A Fórmula de Deus
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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Tomás inclinou-se sobre a mesa e observou o ponto assinalado.
"O Irã?"
O homem da CIA assentiu com a cabeça.
"O projeto nuclear iraniano começou no tempo do Xá, quando Teerã tentou instalar um reator nuclear em Bushehr, com a assistência de cientistas alemães. A Revolução Islâmica, em 1979, levou os alemães a suspenderem o projecto, e os ayatollahs, depois de um período em que se opuseram a toda e qualquer modernização do país, decidiram recorrer à ajuda russa para terminar a construção do reator. Só que, entretanto, a Rússia aproximou-se dos Estados Unidos e foi possível convencer os russos a suspenderem o fornecimento de lasers que poderiam ser usados para enriquecer o urânio do seu estado natural para o estado de uso militar. Também a China foi persuadida a suspender a cooperação neste domínio e as coisas pareciam controladas. Mas, no final de 2002, esta ilusão desfez-se. Verificou-se nessa altura que, bem pelo contrário, a situação estava, na realidade, descontrolada." Analisou de novo o mapa. "Descobrimos duas coisas muito perturbadoras." Pôs o dedo num ponto do mapa a sul de Teerã. "A primeira foi que os iranianos construíram aqui em Natanz, em segredo, instalações destinadas a enriquecer urânio com recurso a centrifugadoras de alta velocidade. Se forem ampliadas, estas instalações poderão produzir urânio enriquecido em quantidades suficientes para fabricar uma bomba atómica do estilo de Hiroxima." O
dedo deslizou para outro ponto do mapa, mais a oeste. "A segunda descoberta foi a da construção de instalações aqui em Arak para a produção de água pesada, uma água com deutério usada nos reatores concebidos para criarem plutônio, o material da bomba de Nagasáqui. Ora, a água pesada não é necessária nas instalações nucleares que os russos estão a construir para os iranianos em Bushehr. Se não é necessária para aí, é necessária para quê? Estas instalações de Arak sugerem que existem outras instalações não declaradas, o que consideramos muito inquietante."
"Mas não poderão vocês estar a fazer uma tempestade num copo de água?", perguntou Tomás. "Neste caso, seria um copo de água pesada, claro." Sorriu com o trocadilho. "Afinal de contas, pode ser tudo para uso pacífico da energia nuclear..."
Frank Bellamy olhou-o com desagrado, olhou-o como alguém olha para um idiota.
"Uso pacífico?" Os olhos azuis quase cintilaram, pareciam lâminas frias. "O uso pacífico da energia atômica, caro professor, resume-se à construção de centrais para produção de eletricidade. Ora, o Irã é o maior produtor mundial de gás natural e o quarto maior produtor mundial de petróleo. Por que motivo precisam os iranianos de produzir eletricidade por meios nucleares se o podem fazer de modo muito mais barato e rápido com recurso às suas enormes reservas de gás natural ou de combustíveis fósseis? E, já agora, por que razão andam os iranianos a construir centrais nucleares às escondidas? Para que precisam eles de produzir água pesada, uma substância só necessária para a criação de plutônio?" Fez uma pausa, deixando as perguntas pairarem no ar. "Meu caro professor, não sejamos ingênuos. O programa nuclear pacífico do Irã não passa de uma fachada, uma capa que esconde a construção de instalações destinadas a apoiar o verdadeiro objetivo de todo este exercício: o programa iraniano de armamento nuclear." Manteve os olhos presos em Tomás. "Percebeu?"
Tomás parecia um aluno bem-comportado, quase aterrorizado diante de um professor maldisposto.
"Sim, sim, percebi."
"A questão é descobrir onde foi o Irã buscar a tecnologia que lhe permitiu chegar já tão longe?" Ergueu dois dedos. "Há duas hipóteses. A primeira é a Coréia do Norte, que obteve do Paquistão informações sobre como enriquecer urânio através de centrifugadoras. Sabemos que a Coréia do Norte vendeu mísseis No-Dong ao Irã e é possível que, no mesmo pacote, tenha vendido a tecnologia nuclear de origem paquistanesa. A segunda hipótese é a do Paquistão ter feito diretamente essa venda. Apesar de se tratar de um país supostamente pró-americano, muitos governantes e militares paquistaneses partilham com os iranianos uma visão islâmica fundamentalista do mundo e não é difícil imaginar que lhes tenham dado uma ajudinha às escondidas."
Tomás consultou discretamente o relógio. Eram seis e dez. Já ali se encontrava havia mais de duas horas e começava a sentir-se cansado.
"Desculpe, mas já se vai fazendo tarde", disse, meio a medo. "Pode-me explicar o motivo pelo qual precisa de mim?"
O homem da CIA tamborilou os dedos no mogno polido da mesa.
"Claro que posso", disse, muito baixinho. Olhou para Don Snyder. Durante toda a exposição, o analista permaneceu sempre muito calado, quase invisível. "Don, já falaste aqui ao nosso amigo sobre o Aziz al-Mutaqi?"
"Yes, mister Bellamy."
Sempre o mesmo tom deferente.
"Já lhe explicaste que o Aziz é um operacional da Al-Muqawama al-Islamiyya?"
“Yes, mister Bellamy."
"E explicaste-lhe que a Al-Muqawama al-Islamiyya é o braço armado do Hezbollah?"
"Yes, mister Bellamy."
"E explicaste-lhe quem é o principal financiador do Hezbollah?"
"No, mister Bellamy."
Um leve cintilar perpassou-lhe no olhar azul.
"Ah!", exclamou. "Não lhe explicaste isso."
"No, mister Bellamy."
O homem da expressão glacial voltou a sua atenção para Tomás.
"O senhor não sabe ainda quem financia o Hezbollah?"
"Eu?", perguntou o português. "Não."
"Diz-lhe, Don."
"É o Irã, mister Bellamy."
Tomás considerou, por momentos, esta nova informação e as respectivas repercussões.
"O Irã, é?", repetiu o português. "E isso significa o quê?"
Bellamy voltou a dirigir-se a Snyder, mas sempre sem tirar os olhos do historiador.
"Don, falaste-lhe no professor Siza?"
"Yes, mister Bellamy."
"Disseste-lhe onde esteve o professor Siza a estudar quando era novo?"
"No, mister Bellamy."
"Então diz-lhe."
"Esteve a estagiar no Institute for Advanced Study, mister Bellamy."
Bellamy dirigiu-se agora a Tomás.
"Percebeu?"
"Uh... não."
"Don, onde se localizava o instituto onde o professor Siza estagiou?"
"Princeton, mister Bellamy."
"E qual o maior cientista que lá trabalhava?"
"Albert Einstein, mister Bellamy."
O homem da CIA ergueu o sobrolho na direção de Tomás.
"Percebeu agora?"
O português passou a mão pelo queixo, avaliando as implicações de todos estes novos dados.
"Estou a ver", disse. "Mas o que significa isso tudo?"
Frank Bellamy respirou pesadamente.
"Significa que há aqui um conjunto de fucking boas perguntas para fazer." Ergueu o polegar esquerdo. "Primeira pergunta, o que estão os cabelos do Aziz al-Mutaqi a fazer no escritório da casa do maior físico existente em Portugal?" Levantou o indicador. "Segunda pergunta, onde está o professor Siza, que estagiou em Princeton no mesmo instituto onde trabalhava Einstein?" Agora o dedo do meio. "Terceira pergunta, por que motivo uma organização como o Hezbollah precisa de raptar este físico em particular?" O dedo seguinte. "Quarta pergunta, o que sabe o professor Siza sobre a encomenda feita por Ben Gurion a Einstein para conceber uma arma nuclear de fabrico simples e barato?" O dedo mindinho. "Quinta pergunta, será que o Irã está a usar o Hezbollah para encontrar uma nova forma de desenvolver armas nucleares?"
Tomás remexeu-se no seu assento.
"Suspeito que o senhor já tem respostas para todas essas perguntas."
"Você é um fucking gênio", devolveu Bellamy, sem mexer um músculo do rosto.
O português ficou a aguardar o ato seguinte, mas nada aconteceu. Frank Bellamy permaneceu de olhos espetados em si, sem emitir qualquer palavra, apenas deixando ouvir a respiração arfada. Greg Sullivan tinha a atenção colada à madeira da mesa, fingindo-se absorvido com algo de importante que ali decorria; e Don Snyder aguardava ordens, o lap-top ainda aberto.
"Bem... se já tem as respostas", gaguejou Tomás, "uh... quaisquer que elas sejam, o que... uh... o que espera de mim?"
O homem do olhar gelado demorou a responder.
"Mostra-lhe a miúda, Don", acabou por murmurar.
Snyder dedilhou apressadamente o teclado do computador.
"Está aqui, mister Bellamy", disse, voltando o ecrã para o outro lado da mesa.
"Reconhece esta senhora?", perguntou Bellamy a Tomás.
O historiador espreitou o ecrã e viu a bela mulher dos cabelos negros e olhos castanho-amarelados.
"Ariana", exclamou. Mirou Bellamy. "Não me diga que ela está metida nisto..."
O homem do olhar azul virou-se para o rapaz do lap-top.
"Don, explica aqui ao nosso amigo quem é essa senhora."
Snyder consultou a ficha colocada ao lado da imagem no ecrã.
"Ariana Pakravan, nascida em 1966 em Isfahan, Irã, filha de Sanjar Pakravan, um dos cientistas iranianos originalmente envolvidos no projeto de Bushehr. Ariana estava em Paris a estudar num colégio quando eclodiu a Revolução Islâmica. Doutorou-se em física nuclear na Sorbonne e casou com o químico francês, Jean-Marc Ducasse, de quem se divorciou em 1992. Não tem filhos. Regressou ao seu país em 1995 e foi colocada no Ministério da Ciência diretamente sob as ordens do ministro Bozorgmehr Shafaq."
"Exatamente o que ela me disse", apressou-se Tomás a adiantar, feliz por não ter sido enganado.
Frank Bellamy pestanejou.
"Ela contou-lhe tudo isso?"
O historiador riu-se.
"Não, claro que não. Mas o pouco que me contou bate certo com esse... enfim... com esse currículo."
"Ela contou-lhe que trabalha no Ministério da Ciência?"
"Sim, contou."
"E contou-lhe que é uma deusa na cama?"
Foi a vez de Tomás pestanejar.
"Perdão?"
"Ela contou-lhe que é uma deusa na cama?"
"Uh... receio que a conversa não tenha chegado a esse ponto", gaguejou, atrapalhado. Hesitou. "E é?"
Bellamy manteve o rosto imóvel durante alguns segundos, mas um ligeiro movimento no canto dos lábios traiu o que parecia ser o princípio de um sorriso.
"O ex-marido disse-nos que sim."
Tomás riu-se.
"Afinal, ela não me contou tudo."
O homem da CIA não devolveu a gargalhada. Comprimiu os lábios e estreitou os olhos frios.
"O que lhe queria ela?"
"Oh, nada de especial. Contratou-me para a ajudar a decifrar um documento antigo."
"Um documento antigo? Que documento antigo?"
"Um inédito de... uh... Einstein."
Logo no instante em que pronunciou o nome do célebre cientista, Tomás arregalou os olhos. Que coincidência, pensou. Um documento de Einstein. Mas, cogitou de imediato, seria mesmo coincidência? Que ligação teria isso com o resto?
"E você aceitou?"
"Hã?"
"E você aceitou?"
"Aceitei o quê?"
Bellamy fez um estalido impaciente com a língua.
"Aceitou decifrar o documento?"
"Uh... sim, sim. Eles pagam bem."
"Pagam quanto?"
"Cem mil euros por mês."
"Isso é uma merda."
"É mais do que eu ganho num ano a trabalhar na faculdade."
"Nós damos-lhe esse dinheiro e você trabalha para nós."
Tomás olhou-o, confuso.
"Trabalho para quem?"
"Para nós. A CIA."
"Para fazer o quê?"
"Para ir a Teerã ver esse documento."
"Só isso?"
"E mais umas coisinhas que depois lhe explicaremos."
"Que coisinhas?"
"Depois lhe explicaremos."
O português sorriu e abanou a cabeça.
"Não, isso não funciona assim", disse. "Eu não sou o James Bond, sou um historiador perito em criptanálise e línguas antigas. Não vou fazer coisas para a CIA."
"Vai, sim."
"Não, não vou."
Frank Bellamy debruçou-se sobre a mesa, os olhos cruéis cravados em Tomás como adagas, os lábios contorcendo-se de fúria congelada, a voz rouca carregada de entoações ameaçadoras, de insinuações sinistras.
"Meu caro professor Tomás Noronha, deixe-me pôr as coisas deste modo", rosnou baixinho. "Se não aceitar a proposta que lhe estou a fazer, o senhor vai ter a vida muito dificultada." Ergueu uma sobrancelha. "Aliás, arrisca-se mesmo a não ter vida, se é que me faço entender." Os cantos da boca dobraram-se no seu habitual esboço de sorriso. "Mas, se aceitar, irão acontecer quatro coisas. A primeira é que vai ganhar os seus míseros duzentos mil euros por mês, cem mil pagos por nós e os outros cem mil pelos iranianos. A segunda é que talvez ajude a encontrar o pobre desgraçado do professor Siza, coitado, cuja filha anda muito chorosa porque não sabe por onde pára o paizinho querido. A terceira é que talvez consiga salvar o mundo do pesadelo das armas nucleares nas mãos dos terroristas. E a quarta, possivelmente a mais importante para si, é que, sim, haverá um futuro na sua vida." Voltou a recostar-se na cadeira. "Entendeu?"
O historiador devolveu-lhe o olhar. Sentia-se furioso por ter sido assim ameaçado e mais furioso ainda porque não tinha escapatória, aquele homem diante de si dispunha de imenso poder e vontade suficiente para o usar como lhe conviesse.
"Entendeu?", perguntou Bellamy novamente.
Tomás acenou devagar com a cabeça.
"Sim."
"Você é um fucking gênio."
"Fuck you", devolveu o português de imediato.
O americano riu-se pela primeira vez. O corpo contraiu-se-lhe com as gargalhadas, parecia soluçar, e só se acalmou um minuto depois, quando o riso se transformou numa tosse persistente. Controlou a tosse e, após uma pausa para retomar a respiração normal, já com o rosto regressado ao seu semblante habitual, embora a face se mantivesse congestionada, mirou Tomás.
"Você tem big balls, professor. Gosto disso." Fez um gesto com a mão na direção de Sullivan e Snyder, que tudo observavam num silêncio sepulcral. "Não há muita gente que se vire para mim e me diga fuck you. Nem o presidente." Apontou o dedo a Tomás e rugiu, subitamente ameaçador. "Não se atreva a voltar a fazê-lo, ouviu?"
"Hmm."
"Ouviu?"
"Sim, já percebi."
O americano coçou a testa.
"Muito bem", suspirou, sempre muito controlado. "Há pouco não acabei de lhe contar a história da encomenda feita por Ben Gurion a Einstein. Quer ouvir o resto?"
"Se faz questão nisso..."
"Einstein começou a conceber a nova bomba atômica no mês seguinte ao encontro com Ben Gurion. Mantenha presente que a idéia era desenhar uma bomba que Israel pudesse depois fabricar rapidamente, com meios escassos e às escondidas. Sabemos hoje que Einstein trabalhou neste projeto durante pelo menos três anos, até 1954, e é possível que ainda trabalhasse no documento em 1955, quando morreu. Sabe-se pouco sobre o que o nosso geniozinho fez. Um cientista que com ele trabalhou, e que nos dava informações regulares, revelou que Einstein lhe dissera ter em mãos a fórmula da maior explosão jamais vista, uma coisa tão grande que, segundo o nosso informador, Einstein se mostrava... uh... siderado com o que tinha descoberto." Adotou o ar de quem faz um esforço de memória, como se tivesse sido assaltado por uma dúvida. "Sim, é isso", disse enfim. "Siderado. Essa foi a expressão que o nosso informador usou. Siderado."
"E não sabem onde pára esse documento?"
"O documento desapareceu e Einstein levou o segredo para a cova. Mas é possível que ele o tenha confiado a alguém. Diz-se que Einstein se tornou amigo de um jovem físico que foi estagiar para o Institute for Advanced Study e que foi com esse jovem físico que..."
"O professor Siza!"
"Você é um fucking gênio, não há dúvida", confirmou Bellamy. "O professor Siza, nem mais. O mesmo que desapareceu há três semanas. O mesmo que tem um apartamento onde foram encontrados cabelos de Aziz al-Mutaqi, o perigoso operacional do Hezbollah. O mesmo Hezbollah que é o movimento terrorista financiado pelo Irã. O mesmo Irã que está a tentar por todos os meios desenvolver armas nucleares às escondidas."
"Meu Deus."
"Está a entender agora por que motivo queríamos tanto conversar consigo?"
"Sim."
"Falta dizer-lhe uma coisa que nos foi revelada pelo nosso informador,"
"Qual informador?"
"O amigo de Einstein, o homem a quem o nosso geniozinho falou sobre o projeto que Ben Gurion lhe encomendou."
"Ah, sim."
"O nosso informador disse-nos que Einstein tinha até um nome de código para o seu projeto."
Tomás sentiu o coração disparar.
"Que nome?"
Frank Bellamy respirou fundo.
"Die Gottesformel. A fórmula de Deus."
V
O casario pitoresco, de paredes brancas e telhados cor de tijolo, amontoava-se do outro lado do Mondego, erguendo-se por entre as copas dos plátanos, abraçado por uma muralha velha. Os largos e altivos edifícios da universidade coroavam a cidade, a bela torre sineira elevando-se acima de tudo, parecia um farol cravado no topo de um promontório, o ponto de referência para onde todos se voltavam.
O sol mimava Coimbra.
O carro passou pelo Parque do Choupalinho, o plácido lençol do rio a refletir o velho burgo na margem esquerda como um espelho. Agarrado ao volante, Tomás contemplou a urbe na outra banda e não pôde deixar de pensar que, se havia sítio onde se sentia bem, era ali, em Coimbra. Misturava-se naquelas ruas o velho com o novo, a tradição com a inovação, o fado com o rock, o romantismo com o cubismo, a fé com o conhecimento. Nas artérias arejadas e por entre casas cheias de luz circulava uma importante comunidade estudantil, rapazes e raparigas de livros debaixo dos braços e a ilusão do futuro a bailar-lhes nos olhos, eternos clientes da principal indústria da cidade, a universidade.
Tomás cruzou o Mondego pela Ponte de Santa Clara e entrou no Largo da Portagem, que contornou até meter pela esquerda. Estacionou num espaço parqueado da marginal, junto à estação, e palmilhou o emaranhado labiríntico da Baixinha até chegar à Rua Ferreira Borges, a grande artéria animada por inúmeras lojas, cafés, pastelarias e boutiques, acabando por desembocar na pitoresca Praça do Comércio.
Meteu por um estreito arruamento lateral e entrou num edifício de três andares, servido por um velho elevador com porta gradeada e cheiro a bafio. Carregou no botão e, após uma curta viagem aos solavancos, saiu no segundo andar.
"Tomás", disse a mãe à porta, abrindo-lhe os braços. "Ainda bem que chegaste. Credo, já estava em cuidados."
Abraçaram-se.
"Ah, sim? Porquê?"
"Ora, porquê! Por causa da estrada, por que haveria de ser?"
"O que tem a estrada?"
"São esses malucos todos, filho. Tu não ouves as notícias? Ainda ontem ocorreu um acidente horrível na auto-estrada, ali perto de Santarém. Veio um maluco desembestado a toda a velocidade e bateu num carro que seguia tranquilamente na sua vida. Ia lá dentro uma família e morreu-lhes o bebê, coitadinho."
"Oh, mãe, se eu tivesse medo de tudo nem sequer saía de casa."
"Ah, mas mesmo estar em casa é perigoso, sabias?"
Tomás riu-se.
"Estar em casa é perigoso? Desde quando?"
"Foi o que eu vi nas notícias. Dizem as estatísticas que é em casa que ocorre a maior parte dos acidentes, fica sabendo."
"Pudera! É em casa que as pessoas passam a maior parte do tempo..."
"Ai, só te digo, filhinho", bufou a mãe, juntando as mãos como numa prece. "Viver está pela hora da morte. Pela hora da morte!"
Tomás tirou o casaco e pendurou-o no bengaleiro.
"Pois, está bem", disse, querendo arrumar ali a conversa. "O pai?"
"Está a descansar, coitadinho. Acordou com dores de cabeça e tomou uma coisa muito forte, de maneira que só daqui a uma ou duas horas é que vai acordar." Fez um gesto em direção à cozinha. "Entra, entra. Estou a preparar o almoço."
Tomás sentou-se na copa, cansado da viagem.
"Como é que ele tem passado?"
"O teu pai?" Abanou a cabeça. "Nada bem, o pobrezito. Tem dores, sente-se fraco, anda deprimido..."
"Mas a radioterapia vai resultar, não vai?"
Graça fixou os olhos no filho.
"Apesar da depressão, ele tem esperança nisso, não é?" Suspirou. "Mas o doutor Gouveia disse-me que a radioterapia está apenas a atrasar o processo, mais nada."
Tomás baixou os olhos.
"Acha que ele vai mesmo morrer?"
A mãe susteve a respiração, ponderando o que deveria ou conseguiria responder.
"Vai", acabou ela por dizer num sussurro. "Eu vou-lhe dizendo que não, que é preciso lutar, que há sempre solução. Mas o doutor Gouveia já me disse para não ter ilusões e aproveitar bem o tempo que resta."
"E ele sabe disso?"
"Quer dizer, o teu pai não é parvo, pois não? Sabe que tem uma doença muito grave e esse fato não lhe foi escondido. Mas procuramos sempre manter viva a esperança."
"Como é que ele está a reagir?"
"Tem dias. Primeiro, achou que era tudo um grande engano, que tinham trocado as análises, que..."
"Sim, ele contou."
"Bem, depois lá aceitou. Mas as suas reações variam de dia para dia, às vezes quase de hora para hora até. Numas alturas fica muito deprimido, diz que vai morrer e que não quer morrer. É quando o consolo mais. Mas depois tem momentos em que fala como se tivesse apenas uma gripe, quase contradizendo tudo o que disse uma hora antes. É capaz de fazer projetos sobre viagens... uh... sei lá, fala em ir ao Brasil, ou planeja um safari em Moçambique, coisas assim. O doutor Gouveia diz que se deve deixá-lo sonhar acordado, isso faz-lhe bem, ajuda-o a sair da depressão. E eu, para falar com franqueza, também acho."
Tomás fez um estalido contrariado com a língua.
"Que chatice, isto."
Graça suspirou de novo.
"Ah, é horrível." Abanou a cabeça, como que a sacudir maus pensamentos. "Mas chega de tristezas." Decidiu mudar de assunto. Girou a cabeça, procurando a mala do filho, e não encontrou nada. "Olha lá, tu não dormes cá?"
"Não, mãe. Preciso de voltar esta noite para Lisboa."
"Já? Mas porquê?"
"Tenho um vôo amanhã de manhã."
A senhora pôs as mãos na cara.
"Ai, minha nossa! Um vôo! Vais andar de avião outra vez?"
"Vou, pois. É o meu trabalho."
"Ai, Virgem Santíssima! Já estou arreliada. Sempre que viajas fico toda nervosa, pareço uma galinha diante do cutelo."
"Não fique, não é caso para isso."
"E onde vais tu, Tomás?"
"Vou apanhar um vôo para Frankfurt e fazer a ligação até Teerã."
"Teerã? Mas isso não é na Arábia?"
"É no Irã."
"No Irã? Mas o que vais tu fazer naquela terra de malucos, Santo Deus? Não sabes que eles são uns fanáticos e odeiam estrangeiros?"
"Que exagero!"
"A sério! Ainda noutro dia vi nas notícias. Esses árabes passam a vida a queimar bandeiras americanas e a..."
"Não são árabes, são iranianos."
"Ora! São árabes, como os iraquianos e os argelinos."
"Não, não são. São muçulmanos, mas não são árabes. Os árabes são semitas, os iranianos são arianos."
"Mais razão me estás a dar! Se são arianos, são nazis!"
Tomás esboçou uma careta desesperada.
"Que confusão!", exclamou. "Não é nada disso! Diz-se arianos quando nos referimos aos povos indo-europeus, como os indianos, os turcos, os iranianos e os europeus. Já os árabes são semitas, tal como os judeus."
"Não interessa. Árabes ou nazis, aquilo é tudo a mesma gente, passam o dia de joelhos virados para Meca ou a fazer explodir bombas por toda a parte."
"Que exagero!"
"Que exagero, não. Eu sei do que estou a falar."
"Mas já lá foi alguma vez, para dizer isso assim com tanta autoridade?"
"Não preciso. Eu sei muito bem o que vai por aquelas terras."
"Ah, sim? E como sabe isso?"
A mãe parou diante da cozinha, fitou-o nos olhos e pôs as mãos na cintura.
"Ora, vi nas notícias."
O arroz-doce já ia no fim quando Tomás ouviu o pai a tossir. Instantes mais tarde, a porta do quarto abriu-se e Manuel Noronha, de roupão e aspecto desgrenhado, espreitou para a copa.
"Olá, Tomás. Estás bom?"
O filho levantou-se.
"Olá, pai. Como vai isso?"
O velho professor de matemática fez uma careta indecisa.
"Mais ou menos."
Sentou-se na mesa da copa e a mulher, que arrumava a louça, olhou-o afetuosamente.
"Queres comer alguma coisa, Manel?"
"Só uma sopinha."
Graça encheu um prato de sopa quente e colocou-o diante do marido.
"Ora aqui está. Mais alguma coisa?"
"Não, isto chega", disse Manuel, abrindo a gaveta dos talheres para tirar uma colher. "Não tenho muita fome."
"Bem, se quiseres, há um bifinho no frigorífico. É só fritar." Saiu da cozinha e vestiu um casaco. "Vou aproveitar para dar ali um saltinho à Igreja de São Bartolomeu. Portem-se bem, hã?"
"Até já, mãe."
Graça Noronha saiu do apartamento, deixando pai e filho a sós. Tomás não tinha a certeza de gostar da idéia, afinal de contas sempre foi mais próximo da mãe, mulher faladora e carinhosa, do que do pai, um homem calado, circunspecto, que vivia fechado no seu escritório, entregue ao mundo dos números e das equações, alheio à família e a tudo o resto.
Silêncio.
Um mutismo desconfortável assentou no apartamento, apenas rompido pelo tilintar da colher no prato de sopa e pelo ocasional schlurp que Manuel Noronha emitia ao engolir a comida. Tomás fez-lhe algumas perguntas sobre o seu colega desaparecido, Augusto Siza, mas o pai somente conhecia o que já era do domínio público. Apenas revelou que o assunto estava a deixar toda a gente perturbada na faculdade, ao ponto de o colaborador do professor ter durante uns tempos evitado sair de casa, a não ser para pedir um ou outro favor, como solicitar que lhe fossem buscar comida à mercearia ou guardar uma coisa em qualquer sítio.
A conversa sobre o professor Siza depressa se esgotou e o problema é que Tomás não sabia sobre o que deveriam agora falar; na verdade não se lembrava de alguma vez ter tido uma conversa de jeito com o pai. Mas precisava de preencher o silêncio e começou a contar-lhe a visita ao Cairo e os pormenores da estela que foi inspecionar no Museu Egípcio. O pai ouviu-o sem nada dizer, por vezes murmurando apenas o seu assentimento aqui ou ali, mas tornava-se evidente que não seguia as palavras com atenção, a mente divagava algures, talvez no destino que a doença lhe traçava, talvez no horizonte de abstração por onde frequentemente se perdia.
Voltou o silêncio.
Tomás já não sabia sobre o que tagarelar. Ficou a observar o pai, a sua tez pálida e enrugada, o rosto chupado, o corpo frágil e envelhecido. O pai caminhava a passos largos para a morte e a triste verdade é que, mesmo assim, Tomás não conseguia manter uma conversa com ele.
"Como se sente o pai?"
Manuel Noronha suspendeu a colher no ar e olhou para o filho.
"Tenho medo", disse simplesmente.
Tomás abriu a boca, prestes a perguntar-lhe de que é que tinha medo, mas calou-se a tempo, tão evidente era a resposta. Foi porém nesse instante, no preciso momento em que calou a pergunta que lhe assomara à boca, que percebeu que algo de diferente tinha acontecido com aquela resposta; o pai de algum modo abrira uma janela dentro de si, pela primeira vez dissera-lhe o que sentia sobre alguma coisa. Foi como se, naquele exato segundo, se tivesse processado uma qualquer transformação, como se uma racha se tivesse aberto na muralha que os dividia, como se uma ponte se tivesse erguido sobre um rio intransponível, como se a barreira entre pai e filho se tivesse tornado infinitamente mais pequena. O grande homem, o gênio da matemática que vivia cercado de equações e logaritmos e fórmulas e teoremas, descera à terra e tocara no filho.
"Eu compreendo", limitou-se Tomás a dizer.
O pai abanou a cabeça.
"Não, filho. Não compreendes." Meteu finalmente a colher à boca. "Vivemos a vida como se ela fosse eterna, como se a morte fosse algo que só acontece aos outros e apenas nos está reservada ao fim de muito tempo, tanto tempo que nem merece a pena pensarmos nisso. Para nós, a morte não passa de uma abstração. No entretanto, eu preocupo-me com as minhas aulas e as minhas pesquisas, a tua mãe preocupa-se com a igreja e com as pessoas que vê a sofrerem no noticiário ou na novela, tu preocupas-te com o teu salário e com a mulher que já não tens e com papiros e estelas e outras relíquias cheias de irrelevâncias." Olhou, pela janela da cozinha, para os clientes de uma esplanada, lá em baixo, na Praça do Comércio. "Sabes, as pessoas passam pela vida como sonâmbulas, preocupam-se com o que não é importante, querem ter dinheiro e notoriedade, invejam os outros e esmifram-se por coisas que não valem a pena. Levam vidas sem sentido. Limitam-se a dormir, a comer e a inventar problemas que as mantenham ocupadas. Privilegiam o acessório e esquecem o essencial." Abanou a cabeça. "Mas o problema é que a morte não é uma abstração. Em boa verdade, ela está já aqui ao virar da esquina. Um dia, estamos nós muito bem a deambular pela rua da vida como sonâmbulos, vem um médico e diz-nos: você pode morrer. E é nesse instante, quando de repente o pesadelo se torna insuportável, que finalmente despertamos."
"O pai despertou?"
Manuel levantou-se da mesa, colocou o prato vazio no lavatório e abriu a torneira, passando o prato pela água.
"Sim, despertei", disse. Fechou a torneira e voltou a sentar-se na mesa da copa. "Despertei para, se calhar, viver os meus derradeiros instantes." Olhou para o lavatório. "Despertei para ver a vida escoar-se como a água que desaparece por aquele ralo." Tossiu. "Às vezes sinto uma raiva muito grande com o que me está a acontecer. Ponho-me a perguntar a mim mesmo: porquê eu? Com tanta gente que há por aí, tanta gente que não anda cá a fazer nada, por que razão me havia de acontecer isto a mim?" Passou a mão pela cara. "Olha, noutro dia ia a caminho do hospital e cruzei-me com o Chico da Pinga. Lembras-te dele?"
"Quem?"
"O Chico da Pinga."
"Uh... não, acho que não conheço..."
"Conheces, pois. É aquele velho que passa o dia nos copos e que às vezes vemos por aí aos ziguezagues, todo borracho, com umas roupas muito porcas e andrajosas."
"Ah, sim! Já sei quem é, lembro-me de o ver quando era miúdo. Ele ainda é vivo?"
"Vivo? O homem está são que nem um pêro! Anda sempre bêbado como um cacho, não faz nem nunca fez nada na vida, cheira mal, escarra no chão e bate na mulher... enfim, um vadio, um... um inútil! Pois, olha, cruzei-me com ele e pensei: mas por que raio não foi ele a ficar doente? Mas que Deus é este que me dá uma doença tão grave a mim e deixa um mandrião desta categoria à solta, com saúde para dar e vender?" Arregalou os olhos. "Quando penso nisso, até me irrito!"
"O pai não pode ver as coisas assim..."
"Mas é uma injustiça! Eu sei que não posso encarar as coisas deste modo, que chega a ser imoral desejar que o nosso mal se transfira para os outros, mas, enfim, quando me vejo assim neste estado e olho para a saúde que respira um tipo como o Chico da Pinga, desculpa lá mas não consigo deixar de me sentir zangado!"
"Eu percebo."
"Por outro lado, tenho consciência de que não devo permitir que este sentimento de revolta tome conta de mim." Tossiu. "Sinto que o meu tempo é agora precioso, percebes? Tenho de o aproveitar para me redirecionar, para rever as minhas prioridades, para dar importância ao que realmente tem importância, para esquecer o que é irrelevante e fazer as pazes comigo e com o mundo." Fez um gesto vago. "Passei demasiado tempo fechado em mim mesmo, ignorando a tua mãe, ignorando-te a ti, ignorando a tua mulher e a tua filha, de costas voltadas para tudo, exceto para a matemática que me apaixona. Agora que sei que posso morrer, sinto que passei pela vida como se estivesse anestesiado, como se dormisse, como se, na realidade, não a tivesse vivido. E isso também me revolta. Como pude ser assim tão estúpido?" Diminuiu o tom de voz, quase sussurrando. "É por isso que quero usar o pouco tempo que talvez me resta para fazer o que não fiz em tanto tempo. Quero viver a vida, abraçar o que é realmente importante, reconciliar-me com o mundo." Baixou a cabeça e olhou para o peito. "Mas não sei se isto que tenho dentro de mim me vai deixar."
Tomás não sabia o que dizer. Nunca ouvira o pai refletir sobre a vida e sobre a forma como a vivera, sobre os erros que cometera, sobre as pessoas que devia ter amado e das quais se escondera. No fundo, o pai falava-lhe da sua relação consigo, falava-lhe das brincadeiras que nunca tiveram, das histórias que não lhe lera na cama, dos pontapés na bola que não trocaram, de tudo o que não partilharam. Era também a sua relação com o filho que o pai agora indiretamente questionava. Ficou, por isso, sem saber como lhe responder; sentiu apenas um enorme e pungente desejo de ter uma segunda oportunidade, de na próxima vida ser filho daquele pai e de aquele pai ser um verdadeiro pai para o filho. Sim, como seria bom ter uma segunda oportunidade.
"Talvez tenha mais tempo do que pensa", ouviu-se a dizer. "Talvez o nosso corpo morra, mas a alma sobreviva e o pai possa, numa reencarnação, corrigir os erros desta vida. O pai acredita nisso?"
"Em quê? Na reencarnação?"
"Sim. Acredita nisso?"
Manuel Noronha fez um sorriso triste.
"Gostaria de acreditar, claro. Quem é que, estando na minha posição, não gostaria de acreditar em tal coisa? A sobrevivência da alma. A possibilidade de ela reencarnar mais tarde em alguém e eu poder voltar a viver. Que idéia tão bonita." Abanou a cabeça. "Mas eu sou um homem de ciência e tenho o dever de não me deixar iludir."
"O que quer dizer com isso? Acha que não é possível a alma sobreviver?"
"Mas o que é isso da alma?"
"E... sei lá... é uma força vital, é um espírito que nos anima."
O velho matemático ficou a mirar o filho por um momento.
"Escuta, Tomás", disse. "Olha para mim. O que vês?"
"Uh... vejo o pai."
"Vês um corpo."
"Sim."
"É o meu corpo. Refiro-me a ele como se dissesse: é a minha televisão, é o meu carro, é a minha caneta. Neste caso, é o meu corpo. E algo que é meu, é uma propriedade minha." Encostou a palma da mão ao peito. "Mas se eu digo, o corpo é meu, o que eu estou a dizer é que eu não sou o corpo. O corpo é meu, não sou eu. Então, o que sou eu?" Colou o dedo à testa. "Eu sou os meus pensamentos, a minha experiência, os meus sentimentos. Isso sou eu. Eu sou uma consciência. Mas agora repara. Será que a minha consciência, este eu que sou eu, é a alma?"
"Uh... sim, suponho que sim."
"O problema é que este eu que sou eu é produto de substâncias químicas que me circulam pelo corpo, de transmissões elétricas entre neurônios, de heranças genéticas codificadas no meu ADN, de um sem-número de condicionalismos exteriores e intrínsecos que moldam este eu que sou eu. O meu cérebro é uma complexa máquina eletroquímica que funciona como um computador e a minha consciência, esta noção que eu tenho da minha existência, é uma espécie de programa. Percebes? De uma certa forma, e literalmente, os miolos são o hardware, a consciência o software. O que levanta naturalmente questões interessantes. Será que um computador tem alma? Se o ser humano é um computador muito complexo, será que ele próprio tem alma? Se todo o circuito morrer, a alma sobrevive? Sobrevive onde? Em que sítio?"
"Bem... uh... ergue-se do corpo e vai... uh... vai..."
"Vai para o céu?"
"Não, vai... sei lá, vai para uma outra dimensão."
"Mas de que é feita essa alma que se ergue do corpo? De átomos?"
"Não, acho que não. Deve ser uma substância incorpórea."
"Não tem átomos?"
"Julgo que não. É um... uh... um espírito."
"Bem, isso leva-me a formular uma outra pergunta", observou o matemático. "Será que, um dia, no futuro, a minha alma se lembra desta minha existência?"
"Sim, dizem que sim."
"Mas isso não faz sentido, pois não?"
"Por que não?"
"Repara, Tomás. Como é que nós organizamos a nossa consciência? Como é que eu sei que sou eu, que sou um professor de Matemática, que sou teu pai e marido da tua mãe? Que nasci em Castelo Branco e que já estou quase careca? Como é que eu sei tudo sobre mim?"
"O pai conhece-se por causa do que viveu, do que fez e do que disse, do que ouviu e viu e aprendeu."
"Exato. Eu sei que sou eu porque tenho memória de mim mesmo, de tudo o que me aconteceu, mesmo o que aconteceu há apenas um segundo. Eu sou a memória de mim mesmo. E onde se localiza essa memória?"
"No cérebro, claro."
"Nem mais. A minha memória encontra-se localizada no cérebro, armazenada em células. Essas células fazem parte do meu corpo. E é aqui que está a questão. Quando o meu corpo morre, as células da memória deixam de ser alimentadas por oxigênio e morrem também. Apaga-se assim toda a minha memória, a lembrança do que eu sou. Se assim é, como raio pode a alma lembrar-se da minha vida? Se a alma não tem átomos, não pode ter células da memória, não é? Por outro lado, as células onde a memória da minha vida se encontrava gravada já morreram. Nessas condições, como é que a alma se lembra do que quer que seja? Não achas tudo isso um pouco sem sentido?"
"Mas o pai fala como se nós fôssemos todos umas máquinas, uns computadores." Abriu as mãos, como quem expõe uma evidência. "Eu tenho uma novidade para lhe dar. Nós não somos computadores, somos gente, somos seres vivos."
"Ah, sim? E qual é a diferença entre os dois?"
"Bem, nós pensamos, sentimos, vivemos. Os computadores não."
"E tens a certeza de que somos mesmo diferentes?"
"Então não somos, pai? Os seres vivos são biológicos, os computadores não passam de circuitos."
Manuel Noronha ergueu o rosto para cima, como se estivesse a falar para Alguém.
"E tirou este rapaz um doutoramento numa universidade..."
Tomás hesitou.
"Por que diz isso? Eu disse algum disparate?"
"O que disseste, filho, é o que qualquer biólogo diria, fica descansado. Mas, se perguntares a um biólogo o que é a vida, ele vai-te responder mais ou menos assim: a vida é um conjunto de processos complexos baseados no átomo de carbono." Ergueu o indicador. "Atenção. Mesmo o mais lírico dos biólogos reconhece, no entanto, que a expressão-chave desta definição não é átomo de carbono, mas processos complexos. É verdade que todos os seres vivos que conhecemos são constituídos por átomos de carbono, mas não é isso verdadeiramente o que é estruturante para a definição da vida. Há bioquímicos que admitem que as primeiras formas de vida na Terra não foram baseadas nos átomos de carbono, mas nos cristais. Os átomos são apenas a matéria que torna a vida possível. Não interessa se é o átomo A ou o átomo B. Imagina que eu tenho o átomo A na cabeça e que, por algum motivo, ele é substituído pelo átomo B. Será que eu deixo de ser eu só por esse motivo?" Abanou a cabeça. "Não me parece. O que faz com que eu seja eu é um padrão, uma estrutura de informação. Ou seja, não são os átomos, é a forma como os átomos se organizam." Tossiu. "Sabes de onde é que vem a vida?"
"Vem de onde?"
"Vem da matéria."
"Ora, grande novidade!"
"Não estás a perceber onde é que eu quero chegar." Bateu com o dedo na mesa. "Os átomos que estão no meu corpo são exatamente iguais aos átomos que estão nesta mesa ou numa qualquer galáxia distante. Eles são todos iguais. A diferença está na forma como eles se organizam. O que é que achas que organiza os átomos de modo a formarem células vivas?"
"Uh... não sei."
"Será uma força vital? Será um espírito? Será Deus?"
"Se calhar..."
"Não, filho", disse, abanando a cabeça. "O que organiza os átomos de modo a formarem células vivas são as leis da física. É essa a questão central. Repara, como pode um conjunto de átomos inanimados formar um sistema vivo? A resposta está na existência de leis de complexidade. Todos os estudos mostram que os sistemas se organizam espontaneamente, de modo a criarem sempre estruturas cada vez mais complexas, em obediência a leis da física e exprimindo-se por equações matemáticas. Houve até um físico que ganhou o Prêmio Nobel por demonstrar que as equações matemáticas por detrás das reações químicas inorgânicas são semelhantes às equações que regem os padrões de comportamento simples de sistemas biológicos avançados. Ou seja, os organismos vivos são, na verdade, o produto de uma incrível complexificação dos sistemas inorgânicos. E essa complexificação não resulta da atividade de uma qualquer força vital, mas da organização espontânea da matéria. Uma molécula, por exemplo, pode ser constituída por um milhão de átomos
ligados de uma forma muito específica e complicada, e a sua atividade é controlada por estruturas químicas tão complexas que se assemelham a uma cidade. Entendes onde eu quero chegar?"
"Hmm... sim."
"O segredo da vida não está nos átomos que constituem a molécula, está na sua estrutura, na sua organização complexa. Essa estrutura existe porque obedece a leis de organização espontânea da matéria. E, da mesma maneira que a vida é o produto da complexificação da matéria inerte, a consciência é o produto da complexificação da vida. A complexidade da organização é que é a questão-chave, não é a matéria." Abriu uma gaveta e pegou num livro de receitas, que abriu, exibindo o interior. "Estás a ver estas letras? Estão impressas com que cor de tinta?"
"Preta."
"Imagina que, em vez de tinta preta, o tipógrafo utilizava tinta roxa." Fechou o livro e acenou com ele. "Será que a mensagem deste livro deixaria de ser a mesma?"
"Claro que não."
"É evidente que não. O que faz a identidade deste livro não é a cor da tinta das letras, é uma estrutura de informação. Não importa que a tinta seja preta ou roxa, importa é o conteúdo informativo do livro, a sua estrutura. Posso ler um Guerra e Paz impresso com fonte Times New Roman e outro Guerra e Paz de uma editora diferente impresso com fonte Arial, mas o livro será sempre o mesmo. É, em qualquer circunstância, o Guerra e Paz de Leo Tolstoi. Pelo contrário, se tiver um Guerra e Paz e um Anna Karenina impressos com a mesma fonte, por exemplo Times New Roman, isso não fará com que os dois livros se tornem a mesma coisa, pois não? O que é estruturante, pois, não é a fonte nem a cor da tinta das letras, é a estrutura do texto, a sua semântica, a sua organização. O mesmo se passa com a vida. Não importa se a vida é baseada no átomo de carbono ou em cristais ou em qualquer outra coisa. O que faz a vida é uma estrutura de informação, é uma semântica, é uma organização complexa. Eu chamo-me Manuel e sou professor de Matemática. Podem-me tirar o átomo A e meter o átomo B no corpo, mas, desde que esta informação seja preservada, desde que esta estrutura se mantenha intacta, eu continuo a ser eu. Podem-me mudar todos os átomos e substituí-los por outros, que eu continuo a ser eu. Aliás, já está provado que, ao longo da vida, vamos mesmo mudando quase todos os átomos. E, no entanto, eu continuo a ser eu. Peguem no Benfica e mudem-lhe todos os jogadores. Mas o Benfica permanece, continua a ser o Benfica, independentemente de jogar este ou aquele jogador. O que faz o Benfica não são os jogadores A ou B, é um conceito, é uma semântica, é uma estrutura de informação. O mesmo se passa com a vida. Não interessa qual o átomo que, num dado momento, preenche a estrutura. O que interessa é a estrutura em si. Desde que os átomos viabilizem a estrutura de informação que define a minha identidade e as funções dos meus órgãos, a vida é possível. Entendeste?"
"Sim."
"A vida é uma muito complexa estrutura de informação e todas as suas atividades envolvem processamento de informação." Tossiu. "Esta definição, no entanto, tem uma profunda consequência. É que, se o que constitui a vida é um padrão, uma semântica, uma estrutura de informação que se desenvolve e interage com o mundo em redor, nós, feitas as contas, somos uma espécie de programa. A matéria é o hardware, a nossa consciência é o software." Encostou o dedo à testa. "Nós somos um muito complexo e avançado programa de computador."
"E qual é o programa desse... uh... computador?"
"A sobrevivência dos genes. Há biólogos que definiram o ser humano como uma máquina de sobrevivência, uma espécie de robô programado cegamente para preservar os genes. Eu sei que, assim postas as coisas, parece chocante, mas é isso que nós somos. Computadores programados para preservar genes."
"Por essa definição, um computador é um ser vivo."
"Sem dúvida. É um ser vivo que não é construído por átomos de carbono."
"Mas isso não é possível!"
"Por que não?"
"Porque um computador limita-se a reagir a um programa pré-definido."
"Que é o que fazem todos os seres vivos baseados nos átomos de carbono", devolveu o pai. "O teu problema é que um computador é uma máquina que funciona na base do estímulo-resposta programada, não é?"
"Uh... sim."
"E o cão de Pavlov? Não funciona na base do estímulo-resposta programada? E uma formiga? E uma planta? E um gafanhoto?"
"Bem... sim, mas é... diferente."
"Não é nada diferente. Se conhecermos o programa do gafanhoto, se soubermos o que o atrai e o repele, o que o motiva e o que o assusta, poderemos prever todo o seu comportamento. Os gafanhotos têm programas relativamente simples. Se acontecer X, eles reagem de maneira A. Se acontecer Y, eles reagem de maneira B. Exatamente como uma máquina concebida por nós."