A Fórmula de Deus

José Rodrigues dos Santos · Capítulo 1 de 7 · parte 2/4

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A Fórmula de Deus

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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

"Uma da tarde na Gulbenkian? Combinado."

“E o que vêm cá fazer?"

A mãe voltou a hesitar do outro lado da linha.

"Depois falamos, filho", disse, por fim. "Depois falamos.“

 

O edifício geométrico de betão, desenhado com linhas abstratas espraiadas na horizontal, assemelhava-se a uma estrutura intemporal, emergindo da verdura como uma construção megalítica, uma enorme anta de traços retos assente no topo de uma elevação relvada. Calcorreando a rampa empedrada, Tomás mirou o edifício com a mesma sensação de encantamento de sempre, parecia-lhe uma acrópole dos tempos modernos, um monumento geométrico, uma composição metafísica, uma gigantesca rocha integrada num bosque como se dele sempre tivesse feito parte.

A Fundação Gulbenkian.

Entrou no átrio com a pasta na mão e escalou as amplas escadarias. Grandes vidros rasgavam as paredes sólidas, fundindo o edifício com o jardim, a estrutura artificial com a paisagem natural, o betão com as plantas. Passou pelo foyer do grande auditório e, após um delicado toque na porta, acedeu ao gabinete.

"Olá, Albertina, tudo bem?"

A secretária arquivava uns documentos no armário. Voltou a cabeça e sorriu.

"Bom dia, professor. Já chegou?"

"Como vê, já."

"Correu tudo bem?"

"Maravilha. O engenheiro Vital está?"

"O senhor engenheiro está numa reunião com o pessoal do museu. Só volta à tarde."

Tomás ficou indeciso.

"Bem... tenho aqui o relatório da viagem ao Cairo. Não sei o que faça.

Se calhar é melhor voltar à tarde, não é?"

Albertina sentou-se na secretária.

"Deixe-o cá", sugeriu. "Quando o senhor engenheiro vier, eu entrego-Ihe. Se ele tiver algumas dúvidas entra depois em contato consigo, está bem?"

O historiador abriu a pasta e retirou umas folhas unidas por um agrafo no canto.

"Está certo", disse, entregando as folhas à secretária. "Aqui fica o relatório. Ele que me ligue, caso precise."

Tomás voltou-se para sair, mas Albertina travou-o.

"Ah, professor."

"Sim?”

"Ligou o Greg Sullivan, da embaixada americana. Pediu para lhe telefonar logo que possa."

O historiador regressou pelo mesmo caminho e foi para o seu gabinete, uma salinha no rés-do-chão habitualmente ocupada pelos consultores da fundação. Sentou-se na sua secretária e começou a trabalhar, preparando o esquema das aulas que lhe restavam no semestre.

A janela do gabinete abria-se para o jardim, onde as folhas e a relva ondulavam ao ritmo do vento, como num prado, as gotas da rega a resplandecer como jóias ao sol da manhã. Telefonou a um assistente e acertou os pormenores das aulas, comprometendo-se a deixar na faculdade os esquemas que agora ultimava. Depois, procurou na memória do telemóvel o número do adido cultural da embaixada americana e ligou-lhe.

"Sullivan here."

"Olá, Greg. Fala Tomás Noronha, da Gulbenkian."

"Hi, Tomás. Como está?"

O adido cultural americano falava português com um forte sotaque americano, muito nasalado.

"Tudo bem. E você?"

"Great. Então como foi o Cairo?"

"Normal. Acho que vamos fechar negócio para comprar a estela que fui inspecionar. A decisão cabe agora à administração, claro, mas o meu parecer é positivo e as condições parecem-me boas."

"Não sei o que vocês vêem de especial nessas velharias egípcias", riu-se o americano. "Parece-me que há coisas mais interessantes onde gastar o dinheiro."

"Você diz isso porque não é historiador."

"Talvez." Mudou de tom. "Tomás, eu pedi para você me ligar porque precisava que desse aqui um salto à embaixada."

"Ah, sim? O que se passa?"

"É um assunto que... enfim... não pode ser discutido ao telefone."

"Não me diga que já tem novidades daquela proposta que fizemos ao Getty Center. Será que eles, lá em Los Angeles, aprovaram..."

"Não, não é isso", atalhou Sullivan. "É uma coisa... diferente."

"Hmm", murmurou Tomás, esforçando-se por imaginar que assunto seria esse. Talvez uma qualquer novidade do Museu Hebraico, considerou. Desde que começara a aprender hebraico e aramaico que o adido cultural americano o desafiava frequentemente a ir a Nova Iorque para ver o museu. "Está bem. Quando é que precisa que eu vá aí?"

"Esta tarde.”

"Esta tarde? Eh pá, não sei se posso. Os meus pais vêm cá daqui a bocado e eu ainda tenho de passar pela faculdade."

"Tomás, tem de ser esta tarde."

"Mas por quê?"

"Chegou há pouco uma pessoa vinda da América. Voou para cá exclusivamente para falar consigo."

"Para falar comigo? Quem é?"

"Não lhe posso dizer ao telefone."

"Ah, vá lá."

"Não posso."

"É a Angelina Jolie?"

Sullivan riu-se.

"Gosh, você tem uma fixação na Angelina Jolie, não tem? É a segunda vez que me fala nela."

"É uma moça com uns atributos... uh... apreciáveis", comentou Tomás com um sorriso. "Mas se não é a Angelina Jolie, quem é?"

"Você vai ver."

"Ó Greg, eu tenho mais que fazer do que estar a aturar chatos, ouviu?

Diga lá quem é ou eu não ponho aí os pés."

O adido cultural hesitou do outro lado da linha.

"Okay, só lhe vou dar uma pista. Mas você tem de prometer vir cá às três da tarde."

"Quatro da tarde."

"Muito bem, quatro da tarde aqui na embaixada. Vem mesmo, não vem?"

"Fique descansado, Greg."

"Então está bem. Até logo."

"Espere", quase gritou Tomás. "Ainda não me deu a pista, caracas."

Sullivan soltou uma gargalhada.

"Damn! Estava com esperança de que você se esquecesse."

"Muito esperto, sim senhor. Então? Essa pista?"

"É confidencial, entendeu?"

"Sim, sim, está bem. Desembuche."

"Okay", assentiu o americano. Respirou fundo. "Então aqui vai a pista."

"Diga lá."

"Tomás, você já alguma vez ouviu falar da CIA?"

O historiador pensou ter ouvido mal.

"O quê?"

"Falamos às quatro. See you."

E desligou.

 

O relógio na parede assinalava o meio-dia e cinquenta quando alguém bateu à porta do gabinete. A maçaneta rodou e Tomás viu espreitar pela entrada um rosto familiar, era uma mulher de cabelos loiros encaracolados e grandes óculos sobre os olhos verdes cristalinos, os mesmos olhos que ele herdara.

"Posso?"

"Mãe", exclamou o historiador, erguendo-se. "Tudo bem?"

"Meu querido filhinho", disse ela, abraçando-o e beijando-o com fervor. "Como estás tu?"

Uma tosse cavada atrás dela revelou uma segunda figura.

"Olá, pai", cumprimentou Tomás, estendendo a mão com cerimônia.

"Então, rapaz? Como vai isso?"

Apertaram as mãos, algo desajeitados um diante do outro, como sempre acontecia quando se encontravam.

"Está tudo bem", disse Tomás.

"Quando é que arranjas uma mulher que trate de ti?", perguntou a mãe. "Já tens quarenta e dois anos e precisas de reconstituir a tua vida, filho."

"Ah, estou a pensar nisso."

"Tens de nos dar netinhos."

"Está bem, está bem."

"Não há hipóteses de tu e a Constança... enfim... vocês..."

"Não, não há", cortou Tomás. Olhou para o relógio, esforçando-se por mudar de conversa. "Vamos comer?"

A mãe hesitou.

"Uh... está bem, mas... mas é melhor, primeiro, conversarmos um pouco."

"Conversamos no restaurante." Esboçou um sinal com a cabeça. "Vamos. Eu já marquei a mesa e...”

"Temos de conversar aqui", interrompeu ela.

"Aqui?", estranhou o filho. "Mas por quê?"

“Porque precisamos de falar a sós, filho. Sem estranhos à volta."

Tomás fez uma expressão intrigada e fechou devagar a porta do gabinete. Puxou duas cadeiras, onde os pais se sentaram, e voltou para o seu lugar, por detrás da secretária.

"Então?", perguntou, olhando-os interrogativamente. "O que se passa?"

Os pais pareciam atrapalhados. A mãe olhou para o marido, indecisa, como se lhe pedisse para falar. Mas ele nada disse, o que a levou a tomar a iniciativa de o forçar.

"O teu pai tem uma coisa para te contar. "Voltou a olhar para o marido.

“Não é, Manel?"

O pai endireitou-se na cadeira e tossiu.

"Estou preocupado porque desapareceu um colega meu", disse, visivelmente pouco à vontade. "O Augusto..."

"Manel", cortou a mulher. "Não comeces a divagar."

"Não estou a divagar. O desaparecimento do Augusto deixou-me preocupado, o que queres?"

"Não viemos aqui para falar do Augusto."

Tomás olhou para um e para o outro.

"Quem é o Augusto?"

A mãe rolou os olhos, contrariada.

"É o professor Augusto Siza, um colega do teu pai lá na faculdade. Leciona física e desapareceu há duas semanas."

"Ah, sim?"

"Ó filho, esta história não interessa para nada. Nós viemos aqui por outro motivo." Mirou o marido. "Não é, Manel?"

Manuel Noronha baixou a cabeça e inspeccionou as unhas, já amareladas por tantos anos a dedilhar o tabaco. Sentado por detrás da sua secretária, Tomás analisou o pai. Mostrava-se quase careca, apenas resistiam à calvície uns cabelos brancos colados às orelhas e na nuca; as sobrancelhas, espessas e rebeldes, tornaram-se grisalhas e o rosto era chupado, talvez de mais, com os malares muito salientes, quase escondendo os pequenos olhos castanho-claros; e múltiplas rugas cortavam-lhe a face como cicatrizes. Vendo bem, o pai estava a ficar velho; velho e magro, com um corpo franzino e seco, quase lhe restavam só pele e ossos. TInha setenta anos e a idade começava a pesar-lhe, era incrível que ainda desse aulas de matemática na Universidade de Coimbra. Só a sua lucidez e brilhantismo o permitiam, mas teve ainda de obter uma autorização especial do reitor; caso contrário, há muito que estaria em casa a definhar.

"Manel", insistiu a mulher. ''Anda, vá lá. Olha que, se não contas tu, conto eu."

"Mas contar o quê?", perguntou Tomás, intrigado com todo aquele mistério.

"Eu conto", disse o pai.

O professor de matemática não era uma pessoa faladora. O filho habituou-se a vê-Io, ao longo dos anos, como uma figura distante, um homem silencioso, sempre de cigarro na mão, fechado no escritório do sótão, agarrado a um lápis ou a um giz, escondido da vida, uma espécie de eremita da abstração; o seu mundo eram as teorias de Cantor, a geometria de Euclides, os teoremas de Fermat e Gödel, os fractais de Mandelbrot, os sistemas de Lorenz, o império dos números. Vivia por entre uma nuvem de fumo de equações e tabaco, mergulhado num universo irreal, longe dos homens, em reclusão ascética, quase ignorando a família; era um escravo da nicotina e dos algarismos e das fórmulas e das funções e das teorias de conjunto e das probabilidades e da simetria e do pi e do fi e de tudo o que dizia respeito a tudo. A tudo.

Exceto à vida.

"Fui ao médico", anunciou Manuel Noronha, como se aquilo fosse tudo o que tinha a dizer.

Fez-se silêncio.

"Sim?", encorajou o filho.

O velho professor, percebendo que dele se esperava que continuasse a falar, remexeu-se na cadeira.

"Comecei a tossir há já algum tempo, faz dois ou três anos." Tossiu duas vezes, como que a exemplificar. "Primeiro achei que era constipação, depois alergia. O problema é que a tosse se agravou e eu fui perdendo o apetite. Emagreci e passei a sentir-me fraco. O Augusto tinha-me, nessa altura, pedido para confirmar umas equações e eu atribuí esse cansaço e esse emagrecimento ao excesso de trabalho." Pôs a mão no peito. "Depois comecei a assobiar enquanto respirava." Respirou fundo, deixando ouvir-se um sibilo que Ihe crescia do tórax. "A tua mãe mandou-me ir ao médico ver o que era, mas não liguei. Vieram-me então umas dores de cabeça muito fortes e umas dores nos ossos. Achei que era do trabalho, mas a tua mãe fartou-se de me zurzir os ouvidos e lá marcou consulta no doutor Gouveia."

"O teu pai parece um bicho-do-mato, sabes como ele é", observou a mãe. "Quase que tive de o arrastar até à clínica."

Tomás permaneceu calado. Não estava a gostar do rumo que a conversa tomava, antecipou-lhe a conclusão lógica e percebeu que o pai devia ter um problema de saúde.

"O doutor Gouveia mandou-me fazer uns exames", disse Manuel Noronha. "Tirei sangue e fiz umas radiografias. O médico viu os resultados e mandou-me efetuar também um TAC. Depois chamou-nos ao gabinete, a mim e à tua mãe, e revelou ter detectado umas manchas nos pulmões e um aumento dos gânglios linfáticos. Disse que era preciso fazer-me ainda uma biópsia, para examinar uma amostra ao microscópio e ver o que aquilo era. Marcaram-me uma broncoscopia, destinada a extrair-me um fragmento do tecido pulmonar."

"Puf!", desabafou a mãe, com o seu característico rolar de olhos. "A broncoscopia foi uma tourada."

"Então não havia de ser?", perguntou o pai, lançando-lhe um olhar ressentido. "Queria-te ver no meu lugar, hã? Havia de ser bonito." Mirou o filho, como se procurasse um aliado. "Eles meteram-me um tubinho pelo nariz e o tubinho desceu pela garganta até aos pulmões." Indicou com o dedo todo o trajeto da sonda. "Tive imensa dificuldade em respirar durante este exame, foi uma coisa horrível." .

"E o que revelou o exame?", quis saber Tomás, impaciente por chegar à conclusão da história.

"Bem, eles lá foram examinar a amostra extraída da mancha do meu pulmão e dos gânglios linfátlcos. Dias mais tarde, o doutor Gouveia voltou a chamar-nos para uma nova reunião. Depois de uma grande conversa, lá disse que eu tinha... uh..." Olhou para a mulher. "Ó Graça, tu é que decoras essas coisas. Como é que ele disse?"

"Nunca mais me esqueci", observou Graça Noronha. "Chamou-lhe uma proliferação descontrolada de células do revestimento epitelial da mucosa dos brônquios e alvéolos dos pulmões."

Tomás manteve os olhos cravados na mãe, depois voltou-os para o pai e de novo para a mãe.

"O que diabo quer isso dizer?"

Manuel Noronha suspirou, o sibilo ouvindo-se nitidamente a emergir-lhe do peito.

"Tenho um cancro, Tomás."

O filho ouviu-o e tentou processar a informação na sua mente, mas sentiu-se anestesiado, sem reação.

"Um cancro? Como assim, um cancro?"

"Tenho um cancro do pulmão." Voltou a respirar fundo. "Primeiro, não acreditei. Achei que alguém tinha trocado os exames, pondo o meu nome no exame de outra pessoa. Saí do consultório e fui procurar outro médico, o doutor Assis, que me fez novos testes e depois veio com uma grande conversa de que eu tinha um problema chato e precisava de ser tratado, mas não disse o que era." A mulher inclinou-se na cadeira.

"O doutor Assis telefonou-me depois e pediu para falar comigo", disse Graça. "Quando lá cheguei ele revelou-me o que o doutor Gouveia já me tinha dito. Disse que o teu pai tinha o... enfim, esta doença, mas não sabia se lhe havia de dizer."

O matemático fez um gesto de resignação.

"De modo que lá me convenci e voltei para o doutor Gouveia. Ele explicou-me que o meu problema se chama... uh, tem um nome esquisito, carcinoma-qualquer-coisa. Chamam-lhe cancro do pulmão sem pequenas células."

"A culpa é do tabaco", resmungou a mulher. "O doutor Gouveia disse que quase noventa por cento dos cancros do pulmão são causados pelos cigarros. Ora, o teu pai fumava que nem uma chaminé!" Ergueu o dedo, à laia de sermão. "Eu bem lhe disse várias vezes, ó Manel, tu vê lá se..."

"Mãe, espere um bocado", interrompeu Tomás, abalado com a notícia.

Olhou para o pai. "Isso tem tratamento, não tem?”

Quase em resposta, Manuel Noronha tossiu.

"O doutor Gouveia disse que há várias coisas que se fazem para combater esse problema. Há a cirurgia, para remover o carcinoma, e há ainda a quimioterapia e a radioterapia."

"E qual é que vai fazer?"

Fez-se um curto silêncio.

"No meu caso", disse o pai enfim, "há duas complicações que, segundo o doutor Gouveia, são muito comuns neste tipo de cancro."

"Que complicações?"

“O meu cancro foi detectado um pouco tarde. Parece que, no cancro do pulmão, isso acontece em setenta e cinco por cento dos casos. Diagnóstico tardio." Tossiu novamente. "A segunda complicação deriva da primeira. Como a doença demorou a ser identificada e está agora bastante avançada, ela espalhou-se por outras partes do corpo. São metástases. Apareceram-me metástases nos ossos e no cérebro, e o doutor Gouveia diz que é natural que venham a aparecer também no fígado."

Tomás sentiu-se paralisado, os olhos cravados no pai.

"Meu Deus", exclamou. "E qual o tratamento?"

"A cirurgia está fora de questão. Os tumores já alastraram, pelo que o meu caso é inoperável. A quimioterapia também não é opção, uma vez que ela só é eficaz no caso do cancro de células pequenas. Eu tenho o das células que não são pequenas, o qual, ao que parece, é até o tipo de cancro de pulmão mais frequente."

"Se não pode operar nem fazer quimioterapia, o que vai fazer?"

"Radioterapia."

"E isso vai curá-Io?"

"O doutor Gouveia diz que tenho boas hipóteses, que nesta idade a evolução da doença não é muito rápida e que eu tenho de lidar com isto como se fosse uma doença crônica."

"Ah."

"Mas eu estive a ler muita coisa e não sei se ele foi totalmente sincero comigo."

A mulher agitou-se no seu lugar, incomodada com esta observação.

"Que disparate!", protestou. "Claro que foi sincero!”

O matemático olhou para a mulher.

"Ó Graça, não vamos discutir outra vez, pois não?"

Graça olhou para o filho, como se buscasse um aliado.

"Já viste isto? Agora anda com a mania que vai morrer!"

"Não é isso", argumentou o marido. "Eu estive a ler umas coisas e percebi que o objetivo da radioterapia não é a cura, mas o mero retardar da evolução da doença."

"Retardar?", perguntou o filho. "Como assim, retardar?"

"Retardar. Tornar a evolução mais lenta."

"Quanto tempo?"

"Sei lá! No meu caso pode ser um mês, pode ser um ano, não faço ideia." Vidrou o olhar. "Espero que sejam vinte", disse. "Mas pode ser só um mês, não sei."

Tomás sentiu o mundo fugir-lhe por baixo dos pés.

"Um mês?"

"Ai Jesus, que mania!", protestou Graça. "Lá está o teu pai a dramatizar tudo..."

O velho professor de matemática teve um ataque de tosse. Recompôs-se com dificuldade, respirou fundo e fixou os úmidos olhos castanhos no verde vítreo do filho.

"Tomás, eu estou a morrer.”

 

IIl

 

A segurança à entrada do perímetro da embaixada dos Estados Unidos, um edifício encaixado num recanto verde de Sete Rios, parecia assumir proporções ridículas. Tomás Noronha passou por dois cordões de guardas e foi revistado duas vezes, tendo atravessado um complicadíssimo sistema de detecção de metais e metido o olho numa pequena máquina de tecnologia biométrica concebida para identificar suspeitos pelo reconhecimento da íris; até um espelho os seguranças colocaram por baixo do seu Volkswagen azul, na tentativa de localizarem qualquer eventual explosivo plantado no automóvel. Desde o 11 de Setembro que as medidas de proteção à entrada da embaixada tinham sofrido uma escalada, mas nada o preparara para isto; havia muito tempo que não visitava o local e jamais imaginara que o acesso ao perímetro diplomático se tivesse transformado em tal prova de múltiplos obstáculos.

O sorriso luminoso de Greg Sullivan acolheu-o à porta da embaixada. O adido cultural era um homem de trinta anos, alto, loiro e de olhos azuis, muito arranjadinho e aprumado, de gestos tranquilos e com um certo ar de mórmon. O americano conduziu-o pelos corredores da embaixada e introduziu-o numa sala luminosa, a larga janela aberta para um jardim solarengo. Um rapaz de camisa branca e gravata vermelha encontrava-se sentado na longa mesa da sala, a atenção mergulhada num lap-top aberto sobre o mogno, e ergueu-se quando Sullivan entrou com o seu convidado.

"Don", anunciou. "This is professor Tomás Noronha."

"Howdy!"

Cumprimentaram-se os dois.

"Este é Don Snyder", disse, sempre em inglês, apresentando o rapaz, cuja face muito pálida contrastava com o seu cabelo preto e liso.

Sentaram-se os três, com o adido cultural ainda a conduzir as operações como se fosse um rotinado mestre-de-cerimônias. Sullivan falava alto, mas tinha o olhar preso em Tomás, tornando evidente que as suas palavras se destinavam exclusivamente ao português.

 

"Esta conversa não está a ocorrer. Tudo o que aqui for dito é informação reservada e permanecerá entre nós." Inclinou a cabeça na direção do convidado. "Compreendido?"

"Sim."

Sullivan esfregou as mãos.

"Muito bem", exclamou. Virou-se para o rapaz engravatado de cabelo preto. "Don, se calhar é melhor começar."

"Okay", assentiu Don, puxando as mangas da camisa para cima. "Mister Norona, tal como..."

"Noronha", corrigiu Tomás.

"Norona?"

"Esqueça", riu-se o historiador, apercebendo-se de que o americano jamais conseguiria pronunciar corretamente o seu apelido. "Chame-me Tom."

"Ah, Tom!", repetiu o rapaz do cabelo preto, satisfeito por encontrar um nome mais familiar.

"Muito bem, Tom. Tal como o Greg disse, o meu nome é Don Snyder. O que ele não lhe revelou é que eu trabalho para a CIA em Langley, onde sou analista de contraterrorismo, integrado num gabinete pertencente ao Directorate of Operations, uma das quatro direções da agência."

"Operações, é? Assim como o... James Bond?"

Snyder e Sullivan riram-se.

"Sim, é no Directorate of Operations que trabalham os 007 americanos", assentiu Don. "Embora eu não seja propriamente um deles. O meu trabalho, receio bem, não tem tanta graça quanto as aventuras do meu parceiro fictício do MI6. Raramente tenho raparigas bonitas à minha volta e, na maior parte das vezes, as minhas tarefas não passam de coisas de rotina, sem graça nenhuma. O Directorate of Operations é uma direção cuja responsabilidade principal radica na recolha clandestina de informação, muitas vezes com recurso a HUMINT, ou seja, human intelligence, fontes humanas que utilizam técnicas encobertas."

"Espiões, quer você dizer."

"Essa palavra é um pouco... como hei-de dizer?... um pouco amadora. Preferimos chamar-lhes human intelligence, ou fontes humanas de recolha clandestina de informação." Pôs a mão no peito. "De qualquer modo, eu não sou uma dessas fontes. O meu trabalho resume-se à análise de informação sobre atividades terroristas." Ergueu uma sobrancelha. "E foi isso que me trouxe a Lisboa."

Tomás sorriu.

"Terrorismo? Em Lisboa? Ora aí estão duas palavras que não combinam. Não há terrorismo em Lisboa."

Sullivan interveio.

"Ó Tomás, não é bem assim", riu-se. "Você já conduziu nas ruas desta cidade?"

"Ah, pois", concordou o português. "Há por aí malta que, ao volante, é mais perigosa do que o Bin Laden, lá isso é verdade."

Desconcertado com as gargalhadas dos dois, Don Snyder esboçou um sorriso cortês.

"Deixe-me só concluir a minha apresentação", pediu.

"Desculpe", retorquiu Tomás. "Faça o favor."

O americano digitou teclas do seu lap-top.

"Fui chamado na semana passada a Lisboa por causa de um acontecimento aparentemente inconsequente." Voltou o ecrã do computador para Tomás, exibindo o rosto sorridente de um septuagenário de bigode e pêra grisalha, uns óculos muito graduados nos olhos escuros. "Conhece este homem?"

Tomás analisou o rosto e abanou a cabeça.

"Não."

"Chama-se Augusto Siza e é um famoso professor catedrático português, o maior físico do país."

Tomás abriu a boca, reconhecendo o nome.

"Ah", exclamou. "É o colega do meu pai."

"Colega do seu pai?", admirou-se Don.

"Sim. Não foi esse que desapareceu?"

 

"Foi. Há três semanas."

"Pois, o meu pai ainda hoje me falou nisso."

"O seu pai conhece-o?"

"Sim, são colegas na Universidade de Coimbra. O meu pai leciona matemática e o professor Siza tem uma cátedra de física na mesma faculdade."

"I see."

"Mas o que se passou com ele?"

"Bem, o professor Siza desapareceu sem deixar rasto. Um dia estavam os alunos na faculdade à espera que ele viesse para lhes dar uma aula e o professor não pôs lá os pés. No dia seguinte era aguardado numa reunião da Comissão Científica e voltou a não aparecer. Ligaram-lhe várias vezes para o telemóvel e nunca ninguém atendeu. Apesar de ser um homem de idade, é considerado uma pessoa enérgica e muito lúcida, o que lhe permitiu continuar a lecionar para lá da idade limite. Como é viúvo e vive sozinho, porque a filha já está casada, os seus colegas pensaram que ele se teria ausentado por algum motivo. Acabou por ser o colaborador do professor que, dirigindo-se a casa dele para uma reunião há muito aprazada, entrou na habitação e verificou que não estava lá ninguém. Mas encontrou o escritório dele muito desarrumado, com papéis espalhados pelo chão e pastas abertas por toda a parte, de modo que achou tudo muito estranho e chamou a polícia. Foi lá a vossa polícia de investigação, a... uh... Ju... Jucidária, e..."

"Judiciária."

"Esses tipos", exclamou Don, reconhecendo o nome. "Essa polícia recolheu algumas amostras, incluindo de cabelos, e levou-as para análise laboratorial. Quando vieram os resultados, os inspetores da polícia colocaram os dados no computador de cadastro, que tem ligações à Interpol." Digitou mais umas teclas do lap-top. "O resultado foi surpreendente." Um novo rosto apareceu no ecrã, era um homem moreno, de rosto cheio e barba rala negra. "Reconhece este indivíduo?"

Tomás estudou-lhe as linhas da cara, tinha um certo ar de árabe.

"Não."

"Chama-se Aziz al-Mutaqi e trabalha para uma unidade intitulada Al-Muqawama al-Islamiyya.

Já ouviu falar nela?"

"Uh... não."

"É a seção militar do Partido de Deus. Conhece o Partido de Deus?"

"Também não", confessou Tomás, sentindo-se um completo ignorante.

"Em árabe, Partido de Deus diz-se Hibz Allah. Soa-lhe familiar?"

O português encolheu-se na cadeira e abanou mais uma vez a cabeça, quase triste por não saber nada de nada.

"Não."

"Hibz Allah. Os libaneses, claro, têm um sotaque muito próprio, não é? Em vez de dizerem Hibz Allah, dizem Hezb'llah. A CNN diz Hezbollah."

"Ah! Hezbollahl", exclamou Tomás, aliviado. "Já ouvi, claro!"

"Nas notícias, presumo."

"Sim, nas notícias."

"E sabe o que é o Hezbollah?"

"Não são os tipos do Líbano que estiveram em guerra com Israel?

Don Snyder sorriu.

"Muito resumidamente, é isso, sim", concordou. "O Hezbollah é uma organização islâmica xiita que nasceu no Líbano em 1982, aglomerando vários grupos formados para resistir à ocupação israelita do Sul do país. Tem laços com o Hamas e a Jihad Islâmica, e houve até sugestões de ligações à Al-Qaeda." Abanou a cabeça e baixou o tom da voz, como se fizesse um aparte. "Confesso que não acredito nisso, sabe? A Al-Qaeda é uma organização sunita cuja ideologia vaabita exclui ostensivamente os xiitas. Os tipos do Bin Laden chegam ao ponto de considerar os xiitas infiéis, veja lá. Ora, isso inviabiliza qualquer aliança entre os dois, não lhe parece?" Dedilhou mais teclas do computador portátil, fazendo aparecer imagens de destruição no ecrã. "De qualquer modo, o Hezbollah esteve por detrás de vários sequestros de ocidentais e atentados no Ocidente, atos mais do que suficientes para levarem os Estados Unidos e a União Européia a declará-lo uma organização terrorista. O próprio Conselho de Segurança das Nações Unidas emitiu uma resolução, a resolução 1.559, a exigir a dissolução do braço armado do Hezbollah."

Tomás afagou o queixo.

"E o que tem o Hezbollah a ver com o professor Siza?"

O americano balançou afirmativamente a cabeça.

"Ora aí está a pergunta que os inspetores da Ju... uh... da vossa polícia fizeram", disse Don. "O que estavam os cabelos de um homem procurado pela Interpol por ligações ao Hezbollah a fazer no escritório do professor Siza, em Coimbra?"

A pergunta ficou a pairar na sala.

"Qual é a resposta?"

O americano encolheu os ombros.

"Não sei. O que sei é que a vossa polícia entrou imediatamente em contato com o serviço português de informações, o SIS, e estes falaram com o Greg, que fez um telefonema para Langley."

Tomás olhou para Greg Sullivan e, como se tivesse acabado de ser iluminado, apercebeu-se da verdade. O seu amigo Greg, o americano tranquilo que tantas vezes lhe telefonava para falar do Museu Hebraico e ajudar nas negociações com o Getty Center ou o Lincoln Center, estava tão interessado em cultura quanto ele, Tomás, se interessava por baseball ou pelos filmes de Arnold Schwarznegger. Ou seja, nada. Greg não era um homem de cultura; era um agente da CIA que operava em Lisboa sob a capa de adido cultural. Esta súbita tomada de consciência fê-lo olhar para o americano com outros olhos, mas fê-lo sobretudo perceber quão traiçoeiras são as aparências, quão fácil é enganar um ingênuo bem-intencionado como ele próprio.

Apercebendo-se de que fitava o "adido cultural" com ar embasbacado, o português estremeceu, como se acabasse de despertar, e voltou-se de novo para Don.

"O Greg falou consigo, é?"

"Não", negou Don. "O Greg falou com o meu subdiretor do Directorate of Operations. O meu subdiretor falou com o meu chefe, o responsável pelo gabinete de análise de contraterrorismo, e o meu chefe mandou-me vir aqui a Lisboa."

Tomás esboçou uma careta, intrigado.

"Muito bem", disse, balançando a cabeça como um professor a aprovar o trabalho de um aluno aplicado. "E agora diga-me uma coisa, Don. O que estou eu aqui a fazer?"

O americano de cabelos pretos sorriu.

"Não faço a mínima ideia. Fui instruído para lhe explicar os parâmetros da minha missão e foi isso o que acabei de fazer."

O português voltou-se para o "adido cultural".

"Greg, o que tenho eu a ver com isto?"

Sullivan consultou o relógio.

"Acho que não me cabe a mim responder", disse.

"Então cabe a quem?"

"Uh...", hesitou. "Ele deve estar a chegar."

"Ele, quem?"

"Já o vai conhecer."

 

IV

 

O vulto emergiu de uma porta lateral, na sombra, e aproximou-se devagar da mesa de mogno. Tomás e os dois americanos quase se assustaram quando o viram aparecer do nada, como se fosse um espectro, uma figura fantasmagórica que inesperadamente se materializara na sala.

Era um homem alto e bem constituído, de olhar azul glacial, luminoso, tinha o cabelo grisalho cortado à militar e vestia um terno cinzento-escuro; aparentava uns setenta anos, mas permanecia corpulento, um rochedo tão vivido quanto aquelas rugas que lhe saíam dos cantos dos olhos, traços que lhe riscavam de idade o rosto duro e impenetrável. O desconhecido demorou-se na penumbra, sempre imóvel, sinistro até, os olhos azuis contraídos, como se analisasse a situação, como se estudasse Tomás. Deteve-se um instante mais, até puxar enfim a cadeira, inclinar-se para a frente e assumir o seu lugar na mesa de mogno, os olhos frios cintilantes cravados no português.

"Good afternoon, mister Bellamy", cumprimentou Sullivan com um tom de respeito que não passou despercebido a Tomás.

"Hello Greg", disse o homem, a voz baixa e rouca, sem desviar os olhos de Tomás. Todo o seu corpo transmitia poder. Poder e ameaça e agressão latente. "Não me vais apresentar o teu amigo?"

Sullivan obedeceu de pronto.

"Tomás, este é mister Bellamy."

"Como está?"

"Hello Tomás", cumprimentou o recém-chegado, pronunciando o nome de Tomás com um sotaque surpreendentemente correto. "Obrigado por ter vindo."

Sullivan inclinou-se sobre o ouvido do português.

"Foi mister Bellamy que chegou esta manhã a Lisboa", apressou-se a acrescentar, num sussurro respeitoso. "Ele veio de propósito de Langley para..."

"Obrigado, Greg", atalhou Bellamy. "O show é agora meu."

"Yes, mister Bellamy."

O americano do olhar sinistro permaneceu um longo momento com a cadeira puxada para trás, na penumbra da sala, sempre com a atenção presa em Tomás. Tinha uma respiração profunda, quase arfante naquele silêncio pesado; impunha uma presença que suscitava desconforto, temor até. O historiador sentiu gotas de suor brotarem-lhe do topo da testa e tentou sorrir, mas o recém-chegado manteve o rosto fechado, de uma frieza polar, cruel, os olhos contraídos a estudarem o português, a tirarem-lhe as medidas, a avaliarem o homem que tinha diante de si.

Ao fim de alguns minutos, que pareceram uma infinidade a todos os que se encontravam na sala, o desconhecido dos olhos azuis gelados puxou a cadeira para a frente, saindo da penumbra e submetendo-se à luz, apoiou os cotovelos sobre a mesa e revolveu os lábios finos.

"O meu nome é Frank Bellamy e sou o responsável por uma das quatro direções da CIA. Ali o Don é analista do Directorate of Operations. Eu sou o chefe do Directorate of Science and Technology. O nosso trabalho no DS&T é pesquisar, conceber e instalar tecnologias inovadoras de apoio às missões de recolha de informação. Temos satélites que são capazes de ver uma matrícula no Afeganistão como se estivéssemos a meio metro de distância. Temos sistemas de intercepção de mensagens que nos permitem, por exemplo, ler os e-mails que o senhor enviou esta manhã para o Museu Egípcio no Cairo ou verificar os sites pornográficos que ali o Don consultou ontem à noite no seu quarto de hotel." O rosto pálido de Don Snyder enrubesceu de vergonha, ao ponto de o jovem analista americano se ver forçado a baixar a cabeça. "Em suma, não há uma rã neste planeta que seja capaz de dar um peido sem que nós saibamos, se assim o quisermos." Deixou os seus olhos hipnóticos penetrarem em Tomás. "Percebeu o nosso poder?"

O português balançou afirmativamente a cabeça, impressionado com aquela apresentação.

"Sim."

Frank Bellamy recostou-se na sua cadeira.

"Good." Olhou pela janela para a relva fresca que resplandecia no jardim. "Quando a Segunda Guerra Mundial começou, eu era um jovem e promissor estudante de física na Universidade de Colúmbia, em Nova Iorque. Quando ela terminou, eu estava a trabalhar em Los Alamos, uma terríola perdida no topo de uma colina árida do Novo México." Bellamy falava devagar, pronunciando muito bem as palavras e respeitando pausas compridas. "O nome Projecto Manhattan diz-lhe alguma coisa?"

"Não foi aí que fizeram a primeira bomba atômica?"

Os lábios finos do americano reviraram-se no que de mais parecido com um sorriso ele era capaz de esboçar.

"Você é um fucking gênio", exclamou, com uma ponta de sarcasmo. Ergueu três dedos.

"Fizemos três bombas em 1945. A primeira foi um engenho experimental que explodiu em Alamogordo. Seguiram-se Little Boy, lançada sobre Hiroxima, e Fat Man, atirada sobre Nagasáqui." Abriu as mãos. "Bang, a guerra acabou." Congelou um instante, como que a reviver acontecimentos passados. "Um ano depois, o Projeto Manhattan foi dissolvido. Muitos cientistas continuaram a trabalhar em projetos secretos, mas eu não. Vi-me, de repente, sem emprego. Até que um cientista meu amigo me chamou a atenção para o National Security Act, assinado em 1947 pelo presidente Truman a criar uma agência de informações. A anterior agência, a OSS, tinha sido extinta no final da guerra, mas os receios da expansão do comunismo e as atividades do KGB levaram a América a tomar consciência de que não podia permanecer de braços cruzados. A nova agência chamava-se CIA e eu fui recrutado para a área científica." Voltou a curvar os lábios finos, no que parecia ser uma tentativa de sorriso. "O senhor tem diante de si, portanto, um dos fundadores da agência." O rosto readquiriu o semblante frio anterior. "Poderá agora parecer que a área da ciência seria das menores preocupações da CIA naquela época, mas era exatamente o contrário. A América vivia com o pavor de que a União Soviética desenvolvesse armas atômicas e a CIA empenhou-se nessa questão de três formas." De novo os três dedos. "Em primeiro lugar, vigiando os soviéticos. Em segundo lugar, recrutando cérebros estrangeiros, incluindo nazis. E, em terceiro lugar, vigiando os nossos próprios cientistas. Apesar dos nossos esforços, porém, a União Soviética fez explodir a sua primeira bomba atômica em 1949, criando um clima de paranóia entre nós. Começou a caça às bruxas, devido à suspeita de que tinham sido os nossos cientistas a passar o segredo para Moscovo." Pela primeira vez, Bellamy desviou os olhos de Tomás e voltou-se para Sullivan. "Greg, arranja-me um café?"

O "adido cultural" ergueu-se de um salto, parecia um soldado que acabara de escutar a ordem do general.

"Right away, mister Bellamy", disse, saindo da sala.

O olhar azul de Frank Bellamy regressou a Tomás.

"Na Primavera de 1951, o então primeiro-ministro de Israel, David Ben Gurion, veio à América recolher fundos para a sua jovem nação, nascida apenas três anos antes. Como sempre acontece nestes casos, estudamos o programa da visita e houve uma coisa que despertou a nossa atenção. Ben Gurion tinha marcado um encontro com Albert Einstein em Princeton. O meu chefe achou que deveríamos vigiar esse encontro e mandou-me, a mim e a um operacional encarregado de sistemas de gravação áudio, montar a escuta da conversa entre os dois." Consultou um pequeno bloco de notas depositado diante de si. "O encontro ocorreu no dia 15 de Maio de 1951, na casa de Einstein, em 112 Mercer Street, Princeton. Tal como o meu chefe previra, Ben Gurion pediu-lhe de facto que concebesse uma bomba atómica para Israel. Ele queria uma bomba de fabrico fácil, tão fácil que um país com escassos recursos fosse capaz de a desenvolver rapidamente e às escondidas."

"E Einstein?", perguntou Tomás, atrevendo-se pela primeira vez a interromper o seu intimidante interlocutor. "Aceitou essa encomenda?"

"O nosso geniozinho resistiu pouco." Voltou a consultar as notas. "Sabemos que começou a trabalhar no pedido de Ben Gurion logo no mês seguinte e ainda o fazia em 1954, um ano antes de morrer." Levantou os olhos do bloco. "Professor Noronha, sabe qual é a energia libertada por uma bomba atômica?"

"A energia nuclear?"

"Sim. Sabe que energia é essa?"

"Suponho que tenha a ver com os átomos, não é?"

"Tudo no universo tem a ver com os átomos, caro professor", declarou Bellamy de modo seco. “Eu pergunto-lhe se tem a noção do que é esta energia?"

Tomás quase se riu.

"Não faço a mínima idéia."

Greg Sullivan regressou à sala com uma bandeja e depositou quatro pequenas chávenas fumegantes na mesa, juntamente com um pratinho repleto de sacos de açúcar. O homem da CIA pegou na sua chávena e, sem adoçar o café, bebeu um trago.

"O universo é constituído por partículas fundamentais", disse, após pousar a chávena. "Pensava-se inicialmente que essas partículas eram os átomos, de tal modo que lhes chamaram átomos. Átomo é a palavra grega que significa indivisível. Só que, com o tempo, os físicos foram-se apercebendo de que era possível dividir o indivisível." Aproximou o polegar do indicador, expressando algo minúsculo. "Descobriu-se que havia partículas ainda mais pequenas, designadamente o protão e o neutrão, que se juntam no núcleo do átomo, e o electrão, que o orbita como se fosse um planeta, só que incrivelmente veloz." Imitou com o indicador o gesto do electrão a circular em torno da chávena pousada na mesa. "Imagine que éramos capazes de encolher Lisboa até às dimensões de um átomo. Se o fizéssemos, um núcleo ficaria do tamanho de, por exemplo, uma das vossas bolas de futebol, colocada no centro da cidade. Nesse caso, um electrão seria um berlinde espalhado por um raio de trinta quilómetros em torno desse centro, capaz de dar quarenta mil voltas em torno da bola de futebol em apenas um segundo."

"Puxa."

"Isto é só para que tenha a noção de quão vazio e pequeno é um átomo."

Tomás deu três toques na mesa.

"Então se os átomos são assim tão vazios", disse o português, "por que razão, quando eu toco nesta mesa, a minha mão bate nela e não a atravessa?"

"Bem, isso deve-se às forças elétricas de repulsão entre os electrões e a uma coisa que chamamos o Princípio de Exclusão de Pauli, que prevê que dois átomos não podem ocupar o mesmo estado."

"Ah."

"O que nos leva à questão das forças existentes no universo." Bellamy voltou a erguer os dedos, mas desta vez foram quatro. "Todas as partículas interagem entre si através de quatro forças. Quatro. A força da gravidade, a força eletromagnética, a força forte e a força fraca. A força da gravidade, por exemplo, é a mais fraca de todas, mas o seu raio de ação é infinito." Repetiu o gesto da circulação orbital à volta da chávena. "Aqui na Terra sentimos a atracção da força de gravidade do Sol e até do centro da galáxia, em torno da qual giramos. Depois há a força eletromagnética, que é a junção da força elétrica com a força magnética. O que se passa é que a força elétrica faz com que cargas opostas se atraiam e cargas semelhantes se afastem." Bateu com o dedo na mesa. "E é aqui que está o problema. Os físicos aperceberam-se de que os protões têm carga positiva. Mas a força elétrica determina que cargas semelhantes se repelem, não é? Ora, se os protões têm cargas semelhantes, pois são todos positivos, obrigatoriamente têm de se repelir. Foram feitas as contas e descobriu-se que, se se ampliassem os protões para o tamanho de uma bola de futebol, mesmo que se cobrissem os protões com a mais forte liga metálica que se conhece, a força elétrica repulsiva entre eles era tão forte que essa liga metálica seria destruída como se fosse papel higiênico." Ergueu o sobrolho. "E para que veja quão forte é a força elétrica que repele os protões uns dos outros." Fechou o punho. "E, no entanto, apesar de toda esta força repulsiva, os protões mantêm-se unidos no núcleo. Porquê? Que força existe que é ainda mais forte do que a poderosa força elétrica?" Fez uma pausa dramática. "Os físicos puseram-se a estudar o problema e descobriram que existia uma força desconhecida. Chamaram-lhe força nuclear forte. É uma força tão grande, tão grande, que é capaz de manter os protões unidos no núcleo." Cerrou o punho com força, como se a mão fosse a energia que mantinha o núcleo coeso. "Na verdade, a força forte é cerca de cem vezes mais forte do que a força eletromagnética. Se os protões fossem dois comboios a afastarem-se um do outro a alta velocidade, a força forte seria suficientemente forte para os manter juntos, para os impedir de se afastarem. É isso a força forte." Ergueu um dedo, como quem faz um aviso. "Mas, apesar de toda a sua tremenda força, a força forte tem um raio de ação muito curto, menos que o tamanho de um núcleo atômico. Se um protão conseguir sair do núcleo, então deixa de estar sob a influência da força forte e submete-se apenas à influência das restantes forças. Entendeu isto?"

"Sim."

"Good boy." Bellamy considerou por momentos o modo como explicaria o passo seguinte. Voltou a cabeça para a janela e observou o Sol prestes a esconder-se para lá dos edifícios recortados no horizonte. "Repare no Sol. Por que razão ele brilha e irradia calor?"

"São explosões nucleares, não é?"

"Parecem, claro. Na verdade não são explosões, mas movimentos de um plasma cuja origem última se encontra em reações nucleares que ocorrem no núcleo. Sabe o que quer dizer reações nucleares?"

Tomás encolheu os ombros.

"Uh... sinceramente, não sei."

"Os físicos estudaram o problema e descobriram que, sob determinadas condições, era possível libertar a energia da força forte que se encontra no núcleo dos átomos. Consegue-se isso através de dois processos, a cisão e a fusão do núcleo. Ao partir-se um núcleo ou ao fundirem-se dois núcleos, a tremenda energia da força forte que une o núcleo é libertada. Devido à ação dos neutrões, os outros núcleos próximos vão também sendo quebrados, soltando ainda mais energia da força forte e provocando assim uma reação em cadeia. Ora, você já viu quão brutalmente forte é esta força forte, não viu? Agora imagine o que acontece quando a sua energia é libertada em grande quantidade."

"Há uma explosão?"

"Há uma libertação da energia dos núcleos dos átomos, onde está a força forte. Chamamos-lhe, por isso, uma reacção nuclear."

Tomás abriu a boca.

"Ah!", exclamou. "Já entendi."

O americano voltou a contemplar a esfera alaranjada que se deitava sobre os telhados cor de tijolo de Lisboa.

"É isso o que se passa no Sol. A fusão nuclear. Os núcleos dos átomos vão sendo fundidos, libertando-se assim a energia da força forte." Os olhos azuis regressaram aos verdes de Tomás. "Sempre se pensou que isto era algo só produzível pela natureza. Mas em 1934 houve um cientista italiano com quem trabalhei em Los Alamos, chamado Enrico Fermi, que bombardeou urânio com neutrões. A análise dessa experiência permitiu descobrir que o bombardeamento produziu elementos mais leves do que o urânio. Mas como era isso possível? A conclusão foi a de que o bombardeamento quebrara o núcleo do urânio, ou, por outras palavras, provocara a sua cisão, permitindo assim a formação de outros elementos. Percebeu-se deste modo que era possível libertar artificialmente a energia da força forte, não através da fusão dos núcleos, como acontece no Sol, mas através da sua cisão."

"E é isso a bomba atômica."

"Nem mais. No fundo, a bomba atômica consiste na libertação em cadeia da energia da força forte através da cisão do núcleo dos átomos. Em Hiroxima foi usado o urânio para obter esse efeito, em Nagasáqui recorremos ao plutônio. Só mais tarde a bomba de hidrogênio pôs fim ao recurso à cisão dos núcleos, passando antes a usar a fusão dos núcleos, como acontece no interior do Sol."

Frank Bellamy calou-se, recostou-se de novo na cadeira e engoliu todo o café que lhe restava na

chávena. Depois cruzou os dedos das mãos e descontraiu. Parecia ter terminado a sua exposição, o que deixou Tomás algo confuso. O silêncio prolongou-se por uns trinta segundos, tornando-se primeiro desconfortável, depois verdadeiramente insustentável.

"Foi para me contar isso que veio a Lisboa falar comigo?", perguntou o historiador por fim, desconcertado.

"Sim", assentiu o americano glacial, a voz rouca sempre pausada. "Mas isto é apenas uma introdução. Como chefe do Directorate of Science and Technology da CIA, uma das minhas preocupações é vigiar a não-proliferação de tecnologia nuclear. Há vários países do Terceiro Mundo que estão a desenvolver esta tecnologia e, em alguns casos, isso deixa-nos francamente preocupados. O Iraque de Saddam Hussein, por exemplo, tentou fazê-lo, mas os israelitas arrasaram as suas instalações. Neste momento, no entanto, a nossa atenção está voltada para outro país." Retirou um pequeno mapa do bloco de notas e assinalou um ponto. "Este aqui."

Continuar: parte 3 de 4