A Fórmula de Deus

José Rodrigues dos Santos · Capítulo 6 de 7 · parte 3/4

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A Fórmula de Deus

Capítulo XXXIV

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

"Como assim?"

"Olhe, uma das mais promissoras candidatas à Teoria de Tudo é a Teoria das Cordas. É um pouco complicado explicá-la, mas as suas equações prevêem que a matéria básica é formada por cordas que vibram, existentes num espaço de vinte e seis dimensões para as micropartículas de energia, designadas bosões, e dez dimensões para as outras micropartículas, os fermiões. Tal como a força forte e a força fraca permaneceram circunscritas ao microcosmos depois do Big Bang, os físicos acreditam que vinte e duas dimensões permaneceram igualmente circunscritas ao microcosmos após a criação do universo. Por algum motivo, apenas a gravidade e a força eletromagnética estenderam uma influência visível ao macrocosmos e o mesmo aconteceu com apenas quatro dimensões espaço-temporais. É por isso que nos parece que o universo tem três dimensões espaciais e uma temporal. São essas que afectam o nosso mundo visível, mas há vinte e duas outras que permanecem invisíveis no microcosmos, capazes apenas de influenciarem o comportamento das micropartículas."

"Isso é possível?"

"A matemática indica que sim", assentiu o físico. "Mas, agora, diga-me. Você está familiarizado com a Cabala?"

"Sim, claro. Sou historiador, especialista em línguas antigas e criptanalista. Logo, tenho obrigação de conhecer a Cabala, não é? Além do mais, andei nos últimos anos a aprender hebraico e aramaico, de modo que este é um terreno em que me sinto à vontade."

"Ainda bem, porque assim poderá entender melhor a relação entre uma das mais avançadas teorias da física, a Teoria das Cordas, e a Cabala."

Tomás fez um ar intrigado.

"A relação entre a física e a Cabala? Está a falar de quê?"

O físico sorriu.

"Professor, suponho que saiba o que é a Arvore da Vida..."

"Com certeza", devolveu o historiador. "A Árvore da Vida é a estrutura cabalística que explica o ato de nascimento do universo, a unidade elementar da Criação, a menor partícula indivisível contendo os elementos do todo. É constituída por dez sephirot, ou seja, dez emanações manifestadas por Deus na Criação. Cada um dos dez sephirot corresponde a um atributo divino."

"Repita lá, quantos sephirot tem a Árvore da Vida?"

"Dez."

"Muito bem", exclamou, satisfeito. "Presumo que saiba também o que é a guematria."

"Claro", disse Tomás, sempre muito confiante nesta área. "É uma técnica cabalística que obtém o valor numérico das palavras da Bíblia através da correspondência entre as letras do alfabeto hebraico e os algarismos. Dizem os cabalistas que Deus criou o universo com números e palavras e que cada número e cada palavra contém um mistério e uma revelação. Por exemplo, a primeira palavra do Antigo Testamento é bereshith, que significa no princípio. Ora, se dividirmos bereshith em duas palavras fica bere, ou criou, e shith, seis. A Criação durou seis dias. Está a ver? Esta é uma forma de guematria. A primeira palavra do Antigo Testamento contém em si os seis dias da Criação. Outra forma de guematria é a pura contagem das letras. Diz o Gênesis que Abraão levou 318 servos para uma batalha. Mas o valor numérico do nome do seu servo Eliezer, descobriram os cabalistas, é 318, o que quer dizer que Abraão só levou consigo o seu único servo."

"Já vi que está dentro do assunto", observou Luís Rocha. "Então diga-me lá agora qual é a guematria do maior nome de Deus?"

"Bem... uh... o maior nome de Deus é... uh... Yodhey Vavhey. Mas confesso que não sei qual a guematria a que corresponde este nome. Teria de fazer as contas..."

"A guematria do maior nome de Deus é vinte e seis." Inclinou a cabeça. "Quantas letras tem o alfabeto hebraico?"

"Vinte e duas."

"E agora uma última pergunta", disse o físico. "Segundo os cabalistas, quantos são os caminhos da sabedoria percorridos por Deus para criar o universo?"

"Trinta e seis. Os caminhos percorridos por Deus para criar o universo correspondem à ligação dos dez sephirot da Árvore da Vida com as vinte e duas letras do alfabeto hebraico, a que se acrescentam mais quatro caminhos."

Luís Rocha sorriu.

"Reparou nestas coincidências todas?"

"Quais coincidências?"

"Dez sephirot cabalísticos para criar o universo, dez dimensões nas cordas dos fermiões para criar a matéria", disse, erguendo um dedo. Acrescentou um segundo dedo. "Vinte e seis é a guematria do maior nome de Deus, vinte e seis são as dimensões nas cordas dos bosões para criar a matéria." Veio o terceiro dedo. "Vinte e duas letras do alfabeto hebraico, vinte e duas as dimensões que permanecem ocultas no microcosmos." Agora o quarto. "Trinta e seis caminhos percorridos por Deus para criar o universo, trinta e seis é a soma das dimensões nas quais vibram os bosões e os fermiões." Piscou o olho, como uma criança que descobriu a chave do quarto dos brinquedos. "Será coincidência?"

"Bem... uh... isso é realmente surpreendente."

"O que Einstein constatou é que os textos sagrados contêm verdades científicas profundas, impossíveis de conhecer no seu tempo. E não é só na Bíblia, sabe? Os textos hindus, os textos budistas, os textos taoístas, todos eles encerram verdades eternas, aquele tipo de verdades que só agora a ciência começa a desvendar. A questão é: como é que os sábios antigos tiveram acesso a essas verdades?"

Fez-se uma pausa.

"E qual é a resposta?"

 

"Não sei. Ninguém sabe. Pode ser tudo coincidência, claro. Afinal de contas, o ser humano gosta de encontrar padrões em tudo, não é? Mas pode ser também que, tal como as micropartículas da experiência Aspect não passam de imanências de um único real, as verdades científicas contidas nas sagradas escrituras constituam imanências desse mesmo real único. É como se os sábios antigos tivessem sido inspirados por algo profundo, eterno, onipresente mas invisível."

"Estou a ver..."

"Tudo isto para lhe dizer que, embora Einstein e o professor Siza não acreditassem no Deus da Bíblia, achavam ambos que, em determinados aspectos e sob determinadas formas, as sagradas escrituras misteriosamente ocultavam verdades profundas."

Beberam mais um trago do expresso.

"De qualquer modo, e apesar dessas estranhas coincidências, o Deus que o professor Siza procurou não foi o Deus da Bíblia..."

"É isso", assentiu Luís Rocha. "Não foi o Deus da Bíblia. Foi algo de diferente. O professor Siza foi à procura de uma força criadora, inteligente e consciente, mas não necessariamente moral, nem boa, nem má." Suspirou. "Assim delimitado o campo de investigação, redefinindo-se o objeto de estudo, houve que proceder a uma segunda definição: o que é isso de provar a existência de Deus?"

O físico deixou a pergunta no ar.

"Está-me a perguntar a mim?", quis saber Tomás, hesitante, sem saber se a pergunta era meramente retórica ou para ser de fato respondida.

"Sim, claro. O que é isso de provar a existência de Deus?"

"Bem... uh... não sei, confesso que não sei."

"Será arranjar um telescópio tão poderoso que nos permitirá ver Deus, com as suas grandes barbas de patriarca, a brincar com estrelas? Será desenvolver uma equação matemática que contenha o ADN de Deus? Mas afinal o que é isso de provar a existência de Deus?"

"É uma boa pergunta, sem dúvida", considerou Tomás. "Qual a resposta?"

 

Luís Rocha exibiu três dedos.

"A resposta assenta em três pontos", disse. "Primeiro, Deus é sutil. Através da Teoria do Caos, dos teoremas da Incompletude e do Princípio da Incerteza ficámos a perceber que o Criador ocultou a Sua assinatura, escondeu-se por detrás de um fino véu engenhosamente concebido para O tornar invisível. Isso, como é bom de ver, dificulta seriamente a tarefa de provar a Sua existência." Traçou o segundo dedo. "Segundo, Deus não é inteligível através da observação. Quer isto dizer que não é possível provar a Sua existência por intermédio de um telescópio ou de um microscópio."

"E por que não?", interrompeu Tomás.

"Ora, por vários motivos", retorquiu o físico. "Repare, imagine que o universo é Deus, como defendia Einstein. Como observá-Lo na sua totalidade? O professor Siza chegou à conclusão de que os físicos e os matemáticos estavam a observar o universo um pouco como um engenheiro olha para um televisor. Imagine que se pergunta a um engenheiro: o que é a televisão? O engenheiro põe-se a observar um televisor, abre-o todo e depois diz que a televisão são fios e esquemas elétricos estruturados de uma determinada maneira." Apontou para Tomás. "Mas eu pergunto-lhe a si: acha que isso dá uma resposta completa à questão de saber o que é a televisão?"

"Uh... dá uma resposta de engenheiro, acho eu."

"É isso, dá uma resposta de engenheiro. Mas a televisão, sendo fios e circuitos eléctricos, é muito mais do que isso, não é? A televisão transmite programas de informação e entretenimento, tem um impacto psicológico junto de cada pessoa, permite a transmissão de mensagens, produz vastos efeitos sociológicos na sociedade, tem dimensão política e cultural, enfim... é uma coisa muito mais vasta do que a mera descrição das suas componentes tecnológicas."

"Está a colocar aquele problema de que já me tinha falado, o hardware e o software?"

"Nem mais", concordou Luís Rocha. "A perspectiva reducionista, que se centra no hardware, e a perspectiva semântica, inserida no software. Os físicos e os matemáticos olham para o universo como um engenheiro olha para um televisor ou para um computador. Apenas vêem os átomos e a matéria, as forças e as leis que as regem, e tudo isso, se formos a ver bem, não passa de hardware. Mas qual é a mensagem deste enorme televisor? Qual é o programa deste gigantesco computador? O professor Siza concluiu que o universo tem um programa, dispõe de um software, possui uma dimensão que está muito para além da soma das suas componentes. Ou seja, o universo é muito mais do que o hardware que o constitui. É um gigantesco programa de software. O hardware apenas existe para viabilizar esse programa."

"Como um ser humano", observou Tomás.

"Exato. Um ser humano é feito de células e tecidos e órgãos e sangue e nervos. Isso é o hardware. Mas o ser humano é muito mais do que isso. É uma estrutura complexa que possui consciência, que ri, que chora, que pensa, que sofre, que canta, que sonha e que deseja. Ou seja, somos muito, muito mais do que a mera soma das partes que nos constituem. O nosso corpo é o hardware por onde passa o software da nossa consciência." Fez um gesto largo com os braços. "Assim é também a realidade mais profunda da existência. O universo é o hardware por onde passa o software de Deus."

"É uma idéia arrojada", considerou Tomás. "Mas tem a sua lógica."

"O que nos remete para o problema do infinito", exclamou o físico. "Repare, se o universo é o hardware de Deus, isso coloca várias questões curiosas, já viu? Por exemplo, uma vez que nós, seres humanos, fazemos parte do universo, isso significa que nós somos parte do hardware, não é? Mas, será que somos também, nós próprios, um universo? Será que o universo é alguém imensamente grande, tão grande que não o vemos, tão grande que se torna invisível? Alguém tão grande para nós como tão grandes somos nós para as nossas células? Será que estamos para o universo como os nossos neurônios estão para nós? Será que somos o universo dos neurônios e somos os neurônios de alguém muito maior? Será que o universo é uma entidade orgânica e nós não passamos das suas células minúsculas? Seremos nós o Deus das nossas células e nós as células de Deus?"

Ficaram ambos um longo momento a digerir aquelas interrogações.

"O que acha você?", quis saber Tomás.

"Acho que o problema do infinito é tramado", devolveu Luís Rocha. "Sabe, nós, os físicos, andamos à procura de partículas fundamentais, mas sempre que as encontramos acabamos por descobrir que elas são, afinal, compostas por partículas mais pequenas. Primeiro pensava-se que o átomo era a partícula fundamental. Depois descobriu-se que o átomo era constituído por partículas mais pequenas, os protões, os neutrões e os electrões. Julgou-se então que essas é que eram as partículas fundamentais. Mas descobriu-se afinal que os protões e os neutrões são formados por outras micropartículas mais pequenas, os quarks. E há quem pense que os quarks são formados por novas micropartículas ainda mais pequenas e as mais pequenas por outras mais pequenas. O microcosmos é infinitamente pequeno."

"Como o Paradoxo de Zenão", comentou Tomás, com um sorriso. "Tudo é divisível pela metade."

"Exato", concordou o físico. "E, pela mesma razão, tudo é multiplicável pelo dobro. Por exemplo, o nosso universo é enorme, não é? Mas as últimas teorias cosmológicas admitem a possibilidade de este ser apenas um entre bilhões de universos. O nosso universo nasceu, está a crescer e, conforme o demonstra a segunda lei da termodinâmica, irá morrer. Ao lado dele existirão muitos outros iguais. É como se o nosso universo não passasse de uma bolha de espuma num oceano imenso, ao lado de imensas outras bolhas de espuma iguais." Fez uma pausa. "Chamam-lhe o meta-universo."

"Portanto, o universo é então infinito."

"É uma possibilidade. Mas não é a única."

"Existe outra?"

"Existe a possibilidade de o universo ser finito."

"O universo ser finito? Acha isso possível?"

"Ouça, é outra possibilidade."

"Mas como é isso possível? Se o universo for finito, o que há para além do seu limite?"

"A ser finito, não teria limite."

"Como assim? Não entendo..."

"É simples. Fernão de Magalhães começou a navegar para oeste, certo? Navegou, navegou, navegou e, surpresa, veio parar ao ponto de partida." Luís Rocha ergueu as mãos e rodou-as, como se segurasse uma bola. "Ou seja, ele provou que a Terra é finita, mas não tem limite. É possível que o universo também seja assim. Finito, mas sem limites."

"Estou a entender."

Os dois terminaram o café.

"Bem, tudo isto porque estava eu a dizer que a resposta à questão da prova da existência de Deus assenta em três pontos fundamentais. O primeiro é a constatação de que Deus é sutil e o segundo é a constatação de que não O podemos observar através de um telescópio ou de um microscópio." Ergueu um terceiro dedo. "Mas, apesar de todas as dificuldades, há uma maneira indireta de chegar à prova da existência de Deus."

"Então?"

"Através da busca de dois traços essenciais: a inteligência e a intenção. O professor Siza determinou que, para sabermos se o universo foi criado por uma inteligência consciente, temos de dar resposta a uma pergunta fundamental: existe ou não inteligência e intenção na criação do universo?" Inclinou a cabeça. "Não basta que a resposta seja afirmativa em relação a um destes pontos. Tem de ser afirmativa em relação aos dois, percebeu?"

Tomás fez uma careta pensativa.

"Não muito bem. Se se conseguir provar que há inteligência, não acha que isso basta?"

"Claro que não", devolveu Luís Rocha. "Olhando para a rotação da Terra em torno do Sol, parece-nos a nós evidente que há inteligência no movimento. Mas essa inteligência é intencional ou fortuita? É que, repare, pode ser tudo fruto do mero acaso, não pode? Se o universo for infinitamente grande, é inevitável que, num número infinito de situações diferentes, algumas exibam as características da nossa. Portanto, se a inteligência das coisas for fortuita, não é possível vermos aí, com toda a certeza, a mão de Deus, pois não? Temos também de determinar se há intenção."

"Estou a perceber."

"O problema é que o conceito de intenção é muito difícil de concretizar. Qualquer professor aqui da Faculdade de Direito lhe dirá isso. Num processo em tribunal, uma das grandes dificuldades é justamente a de determinar a intenção do arguido quando cometeu determinado ato. O arguido matou uma pessoa, mas matou-a porque quis matar ou isso foi um acidente? O arguido sabe que matar com intenção é mais grave e, em geral, argumenta que matou mas não quis matar, tudo não passou de um terrível azar. A dificuldade é, pois, a de determinar a intenção do acto." Fez um gesto largo com os braços. "O mesmo se passa no universo. Olhando para tudo em nosso redor, podemos constatar que existe grande inteligência na concepção das coisas. Mas essa inteligência é fortuita ou existe uma intenção por detrás de tudo? A haver intenção, qual é essa intenção? E, elemento

crucial, existirá alguma maneira de, havendo intenção, demonstrar a sua existência?"

"A resposta não está naquela metáfora do relógio que você me explicou no outro dia?"

"Sim, o relógio de William Paley é um argumento poderosíssimo. Se encontrarmos no chão um relógio e o analisarmos, logo percebemos que ele foi concebido por um ser inteligente com uma intenção. Ora, se isso é válido para uma coisa tão simples como um mero relógio, por que não seria válido para uma coisa tão imensamente mais inteligente e complexa como é o universo?"

"Justamente. Isso não serve de prova?"

"É um poderoso indício de inteligência e intenção, mas não é prova."

"Então como é que se pode fazer a prova?"

Luís Rocha endireitou-se na cadeira.

 

"Foi Einstein quem deu a pista", disse.

"Qual pista?"

O físico levantou-se do seu lugar e convidou Tomás a segui-lo para fora daquele apertado compartimento.

"Venha daí", disse. "Vou-lhe mostrar a segunda via."

XXXIX

 

Percorreram o longo tapete vermelho e atravessaram toda a biblioteca. Luís Rocha parecia um cicerone, guiando Tomás até junto de um enorme retrato emoldurado na parede do fundo, por entre as estantes de livros. Era uma soberba pintura de D. João V, o monarca ao qual a Biblioteca Joanina devia o seu nome. O físico pousou as suas coisas sobre um elegante piano negro de cauda que se encontrava instalado diante do retrato e fez sinal a Tomás para o seguir.

"Venha daí", disse.

Dirigiu-se a uma coluna do arco de acesso à última sala e, inesperadamente, abriu uma porta disfarçada na parede e mergulhou na sombra. Apesar de apanhado de surpresa, Tomás seguiu no encalço. Escalaram uma escadaria estreita envolta em escuridão e emergiram no primeiro andar, num apertado varandim de madeira, que percorreram até chegarem junto da parte alta do grande retrato. O anfitrião examinou a terceira estante da esquerda, tirou um volume branco, meteu a mão pelo buraco aberto entre os livros, extraiu da sombra uma pasta de cartolina azul-bebê, voltou a guardar o volume no lugar e fez sinal ao seu convidado para regressarem pelo mesmo caminho.

"O que é isso?", perguntou Tomás, intrigado, quando voltaram ao piso térreo.

"Esta é a segunda via", revelou Luís Rocha, sentando-se pesadamente na cadeira ao pé do piano, diante do olhar eternizado em tela de D. João V. "A prova científica da existência de Deus feita pelo professor Siza."

Tomás pousou os olhos na pasta. A cartolina apresentava um aspecto algo gasto e exibia o logótipo da Universidade de Coimbra, com um elástico em volta a fechá-la.

"Mas o que está um manuscrito desta importância aqui a fazer?", admirou-se o historiador. "O professor Siza guardava as suas coisas na Biblioteca Joanina?"

"Não, claro que não. O que se passou foi que, logo após o assalto em que o professor desapareceu, fiquei um pouco... enfim, assustado. Ao inventariar o que tinha sido tirado da casa, verifiquei que o velho manuscrito de Einstein não se encontrava em parte alguma e isso fez-me considerar a possibilidade de toda a investigação estar em perigo. De modo que decidi tirar da casa tudo o que havia relacionado com esta pesquisa. Ainda guardei as coisas no meu apartamento por alguns dias, mas isso pôs-me muito nervoso e acabei por achar que aquele não era igualmente um local seguro. Se assaltaram a casa do professor, poderiam também assaltar a minha, não é verdade? De modo que optei por distribuir algumas coisas pequenas entre os colegas do professor, incluindo o seu pai, por exemplo." Acariciou a cartolina azul. "O problema, no entanto, era o que estava nesta pasta, a segunda via, de longe o documento mais importante. Não lhes queria entregar a pasta para guardarem, mas também não a podia manter em casa, não é? O que fazer?" Fez um gesto na direção da estante de onde a retirara. "Foi então que tive a idéia de esconder a pasta num buraco que eu sabia existir aqui na biblioteca, ali em cima, mesmo ao lado do retrato do rei, detrás de uma fileira de livros."

"Você ficou realmente assustado, hã?"

"Então não havia de ficar? Se, além de raptarem o professor, tinham também levado A Fórmula de Deus, tornou-se evidente para mim que poderia haver uma relação entre o sequestro e a investigação. Como eu estava envolvido na investigação, comecei a sentir-me muito nervoso. Sabia lá se também me viriam bater à porta..."

"Pois claro."

Luís Rocha calou-se e olhou em redor. Ergueu os braços e fez um gesto largo com as mãos, abarcando toda a Biblioteca Joanina.

"Sabe, o professor Siza costumava dizer que esta biblioteca é a metáfora da assinatura divina no universo."

"A assinatura divina no universo? Não entendo..."

"É uma imagem inspirada nas conversas que ele teve com Einstein." Apontou para as estantes preenchidas por livros. "Imagine que uma criança entra nesta biblioteca e vê estes livros, todos eles redigidos em línguas desconhecidas, a maior parte em latim. A criança sabe que alguém escreveu os livros e sabe que os livros revelam coisas, claro, embora não saiba quem os escreveu nem o que eles contam. Na verdade, a criança nem sequer compreende latim. Suspeita que toda esta biblioteca está organizada segundo uma ordem, mas essa ordem parece-lhe misteriosa." Pousou a palma das mãos no peito. "Nós estamos como essa criança e o universo é como esta biblioteca. O universo contém leis e forças e constantes criadas por alguém, com objetivos misteriosos e segundo uma ordem incompreensível para nós. Compreendemos vagamente as leis, captamos as linhas gerais da ordem que tudo organiza, percebemos superficialmente que as constelações e os átomos se movem de determinada forma. Tal como a criança, desconhecemos os pormenores, apenas formamos uma pálida idéia do propósito de tudo isto. Mas há uma coisa de que temos a certeza: toda esta biblioteca foi organizada com uma intenção. Mesmo que não consigamos ler os livros nem jamais venhamos a conhecer os seus autores, o fato é que estas obras contêm mensagens e a biblioteca está organizada em obediência a uma ordem inteligente. Assim é o universo."

"Essa foi a pista dada por Einstein ao professor Siza para se encontrar a segunda via?"

"Não. Essa foi a metáfora que o professor Siza usava para explicar a inteligência intencional do universo, uma metáfora inspirada nas conversas que ele teve com Einstein."

Tomás esboçou uma expressão interrogativa.

"Então qual foi a pista dada por Einstein?"

Luís Rocha retirou o elástico que prendia a pasta e abriu-a, revelando uma resma de documentos e anotações, a maior parte cheia de equações estranhas, incompreensíveis para um leigo. O físico folheou as anotações até detectar uma página em particular.

"Cá está", disse. "Foi esta."

Tomás inclinou-se sobre a anotação.

"O que é isso?"

"É uma frase muito conhecida de Einstein", explicou Luís Rocha. "Disse ele: «o que realmente me interessa é saber se Deus poderia ter feito o mundo de uma maneira diferente, ou seja, se a necessidade de simplicidade lógica deixa alguma liberdade»."

"Isso é uma pista?"

"Sim. O professor Siza sempre encarou esta frase como a pista para a segunda via e, se formos a ver bem, é fácil perceber porquê. O que Einstein está aqui a colocar é a questão da inevitabilidade de o universo ser como é e a questão do determinismo. Ou seja, e esta é a pergunta essencial: se as condições de partida fossem diferentes, quão diferente seria o universo?"

"Hmm."

"Claro que, naquele tempo, esta era uma questão incrivelmente difícil de responder. Faltavam ainda os modelos matemáticos para lidar com ela, por exemplo. Mas, uma década depois, com o aparecimento da Teoria do Caos, tudo mudou. A Teoria do Caos veio fornecer instrumentos matemáticos muito precisos para lidar com o problema da alteração das condições iniciais de um sistema."

"Não estou a perceber", disse Tomás. "O que entende por condições iniciais?"

"A expressão condições iniciais refere-se ao que aconteceu nos primeiros instantes de criação do universo com a distribuição da energia e da matéria. Mas é preciso também considerar as leis do universo, a organização das diversas forças, os valores das constantes da natureza, tudo, tudo. Olhe, por exemplo, veja o caso das constantes da natureza. Não lhe parece que elas são um elemento crucial neste cálculo?"

"As constantes da natureza?"

"Sim." Franziu o sobrolho, estranhando a pergunta. "Presumo que saiba do que se trata, não?"

"Uh... não."

"Ah, perdão, por vezes esqueço-me de que estou a falar com um leigo", exclamou o físico, levantando a mão a pedir desculpa. "Bem, as constantes da natureza são quantidades que desempenham um papel fundamental no comportamento da matéria e que, em princípio, apresentam o mesmo valor em qualquer parte do universo e em qualquer momento da sua história. Por exemplo, um átomo de hidrogênio é igual na Terra ou numa longínqua galáxia. Mas, mais do que isso, as constantes da natureza são uma série de valores misteriosos que se encontram na raiz do universo e que lhe conferem muitas das suas atuais características, constituindo uma espécie de código que encerra os segredos da existência."

Tomás contraiu o rosto num esgar intrigado.

"Ah, sim? Nunca tinha ouvido falar nisso..."

"Acredito", assentiu Luís Rocha. "Há muita coisa que os cientistas descobriram e que as pessoas comuns pura e simplesmente não conhecem. E, no entanto, estas constantes são algo de fundamental, elas constituem uma misteriosa propriedade do universo e condicionam tudo o que nos rodeia. Descobriu-se que o tamanho e a estrutura dos átomos, das moléculas, das pessoas, dos planetas e das estrelas não resultam de um acaso nem de um processo de seleção, mas dos valores destas constantes. Assim sendo, a questão que o professor Siza colocou foi muito simples: e se os valores das constantes da natureza fossem ligeiramente diferentes?"

"Como assim, diferentes?"

"Olhe, a força da gravidade ser ligeiramente mais fraca ou mais forte do que é, a luz apresentar uma velocidade no vácuo um pouco maior ou um pouco menor do que a que tem, a constante de Planck que determina a mais pequena unidade de energia possuir um valor marginalmente diferente... enfim, esse tipo de coisas. O que aconteceria se ocorressem pequenas alterações nestes valores?"

Fez-se silêncio.

"O que descobriu ele?", perguntou Tomás, mal contendo a curiosidade.

Luís Rocha inclinou a cabeça.

"Não sei se se lembra, mas quando o senhor esteve na minha primeira aula, aqui há algumas semanas, eu falei no problema do Ômega. Recorda-se disso?"

"Claro."

"O que reteve do que eu disse?"

"Bem... uh... disse que havia dois fins possíveis para o universo. Ou o universo parava a expansão e se retraía, acabando esmagado..."

"O Big Crunch..."

"... ou se expandia infinitamente até se acabar toda a sua energia e transformar-se num cemitério gelado."

"O Big Freeze. E o que provocava isso, lembra-se?"

"Acho que... acho que era a gravidade, não era?"

"Exato", exclamou o físico, fazendo sinal de aprovação. "Vejo que percebeu o que eu disse na aula. Se a velocidade de expansão conseguir vencer a força da gravidade, o universo expandir-se-á eternamente. Se não conseguir, regressará ao ponto de partida, um pouco como uma moeda que se atira para o ar e que acaba por voltar para baixo. Enquanto sobe, a moeda está a vencer a gravidade. Mas, depois, a gravidade acaba por vencê-la."

"É isso, lembro-me desse exemplo."

Luís Rocha ergueu um dedo.

"Só que eu não disse tudo. Existe uma terceira hipótese, que é a da força da expansão ser exatamente igual à força da gravidade de toda a matéria existente. A hipótese de isso acontecer é ínfima, claro, pois seria uma extraordinária coincidência que, considerando os enormes valores que estão em causa, a expansão do universo fosse exatamente contrariada pela gravidade exercida por toda a matéria, não acha?"

"Bem... sim, acho que sim."

"E, no entanto, é isso o que nos diz a observação. O universo está a expandir-se a uma velocidade incrivelmente próxima da linha crítica que separa o universo do Big Freeze do universo do Big Crunch. Já se descobriu que a expansão está em aceleração, o que sugere um futuro de Big Freeze, mas isso não é, nem por sombras, certo. A verdade é que, por incrível que pareça, encontramo-nos na linha divisória entre as duas possibilidades."

"Ah é?"

"É estranho, não lhe parece? E o fato é que isso, meu caro, significa que nos saiu a sorte grande."

"Como assim?"

"É muito simples. Imagine só a descomunal energia libertada no momento da criação do universo. Acha que é possível controlar toda essa gigantesca erupção?"

"Claro que não."

"É evidente que não. Considerando a força bruta do Big Bang, é muito natural que a expansão não possa ser controlada, não é? Essa expansão deveria ou não levar de vencida a força de gravidade de toda a matéria. É infinitamente improvável que a expansão e a gravidade estejam equilibradas. E, no entanto, ambas parecem estar muito próximas de se encontrarem equilibradas, se é que não estão mesmo equilibradas. Isto, meu caro, é o jackpot da lotaria. Repare, sendo o Big Bang um acontecimento acidental e descontrolado, a probabilidade de o universo permanecer para sempre num estado caótico, de máxima entropia, seria colossalmente esmagadora. O fato de haver estruturas de baixa entropia é um mistério muito grande, tão grande que alguns físicos dizem tratar-se de um incrível acaso. Se toda a energia libertada pelo Big Bang fosse uma pequeníssima fração mais fraca, a matéria voltaria para trás e esmagar-se-ia num gigantesco buraco negro. Se fosse marginalmente mais forte, a matéria dispersar-se-ia tão depressa que as galáxias nem sequer se chegariam a formar."

"Quando fala numa fração mais fraca ou mais forte, está a falar em quê? Numa diferença de cinco por cento? De dez por cento?"

Luís Rocha riu-se.

"Não", disse. "Estou a falar em frações inacreditavelmente pequenas, trilionesimais." Luís Rocha pegou numa caneta de feltro. "Olhe, o professor Siza fez as contas e descobriu que, para que o universo pudesse expandir-se de modo ordeiro, essa energia teria de ter uma precisão na ordem de um para 10120. Ou seja..."

Colocou a língua no canto da boca e redigiu o valor.

 

1000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000 00000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000 0

 

O físico mordiscou caneta, mirando este vasto número.

"Quer isto dizer que bastava a afinação ter falhado um bocadinho de nada e o universo não teria a possibilidade de albergar vida. Recuaria para um monumental buraco negro ou dispersar-se-ia sem formar galáxias."

Tomás contemplou aquela enorme extensão de zeros, tentando digerir o seu significado.

"Incrível!" Os olhos voltaram a desfilar por aquela sucessão de algarismos redondos. "Isto equivale a quê? À hipótese de eu ganhar hoje a lotaria?"

Luís Rocha voltou a rir-se.

"Muito menos do que isso", disse. "Olhe, isto equivale à hipótese que você tem de atirar uma seta ao acaso para o espaço e ela atravessar todo o cosmos e ir atingir um alvo com um milímetro de diâmetro localizado na galáxia mais próxima."

"Caramba!", exclamou Tomás, pondo a mão diante da boca. "Isso seria uma sorte inacreditável..."

"Pois seria", concordou o físico. "E, no entanto, a energia do Big Bang tinha este valor tão incrivelmente preciso, situado neste intervalo tão espantosamente estreito. O mais extraordinário é que foi, de fato, libertada a energia rigorosamente necessária para que o universo se pudesse organizar. Isto é, nem mais nem menos a energia estritamente imprescindível para tal." Folheou mais umas páginas. "Esta surpreendente descoberta levou o professor Siza a embrenhar-se no estudo das condições iniciais do universo."

"O Big Bang?"

"Sim, o Big Bang e o que se lhe seguiu." Pegou nas anotações e folheou-as, até parar numa página. "Por exemplo, a questão da criação da matéria. Quando ocorreu a grande expansão criadora, não havia matéria. A temperatura era imensamente elevada, tão elevada que nem os átomos se conseguiam formar. O universo era então uma sopa escaldante de partículas e antipartículas, criadas a partir da energia e sempre a aniquilarem-se umas às outras. Essas partículas, os quarks e os antiquarks, são idênticas umas às outras, mas com cargas opostas, e, quando se tocam, explodem e voltam a ser energia. À medida que o universo se ia expandindo, a temperatura ia baixando e os quarks e antiquarks foram formando partículas maiores, chamadas hadrões, mas sempre a aniquilarem-se umas às outras. Criou-se assim a matéria e a antimatéria. Como as quantidades de matéria e de antimatéria eram iguais e ambas se aniquilavam mutuamente, o universo apresentava-se constituído por energia e partículas de existência efêmera e não havia hipóteses de se formar matéria duradoura. Está a perceber?"

"Sim."

"O que se passou, no entanto, foi que, por uma razão muito misteriosa, a matéria começou a ser produzida numa quantidade minusculamente maior do que a antimatéria. Para cada dez mil milhões de antipartículas, produziam-se dez mil milhões e uma partículas."

Rabiscou a comparação com a caneta de feltro.

 

10 000 000 000 Antipartículas

10 000 000 001 Partículas

 

"Está a ver?", disse, exibindo a anotação. "Uma diferença mínima, quase insignificante, não é? Mas, olhe, foi suficiente para produzir a matéria. Isto é, dez mil milhões de partículas eram destruídas por dez mil milhões de antipartículas, mas sobrava sempre uma que não era destruída. Foi justamente essa partícula sobrevivente que, juntando-se a outras sobreviventes nas mesmas circunstâncias, formou a matéria." Bateu repetidamente com o dedo na anotação. "Ou seja, o professor Siza percebeu que, para a criação do universo, tinha ocorrido mais um acaso extraordinário. Se o número de partículas e antipartículas permanecesse exatamente igual, como parece natural, não haveria matéria." Sorriu. "Sem matéria, nós não estávamos aqui."

"Estou a perceber", murmurou Tomás, assombrado. "Isto é... é espantoso."

"Tudo graças a uma partícula extra." Localizou nova página. "Outra questão onde o universo requer uma incrível afinação é a sua homogeneidade. A distribuição da densidade da matéria é muito homogênea, mas não é totalmente homogênea. Quando ocorreu o Big Bang, as diferenças de densidade eram incrivelmente pequenas e foram sendo amplificadas ao longo do tempo pela instabilidade gravitacional da matéria. O que o professor Siza descobriu é que esta afinação foi outro inacreditável golpe de sorte. O grau de não uniformidade é extraordinariamente pequeno, na ordem de um para cem mil, exactamente o valor necessário para permitir a estruturação do universo. Nem mais, nem menos. Se fosse marginalmente maior, as galáxias depressa se transformariam em densos aglomerados e formavam-se buracos negros antes de estarem reunidas as condições para a vida. Por outro lado, se o grau de não uniformidade fosse marginalmente mais pequeno, a densidade da matéria seria demasiado fraca e as estrelas não se formariam." Abriu as mãos. "Ou seja, era preciso que a homogeneidade fosse exactamente esta para que a vida fosse possível. As possibilidades de assim ser eram minúsculas, mas ocorreram."

"Estou a ver."

"A própria existência das estrelas com uma estrutura semelhante à do Sol, adequada à vida, resulta de um novo golpe de sorte." Desenhou uma estrela numa folha limpa. "Repare, a estrutura de uma estrela depende de um equilíbrio delicado no seu interior. Se a irradiação de calor for demasiado forte, a estrela transforma-se numa gigante azul e se for demasiado fraca a estrela torna-se uma anã vermelha. Uma é excessivamente quente e outra excessivamente fria e ambas provavelmente não têm planetas. Mas a maior parte das estrelas, incluindo o Sol, situa-se entre estes dois extremos, e o que é extraordinário é que os valores para além desses extremos são altamente prováveis, mas não ocorreram. Em vez disso, a relação das forças e a relação das massas das partículas dispõem de um valor tal que parecem ter conspirado para que a generalidade das estrelas se situe no estreito espaço entre os dois extremos, assim possibilitando a existência e predominância de estrelas como o Sol. Altere-se marginalmente o valor da gravidade, da força eletromagnética ou da relação de massas entre o electrão e o protão e nada do que vemos no universo se torna possível."

"Incrível", comentou Tomás, abanando a cabeça. "Não fazia a mínima idéia disto."

Luís Rocha folheou de novo as anotações.

"Depois de analisar as condições iniciais do universo, o professor Siza dedicou a sua atenção às micropartículas." Parou noutra página cheia de equações. "Por exemplo, pôs-se a estudar duas importantes constantes da natureza, justamente esta proporção das massas dos electrões e protões, designada constante Beta, e a força de interacção electromagnética, designada constante da estrutura fina, ou Alfa, e alterou-lhes os valores, calculando as consequências de tal alteração. Sabe o que ele descobriu?"

"Diga."

"Faça-se um pequeno aumento de Beta e as estruturas moleculares ordenadas deixam de ser possíveis, uma vez que é o actual valor de Beta que determina as posições bem definidas e estáveis dos núcleos dos átomos e que obriga os electrões a moverem-se em posições bem precisas em torno desses núcleos. Se o valor de Beta for marginalmente diferente, os electrões começam a agitar-se de mais e impossibilitam a realização de processos muito precisos, como a reprodução do ADN. Por outro lado, é o actual valor de Beta que, em ligação com Alfa, torna o centro das estrelas suficientemente quentes para gerarem reacções nucleares. Se Beta exceder em 0,005 o valor do quadrado de Alfa, não haverá estrelas. Sem estrelas, não há Sol. Sem Sol, não há Terra nem vida."

"Mas as margens são assim tão estreitas?"

"Estreitíssimas. E isto não é tudo."

"Então?"

"Olhe, se Alfa aumentar em apenas quatro por cento, o carbono não poderá ser produzido nas estrelas. E se aumentar apenas 0,1, não haverá fusão nas estrelas. Sem carbono nem fusão estelar, não haverá vida. Ou seja, para que o universo possa gerar vida, é necessário que o valor da constante da estrutura fina seja exatamente o que é. Nem mais, nem menos."

O físico localizou uma nova folha dos apontamentos.

"Outra coisa que o professor Siza analisou foi a força nuclear forte, aquela que provoca as fusões nucleares nas estrelas e nas bombas de hidrogênio. Ele fez os cálculos e descobriu que, se se aumentar a força forte em apenas quatro por cento, isso faria com que, nas fases iniciais após o Big Bang, todo o hidrogénio do universo se queimasse rápido de mais, convertendo-se em hélio 2. Isso seria um desastre, porque significaria que as estrelas esgotariam depressa o seu combustível e algumas se transformariam em buracos negros antes de existirem condições para a criação de vida. Por outro lado, se se reduzisse a força forte em dez por cento, isso afetaria o núcleo dos átomos de um modo tal que impediria a formação de elementos mais pesados do que o hidrogênio. Ora, sem elementos mais pesados, um

dos quais é o carbono, não há vida." Bateu com o indicador naquelas contas. "Ou seja, o professor Siza descobriu que o valor da força forte dispõe de apenas um pequeno intervalo para criar as condições para a vida e, veja só, como que por providencial milagre é justamente nesse estreitíssimo intervalo que a força forte se situa."

"E inacreditável", murmurou Tomás, acariciando distraidamente o queixo. "Inacreditável."

 

Mais páginas repletas de insondáveis equações.

"Aliás, a conversão do hidrogênio em hélio, crucial para a vida, é um processo que requer absoluta afinação. A transformação tem de obedecer a uma taxa exacta de sete milésimos da sua massa para energia. Se se baixar uma fracção, a transformação não ocorre e o universo só tem hidrogênio. Se se aumentar uma fração, o hidrogênio esgota-se rapidamente em todo o universo."

Escreveu os valores.

 

0,006% - só hidrogênio

0,008% - hidrogênio esgotado

 

"Ou seja, para que exista a vida é necessário que a taxa de conversão do hidrogênio em hélio se situe exatamente neste intervalo. E, olhe a coincidência: situa-se mesmo!"

"Puxa! Mais uma sorte grande..."

"Sorte grande?", riu-se o físico. "Isto não é sorte grande. Isto é o jackpot dos jackpots!" Folheou as anotações. "Agora repare no carbono. Por diversas razões, o carbono é o elemento no qual assenta a vida. Sem carbono, a vida complexa espontânea não é possível, uma vez que só este elemento dispõe de flexibilidade para formar as longas e complexas cadeias necessárias para os processos vitais. Nenhum outro elemento é capaz de o fazer. O problema é que a formação do carbono só é possível devido a um conjunto de circunstâncias extraordinárias." Esfregou o queixo, concentrado na forma como iria explicar o processo. "Para formar o carbono, é preciso que o berílio radioativo absorva um núcleo de hélio. Parece simples, não é? O problema é que o tempo de vida do berílio radioactivo se limita a uma insignificante fracção de segundo." Gatafunhou o valor.

"Está a ver? O berílio radioativo só dura este instante." Tomás tentou avaliar quanto tempo seria aquele micronésimo de segundo.

"Mas isto não é nada", observou. "Nada de nada."

"Pois é", concordou o físico. "E, no entanto, é justamente neste período incrivelmente curto que o núcleo do berílio radioativo tem de localizar, colidir e absorver um núcleo de hélio, criando assim o carbono. A única forma de isto ser possível num instante tão efêmero é o das energias destes núcleos serem exatamente iguais no momento em que colidem. E, nova surpresa, são mesmo iguais!" Piscou o olho. "Hã? Grande sorte! Se houvesse uma discrepância ligeiríssima, mínima que fosse, não se poderia formar carbono. Mas, por extraordinário que pareça, não existe qualquer discrepância. Graças a um brutal golpe de sorte, a energia dos constituintes nucleares das estrelas situa-se exatamente no ponto adequado, permitindo a fusão."

"É incrível", comentou Tomás.

"Mas olhe que houve ainda outro espantoso golpe de sorte", adiantou Luís Rocha. "É que o tempo de colisão do hélio é ainda mais efémero do que o curtíssimo tempo de vida do berílio radioactivo, e isso permite a reacção nuclear que produz o carbono. Para além do mais, há o problema do carbono sobreviver à subsequente actividade nuclear dentro da estrela, o que só é possível em condições muito especiais. E, veja só!, graças a uma nova e extraordinária coincidência, essas condições reuniram-se e o carbono não se transforma em oxigênio." Sorriu. "Admito que, para um leigo, isto pareça chinês. Mas garanto-lhe que um físico achará que tudo isto é uma sorte absolutamente inacreditável. São quatro jackpots numa única chave!"

"Caramba", riu-se Tomás. "Vamos ficar milionários!"

Luís Rocha pegou na resma de folhas repletas de anotações e contas e exibiu-as ao seu interlocutor.

"Está a ver isto? Está tudo cheio de descobertas do gênero. Eu e o professor Siza passamos os últimos anos a detectar e a coleccionar coincidências improváveis que são absolutamente imprescindíveis para que haja vida. A incrível afinação requerida nas diversas forças, na temperatura do universo primordial, na sua taxa de expansão, mas também as extraordinárias coincidências necessárias no nosso próprio planeta. Por exemplo, o problema da inclinação do eixo de um planeta. Devido às ressonâncias entre a rotação dos planetas e o conjunto dos corpos do sistema solar, a Terra deveria ter uma evolução caótica na inclinação do seu eixo de rotação, o que, como é óbvio, impediria a existência de vida. Um hemisfério poderia passar seis meses a tostar ao Sol, sem nenhuma noite, e outros seis meses a gelar à luz das estrelas. Mas o nosso planeta teve uma sorte inacreditável. Sabe qual foi?"

"Não."

"O aparecimento da Lua. A Lua é um objeto tão grande que os seus efeitos gravitacionais moderaram o ângulo de inclinação do nosso planeta, assim viabilizando a vida."

"Caramba, até a Lua!"

"É verdade", concordou o físico. "Sabe, todos os pormenores parecem conspirar para viabilizar a vida na Terra. Olhe, o fato de a Terra possuir níquel e ferro líquido em quantidade suficiente no núcleo para gerar um campo magnético imprescindível para defender a atmosfera das letais partículas emitidas pelo Sol. Isso é uma sorte. Outra extraordinária coincidência é o fato de o carbono ser o elemento sólido mais abundante no espaço térmico em que a água é líquida. A própria órbita da Terra é crucial. Cinco por cento mais próxima do Sol ou quinze por cento mais afastada bastaria para impossibilitar o desenvolvimento de formas complexas de vida." Voltou a colocar a resma dentro da pasta. "Enfim, a lista de coincidências e improbabilidades é aparentemente infindável."

Tomás remexeu-se na sua cadeira.

"Estou a perceber", disse, ainda tentando extrair um significado de toda aquela informação. "Mas o que quer dizer tudo isto?"

"Não é óbvio?", admirou-se o físico. "Isto quer dizer que não foi apenas a vida que se adaptou ao universo. O próprio universo preparou-se para a vida. De certo modo, é como se o universo sempre soubesse que nós vínhamos aí. A nossa mera existência parece depender de uma extraordinária e misteriosa cadeia de coincidências e improbabilidades. As propriedades do universo, tal como estão configuradas, são requisitos imprescindíveis para a existência de vida.

Essas propriedades poderiam ser infinitamente diferentes. Todas as alternativas conduziriam a um universo sem vida. Para haver vida, um grande número de parâmetros teria de estar afinado para um valor muito específico e rigoroso. E o que descobrimos nós? Essa afinação existe." Fechou a pasta. "Chama-se a isto Princípio Antrópico."

"Como?"

"Princípio Antrópico", repetiu o físico. "O Princípio Antrópico significa que o universo está concebido de propósito para criar vida."

Tomás abriu a boca.

"Estou a entender."

"Essa é a única explicação para o inacreditável rol de coincidências e improbabilidades que nos permitem estar aqui."

O historiador coçou a cara, pensativo.

"Isto é realmente esmagador", admitiu. "Mas pode ser tudo fruto do acaso, não pode? Quer dizer, é altamente improvável que eu ganhe a loteria, claro. Mas, afinal de contas, a loteria tem de sair a alguém, não tem? A lei das probabilidades diz que sim. É evidente que, na perspectiva da pessoa a quem sai a loteria, tudo isto parece altamente improvável. O fato, porém, é que alguém tinha de ganhar a loteria."

"É verdade", concordou Luís Rocha. "Só que, neste caso, estamos a falar em múltiplas loterias. Repare, saiu-nos a sorte grande quanto à afinação da expansão do universo, quanto à afinação da temperatura primordial, quanto à afinação da homogeneidade da matéria, quanto à ligeiríssima vantagem da matéria sobre a antimatéria, quanto à afinação da constante da estrutura fina, quanto à afinação dos valores das forças forte, electrofraca e da gravidade, quanto à afinação da taxa de conversão do hidrogênio em hélio, quanto ao delicado processo de formação do carbono, quanto à existência no núcleo da Terra dos metais que criam o campo magnético, quanto à órbita do planeta... enfim, quanto a tudo. Bastava os valores serem marginalmente diferentes num único destes fatores e, puf!, não havia vida. Mas não, eles coincidem todos. É extraordinário, não acha?" Fez um gesto vago com a mão. "Olhe, é um pouco como se eu fosse dar uma volta ao mundo e comprasse um bilhete da lotaria em cada país por onde passasse. Quando mais tarde chegasse a casa, descobria que me tinha saído a sorte grande em todos os bilhetes que comprei. Todos!" Riu-se. "É evidente que poderia ter uma sorte fantástica e sair-me a loteria num desses países. Já seria absolutamente extraordinário, no entanto, se me saísse a lotaria em dois países. Mas, se me saísse a loteria em todos os países, alto lá! Logo se desconfiava, não é? Não é preciso ser-se um grande gênio para perceber que teria de haver algo de anormal a acontecer... uma marosca, sei lá. Com toda a certeza estava aqui montado um esquema qualquer, não acha? Pois foi isso justamente o que aconteceu à vida. Saiu-lhe a sorte grande em todos os parâmetros. Todos!" Ergueu um dedo. "Portanto, só há uma conclusão a tirar: está aqui montado um esquema qualquer. Há marosca no ar."

"Pois, realmente... uh... parece de fato um pouco inexplicável toda esta sorte. Quando a esmola é grande, o pobre desconfia, não é?"

Luís Rocha inclinou-se na cadeira.

"O que eu lhe quero dizer, professor Noronha, é que, quanto mais observamos e analisamos o universo, mais concluímos que ele revela as duas características fundamentais inerentes à ação de uma força inteligente e consciente." Ergueu o polegar esquerdo. "Uma é a inteligência com que tudo está concebido." Acrescentou o indicador esquerdo. "Outra é a intenção de planear as coisas para criar vida. O Princípio Antrópico revela-nos que há intenção na concepção da vida. A vida não é um acidente, não é fruto do acaso, não é o produto fortuito de circunstâncias anormais. É o resultado inevitável da mera aplicação das leis da física e dos misteriosos valores das suas constantes." Fez uma pausa, aumentando o efeito dramático das suas palavras. "O universo está concebido para criar vida."

As palavras ressoaram pela Biblioteca Joanina, desfazendo-se no silêncio como uma nuvem no céu.

"Estou a ver", murmurou Tomás. "É espantoso. O que esta segunda via revela é... é assombroso, no mínimo."

"Sim", concordou Luís Rocha. "A descoberta do Princípio Antrópico constitui a segunda via da confirmação da existência de Deus." Voltou atrás na resma, localizando uma folha que já consultara. "Lembra-se da pista lançada por Einstein?"

"Sim."

O físico leu as anotações nessa folha.

"Einstein disse, e passo a citar: «o que realmente me interessa é saber se Deus poderia ter feito o mundo de uma maneira diferente, ou seja, se a necessidade de simplicidade lógica deixa alguma liberdade»." Fitou Tomás. "Sabe qual é a resposta a esta questão?"

"A luz do que me disse, só pode ser não."

"Nem mais. A resposta é não." Luís Rocha abanou a cabeça. "Não, Deus não poderia ter feito o mundo de maneira diferente." Franziu o sobrolho e esboçou um sorriso leve, quase malicioso. "Mas há mais uma coisa que ainda não lhe disse."

Continuar: parte 4 de 4