muito claro.
— Oh, foste muito claro, Hugh, meu rapaz, claro como cristal. — Esfregou o braço com uma expressão comicamente pesarosa. Tinha um vasto repertório. — Espero que seja tão claro para a tua mãe, é tudo o que posso dizer. Talvez ela se sinta menos entusiasmada com a ideia de dar abrigo a esta... dama. — A pequena pausa antes da última palavra fora requintadamente programada. Mas tinha feito uma leitura defeituosa da audiência. Elaine tinha as sobrancelhas levemente franzidas, como se estivesse a pensar intensamente. Lady Anne sentia-se incomodada. No entanto, fez-me sinal e eu, reunindo a dignidade que me restava, abandonei o centro da sala, onde me encontrava, gelada e fui sentar-me no banco bordado a seu lado. Com aquele gesto disse mais do que muitas palavras. Podia não aprovar o que Red fizera; mas ele era filho dela, aquela era a casa dele e ela faria sempre com que os seus hóspedes fossem tratados de maneira correcta, por mais que lhe custasse.
Suportei a refeição da noite. Desta vez estava mais bem protegida, porque a família estava reunida, Lady Anne no seu lugar habitual, à direita do filho e Elaine à direita dele. Lorde Richard estava sentado ao lado da irmã, eu sentia os olhos dele em mim e fiz os possíveis para não olhar para ele. No fundo da mesa, vi-me entre John e Ben, com Margery em frente. O que anulava qualquer necessidade de ouvir o que se dizia, ou afivelar uma expressão diferente. Os três mantinham uma conversa animada acerca de diversos tópicos, sobre a feira de Inverno em Elvington, se o sicômoro ou a nogueira eram boas madeiras para fabricar mobília, ou sobre os méritos da nova porca de Red. Arranjaram maneira de me incluir na conversa e utilizaram uma variedade imaginativa de expressões e gestos, provocando uma certa hilaridade no nosso grupo. Por uma vez ou duas, ao olhar para a cabeceira da mesa, apanhei o olhar de Red, nem aprovador, nem desaprovador, anotando apenas. Passou muito tempo numa calma conversação com Elaine. Estavam bem um para o outro, pensei. Amigos de infância, sabiam qual era o seu lugar no mundo e trabalhariam bem os dois juntos para manterem o que tinham. Ela impressionara-me, na sua tentativa para fazer frente ao pai. Além disso, eram ambos altos e bem constituídos e teriam belos filhos. E recordei as expressões nos rostos de Liam e de Eilis na noite dos seus esponsais; como olhavam um para o outro, como se não existisse mais ninguém no mundo. Não vi essa expressão no rosto de Red, nem no de Elaine. Talvez os Bretões sejam assim, pensei. Não mostrarem o que sentem. Em vez disso, fecham-se à chave, para que ninguém veja. Mas havia excepções, pensei, ao ver Margery partilhando uma anedota com o marido e ao ver o rosto de John passando-lhe um prato de pão, do qual ela retirou um pedaço, tocando-lhe na mão. Havia aqueles cujo amor transparecia de cada gesto, partilhado assim por todos aqueles que os conheciam. Mas eram raros.
Dormi mal; os demónios nocturnos eram poderosos, agarrando-se a mim até no sono e era um alívio acordar, finalmente, fria e encharcada em suor e ver, através da minha janela redonda, os primeiros sinais da alvorada no céu. Lavei-me com água fria e cobri a camisa de noite com uma capa, porque sentia claustrofobia e precisava desesperadamente de ar. Desaferrolhei a porta e saí suavemente para o jardim, de pés descalços, sobre as pedras frias. Alys seguiu-me com alguma relutância, movendo-se rigidamente na madrugada gelada. Dentro de dias gelaria tudo, pensei. Isso era bom; talvez na Primavera eu visse o chão atapetado de junquilhos e açafrão. Hoje estaria bom tempo; podia ainda ver estrelas no céu, onde a cor púrpura se desvanecia e se transformava em cor-de-rosa, para depois passar ao dourado da madrugada.
Alys emitiu uma pequena rosnadela quando nos aproximámos do fundo do jardim. No banco por baixo do muro estava Red a dormir. Este mal tinha tamanho para lhe acomodar o grande corpo; o bretão tinha os braços cruzados por trás da nuca, uma perna estava estendida ao longo do banco e a outra pendurada. Teria umas quantas dores quando acordasse. Tinha consigo a espada e a pequena faca na bota; mas neste momento qualquer estranho acabaria com ele. Fiquei ali quieta, enquanto a madrugada lhe tocava no rosto com a sua luz rosada, lhe corria pelo nariz direito, pelos maxilares bem definidos e pela larga e descontraída boca. A vida está boa para alguns, pensei.
Não levou muito tempo a acordar. Quando o fez, foi com um movimento suave, com ou sem dores, pondo-se de pé instantaneamente alerta, a mão pronta no punho da espada. Alys emitiu um latido de medo. Então, Red viu quem era e sentou-se de novo, coçando a cabeça pesarosamente.
— A dormir em serviço. Nada bom — disse ele, pestanejando. — Devia estar mais cansado do que pensava. O dia de ontem não foi dos melhores.
Acenei com a cabeça. Ficava aquém da realidade. Olhou melhor para mim, perspicazmente.
— Estás com um aspecto horrível — disse ele.
Obrigada. A minha expressão deve ter-lhe dito como me sentia.
— E os teus pés devem estar gelados. Senta-te aqui. — Sentei-me no banco com os pés debaixo do corpo e enrolei-me na capa para os cobrir. A pedra estava fria, mas era um frio bom, aquele frio de Inverno que adormece o jardim, sonhando com o renascimento da Primavera.
— Não tens dormido — disse Red e estendeu uma mão para me tocar no rosto. Recuei e ele deixou-a cair. — Tens olheiras enormes por baixo dos olhos e estás branca como a cal. Lamento o que aconteceu ontem. Eles vão-se embora esta manhã. Não quero que te sintas assustada.
O que eu queria dizer não podia ser traduzido por meio de gestos.
Tu não ajudaste muito. Por que não o detiveste mais cedo? Não conseguia pensar numa maneira de lho dizer. Em vez disso, encolhi os ombros.
— Estou a falar a sério, Jenny. Garanto-te que não o voltará a fazer. Não foi justo para ti, nem para a minha mãe. — Perscrutei-lhe o rosto. Achei que lutava contra si próprio, pouco seguro das suas palavras.
— Ele... não, deixa-me dizer de outro modo. O meu tio é da família. Tenho que aceitar isso. Pelo menos por agora. Deixei que ele falasse, para o caso de... não, não tenho necessidade de te sobrecarregar com isto.
Com quê? Sobrecarregar-me com quê? Daquele homem, com a sua língua suave e mãos arrepiantes, sorriso sempre pronto e palavras venenosas, espera-se tudo. Já deve ser bastante mau tê-lo como tio. Eu não gostaria nada de o ter como sogro, se pudesse escolher. Mas parecia que, para Red, a escolha já estava feita.
— Eu sei porque é que Simon se foi embora — disse Red em voz baixa. Senti, de novo, que falava para si próprio, não para mim. Punha os seus pensamentos em ordem. Dizendo coisas que normalmente não se dizem em voz alta. — Não sei se compreendo bem porque não voltou. Há várias maneiras de conduzir uma campanha e Richard conhece-as muito bem; seja o que for que penses dos motivos dele, é um profissional com anos de experiência no assunto. Esta campanha foi diferente. Não se monta um acampamento no coração do território inimigo, se sabemos do que ele é capaz. Não se colocam os homens todos numa posição vulnerável, para os perder numa única emboscada. Quando se dorme, colocam-se vigias. E, geralmente, não é o recruta mais novo e mais cru que é escolhido para tal missão. Por que é que ele não morreu, como os outros? — Correu a mão pelo cabelo curto, franzindo as sobrancelhas. — Simon era valioso como refém, sei isso muito bem. Mas não houve qualquer pedido de resgate, nenhum contacto, nada. E nem qualquer sinal dele, quando lá estive. Nada; excepto...
Excepto o que eu tinha, pensei. E que passou a ser precioso para ti.
— E quando o próprio Richard foi em busca dele — continuou Red e eu pensei que ele se tinha esquecido que eu estava ali — o que ele nos disse... não bate certo. John disse o mesmo. O que ele nos disse, como eles foram chacinados, como os homens de Erin apareceram de noite... não acontece com homens experientes. Não daquela maneira. Richard disse... Deu a entender... que foi culpa de Simon, que o meu irmão, de algum modo, os traiu, atraiu o inimigo. Mas eu conheço o meu irmão. Pode ser insensato, teimoso, infantil para a idade. Mas não é um traidor.
Acenei com a cabeça. Sabia que Simon não era nenhum informador. Tivera fé nele, mesmo quando ele a perdeu.
— Há uma verdade por descobrir nisto tudo — disse Red. — Há de haver uma verdade nesta história. Esperava, ao ir em busca de Simon, descobrir a verdade, se bem que ao fim de tanto tempo tivesse poucas esperanças de que ele ainda estivesse vivo. Mas não encontrei respostas. Regressei sem elas e com uma mão cheia de perguntas. Ao deixar o meu tio falar, ontem, esperava descobrir outra pista. Foi por isso que o deixei ir tão longe e estou arrependido. Usei-te como peão e magoei-te.
O dia estava a ficar mais claro. O que era bom para o movimento das mãos.
Podias voltar lá. Procurar de novo. Talvez o encontrasses. Podias levar-me contigo. E então, pensei, quando os meus irmãos regressassem, eu estaria lá, à espera deles.
Red olhou para mim, sério. Era evidente que me tinha compreendido.
— Não posso sair daqui por uns tempos. Há muito que fazer; estive fora durante muito tempo e tive que deixar outros encarregues das colheitas e da separação do gado. O rio pode transbordar antes do solstício do Inverno e... — interrompeu-se ao ver a minha expressão. — Não quero voltar, ainda não — disse ele. — A minha ausência de Harrowfield deixa vulneráveis todos aqueles que me são queridos. Estamos em época de mudança, com um novo Rei no sul, que ainda não conhecemos. Duvido que Ethelwulf tenha a força do pai e isso deixa-nos a descoberto perante os Dinamarqueses. O meu dever é aqui, por agora. O meu irmão escolheu ir. Escolheu esse caminho. Não vou perder tudo o que tenho para o trazer de volta. Mas não esqueço. Nem receio derramar sangue, por mais que o meu tio diga. Se Simon está vivo, hei de encontrá-lo. Se for preciso, espero.
Antes de deixar o local, disse-me para ir para dentro, fechar a porta e ficar dentro de casa até ser dia claro.
— Faz o que eu mando, Jenny — disse ele. — O perigo é grande. Já o viste. Talvez eu esteja enganado; talvez me engane a respeito do meu tio. Espero que sim. Ele vai-se embora esta manhã, mas tenho a certeza de que há de voltar para tentar de novo. Ele já te viu. Sei como trabalha a mente dele; a tua força é um desafio para ele. Lembra-te da tua promessa.
Lembrei-me e, sentada muito quieta no meu quarto, com apenas Alys como companhia, lembrei-me de muitas outras coisas, também. Em particular, lembrei-me da Dama da Floresta e de como ela lhe dissera Faz com que ela não seja magoada de novo. E de como ela me disse Já não precisas de ser tão forte. Qual era o jogo das Criaturas Encantadas, que até usavam os Bretões como peões? Encarregarem Lorde Hugh de me proteger, quando isso ia contra qualquer escolha lógica que ele pudesse fazer? Bem, não havia ninguém ali a quem perguntar. Ninguém, senão eu e a pequena Alys. Peguei na agulha e no fio áspero e, à medida que a luz chegava, comecei, laboriosamente, a acabar o quadrado que tinha começado, ponto por doloroso ponto. A primeira parte da camisa de Conor.
Após aquela ocasião, a vida assentou um pouco. O tempo tornou-se invernoso, com as geadas que eu antecipara como mero prelúdio dos dias de tempestade e chuvas geladas que transformaram o solo em lama.
As carroças ficavam atoladas e os homens imundos, tentando desatolá-las. O rio transbordou e o gado foi mudado para terras mais altas. Nas cozinhas, um caldeirão de sopa fumegava constantemente, pronto para o contingente seguinte de homens exaustos. Reparei, sem surpresa, que Lorde Hugh e os seus amigos trabalhavam lado a lado com os camponeses e os fazendeiros, libertando os caminhos de árvores caídas, escorando margens, acalmando cavalos enlouquecidos de medo quando um raio atingiu os estábulos. A minha opinião acerca de Lady Anne subiu ligeiramente quando a vi encher cestos de comida e, numa ocasião, aventurando-se para os distribuir, acompanhada por uma serva. E subiu mais ainda quando ela começou a chamar-me pelo nome, em vez de «rapariga» e repreendeu uma serva que sugeriu que a precisão do raio poderia ter algo a ver com a minha presença na casa. Havia filas de botas cheias de lama diante do fogo e roupas encharcadas penduradas na cozinha. O meu quarto estava gelado e eu pedi um cobertor extra.
Pelo menos, aquele tempo significava que não teríamos visitantes durante um certo tempo. A estrada de Harrowfield para Northwoods estava impraticável, inundada pela subida do rio. Estávamos isolados, por agora. Era a época do ano em que, em Sevenwaters, me teria reunido com os meus irmãos para afastar as sombras e pedir a bênção dos espíritos para a estação que se aproximava. Havia o dia da festa cristã, que a família celebrava, mas sem grande aparato. Não havia aqui um padre; eram rezadas muitas orações pelos mortos e acendiam-se velas. Ninguém mencionou o nome de Simon. Mas ele estava entre nós; não era preciso dizê-lo, para o sentir.
Nessa noite, no meu quarto, acendi a única vela. Não me tinha despido, estava demasiado frio. O cão amontoara os cobertores numa espécie de ninho e estava deitado neles, ressonando levemente. A luz dançava nas paredes de pedra, esculpindo formas fantásticas. Silenciosamente, disse os nomes deles. Liam, Diarmid, Cormack, Conor, Finbar, Padriac. Via os rostos deles na minha mente, seis versões do mesmo rosto, mas todos tão diferentes. Nadando sozinhos, inundados pelas minhas lágrimas. Não faltava muito para o solstício do Inverno. Como os havia de encontrar? Só havia três camisas na minha trouxa e parte da quarta. Em breve não me restaria nenhuma morugem. Como a havia eu de a arranjar, quando o vento, lá fora, chicoteava os arbustos até ao chão e a água gelava nos regos dos campos nus? Finalmente, adormeci enquanto olhava para a vela, com Alys enroscada nos cobertores em busca de calor e com os nomes dos meus irmãos a soarem-me na cabeça, como se, ao dizê-los, os pudesse manter vivos mais tempo, só mais um pouco. O suficiente.