A Fórmula de Deus
Capítulo XXXIV
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
"Mais uma? O quê?"
"Como é evidente, o Princípio Antrópico constitui um poderosíssimo indício da existência de Deus. Quer dizer, se tudo está assim tão inacreditavelmente afinado para possibilitar a existência de vida, então é porque o universo foi, de facto, concebido para a criar, não é? Mas mantém-se uma dúvida residual. Ela é muito pequena, absolutamente ínfima, mas permanece lá, como um espinho cravado no pé, um incômodo escolho que nos impede de ter a certeza absoluta." Baixou a voz, quase falando num sussurro. "E se tudo não passar de um monumental acaso? E se estas circunstâncias todas resultarem de um extraordinário jogo fortuito de espantosas coincidências? Ganhamos múltiplas loterias cósmicas, é certo e incontestável, mas, por muito improvável que isso nos pareça, há sempre a minúscula possibilidade de ter sido tudo um gigantesco acidente, não há?"
"Sim, claro", concordou Tomás. "Essa possibilidade existe."
"E, enquanto essa vaga possibilidade existir, não se pode dizer com toda a segurança que o Princípio Antrópico seja a prova final, pois não? É um poderoso indício, é verdade, mas não é ainda a prova."
"Pois. De fato, não é ainda a prova, não."
"Esta remota possibilidade de ser tudo um monumental acidente andou muito tempo a perturbar o professor Siza. Ele achava que esta desconfortável situação, esta maçadora incerteza marginal, fazia parte das habituais sutilezas de Deus, já descritas por Einstein. Isto é, tal como os teoremas da Incompletude mostram que não se pode provar a coerência de um sistema matemático, embora as suas afirmações não demonstráveis sejam verdadeiras, esta longínqua possibilidade impedia que ficasse provada, para além de qualquer dúvida, a existência de uma força inteligente e consciente por detrás da arquitectura do universo. Parecia ao professor Siza que Deus se voltava a esconder por entre o jogo de espelhos de uma derradeira subtileza, subtraindo a prova justamente quando estávamos prestes a tocá-la."
"Compreendo."
"Até que, no início deste ano, o professor Siza teve uma epifania."
"Perdão?"
"Fez-se-lhe luz."
"Como assim, fez-se-lhe luz?"
"O professor Siza estava um dia no seu gabinete a calcular o comportamento caótico dos electrões num campo magnético quando, de repente, teve a idéia que, de uma assentada, resolvia a derradeira incerteza e transformava o Princípio Antrópico, não apenas num poderoso indício da existência de Deus, mas na prova final."
Tomás voltou a remexer-se na cadeira. Inclinou-se um tudo-nada para a frente e estreitou os olhos.
"A prova final? Ele conseguiu a prova final?"
Luís Rocha manteve o sorriso suave.
"A prova final radica no problema do determinismo."
"Não entendo."
"Como já lhe disse, Kant escreveu certa vez que há três questões que nunca serão resolvidas: a existência de Deus, a imortalidade e a livre vontade. O professor Siza, no entanto, acreditava que estas questões, para além de serem resolúveis, estavam ligadas entre si." Pigarreou. "O problema da livre vontade é o de saber até que ponto nós somos livres nas nossas decisões. Durante muito tempo pensou-se que éramos, mas as descobertas científicas foram gradualmente limitando o campo da nossa liberdade. Foi-se descobrindo que as nossas decisões, embora pareçam livres, são na verdade condicionadas por um sem-número de fatores. Por exemplo, se eu decido comer, essa decisão foi realmente tomada pela minha consciência ou por uma necessidade biológica do meu corpo? A pouco e pouco começou a perceber-se que as nossas decisões não são verdadeiramente nossas. Tudo o que fazemos corresponde ao que nos impõem as nossas características intrínsecas, como o ADN, a biologia e a química do nosso corpo, para além de outros factores, em interacção dinâmica e complexa com fatores exteriores, como a cultura, a ideologia e todos os múltiplos acontecimentos que ocorrem na nossa vida. Por exemplo, descobriu-se que há pessoas que são tristes, não porque a sua vida seja triste, mas pela simples razão de que o seu corpo não produz seretonina, uma substância que regula o humor. Assim sendo, muitas das ações dessas pessoas deprimidas têm origem nessa sua insuficiência química e não no livre-arbítrio. Está a perceber?"
"Estar, estou", disse Tomás, hesitante. "O meu pai já me tinha falado nisso e confesso que continua a parecer-me um pouco chocante."
"O quê?"
"Essa idéia de que não dispomos de livre vontade, de que o livre-arbítrio não passa de uma
ilusão. Parece que não passamos de uns meros robôs..."
"Talvez, admito que sim", concordou Luís Rocha. "Mas olhe que é o que a ciência de certo modo concluiu. Repare, a matemática é determinista. Dois e dois são sempre quatro. A física é a aplicação da matemática no universo, com a matéria e a energia a obedecerem a leis e forças universais. Quando um planeta gira à volta do Sol ou um electrão à volta do núcleo do átomo, isso não acontece porque lhes apetece, mas porque a isso as leis da física os obrigam. Está claro?"
"Sim, tudo isso é evidente."
"Agora repare. A matéria tende a organizar-se espontaneamente, em obediência às leis do universo. Essa organização implica uma complexificação, não é? Ora, a partir de um determinado limiar em que os átomos se organizam em elementos, o seu estudo deixa de pertencer ao campo da física e transfere-se para a química. Ou seja, a química é a física complexificada. Quando os químicos se começam a complexificar ainda mais, nascem os seres vivos, que se caracterizam pela sua capacidade de se reproduzirem e pelo seu comportamento teleológico, isto é, por agirem em função de um objetivo: a sobrevivência. O que eu quero dizer com isto é que a biologia é a química complexificada. Quando a biologia se torna muito complexa, emerge a inteligência e a consciência, cujos comportamentos, por vezes, parecem bizarros, não obedecendo aparentemente a nenhuma lei. Mas os psicólogos e os psiquiatras já demonstraram que todos os comportamentos têm uma razão de ser, não ocorrem espontaneamente nem por obra e graça do Espírito Santo. Podemos não nos aperceber das suas causas, mas elas existem. Há até experiências documentadas que mostram que o cérebro toma uma decisão de actuar antes de a consciência se aperceber disso. O cérebro toma a decisão e depois informa a consciência dessa decisão, mas isso é feito com tal sutileza que a consciência passa a acreditar que foi ela que tomou a decisão. Isto significa que a psicologia é a biologia complexificada. Está a seguir o meu raciocínio?"
"Sim."
"Muito bem. O que eu estou a tentar dizer com isto tudo é que, quando se procura a raiz mais simples das coisas, verifica-se que a consciência tem por base a biologia, que tem por base a química, que tem por base a física, que tem por base a matemática. Ora, lembro-lhe mais uma vez que um electrão não vira para a direita ou para a esquerda porque lhe apetece, porque exibe livre vontade, mas porque a isso as leis da física o compelem. O comportamento do electrão pode ser indeterminável, devido à sua extrema complexidade caótica, mas está determinado." Pôs a mão no peito. "Como nós somos todos feitos de átomos, organizados de uma forma extraordinariamente complexa pelas leis da física, o nosso comportamento é também determinista. Mas, tal como o electrão, o nosso comportamento é igualmente indeterminável, uma vez que resulta de uma inerente complexidade caótica. Um pouco como o estado do tempo. A meteorologia está determinada mas é indeterminável, devido à complexidade dos factores e ao problema do infinito, e pequenas alterações nas condições iniciais provocam resultados imprevisíveis a prazo. É a velha história do bater de asas de uma borboleta que pode provocar uma tempestade no outro lado do planeta daqui a um tempo. Também os psiquiatras dizem que um acontecimento na infância pode condicionar o comportamento de um indivíduo na idade adulta, não é? E o que é isso senão o efeito borboleta aplicado à escala humana?"
"Estou a perceber."
"O que eu quero com isto dizer é que, embora as nossas decisões pareçam livres, na verdade não são. Muito pelo contrário, todas elas são condicionadas por fatores de cuja influência não temos, na maior parte das vezes, a mínima noção."
"Mas isso é terrível", observou Tomás. "Significa que não somos donos de nós mesmos. Se já está tudo determinado, para que é que nos vamos preocupar em... uh, sei lá, em olhar para os dois lados quando atravessamos uma rua?"
"Você está a confundir determinismo com fatalismo."
"Mas, se formos a ver bem, não são os dois a mesma coisa?"
"Não, não são. De um ponto de vista macrocósmico, tudo está determinado. Mas, do ponto de vista do microcosmos de cada pessoa, nada parece determinado porque ninguém sabe o que vai acontecer a seguir. Há muitos fatores externos que nos obrigam a tomar decisões. Por exemplo, se começa a chover, decidimos abrir o guarda-chuva. Essa decisão foi nossa, embora já estivesse determinada porque, ainda que não o soubéssemos, as leis da física conspiraram para que fosse chover naquele instante e o software incorporado na nossa mente determinou que o guarda-chuva era a resposta adequada àquela situação exterior. Está a perceber? A livre vontade é um conceito do presente. Mas o fato é que não temos possibilidade de alterar o que fizemos no passado, pois não? Está feito. Isso significa que o passado se encontra determinado. Ora, se passado e futuro existem ambos, embora em planos diferentes, o futuro também está determinado."
"O problema mantém-se", insistiu Tomás. "Não passamos de marionetes."
"Não pense assim", disse o físico. "Pense num jogo de futebol."
"Num jogo de futebol?"
"Imagine que você tem gravado o Itália-França da Final do Mundial 2006. Quando o jogo decorre, os jogadores estão a tomar decisões livres, não estão? Pegam na bola e atiram-na para um lado ou para o outro. Só que, ao ver a gravação, sabemos que tudo está determinado. O jogo vai acabar 1-1 e a Itália vai ganhar nos penaltis. Façam os jogadores o que fizerem naquela gravação, o resultado está determinado, nunca o conseguirão alterar. No final do DVD, a Itália ganha. Mais do que isso, todas as ações dos jogadores, que são livres naquele momento, estão já determinadas. Até a cabeçada do Zidane no Materazzi." Sorriu. "Pois a vida é como um jogo gravado. Tomamos decisões livres, mas elas já estão determinadas."
"Estou a perceber, mas isso não me consola", insistiu Tomás. "Feitas as contas, tal significa na mesma que não somos donos de nós próprios."
Luís Rocha manteve os olhos cravados no seu interlocutor.
"Tal significa algo de muito mais importante do que isso, meu caro", sentenciou. "Muito mais."
"Muito mais importante?", admirou-se o historiador. "Em que sentido?"
O físico deixou passar um instante enquanto considerava a melhor maneira de prosseguir a sua explicação.
"Lembra-se do Demônio de Laplace?"
"Uh... mais ou menos."
"Como sabe, a ciência descobriu que todos os acontecimentos têm causas e efeitos, sendo que as causas já são efeitos de um acontecimento anterior e os efeitos se tornam causas de acontecimentos seguintes. Tem isto presente, não tem?"
"Claro."
"Levando às últimas consequências o incessante processo das causas e efeitos, o marquês de Laplace determinou, no século XVIII, que o atual estado do universo é efeito do seu estado anterior e causa daquele que se lhe seguirá. Se conhecermos todo o estado presente de toda a matéria, energia e leis, até ao mais ínfimo pormenor, conseguiremos calcular todo o passado e todo o futuro. Para recorrer à expressão utilizada pelo próprio Laplace, o futuro e o passado estariam nesse caso presentes aos nossos olhos." Apontou para Tomás. "E agora pergunto eu: qual a consequência desta constatação?"
O historiador suspirou.
"Está tudo determinado."
"Bingo!", exclamou Luís Rocha. "Está tudo determinado. De um certo modo, o passado e o futuro existem. Ora, da mesma maneira que não podemos alterar o passado, também não podemos alterar o futuro, uma vez que ambos são a mesma coisa em tempos diferentes. Isto quer dizer que, se o passado está determinado, então o futuro também está determinado. Percebe? Aliás, esta descoberta foi confirmada pelas teorias da Relatividade, cujas equações são deterministas e estabelecem implicitamente que tudo o que aconteceu e acontecerá se encontra inscrito em toda a informação inicial do universo. Lembre-se que espaço e tempo são diferentes manifestações de uma mesma unidade, um pouco como o yin eo yang, de tal modo que Einstein concebeu o conceito de espaço-tempo. Assim, do mesmo modo que Lisboa e Nova Iorque existem, mas não no mesmo espaço, o passado e o futuro existem, mas não no mesmo tempo. De Lisboa não consigo ver Nova Iorque, da mesma maneira que do passado não consigo ver o futuro, embora ambos existam."
"Hmm-hmm."
"As teorias da Relatividade mostraram, por outro lado, que o tempo decorre de modo diferente em diversos sítios do universo, condicionado pela velocidade da matéria e pela força da gravidade. Os acontecimentos A e B ocorrem em simultâneo num ponto do universo e decorrem desfasadamente noutros lugares, num ponto primeiro o A e depois o B, enquanto num terceiro ponto ocorre primeiro o B e depois o A. Isto quer dizer que, num ponto do universo, o B ainda não ocorreu, mas vai ocorrer. Aconteça o que acontecer, vai ocorrer porque isso está determinado." Inclinou a cabeça, sempre de olhos fixos em Tomás. "E, pergunto-lhe eu agora, quando é que tudo foi determinado?"
"Quando?"
"Sim, quando?"
"Uh... sei lá! No início, suponho eu."
"Nem mais", exclamou Luís Rocha. "Tudo foi determinado no início, no instante em que o universo se formou. A energia e a matéria foram distribuídas de determinada forma e as leis e os valores das constantes foram concebidos de determinada maneira, e isso determinou logo ali a história que toda aquela matéria e energia teriam daí para a frente. Está a perceber?"
"Sim..."
"E não está a ver a relação que tudo isso tem com o Princípio Antrópico?"
Tomás hesitou, procurando a ligação entre as duas coisas. Mas a hesitação durou apenas um breve instante, o momento de inspirar e expirar, porque logo arregalou os olhos e, afogueado, estarrecido, viu enfim a prova completar-se.
"Uh... caramba", balbuciou, na atrapalhação embasbacada de quem vê a verdade emergir como uma luz que encadeia. "Isto... uh... isto é... é incrível."
"O que eu quero dizer é que o fato de estar tudo determinado significa que tudo o que aconteceu, acontece e acontecerá está previsto desde o nascer do tempo. Mesmo esta nossa conversa já estava prevista. É como se nós fôssemos actores num palco colossal, cada um a interpretar o seu papel, em obediência a um monumental guião escrito por um argumentista invisível quando o universo começou." Deixou a ideia assentar. "Está tudo determinado."
"Meu Deus..."
"E é este o argumento que faltava e que, aos olhos do professor Siza, veio transformar o Princípio Antrópico em prova da existência de Deus. O universo foi concebido com um engenho tal que denuncia inteligência e com uma afinação tal que denuncia um propósito. A nossa existência não tem a mínima hipótese de ser acidental pelo simples facto de que tudo está determinado desde o início."
XL
Abandonaram a Biblioteca Joanina lado a lado. A noite caíra sobre Coimbra e uma aragem fresca soprava baixo pelo quase deserto Pátio das Escolas. Tomás estacou num degrau e olhou para o relógio da torre; eram já nove da noite. Havia muito tempo que não comia, mas a angústia de saber que só dispunha de mais onze horas para resolver o enigma roubava-lhe o apetite. É certo que Luís Rocha já lhe desvendara uma significativa parte do mistério, mas faltava-lhe o derradeiro pormenor. A cifra que continha a fórmula de Deus.
"Diga-me uma coisa", murmurou Tomás. "Não faz idéia do que consiste a última mensagem cifrada por Einstein, pois não?"
O físico olhou-o de modo estranho.
"Venha comigo", disse, fazendo um gesto com a mão para o seguir.
Luís Rocha desceu os degraus e virou à esquerda, com Tomás no encalço. Caminharam até à porta seguinte, no edifício situado ao lado da biblioteca. O historiador cruzou o magnífico portal que decorava a porta e, quase sem querer, decerto por deformação de historiador, identificou-lhe logo o estilo manuelino.
"Isto é uma igreja?", interrogou-se.
"É a Capela de São Miguel", revelou o seu anfitrião, arrastando-o para o interior. "Começou a ser erguida no século XVI."
As paredes apresentavam-se cobertas de azulejos azulados e o teto mostrava-se ricamente ornamentado com as armas de Portugal, mas o que dominava a capela era o soberbo órgão barroco incrustado na parede, à direita; tratava-se de um instrumento belíssimo, trabalhado ao pormenor, com anjos sentados no topo a soprar trompetes.
"Por que me trouxe aqui?", quis saber Tomás.
O físico sentou-se na ponta de um banco forrado a couro e sorriu.
"Não acha que faz sentido estarmos na casa de Deus quando estamos a falar de Deus?"
"Mas o Deus que você me apresentou não é o Deus da Bíblia", observou o historiador, fazendo um sinal com a cabeça para a imagem de Cristo crucificado sobre o altar.
"Eu apresentei-lhe Deus, meu caro", retorquiu Luís Rocha. "O resto são detalhes, não acha?"
"Se você o diz..."
"Uns chamam-lhe Deus, outros chamam-lhe Yeovah, outros Allah, outros Brahman, outros Dharmakaya, outros Tao." Colocou a palma da mão ao peito. "Nós, os cientistas, chamamos-lhe universo. Diferentes nomes, diferentes atributos, a mesma essência."
"Estou a ver", comentou o historiador. "Mas isso não resolve o meu problema, pois não?"
"Qual é o seu problema?"
"Em que consiste a última mensagem cifrada por Einstein?"
Luís Rocha deslizou na bancada e fez sinal a Tomás, que permanecia de pé, para se sentar ao seu lado. O historiador fez-lhe a vontade, apesar da angústia que lhe roía a paciência.
"Conhece as matriuskas?", perguntou o físico.
"Quem?"
"As matriuskas."
"São aquelas bonecas russas, não são?"
"Sim. Quando se abre uma, há sempre outra por dentro." Sorriu. "Tal como uma matriuska, a descoberta da segunda via resolveu um enigma, mas revelou um outro. Se Deus existe e concebeu o universo com uma afinação tal que determinou a nossa criação, tal parece indiciar que a nossa existência é o objetivo do universo, não é verdade?"
"É lógico."
"Mas isso não faz sentido, pois não?"
"Acha que não?", admirou-se Tomás. "Para mim faz todo o sentido."
"Faz sentido porque é uma constatação reconfortante", argumentou Luís Rocha. "Afinal de contas, a ciência sempre nos disse que nós não passávamos de uma insignificância à escala do universo, absolutamente irrelevantes na imensidão da existência, não é? Havia físicos que até defendiam que a vida pouco mais era do que uma farsa e que a nossa presença não possuía qualquer utilidade."
"Pelos vistos estavam enganados."
"Pois", assentiu Luís Rocha. "Considerando que o universo foi incrivelmente afinado para criar vida e que isso não é nenhum acidente porque está determinado desde o início do tempo, sim, tenho
de concordar que os meus colegas estavam enganados. E, no entanto, a questão mantém-se: não faz sentido que a nossa existência seja o objetivo do universo."
"Mas por que diz isso?"
"Pela simples razão de que nós aparecemos numa fase relativamente inicial da vida do universo. Se fôssemos o objetivo, apareceríamos no fim, não é? Mas não aparecemos. Aparecemos pouco depois do início. Porquê?"
"Será que Deus estava com pressa em criar-nos?"
"Mas para quê? Para que nos divertíssemos? Para que pudéssemos passar o tempo a ver televisão? Para tomarmos uns copos numa esplanada? Para andarmos sempre a falar de futebol e de mulheres? Para elas andarem a ler revistas cor-de-rosa e a ver telenovelas? Para quê?"
Tomás encolheu os ombros.
"Sei lá", exclamou. "Mas qual é a relevância dessa questão?"
Luís Rocha cravou os seus olhos castanhos nos verdes de Tomás.
"Porque esta é a questão resolvida pela última mensagem de Einstein."
"Como?"
"A cifra inserida por Einstein em A Fórmula de Deus resolve o problema do propósito da nossa existência."
Tomás meteu a mão ao bolso e retirou o papelinho dobrado que o acompanhava sempre.
Desdobrou a folha e releu a mensagem cifrada.
See sign
!ya ovqo
"Isto?"
"Sim."
"Você está-me a dizer que esta charada resolve o enigma da nossa existência?"
"Sim. Ela revela o objetivo da existência da vida."
O historiador voltou a analisar a mensagem.
"Mas como sabe você isso?"
"Foi o professor Siza que me disse."
"O professor Siza conhecia o segredo?"
"O professor Siza conhecia a pista para o segredo. Ele disse-me que Einstein lhe revelou que esta mensagem cifrada continha o endgame do universo."
"O endgame?"
"É uma expressão muito popular na América. Significa o objetivo final de um jogo."
Tomás abanou a cabeça, tentando entender o que lhe era revelado.
"Desculpe, não estou a perceber", exclamou. "Onde está a tentar chegar?"
O físico fez um gesto largo.
"Olhe para tudo o que nos rodeia", disse. "Aqui neste planeta há vida em toda a parte. Nas planícies e nas montanhas, nos mares e nos rios, entre as pedras e até debaixo da terra. Para onde nos viremos, vemos vida. E, no entanto, sabemos que tudo isto é efêmero, não é?"
"Claro, todos morremos."
"Não é isso o que eu estou a dizer", corrigiu Luís Rocha. "Quando eu digo que é tudo efêmero, o que eu quero dizer é que tudo isto está condenado a desaparecer. O período em que a vida é possível no universo é muito limitado."
"O que quer dizer com isso?"
"O que eu quero dizer é que nada é eterno. O que eu quero dizer é que este período fértil em vida não passa de um pequeno episódio na história do universo."
"Um pequeno episódio? Não entendo..."
"Ouça, a vida na Terra depende da atividade do Sol, não é? Ora bem, o Sol não vai existir até à eternidade. Se fosse um homem, já teria mais de quarenta anos, o que significa que provavelmente já passou mais de metade da sua existência. Todos os dias a nossa estrela está a tornar-se mais luminosa, aquecendo gradualmente o planeta até acabar por destruir toda a biosfera, o que deverá acontecer dentro de mil milhões de anos. Como se isso não bastasse, daqui a quatro ou cinco mil milhões de anos todo o combustível que alimenta a atividade solar irá esgotar-se. O núcleo, num esforço desesperado para manter a produção de energia, deverá encolher-se até que os efeitos quânticos actuem para o estabilizar. Nessa altura, o Sol inchará tanto que se transformará numa estrela gigante vermelha, com a sua superfície a crescer até engolir os planetas interiores."
"Que horror!"
"Pois é", disse o físico. "Mas é melhor ir-se habituando à idéia. Isto vai ficar muito pouco agradável, sabe? A própria Terra acabará por ser engolida pelo Sol, mergulhando naquela fornalha infernal. E, quando todo o combustível solar for consumido, a pressão interna entrará em colapso e o Sol encolherá até ficar reduzido ao atual tamanho da Terra, arrefecendo como uma anã negra. O mesmo processo ocorrerá nas estrelas que se encontram no céu. Uma a uma, todas incharão e todas morrerão, umas encolhendo até se tornarem anãs, outras explodindo em supernovas."
"Mas podem nascer novas estrelas, não é?"
"Vão nascer novas estrelas. O problema é que já nascem cada vez menos estrelas, porque os elementos que as formam estão a desaparecer, ou seja, o hidrogênio primordial está a esgotar-se e os gases começaram a dissipar-se. O pior é que, daqui a alguns milhares de milhões de anos, deixarão de nascer estrelas. Só haverá funerais galácticos. Com a gradual morte das estrelas, as galáxias vão-se tornando cada vez mais escuras até que, um dia, se apagarão todas e o universo se transformará num imenso cemitério, cheio de buracos negros. Mas mesmo os buracos negros irão desaparecer, com o total regresso da matéria à forma de energia. Numa fase muito adiantada, apenas restará radiação."
"Puxa", exclamou Tomás, uma expressão sombria no rosto. "O futuro adivinha-se negro."
"Muito negro", concordou Luís Rocha. "O que levanta um grande problema ao Princípio Antrópico, não acha?"
"Claro. Se o universo está destinado a morrer dessa forma, qual o objetivo da vida? Por que razão Deus afinou a criação do universo para permitir o nascimento da vida se planejava destruí-la logo a seguir? Qual o propósito de tudo isto?"
"Foi justamente isso o que pensou o professor Siza. Para quê criar a vida se a idéia é destruí-la logo a seguir? Para quê tanto trabalho se o seu produto é tão efémero? Qual é, afinal, o endgame?'"
"Pois, esse é um problema sem solução, não é?"
"Não", disse o físico. "Pelo contrário, tem solução."
Tomás arregalou os olhos.
"O quê?", admirou-se. "Tem solução?"
"Sim, o professor Siza encontrou a solução."
"Então conte lá isso, homem", exclamou o historiador, impaciente. "Não me mantenha assim em suspenso!"
"Chama-se o Princípio Antrópico Final e nasce da constatação de que não faz sentido estar tudo organizado de modo a fazer aparecer vida para depois se deixar que ela desapareça dessa maneira. O Princípio Antrópico Final postula que o universo se encontra afinado para provocar o nascimento da vida. Mas não é uma vida qualquer. É a vida inteligente. E, após ter aparecido, a vida inteligente jamais desaparecerá."
O historiador ergueu uma sobrancelha, mantendo a outra cerrada, numa expressão incrédula.
"A vida inteligente jamais desaparecerá?"
"Sim."
"Mas... mas como é isso possível? Não foi você que acabou de dizer que a Terra vai ser destruída?"
"Sim, claro. Isso é inevitável."
"Então como é possível que ela nunca desapareça?"
"Teremos de sair da Terra, está visto."
"Sair da Terra?" Tomás riu-se. "Desculpe lá, mas isto já começa a parecer má ficção científica."
"Acha que sim? E, no entanto, alguns cientistas começam a encarar seriamente esse cenário, sabia?"
O sorriso do historiador desfez-se.
"A sério?"
"Claro. A Terra não tem futuro, vai ser destruída."
"E vamos para onde?"
"Ora! Vamos para outras estrelas, claro."
Tomás abanou a cabeça, baralhado.
"Desculpe, mas, mesmo que assim seja, o que resolve isso?"
"Bem... parece-me óbvio, não é? Se formos para as estrelas, escaparemos à inevitável destruição da Terra."
"E o que nos adianta isso? Não são as estrelas que também vão desaparecer? Não são as galáxias que também se vão apagar? Não é o universo que também vai morrer? Mesmo que consigamos escapar da Terra, estaremos apenas a adiar o inevitável, não lhe parece? Nessas circunstâncias, como é possível postular que a vida inteligente jamais desaparecerá?"
Luís Rocha percorreu com os olhos o altar maneirista da capela, mas a mente encontrava-se bem longe dali, mergulhada algures nos labirintos do pensamento.
"O estudo da sobrevivência e do comportamento da vida no futuro longínquo constituiu-se recentemente como um novo ramo da física", disse, a voz assumindo o tom neutral característico das exposições acadêmicas. "Sabe, as investigações em torno desta questão começaram com a publicação em 1979 de um artigo assinado por Freeman Dyson com o título Time witbout end: Physics and Biology in an Open Universe. Dyson esboçou aí um primeiro esquema, muito incompleto, que viria a ser reformulado por outros cientistas que se interessaram pela mesma questão, designadamente Steve Frautschi, o qual publicou um outro texto científico sobre o mesmo assunto na revista Science em 1982. Sucederam-se novos estudos em torno deste problema, todos eles assentes inteiramente nas leis da física e na teoria dos computadores."
Tomás manteve uma expressão perplexa.
"Acho tudo isso extraordinário", comentou. "Não fazia a mínima idéia de que tinha aparecido um novo ramo da física dedicado à sobrevivência da vida no futuro longínquo. Se quer que lhe diga, nem vejo como tal seja possível, considerando o assustador cenário que você traçou sobre a inevitável morte das estrelas e das galáxias. Como é possível que a vida sobreviva nessas condições?"
"Quer que eu lhe explique?"
"Faça o favor. Sou todo ouvidos."
"Olhe, vou-lhe dar apenas as linhas gerais, está certo? Os pormenores são demasiado técnicos e parecem-me desnecessários nesta nossa conversa."
"Tudo bem."
"A primeira fase já está a decorrer. Trata-se do desenvolvimento da inteligência artificial. É verdade que a nossa civilização dá ainda os primeiros passos na tecnologia dos computadores, mas a evolução está a ser muito rápida e é possível que, um dia, sejamos capazes de desenvolver tecnologia tão ou mais inteligente do que nós. Aliás, à atual taxa de evolução, os cálculos mostram que os computadores atingirão o nível humano de processamento de informação e capacidade de integração de dados no prazo de um século ou pouco mais. Quando chegar o dia em que atingirem o nosso nível, os computadores adquirirão consciência, conforme, de resto, sugere o teste Turing, não sei se já ouviu falar."
"O meu pai já me mencionou, sim."
"Ora bem, os engenheiros prevêem que, para além de podermos vir a desenvolver computadores tão inteligentes como nós, poderemos também desenvolver robôs que sejam construtores universais. Sabe o que são construtores universais, não sabe?"
"Uh... não."
"Os construtores universais são engenhos que podem construir tudo o que possa ser construído. Por exemplo, uma máquina de uma fábrica de automóveis não é um construtor universal, uma vez que só sabe construir automóveis. Mas os seres humanos são construtores universais, dado que têm a habilidade de construir tudo o que possa ser construído. Ora, os cientistas dão como adquirido que é possível conceber uma máquina que seja um construtor universal. O matemático Von Neumann já mostrou como esses construtores podem ser criados e a NASA diz que é possível fabricá-los em algumas dezenas de anos, desde que haja financiamentos para isso, claro."
"Mas qual a utilidade desses... construtores universais? Servem para nos poupar trabalho, é?"
Luís Rocha fez uma curta pausa, para efeitos dramáticos.
"Servem para garantir a sobrevivência da civilização."
O seu interlocutor cerrou as sobrancelhas, surpreendido.
"Ah é?"
"Ouça, não se esqueça de que a Terra está condenada a morrer. Dentro de mil milhões de anos, o aumento da atividade solar destruirá toda a biosfera. O Princípio Antrópico Final estabelece que, uma vez tendo aparecido, a inteligência jamais desaparecerá do universo. Assim sendo, a inteligência na Terra não tem alternativa: terá de abandonar o berço e espalhar-se pelas estrelas. Os instrumentos desse processo são os computadores e os construtores universais. Parece inevitável que, algures no futuro, os seres humanos terão de enviar construtores universais computadorizados para as estrelas mais próximas. Esses construtores universais terão instruções específicas para colonizarem os sistemas solares que encontrarem e construírem aí novos construtores universais, os quais, por sua vez, serão enviados para as estrelas seguintes, num processo em crescimento exponencial. Isto principiará naturalmente com a exploração das estrelas que nos são mais próximas, como Próxima Centauri e Alfa Centauri, e estender-se-á gradualmente às estrelas seguintes, designadamente Tau Ceti, Epsilon Eridani, Procyon e Sirius numa segunda fase."
"Isso é possível?"
"Alguns cientistas dizem que sim. O processo levará muito tempo, claro. Uns milhares de anos. Mas, se isso é muito tempo à escala humana, não o é à escala universal."
"E quanto custa uma coisa dessas? Imagino que seja uma fortuna..."
"Oh, nem por isso", exclamou o físico. "Os custos são relativamente baixos, sabe? É que basta construir quatro ou cinco destes construtores universais, não é preciso mais. Repare, uma vez chegado a um sistema solar, o construtor universal irá procurar planetas ou asteróides onde poderá extrair os metais e toda a matéria-prima de que necessitar. O robô começará a colonizar esse sistema e a povoá-lo com vida artificial pré-programada por nós ou até com vida humana, uma vez que é possível dar-lhes o nosso código genético para reprodução sempre que as condições encontradas forem adequadas. Para além disso, o robô terá também a missão de fabricar novos construtores universais, que enviará para as estrelas seguintes. A medida que avança, o processo de colonização das estrelas ir-se-á acelerando porque cada vez haverá mais e mais construtores universais. Mesmo que a civilização original desapareça, devido a um qualquer cataclismo, esta civilização continuará a espalhar-se autonomamente pela galáxia, graças aos construtores universais e ao seu programa automático de colonização."
"Mas, afinal, qual o objetivo de tudo isso?"
"Bem, o primeiro objetivo será o de explorar, não é? Queremos saber coisas sobre o universo, um pouco como as explorações que fazemos na Lua e nos planetas do sistema solar. Depois, à medida que a habitabilidade na Terra se tornar mais difícil, a prioridade será encontrar planetas para onde se possa transferir a vida."
"Transferir a vida? Assim como se fosse uma espécie de Arca de Noé galáctica?"
"Isso."
Tomás remexeu-se no banco da capela.
"Ouça lá, não acha que tudo isto assume uns ares assim de... de ficção científica muito fantasiada?"
"Sim, admito que sim. É normal que, agora, tudo pareça uma fantasia. Mas, quando as coisas se tornarem graves cá na Terra, com o aumento da atividade solar e a degradação da biosfera, garanto-lhe que, nessa altura, o problema vai começar a ser encarado muito a sério, ouviu? O que nos parece hoje ficção científica tornar-se-á amanhã realidade."
O historiador ponderou a idéia.
"Sim, talvez tenha razão."
"Com a proliferação exponencial dos construtores universais, toda a nossa galáxia acabará por ser colonizada. De um pequeno planeta da periferia, a inteligência espalhar-se-á pela Via Láctea."
"E assim a vida escapará à inevitável destruição da Terra."
"Eu não disse isso. Disse que a inteligência se espalhará pela galáxia."
"Não é a mesma coisa?"
"Não necessariamente. A natureza só consegue criar a inteligência através de circunstâncias excepcionais envolvendo os átomos de carbono, a cuja complexa organização nós designamos vida. Mas o carbono só é predominante em estado sólido numa estreita faixa térmica. Nós, seres humanos, estamos a desenvolver uma certa forma de vida através de outros átomos, como o silício, por exemplo. O que os construtores universais vão espalhar pela galáxia será a inteligência artificial contida nos chips dos seus computadores. Não é certo que a vida baseada nos átomos de carbono seja capaz de sobreviver a viagens de milhares de anos entre as estrelas. É possível que isso se faça, não digo que não, mas tal está longe de ser certo, está a perceber? O que temos a certeza, no entanto, é que a inteligência artificial será capaz de o fazer."
"Mas o que você me está a dizer é que a vida está condenada a extinguir-se..."
"Tudo depende do que se define por vida, claro. A vida baseada no átomo de carbono está condenada a extinguir-se, sobre isso não restam quaisquer dúvidas. Mesmo que se consiga fazer essa tal Arca de Noé galáctica e levar a vida tal como a conhecemos para um planeta de Próxima Centauri, por exemplo, o fato é que, um dia, todas as estrelas vão desaparecer, não é? Ora, sem estrelas, a vida baseada no átomo de carbono não é possível."
"Mas isso não é igualmente válido para a inteligência artificial?"
"Não necessariamente. A inteligência artificial não necessita de estrelas para funcionar. Necessita de fontes de energia, como é evidente, mas essas fontes não têm de ser necessariamente as estrelas. Pode ser a força forte contida no núcleo de um átomo, por exemplo. Repare, a inteligência pode encolher-se para espaços muito pequenos, através do recurso à nanotecnologia, e aí precisará de muito menos energia para se manter em funcionamento. Nesse sentido, e se definirmos a vida como um processo complexo de processamento de informação, a vida continuará. A diferença é que o hardware deixa de ser o corpo biológico e passam a ser os chips. Mas, se formos a ver bem, o que faz a vida não é o hardware, pois não? É o software. Eu posso continuar a existir, não num corpo orgânico feito de carbono, mas num corpo metálico, por exemplo. Se já há pessoas que vivem com pernas e coração artificial, por que não se poderá viver com um corpo todo artificial? Se se transferir toda a minha memória e todos os meus processos cognitivos para um computador e me derem umas câmaras para ver o que se passa em redor e um altifalante para falar, eu continuarei a sentir-me eu. Num corpo diferente, é certo, mas serei eu na mesma. Se formos a ver bem, a minha consciência é uma espécie de programa de computador e nada impede que esse programa continue a existir caso eu consiga criar um hardware adequado onde o inserir."
O historiador fez uma careta incrédula.
"Mas, ouça lá, acha que isso é mesmo possível?"
"Claro que é. Repare, esta questão está já a ser estudada por físicos, matemáticos e engenheiros, o que pensa você? E o fato é que eles já concluíram que, por muito extraordinário que tudo isto possa parecer agora, é perfeitamente possível de colocar em prática. Ora, sendo possível, não é difícil de concluir que será colocado em prática." Enfatizou a palavra será. "O postulado do Princípio Antrópico Final assim o exige, para garantir a sobrevivência da inteligência no universo."
"É incrível", exclamou Tomás. "E o que acontecerá quando, mesmo no final, a matéria estiver a desaparecer, convertendo-se em energia?"
O físico mirou o seu interlocutor.
"Bem, nós temos aqui duas situações. Ou o universo acaba no Big Freeze ou acaba no Big Crunch. Para já, o universo parece estar a expandir-se mesmo perto do ponto crítico, o que nos impede de ter a certeza sobre qual o seu destino. Mas, apesar de se ter constatado que a expansão do universo está em aceleração, o professor Siza acreditava que os princípios que observamos em toda a natureza apontam para um cenário de Big Crunch."
"Ah, sim? Porquê?"
"Por duas razões. Em primeiro lugar, porque a aceleração da expansão do universo tem obrigatoriamente de acabar."
"Como sabe isso?"
"Por uma razão muito simples. Há galáxias que se afastam de nós a noventa e cinco por cento da velocidade da luz. Se a aceleração continuasse para sempre, haveria um momento em que a velocidade de expansão seria superior à velocidade da luz, não é? Ora, isso não pode ser. Portanto, a expansão do universo vai ter de abrandar, não há alternativa."
"Hmm", assentiu Tomás. "Mas isso não significa obrigatoriamente inversão de expansão para retração."
"Pois não", concordou o físico. "Mas significa que a aceleração é uma fase que terá de acabar. Daí à retração é um passo, cuja probabilidade decorre de uma constatação simples." Pigarreou. "Repare, se há coisa que nós estamos a verificar sempre que analisamos um sistema é que tudo tem um início e um fim. Mais importante ainda, tudo o que nasce acaba por morrer. As plantas nascem e morrem, os animais nascem e morrem, os ecossistemas nascem e morrem, os planetas nascem e morrem, as estrelas nascem e morrem, as galáxias nascem e morrem. Ora, nós sabemos que o espaço e o tempo nasceram, não é? Nasceram no Big Bang. Assim sendo, e seguindo o princípio de que tudo o que nasce acaba por morrer, também o espaço e o tempo terão de morrer. Porém, o Big Freeze estabelece que, tendo o espaço e o tempo nascido, nunca morrerão, o que viola esse princípio universal. Consequentemente, o Big Crunch é o destino mais provável do universo, uma vez que respeita o princípio de que tudo o que nasce acaba por morrer."
"Estou a perceber", murmurou Tomás. "Isso quer dizer que haverá um momento em que a matéria começa a recuar, é?"
"Não, não. O professor Siza achava que ela não vai recuar."
"Então o que irá acontecer?"
"Como já lhe expliquei, os cientistas acreditam que o universo poderá ser esférico, finito mas sem limites. Se nós conseguíssemos viajar sempre numa determinada direção, provavelmente acabaríamos de volta ao ponto de partida."
"Seríamos uma espécie de Fernão de Magalhães cósmicos."
"Exato. Ora, como as teorias da Relatividade mostram que o espaço e o tempo são diferentes manifestações da mesma coisa, o professor Siza acreditava que, de certo modo, também o tempo é esférico."
"O tempo é esférico? Não estou a perceber..."
"Imagine o seguinte", disse Luís Rocha, simulando uma esfera com as mãos. "Imagine que o tempo é o planeta Terra e que o Big Bang se situa no pólo Norte. Consegue imaginar isso?"
"Sim."
"Imagine que há vários navios que se encontram todos juntos no pólo Norte, o ponto do Big Bang. Um chama-se Via Láctea, outro chama-se Andrômeda, outro chama-se Galáxia M87. De repente, os navios põem-se a viajar todos para sul em direções diferentes. O que é que acontece?"
"Bem... uh... começam a afastar-se uns dos outros."
"Exato. Como a Terra é esférica e os navios estão a afastar-se do pólo Norte, isso significa que se estão a distanciar uns dos outros. Os navios afastam-se tanto que, a certa altura, deixam de se ver uns aos outros, não é?"
"Sim."
"O afastamento continua até chegarem ao equador, o ponto de apogeu. Mas, depois do equador, e porque a Terra é esférica, o espaço começa a encolher e os navios começam a aproximar-se uns dos outros. Até que, já perto do pólo Sul, se voltam a avistar."
"Exato."
"E colidem todos no pólo Sul."
Tomás riu-se.
"Se não tiverem cuidado."
"O professor Siza acreditava que o universo é assim. O espaço-tempo é esférico. Neste momento, e devido ao Big Bang e à expansão possivelmente esférica do espaço e do tempo, a matéria está a afastar-se. As galáxias vão ficando mais distantes umas das outras, até se distanciarem tanto que deixarão de se ver. Ao mesmo tempo vão morrendo aos poucos, transformando-se em matéria inerte. O frio será generalizado. Mas haverá um momento em que, após o apogeu da expansão, o tempo e o espaço começarão a encolher. Isso fará aumentar a temperatura da mesma maneira que um gás em retração aquece. O encolher do espaço-tempo acabará com uma brutal colisão final no pólo Sul do universo, uma espécie de Big Bang ao contrário. O Big Crunch."
"E é possível a vida sobreviver a isso?"
"A vida biológica, assente no átomo de carbono?" Abanou a cabeça. "Não. Essa vida desaparecerá muito antes disso, já lhe disse. Mas o postulado do Princípio Antrópico Final estabelece que a inteligência sobreviverá ao longo da história do universo."
"Mas como?"
"Espalhando-se pelo universo de tal modo que assumirá o controle de todo o processo."
Tomás riu-se de novo.
"Você deve estar a brincar."
"Estou a falar a sério. Muitos físicos acreditam que isto é possível e alguns até já demonstraram como."
"Ouça, você acredita mesmo que a inteligência vinda de uma coisa tão minúscula como a Terra pode assumir o controle de uma coisa tão imensa como o universo?"
"Isso não é tão incrível como pode parecer à primeira vista", argumentou Luís Rocha. "Não se esqueça do que diz a Teoria do Caos. Se uma borboleta pode afetar o clima do planeta, por que não poderá a inteligência afetar o universo?"
"Estamos a falar de coisas diferentes..."
"Estaremos?", interrogou-se o físico. "Tem a certeza?"
"Bem... uh... acho que sim. Apesar de tudo, o universo é muito maior do que a Terra, ou não é?"
"Mas o princípio é o mesmo. Repare, quando a vida apareceu na Terra, há mais de quatro mil milhões de anos, alguma vez alguém diria que aquelas moléculas minúsculas e insignificantes iriam evoluir tanto que acabariam um dia por assumir o controle de todo o planeta? Claro que não. Isso, se fosse dito naquela altura, seria risível. E, no entanto, cá estamos nós a discutir hoje os efeitos da ação humana na Terra. Dizer que a vida tomou o controle do nosso planeta é, nos tempos que
correm, uma perfeita banalidade. Ora, se, partindo de umas meras moléculas, ao fim de mais de quatro mil milhões de anos a vida tomou conta da Terra ao ponto de influenciar a sua evolução, o que impede que, daqui a quarenta mil milhões de anos, a inteligência tome conta de toda a galáxia ao ponto de também influenciar a sua evolução?"
"Hmm... estou a perceber..."
"Os mecanismos através dos quais esse controle é exercido são explicados por vários estudos científicos, os principais conduzidos por Tipler e Barrow, e não vale a pena eu entrar aqui em pormenores sobre a física e a matemática que envolve esse processo. O essencial, no entanto, é que o professor Siza estava convencido de que o postulado do Princípio Antrópico Final é verdadeiro. Ou seja, tendo aparecido no universo, a inteligência jamais desaparecerá. Se, para sobreviver, a inteligência tiver de controlar a matéria e as forças do universo, controlá-las-á."
"E é esse o propósito do universo? Permitir que a inteligência apareça?"
"Não sei se é esse o propósito do universo. Sei, no entanto, que a vida não é o objetivo, mas um passo necessário para permitir o aparecimento da inteligência."
"Estou a ver", suspirou Tomás, absorto nas implicações desta idéia. "Isso é... é incrível."
"É, não é?"
O historiador recostou-se na cadeira, contemplativo, mergulhado num espantado raciocínio. Mas o turbilhão de pensamentos logo foi assaltado por uma irrequieta dúvida e Tomás, emergindo da abstração, voltou-se para o seu interlocutor com o rosto contraído numa careta pensativa.
"Ouça lá, diz você que, uma vez tendo aparecido, a inteligência jamais desaparecerá, não é?"
"Sim, é o que prevê o Princípio Antrópico Final."
"Mas como poderá a inteligência sobreviver ao Big Crunch? Como poderá ela sobreviver ao fim do universo?"
Luís Rocha sorriu.
"A resposta a essa pergunta, meu caro, está inserida na última cifra deixada por Einstein."
"A que está no manuscrito?"
"Sim. É essa fórmula que revela o endgame do universo."
XLI
A folha rabiscada em Teerão apresentava-se já muito maltratada, com as pontas rasgadas e a textura enrugada de tantos maus tratos sofridos nos bolsos dos casacos de Tomás. Mas o estado do papel era irrelevante; aquela não passava de uma qualquer página arrancada de uma resma de A4 do ministério iraniano da Ciência. O que tinha valor, ali, não era a folha, mas as letras rabiscadas; tratava-se, afinal de contas, da única cópia da mensagem que Einstein cifrara por volta de 1955, quando redigiu em Princeton o documento que os seus pupilos mantiveram em segredo e que se encontrava agora escondido algures num qualquer cofre no Irã.
Sentado num gabinete do Departamento de Física da Universidade de Coimbra, Tomás inclinou-se na secretária, a testa apoiada na mão, os olhos congelados na charada, a mente buscando uma estratégia para quebrar aquela cifra. A porta do gabinete abriu-se.
"Jantar", anunciou Luís Rocha, trazendo umas sanduíches e umas garrafinhas de sumo. "Não se trabalha de barriga vazia."
O físico sentou-se junto à secretária e estendeu uma sanduíche e um sumo ao seu convidado.
"O que é isto?", perguntou Tomás, analisando a sanduíche envolta em papel vegetal.
"Sandes de atum. Vendem ali numas máquinas."
O historiador trincou um pedaço e adotou uma expressão aprovadora.
"Hmm", gemeu, rolando os olhos e mastigando a sanduíche. "Já estava com fome."
"Então não havia de estar?", riu-se Luís Rocha, enquanto desembrulhava o seu sanduíche. "São onze da noite, caracas. Já tinha o estômago a dar horas..."
"Onze da noite?"
"Sim, o que pensa você? É tarde."
Sentindo o pânico crescer-lhe pelo estômago, Tomás consultou o relógio e confirmou as horas.
"Eh pá! Já só tenho... nove horas."
"Nove horas? Nove horas para quê?"
"Para decifrar a charada." Pousou o sanduíche sobre a secretária e voltou a sua atenção para a folha amarrotada. "Preciso de trabalhar."
"Calma! Coma primeiro."
"Não posso. Já perdi demasiado tempo."
O historiador regressou ao problema da cifra, embora com a boca cheia de um grande pedaço do sanduíche de atum. O seu colega começou também a comer e arrastou a cadeira para junto de si, de modo a poder igualmente espreitar aquela página amarfanhada.
See sign
!ya ovqo
"Essa é a mensagem cifrada, não é?"
"Sim."
"Como é que se decifra isso?"
"Não sei, teria de ler o documento. Você leu-o?"
"Sim, o professor Siza mostrou-mo."
"E ele deu-lhe alguma pista sobre como o decifrar?"
"Não. Apenas me disse que havia uma relação entre o código de cifra e o nome de Einstein."
Tomás suspirou.
"Pois, foi o que também me disse Tenzing." Coçou a cabeça. "Isso quer dizer que o nome de Einstein pode ser... uh... pode ser a palavra-chave do alfabeto de cifra. Se calhar ele usou uma cifra de César com o seu nome." Pegou na caneta e puxou uma folha branca. "Deixe cá ver."
Gatafunhou o alfabeto de cifra com o nome de Einstein.
"Não estou a perceber", disse Luís Rocha, sem tirar os olhos daquela linha.
"É uma cifra de César com o nome de Einstein à cabeça", explicou Tomás. "Está a ver? A idéia é escrever a palavra-chave no início, neste caso o nome de Einstein, retirando-lhe, no entanto, as letras repetidas, o ein final, e depois meter o resto do alfabeto pela sua ordem normal, embora evitando as letras já usadas na palavra-chave, einst. Está a perceber?"
"Sim. Mas o que se faz agora com isso?"
"Agora? Agora pomos o alfabeto normal debaixo do alfabeto de cifra e vamos ver se as letras correspondem a alguma mensagem."
Escreveu o alfabeto simples debaixo do alfabeto de cifra.
"Vamos agora ver a que corresponde este ya ovqo que se encontra na segunda linha da charada."
Os olhos começaram-lhe a bailar entre as duas linhas do alfabeto. "O y mantém-se y, o a torna-se e, o o fica p, o v mantém-se v, o q torna-se r e o o é p."
Redigiu a solução.