A Filha da Floresta

Juliet Marillier · Capítulo 4 de 17 · parte 2/2

Páginas do PDF

A Filha da Floresta

Capítulo Três

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

 

Padriac tinha-me feito um pequeno utensílio de vidoeiro para fazer os buracos. Enquanto me movia pelo jardim, cavando, plantando cada bolbo no seu lugar com cuidado, alisando o rico solo, aconchegando-os para o Inverno, recordei as palavras que Conor dissera no dia em que Padriac se oferecera para me fazer aquele pau. “Não cortes a madeira viva”, dissera ele. “Procura um ramo que o vento, ou um raio, possam ter arrancado da árvore, ou um vidoeiro que tenha caído durante uma grande tempestade. Corta a madeira que precisares desse modo. Se precisares de cortar madeira nova, assegura-te de que pedes autorização. As dádivas da floresta não devem ser tomadas sem a devida licença”. Todos nós conhecíamos aquela lição. Umas palavras rápidas e se eram dirigidas à própria árvore, ou a algum espírito que nela habitava, não tinha muita importância. E, por vezes, deixávamos um pequeno presente, nada de muito valor, mas sempre de algum significado para quem dava; uma pedra favorita, uma pena especial, uma conta de vidro brilhante. A floresta era sempre generosa nos seus favores para com nós os sete e nunca o esquecíamos.

 

Agora já fazia sentido ser o Conor a dar-nos aquelas lições.

 

Já tinha quase terminado; ajoelhei-me para plantar o último açafrão entre as pedras cheias de musgo, o que o protegeria, mais tarde, das brisas geladas da Primavera. O açafrão cresce rapidamente. A porta da ervanária abriu-se com um gemido.

 

— Minha senhora? — Era uma criada muito jovem, nervosa e pouco à vontade. — Por favor, Lady Oanagh chama-a. Imediatamente, disse ela. — Balbuciou uma desculpa e desapareceu.

 

Até ali fora quase feliz. Agora, enquanto permanecia ali de joelhos, as mãos cobertas de terra e o cabelo caindo-me pelo rosto, o coração gelou-se-me de novo, mesmo ali, no centro do meu pacífico mundo. Não podia ignorá-la, nem sequer ali.

 

Voltei para trás, pelo meio dos alfobres de alfazema. Tinham florido bem, naquele ano e as espigas remanescentes ainda respiravam memórias do Verão enquanto eu as afagava com a mão. Lá dentro lavei as mãos, mas as unhas continuaram negras. Voltei a atar o cabelo o melhor que pude e pendurei o avental num prego. Bem, teria que servir. Não me ia dar ao trabalho de me arranjar para agradar a Lady Oonagh.

 

Tinham-lhe sido cedidos os melhores aposentos, cujas estreitas janelas davam para o lago e recebiam o sol da tarde. Ela estava à minha espera, em pé, com ar inocente, ao lado da cama, coberta de rolos de tecido, rendas e fitas. O cabelo ruivo brilhava, atenuando a beleza daqueles ornamentos, retendo a luz nos anéis escuros. Estava só.

 

— Sorcha, minha querida! Porque demoraste tanto?

 

Era uma reprimenda, se bem que gentil. Avancei cautelosamente pelo chão empedrado.

— Estava a trabalhar no meu jardim, minha senhora — disse eu. — Não estava à espera de ser chamada.

 

— Hum — disse ela e o seu olhar viajou pela minha pessoa, da cabeça desgrenhada aos pés cheios de lama. — E já tens quase 13 anos. É o que acontece quando se cresce numa casa cheia de rapazes, suponho. Mas vamos mudar tudo isso, minha querida. Quão desapontada ficaria a tua mãe ao ver-te assim tão selvagem, no começo da tua condição de mulher. Ainda bem que ela não está aqui para ver como a tua educação foi negligenciada.

 

Senti-me profundamente ofendida.

 

— Ela não ficaria desapontada! — disse eu, zangada. — A nossa mãe amava-nos, confiava em nós. Disse aos meus irmãos para tomarem conta de mim e eles assim fizeram. Talvez eu não seja para si uma senhora, mas...

 

Ela interrompeu-me com uma cascata de riso e com um braço em volta dos meus ombros. Fiquei tensa ante aquele toque.

 

— Oh, minha querida — ronronou ela — és tão nova. Claro, defendes os teus irmãos; e eu creio que eles fizeram o melhor que puderam Mas são apenas rapazes, no fim de contas, e não há nada como o toque de uma mulher, não concordas? E nunca é demasiado tarde para começar. Temos à nossa frente um ano ou dois, antes de pensarmos em esponsais para ti; é tempo suficiente. O teu pai quer um bom casamento para ti, Sorcha. Precisamos de polir as tuas maneiras e aparência, antes disso.

 

Afastei-me dela.

 

— Por que haveria eu de ser polida e melhorada como um objecto para venda? Talvez nem me queira casar! Além disso, tenho muitas qualidades, sei ler e escrever, tocar flauta e harpa. Por que haveria eu de mudar para agradar a um homem qualquer? Se ele não gosta de mim como sou, então que arranje outra rapariga para esposa.

 

Ela riu-se de novo, mas já não de maneira tão agradável e o seu olhar era mais penetrante.

 

— Não tens medo de dizer o que pensas, não é verdade? Uma característica que partilhas com alguns dos teus irmãos, segundo me parece. Bem, falaremos disto mais tarde. Espero que aprendas a confiar em mim, Sorcha.

 

Fiquei silenciosa.

 

Oonagh dirigiu-se para a cama, onde uma profusão de tecidos estava espalhada. Levantou o canto de um pano verde transparente.

— Pensei neste para o casamento. Há uma excelente costureira na aldeia, segundo me disseram, que to fará num dia. Chega aqui, minha querida.

 

Senti-me impotente para recusar. Colocou-me em frente de um espelho que eu nunca tinha visto antes. A sua superfície plana estava rodeada por criaturas entrelaçadas. Os seus olhos, jóias vermelhas, fixavam-me enquanto eu olhava para o meu reflexo. Pequena, magricela, pálida. Um conjunto desleixado de caracóis negros, atados atrás de qualquer maneira. Nariz perfeito, boca larga, olhos verdes desafiadores. A minha versão do rosto familiar não tinha a serenidade de Conor ou a intensidade pálida de Finbar. Era mais suave do que o de Liam e mais delicado de ossos do que o de Padriac. As covinhas que davam tanto encanto aos sorrisos de Cormack e Diarmid estavam ausentes das minhas delicadas faces. No entanto, via os rostos dos meus irmãos quando olhava para o meu.

 

Lady Oonagh pegou numa escova de osso e enquanto eu permanecia ali de pé desfez o rude nó que me afastava os cabelos do rosto e começou a pentear-me aquela confusão. Fechei os punhos e permaneci quieta. Houve algo no movimento continuado da escova e no modo como os olhos dela me olhavam através do bronze polido do espelho que me provocou um arrepio. Uma voz minúscula, quente, falava-me, de dentro de mim; concentrei-me nas palavras. Encontrarás o teu caminho, filha da floresta. Os teus pés encontrarão o caminho certo.

 

— Tens um cabelo bonito — disse ela. A escova movia-se ritmicamente. —, descuidado, mas bonito. Devias deixar-me cortar-to. Um pouquinho mais curto... ficaria melhor sob um véu. Oh! O que aconteceu aqui?

Os dedos predadores dela afloraram a minha sobrancelha, onde a faca de Simon provocara uma pequena ferida.

 

— Eu... — Procurava uma desculpa quando os meus olhos encontraram os dela no espelho. O rosto dela era frio, tão frio, que não pareciam humanos. A escova caiu no chão; os seus dedos continuaram a mexer-me no cabelo e era como se ela conseguisse ver dentro de mim, pudesse ler-me os pensamentos, soubesse exactamente o que eu tinha andado a fazer. Afastei-me dela.

 

Aquilo durou apenas um momento. Ela sorriu e os olhos mudaram de novo. Mas eu tinha visto e ela também. Reconhecemos que éramos inimigas. Não sabia quem ela era, ou o que queria, mas o meu coração vacilou. No entanto, tive a impressão de que ficou de pé atrás com a força que viu em mim.

 

— Eu mostro-te como é que te vamos pentear para o casamento — disse ela como se nada se tivesse passado. — Entrançado dos lados e puxado para cima, atrás...

 

— Não — disse eu, afastando-me e puxando-lhe os cabelos das mãos. — Isto é, não obrigado. Eu penteio-o, ou a Eilis. E hei de encontrar algo para vestir.

 

Olhei de relance para a porta.

— Eu agora sou a tua mãe, Sorcha — disse Oonagh, friamente. — O teu pai espera que me obedeças. A tua educação, a partir de agora, está a meu cargo e tu vais aprender a fazer as coisas como eu digo. Portanto, vais usar o vestido verde. A mulher vem cá amanhã para te tirar as medidas. Entretanto, tenta manter-te limpa. Há aqui servos suficientes para arrancar cenouras e mexer no estrume... De futuro, o teu tempo será melhor aproveitado.

 

Fugi. Mas sabia que não podia escapar à vontade dela. Usaria o vestido verde no casamento, quer quisesse, quer não e estaria ao lado dos meus irmãos a assistir ao casamento de Lorde Colum com uma... o que era ela? Uma bruxa? Uma feiticeira como aquelas das velhas lendas, bonita mas malvada? Ela tinha um certo poder, isso era certo, mas não era um Deles. A Dama da Floresta, que eu acreditava ter visto com uma capa azul, inspirava mais temor... mas era benigna, se bem que terrível. Achava que Oonagh era de outra espécie, menos poderosa, mas mais perigosa.

 

Fiquei em frente do espelho no meu vestido verde enquanto ela me entrançava fitas no cabelo e me atormentava acerca dos meus irmãos. De novo as estranhas criaturas fixaram em mim aqueles olhos cor de rubi e respondi contra a minha vontade.

 

— Seis irmãos — murmurou ela. — Que sorte que tu tens, crescer numa casa cheia de homens maravilhosos! Não admira que sejas diferente de outras raparigas da tua idade. Da pequena Eilis, por exemplo. Uma rapariga encantadora. Bela cabeleira. Vai ter muitos filhos e em breve perderá toda a frescura. — Afastou a pobre Eilis com um estalido dos dedos enquanto dava um nó na fita verde e apertava com força. — O teu irmão podia ter arranjado melhor. Muito melhor. É um rapaz muito sério, não é? Tão intenso.

— Ele gosta dela! — proferi precipitadamente em defesa de Liam, sem pensar. Talvez me tenha ressentido do amor dele para com Eilis, mas não ia ficar ali, sem fazer nada, ouvindo aquela mulher criticar a escolha do meu irmão. — Há alguma coisa melhor do que casar por amor?

 

Esta saída foi saudada com cascatas de riso; até a severa criada sorriu ante a minha ingenuidade.

 

— Claro que não! — disse Oonagh docemente, colocando-me sobre o cabelo encaracolado e entrançado um pequeno véu. A imagem no espelho estava irreconhecível, uma rapariga distante, pálida, de olhos sombrios, o elegante vestido contrastando com a expressão assombrada. — Assim parece muito melhor, Sorcha. Vês como te suaviza a linha do queixo? Ainda hei de ter orgulho em ti, minha querida. Diz-me, parece que os gémeos são habituais na família, apesar de nunca ter visto uns de carácter tão diferente como os jovens Cormack e Conor. Como duas ervilhas, fisicamente, claro. Vocês são todos parecidos, com esses rostos longos e olhos grandes. Cormack é um rapaz encantador e o teu pai disse-me que ele se está a fazer um guerreiro prometedor. O gémeo dele é muito... reservado. Quase como um velho, em muitas coisas.

 

Não fiz qualquer comentário. A criada, de lábios finos, enrolava fitas. Por trás de mim, a costureira da aldeia continuava a trabalhar na bainha da saia. Era um vestido bonito; outra rapariga qualquer usá-lo-ia com orgulho.

 

— Creio que Conor não gosta de mim — disse Oonagh. — Parece mergulhar nas tarefas de administração da casa com uma determinação pouco usual num jovem da idade dele. Achas que tem ciúmes por o gémeo dele ser tão brilhante? Este quer mesmo ser guerreiro e brilhar aos olhos do pai?

 

Olhei para ela. Viu muito e, no entanto, tão pouco.

 

— Conor? Dificilmente. Ele segue um caminho escolhido por ele.

 

— E que caminho é esse, Sorcha? Um jovem viril deseja mesmo ser um escriba, um administrador da casa do pai? Um intendente glorioso? Que rapaz não preferiria antes montar e lutar, viver a vida plenamente?

 

Os olhos dela encontraram os meus no espelho; e as criaturas de bronze ganharam força através daquele olhar, fixando o sinistro e intenso brilho em mim. Fui incapaz de ficar em silêncio.

 

— Existe uma vida interior — sussurrei. — O que ves é apenas a parte superficial de Conor, uma parte ínfima. Nunca conhecereis Conor se olhardes apenas para o que ele faz. Tendes de descobrir o que ele é.

 

Houve um pequeno silêncio, apenas quebrado pelo roçagar do vestido de Oonagh enquanto ela se aproximava de mim.

 

— Interessante. Tu és uma rapariga estranha, Sorcha. Por vezes pareces uma criança, para logo a seguir te saíres com algo que faz lembrar uma velha.

 

— Posso... posso ir-me embora, agora? Isto já está? — Subitamente, senti-me infeliz. Que mais me faria ela dizer? Por que não conseguia eu controlar a minha língua na presença dela? As suas últimas palavras tinham-me lembrado Simon e eu não podia permitir-lhe que entrasse nos meus pensamentos acerca dele, porque, se descobrisse a verdade, não hesitaria em dizer ao pai e então não seria apenas Simon, mas também Finbar, eu e Conor, que ficaríamos em perigo.

 

Parecia que a prova tinha acabado. A costureira começou a tirar os alfinetes, um a um. Eram muitos.

 

— Tenho visto muito pouco o teu irmão mais novo — disse Oonagh, sorrindo. Tinha-se sentado na beira da cama, balançando um pé suavemente. parecia ter 16 anos naquele vestido branco, com o cabelo a cair-lhe pelos ombros. Até que se olhava para os olhos dela. — Sempre longe, a fazer qualquer coisa, o Padriac. Quase se poderia pensar que me anda a evitar. O que é que o mantêm tão ocupado desde manhã até à hora do jantar?

 

Aquilo parecia seguro.

— Ele gosta de animais e de consertar coisas — disse eu. A costureira despiu-me o corpete. Estava frio naquele quarto, apesar do fogo. — Guarda-os no velho celeiro. Se há um pássaro qualquer com uma asa quebrada, ou um cão ferido, Padriac cura-os. E sabe fazer quase tudo.

 

— Hum! — disse ela. Portanto, mais um que não será guerreiro. O tom dela era frio.

 

— Os meus irmãos são todos adeptos da espada e do arco — disse eu à defesa. — Talvez não escolham todos o caminho do pai, mas não lhes faltam as habilidades da guerra.

 

— Mesmo Finbar?

 

Os olhos das criaturas brilharam. Olhei para elas e, reunindo toda a minha vontade, mantive a boca firmemente fechada. Ela voltou a colocar-se atrás de mim, subitamente, com a escova de cabelo na mão. Esperou enquanto a criada, severamente, desfazia a rede de fitas verdes que me subjugava o cabelo.

 

— Tu tens relutância em falar. Como é que eu posso ser uma boa mãe para aqueles rapazes se não os conheço? — Suspirou expressivamente, com o rosto triste. — Receio que Colum tenha favorecido alguns dos seus filhos em detrimento de outros. Detecto uma atmosfera gelada no que diz respeito ao jovem Finbar. O que é que ele fez para merecer tal censura? Será apenas relutância em participar nas perseguições da guerra? Ou nunca perdoou à mãe por ter morrido, deixando-o sozinho?

— Isso não é justo! — Levantei-me e girei para a fixar, arrancando o meu cabelo às mãos da criada. Esqueci a dor. — A mãe não quis morrer! É claro que ele tem saudades dela, todos nós temos, ninguém pode preencher o vazio que ela deixou. Mas não estamos sós, nunca estivemos, temo-nos uns aos outros. Não conseguis perceber isso? Somos amigos, família, parte uns dos outros, como folhas do mesmo ramo, gotas de água da mesma corrente. Corre entre nós um único fluxo de vida. Falar de ciúmes é estupidez.

 

— Senta-te, querida. — A voz de Oonagh era calma; não reagiu à minha explosão. — Defendes os teus irmãos, é natural, já que não tiveste outra companhia durante estes anos todos. Que termos de comparação tens tu neste teu mundo tão pequeno? Não é surpreendente, portanto, que não vejas as suas limitações.

 

Finalmente, consegui escapar, mas não havia maneira de esquecer as palavras dela e perguntei a mim mesma de novo que queria ela de mim, de nós. Senti um forte desejo de ter todos os meus irmãos ao pé de mim, para os tocar e falar com eles, para lhes sentir a força e identidade reconfortante. Assim, procurei-os; mas Cormack estava ocupado num treino de luta com paus, mostrando os dentes, ferozmente, desafiando Donal a descobrir uma maneira de o atacar, girando a arma e jogando com os pés. E Padriac estava ocupado com uma maquineta qualquer que estava a construir. Um corvo mantinha-se empoleirado perto dela, virando a cabeça para um lado, ou para o outro, à medida que os dedos dele cumpriam a delicada tarefa.

 

— O que é isso? — perguntei ao meu irmão mais novo, olhando para o intrincado esqueleto de ripas de madeira e linho esticado.

— Não é uma asa nem uma vela — resmungou Padriac, à medida que os seus dedos ágeis apertavam mais uma união. — Com isto, um pequeno barco pode viajar mais depressa sobre a água; mesmo com o menor dos ventos. Vês como os painéis viram quando eu puxo este fio?

 

Na verdade, era engenhoso; e disse-lho. Dei uma palmada no velho burro e espreitei para os estábulos, onde uma ninhada de gatos malhados estava aninhada num canto quente, cheio de palha.

 

O corvo seguiu-me, coxeando ainda um pouco da ferida (atacado por outros pássaros, pensou Padriac, mas estava a curar depressa). Evitou os gatos.

 

Havia uma longa alameda, entre salgueiros e rodeada por plantas de floração tardia, cujo nome de infância era olhos de anjo, devido às suas flores azuis redondas, que pareciam reproduzir as cores do céu na Primavera. Estavam vivas, com tantas flores, mas o céu, hoje, estava cor de chumbo; não haveria anjos a sorrir naquele casamento. Lá em baixo, no lago, Liam passeava com Eilis. Mantinha a sua capa sobre os ombros dela com a ajuda do braço, com cuidado, porque podia alguém estar a ver e a sua cabeça inclinava-se enquanto lhe falava solenemente. Eilis tinha o rosto virado para cima, para ele e olhava-o como se pretendesse fechar-se ao resto do mundo. Por um momento senti um mau presságio, uma sombra sobre ambos, que trouxe até mim um frio de morte. Depois, eles desapareceram para lá das árvores e eu continuei na direcção da casa.

 

Havia muita actividade na cozinha, com carroças a irem e virem, barris de cerveja e bocados de carne a serem carregados aos ombros e armazenados. Aromas de cozinha e de assados espalhavam-se pelo ar frio e os cavalos escarvavam e resfolgavam. Linn recebeu-me à porta, metendo o focinho molhado dentro da minha mão, mas não entrou. Só então reparei, entre as carroças paradas na calçada, num veículo familiar, manifestamente de trabalho, em cujos varais um velho cavalo esperava pacientemente a sua vez de ser desatrelado e levado para um estábulo quente, para descansar. E aquilo era estranho. Por que estaria ali, agora, o padre Brien, uma noite antes do casamento? Tinha a certeza de que ele viria de manhã e regressaria antes do anoitecer, porque, como poderia ele deixar Simon sozinho depois de escurecer?

 

Entrei, mas nenhum dos meus irmãos estava ali e Fat Janis correu comigo de novo, dizendo que já lhe bastavam os cozinhados esquisitos e os homens sempre a entrarem e a servirem-se, para ainda por cima lhe andar uma fedelha debaixo dos pés. Ao mesmo tempo que me empurrava pela porta fora, meteu-me um bolo de mel quente na mão, com uma piscadela de olhos.

 

Encontrei-os onde tinha começado, no meu jardim de ervas. Provavelmente, era o local mais privado que havia, com os muros altos de pedra e a única porta que dava para a ervanária; menos o telhado, claro, mas só Finbar e eu é que íamos até lá. O padre Brien estava sentado no banco de pedra cheio de musgo e Conor estava estendido ao lado dele, falando seriamente, enquanto Finbar se sentava na relva, de pernas cruzadas.

 

Quando fiz ranger a porta da ervanária, ao abri-la, calaram-se e os três viraram as cabeças em uníssono, para olharem para mim. Foi como se tivessem estado à minha espera e havia, nitidamente, algo errado.

 

— O que é? perguntei o que é que se passa?

Os meus dois irmãos olharam para o padre Brien, este suspirou e levantou-se, segurando-me nas mãos quando eu corri para ele.

 

— Não vais ficar satisfeita com as notícias, Sorcha — disse ele gravemente. — Gostaria que fossem melhores.

 

— O que é? — perguntei, evitando pensar.

 

— O teu paciente foi-se embora — disse o padre Brien, sem cerimónia. — No dia em que saí, fiz de maneira a regressar com o pôr do Sol, como tínhamos planeado. Quando cheguei, o local estava às escuras. A princípio receei o pior; mas pude ver que as vossas coisas já não estavam lá e não havia, pelo menos aparentemente, danos. Além disso, parecia que o cão também já lá não estava, nem havia sinais de que tivesse sido ferido. Sabia que Linn não deixaria que tu fosses levada sem que fosse derramado sangue. Era claro que as marcas deixadas pelos cavalos no solo pertenciam aos teus irmãos.

 

— Mas Simon... eu deixei-o em segurança... Disse que esperaria por si...

 

— Não havia sinal dele, filha — disse o padre Brien gentilmente. — As roupas dele tinha desaparecido, assim como a muleta; no entanto, parece que não levou comida nem água, nem uma capa para agasalho e deixou ficar as botas. Não faço a mínima ideia de quais são as intenções dele.

— Ele não se importava se vivia ou morria. Mas ele tinha-me prometido.

 

— Nem sequer o procurou? Por que não nos mandou buscar? Eu tenho tido visões de Simon sozinho na floresta, de noite, rodeado pelos seus demónios pessoais, enfraquecendo lentamente de frio e de dores. Talvez ele já esteja deitado e silencioso debaixo dos grandes carvalhos, com o musgo a cair-lhe sobre o corpo sem vida.

 

— Calma, filha. É claro que procurei; mas ele é um guerreiro e, se bem que ferido, sabe como desaparecer quando quer. E como é que eu havia de te mandar buscar, ou aos teus irmãos? Pensei que, provavelmente, tinha sido feito prisioneiro de novo e trazido para aqui por quem te tinha ido buscar. Soube por Finbar que isso quase aconteceu.

 

— De facto — disse Finbar. — Talvez ele, quando viu com que facilidade podia ser apanhado de novo, tenha escolhido ir-se embora, Sorcha. Há uma raça de homens que prefere morrer a viver cativa. E ele era teimoso que se farta.

 

— Mas ele prometeu — disse eu infantilmente, tentando reter as lágrimas. — Como é que ele, depois de chegar tão longe, deita tudo fora?

 

Não conseguia esquecer que também eu tinha quebrado a minha promessa. Agora, já sabia o que isso significava.

Conor pôs-me uma mão reconfortante em volta dos ombros.

 

— O que é que ele te prometeu exactamente, minha corujinha?

 

Tive um soluço.

 

— Que viveria, se pudesse.

 

— Não sabes se ele quebrou ou não essa promessa — disse Conor. — Provavelmente, nunca saberás. Por mais que te custe, tens de atirar isso para trás das costas, porque não há maneira nenhuma de poderes, agora, ajudar o bretão. Consola-te, sabendo que fizeste tudo o que podias por ele e pensa no dia de amanhã, porque todos nós temos outros testes e provações à nossa frente.

 

— O teu irmão diz a verdade — disse o padre Brien. — Não temos escolha, senão ir em frente. Há um casamento para celebrar; não me dá grande prazer fazê-lo, mas o teu pai convidou-me e eu não pude recusar. Achais que ele consente em falar a sós comigo?

— Pode tentar — disse Conor. — A última coisa que ele quer, neste momento, é um bom conselho, mas, vindo da sua parte, pode ser que seja menos desagradável. Tanto eu, como Liam, tentámos falar com ele à parte, mas não conseguimos.

 

— De que vale? — perguntou Finbar. — Ele está enfeitiçado. Até pode tentar alterar as marés de oeste, ou parar as estrelas no firmamento, porque com ele não consegue nada. Lady Oonagh tem-no dominado, de corpo e alma. Nunca pensei vê-lo tão fraco; e no entanto, estranhamente, não estou surpreendido. Durante perto de 13 anos purgou-se de qualquer sentimento humano, fechou-se a qualquer calor espiritual. Não admira, portanto, que tenha sido uma presa tão fácil para ela.

 

O tom dele era amargo.

 

— Estás a julgá-lo com demasiada rudeza — disse o padre Brien, perscrutando o rosto do meu irmão. — A decisão dele não é sensata, certamente, mas fê-la com boas intenções. Porque vê, com certeza, na sua nova noiva, um guia e um mentor para os seus filhos mais novos, alguém que os mantenha com as rédeas curtas e que lhes traga à vida um pouco de calor. Ele está diante das suas limitações como pai. Se não consegue chegar até vós, talvez pense que ela consegue.

 

Finbar riu-se.

 

— Está-se mesmo a ver que ainda não conhece Lady Oonagh, padre.

— Ouvi falar dela pelo Conor e pelo teu irmão mais velho, que me recebeu quando cheguei. Sei muito bem o que enfrentais, acredita-me, e rezo por todos vós. É uma tragédia, na verdade, que o vosso pai esteja cego face ao carácter dela. Procuro apenas evitar que a julgueis precipitadamente. De novo.

 

— Vai falar, então, com ele, pelo menos?

 

— Vou tentar. — O padre Brien levantou-se lentamente. — Talvez o encontremos sozinho. Conor, acompanhas-me? Oh, a propósito — enfiou a mão numa grande algibeira da batina, tirando algo de lá. — O teu amigo não desapareceu por completo sem deixar uma lembrança, Sorcha. Deixou isto onde eu pudesse encontrá-lo. Deduzi que era para ti. O seu significado não me parece muito claro.

 

Colocou o pequeno objecto na minha mão e os dois foram-se embora calmamente. Finbar ficou a olhar em silêncio para mim enquanto eu o virava e revirava, tentando ler a mensagem. O pequeno pedaço de vidoeiro pertencia, pensei, à reserva especial do padre Brien, mantida seca para o fabrico do pão sagrado e outras coisas de natureza mais secreta. Tinha sido polido e moldado até caber, confortavelmente, numa mão pequena como a minha. Não tinha sido, de certeza, trabalho de uma tarde; era preciso e intrincado, mostrando um grau de perícia que me surpreendeu. Não conseguia perceber o seu significado. Havia um círculo e, no centro, uma pequena árvore. Pelo formato, pensei que era um carvalho. Na base do tronco tinha duas linhas onduladas, um rio, talvez? Sem palavras, passei-o a Finbar, que o estudou em silêncio.

— Por que é que um bretão deixa uma mensagem destas? — perguntou ele, finalmente. — Procura pôr-te em perigo, no caso de ser encontrado? Qual terá sido o propósito dele? Não tenho dúvidas de que aqui está revelada a sua identidade, de uma maneira qualquer desconhecida para nós. Devias destruí-lo.

 

Arranquei-lhe a pequena lembrança das mãos.

 

— Isso é que eu não faço.

 

Finbar olhou para mim suavemente.

 

— Não sejas sentimental, Sorcha. Estamos em guerra, lembra-te. E tu e eu quebrámos as regras, muito simplesmente. Talvez tenhamos salvo a vida deste rapaz e talvez não. Mas não esperes que ele to agradeça. Os soldados não deixam pistas atrás de si, a não ser que queiram ser encontrados. A não ser que se trate de uma emboscada.

 

— Eu guardo-o — disse eu. — Escondo-o. E sei muito bem o perigo que corro.

 

— Não estou muito certo disso, Sorcha — disse o meu irmão. — Lady Oonagh está só à espera de encontrar um ponto fraco. Depois, como um lobo na noite, atacará para matar. Não és muito boa no que toca a esconder os teus sentimentos, ou a esconder a verdade. Ela não terá piedade de ti; e o pai, assim que ela lhe disser, cai em cima de nós os dois. E pensa no que acontecerá a Conor, se o papel dele nesta história for conhecido. Já estou arrependido por te ter falado nisto tudo. Teria sido melhor se só me tivesses ajudado naquela noite, mais nada.

 

Esta reprimenda fraternal nem merecia qualquer comentário. Além disso, os meus pensamentos estavam virados para outras coisas.

 

— Ele não consegue sobreviver, pois não? — perguntei eu bruscamente.

 

— Sabes quais são as hipóteses dele, melhor de que eu — disse Finbar, franzindo as sobrancelhas. — Um homem em forma, nestas condições, com recursos para poder fazer uma fogueira e caçar, pode conseguir atravessar o país, mantendo-se escondido. Basta saber para onde vai.

 

— Que desperdício! — Não conseguia expressar o que sentia, mas Finbar leu os meus pensamentos claramente. Ele conseguia sempre passar para além de qualquer escudo que eu tentasse levantar.

 

— Esquece, Sorcha — disse ele. — O padre Brien tem razão, nenhum de nós pode fazer nada. Ele foi-se embora, é tudo. De qualquer maneira, as hipóteses de ele se salvar nunca foram grandes.

— Então, por quê fazê-lo? Por quê correr tantos riscos?

 

— Não preferias morrer livre? — perguntou ele.

 

Passei algum tempo sozinha na ervanária, quase só a pensar, o leve trabalho de Simon recordando-me, permanentemente, as más-notícias; estava bem escondido num pequeno saco que eu usava à cintura, se bem que necessitasse de um lugar mais seguro, brevemente. Fiz uma pomada de sabugueiro e varri o chão. Mais tarde saí, decidindo que, no final de contas, tinha fome. O bolo de mel de Fat Janis não tinha durado muito. O jantar não me atraía muito, porque neste dia importante era suposto aparecer a família toda. Talvez acontecesse um milagre e o padre Brien conseguisse convencer o meu pai a anular o casamento. Talvez.

 

No lado de fora da porta estava Linn, enroscada num canto da passagem ventosa. Quase não a vi por estar na sombra, mas os meus ouvidos captaram o fraco latido dela.

 

— O que é, Linn! O que é que se passa? — Olhei mais de perto e reparei, espantada, no grande corte gotejante que lhe atravessava o focinho, desde um dos olhos até ao canto da boca. Os dentes viam-se através do sangrento golpe no lábio.

 

Chamei-a; a cadela tremia e hesitou ante o meu toque amigável, mas continuei a falar calmamente, fazendo-lhe festas e conseguindo levá-la até aos velhos estábulos, onde Padriac me recebeu com os protestos de indignação que eu esperava. Resmungando contra certas pessoas e porque eram admitidas junto dos animais e do que lhes faríamos quando descobríssemos quem eram, o meu irmão mais novo limpou e suturou a ferida, enquanto eu segurava a pobre Linn e lhe falava de prados verdes e ossos. Padriac era muito eficiente, mas, mesmo assim, demorou muito tempo. Depois de acabar, a cadela deu um grande suspiro, bebeu meia tigela de água e deitou-se na palha, ao lado do burro.

 

Já estava escuro e eu lembrei a Padriac que era melhor lavarmo-nos para o jantar; Lady Oonagh não gostava nada de esperar. Quando nos virámos para nos irmos embora, vimos Cormack, na sombra, o rosto branco como a cal.

 

— Há quanto tempo estás aí? — perguntei, surpreendida.

 

— Ela já está boa — disse Padriac e havia um estranho tom na voz dele. — Por que é que não fazes uma festa à tua cadela, para que ela veja que estás aqui para a ver? Por que é que não fazes isso, irmão?

 

Houve um silêncio estranho e depois:

 

— Não posso — disse Cormack com voz tensa. Olhei de um para o outro.

 

— O que é que se passa? — perguntei, confusa.

— Pergunta-lhe — disse Padriac, furioso. — Pergunta-lhe por que não entra e faz uma festa à cadela dele. A culpa está-lhe escrita na cara, vê-se. Desculpem-me se não fico para conversar.

 

E foi-se embora, roçando pelo irmão mais velho como se ele não estivesse ali.

 

— É verdade? — perguntei, horrorizada e incrédula. — Foste tu que fizeste isto?

 

Padriac estava enganado, de certeza. Fora Cormack que salvara aquela cadela de se afogar, fora Cormack que a criara desde cachorrinha, Cormack, cujos passos ela seguia com devoção de escrava. Os meus irmãos podiam mostrar pouca misericórdia para com os inimigos deles no campo de batalha, mas nunca magoariam, de propósito, uma criatura a seu cargo.

 

Fiquei a olhar em silêncio para Cormack enquanto ele se dirigia para a Stalls e ficava a olhar para a cadela ferida. Pôs os braços em volta de si mesmo, como se tivesse frio e quando me aproximei pude ver que as faces dele estavam molhadas.

 

— É verdade, foste tu — murmurei. — Cormack, como foste capaz? Ela é uma boa cadela, fiel e tem bom feitio. Que te deu para a ferires assim?

Ele não olhou para mim.

 

— Não sei — disse ele finalmente, a voz fraca devido às lágrimas. — Estava no pátio, a praticar, ela aproximou-se por trás e eu... não sei o que me deu, deixei ir o pau. Foi como se tivesse sido outro qualquer a fazê-lo.

 

Abri a boca para falar, mas depois achei melhor não o fazer.

 

— Foi como se ela nem estivesse ali, Sorcha. Foi... foi de repente, eu estava furioso e acertei-lhe.

 

— Fala com ela — disse eu. — Ela perdoa-te, vê.

 

Ao ouvir a voz dele, Linn tinha levantado a cabeça ferida da palha e a longa cauda abanava levemente. O burro resmungou no sono.

 

— Não posso — disse Cormack tristemente. — Como é que eu sei que não lhe volto a fazer o mesmo? Não fui feito para ter companhia, animal ou humana.

 

— Fizeste uma coisa cruel — disse eu lentamente. — Mas não a podes desfazer. Tens sorte em ter um irmão capaz de remediar o mal. Mas ela precisa do teu amor, também, para melhorar. Um cão não é capaz de te julgar. Ela gosta de ti, por mais que faças.

 

Linn gemeu.

 

— Vai lá — disse eu. — Faz-lhe uma festa, fala com ela. Ela, depois, adormece facilmente.

 

— Mas e se...

 

— Não o voltas a fazer — disse eu de modo severo. — Confia em ti, Cormack.

 

Ele ajoelhou, finalmente e deslocou a mão, hesitantemente, sobre o pescoço da cadela, nunca deixando de olhar para aquela ferida pavorosa, desfiguradora. Linn virou a cabeça com alguma dificuldade e lambeu-lhe a mão. Foi assim que os deixei.

Desloco-me, com relutância, para uma parte da nossa história que é difícil de contar; se bem que não a mais difícil. Jantámos e Cormack não estava presente, nem Finbar. O pai fez um comentário sobre isso e foi recompensado com um muro de silêncio por parte dos restantes filhos. O padre Brien estava tranquilamente sentado perto da cabeceira. Comeu frugalmente e despediu-se cedo. Eilis deitava olhares nervosos na direcção de Lady Oonagh, como um animal assustado. Liam segurava-lhe na mão sob a mesa, mas o seu rosto parecia de pedra. Ninguém precisava de me dizer que a conversa do padre Brien com o pai não mudara nada.

 

Depois, mais tarde, a maioria das pessoas dormia. Como única rapariga, tinha o luxo único de um quarto só para mim e era ali que todos os meus irmãos se reuniam. Estávamos todos presentes salvo Diarmid. Os olhos de Cormack estavam vermelhos e não se sentou ao lado do irmão mais novo. Finbar apareceu do nada, como uma sombra. Acendemos sete velas brancas, queimámos bagas de zimbro e sentámo-nos em silêncio durante algum tempo, pensando na nossa mãe e tentando partilhar a força que tínhamos. Não tivéramos hipótese de visitar o vidoeiro juntos e, assim, comungámos com ela o melhor que pudemos. O fogo estava em brasas e as velas espalhavam uma luz regular sobre rostos solenes e mãos unidas.

 

Em tais ocasiões, falávamos se nos vinham as palavras, mas contentávamo-nos em passar a força de uns para os outros através do toque e dos nossos pensamentos partilhados. Nem todos éramos capazes de comunicar através da mente, como eu e Finbar. Era uma capacidade reservada a poucos e como a conseguimos é um mistério. No entanto, conseguíamos sintonizar-nos uns com os outros e podíamos sentir, sem palavras, a dor, a alegria e o medo, como irmãos. Naquela noite sentimos a ausência de Diarmid como a perda de um ramo, porque estávamos unidos na compreensão de um destino que pendia sobre nós e o nosso trabalho conjunto de protecção era incompleto sem ele. Ninguém duvidava do paradeiro dele.

Liam mexeu-se ligeiramente e a chama de uma vela agitou-se, fazendo dançar sombras nas paredes altas.

 

— Obtemos a nossa força dos grandes carvalhos da floresta — disse ele calmamente. — Assim como eles tiram o alimento do solo e das chuvas que o alimentam, assim nós encontramos a coragem no exemplo das coisas vivas que nos rodeiam. Elas resistem às tempestades, crescem e renovam-se. Tal como um bosque de jovens carvalhos, somos fortes.

 

Conor, que estava sentado à sua esquerda, continuou.

 

— A luz destas velas não passa do reflexo de uma luz maior. Esta brilha desde as ilhas para lá do mar ocidental. Cintila no orvalho e no lago, nas estrelas do céu nocturno e em todos os reflexos do mundo espiritual. Esta luz está sempre nos nossos corações, guiando o nosso caminho. E se algum de nós perder essa luz, logo outro irmão, ou irmã, o guiará, porque nós os sete somos um.

 

A seguir era a vez de Cormack, mas ele ficou em silêncio tanto tempo que eu pensei que ele decidira não falar. Por fim, proferiu abruptamente:

 

— Hoje fiz uma coisa má. Tão má, que eu não deveria estar aqui, agora. Diz-lhes, Sorcha. Diz-lhes, Padriac. Já começou a vergonha, o assalto. Creio que não poderei fazer isto de novo; não o mereço.

 

Liam, Conor e Finbar olharam para ele. Padriac abriu a boca, mas eu falei primeiro.

 

— Ele feriu a cadela — disse. — Feriu-a muito e sem razão. Ela há de recuperar graças à competência de Padriac. Mas ele culpa-se a si próprio; erradamente, creio.

 

— Erradamente, como? — irrompeu Padriac. — Foi ele que o fez, disse-o ele.

 

— O que ele disse foi que aconteceu como se mais alguém estivesse ali a fazê-lo — disse eu. — E se estava lá realmente alguém a fazê-lo...

 

— Queres dizer...

 

— Eu já o senti — continuei miseravelmente. — Ao olhar para o espelho. Não sei como, mas ela fê-lo, enquanto me escovava o cabelo, com a mente, com a voz. Tentou arrancar-me a vontade, fazer-me dizer e fazer coisas que eu não queria. E foi muito forte. Não a consegui manter fora da minha mente.

— Ela estava lá — disse Cormack lentamente, incrédulo. — Nas escadas, no pátio onde treinamos. Estava com o pai, a olhar para mim. Ela estava lá. Terá ela... não, de certeza que não.

 

— Mas por quê? — perguntou Padriac, zangado. — Por que quereria ela fazer tal coisa? Não há razão para tal, não passa de uma brincadeira insignificante. Ela vai casar com ele, não tem já o que queria? E Linn é um animal inocente. Ela é capaz de lhe provocar sofrimento sem razão?

 

A mente de Conor seguia outra pista.

 

— Que tentou ela arrancar-te, Sorcha? Que queria ela saber?

 

— Apenas... coisas. Acerca de mim, de todos... fez perguntas acerca de todos. Pequenas coisas. Mas eu senti-me mal, não como se ela nos quisesse conhecer, mas... Senti um arrepio. Não sei. Como se fosse capaz de guardar a informação para a usar mais tarde. Contra nós.

 

Conor virou-se para o irmão gémeo.

— Tu adoras aquela cadela — disse ele, fixando o olhar em Cormack. — Ela faz parte de ti. Ela deve-te a vida. Não a feririas de propósito.

 

— Mas feri. Não interessa se houve algo que me levou a fazê-lo, se me colocou o pensamento na cabeça, foi a minha mão que desferiu o golpe.

 

— O que está feito está feito — disse Conor. — Não o podes mudar. Mas podes melhorá-lo e tu sabes como. Sê a cadela, sente-lhe a dor, sente-lhe o sentimento de traição. Sente-lhe também a simplicidade, o perdão, o amor e a confiança em ti. Ambos podem curar-se mutuamente.

 

Deixou cair a minha mão e segurou na de Cormack, levando-o para o círculo. Após um momento Padriac moveu-se também, segurou na outra mão do irmão e ficámos de novo sentados, tranquilamente.

 

— Pedimos orientação — disse Finbar. — Levamos as nossas luzes e, por vezes, o caminho fica iluminado. Mas muitas vezes elas estão indistintas e não podemos confiar nelas. Espíritos da floresta, espíritos da água, fantasmas do ar, seres das profundezas e lugares secretos, ajudai-nos neste nosso tempo de necessidade. Porque à nossa frente estão as trevas e a confusão.

 

As palavras dele provocaram-me um arrepio. Teria visto algo no nosso futuro?

— Ouvi, uma vez, uma história — disse eu — acerca de um herói que teve um desastre após longas jornadas e proezas formidáveis, quando encontrou uma criatura monstruosa com mandíbulas de ferro e a força de três gigantes. Ao herói foi-lhe arrancado membro após membro; e quando o monstro acabou com ele, as partes que restavam foram espalhadas por todos os lados. Assim, uma tíbia caiu numa caverna profunda onde a água pingava constantemente pelas paredes; o cabelo foi levado pelo vento de leste até que ficou emaranhado numa aveleira num canto longínquo da terra. O crânio foi usado como tigela durante algum tempo, depois abandonado num rio, que o levou a todas as costas do mar ocidental. Um cão selvagem levou-lhe os pequenos ossos dos dedos para alimentar as crias. E após um certo tempo parecia que nada restara dele. Os anos passaram e uns pequenos cogumelos cresceram no sítio em que estava o osso da perna e as folhas da aveleira cresceram em volta do cabelo brilhante dele. Na orla do mar, o crânio, cheio de terra, viu nascer e florescer sementes de feto-real; e entre os ossos dos dedos, que as crias tinham deixado brancos e limpos, cresceram espigas de açafrão. E dizem que, se um viajante alguma vez colher um feto-real, arrancar a casca da aveleira e os cogumelos secretos e os misturar com o açafrão da floresta onde os últimos ossos do herói ficaram, surgirá um feitiço poderoso. O herói renascerá, não como era antes da sua destruição, mas muito mais poderoso, física e espiritualmente; porque estará cheio com a força da terra, do mar e do ar. Penso em nós os sete como parte de um só corpo. Poderemos ser separados e poderá parecer que não há amanhã para nós. Poderemos seguir caminhos diferentes, poderemos cair, partirmos um braço e curarmo-nos. Mas no fim, tão certo como o Sol e a Lua fazerem as suas viagens em arco pelos céus, a força de um será a força de sete. Não vos esqueçais do que a nossa mãe nos disse no leito de morte. Devemos tocar a terra, devemos olhar para o céu e sentir o vento. Tal como gotas de água da mesma corrente, devemos encontrar-nos, partir e encontrar-nos de novo. Pertencemos à água do lago e ao coração vivo da floresta.

 

A chama das velas estava, agora, mais baixa e nós caímos no silêncio. Era uma época do ano em que os espíritos estavam muito próximos, porque faltavam apenas duas luas para o solstício do Inverno e eu quase conseguia ouvir pequenas vozes nas sombras, à nossa volta. Padriac não voltara a falar, mas pousou a mão, por momentos, no ombro de Cormack e este acenou com a cabeça. E Conor disse ao seu irmão gémeo, muito calmamente:

— Eu volto contigo para o celeiro, por um bocado.

 

— Obrigado — disse Cormack.

 

Finbar ficou para trás quando todos os outros saíram. Ficou sentado a olhar para o fogo. A disposição geral era sombria. Apesar das nossas grandes palavras, estávamos a olhar para um abismo.

 

— Em que é que estás a pensar, Finbar?

 

— Numa coisa que não posso partilhar.

 

Aproximei-me do fogo, metendo as mãos nas algibeiras, em busca de calor. A superfície suave do objecto de Simon encaixava-se perfeitamente na palma da minha mão.

 

— Diz-me Diz-me o que vês.

Tentei olhar-lhe para a mente, mas havia uma barreira, um muro escuro, em volta dos pensamentos dele.

 

— Não posso partilhar isto. Não te quero assustar.

 

Apanhei uma imagem de mim própria, quando pequenina, correndo descalça através da floresta sob a luz do Sol pintalgada.

 

— Tens medo?

 

Um sentimento de frio intenso. Água. O sussurro do ar a passar pelo corpo, a sensação estranha de cair, voar, cair. Isso, ele revelou-me. Depois, fechou-se abruptamente.

 

Não posso partilhar isto contigo.

 

— Não te podes fechar ao mundo — disse eu em voz alta, já exausta devido à tentativa para lhe entrar na mente. — Como é que nos podemos ajudar se temos segredos?

— Partilhar o meu último segredo não te ajudou muito — disse ele, sem graça. — Ou o bretão. Pergunto-me agora se os meus esforços para desfazer o que o meu pai fez valeram a pena. Tu ficaste ferida e o rapaz... o destino dele ficou um pouco melhor devido à minha interferência. Talvez eu devesse deixar de me intrometer. Talvez devesse aceitar que na nossa espécie somos todos assassinos, no fundo. Se Lady Oonagh nos quer como joguetes, qual é a diferença?

 

Deu uma risada torcida.

 

— Tu não acreditas nisso, Finbar! — Sentia-me chocada; poderia ele ter mudado tão rapidamente? — Olha-me nos olhos e diz isso de novo.

 

Segurei-lhe firmemente o rosto com as duas mãos. E quando lhe vi a expressão, os olhos estavam mais límpidos e viam mais longe do que nunca.

 

— Está tudo bem, Sorcha — disse ele gentilmente. — Tenho pensado muito, só isso. Não mudei assim tanto. Mas a minha mente diz-me que um grande mal vai cair sobre nós; e penso se a nossa força será suficiente para o aguentar. Gostaria que estivesses a salvo num outro lugar qualquer, não aqui, no meio de tudo. E preciso de ter confiança nos meus irmãos; tenho que ser capaz de confiar neles, em todos eles.

 

— Podes confiar neles — disse eu. — Ouviste o que eles disseram. Temos todos o mesmo espírito e sempre teremos. Sempre que um estiver em dificuldades, haverá seis para o ajudar.

— O forte deles é a tortura e a morte. Como podem eles ter o mesmo espírito que tu, ou Conor, ou eu próprio?

 

— Não posso responder a isso. Simplesmente... simplesmente, se acreditas nas histórias, está na natureza do nosso povo ir para a guerra e matar, assim como cantar, brincar e contar histórias. Talvez sejam duas metades do mesmo todo. Eu sei que nós, os sete, somos uma família e que só nos temos a nós próprios. Tem que ser suficiente.

 

Mas tinha faltado um irmão; e quando abri a porta para Finbar sair, vimo-lo em baixo, no vasto vestíbulo, escapando-se sorrateiramente de um quarto que não era o dele. Ela mantinha-se do lado de dentro da porta para lhe dizer adeus, vimos-lhe o braço branco esticar-se e os dedos moverem-se suavemente pela face dele e Diarmid afastou-se, descalço, o rosto confuso e cego, como qualquer rapaz enfeitiçado por uma fada. Finbar olhou para mim e eu olhei para ele; mas não pronunciámos qualquer palavra.

 

E eles casaram, ela no seu longo vestido de um profundo castanho- avermelhado e o meu pai olhando para ela como se não houvesse outra alma no mundo senão eles os dois, enquanto em volta a família, os convidados, os homens da guarnição, os criados e os camponeses murmuravam e trocavam olhares. Eu estava para ali no meu vestido verde, com o cabelo entrançado com fitas e ao meu lado estavam os meus seis irmãos, em linha. Não me pareceu, de todo, uma cerimónia como devia ser. Nas histórias, tais coisas aconteciam ao ar livre, sob um carvalho maciço e havia peças de teatro, lutas a fingir e adivinhas e os druidas saíam da floresta para celebrar o ritual dos pulsos ligados. Não havia anciãos no casamento do meu pai, nem qualquer concessão aos velhos costumes. Talvez Lady Oonagh viesse de uma família cristã, mas não havia maneira de o saber, porque ninguém do clã dela estava presente. O Padre Brien disse as palavras tranquilamente, como era seu costume, mas pareceu-me que o rosto dele estava fechado e o tom de voz remoto. Assim que as formalidades terminaram, carregou a sua carroça e partiu. Seguiu-se um banquete de mesa cheia com a respectiva cerveja. E no dia seguinte, as coisas começaram a acontecer.

 

Eilis adoeceu por qualquer coisa que comeu, pensou-se, mas ficou muito tempo de cama e eu fui chamada para a tratar. O rosto tinha perdido aquele aspecto roliço e rosado e havia sangue nos fluidos. Mandei um rapaz em busca do padre Brien, mas ele não veio e eu segurei-lhe na cabeça, falei com ela, fi-la andar de um lado para o outro do quarto e quando estava quase moribunda fiz-lhe um preparado, sentando-me depois a seu lado na cama, até que caiu num sono irrequieto. Liam andava de um lado para o outro lá fora, assim como o pai de Eilis, murmurando baixinho.

 

Fiquei com ela toda a noite e fiz o que tinha a fazer. No dia seguinte ela estava fraca, mas parecia um pouco melhor. Precisava de descanso e cuidados intensos. Fora algo que comera, de certeza. Reconheci os sintomas de envenenamento por acónito e sabia que não fora acidente. A quantidade devia ter sido calculada com precisão, porque uma pessoa apenas podia sobreviver com uma dose extremamente pequena daquela substância letal. A intenção fora magoar, não matar. Não podia dizer como a raiz daquela erva entrara no banquete de casamento e especificamente no prato de determinada pessoa. E não podia acusar a minha nova madrasta, se bem que os olhos dela estivessem pousados em mim quando Seamus Redbeard fez as suas despedidas apressadas. Aprontou-se uma padiola coberta e ele levou a filha para casa, para Glencarnagh. Liam fez-me intensas perguntas, com uma raiva branca no rosto que eu nunca tinha visto antes; mas eu disse-lhe para ter cuidado, conhecendo Lady Oonagh melhor do que ele. Ela sabia o suficiente das minhas qualidades para perceber que a origem da misteriosa doença de Eilis não ficaria por detectar durante muito tempo. Uma acusação era o que ela esperava, visto que nada melhor do que uma clivagem entre pai e filho! Além disso, disse eu a Liam, Eilis iria ficar boa. Era uma rapariga forte e eu detectara o veneno cedo. Era melhor ela regressar a casa por uns tempos, pelo menos.

Diarmid arranjou um olho negro e Cormack um golpe feio na face. Talvez uma determinada informação não tivesse ficado secreta, no fim de contas. Nesta questão não interferiria, mas vi Diarmid a observá-la, a observá-la, ficando cada dia um pouco mais magro e mais pálido, como um homem que tivesse provado a fruta mágica apenas uma vez e estivesse a ser consumido pelo próprio desejo. O rosto do meu pai tinha uma sombra parecida, se bem que continuasse os seus negócios mais ou menos como de costume. Oonagh sentava-se à mesa com o seu sorriso sereno e olhos dominantes. As pessoas apressavam-se, nervosas, para lhe obedecerem. Para onde quer que nos virássemos, parecia que ela lá estava, olhando. Os homens de armas mantinham-se à distância.

 

Então os animais de Padriac começaram a adoecer e a morrer. Primeiro foi o velho burro, encontrado já frio e hirto uma manhã, no estábulo. Ficámos tristes; mas ele já tinha vivido o seu tempo, mais ou menos e aceitámos a sua perda com um olhar saudoso para o canto vazio. A seguir, a gata desapareceu, deixando para trás o ninho e as crias. Padriac tentou alimentá-las e eu ajudei, mas, uma a uma, definharam, enfraqueceram e as suas pequenas vidas desapareceram. Chorei quando a última me morreu nas mãos, os seus olhos, antes brilhantes, enfraquecendo, gradualmente, até ficarem cinzentos transparentes. Dois dias mais tarde, encontrei Padriac a esmurrar a parede do celeiro, os nós dos dedos sangrentos e os olhos marejados de lágrimas. E a seus pés o corvo, cuja perna ferida estava quase curada e cuja plumagem ficara de novo brilhante e saudável; mas agora jazia imóvel, a cabeça torcida para trás de modo estranho e os olhos, sem vida, fixos na imensidão do céu invernoso. O velho celeiro estava vazio. A dor e a cólera sem palavras de Padriac revolveram-me as entranhas. Sentia-se consumido pela fúria e não o podíamos consolar. Para mim, o pior estava para vir. Tinha obrigação de estar preparada, mas não estava.