A Fórmula de Deus
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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
"Mas os gafanhotos são máquinas naturais. Os computadores são máquinas artificiais."
Manuel olhou em redor da cozinha, à procura de uma idéia. A sua atenção fixou-se na janela, numa árvore erguida no passeio em frente, para onde um pardal esvoaçou.
"Olha ali para as aves. Os ninhos que eles constroem nas árvores são naturais ou artificiais?"
"São naturais, claro."
"Então tudo o que o homem faz também é natural. Nós, que temos um conceito antropocêntrico da natureza, é que dividimos tudo entre coisas naturais e coisas artificiais, sendo que definimos que as artificiais são as feitas pelos homens e as naturais feitas pela natureza, pelas plantas e pelos animais. Mas isso é uma convenção humana. A verdade é que, se o homem é um animal, tal como as aves, então é uma criatura natural, certo?"
"Sim."
"Sendo uma criatura natural, tudo o que ele faz é natural. Logo, as suas criações são naturais, da mesma maneira que o ninho feito pelas aves é uma coisa natural." Tossiu. "O que eu quero dizer é que tudo na natureza é natural. Se o homem é um produto da natureza, então tudo o que ele faz também é natural. Apenas por uma convenção de linguagem se estabeleceu que os objetos que ele cria são artificiais, quando, na verdade, são tão naturais quanto os objetos que as aves criam. Logo, sendo criações de um animal natural, os computadores, tais como os ninhos, são naturais."
"Mas não têm inteligência."
"Nem as aves ou os gafanhotos têm." Fez uma careta. "Ou melhor, as aves, os gafanhotos e os computadores têm inteligência. O que eles não têm é a nossa inteligência. Mas, por exemplo, no caso dos computadores, nada garante que, daqui a cem anos, eles não venham a ter uma inteligência igual ou superior à nossa. E, se atingirem o nosso grau de inteligência, podes estar certo de que desenvolverão emoções e sentimentos e tornar-se-ão conscientes."
"Isso não acredito."
"Que possam ter emoções e tornarem-se conscientes?"
"Sim. Não acredito nisso."
Manuel Noronha foi assaltado por um súbito ataque de tosse, uma tosse tão cavada que parecia quase expulsar os pulmões pela boca. O filho ajudou-o a recompor-se, oferecendo-lhe água e procurando acalmá-lo. Quando o ataque morreu, Tomás olhou para o pai com ar apreensivo.
"O pai está bem?"
"Sim."
"Quer ir deitar-se um pouco? Se calhar é..."
"Eu estou bem, deixa estar", atalhou o velho matemático.
"Veja lá."
"Eu estou bem, eu estou bem", insistiu, recuperando o fôlego. "Onde é que íamos?"
"Oh, não interessa."
"Não, não. Eu quero explicar-te isto, é importante."
Tomás hesitou e fez um esforço de memória.
"Uh... dizia-lhe eu que não acredito que os computadores possam ter emoções e consciência."
"Ah, sim", exclamou Manuel, recuperando o fio do raciocínio. "Achas que os computadores não podem ter emoções, não é?"
"É. Nem emoções nem consciência."
"Pois estás muito enganado." Inspirou fundo, normalizando a respiração. "Sabes, as emoções e a consciência resultam de se atingir um determinado grau de inteligência. Ora, o que é a inteligência? Hã?"
"A inteligência é a capacidade de fazer raciocínios complexos, acho eu."
"Exato. Ou seja, a inteligência é uma forma de elevada complexidade. E não é preciso atingir-se o grau da inteligência humana para se criar a consciência. Por exemplo, os cães são muito menos inteligentes do que os homens, mas, se perguntares ao dono de um cão se o seu cão tem emoções e consciência das coisas, ele dir-te-á, sem hesitar, que sim. O cão tem emoções e consciência. Logo, as emoções e a consciência são mecanismos que emergem a partir de um determinado grau de complexidade de inteligência."
"Portanto, o pai acha que os computadores, se atingirem esse grau de complexidade, tornar-se-ão emotivos e conscientes?"
"Sem dúvida."
"Custa-me a acreditar nisso."
"Custa-te a ti e custa à maior parte das pessoas que não está dentro do problema. A idéia de máquinas possuírem consciência parece chocante ao comum dos mortais. E, no entanto, a maior parte dos cientistas que lida com este problema acredita ser possível tornar consciente uma mente simulada."
"Mas o pai acha que é mesmo possível tornar um computador inteligente? Acha que é possível que ele pense por si só?"
"Claro que é. Aliás, os computadores já são inteligentes. São mais inteligentes do que uma minhoca, por exemplo." Ergueu o dedo. "Não são é tão inteligentes como os seres humanos, mas são mais inteligentes do que uma minhoca. Ora, o que é que separa a inteligência do ser humano da inteligência da minhoca? A complexidade. O nosso cérebro é muito mais complexo do que o da minhoca. Obedece aos mesmos princípios, ambos têm sinapses e ligações, só que o cérebro humano é incomensuravelmente mais complexo do que o da minhoca." Bateu na parte lateral da cabeça. "Tu sabes o que é um cérebro?"
"É o que temos cá dentro do crânio."
"Um cérebro é uma massa orgânica que funciona exatamente como um circuito eléctrico. Em vez de ter fios, tem neurônios, em vez de ter chips, tem miolos, mas é precisamente a mesma coisa. O seu funcionamento é determinista. As células nervosas disparam um impulso elétrico em direcção ao braço com uma determinada ordem, segundo um padrão de correntes elétricas pré-definidas. Um diferente padrão produziria a emissão de um diferente impulso. Exatamente como um computador. O que eu quero dizer é que, se nós conseguirmos tornar o cérebro do computador muito mais complexo do que é atualmente, poderemos pô-lo a funcionar ao nosso nível."
"E é possível torná-los tão inteligentes quanto os seres humanos?"
"Em teoria, nada o impede. Repara, os computadores já batem os seres humanos na velocidade de cálculo. Onde eles apresentam enormes deficiências é na criatividade. Um dos pais dos computadores, um inglês chamado Alan Turing, estabeleceu que, no dia em que conseguirmos manter com um computador uma conversa exatamente igual à que teríamos com qualquer outro ser humano, então é porque o computador pensa, é porque o computador tem uma inteligência ao nosso nível."
Tomás adptou uma expressão cética.
"Mas isso é mesmo possível?"
"Bem... uh... é verdade que, durante muito tempo, os cientistas acharam que não, devido a um complicado problema matemático." Tossiu. "Sabes, nós, os matemáticos, sempre acreditamos que Deus é um matemático e que o universo está estruturado segundo equações matemáticas. Essas equações, por mais complexas que pareçam, são todas elas resolúveis. Se não se consegue resolver uma equação, isso não se deve ao fato de ela ser irresolúvel, mas às limitações do intelecto humano em resolvê-la."
"Não estou a ver onde quer chegar..."
"Já vais perceber", prometeu o pai. "A questão dos computadores poderem ou não adquirir consciência está ligada a um dos problemas da matemática, a questão dos paradoxos autoreferenciais. Por exemplo, repara no que eu vou dizer. Eu só digo mentiras. Notas aqui alguma anomalia?"
"Em quê?"
"Nesta frase que eu acabei de formular. Eu só digo mentiras."
Tomás soltou uma gargalhada.
"É uma grande verdade."
O pai olhou-o com ar condescendente.
"Ora aí está. Se é verdade que eu só digo mentiras, então, tendo dito uma verdade, eu não digo só mentiras. Se a frase é verdadeira, ela própria contém uma contradição dentro de si." Agitou as sobrancelhas, satisfeito consigo próprio. "Durante muito tempo, pensou-se que este era um mero problema semântico, resultante das limitações da língua humana. Mas, quando este enunciado foi transposto para uma formulação matemática, a contradição manteve-se. Os matemáticos passaram muito tempo a tentar resolver o problema, sempre na convicção de que ele era resolúvel. Essa ilusão foi desfeita em 1931 por um matemático chamado Kurt Gódel, que formulou dois teoremas,
chamados da Incompletude. Os teoremas da Incompletude são considerados um dos maiores feitos intelectuais do século XX e deixaram os matemáticos em estado de choque." Hesitou. "É um pouco complicado explicar em que consistem estes teoremas, mas é importante que fiques com..."
"Tente."
"Tento o quê? Explicar os teoremas da Incompletude?"
"Sim."
"Não é fácil", disse, abanando a cabeça. Encheu o peito de ar, como se procurasse ganhar coragem. "A questão essencial é que Gódel provou que não existe nenhum procedimento geral que demonstre a coerência da matemática. Há afirmações que são verdadeiras, mas não são demonstráveis dentro do sistema. Esta descoberta teve profundas consequências, ao revelar as limitações da matemática, expondo assim uma sutileza desconhecida na arquitetura do universo."
"Mas o que tem isso a ver com os computadores?"
"É muito simples. Os teoremas de Gódel sugerem que, por mais sofisticados que sejam, os computadores vão sempre enfrentar limitações. Apesar de não conseguir mostrar a coerência de um sistema matemático, o ser humano consegue perceber que muitas afirmações dentro do sistema são verdadeiras. Mas o computador, colocado perante tal contradição irresolúvel, bloqueará. Logo, os computadores jamais serão capazes de igualar os seres humanos."
"Ah, já percebi", exclamou Tomás. Fez um ar satisfeito. "Então o pai está-me a dar razão..."
"Não necessariamente", disse o velho matemático. "A grande questão é que nós podemos apresentar ao computador uma fórmula que sabemos ser verdadeira, mas que o computador não pode provar que é verdadeira. É verdade. Mas também é verdade que o computador nos pode fazer o mesmo. A fórmula só não é demonstrável para quem está a trabalhar dentro do sistema, entendes? Quem estiver fora do sistema consegue provar a fórmula. Isso é válido para um computador como para um ser humano. Conclusão: é possível um computador ser tão ou mais inteligente quanto as pessoas."
Tomás suspirou.
"Tudo isso para provar o quê?"
"Tudo isso para te provar que não passamos de computadores muito sofisticados. Achas que os computadores podem vir a ter alma?"
"Que eu saiba, não."
"Então, se nós somos computadores muito sofisticados, também não podemos ter. A nossa consciência, as nossas emoções, tudo o que sentimos é resultado da sofisticação da nossa estrutura. Quando morrermos, os chips da nossa memória e da nossa inteligência irão desaparecer e nós apagamo-nos." Respirou fundo e encostou-se na cadeira. "A alma, meu querido filho, não passa de uma invenção, de uma maravilhosa ilusão criada pelo nosso ardente desejo de escaparmos à inevitabilidade da morte."
VI
Os olhos quentes de Ariana Pakravan esperavam por Tomás junto à saída dos passageiros, no terminal do velho Aeroporto Internacional Mehrabad. Por momentos, porém, o recém-chegado sentiu-se desorientado, procurando por entre a multidão de chador negros ou coloridos o rosto familiar que teimava em não lhe aparecer; e foi só quando Ariana se chegou ao pé de si e lhe tocou no braço que o historiador se deu por encontrado. Mas Tomás teve dificuldades em reconhecer a sua anfitriã nos trajos islâmicos que envergava e não pôde deixar de se sentir chocado com a diferença entre aquela mulher de véu verde e a sofisticada iraniana com quem almoçara no Cairo apenas uma semana antes.
"Salam, professor", saudou a voz sensual, dando-lhe as boas-vindas. "Kbosk amadin!"
"Olá, Ariana. Como está?"
O português ficou na expectativa, não sabia se devia inclinar-se para a beijar nas duas faces ou se haveria uma outra qualquer forma de saudação mais adequada naquela terra de tão radicais costumes. A iraniana resolveu-lhe o problema, estendendo-lhe a mão.
"Teve um bom vôo?"
"Ótimo", disse Tomás. Rolou os olhos. "Ia desmaiando sempre que vinha a turbulência, claro. Mas, tirando isso, correu tudo bem."
Ariana riu-se.
"Tem medo de voar, é?"
"Medo não, só tenho... uh... receio." Fez uma careta. "Passo a vida a gozar com a minha mãe por ela ter medo de viagens, mas a verdade é que sou como ela, não é? Herdei-lhe o gene."
A iraniana inspecionou-o, espreitando para o saco que ele trazia ao ombro e verificando se não vinha atrás nenhum carregador com mais malas.
"Não traz mais bagagem?"
"Não. Eu viajo sempre leve."
"Então está bem. Vamos andando."
A mulher conduziu-o para uma fila à saída do aeroporto, na berma do passeio. O recém-chegado olhou para a frente e viu automóveis cor de laranja a recolherem passageiros.
"Vamos de táxi?" bim.
"Não tem carro?"
"Professor, estamos no Irã", disse, sempre num tom jovial. "As mulheres a conduzir não são aqui lá muito bem-vistas."
"Puxa."
Acomodaram-se no assento traseiro do táxi, um Paykan a cair de velho, e Ariana inclinou-se para o motorista.
"Lotfan, man o bebarin be botei Simorgh."
"Bale."
Tomás só percebeu a palavra hotel.
"Que hotel é?"
"É o Simorgh", explicou Ariana. "O melhor de todos."
O taxista voltou a cabeça para trás.
"Darbast mikhayin?"
"Bale", retorquiu a mulher.
Tomás mostrou-se curioso.
"O que quer ele?"
"Estava a perguntar se queríamos o táxi só para nós."
"O táxi só para nós? Não entendo..."
"É um costume iraniano. Os táxis, apesar de já estarem ocupados com passageiros, param pelo caminho para recolherem ainda mais passageiros. Se quisermos ficar com o táxi só para nós teremos de pagar a diferença entre o valor que pagaremos e o que pagariam outros passageiros que o motorista terá agora de perder."
"Ah. O que lhe respondeu?"
"Disse-lhe que sim", afirmou a iraniana. "Queremos o táxi só para nós."
Ariana tirou o véu e, como um farol que tudo encandeia, a perfeição das suas linhas de rosto iluminou os olhos do português. Tomás já não se lembrava de quão bela era aquela mulher, com os seus lábios sensuais, os olhos cor de caramelo, a tez láctea, a expressão exótica. O professor forçou-se a virar a cara para lá da janela, preocupado em não permanecer especado a admirar-lhe a face bonita.
Teerã girava em torno de si, as ruas apinhadas de automóveis, as casas espraiando-se para lá do horizonte; a cidade era uma floresta de cimento, feia, desordenada, cinzenta, coberta por uma neblina suja e gordurosa que pairava no ar como um espectro pardacento. Um vulto alvo e resplandecente, como um firme floco de nuvens iluminado pelo sol, planava sobre a neblina sebácea, atraindo o olhar interrogativo do recém-chegado.
"É a estrela Polar de Teerã", explicou Ariana.
"Estrela Polar?"
A iraniana sorriu, divertida.
"Sim, é como chamamos às montanhas Alborz." Mirou a cordilheira distante. "Elas estendem-se por todo o norte da cidade, sempre cobertas de neve, mesmo no Verão. Quando nos sentimos desorientados, procuramo-las por cima das casas e, ao ver aqueles picos nevados, sabemos que ali é o norte."
"Mas vêem-se tão mal..."
"É por causa do smog. A poluição nesta cidade é terrível, sabe? Pior do que o Cairo. Às vezes temos dificuldade em vê-las, apesar de as montanhas serem tão altas e se encontrarem ali tão perto."
"Lá altas parecem elas, sem dúvida."
"O pico mais elevado é o do monte Damavand, aquele à direita." Apontou. "Tem mais de cinco mil metros de altitude e, sempre que..."
"Cuidado!"
Um automóvel branco proveniente da direita apareceu disparado contra o táxi. Quando parecia que o choque seria inevitável, o táxi guinou para a esquerda, quase abalroando uma camioneta, que travou e buzinou desenfreadamente, e endireitou-se, escapando por uma fração de segundo à colisão.
"O que foi?", quis saber Ariana.
O português suspirou de alívio.
"Ufa! Escapamos por pouco."
A iraniana riu-se.
"Oh, não se preocupe. Isto é normal."
"Normal?"
"Sim. Mas é verdade que todos os estrangeiros, mesmo as pessoas habituadas ao tráfego caótico das cidades do Médio Oriente, ficam em pânico quando aqui chegam. Conduz-se um pouco rápido, é um fato, e os visitantes apanham todos os dias dois ou três sustos de morte. Mas nunca acontece nada, no último instante tudo se compõe, vai ver."
Tomás observou o trânsito compacto e célere, uma expressão apreensiva desenhada nos olhos.
"Você acha?", perguntou, a voz carregada de ceticismo.
"Não, não acho. Sei." Fez um sinal com as mãos. "Relaxe, vá."
Mas era impossível descontrair e o português, intranquilo, passou o resto da viagem mais atento àquele trânsito infernal. Em vinte minutos apercebeu-se de que ninguém fazia sinais para a esquerda nem para a direita quando virava, poucos eram os condutores que pareciam consultar o espelho retrovisor antes de mudarem de direção, mais raros os que usavam cintos de segurança; guiava-se a uma velocidade impossível e as buzinadelas e o chiar dos travões eram sons naturais e permanentes, um verdadeiro concerto sobre o alcatrão. O cúmulo ocorreu em plena auto-estrada, na Fazl ol-Lahnuri, quando viu um automóvel virar bruscamente em sentido proibido na faixa contrária e avançar algumas centenas de metros contra o trânsito, acabando por sair por um caminho de cabras.
Tal como Ariana previra, porém, chegaram sãos e salvos ao hotel. O Simorgh era um hotel luxuoso, de cinco estrelas e uma recepção requintada. A iraniana ajudou-o a fazer o check-in e despediu-se à porta do elevador.
"Descanse um pouco", recomendou. "Venho buscá-lo às seis da tarde para o levar a jantar."
O quarto apresentava-se finamente decorado. Depois de atirar o saco para o chão, Tomás foi à janela e contemplou Teerão; a cidade era dominada por prédios urbanos de mau gosto e elegantes minaretes que se elevavam acima do casario incolor. Ao fundo, como um gigante adormecido, estendia-se a presença protectora das montanhas Alborz, a neve a cintilar nos cumes como jóias de um colar exposto numa monumental vitrina.
Sentou-se na cama e consultou o folheto plastificado do Simorgh, enumerando os serviços de luxo para os clientes; os principais eram a banheira de hidromassagens, o ginásio e uma piscina, com horários rotativos para homens e mulheres. Inclinou-se e abriu a porta do minibar. Viam-se garrafas de água mineral e refrigerantes, incluindo Coca-Cola; mas o que verdadeiramente o alegrou foi a imagem de uma lata de cerveja da marca Delster, coberta por gotas de água gelada. Sem esperar mais, encetou a lata e engoliu a cerveja.
"Porra."
Quase vomitou o líquido; não sabia a cerveja, tinha antes o néctar da sidra. E, previsivelmente, não continha álcool.
O telefone tocou.
"Hello"', atendeu Tomás.
"Hello?", devolveu uma voz masculina do outro lado. "Professor Tomás Noronha?"
"Yes?"
"É um prazer estar no Irã?"
"Como?"
"É um prazer estar no Irã?"
"Ah", compreendeu Tomás. "Uh... venho fazer muitas compras."
"Very well", devolveu a voz, satisfeita por escutar aquela frase. "Vemo-nos amanhã?"
"Se eu puder, sim."
"Tenho bons tapetes para si."
"Sim, sim."
"A bom preço."
"Está bem."
"Estarei à sua espera."
Click.
Tomás ficou um longo momento com o telefone pendurado na mão, mirando o bocal, reconstituindo a conversa, relembrando cada palavra, interpretando a entoação das frases. O homem do outro lado da linha falara inglês com um forte sotaque local, não havia dúvidas de que se tratava de um iraniano. Faz sentido, reflectiu o historiador, balouçando levemente a cabeça. Faz sentido. É lógico que o homem da CIA em Teerã teria de ser um iraniano.
Quando a porta do elevador se abriu e Tomás saiu para o lobby do hotel, já Ariana o aguardava, sentada num sofá, junto a um grande vaso, uma chávena de chay de ervas sobre a mesa. A iraniana vestia um hejab diferente, com umas calças largas a flutuarem-lhe nas pernas altas, uma maqna'e colorida sobre a cabeça e um manto de seda a cobrir-lhe o corpo curvilíneo.
"Vamos?"
Desta vez circularam por Teerã num carro com motorista, um homem calado, de cabelo curto e boné na cabeça. Ariana explicou que a avenida onde se situava o hotel, a Valiasr, se prolongava por vinte quilômetros, desde o sul pobre até ao início das Alborz, atravessando o abastado norte da cidade; a Valiasr constituía o eixo em torno do qual se erguera a moderna Teerão, o lugar dos cafés da moda, dos restaurantes de luxo e dos edifícios diplomáticos.
Levaram tempo a cruzar a urbe e a atingir o sopé das montanhas. O automóvel escalou a encosta rochosa e entrou num jardim paisagístico, protegido por árvores altas. Por detrás erguia-se a parede escarpada das Alborz, lá em baixo estendia-se o formigueiro barrento do casario de Teerão, à direita o sol adquiria o tom alaranjado do crepúsculo.
Estacionaram no jardim e Ariana levou Tomás a um edifício com enormes janelas e rodeado de varandas; era um restaurante turco. O estabelecimento tinha sido erguido num local privilegiado, dispondo de uma magnífica vista da cidade, que apreciaram por momentos; com o lusco-fusco a abater-se sobre o vale, porém, a brisa começou a soprar fria e não se detiveram mais tempo por ali.
Uma vez dentro do restaurante, sentaram-se à janela, Teerão a seus pés. A iraniana pediu uma mirza gbasemi vegetariana para si e recomendou ao seu convidado um broke, sugestão prontamente aceite, Tomás queria conhecer aquele prato de carne picada com batatas e vegetais.
"Não lhe faz confusão esse lenço na cabeça?", perguntou o português, enquanto esperavam pela comida.
"O hejab?”
"Sim. Não lhe faz confusão isso?"
"Não, é uma questão de hábito."
"Mas para quem estudou em Paris e se habituou aos costumes ocidentais, não deve ser fácil..."
Ariana esboçou uma expressão interrogativa.
"Como sabe você que eu estudei em Paris?"
Tomás arregalou os olhos, horrorizado. Tinha cometido um terrível erro. Lembrou-se que essa informação lhe foi dada por Don Snyder, algo que, como era evidente, não podia confessar.
"Uh... não sei", gaguejou. "Acho... uh... acho que me disseram isso na embaixada... uh... na vossa embaixada em Lisboa."
"Ah é?", admirou-se a iraniana. "Andam muito faladores, os nossos diplomatas."
O português forçou-se um sorriso.
"São... são simpáticos. Falei sobre si, sabe? E eles contaram-me isso."
A anfitriã suspirou.
"Pois, estudei em Paris."
"E por que veio para cá?"
"Porque as coisas não deram certo lá. Tive um casamento que não funcionou e, quando me divorciei, senti-me muito só. Por outro lado, tinha a minha família toda cá. Foi uma decisão difícil, nem calcula quanto. Eu estava totalmente europeizada, mas a aversão à solidão e as saudades da família acabaram por ser mais fortes e optei por voltar. Foi na altura em que os reformadores começaram a crescer, o país liberalizava-se e as coisas pareciam melhores para as mulheres. Fomos nós, as mulheres, mais os jovens, que colocamos o Khatami na presidência, sabia?" Fez um esforço de memória. "Isso foi, deixe cá ver, foi em... em 1997, dois anos depois de eu ter voltado. A coisa, a princípio, correu bem. Ouviram-se as primeiras vozes em defesa dos direitos das mulheres e houve algumas que até entraram no Majlis.'"
"O Majquê?"
"O Majlis, o nosso parlamento."
"Ah. As mulheres entraram no Parlamento, foi?"
"Sim, e não foi só isso, sabe? Graças aos reformistas, as solteiras conquistaram o direito de irem estudar para o estrangeiro e a idade legal do casamento para raparigas subiu dos nove para os treze anos. De modo que foi nessa altura que eu fui trabalhar para Isfahan, a minha terra natal." Esboçou uma careta. "O problema é que os conservadores retomaram o controlo do Majlis nas eleições de 2004 e... não sei, estamos agora a ver o que isto vai dar. Para já, fui transferida de Isfahan aqui para o Ministério da Ciência, em Teerã."
"O que estava a fazer em Isfahan?"
"Trabalhava numa central."
"Que tipo de central?"
"É uma coisa experimental. Não interessa."
"E foi agora transferida para Teerã?"
"No ano passado."
"Porquê?"
Ariana riu-se.
"Acho que alguns homens são muito tradicionalistas e ficam nervosos por terem uma mulher a trabalhar com eles."
"O seu marido deve ter ficado aborrecido com a transferência, não?"
"Não voltei a casar."
"Então ficou o seu namorado."
"Também não tenho namorado." Ergueu a sobrancelha. "Mas o que é isto? Está-me a testar, é?
Quer ver se eu estou disponível?"
O português soltou uma gargalhada.
"Não, claro que não." Hesitou. "Quer dizer... uh... sim."
"Sim, o quê?"
"Sim, estou a testá-la. Sim, quero saber se está disponível." Inclinou-se para a frente, os olhos a reluzir. "Está?"
Ariana corou.
"Professor, estamos no Irã. Há certos comportamentos que... que..."
"Não me chame professor, faz-me velho. Chame-me Tomás."
"Não posso. Tenho de cuidar das aparências."
"Como assim?"
"Não posso mostrar intimidade consigo. Na verdade, eu devia chamar-lhe agha professor."
"O que é isso?"
"Senhor professor."
"Então chame-me Tomás quando estivermos a sós e agha professor quando estiver alguém por perto. Combinado?"
Ariana abanou a cabeça.
"Não pode ser. Tenho de me dar ao respeito."
O historiador abriu as mãos, num gesto de desistência.
"Como queira", disse. "Mas, diga-me uma coisa. Como é que os iranianos vêem uma mulher como você, assim bela, ocidentalizada, divorciada, a viver sozinha?"
"Bem, eu só vivo sozinha aqui em Teerã. Em Isfahan estava em casa da minha família. Sabe
que, aqui, há o costume de a família viver toda junta. Irmãos, avós, netos, tudo debaixo do mesmo
tecto. Mesmo os filhos, quando casam, ainda ficam algum tempo a viver com os pais."
"Hmm-hmm", murmurou Tomás. "Mas não respondeu à minha pergunta. Como é que os seus compatriotas encaram o seu modo de vida?"
A iraniana respirou fundo.
"Não muito bem, como seria de esperar." Fez um ar pensativo. "Sabe, as mulheres aqui não têm muitos direitos. Quando veio a Revolução Islâmica, em 1979, as coisas mudaram muito. O hejab tornou-se obrigatório, a idade de casamento para raparigas foi fixada nos nove anos e as mulheres foram proibidas de aparecer em público com um homem que não fosse da sua família ou a viajar sem consentimento do marido ou do pai. O adultério pela mulher passou a ser punido com
apedrejamento até à morte, mesmo nos casos em que ela era violada, e até o uso incorreto do hejab passou a dar direito a vergastadas."
"Caramba", exclamou Tomás. "As mulheres começaram a ter vida difícil, hem?"
"Pode crer. Eu, na altura, estava em Paris, pelo que não passei por essas vergonhas todas. Mas ia acompanhando isto tudo à distância, não é? As minhas irmãs e as minhas primas foram-me pondo ao corrente dos novos tempos. E acredite que eu não teria vindo em 1995 se achasse que as coisas iriam ficar na mesma. Na altura estavam a emergir os reformadores, havia sinais de abertura e eu... enfim, resolvi arriscar."
"Você é muçulmana?"
"Claro."
"Não lhe choca o modo como o Islã trata as mulheres?"
Ariana fez um ar atrapalhado.
"O profeta Maomé disse que os homens e as mulheres têm diferentes direitos e responsabilidades." Ergueu o dedo. "Repare, ele não disse que uns têm mais direitos do que os outros, disse apenas que são diferentes. É a forma como esta frase do profeta foi interpretada que está por detrás de todos estes problemas."
"Acha que Deus está realmente preocupado em saber se as mulheres usam véu ou não usam véu, se podem casar com nove, treze ou dezoito anos, se têm relações extraconjugais? Acha que Deus se incomoda com essas coisas?"
"É claro que não. Mas o que eu acho é irrelevante, não é? Esta sociedade funciona como funciona e não há nada que eu possa fazer para alterar as coisas."
"Mas é a sociedade que funciona assim ou é o Islão que funciona assim?"
"Não sei, acho que é a sociedade e a forma como ela interpreta o Islã", observou Ariana, pensativa. "O Islã é sinônimo de hospitalidade, de generosidade, de respeito pelos mais velhos, de sentido de família e de comunidade. A mulher realiza-se aqui como esposa e como mãe, tem o seu papel definido e tudo é claro." Encolheu os ombros. "Mas quem quiser algo mais... enfim, talvez saia frustrada, não é?"
Fez-se silêncio.
"Está arrependida?"
"De quê?"
"De ter voltado. Está arrependida?"
Ariana encolheu os ombros.
"Gosto da minha terra. É aqui que está a minha família. As pessoas são fantásticas, já reparou? Lá fora têm a idéia de que isto é tudo um bando de fanáticos, de gente que passa o dia a queimar bandeiras americanas, a gritar contra o Ocidente e a disparar kalashnikov para o ar, quando, na realidade, não é bem assim." Sorriu. "Até bebemos Coca-Cola."
"Já reparei. Mas voltou a não responder à minha pergunta."
"Qual pergunta?"
"Você sabe muito bem. Está arrependida de ter voltado ao Irã?"
A iraniana respirou fundo, algo intranquila com a questão.
"Não sei", disse por fim. "Procuro algo."
"Procura o quê?"
"Não sei. Quando encontrar, saberei."
"Procura alguém?"
"Talvez." Voltou a encolher os ombros. "Não sei, não sei. Acho que... procuro um sentido."
"Um sentido?"
"Sim, um sentido. Um sentido para a minha vida. Sinto-me um pouco perdida, meio caminho entre Paris e Isfahan, algures numa terra de ninguém, numa pátria desconhecida que não é francesa nem iraniana, que não é europeia nem asiática, mas, ao mesmo tempo, é tudo isso. A verdade é que ainda não encontrei o meu lugar."
O empregado turco, de pele morena e um ligeiro toque mongol, apareceu com a travessa do jantar. Colocou o mirza gbasemi diante de Ariana e o broke à frente de Tomás, mais dois copos de ab portugal, o sumo de laranja que ambos encomendaram em homenagem ao país do visitante, afinal de contas não é qualquer nação que tem um nome que se confunde com uma fruta em parsi. Para lá da janela, um mar de luzes tremeluzia pela escuridão, era Teerã a brilhar à noite, a cidade resplandecia até à linha do horizonte e para lá dela cintilava como uma imensa árvore de Natal.
"Tomás", murmurou Ariana, bebericando o sumo. "Gosto de falar consigo."
O português sorriu.
"Obrigado, Ariana. Obrigado por me chamar Tomás."
VII
O edifício era um bloco compacto de cimento, um monstro escondido por um muro alto, no topo do qual assentava uma coroa de arame farpado, e decorado por acácias frondosas, numa ruela oculta de Teerã. O motorista baixou o vidro da janela do carro e falou em parsi com o guarda; o homem armado espreitou para o banco de trás da viatura, os olhos dançando por momentos entre Ariana e Tomás, e regressou ao casinhoto. A cancela foi levantada e o automóvel estacionou junto a uns arbustos.
"É aqui que você trabalha?", perguntou Tomás, avaliando o edifício cinzento.
"Sim", disse a iraniana. "É o Ministério da Ciência, Pesquisa e Tecnologia."
A primeira preocupação foi a de registar o visitante, atribuindo-lhe um cartão que lhe permitia frequentar o ministério durante um mês. O processo revelou-se moroso na secretaria, onde o pessoal, sempre sorrindo e manifestando uma simpatia e cerimônia que chegava a roçar o absurdo, o obrigou a preencher sucessivos formulários.
Já com o cartão na mão, Tomás foi levado ao segundo andar e apresentado ao director do departamento de projetos especiais, um homem baixo e magro, de pequenos olhos escuros e barba grisalha pontiaguda.
"Este é agha Mozaffar Jalili", disse Ariana. "Está a trabalhar comigo neste... uh... projeto."
"Sob bekbeir", cumprimentou o iraniano, sorridente.
"Bom dia", devolveu Tomás. "É o senhor que está encarregado do projeto?"
O homem fez um gesto vago com a mão.
"Formalmente, sim." Olhou de relance para Ariana. "Mas, na prática, é a khanom Pakravan quem está a conduzir os trabalhos. Ela tem... uh... qualificações especiais e eu limito-me a prestar-lhe toda a assistência logística. O senhor ministro considera este projeto de grande valor científico, sabe? De modo que determinou que os trabalhos devem prosseguir sem demora, sob a direção da khanom Pakravan."
O português olhou para os dois.
"Muito bem. Então vamos a isso, não é?"
"Quer começar já?", perguntou Ariana. "Não prefere tomar um chay primeiro?"
"Não, não", devolveu ele, esfregando as mãos. "Já comi no hotel. Agora é hora de trabalhar. Mal posso esperar para pôr os olhos no documento."
"Muito bem", disse a iraniana. "Vamos a isso."
Subiram os três ao terceiro andar e entraram numa sala espaçosa, com uma mesa longa no centro e seis cadeiras. As paredes apresentavam-se cobertas de armários com dossiers e dois vasos de
plantas emprestavam cor ao local. Tomás e Jalili sentaram-se à mesa, o iraniano envolvido numa conversa de circunstância, enquanto Ariana se ausentou. Pelo canto do olho, o português apercebeu-se de que ela entrou no gabinete seguinte, onde permaneceu alguns minutos. Reapareceu com uma caixa na mão e depositou-a sobre a mesa.
"Aqui está", anunciou.
Tomás estudou a caixa. Era de cartão reforçado, com aspecto gasto e usado, um lacinho roxo a selar a entrada.
"Posso ver?"
"Com certeza", disse ela, desfazendo o lacinho. Abriu a caixa e tirou do interior um manuscrito amarelecido, de poucas páginas, que colocou diante de Tomás. "Aqui está."
O historiador sentiu o cheiro adocicado do papel velho. A primeira página, uma folha quadriculada cuja fotocópia já tinha visto no Cairo, apresentava o título datilografado em letra de máquina antiga e um poema.
DIE GOTTESFORMEL
Terra if fin
De terrors tigbt
Sabbath fore
Christ nite
A. Einstein
Por baixo, o rabisco com o nome gatafunhado de Albert Einstein.
"Hmm", murmurou o historiador. "Que poema é este?"
Ariana encolheu os ombros.
"Não sei."
"Não foi saber?"
"Fui. Consultamos a Faculdade de Letras da Universidade de Teerã e conversamos com vários professores de literatura inglesa, incluindo peritos em poesia, mas ninguém reconheceu o poema."
"Estranho." Voltou as páginas e analisou os rabiscos escrevinhados a tinta permanente negra, por vezes intercalados por equações. Página atrás de página, sempre os mesmos gatafunhos e mais equações. Eram vinte e duas páginas, todas numeradas no canto superior direito. Depois de as folhear com vagar e em silêncio, Tomás realinhou-as em bloco e mirou Ariana. "É isto tudo?"
"Sim."
"E onde está a parte que precisa de ser decifrada?"
"É a última folha."
O português tirou a folha que se encontrava no final do manuscrito e estudou-a com curiosidade. Tinha os mesmos rabiscos em alemão, mas terminava com umas palavras enigmáticas.
See sign
!ya ovqo
"Não percebo esta caligrafia", queixou-se Tomás. "O que está aqui escrito?"
"Bem, pela nossa análise caligráfica parece ser !ya e ovqo."
"Hmm", murmurou. "Sim, parece isso..."
"E, em cima, a expressão see sign."
"Mas isso é inglês."
"Sem dúvida."
O historiador fez um ar admirado.
"O que vos leva então a pensar que se trata de uma cifra em português?"
"A caligrafia."
"O que tem ela?"
"Não é de Einstein. Ora repare."
Ariana indicou com o dedo as linhas em alemão e as linhas em inglês, comparando-as.
"De fato", concordou Tomás. "Parecem redigidas por mão diferente. Mas não vejo nada aqui a sugerir mão portuguesa."
"É mão portuguesa."
"Como sabe?"
"Einstein trabalhou neste documento com um físico português que estava a estagiar no Institute for Advanced Study. Já comparamos essas palavras com a caligrafia do estagiário e a conclusão foi positiva. Quem redigiu essa frase enigmática foi, sem dúvida, o português."
Tomás mirou a iraniana. Era evidente que o português se tratava do professor Augusto Siza, mas até que ponto estaria ela disposta a falar do cientista desaparecido?
"Por que não entram em contato com esse português?", perguntou o historiador, fingindo desconhecer o assunto. "Se ele era jovem nessa altura, provavelmente ainda estará vivo."
Um rubor de atrapalhação encheu o rosto de Ariana.
"Esse português está... uh... indisponível."
Ah, pensou Tomás. Estás a esconder algo.
"Como assim, indisponível?"
Jalili interveio em socorro de Ariana. O pequeno iraniano agitou a mão, num gesto impaciente.
"Não interessa, professor. O fato é que não temos acesso a esse seu compatriota e precisamos de perceber o que quer isto dizer." Olhou de relance para a folha. "O senhor acha que consegue decifrar essa trapalhada?"
Tomás voltou a passar os olhos pela charada, pensativo.
"Preciso que me arranje uma tradução completa do texto em alemão", pediu o historiador.
"A tradução completa do manuscrito?"
"Sim, tudo."
"Não pode ser", disse Jalili.
"Perdão?"
"Não lhe posso arranjar a tradução do texto em alemão. Está absolutamente fora de questão."
"Porquê?"
"Porque tudo isto é confidencial", exclamou o iraniano, pegando no manuscrito e arrumando-o na caixa. "Apenas lhe foi mostrado para que o senhor sentisse algum contacto com o trabalho original. Vou-lhe escrever num papel a charada e terá que fazer todo o seu trabalho com base nesse papel."
"Mas porquê?"
"Porque este documento é confidencial, já lhe disse."
"Mas como posso eu decifrar a charada se não conhecer o texto anterior? Pode muito bem acontecer que o texto em alemão encerre o segredo da charada, não é?"
"Lamento, mas são as nossas ordens", insistiu Jalili. Olhou para a última página e copiou a charada de letras para uma folha A4 lisa. "Esta folha vai ser doravante o seu material de trabalho."
"Não sei se, nestas condições, consigo fazer o meu trabalho."
"Conseguirá." Soergueu o sobrolho. "Aliás, nem tem outro remédio. Por ordens do senhor ministro, o senhor só será autorizado a sair do Irã quando completar a decifração."
"O quê?"
"Lamento, mas são as nossas ordens. A República Islâmica está-lhe a pagar bem para decifrar este trecho e deu-lhe acesso a um documento confidencial muito valioso. Compreenderá naturalmente que a confidencialidade tem um preço. Se o senhor sair do Irã sem completar o trabalho, cria-se um problema de segurança nacional, uma vez que o trecho em questão poderá ser decifrado lá fora e nós, que temos o documento original, permaneceremos sem compreender esta peça-chave." O rosto crispado distendeu-se um pouco e Jalili sorriu, esforçando-se por ser amável e dissipar a tensão súbita. "De qualquer modo, não vejo razões para que não conclua com sucesso a
sua missão. Nós ficaremos com a tradução completa e o senhor irá para casa um pouco mais rico."
O português trocou de olhar com Ariana. A mulher fez um gesto de impotência, nada daquilo dependia dela. Percebendo que não dispunha de alternativas, Tomás virou-se para Jalili e suspirou, resignado.
"Muito bem", disse. "Mas já que vou fazer isto, é melhor fazer o trabalho completo, não é?"
O iraniano hesitou, sem perceber esta observação.
"Onde quer chegar?"
Tomás apontou para o manuscrito, já arrumado dentro da caixa de cartão.
"Quero chegar a essa primeira página. Será que também me pode copiar, se faz favor?"
"Copiar a primeira página?"
"Sim. Ela não esconde nenhum segredo terrível, pois não?"
"Não, tem apenas o título do manuscrito, o poema e a assinatura de Einstein."
"Então copie-me isso."
"Mas porquê?"
"Por causa desse poema, claro."
"O que tem o poema?"
"Ora! Não é evidente?"
"Não. O que tem ele?"
"O poema, meu caro, é outra charada."
O resto da manhã foi passado a tentar decifrar as duas charadas, mas sem sucesso. Tomás partiu sempre do princípio de que a segunda ocultava uma mensagem em português e imaginava que a referência see sign, a anteceder a algaraviada, era uma qualquer pista, mas não conseguia perceber qual. Já o poema lhe parecia remeter para uma mensagem em inglês, embora igualmente aqui os seus esforços esbarrassem numa opaca barreira de incompreensibilidade.
À hora do almoço, Tomás e Ariana foram a um restaurante ali perto comer um makhsus kebab, confeccionado com carne de carneiro picada.
"Peço desculpa pela forma como o agba Jalili falou consigo", disse ela, depois do empregado ter trazido a comida. "Os iranianos são habitualmente muito educados, mas este problema é de extrema sensibilidade. O manuscrito de Einstein tem prioridade e confidencialidade máxima, pelo que não podemos correr riscos. A sua estada no Irã enquanto decorre o trabalho de decifração constitui uma questão de segurança nacional."
"Eu não me importo de aqui ficar algum tempo", respondeu Tomás, enquanto mastigava um pedaço de kebab. "Desde que você esteja sempre por perto, claro."
Ariana baixou os olhos e sorriu levemente.
"Espero que isso queira dizer que apenas precisa da minha assistência científica."
"Ah, sim", exclamou o português com ar peremptório. "É apenas isso que espero de si." Fez uma expressão inocente. "Apenas assistência científica, nada mais."
A iraniana inclinou a cabeça.
"Por que será que não acredito em si?"
"Não faço a mínima ideia", riu-se ele.
"Vai-se portar bem, não vai?"
"Vou, vou."
"Por favor, Tomás", implorou ela. "Não se esqueça de que isto não é o Ocidente, está bem? Este é um país especial, onde as pessoas não se podem dar a certas liberdades. Não me vai embaraçar, pois não?"
O português fez uma expressão conformada.
"Pronto, já percebi", disse. "Nada farei que a atrapalhe, fique descansada."
"Ainda bem."
Tomás mirou o que restava do kebab na mão. O sentido da conversa dera-lhe o pretexto que precisava para fazer o que tinha a fazer.
"Depois do almoço, vou passear", anunciou.
"Ah, sim? Onde quer que o leve?"
"Não, você não vem. Se andar sempre comigo, isso poderá gerar alguns comentários desagradáveis para si. Afinal de contas, e como você diz, este é um país especial, não é?"
"Sim, tem razão", admitiu Ariana. "Vou ver se lhe arranjo um guia."
"Não preciso de guia."
"Claro que precisa. Como é que se vai orientar por..."
"Não preciso de guia", repetiu Tomás, mais enfático.
"Bem... uh... há o problema da segurança, percebe? A sua segurança é da nossa responsabilidade, precisamos que alguém o acompanhe para zelar por si."
"Que disparate! Eu sei muito bem cuidar de mim."
Ariana olhou-o, desconcertada.
"Ouça, eu vou-lhe arranjar um guia na mesma."
"Não quero, já disse."
Ela ficou um instante calada, como se estivesse a pensar. Baixou então a cabeça e inclinou-se para o seu convidado.
"Não o posso deixar assim sozinho, não entende?", sussurrou muito rapidamente. "Se você sair sem eu dizer nada a ninguém, posso ser punida." A voz adotou um tom de imploração sedutora. "Deixe-me arranjar-lhe um guia, por favor. Se você depois o despistar, problema do guia, já não tenho nada a ver com isso, não é?" Arregalou muito os olhos melados, em busca de assentimento. "Está de acordo?"
Tomás fitou-a por um momento e acabou por balançar afirmativamente a cabeça.
"Está bem", aceitou. "Chame lá o gorila."
O gorila era um homem baixo e largo, com barba rala forte e sobrancelhas negras carregadas, todo vestido de escuro e com ar de agente de segurança.
"Saiam", saudou o guia que Ariana lhe apresentou. "Haletun chetor e?"
"Ele pergunta se está tudo bem."
"Está, diga-lhe que está tudo bem."
"Khubam", disse ela ao guia.
O homem bateu com o dedo no peito.
"Esmam Rabim e", anunciou, sempre de olhos cravados no historiador. "Rahim."
Tomás percebeu.
"Rahim?" Foi a vez de ser o português a bater no peito. "Eu sou Tomás. Tomás."
"Ah, Tomás", sorriu ele. "Az ashnayitun kbosbbakhtam."
O historiador fez um sorriso amarelo e mirou a iraniana pelo canto do olho.
"Isto promete", disse entre dentes. "Sinto-me como o Tarzan a conversar com a Jane." Fez uma careta. "Me Tomás, you Rahim."
Ariana riu-se.
"Vão-se entender lindamente, vai ver."
“Só se você aceitar ser a minha Jane..."
A iraniana olhou em redor, para se certificar de que ninguém o tinha escutado.
"Vá, não comece", pediu, atrapalhada. "Onde quer que ele o leve?"
"Ao bazar. Apetece-me passear e fazer umas compras."
Rahim recebeu as indicações e entraram ambos num Toyota negro, um carro do ministério colocado à disposição do português para as suas voltinhas nessa tarde. O automóvel mergulhou no caótico trânsito de Teerão e convergiu em direcção ao sul da cidade; à medida que progrediam, a construção ia-se tornando pior, tudo parecia ainda mais congestionado, desordenado e degradado do que no resto da vasta urbe de catorze milhões de habitantes.
O motorista foi sempre tagarelando em parsi, enquanto Tomás assentia distraidamente, nada compreendendo e nada querendo compreender, os olhos perdidos no confuso e poluído emaranhado de ruas e casas, a mente a congeminar como se iria livrar do seu palrador guia-motorista-protetor-vigilante. A determinado ponto, seguiam por uma alameda, Rahim apontou para uns comerciantes e disse mais qualquer coisa em parsi, a expressão bazaris algures lá no meio. Alertado por essa palavra, como se uma sineta de alarme lhe tivesse soado aos ouvidos, Tomás procurou freneticamente indicações e apercebeu-se de uma tabuleta a referir que aquela era a Avenida Khordad. Conhecia-a do mapa que estudara atentamente na noite anterior, pelo que nem hesitou. Num gesto brusco abriu a porta do carro e saltou para o meio da avenida, desencadeando um tropel de travagens e buzinadelas.
"Bye-bye!", disse, acenando de fugida ao estupefato Rahim, que permanecia agarrado ao volante, de boca aberta, a ver o português volatilizar-se diante de si.
O motorista despertou da breve letargia provocada pela surpresa e parou o carro em plena Khordad, atirando-se também cá para fora, sempre a gritar em parsi; mas, por essa altura, já o seu cliente se embrenhara na multidão e tinha desaparecido na teia de ruelas que marcava o princípio do grande bazar de Teerã.