A Fórmula de Deus
Capítulo XXXIV
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Dois homens corpulentos apareceram nesse instante e cumprimentaram Greg com uma saudação militar. Era evidente que se tratava de dois seguranças americanos, provavelmente soldados à paisana da embaixada dos Estados Unidos em Lisboa, chamados ao aeroporto para escoltarem Ariana.
Tomás abraçou de imediato a iraniana, como se assim assumisse o compromisso solene de a proteger, contra tudo e contra o que mais viesse. O adido cultural mirou o casal e abanou a cabeça.
"Eu compreendo tudo, a sério que compreendo", disse. "Mas tenho as minhas ordens e não posso deixar de as cumprir. Informei Langley de tudo o que você me disse há pouco e Langley contactou as autoridades portuguesas e deu-me novas instruções. A doutora Pakravan é nossa convidada e terá de nos acompanhar até à embaixada."
"Nem pensar."
"Ela virá conosco", sentenciou Greg. "De preferência a bem."
Tomás apertou Ariana ainda com mais força.
"Não."
O americano respirou fundo.
"Tomás, não torne as coisas difíceis."
"Vocês é que estão a tornar tudo difícil."
Greg fez um gesto com a cabeça e os dois seguranças deitaram a mão a Tomás, torcendo-lhe o braço e puxando-o como se ele fosse tão pesado quanto uma almofada. O historiador contorceu o corpo, num esforço desesperado para libertar o braço, mas sentiu uma pancada na nuca e tombou no chão. Ouviu Ariana gritar e, apesar de se encontrar atordoado, tentou erguer-se, mas um braço firme como o aço manteve-o imobilizado.
“Deixa estar, Tomás", ouviu-a dizer, a voz estranhamente calma, quase maternal. "Eu vou ficar bem, não te preocupes." Mudou de tom, tornando-se ríspida. "Vocês deixem-no, ouviram? Nem se
atrevam a tocar-lhe."
"Não se preocupe, doutora. Ele vai ficar bem. Venha comigo."
"Tire a mão, seu porco. Eu sei caminhar sozinha."
As vozes foram-se afastando até deixarem de se ouvir. Só nessa altura o segurança que o mantinha pregado ao chão, o rosto colado ao piso frio de granito polido, o libertou, deixando-o enfim erguer a cabeça e olhar em redor. Sentiu uma tontura e tentou orientar-se. Viu passageiros com carrinhos e malas de mão, mirando-o com uma expressão reprovadora, e vislumbrou o segurança americano a afastar-se calmamente pelo corredor, rumo à zona do levantamento de bagagens. Olhou em todas as direcções, em busca da silhueta familiar da iraniana, mas, por mais que se esforçasse, nada detectou. Levantou-se a custo e, já de pé, vencendo uma nova tontura, passou os olhos pelo terminal, a atenção prendendo-se aqui e ali, até que se viu forçado a render-se à evidência.
Ariana desaparecera.
A hora seguinte foi passada em contatos frenéticos. Tomás voltou a conversar com o diretor do SEF no aeroporto e ligou para a embaixada dos Estados Unidos. Procurou mover influências através da administração da Fundação Gulbenkian e da reitoria da Universidade Nova de Lisboa e chegou ao ponto de telefonar para Langley e tentar falar com Frank Bellamy.
Tudo falhou.
A verdade é que Ariana lhe tinha sido levada e encontrava-se agora muito para além do seu alcance. Era como se uma muralha opaca se tivesse erguido em torno da mulher que amava, isolando-a do mundo e de si, fechando-a algures por detrás dos muros reforçados que escondiam a embaixada americana em Lisboa.
Sentou-se num banco da zona das chegadas e esfregou a cara com as palmas das mãos. Sentia-se desesperado e impotente. O que poderia fazer agora? Como quebrar aquela inesperada barreira que o separava de Ariana? Como se sentiria ela? Traída? Por mais que considerasse as alternativas, só vislumbrava um curso de ação. Tinha de desvendar por completo o mistério do manuscrito de Einstein. Não dispunha de mais nenhuma opção.
Mas o que lhe faltava fazer? Bem, por um lado, precisava de conhecer a segunda via descoberta pelo professor Siza. Por outro, havia a questão ainda não resolvida da mensagem cifrada do documento, aquela que supostamente ocultava a fórmula de Deus. Como é que Tenzing lhe chamara? Ah, sim. Era a fórmula na qual tudo assentava. A fórmula que gera o universo, que explica a existência, que faz de Deus o que Ele é.
Meteu a mão ao bolso e retirou o papelinho rabiscado em Teerã com a mensagem cifrada. Por cima encontrava-se ainda o poema já decifrado. E por baixo, como se se risse de si, irritantemente divertida por manter ainda escondido o seu estranho segredo, espreitava a derradeira cifra.
See sign
!ya ovqo
Como diabo decifrar esta charada?, interrogou-se. Fez um esforço para se recordar das referências do bodhisattva à forma usada por Einstein para ocultar esta mensagem. Se bem se lembrava, Tenzing falara num sistema de dupla cifração e ainda no recurso a...
O telemóvel tocou.
Seriam os seus esforços enfim a produzir frutos? Será que alguém lhe trazia a solução para o colete-de-forças em que os americanos tinham colocado Ariana?
Quase tremendo de ansiedade, tirou o telemóvel do bolso e premiu a tecla verde.
"Está sim?"
"Está? Tomás?"
Era a mãe.
"Sim, mãe", murmurou, escondendo com dificuldade a decepção. "Sou eu."
"Ai, filho. Ainda bem que te encontro! Tenho andado numa aflição que não imaginas..."
"Sim, estou aqui. O que é?"
"Tenho andado aflita para falar contigo. Já estou farta de te ligar e tu não atendes nem dizes nada. Parece incrível!"
"Ó mãe, a mãe sabia perfeitamente que eu estava no Tibete."
"Mas podias dizer alguma coisa, não?"
"E eu disse."
"Só no dia em que lá chegaste. Depois não disseste mais nada."
"Ó mãe, o que quer? Aquilo foi para lá uma trapalhada que nem queira saber e o fato é que não tive tempo de lhe ligar. Pronto, paciência. Mas já cá estou, não estou?"
"Graças a Deus, meu filho. Graças a Deus."
Dona Graça começou a soluçar do outro lado da linha e Tomás mudou de semblante, de enfadado tornou-se de imediato preocupado.
"Então, mãe? O que se passa?"
"É o teu pai..."
"O que se passa com o pai?"
"O teu pai..."
"Sim?"
"O teu pai foi internado."
"O pai foi internado?"
"Sim. Ontem."
"Onde?"
"Nos hospitais da universidade."
A mãe chorava agora abertamente do outro lado da linha.
"Mãe, tenha calma."
"Eles disseram para eu me preparar."
"O quê?"
"Eles disseram que ele vai morrer."
XXXVI
O cheiro característico dos hospitais, aquele leve aroma asséptico que se parece pegar às paredes brancas, fez Tomás remexer-se com desconforto no seu banco. Olhou para o lado e, num gesto carinhoso, afagou os cabelos encaracolados da mãe, cabelos de um loiro simultaneamente artificial e natural; artificial por serem pintados, natural porque era essa a sua cor da juventude. Dona Graça apertava um lenço na mão e trazia os olhos avermelhados, mas mostrava-se controlada; sabia que, quando voltasse a ver o marido, teria de se apresentar confiante, positiva, cheia de energia, e essa noção dava-lhe força para domar a angústia que a assolava.
Sentiram um movimento na porta. Um homem calvo, de bata branca e óculos graduados, entrou na salinha e veio ter com eles. Beijou dona Graça nas duas faces e estendeu a mão a Tomás.
"Ricardo Gouveia", apresentou-se. "Como está?"
Era o médico do pai.
“Olá, doutor. Sou o filho do professor Noronha."
"Ah, o aventureiro!", sorriu o médico. "Os seus pais falam muito de si, sabia?"
"Ah, sim? E o que lhe contam?"
Gouveia piscou o olho.
"Nunca ouviu dizer que as conversas dos pacientes com os seus médicos são confidenciais?"
O médico fez-lhes sinal para o seguirem e levou-os para um pequeno gabinete, dominado por um boneco humano em tamanho natural com as entranhas à mostra. Indicou-lhes que se sentassem diante da secretária e ele próprio acomodou-se no seu lugar. Folheou uns papéis, levando alguns minutos a encarar os olhares ansiosos que o perscrutavam. Parecia estar a tentar ganhar tempo, mas acabou por levantar a cabeça.
"Lamento dizer, mas não há grandes alterações no estado do seu marido", disse Gouveia, virando-se para dona Graça. "Ele continua como aqui entrou ontem. A única coisa que se pode acrescentar é que parece estabilizado."
"E isso é bom?", perguntou ela, muito nervosa.
"Bem... uh... pelo menos, não é mau."
"O Manei consegue respirar, doutor?"
"Com dificuldade", retorquiu o médico. "Estamos a administrar-lhe oxigênio e medicamentos que dilatam as vias respiratórias, de modo a aliviar o problema, mas as dificuldades persistem."
"Ai, Virgem Santíssima", afligiu-se dona Graça, angustiada. "Ele está a sofrer muito, é?"
"Não, isso não."
"Diga-me a verdade, por favor."
"Não está em sofrimento, asseguro-lhe. Ele entrou aqui ontem com dores, de modo que lhe demos um narcótico forte e isso aliviou-o bastante."
Dona Graça mordeu o lábio inferior.
"O senhor doutor acha mesmo que ele não se safa desta, não é?"
Gouveia suspirou.
"O seu marido tem uma doença muito grave, dona Graça. É preciso não esquecer isso. Eu, no seu caso, e como já lhe disse ontem, preparar-me-ia para o pior." Torceu a boca. "Em todo o caso, não é impossível que ele melhore. Há muitas histórias de situações dramáticas que, no último instante, se inverteram. Quem sabe se isso poderá também ocorrer agora? Mas, de qualquer modo, parece-me que é preciso encarar esta situação com realismo e com serenidade." Esboçou uma expressão resignada. "A vida é feita disto, não é? Às vezes temos de aceitar as coisas, mesmo quando isso nos é muito difícil."
Tomás, que até aí se mantivera calado, revolveu-se na cadeira, intranquilo.
"O doutor, será que me pode explicar o que se passa exatamente com o meu pai?"
"O seu pai tem um carcinoma de células escamosas, em fase quatro", devolveu o médico, visivelmente aliviado por poder entrar nas explicações técnicas, terreno onde se sentia mais à vontade.
"Isso é um cancro do pulmão, não é?"
"É um cancro do pulmão que já se alastrou por todo o corpo. Ele tem metástases no cérebro, nos ossos e, agora, também no fígado."
"Isso não tem cura?"
O médico abanou a cabeça.
"Receio bem que não."
"E tratamento?"
"No estado em que o seu pai se encontra, não me parece haver tratamento. Normalmente este tipo de cancro tem de ser lidado com uma cirurgia, mas não quando ele se encontra na fase quatro, em que já se espalhou por toda a parte. Quando o caso se torna inoperável, voltamo-nos para a radioterapia, que é o que o seu pai tem feito nestes últimos tempos."
"E qual o objetivo da radioterapia? Curá-lo?"
"Não. Como já lhe disse, não vejo hipóteses de cura." Fez um gesto vago para cima. "A não ser que haja intervenção divina, claro. Por vezes acontecem milagres..."
"Então para que serve a radioterapia? Apenas para ganhar tempo?"
"Sim, ela apenas consegue retardar a evolução da doença. Além disso, serve igualmente para controlar a dor de ossos." Levantou-se e indicou dois pontos no boneco de plástico em tamanho natural que se encontrava ao lado da secretária. "Por outro lado, alivia aqui a síndroma da veia cava superior e a compressão da espinal medula." Voltou a sentar-se. "Claro que a radioterapia tem os seus inconvenientes, não é? Um deles é o de inflamar os pulmões, o que provoca tosse, febre e dispnéia."
"Dis... quê?"
"Dispnéia. Dificuldade em respirar."
"Ah, é? E como é que lidam com esses efeitos?"
"Administramos uns medicamentos chamados corticosteróides, como a prednisona, que aliviam os sintomas."
"E quanto tempo mais se consegue prolongar a vida de alguém nesta situação?"
O médico esboçou uma expressão indecisa.
"Bem... uh... isso depende dos casos, não é? Há quem dure mais, há quem resista menos. É difícil dizer..."
"Mas qual é a média?"
Gouveia estreitou os lábios, pensativo.
"Olhe, eu diria que a sobrevivência ao fim de cinco anos é inferior a uns dez por cento. Talvez ande mesmo na roda dos cinco por cento."
"Puxa", murmurou Tomás, atônito. "Tão pouco?"
"Sim." O médico esfregou o queixo. "E o pior é que o cancro do pulmão é uma neoplasia muito frequente, sabia? E a principal causa de morte por cancro. Uma em cada três pessoas que morre de cancro, morre por causa do cancro do pulmão."
"Ah, sim? Mas qual é a causa?"
Gouveia encolheu os ombros.
"Ora, o que havia de ser? O tabaco, claro."
"O meu pai fumava muito, de fato", assentiu Tomás, os olhos mergulhados nas memórias da infância. "Lembro-me de o ver no escritório, às voltas com as suas equações e no meio de uma nuvem de fumo. Caramba, nem sei como é que ele conseguia respirar."
"Isso paga-se", observou o médico. "Pouca gente sabe, mas quase noventa por cento dos casos de cancro de pulmão são provocados pelo tabaco. Os fumadores têm um risco de contrair este cancro catorze vezes superior ao dos não fumadores. Catorze vezes."
Tomás suspirou.
"Sim, está bem", desabafou com um esgar levemente irritado. "A última coisa que precisamos agora é de uma lição de moral sobre os malefícios do tabaco, não acha? O que está feito, está feito."
"Desculpe", disse o médico, preocupado com a possibilidade de ter ido longe de mais. "Estava só a responder às suas perguntas."
"Com certeza."
Dona Graça remexeu-se no seu lugar, agitada.
"Ó doutor Gouveia, não há hipóteses de vermos o meu marido?"
O médico ergueu-se do seu lugar, dando a reunião por concluída.
"Claro que sim, dona Graça", disse, solícito. "A enfermeira virá chamar-vos quando for a altura, está bem?"
"E quando será isso?"
"Quando ele acordar."
A enfermeira entrou de rompante na salinha de espera. Ostentava ao peito, sobre a bata branca, uma plaquinha a anunciar que se chamava Berta e tinha um aspecto despachado, todo ele profissional. Fez-lhes um sinal apressado.
"Façam favor", disse. "Ele já acordou."
"Podemos vê-lo?"
"Claro. Façam o favor de me seguir."
Caminharam pelo corredor, tentando acompanhar o passo rápido da enfermeira Berta. Tomás adiantou-se um pouco e conseguiu colocar-se ao lado dela.
"Como está ele?"
"Acabou de acordar. Está consciente."
"Sim, mas o que eu queria saber é como ele se sente..."
A enfermeira olhou-o de soslaio.
"Está... enfim... não está bem, não é? Mas não tem dores nem nada."
"Ao menos isso."
Berta deu mais uns passos apressados, sempre com ar muito profissional, mas acabou por voltar a mirar Tomás.
"Ouça, ele encontra-se muito fraco e muito cansado" disse, a voz mais distendida. "Vocês não devem abusar muito, entendeu?"
"Sim."
"Ele parece-me ter entrado numa fase de aceitação."
"Aceitação?"
"Sim, aceitação da morte. Em geral só os pacientes de mais idade atingem esta fase quando se encontram num estado terminal. Os mais novos têm muita dificuldade em aceitar a morte, é uma coisa terrível. Mas alguns dos mais velhos, quando são pessoas emocionalmente maduras e têm a sensação de que a sua vida teve um propósito, parecem aceitar melhor as coisas."
"Está-me a dizer que o meu pai já aceitou a morte, é?"
"Sim, embora continue agarrado à vida, claro. Não está na natureza humana a ideia de aceitar a morte assim sem mais nem menos. Ele mantém a esperança de que alguma coisa aconteça, alguma coisa que lhe melhore a condição e o faça viver. Mas, por outro lado, é uma pessoa que acha que cumpriu a sua missão, que a sua vida teve um sentido, e isso ajuda-o a enfrentar esta situação. Além disso, tem a noção de que as coisas têm o seu tempo e aceita o fato de que o seu está a expirar."
"Nada na vida é permanente, não é? Tudo é transitório."
"Exato", concordou a enfermeira. "Mas isso é mais fácil de dizer quando se está de saúde do que de sentir quando se está doente. Quando nos encontramos de saúde podemos dizer tudo, até as maiores barbaridades. Mas é preciso estar ali onde ele está, mesmo às portas da morte, para se perceber como as coisas são."
"Imagino."
"Não imagina, não", sorriu ela sem humor. "Mas um dia, quando também ali estiver, daqui a muitos anos, quando a morte deixar de ser uma abstracção para se tornar uma realidade mesmo ao virar da esquina, nesse dia o senhor vai perceber."
Um murmúrio baixo rumorejava pela enfermaria. Atravessaram o corredor em silêncio, procurando respeitar a privacidade dos pacientes, e chegaram à zona dos quartos individuais. Berta levou-os até uma porta e, sem mais palavras, abriu-a com cuidado e fez sinal para os dois visitantes entrarem. Tomás deixou a mãe passar primeiro e seguiu atrás, quase suspendendo a respiração.
Quando viu o pai teve vontade de chorar.
Manuel Noronha estava quase irreconhecível. Apresentava-se muito magro, a pele enrugada e chupada, imensamente pálida, quase sem carnes, apenas ossos; o cabelo branco encontrava-se desalinhado sobre a almofada e os olhos mostravam-se mortiços, embora tivessem faiscado momentaneamente quando reconheceram a mulher e o filho.
Dona Graça beijou-o e sorriu, sorriu com tal confiança que Tomás não pôde deixar de admirar a força interior da mãe; vira-a destroçada fora daquele quarto, mas ali dentro, diante do marido moribundo, respirava segurança e tranquilidade. A mulher fez-lhe algumas perguntas sobre o seu estado e as suas necessidades, às quais ele respondeu com uma voz muito sumida. Depois, com a arte de um Pai Natal de hospital, ela abriu um cestinho de vime, que trouxera discretamente debaixo do xale, e retirou do interior um queijo redondo, era um Rabaçal cujo aspecto fazia crescer água na boca, mais uma broa de trigo e amêndoas. Tomás reconheceu nestas pequenas delícias as perdições gastronômicas do pai. Dona Graça serviu-as à boca do marido, muito terna e protetora, turturilhando palavras meigas.
Quando ele acabou de comer, a mulher limpou-lhe a boca, ajeitou-lhe o cabelo e os cobertores e compôs-lhe o colarinho do pijama, sempre muito maternal, a sua presença impondo uma plácida tranquilidade, era como a mãe a aconchegar o recém-nascido no berço. Olhando-os ali, o pai deitado e desprotegido, a mãe inclinada sobre ele a tratá-lo e a consolá-lo, Tomás comoveu-se com a invisível ligação que os unia.
Viveram cinquenta anos juntos, partilharam sabores e dissabores, dias soalheiros e noites
sombrias, e tornava-se dolorosamente evidente que desfrutavam agora dos derradeiros momentos a dois, o caminho iria em breve apartá-los como o horizonte separa o céu da terra. Envolvia-os um amor maduro, não já feito de paixão nem de arrebatamento, mas de afetos carinhosos, de sentimentos vividos, de uma ligação profunda. Ela era a árvore, ele a folha, ela o sol, ele a praia, ela a abelha, ele o pólen; eram a luz e a cor, a terra e o céu, o lago e o nenúfar, o mar e a areia, a gaivota e o ovo. O filho não os conseguia imaginar separados, e, no entanto, o inimaginável preparava-se para acontecer.
Ao senti-los enfim serenar, Tomás aproximou-se da cama, pegou na mão fraca e fria do pai e forçou um sorriso.
"Que grande chatice, hã?"
O velho esboçou um sorriso tênue.
"Pareço um bebê."
"Ah, sim? Um bebê? Porquê?"
O velho fez um gesto lento que abarcou toda a cama onde se encontrava deitado.
"Então não vês? Já não consigo fazer nada."
"Disparate."
"Dão-me de comer. Vestem-me. Até o rabo me limpam."
"É só agora. Depois, quando ficar melhor, já trata de si outra vez, vai ver."
O pai fez um gesto impotente.
"Quando ficar melhor? Eu não vou ficar melhor..."
"Disparate. Claro que vai."
"Pareço um bebê", repetiu, sempre com uma voz muito débil, quase apenas soprada. "Até já durmo como um bebê."
"É para recuperar forças."
"Durmo que me farto. É como se tivesse retornado à infância. É a infância ao contrário."
"Veja lá se é a hora de tomar o biberão", brincou Tomás.
O velho matemático sorriu levemente. Mas logo os olhos assumiram uma expressão interrogativa.
"Como será a morte?"
"Ó Manel, não fales nisso, credo", cortou de imediato a mulher, com ar reprovador. "Olha para o que lhe havia de dar!"
"A sério", insistiu o moribundo. "Interrogo-me sobre o que me espera."
"Cala-te lá com essa conversa. Quem te ouvir até parece que... que..."
"Ó Gracinha, deixa-me falar sobre isto, está bem? É importante para mim, não percebes?"
A mulher fez um ar resignado e Manuel Noronha encarou o filho.
"Nos últimos meses tive sempre dificuldade em adormecer", murmurou o velho professor, a voz reduzida quase a um fio. "Punha-me a dar voltas na cama, a pensar no que será a morte, no que será a não-existência. Uma coisa horrível, hem? E todos vamos enfrentar isso, não é?" Fez uma pausa, os olhos perdidos num ponto indefinido do teto. "Mais cedo ou mais tarde é esse o nosso destino."
"Lá isso é", observou Tomás.
“É por isso que eu penso: como será a morte?" Respirou fundo. "Será igual ao que era a não-existência antes do nascimento? Será que a vida começa com um Big Bang e acaba com um Big Crunch?" Torceu os lábios. "Nascemos, crescemos, atingimos o apogeu, definhamos e morremos." Fitou o filho com intensidade. "Será que é só isso? Será que a vida se resume a isso?"
"O pai pensa muito na morte?"
O velho curvou a boca.
"Penso um pouco, sim. Quem, estando onde eu estou, não pensa? Mas, talvez, mais do que na morte, penso na vida."
"Em que sentido?"
"Umas vezes penso que a vida não tem valor, é uma coisa insignificante. Eu vou morrer e a humanidade não sentirá a minha falta. A humanidade vai morrer e o universo não sentirá a sua falta. O universo vai morrer e a eternidade não sentirá a sua falta. Não passamos de uma irrelevância, simples poeira que se perde no tempo." Inclinou a cabeça. "Mas, outras vezes, penso que, afinal, todos nascemos com uma missão, todos desempenhamos um papel, todos fazemos parte de um grande esquema. Pode ser um papel minúsculo, pode parecer uma missão irrisória, talvez até a consideremos uma vida perdida, mas, feitas as contas, quem sabe se coisa tão minúscula se poderá revelar uma migalha crucial para a concepção do grande bolo cósmico." Arfou, cansado. "Somos minúsculas borboletas cujo frágil bater de asas tem talvez o estranho poder de gerar longínquas tempestades no universo."
Tomás ponderou estas palavras. Estendeu o braço e apertou a mão fria do pai.
"O pai acha que alguma vez poderemos desvendar o mistério de tudo?"
"De tudo, o quê?"
"Da vida, da existência, do universo, de Deus. De tudo."
Manuel suspirou, a fadiga tomando conta do rosto, os olhos a começarem a pesar-lhe.
"O Augusto tinha uma resposta para isso."
"Qual Augusto? O professor Siza?"
"Sim."
"E qual era a resposta dele?"
"Era um aforismo de Lao Tzu." Fez uma pausa, para recuperar o fôlego. "Foi um amigo tibetano que lhe ensinou, há muito tempo." Fez um esforço para se concentrar. "Deixa cá ver se..."
A enfermeira Berta entrou no quarto.
"Pronto, já chega", disse ela, agitando os braços. "Parem lá com a conversa. Agora deixem o senhor professor descansar."
"Um momento", pediu Tomás. "Que aforismo era esse?"
O pai pigarreou, estreitou os olhos e lembrou-se.
"No fim do silêncio está a resposta", recitou. "No fim dos nossos dias está a morte. No fim da nossa vida, um novo início."
O telemóvel tocou quando saíam do hospital, a mãe enxugando as lágrimas que teimavam em marejar-lhe os olhos.
"Hi, Tomás", saudou a voz do outro lado.
Era Greg.
"Então?", disse Tomás, evitando cumprimentar o americano. "Já espancaram a Ariana? Ela disse-vos o que vocês queriam saber?"
"Come on, Tomás. Não seja assim."
"Foi à bofetada ou foi com choques elétricos?"
"Tomás, não foi nada disso. Nós não somos uns selvagens."
"Ah, não? Então o que andaram vocês a fazer nas cadeias iraquianas?"
"Uh... isso é diferente."
"E em Guantánamo?"
"Isso é diferente."
"Diferente em quê?" perguntou, um ressentimento gelado na voz. "Uns são iraquianos, outros são afegãos, ela é iraniana. Não é tudo igual para vocês?"
"Come on, pai. Não seja assim..."
"Eu não sou assim. Vocês é que são."
"Você está a ser injusto."
"Ah, estou? Então o que está a Ariana a fazer na vossa embaixada?"
"Ouça, nós tivemos de a interrogar", justificou-se Greg. "Não vê como isso é importante para nós? Ela está ligada ao projeto nuclear iraniano e, quer queiramos quer não, tem conhecimentos muito valiosos. Não podíamos deixar passar esta oportunidade. Afinal de contas, está em causa a segurança nacional, que diabo! Como é evidente, tínhamos de a interrogar."
"O interrogatório deixou-lhe marcas físicas?"
"O interrogatório foi civilizado, fique descansado."
"Civilizado? Depende do seu padrão..."
"Não acredita? Pois, olhe, posso-lhe dizer que não arrancamos nada que não soubéssemos."
"Bem feito."
"O pessoal de Langley está muito irritado com ela."
"Ainda bem, fico contente em saber isso."
Greg fez com a língua um estalido agastado.
"Ouça, Tomás, o caso não é para brincadeiras, ouviu? Recebi agora ordens de Langley em relação a ela e é por isso que lhe estou a telefonar."
"Ordens? Que ordens?"
"Eles mandaram repatriá-la."
"O quê?"
"Langley disse que, uma vez que ela não coopera, o melhor é mandá-la de volta para os iranianos."
"Vocês estão loucos?"
"Hmm?"
"Vocês não podem fazer isso, ouviu?"
"Ah, não? Porquê?"
"Porque... porque eles matam-na."
"Os iranianos matam-na?"
"Claro. Não vê que ela me ajudou?"
"E o que temos nós a ver com isso?"
"Eles pensam agora que ela se passou para a CIA. Aquela gente é paranóica, o que julga você?"
"Vou repetir a minha pergunta", disse Greg. "O que temos nós a ver com isso?"
"Bem... se vocês a mandam de volta, estão a enviá-la para a morte."
"E depois? Que eu saiba, não temos nada a agradecer-lhe, pois não? Afinal de contas, ela não nos ajudou. Por que razão haveríamos nós de estar preocupados com o que se passa entre ela e o regime que ela tenta estupidamente proteger?"
"Ela não tenta proteger regime nenhum. Ela tenta é não trair o seu país, só isso. Nada mais natural, não acha?"
"Muito bem. Então também é natural que nós a repatriemos se ela não nos ajuda. Não acha isso igualmente natural?"
"Não, não acho", vociferou Tomás, elevando o nível de voz pela primeira vez. "Acho um crime. Se vocês fizerem isso, não passam de uns bandidos. Uns gangsters da pior espécie."
"Come on, Tomás. Não seja exagerado."
"Eu? Exagerado? Então vocês comprometem-se a protegê-la dos iranianos e depois fazem-me um número destes? Não só a sequestraram quando chegamos a Lisboa como agora a querem entregar aos mesmos iranianos de quem se comprometeram a protegê-la. Que nome dão vocês a uma sujeira destas?"
"Ouça, Tomás. Nós assumimos o compromisso de a proteger em troca da revelação do segredo encerrado no manuscrito de Einstein. Que eu saiba você ainda não nos revelou esse segredo, pois não?"
"Já vos revelei o essencial."
"Então qual é a fórmula de Deus?"
"Essa é a única coisa que não desvendei ainda. Mas já lhe disse que estou à beira de o fazer."
"Isso é conversa. O fato é que ainda não nos revelou nada e o tempo está a esgotar-se."
"Dêem-me mais alguns dias."
Fez-se um curto e embaraçado silêncio.
"Não pode ser", disse Greg por fim. "Um avião da CIA vai partir esta noite da base aérea de Kelly, no Texas, em direção a Lisboa. Chega cá amanhã de madrugada. Pouco depois das oito da manhã, o aparelho seguirá para Islamabad, no Paquistão, onde a sua amiga será entregue aos iranianos."
"Vocês não podem fazer isso!", rugiu Tomás, quase descontrolado.
"Tomás, esta não foi uma decisão minha. É uma decisão de Langley e começou já a ser executada. Tenho aqui uma mensagem que diz que as ordens já foram emitidas para o Joint Command and Control Warfare Center, em Kelly AFB."
"Isso é um crime."
"Isto é política", retorquiu Greg num tom sereno. "Preste atenção, Tomás, porque ainda há uma maneira de parar isto. Você tem até amanhã às oito da manhã para me entregar o segredo do manuscrito, ouviu? Se não me der o segredo dentro desse prazo, não conseguirei travar o repatriamento da sua amiga. Entendeu isso?"
"Amanhã, às oito da manhã? Mas como quer você que eu desvende tudo em tão pouco tempo? Isso é impossível!"
"Você é que é o profissional."
"Ouça, Greg, vocês têm de me dar mais tempo."
"Você ainda não entendeu, Tomás. Esta decisão não é minha. Foi tomada em Langley e é irreversível. Eu estou apenas a dizer-lhe qual a maneira de travar este processo, mais nada. Se você nos revelar o segredo, então ficamos automaticamente obrigados a cumprir os termos do acordo que fizemos ao telefone quando você estava em Lhasa. Enquanto não cumprir integralmente a sua parte, nós entendemos que não somos obrigados a cumprir integralmente a nossa parte. Percebe?"
"Vocês não podem fazer isso."
"Tomás, não vale a pena estar a discutir comigo. Isso não vai alterar nada porque não sou eu quem tem o poder de decisão."
"Mas você tem de convencer os tipos lá em Langley a darem-me mais tempo."
"Tomás..."
"Já são cinco da tarde e só tenho quinze horas."
"Tomás..."
"É muito pouco para eu desvendar tudo."
"Damn it, Tomás!", gritou Greg, já para lá do limite da paciência. "Você é burro ou quê?"
Tomás congelou ao telefone, espantado com a fúria repentina do americano.
"Estou-lhe a dizer que está tudo fora do meu controle", berrou o americano, exaltando-se pela primeira vez. "As decisões não foram tomadas por mim. Nada depende de mim. Nada. Existe apenas uma coisa que pode travar o repatriamento da sua amiga. Uma e uma só. Desvende o fucking segredo."
O português manteve-se silencioso em linha.
"Tem até às oito da manhã de amanhã."
E desligou.
XXXVII
O Pátio das Escolas apresentava-se calmo àquela hora tardia do dia, via-se apenas um grupo de estudantes a subir a larga escadaria em direcção à Via Latina e dois funcionários a tagarelarem na base da elegante torre sineira. Depois de atravessar a velha Porta Férrea, Tomás abrandou o passo e, apesar da angústia que o oprimia, não pôde deixar de admirar aquele misto de fachadas sóbrias e exuberantes, carregadas de história, afinal concentravam-se ali setecentos anos de ensino. Nos primórdios aquele foi o paço real, o sítio onde nasceram e viveram muitos dos reis da primeira dinastia, mas o local tornou-se há séculos o coração da academia onde o pai lecionava, a Universidade de Coimbra.
O conjunto de edifícios encontrava-se disposto em U, com um desleixado chão de gravilha a separar os espaços. Tomás cruzou o pátio e dirigiu-se ao edifício da ponta, estacando diante da magnífica entrada; a porta apresentava-se encaixada num espetacular arco do triunfo, o topo coroado com as armas de Portugal. Sabia bem que aquele bloco retangular, com um aspecto exterior um pouco austero, era uma das mais belas bibliotecas do mundo.
A Biblioteca Joanina.
Ao entrar naquele monumento com quase três séculos sentiu o cheiro do couro que encadernava os manuscritos exalar das paredes ricamente decoradas, misturado com o travo adocicado do papel velho. Diante de si estendiam-se três salões, separados por arcos decorados ao estilo do imponente portal de entrada. A biblioteca dormia à meia-luz, um lugar de sombras e de silêncios. Todo o interior do edifício apresentava-se coberto de prateleiras, viam-se filas e filas de lombadas divididas em dois andares, as prateleiras construídas em belas madeiras, os tetos pintados a misturarem-se harmoniosamente com os dourados e avermelhados da decoração, era sem dúvida ali dentro que o barroco atingia o auge do seu esplendor.
"Professor Noronha."
Olhou para a esquerda, na direção de onde viera a voz, e observou Luís Rocha surgir de um cubículo e dirigir-se a si, sorridente. Fez um esforço para sorrir, embora a tentativa não se revelasse bem sucedida; os lábios ainda se curvaram, mas os olhos permaneceram tristes e pesados, carregados de preocupação.
"Como está, professor Rocha?", cumprimentou Tomás, estendendo o braço.
Apertaram as mãos.
"Bem-vindo ao meu recanto favorito aqui em Coimbra", exclamou Luís. Fez um gesto que abarcou toda a biblioteca, incluindo as inúmeras obras suntuosamente forradas nas estantes. "Cem mil livros nos rodeiam."
"Ah, muito bem", disse o historiador de ar ausente, não se sentia com disposição para apreciar os tesouros que o rodeavam. "Ouça, agradeço-lhe a prontidão com que aceitou falar comigo."
"Ora essa, não tem de agradecer", devolveu o físico com um gesto descontraído. "Mas, então,
que coisa é essa de vida ou de morte de que me falou há pouco, hã? Devo dizer que você me pareceu muito ansioso ao telefone..."
Tomás suspirou.
"Nem me fale", murmurou, rolando os olhos. "Só o senhor me pode ajudar, sabe?"
Luís Rocha fez uma expressão intrigada.
"Então? O que se passa?"
"Olhe, estou metido numa confusão que começou há alguns meses aqui em Coimbra e que, de certo modo, o envolve a si também."
"Não me diga..."
"Sim, sim", assentiu Tomás. "É uma longa história, não vale a pena estarmos aqui a perder tempo com ela. O que interessa é que tudo começou com um acontecimento testemunhado por si."
"Por mim?"
"O desaparecimento do professor Siza."
Ao ouvir o nome do seu mestre, o jovem físico pareceu estremecer.
"Ah!", exclamou, hesitante. "Estou a perceber." Fez um sinal com a cabeça e a expressão tornou-se subitamente grave. "Ande, venha daí."
Luís levou Tomás para o segundo salão e conduziu-o até uma enorme mesa de madeira exótica escura instalada numa das alas. Pouca gente frequentava a biblioteca àquela hora, pelo que ambos se encontravam à vontade; viam-se apenas dois visitantes a admirar as prateleiras do terceiro salão e um funcionário a limpar lombadas no primeiro andar do segundo salão.
Luís acomodou-se no seu assento e cruzou as pernas.
"Então diga lá, professor", começou. "O que se passa?"
"Acabei de chegar do Tibete, onde me encontrei com um monge budista chamado Tenzing Thubten." Ergueu a sobrancelha, inquisidor. "Este nome é-lhe familiar, presumo..."
O físico tentou disfarçar, mas o esforço traiu-o. Era evidente que conhecia Tenzing.
"Uh... bem... sim", gaguejou, percebendo que fora apanhado. "E então?"
Tomás endireitou-se na cadeira.
"Ouça, professor Rocha, talvez seja melhor deixarmo-nos de rodeios", disse, baixando o tom de voz e falando muito depressa. "Eu fui há algum tempo contactado para decifrar um texto enigmático agora descoberto, da autoria de Albert Einstein. O texto chama-se A Fórmula de Deus e, como deve muito bem saber, encontrava-se na posse do professor Siza e foi roubado na mesma ocasião em que o professor desapareceu. O que o senhor decerto não sabe é que eu acabei por localizá-lo, por portas e travessas, em Teerã."
Luís arregalou os olhos, surpreendido.
"Em Teerã?"
"Sim."
"Mas... mas como?"
"Não interessa. O que interessa é que o localizei."
"Mas isso é fantástico", exclamou Luís. "Não se apercebe disso? Esse manuscrito desapareceu com o professor Siza. Ora, se o documento foi agora encontrado em Teerã, é possível que nos dê uma pista sobre o paradeiro do professor, não vê?"
"Deixe-me acabar, por favor", pediu Tomás, a voz carregada de paciência.
"Com certeza. Diga."
Tomás reorganizou os pensamentos.
"Ora bem, toda a investigação acabou por me conduzir ao Tibete, onde encontrei Tenzing Thubten, o qual, pelo que você me deixou entender há instantes, é alguém que lhe é muito familiar."
"Só de reputação", esclareceu o físico. "Só de reputação. O professor Siza falava muito dele, sabe? Chamava-lhe o Budazinho."
Tomás sorriu levemente.
"O Budazinho, hem? É bem apanhado, sim senhor." Desfez o sorriso e retomou a narrativa. "Pois Tenzing contou-me uma história muito interessante, passada em 1951, em Princeton, envolvendo Einstein, o professor Siza e ele próprio. Tenzing revelou-me o segredo por detrás d'A Fórmula de Deus, com excepção da fórmula em si, que permanece cifrada, e disse-me ter sido contactado há pouco tempo pelo professor Siza com a informação de que tinha descoberto uma segunda via que demonstrava a existência de Deus. Pelos vistos, essa era uma condição imposta por Einstein para que se divulgasse o manuscrito. Ao que parece, o professor Siza planeava fazer um anúncio público, destinado a revelar a existência desse manuscrito e a tornar pública a segunda via por ele descoberta."
Tomás fez uma pausa e inclinou a cabeça, inquisitivo, o que pareceu atrapalhar o seu interlocutor.
"Hmm", murmurou Luís, empenhado em nada revelar.
"Então? Esta história bate certo?"
"Uh... não lhe posso dizer nada."
"Não me pode dizer nada?"
"Não, não posso."
"Mas você era colaborador do professor Siza. Tem a obrigação de saber o que se passava."
Luís Rocha fez um gesto irritado.
"Ouça, as investigações do professor Siza pertencem ao professor Siza. Só ele pode falar sobre o que descobriu."
"Tanto quanto eu sei, era o que ele planejava fazer, não era?"
"Não lhe posso dizer nada."
"Era o que ele planejava fazer até ser raptado por agentes do Hezbollah a mando do Irã."
O físico hesitou.
"Agentes do quê?", admirou-se. "Que história é essa?"
"É uma história muito complicada, professor Rocha. Pelos vistos, o seu mentor fez declarações ambíguas e imprudentes num simpósio internacional, declarações escutadas por ouvidos indiscretos e não inteiramente compreendidas. Ao que parece, as palavras do professor Siza foram interpretadas como referindo-se a uma fórmula de Einstein sobre a produção de uma arma nuclear simples e barata e foi esse equívoco que conduziu ao seu rapto."
Luís Rocha olhou-o de modo estranho.
"Mas como diabo sabe você tudo isso?"
"Digamos que... uh... que eu tenho estado envolvido nos esforços para localizar o professor Siza. Já lhe tinha falado sobre isso quando nos encontramos, lembra-se?"
"Sim, mas não sabia que já tinha sido apurada tanta coisa sobre o desaparecimento do professor.
Ele foi raptado e levado para o Irã por causa do manuscrito de Einstein, diz você?"
"Sim."
"Tem a certeza?"
"Absoluta."
"Mas que coisa tão... tão extraordinária!" Abanou a cabeça, como se tentasse despertar. "Isso não lembra a ninguém!"
"Pois não, mas aconteceu."
"É incrível!"
Tomás inclinou-se na sua cadeira, ansioso por obter a informação que desesperadamente procurava.
"Ouça, professor Rocha", disse. "Qual era a segunda via descoberta pelo professor Siza?"
O físico digeria ainda a revelação que acabara de lhe ser feita e olhou-o de forma embaraçada.
"Desculpe... uh... mas teremos de esperar que... que o professor Siza seja libertado para podermos falar sobre isso. Como compreende, trata-se de uma investigação conduzida por ele e eu... enfim, eu não posso divulgar nada, não é? Tenho um dever de lealdade e de confidencialidade. De qualquer modo, parece-me que é importante..."
"Professor Rocha."
"... começarmos a mexer-nos no sentido de obter esclarecimentos sobre o paradeiro do professor Siza e..."
"Professor Rocha."
"... desfazer este estúpido equívoco."
Tomás cravou os olhos no seu atarantado interlocutor.
"Professor Rocha, eu tenho uma péssima notícia para lhe dar."
"Sim?"
"O professor Siza morreu."
Fez-se um breve silêncio estarrecido.
"Como?"
"O professor Siza morreu no cativeiro. Os iranianos estavam a interrogá-lo quando ele faleceu." Baixou a cabeça, constrangido por ser o portador da notícia. "Lamento muito."
Luís Rocha entreabriu os lábios, chocado. Pôs a mão à frente da boca e, de olhos muito arregalados, contemplou as consequências da revelação que lhe acabara de ser feita.
"Mas que... que notícia... que coisa tão absurda", balbuciou. "Como é que foi isso?"
"Morreu num interrogatório."
"Que horror! E quando é que... enfim, quando é que será feito o anúncio disso... dessa notícia?"
"Não há anúncio nenhum a fazer", disse Tomás. "Esta informação, embora verdadeira, não é oficial. Os iranianos jamais reconhecerão terem raptado o professor Siza, e muito menos que ele morreu nas suas mãos. Como é óbvio, nada vão dizer. O que se vai passar é que o professor Siza nunca mais irá aparecer, percebeu?"
O físico balançou afirmativamente a cabeça, ainda tentando assimilar a informação.
"Mas que mundo!"
Tomás deixou-o mais um minuto a digerir a notícia da morte do seu mestre.
"Ouça, professor", começou por dizer. "A vida de uma segunda pessoa está em risco neste momento por causa do mesmo manuscrito e do mesmo equívoco. Salvá-la ou não depende de uma informação crucial que eu preciso de obter. Só o senhor me pode ajudar."
Luís Rocha, já mais recomposto, devolveu-lhe o olhar perscrutador.
"Diga..."
"Eu preciso de saber qual é a segunda via descoberta pelo professor Siza. O senhor conhece-a?"
"Claro que conheço", devolveu o físico muito depressa, quase ofendido com a pergunta. "Eu e o professor Siza não temos feito outra coisa nestes últimos anos senão trabalhar nela."
"Então será que me pode explicar?"
"Bem, isso... uh.... enfim, é uma investigação liderada pelo professor Siza e..."
"O professor Siza morreu, não entende?", cortou Tomás, já impaciente. "E eu preciso de conhecer essa segunda via para impedir que uma outra pessoa morra pelos mesmos motivos."
Luís Rocha hesitou de novo.
"Mas o senhor não acha que é pouco curial eu estar a divulgar agora a investigação do professor Siza?"
"Ouça, o professor Siza morreu", insistiu Tomás, juntando toda a paciência que era capaz de reunir dentro de si. "Nada disso interessa agora, percebe? Nada o impede a si de publicar um artigo numa revista científica ou mesmo um livro com todos os pormenores da descoberta da segunda via, mais os detalhes do manuscrito de Einstein. O professor Siza já cá não está para fazer esse anúncio público, anúncio que, deixe-me lembrar, ele próprio planeava fazer."
"Você acha que eu devo divulgar isso, é?"
"Então não há-de divulgar? Uma descoberta dessas é... é uma coisa sensacional, não pode permanecer eternamente em segredo. Claro que tem de divulgar. Se até era isso o que o professor Siza tencionava fazer, parece-me evidente que o seu dever é o de executar a sua vontade."
O físico ponderou o argumento.
"É", acabou por dizer. "Você é capaz de ter razão."
"Claro que tenho. Bem-vistas as coisas, essa era até uma justa homenagem que você prestava ao seu mestre. O texto que vier a elaborar pode ser de co-autoria, sei lá. Aliás, é isso que faz sentido, não é?"
"Sim, tem razão", disse Luís Rocha, a voz mais firme e decidida. "É isso, vou divulgar tudo."
Tomás suspirou, aliviado com esta pequena vitória, mas não largou o seu interlocutor.
“Antes que você faça o que quer que seja, no entanto, preciso que me explique a mim essa vossa segunda via. Como lhe disse, a vida de uma outra pessoa depende dessa informação."
Luís Rocha ergueu-se bruscamente da cadeira.
"Muito bem", exclamou. "Vamos a isso."
Tomás olhou-o, surpreendido por vê-lo assim de pé.
"Onde vai?"
O físico deu meia-volta e afastou-se, lançando um derradeiro olhar para trás.
"Vou buscar dois cafés", disse. "Já venho."
XXXVIII
O aroma quente e perfumado invadiu a entrada da biblioteca logo que Luís Rocha apareceu com a bandeja. Chamou Tomás para o cubículo escondido à esquerda, logo depois da entrada, e convergiu apressadamente para o apertado compartimento com ar de quem estava a fazer uma tropelia. Pousou a bandeja numa mesinha e, logo que o visitante se acomodou naquele espaço estreito, pegou numa chávena fumegante, o vapor a emergir do líquido cremoso e encorpado, refletindo uma cor de noz levemente avermelhada, e sorriu.
"Sai um expresso", disse, estendendo a chávena a Tomás. "Quer açúcar?"
"Sim."
Tomás pegou num saquinho e despejou-o na chávena quente, mexendo o café logo a seguir.
"Se o director da biblioteca nos vê, mata-nos", comentou o físico com um riso baixo, depois de espreitar lá para fora para se assegurar de que não tinham sido vistos.
Tomás analisou o cubículo desarrumado onde se haviam escondido.
"É por isso que viemos para aqui, é?"
"Sim", confirmou o anfitrião, o ar conspirativo. "Neste cantinho estamos mais à vontade."
"Não era melhor irmos para uma esplanada lá fora?"
"Não, aqui escondidos estamos bem. Ninguém nos vai encontrar." Inalou o aroma que se desprendia com o vapor. "Sabe, a verdade é que não consigo passar sem um café nestas ocasiões. Não há nada melhor do que um expressozinho antes de uma conversa complexa. Ajuda-me a concentrar nas ideias."
"A nossa conversa vai ser complexa?"
"Entender o que tenho para dizer não será complexo", disse Luís. "O que é complexo é fazer com que tudo isto não pareça complexo, percebe?" Piscou o olho. "Isso é que é complexo!"
"A simplicidade é complexa."
"Mais do que as pessoas imaginam. Passei toda a investigação a engolir expressos, o que julga você? Era eu com os expressos e o professor Siza com um café frio que aprendeu a fazer em Itália, uma coisa gelada com natas batidas à superfície. Chamava-lhe granita di caffé."
"Isso é um café frappé, não é?"
"Sim, ele tinha a mania de beber aquela porcaria." Estremeceu. "No Inverno esse café frio fazia-me cá uma confusão... mas, enfim, gostos não se discutem, não é verdade?"
"É evidente."
Beberam um trago do expresso. Tinha um sabor forte, muito característico, com o líquido cremoso a deixar um agradável travo prolongado na boca.
Luís Rocha pousou a sua chávena na bandeja e concentrou-se no que tinha para dizer.
"Bem, vamos a isto", exclamou, preparando-se para começar. "Já percebi que o amigo tibetano do professor Siza lhe explicou o que se passou em Princeton em 1951, não é?"
"Sim, ele contou-me tudo."
"Portanto, você já sabe a história do primeiro-ministro de Israel, o desafio que ele fez a Einstein, a elaboração d'A Fórmula de Deus e o requisito de se arranjar uma segunda via científica antes de se tornar público o manuscrito. Nada disto é novidade para si, pois não?"
"Não. Tudo isso já eu sei."
"Muito bem", suspirou. "O que se passou foi que o professor Siza levou muito a peito o projeto de Einstein e resolveu dedicar a sua vida a tentar resolver esse mistério. Seria possível arranjar uma segunda via que provasse cientificamente a existência de Deus? Era esse, sem tirar nem pôr, o desafio que tinha diante de si."
"E como é que ele o enfrentou?"
"Bem, a primeira coisa que teve de fazer foi definir o objeto de estudo. O que é Deus? Quando falamos de Deus, estamos a falar exatamente do quê? Do Deus descrito pela Bíblia?"
"Suponho que sim..."
"Mas o Deus descrito pela Bíblia, como lhe expliquei há duas semanas, é absurdo." Ergueu-se e saiu do cubículo. Dirigiu-se a uma prateleira ali perto, pegou num enorme volume soberbamente encadernado e voltou ao esconderijo, sentando-se com a obra aberta no regaço. "Ora deixe cá ver", disse, folheando as páginas iniciais até localizar o trecho que procurava. "Aqui está. Logo no início do Antigo Testamento está escrito que Deus quis dar ao homem uma auxiliar e, então, fez o seguinte: «após ter formado da terra todos os animais dos campos e todas as aves dos céus, conduziu-os até junto do homem, a fim de verificar como ele os chamaria, para que todos os seres vivos fossem conhecidos pelos nomes que o homem lhes desse.» Depois a Bíblia acrescenta: «contudo, não encontrou para ele uma auxiliar adequada. Então, o Senhor Deus adormeceu profundamente o homem e, enquanto ele dormia, tirou-lhe uma das suas costelas, cujo lugar preencheu de carne. Da costela que retirara do homem, o Senhor Deus fez a mulher»." Ergueu a cabeça. "Não vê nada de estranho neste relato?"
Tomás encolheu os ombros.
"Quer dizer... uh... é um relato bíblico, não é?"
"Mas não é Deus que é suposto ser onisciente? Não saberia Ele de antemão que nenhum dos animais dava uma auxiliar adequada? Por que razão esteve Deus à espera de ver que nome dava o homem aos animais? Sendo omnisciente, não conseguiria Ele saber isso previamente?" Folheou mais umas páginas. "E agora repare aqui no que aconteceu quando Deus decidiu provocar o dilúvio:
«O Senhor arrependeu-Se de ter criado o homem sobre a terra»." Voltou a fixar Tomás nos olhos. "O Senhor arrependeu-se? Mais uma vez, não era Ele omnisciente? Não podia Ele ter visto antecipadamente que o homem se iria corromper? Sendo perfeito e todo-poderoso, não faria sentido que Deus tudo previsse em tempo útil? Que história é esta de Deus estar a emendar os Seus erros? Mas afinal Deus comete erros, é?"
"Pois..."
"Isto para não falar, claro, no velho paradoxo de Deus ser onipotente e bom, mas deixar que o mal grasse por toda a parte. Então se Ele é bom e tem poder de impor o bem, por que razão deixa que o mal exista? Se Ele é perfeito, por que razão fez o homem tão imperfeito?" Fechou o volume e pousou-o no chão. "Tudo isto deixou Einstein convencido de que Deus, a existir, não é o Deus da Bíblia. É uma entidade onisciente e inteligente, a força por detrás do universo, o grande arquiteto de tudo, mas não a figura antropomórfica, paternal e moral da Bíblia. Essa convicção de Einstein foi assimilada pelo professor Siza."
"Portanto, isso quer dizer que o professor não foi à procura do Deus da Bíblia..."
"Não, não foi. Aliás, ele sempre achou que o grande fracasso dos teólogos em demonstrar cientificamente a existência de Deus se deve à sua obsessão em exigir que essa demonstração envolva o Deus da Bíblia. Ora, o Deus da Bíblia contém demasiadas incoerências, não é crível que Ele exista. Deus não é uma figura protectora que passa a vida preocupado com o que os homens fazem. Esse Deus é uma criação humana, um conceito que inventamos para nos sentirmos mais seguros, mais protegidos, mais confortados. Diga lá se não é agradável ter um pai sempre a tutelar-nos?"
"Mas... e a prova da criação do universo em seis dias, feita no manuscrito de Einstein? Não acha que isso confirma a Bíblia?"
"Esse é um elemento muito importante", reconheceu Luís Rocha. "Como lhe disse, Einstein estava convencido de que o Deus da Bíblia não existia. Mas o que se passou foi que, ao mesmo tempo, concluiu que havia verdades profundas misteriosamente escondidas no Antigo Testamento."
"Qual é a explicação para esse fato?"
"Não há explicação. A realidade é que, por algum motivo desconhecido, os textos antigos encerram segredos ocultos. Por exemplo, descobriu-se agora existir uma estranha correlação entre verdades cabalísticas, relacionadas com a interpretação do Antigo Testamento, e as mais avançadas teorias da física."