A História e Suas Epidemias
Capítulo 4
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Pasteur iniciava sua longa batalha com os defensores da geração espontânea — ou abiogênese, hipótese pela qual seres vivos se form ariam a partir da m atéria bruta, não viva, do m eio —, que era defendida desde o século XVIII. Para dem onstrar que o ar continha os agentes que contam inavam as reações quím icas, ele realizava experim entos em recipientes de vidro que dificultavam a entrada de ar e, portanto, não sofriam a contam inação.
As cirurgias realizadas na Europa m uitas vezes apresentavam resultados catastróficos — um grande núm ero de pacientes m orria no pós-operatório em decorrência de infecções. Um dos fatores que contribuíam para essa situação era a conduta de François Broussais, cirurgião fam oso e contrário às m edidas de lavagem com substâncias quím icas e aplicação de com pressas fervidas, que funcionavam para destruir bactérias. Broussais preconizava a perm issão da supuração, acreditando ser esta necessária para a cicatrização. Em geral, salas cirúrgicas eram anfiteatros cheios de espectadores, ou salas escuras, úm idas, atulhadas de m óveis e pó; m uitas delas com vazam entos e m ofo nas paredes. Em am bientes acadêm icos, ficavam próxim as às salas de necropsia, e era com um interrom per-se a cirurgia para que se fizessem com parações com o cadáver na sala ao lado. Os aventais dos cirurgiões — usados com as m angas arregaçadas até os cotovelos — eram pretos e suj os de sangue e pus, e era neles que esfregavam as m ãos para continuar o procedim ento. Os instrum entos e fios eram retirados dos bolsos, e m uitas vezes os cirurgiões prendiam o bisturi entre os dentes para poderem m anusear m elhor vísceras e órgãos. Nesse contexto, não é de adm irar que houvesse grande incidência de infecções.
Na cidade de Glasgow, Inglaterra, o cirurgião Joseph Lister faria a prim eira associação dos trabalhos de Pasteur com a prática m édica. Lister se preocupava quando atendia pacientes com fraturas expostas, aquelas em que o osso entra em contato com o ar, por saber que havia grande possibilidade de ocorrer putrefação dos tecidos, com infecção, perda do m em bro fraturado e até m esm o evolução para infecção generalizada e m orte. Por outro lado, os pacientes com fraturas não expostas apresentavam boa evolução. Lister acreditava que o ar era o responsável pela evolução trágica das fraturas expostas, m as estava longe de saber por quê.
Em 1865, procurado pelo professor de quím ica Thom as Anderson, de Glasgow, Lister tom ou conhecim ento de diversos relatórios da Académ ie Roy ale des Sciences de Paris. Eram os relatórios de Pasteur sobre a quím ica ferm entativa, que dem onstravam o papel do ar com o transm issor de germ es. Finalm ente, ele pôde identificar o ar com o o fornecedor dos agentes responsáveis pela putrefação dos tecidos e iniciar seus estudos com substâncias que m atassem esses agentes. Em 12 de agosto daquele ano, teve a oportunidade de testar sua teoria ao atender um m enino que caíra de um a charrete e apresentava fratura exposta na perna. Lister lavou a ferida com água contendo ácido fênico e nos dias seguintes fez curativos periódicos com algodão em bebido nesse ácido. O resultado final foi excelente, sem nenhum sinal de infecção e com cura. O cirurgião de Glasgow im pôs então seu m étodo com o rotina para os pacientes atendidos com fratura exposta, obtendo êxito. Em 1867, seus resultados o encoraj aram a operar um a fratura m al consolidada: ele abriu a pele e expôs o osso para correção, enfrentando assim o seu antigo tem or de expor um osso de fratura não exposta. Contava com o seu m aior aliado: os curativos contendo ácido fênico. Resultado: sucesso total. Em 1867, publicou trabalhos num a das revistas m édicas m ais conceituadas da época, The Lancet. A Europa tom ava conhecim ento da anti-sepsia e cada vez m ais se fechava o cerco às bactérias com o causadoras das infecções. Lister foi, posteriorm ente, considerado o grande responsável pela introdução da anti-sepsia.
Em 1865, a França via-se às voltas com um sério problem a na indústria de produção de seda em decorrência de um a doença que acom etia o bicho-da-seda e que a estava fazendo perder m uitas criações. Jean-Baptiste Dum as foi incum bido pelo Senado de analisar a dim ensão da dificuldade enfrentada pela indústria sericícola. Procurou o em inente quím ico Pasteur para auxiliá-lo no estudo. Pasteur iniciou seu trabalho com as duas doenças que atingiam o bicho-da-seda e eram as responsáveis pelo desastre industrial: a pebrina e a flacidez. Reconheceu nas larvas doentes um odor forte, nauseante, levantando a hipótese de tratar-se de um a reação de ferm entação, a qual conhecia bem . Pasteur abriu o tubo digestivo das larvas e encontrou bolhas de gás. Após triturar o órgão e exam iná-lo ao m icroscópio, identificou m icro-organism os m óveis que seriam responsáveis pela doença. De onde eles viriam ? Com o entrariam nas larvas? Pasteur triturou folhas da am oreira, alim ento do bicho-da-seda, deixando-as expostas ao ar na tentativa de m ostrar o aparecim ento do agente infeccioso. Após pincelar as folhas trituradas com dej etos das larvas contam inadas e fornecê-las a larvas sadias, ele notou o aparecim ento da doença, o que evidenciava a transm issão. Tam bém descobriu as condições que favoreciam a proliferação do agente causador da flacidez, os fatores que aum entam a suscetibilidade da larva à doença. Com todo esse conhecim ento, pôde orientar as m edidas de controle: arej ar as serigarias, lavar o chão, fazer o tratam ento higiênico do alim ento, colher as folhas de am oreira e conservá-las e evitar o calor e a um idade nas criações. Estava cada vez m ais claro o papel dos m icro-organism os com o causadores de doenças.
Depois de passar algum tem po estudando a fabricação de vinhos, Pasteur instituiu, para evitar a contam inação e fabricação indesej ável (a acidificação por produção de m icroorganism os contam inantes) da bebida, o aquecim ento a 60°C ou 100°C, m étodo que foi reconhecido com o "pasteurização". Seus trabalhos seriam suspensos em 1870 pela entrada da França na Guerra Franco-Prussiana; m as, apesar dessa interrupção, o confronto traria sua contribuição para o avanço do entendim ento das infecções.
UM MAL Q UE FEZBEM
Em 1854 iniciou-se a Guerra da Crim éia, com a invasão pela Rússia dos territórios da Moldávia e Valáquia pertencentes ao Im pério Otom ano. Vários Estados se colocaram ao lado dos turcos, envolvendo-se na guerra a França, a Grã-Bretanha, a Áustria e a Sardenha.
A Guerra da Crim éia foi responsável por inovações na participação de enferm eiras no tratam ento de soldados feridos. Quando as tropas francesas e inglesas desem barcaram na Asia Menor para sitiar as bases navais dos russos no m ar Negro, foram acom etidas por epidem ias de tifo, cólera e disenterias. Enquanto os franceses contraíam tifo, os britânicos m orriam pelas doenças infecciosas intestinais, as disenterias. Com a participação, pela prim eira vez em um a guerra, de correspondentes de noticiários, os j ornais ingleses publicavam a m orte de 50% dos m ilitares internados nos hospitais. O governo inglês enviou à região um grupo de enferm eiras chefiado por Florence Nightingale, para auxiliar nos hospitais dos acam pam entos. Florence coordenou a reform a no superlotado hospital britânico im provisado em Escutári, no estreito de Bósforo. Montou duas cozinhas para a preparação dos alim entos e tam bém instituiu talheres, pratos e bandej as para as refeições, que anteriorm ente eram feitas com as m ãos. A lim peza no hospital foi iniciada com a utilização de escovas. Os doentes passaram a ter roupas hospitalares lim pas com a criação de um a lavanderia, o banho tornou-se obrigatório e providenciou-se o desentupim ento dos esgotos.
A lim peza que Florence im pôs com tam anha dedicação causou enorm e redução da taxa de m ortalidade hospitalar: de 427 para 22 óbitos em cada m il pacientes. Florence foi hom enageada após seu retorno à Inglaterra e recebe reconhecim ento até hoj e na literatura m édica. Com o bloqueio im posto pelos ingleses aos russos e com a tom ada da base russa de Sebastopol, em setem bro de 1855, a guerra chegava ao fim com a derrota da Rússia e a unificação dos territórios invadidos, que form aram a Rom ênia. A Guerra da Crim éia resultou no enfraquecim ento da Rússia e da Áustria, fato que seria usado no processo de unificação da Alem anha. Em 1862, Otto von Bism arck chegou ao poder na Prússia com o m inistro, sob o reinado de Guilherm e I. Em bora não tenha participado da guerra, ele se aproveitou do enfraquecim ento dos dois Estados para iniciar seu obj etivo de unificação alem ã. A unificação contou com o espírito nacionalista dos alem ães, atiçado por Bism arck. Os Estados sulistas da Baviera e Wurtem berg perm aneciam fora da Confederação Alem ã. Para incluí-los na unificação, Bism arck necessitaria aguardar a ocasião apropriada. A oportunidade surgiu com o im passe diplom ático entre franceses e alem ães em torno da sucessão do trono espanhol. A fam ília real prussiana pleiteava direitos sobre aquele trono, e isso tornou necessárias reuniões diplom áticas das em baixadas francesa e alem ã. Bism arck acreditava que um a guerra com a França acenderia o espírito nacionalista das regiões do sul, favorecendo a sua unificação. Assim , arquitetou notícias de agressão entre o Rei Guilherm e I e o em baixador francês, que foram recebidas com revolta e suspeitas de que a França pretendia dom inar territórios alem ães. Com o não se visse outra saída, a guerra com eçou em 1870. O confronto da França com a Prússia, encerrado em 1871, foi o capítulo final da unificação do Estado alem ão program ada por Bism arck e proporcionou contribuições im portantes para o esclarecim ento da transm issão das doenças infecciosas.
Com as prim eiras derrotas do exército francês na batalha de Sedan, Napoleão III foi forçado a abdicar do trono, proclam ando-se a República Francesa com um governo provisório. Diante do avanço das tropas prussianas à capital, o governo viu-se obrigado a distribuir arm as a populares que form avam a Guarda Nacional e para a população operária, resistindo assim à invasão. Entretanto, o fato de os operários estarem arm ados favoreceu, após um a série de conflitos políticos internos, a ocupação dos departam entos governam entais em m arço de 1871 — a cham ada Com una de Paris —, com a tom ada do poder e a realização de eleições em poucos dias. Os eleitos tom aram posse no Hotel deVille. Com a assinatura da paz, o governo francês dirigiu sua atenção a Paris, tom ada pelos operários. Em um a sem ana, o exército invadiu e reconquistou a cidade, rua a rua, derrubando barricada por barricada, fuzilando os revolucionários, prendendo e deportando cerca de quarenta m il habitantes e m assacrando outros
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trinta m il. Foi o fim da Com una, que governou de m odo efêm ero. Derrotada, a França perdeu territórios fronteiriços e teve de pagar indenizações. A Confederação da Alem anha do Norte saiu vitoriosa, com a unificação envolvendo os Estados do sul e tendo agora com o im perador o Kaiser Guilherm e I.
A Guerra Franco-Prussiana precipitou a grande epidem ia de varíola que a Europa conheceu em 1870 e 1871 e que se espalhou na Am érica e na África. A epidem ia com eçou nas tropas francesas e, com os deslocam entos de soldados e m igrações de população refugiada, dissem inou-se prim eiro pela França e depois pela Europa. Naqueles dois anos, a população francesa perdeu entre sessenta m il e noventa m il pessoas vitim adas pela varíola. Com a chegada da epidem ia à Alem anha, principalm ente à sua região norte, que não adotava a vacina, m orreram cerca de 120 m il pessoas em 1871 e 1872. Refugiados franceses desem barcaram na Inglaterra, levando a doença. Foram anos difíceis para os ingleses. Depois de um a epidem ia de escarlatina que causou cerca de 82 m il m ortes, a m aioria de crianças m enores de cinco anos, entre 1868 e 1870, chegava a epidem ia de varíola, que m ataria m ais 42 m il — dessa vez, adolescentes e adultos. Só em Londres, foram dez m il m ortos. De 1870 a 1875, a varíola m atou cerca de m eio m ilhão de europeus. A Guerra Franco-Prussiana trouxe contribuições para que se aceitasse a vacinação contra a varíola, que não era consenso na Europa e no resto do m undo. Enquanto a Confederação Alem ã tornava a vacina obrigatória para seu exército, Napoleão III não a im punha aos franceses. Esse fato refletiu-se na incidência da doença durante o confronto: apenas 8.463 soldados prussianos contraíram a varíola, com 459 m ortes; ao passo que o exército francês registrou 125 m il doentes e 23.470 m ortes, o que pode ter colaborado para sua derrota. A incidência de óbitos entre os civis era bem m enor nas cidades que instituíram a vacinação para suas crianças. Esses registros precipitaram os atos governam entais de obrigatoriedade da vacina na Inglaterra em 1871 e na Alem anha em 1874.
Outras contribuições da guerra foram fatos que aj udariam a esclarecer o m ecanism o de infecção nas feridas cirúrgicas num m om ento em que a Europa ainda discutia o papel dos m iasm as e contágios e que Lister publicava seus trabalhos, perm anecendo à espera de adeptos à sua teoria. Durante a guerra, foi possível avaliar os resultados trágicos das cirurgias realizadas na Europa. Na França foram feitas cerca de 13 m il am putações de soldados feridos, que resultaram em dez m il m ortes. A indicação de am putação praticam ente correspondia à condenação à m orte.
Nos hospitais m ilitares, em anava das salas lotadas de m oribundos um odor pútrido, fétido, proveniente dos tecidos necróticos e infectados, m uitas vezes pelas técnicas cirúrgicas em pregadas sem a m enor noção de assepsia. Nos m om entos finais da guerra, quando Paris foi cercada pelo exército prussiano, o hall do Grand Hotel se transform ou em enferm aria desses m oribundos, com seus perfum es franceses substituídos pelo odor característico e insuportável dos tecidos necróticos.
Foi nesse caos vivido em Paris que surgiu o cirurgião Alphonse Guérin com sua teoria de que a form ação do pus, que parecia m inar nos feridos de guerra, vinha do ar — dos germ es presentes no ar —, com o Pasteur relatara.
Baseando-se no m esm o raciocínio de Lister, Guérin com eçou a um edecer as lesões com água fenicada ou álcool canforado, para depois cobri-las com cam adas de algodão. O resultado foi espantoso: aplicando o procedim ento em 34 operados, ele conseguiu que 19 sobrevivessem , núm ero m uito acim a da m édia vigente. A m edicina ganhava m ais um adepto da teoria da transm issão das doenças infecciosas por m icro-organism os.
KOCH E PASTEUR
Quando, com o térm ino da Guerra Franco-Prussiana, todos aqueles que serviram à Prússia retornavam para suas cidades de origem , um m édico entre eles, Robert Koch, fixou-se no distrito de Wollstein. Na década de 1870, duas escolas contribuíram para a elucidação do papel das bactérias com o causadoras das doenças infecciosas: a escola alem ã, com Robert Koch, e a francesa, com o reinicio dos trabalhos de Pasteur, interrom pidos pela guerra. Am bas as escolas estudavam então a doença do carbúnculo, ou anthrax, que m atava anim ais bovinos, caprinos e eqüinos. Se naquela época o anthrax preocupava os órgãos responsáveis pela pecuária das nações, no prim eiro ano do século XXI cartas contam inadas com esse agente deixariam em pânico a população dos Estados Unidos.
Em 1850 surgia o prim eiro trabalho sobre o anthrax, realizado por Casim ir Davaine. Ele exam inou o sangue de carneiros m ortos pelo anthrax e descobriu elem entos filam entosos em form a de bastonete em grande quantidade, os quais apontou com o causadores da doença. Davaine inoculou o sangue que continha os bacilos em anim ais sadios e constatou que estes adquiriam o anthrax. Parece clara a experiência que com prova o agente causal da doença, m as naquela época ainda era m uito com batida a teoria da existência de m icro-organism os que causassem infecções. Os bacilos identificados por Davaine foram interpretados com o um a conseqüência da doença e não com o sua causa. Nem m esm o Davaine se convenceu de seu experim ento. O m undo teria de esperar por Koch e Pasteur.
Robert Koch m ontou um laboratório em sua própria casa e iniciou seus trabalhos sobre o anthrax. Seu obj etivo inicial era provar que o bacilo descoberto por Davaine era o causador da doença; para tal, seria necessário isolá-lo, provar sua capacidade de reprodução e, então, por inoculação, constatar o surgim ento daquele m al. Koch trabalhou na criação de m étodos de cultura que reproduzissem o agente. Um dos que desenvolveu consistia em um a gota de nutriente entre duas lâm inas com o sangue infectado, e assim docum entava a reprodução do bacilo ao m icroscópio. Após diluir o líquido, Koch o inoculava novam ente na cultura e repetia esse procedim ento várias vezes, certificando-se de que os outros elem entos do sangue tinham sido elim inados, perm anecendo apenas o bacilo do anthrax, por se m ultiplicar. Com a inoculação do bacilo isolado, reproduziu a doença e conseguiu provar a causa do anthrax, publicando seus trabalhos no ano de 1876.
Em 1877, o m inistro da Agricultura da França cham ava Pasteur para agir nas criações dos bovinos e caprinos que estavam sendo dizim adas pelo anthrax. Pasteur realizou um trabalho sem elhante ao de Koch com o obj etivo de isolar o bacilo, elim inando os outros elem entos do sangue. Para isso, usou a urina com o m eio de cultura com um a gota de sangue contam inado; após o crescim ento do bacilo, sem eava um a gota do líquido novam ente em urina. Repetindo esse processo várias vezes, elim inava o sangue para que perm anecesse apenas o bacilo que, posteriorm ente inoculado em coelhos, determ inava a doença. Com a descoberta da causa do anthrax, em 1878, Pasteur interessou-se pelo m ecanism o de transm issão da doença e pôde assim agir na form a de prevenção, em benefício da econom ia francesa. Acrescentou o bacilo ao alim ento do gado, m as não conseguiu reproduzir a doença. Em seguida, adicionou ao alim ento algum as folhas e gravetos que causam traum as, arranhões na m ucosa oral do gado, e com isso obteve o surgim ento do anthrax. Estava assim com provado que o anthrax ocorria pela presença do bacilo no pasto e que penetrava nos anim ais por traum as em sua m ucosa oral.
Pasteur acreditava que o fato de os anim ais m ortos serem enterrados no m esm o cam po em que o gado sadio pastava estabelecia algum a condição para a transm issão — o bacilo do anthrax deveria ser transportado dos anim ais m ortos para as folhagens do pasto, causando a doença; porém , de que form a saía do fundo da terra não se sabia. Ele finalm ente fechou o ciclo de transm issão da doença ao exam inar o intestino das m inhocas e com provar a existência de esporos do bacilo. Era a m inhoca que rem ovia a terra e, pelas galerias que criava, levava o bacilo dos anim ais m ortos para a superfície. Finalizando os trabalhos, Pasteur pôde form alizar seu relatório ao Ministério da Agricultura e orientar os fazendeiros sobre as m edidas para evitar o anthrax — enterrar anim ais m ortos longe da região de pastagem e afastar o rebanho de alim entos capazes de causar traum as, com o espigas de aveia, palhas e cardo. Os trabalhos de Pasteur e Koch foram som atórios, esclarecendo pela prim eira vez, por m eio do anthrax bovino, o agente causador, o m ecanism o de transm issão da doença e as m edidas profiláticas. Estavam abertas as portas para a aceitação definitiva dos agentes infecciosos com o causadores das doenças. Os m iasm as, com o tem po, seriam esquecidos pelo m eio científico. Koch contribuiu para a descoberta dos agentes infecciosos de outras doenças, um a vez que desenvolveu processos de coloração dos germ es ao m icroscópio — introduziu a técnica de coloração das bactérias por anilina, conseguindo assim diferenciá-las m elhor; criou um m étodo de fotografia m icroscópica e tam bém o exam e com lente de im ersão. Com o desenvolvim ento de diversos tipos de m eios de cultura para crescim ento das bactérias, os anos seguintes seriam m arcados pela identificação da m aioria dos agentes causadores de infecção. Até 1890, j á tinham sido reconhecidos os agentes das seguintes doenças: anthrax, febre tifóide, lepra, m alária, tuberculose, cólera, infecções de pele, difteria, tétano, pneum onia e gonorréia.
UM CONTINENTE MISTERIOSO
O início do século XIX m arcou o com eço da exploração efetiva de um continente m isterioso, nunca antes desbravado pelos europeus, a África. Por suas características, era difícil a penetração em seu interior: na porção setentrional do continente, o grande deserto do Saara; na sua porção central e litorânea, florestas tropicais abrigando doenças infecciosas — principalm ente a m alária — que acom etiam qualquer estranho, além de bactérias causadoras de disenterias, m ortais à época.
A m alária é um a doença infecciosa causada pelo agente Plasmodium. O doente a adquire ao ser picado por um m osquito que introduz o Plasmodium na corrente sangüínea, e esse m osquito existe em abundância nas florestas tropicais ao longo da região equatorial entre os trópicos do globo. Existem três espécies principais de Plasmodium: o vivax, o falciparum e o malariae. O Plasmodium falciparum é responsável pela m alária m ais grave, conhecida com o febre quartã, dado o seu ciclo de reprodução a cada 72 horas, originando a febre a cada intervalo do ciclo. O agente invade as células verm elhas do sangue, ocasionando sua destruição, com conseqüente anem ia. A doença caracteriza-se tam bém por febre m uito elevada e dores pelo corpo. O acom etim ento dos vasos sangüíneos leva à obstrução da passagem do sangue, com perda da função do rim e lesão cerebral, que podem evoluir para com a e m orte.
A África sem pre foi o berço da m alária, e desde a Antigüidade em barcações que dali partiam com pessoas doentes ou m osquitos levavam epidem ias da doença para os países do Mediterrâneo. Com o aum ento da população européia e o desenvolvim ento das cidades, os aterros nas áreas alagadas do Mediterrâneo livraram essa região da m alária, acabando com as condições de proliferação dos m osquitos. Foi da África, pelas navegações realizadas para o tráfico negreiro, que o agente causador da m alária seguiu para os países da Am érica, onde a doença perm anece até hoj e em form a endêm ica. Os m osquitos que a transm item existiam em núm ero abundante nas florestas africanas e proliferavam nas épocas de chuva. Essas florestas tropicais predom inam na região central do continente, seguindo a linha do equador, e no litoral, principalm ente na costa oeste.
Em 1805, o governo britânico financiou um a das prim eiras explorações para o reconhecim ento do interior africano. A m issão era com andada pelo m édico escocês Mungo Park, que j á tinha estado na região dez anos antes. Os exploradores entrariam pela costa oeste, no rio Gâm bia, e, ao atingirem o rio Niger, teriam com o obj etivo navegá-lo para fazer o reconhecim ento. A expedição de Park com eçou na época das chuvas, em que havia um grande núm ero de m osquitos e, neles, o agente da m alária. Dos 45 hom ens que acom panhavam a m issão, som ente 11 conseguiram atingir o Niger. Park organizou o retorno do grupo, m as m orreu no cam inho após fazer o reconhecim ento de parte daquele rio. Todas as expedições que iam para o interior africano pelas regiões litorâneas florestais enfrentavam a m esm a dificuldade. Os relatos citavam índices de 33% a 56% de m ortes por m alária ou disenteria entre os britânicos.
A década de 1830 foi m arcada pela tentativa de intensificar as navegações no Niger pela costa da Nigéria, porém a m alária e as diarréias atrasariam as explorações. Vários são os relatos de m ortes em expedições nessa costa africana. Um a em barcação que saíra da costa com 49 hom ens perdeu quarenta deles antes de iniciar seu regresso. Em outra m issão na foz do Niger, m orreram 63 dos 145 hom ens. A m alária era conhecida com o a tum ba dos hom ens brancos, um a vez que os nativos, por terem nascido na região endêm ica, apresentavam certa resistência à doença.
NOVASDROG AS
Com o Descobrim ento da Am érica, os europeus entraram em contato com um a nova vegetação, e receberam dos indígenas ensinam entos m edicinais sobre m uitas plantas. A m edicina nas colônias am ericanas era deficiente. As drogas terapêuticas eram enviadas da Europa de m odo esporádico e sofriam constante deterioração pelo longo tem po da travessia m arítim a. Assim , dada a escassez dos m edicam entos, os que se conservavam próprios para o consum o tinham custo elevado. Os m édicos nas colônias eram raros em conseqüência dos baixos salários. Som ente nos m om entos de calam idade, com o na epidem ia de varíola de 1722 em São Paulo, é que os órgãos m unicipais rem uneravam bem pelo exercício da m edicina.
Num a colônia com poucos m édicos e m edicação européia em quantidade insuficiente, dissem inaram -se as tradições indígenas das plantas m edicinais. Os j esuítas exerceram o papel de m édicos filantrópicos desde a sua chegada à Am érica, onde fundaram a Santa Casa de Misericórdia na cidade do Rio de Janeiro, entre 1567 e 1582. A instituição atendia os enferm os, e a arte de curar era praticada pelos j esuítas, que aperfeiçoavam seus conhecim entos com a cultura indígena. Assim , esses padres foram os principais divulgadores das plantas, "ervas e raízes utilizadas pelos índios no tratam ento de doenças. Mantinham um intercâm bio de inform ações sobre as plantas m edicinais nas colônias portuguesas. Publicaram , em 1766, um a farm acopéia j esuíta das espécies do Brasil,
Macau e Índia. As plantas eram tão fam osas que em 1795 o Brasil enviava a Portugal 432 arrobas da raiz da erva ipecacuanha para tratam ento de diarréia. Foram os j esuítas que introduziram na Europa, em 1632, a substância eficaz contra a m alária contida na casca da quina, árvore presente no Peru. Som ente em 1640, o m édico Juan delVega teve conhecim ento da substância. Em 1638, a esposa do vice-rei do Peru, Ana Osório, a condessa de Chinchón, contraiu a tem ível febre terçã (m alária). Foi tratada de m aneira eficaz e rápida com a substância. Com o térm ino do m andato do m arido da condessa e o seu regresso à Europa, Vega levou com ele grande quantidade da substância da planta, a futura cinchona, vendendo-a em Sevilha.
A droga eficaz contra as febres se difundiu rapidam ente pela Europa em form a de pó, diluído em líquidos, e em pílulas. Mas o m eio m édico ficou dividido em relação à sua eficácia. Os que defendiam a teoria de Galeno não viam nenhum efeito da substância para o equilíbrio dos hum ores — nenhum a ação purgativa ou em ética. Mas sua eficácia era o argum ento dos que se m ostravam contrários à decadente teoria de Galeno: tratava-se de um a droga eficaz sem efeito purgativo ou em ético; portanto, a tese em questão é que estaria errada. A substância da quinina, presente na cinchona, tem efeito realm ente eficaz contra a m alária: destrói o Plasmodium, o agente infeccioso, e prom ove a cura. É em pregada até hoj e no tratam ento da m alária pelo P. vivax. Em relação ao P. falciparum, a form a m ais grave da doença, perdeu seu efeito ao longo do século XX, pela resistência que o agente adquiriu a essa droga. Realm ente, os europeus usavam um a planta que curava a m alária, m as a utilizavam para com bater febres em geral; se fosse por m alária, curaria, m as se fosse por outra causa não haveria resposta. Isso gerou controvérsias quanto à sua eficácia. Com o desenvolvim ento da quím ica do século XIX, isolou-se a substância da m orfina em 1804. Pierre Joseph Pelletier, em 1817, isolou a em etina das raízes da ipecacuanha. Os quím icos trabalhavam em seus laboratórios com m elhores m étodos para a purificação das substâncias ativas das plantas. Assim , em 1820, Pelletier e Joseph Bienaim é Caventou descobriram a quinina com o princípio ativo da casca da cinchona, isolando-a para o tratam ento. Em 1823, a droga era com ercializada pela prim eira vez na Filadélfia e difundida pelo vale do Mississippi.
Ainda na década de 1820, a França iniciaria sua invasão do território da Argélia, na costa do Mediterrâneo. A m alária, presente na região, foi responsável por m uitas baixas nas tropas francesas, m as nada parecido com as ocorridas na população africana em decorrência das atrocidades com etidas pelos europeus. O m édico do exército francês, François Maillot, em pregou a quinina no tratam ento dos doentes, proporcionando-lhes a cura e aj udando na conquista m ilitar do território argelino.
O núm ero de franceses que partiam para a colonização dos territórios recém -conquistados era pequeno em razão do m edo constante das doenças tropicais, em especial da m alária. Sua m igração para a região seria incentivada com o surgim ento da profilaxia da m alária com quinina, em 1860, quando a taxa de m ortalidade pela doença caiu de 63 para um a m orte em cada m il im igrantes. Assim , por conseqüência, deu-se a entrada dos europeus no interior tropical do continente africano. As potências européias haviam descoberto um a arm a para a expansão das cam panhas m ilitares que im punham seu im perialism o nas colônias. A quinina, usada para reduzir a ocorrência de baixas entre os m ilitares enviados às áreas tropicais, perm itiu um a redução de 61% no núm ero de m ortes pela m alária de soldados franceses na Argélia, de 60% de ingleses no território indiano e de 90% de ingleses instalados em algum as ilhas do Caribe. Enquanto as expedições avançavam no interior da África, com sua taxa de m ortalidade peculiar, o cirurgião Alexander Bry son conseguiu dem onstrar, em 1847, que, recebendo a quinina, o indivíduo ficava protegido contra a m alária. Era descoberta e em pregada pela prim eira vez na História a profilaxia de um a infecção por m eio de um a droga eficaz. O Dr. William Baikie foi o prim eiro a navegar o rio Niger, em 1854, recebendo a profilaxia e dem onstrando seus resultados positivos nos territórios africanos. A descoberta abriu os horizontes para as explorações do interior tropical do continente. A eficácia da droga foi tão bem -aceita, que o governo da Bolívia se viu obrigado a proibir a saída da planta de suas florestas na década de 1840. As m edidas fizeram com que os ingleses levassem sem entes para plantá-las na Índia e no Ceilão.
EXPLORANDO
Na segunda m etade do século XIX, intensificou-se entre os países europeus a disputa por um pedaço de terra no globo que pudessem usufruir com o colônia. Os m aiores alvos foram os territórios do Sudeste Asiático e a África. Este últim o, com o região recém -explorada, foi o principal continente a ser dividido entre os europeus.
Consolidada a industrialização da Europa, os países necessitaram de m aior m ercado consum idor e, fundam entalm ente, de m atéria-prim a, que era adquirida com a conquista de um a colônia fornecedora — daí a disputa por esses territórios. Londres era a capital do m undo industrializado, em suas ruas funcionava o m ercado financeiro m undial. Em prestavam -se libras esterlinas a j uros, contratavam -se fretes navais para o transporte de cargas pelos países europeus, faziam -se seguros com diversos fins. O litoral ocidental da África j á era explorado e colonizado pelos portugueses desde o século XV, enquanto o território oriental do continente, até a cidade de Sofala, próxim o à ilha de Madagascar, era ocupado pelos árabes. Abaixo desse ponto não se atreviam a prosseguir, tem endo lendas de forças m arítim as que atraíam as em barcações para o fundo do m ar. Por tal m otivo, esses m eios de transporte não tinham m ateriais de m etal, com o pregos, que tam bém poderiam ser arrastados para o fundo das águas. O interior africano, ainda inexplorado, perm anecia com sua m ata virgem e sua população livre do contato com agentes infecciosos estranhos. A situação com eçou a m udar no início do século XIX quando se iniciou a corrida pela exploração desse território m isterioso que em polgava os noticiários da Europa e dos Estados Unidos. Um dos principais nom es que viriam a ser conhecidos por essas expedições foi o do m édico escocês David Livingstone. Ele com eçou a trabalhar na sociedade m issionária de Londres e, aos 27 anos, em 1840, foi enviado para a África do Sul, então colônia britânica. Livingstone ganhou notoriedade ao explorar o interior do território em direção ao norte. Em 18S3, em preendeu sua segunda expedição, que cruzou a região sul do continente africano, partindo da cidade do Cabo até Zam bézi, no litoral oriental, atravessando o interior até chegar a Luanda em 1856. Livingstone tornou-se fam oso na Europa por esse feito, registrando descobertas de acidentes geográficos, rios e lagos. A população britânica e continental estava ávida por inform ações do continente estranho que descrevessem os hábitos daquela população desconhecida. Mas um a das notícias que m ais chocaram a Europa foram os relatos de Livingstone sobre a escravidão vigente no interior, im posta tanto pelos portugueses com o pelos árabes. Assim , iniciou-se um a cam panha hum anitária contra a escravidão, e que seria usada m ais tarde com o pretexto para a colonização. Em 1867, Livingstone partiu de Moçam bique para o interior africano com o obj etivo de descobrir a nascente do rio Nilo. A época, a Europa j á conhecia os feitos do m édico e os acom panhava pelos j ornais, estando apreensiva pela chegada de novas notícias a qualquer m om ento. Livingstone encontrou dificuldades em sua últim a expedição, e a Europa ficou sem saber dele. Tendo em vista o m istério sobre o seu paradeiro e a possibilidade de se obter um furo de reportagem com a descoberta de tal inform ação, foi enviada um a expedição para encontrá-lo, sob o com ando de Henry Morton Stanley. Nascido na Irlanda, Stanley em igrou para os Estados Unidos, onde ganhou destaque com o j ornalista em Nova Orleans, sendo posteriorm ente correspondente estrangeiro. Partiu com a função de encontrar Livingstone e obteve êxito, registrando-se sua fam osa frase: "Dr. Livingstone, I presume?" Separaram -se e Stanley conseguiu reportar notícias de Livingstone para a Europa e os Estados Unidos, alcançando reconhecim ento e abrindo portas para continuar suas explorações. Livingstone, entretanto, não retornou da expedição; m orreu no interior da África em 1873. Naquele ano, partiu de Zanzibar, ilha da África oriental, o explorador britânico Verney Lovett Cam eron com o obj etivo de descobrir o paradeiro de Livingstone. Encontrou-o m orto e seguiu até o Atlântico, tornando-se o prim eiro a cruzar a África tropical de oeste a leste. Ao retornar de sua expedição em busca de Livingstone, Stanley, em associação com a firm a farm acêutica de Burroughs e Wellcom e, padronizou um a caixa de utensílios m édicos para as explorações, que continha desinfetantes, purgantes, em éticos e, o principal, a quinina. Stanley seguiu os cam inhos de Livingstone com o explorador do interior africano. Em 1874, em preendeu a segunda expedição à região, saindo de Zanzibar em um a caravana de 359 pessoas. Explorou o lago Vitória e percorreu o rio Congo, term inando a m issão com alguns poucos m em bros depauperados pela fom e, no oceano Atlântico, em 1877. Os acontecim entos na Europa à época tornariam a exploração daquele rio fundam ental para a colonização do interior do Congo, o que uniria Stanley ao reino da Bélgica.
Enquanto o im perialism o e a disputa pelos territórios africanos se concretizavam , Leopoldo II, rei da Bélgica, m anifestava seu interesse em adquirir um a colônia para exploração. Mas quase todos os territórios acessíveis da África j á estavam sob o dom ínio da Inglaterra, Espanha, Itália, Alem anha, França e de Portugal. Leopoldo II teria de entrar em conflito com as nações européias ou pleitear um território virgem ; no caso, o interior do Congo, que ainda era um espaço neutro. Para adquirir essa m ata virgem , o m onarca usou de diplom acia e obj etivos hum anitários. Prim eiro, obteve o apoio do presidente dos Estados Unidos, com o pretexto de hum anizar aquele povo, cristianizá-lo, alfabetizá-lo, acabar com a fom e e, principalm ente, com bater a escravidão árabe. Após conseguir o apoio dos Estados Unidos, o rei da Bélgica partiu para ganhar a adesão das nações européias, e foi bem -sucedido. Finalm ente, em 1876, quando Stanley ainda navegava pelo rio Congo, era realizada a Conferência Geográfica de Bruxelas, com o reconhecim ento, por parte dos representantes de diversas nações, do proj eto da Bélgica de adm inistrar o território do Congo e pôr em prática ações hum anitárias. Para dar início à colonização, Leopoldo II precisava agora de aj uda, e esta chegaria com o final da expedição de Stanley. Em 1885, foi realizada a conferência de Berlim , em que as nações definiram as regras da colonização da África — e que ficou fam osa por ter levado a crer que o continente seria dividido entre elas. Estava estabelecida a "Associação Internacional do Congo", sob o com ando de Leopoldo II. Após o regresso de Stanley à Europa, o rei da Bélgica tratou de m anter contato com a pessoa m ais indicada para a exploração e fundação de vilas no Congo. Stanley foi contratado para tais serviços, e em fevereiro de 1879 partiu em sua m issão, que culm inaria com a construção de um a estrada de ferro para a subida das m ontanhas litorâneas e transporte de em barcações para a parte central navegável do território. Com isso, foram fundadas diversas vilas e bases de arm am entos pelo interior. O Congo estava colonizado e seu povo sob o com ando arm ado dos belgas. Os nom es das vilas e acidentes geográficos não deixavam dúvidas sobre quem m andava na região: Léopoldville, Stanley Pool, lago Leopoldo II, Stanley ville e Stanley Falls. A tranqüilidade daquela população africana estava com os dias contados — avanços na indústria de produção de borracha selariam seu destino.
Os europeus tiveram conhecim ento do látex com o Descobrim ento da Am érica no final do século XV. Em 1770, ao analisar am ostras daquela substância extraída das árvores pelos índios da Am érica do Sul, o quím ico britânico Priestley descobriu sua propriedade de apagar m arcas de lápis, surgindo assim o nom e inglês rubber (apagador). Em 1823, Charles Macintosh desenvolveu, na Inglaterra, o processo de fabricação em m assa dessa substância que, aplicada a tecidos, os tornava im perm eáveis — criava-se assim a capa de chuva. Por volta de 1840, o am ericano Charles Goody ear desenvolveu o m étodo industrial da vulcanização, que consistia em adm inistrar enxofre à borracha quente. Com o em prego dessa técnica, a borracha ficava m ais m aleável, perdia a propriedade de grudar e tam bém o m au cheiro, o que m elhorou a qualidade das botas e capas de chuva.
A expansão do em prego da borracha deu-se na década de 1890, quando o irlandês John Dunlop inventou um a tira pneum ática que, adaptada ao aro das bicicletas, as tornava m ais fáceis de usar; a com panhia Dunlop desencadearia, com a produção desses pneum áticos, a febre pelas bicicletas, abrindo assim as portas para a indústria autom obilística. O boom do novo produto desencadeou a industrialização m aciça de obj etos com o pneus, m angueiras, tubos e m ateriais de vedação. Associada à proliferação pelo globo de fios de telégrafo, telefone e eletricidade, que consum iam isolantes de borracha, a produção desse m aterial ultrapassou os lim ites; seu preço disparou no m ercado m undial e a exploração do látex, a m atéria-prim a da borracha, gerou riqueza sem precedentes. Para contentam ento de Leopoldo II, sua nova colônia era rica em látex.
UM EXTERMÍNIO
O Congo deixava de ser um fornecedor de m arfim e passava a ser o grande m eio de riqueza da Bélgica pela exploração do látex. Mas o que o m undo não conhecia era a m aneira pela qual Leopoldo II o adquiria, j á que pregava a não-escravidão.
As aldeias eram dom inadas pelo exército belga; esposas e crianças, m antidas com o reféns, eram colocadas em cativeiro sem condições de higiene e com pouca alim entação. Em troca, os chefes de fam ília eram obrigados a penetrar nas m atas da floresta tropical para apanhar o látex, sob a ordem de obter um a cota m ínim a. Para conseguirem a quantidade exigida, esses hom ens ficavam até um m ês na m ata. A m edida que o látex se esgotava, era necessário penetrar cada vez m ais no interior da floresta, o que os fazia perm anecer m ais tem po ausentes. Quando não obtinham a cota m ínim a, eram punidos com a am putação da m ão direita e até com a m orte. O m étodo de controle dos m ilitares belgas era relacionar a cada bala de fuzil usada um a m ão decepada, prova do bom uso do arm am ento. Vários relatos de m ãos decepadas sendo queim adas foram feitos
por visitantes m issionários. {40}
Nesse contexto de exterm ínio, a população negra do Congo foi reduzida à m etade. Muitos fam iliares reféns sucum biram pela desnutrição e pela doença. Com os chefes de fam ília ausentes ou, em outras palavras, separados de suas m ulheres e filhos, a taxa de natalidade caiu para praticam ente zero. O assassinato da população pelo exército belga não poupou os que se rebelavam , e as doenças infecciosas tam bém aj udariam a dizim ar aquele povo. A com unicação terrestre do litoral africano com o interior do Congo intensificou-se em decorrência da extração do látex e da m elhoria do transporte ferroviário e por em barcação. A varíola, freqüente naquele litoral, atingia agora o interior do Congo, onde a população j am ais tivera contato com ela e, portanto, não lhe tinha im unidade. A taxa de m ortalidade por essa infecção pode ser com parada com a das com unidades indígenas da Am érica na chegada dos europeus no século XV. À m edida que eles invadiam o interior da África, levavam agentes infecciosos desconhecidos das tribos daquela região. Em 1897, construía-se a prim eira ferrovia do leste africano na colônia inglesa, e a varíola j á estava presente em Mom basa, cidade do litoral. A ferrovia transportou o vírus para o território do Quênia, causando a grande epidem ia que m atou 40% dos negros doentes. Apesar das atrocidades e do exterm ínio do povo do Congo pela violência, e tam bém da associação desse fato à chegada da varíola, esse episódio histórico foi m arcado pelo alastram ento da doença do sono. Causada por um parasita, o Trypanosoma, a doença do sono é transm itida pela picada da fam osa m osca tse-tsé. Com a infecção, o paciente apresenta períodos de febre, dores de cabeça e fraqueza intensa. A progressão do quadro inclui um a fase de letargia e prostração, o que deu origem aos nom es "doença do sono" e "letargia negra", com evolução para a m orte.
A doença sem pre existiu ao longo do rio Congo, acom etendo os povoados ribeirinhos de form a endêm ica. Com a chegada dos belgas, essa região sofreu um a alteração ecológica brutal. Áreas im ensas da vegetação foram devastadas para a extração do látex. Houve a form ação de centros populosos, além de um aum ento do tráfego com ercial pelas rotas terrestres, especialm ente ao longo do rio. A colonização belga favoreceu a dissem inação das m oscas e a propagação de doentes, prim eiram ente pelos territórios do Congo e depois por outras colônias africanas. Em 1896, nos arredores da cidade de Lukolela m orreram cinco m il negros. Na chegada do cônsul britânico Roger David Casem ent, em 1903, a cidade tinha apenas 352 nativos.
A proliferação da m osca tse-tsé e o aum ento do núm ero de doentes espalhavam a epidem ia pelos principais centros com erciais. Em 1903, restaram m enos de cem negros em Léopoldville. Entre 1896 e 1906, a doença m atou m eio m ilhão de habitantes no Congo. Com o trânsito hum ano, ela deixava a região e invadia outros territórios. Atingiu o leito do rio Nilo, alastrando-se pela área de Uganda, onde levou à m orte cerca de duzentas m il pessoas. Alcançou o lago Vitória. Na década de 1920, avançou para a região da Nigéria, m atando 30% dos doentes. Nos anos 1930, chegou a Gana, e dali tom ou a m aioria dos países do oeste africano no final daquela década.
Não há com o obter registro do que causou a m orte dos povos do Congo, m as pode-se estim ar que a população foi reduzida à m etade. Com o o prim eiro censo da região foi feito em 1920, quando havia dez m ilhões de habitantes, conclui-se que o núm ero de m ortes sob o dom ínio de Leopoldo II foi de dez m ilhões, e as doenças infecciosas foram responsáveis por m ais da m etade desse total. O continente africano tinha vivido epidem ias devastadoras proporcionadas pela chegada dos europeus e pelas alterações geográficas que eles provocaram . A doença do sono, presente na África, é causada pelo Trypanosoma brucei. Na Am érica do Sul, conhecem os a doença de Chagas causada pelo Trypanosoma cruzi, tam bém transm itido por um inseto, o barbeiro, que habita as casas de pau-a-pique da região central do Brasil. Em bora causem doenças diferentes em regiões distintas, esses agentes pertencem à m esm a fam ília — Trypanosoma. Mas o que faria com que dois agentes da m esm a fam ília existissem em locais tão distantes, sem indícios históricos de que tivessem sido transportados de um continente para outro, com o ocorreu, por exem plo, com a varíola? Na década de 1990, o m aterial genético — DNA — desses agentes foi subm etido a estudos. As variações presentes no DNA evidenciaram que am bos devem ter se originado de um Trypanosoma único há cerca de cem m ilhões de anos, época em que o continente am ericano estava unido ao africano. Quando ocorreu sua separação, provavelm ente o Trypanosoma causador da doença de Chagas, após sofrer m utações e adaptar-se, evoluiu no Brasil, enquanto o causador da doença do sono perm aneceu na África. Aperfeiçoados nos anos 1990, os estudos do m aterial genético dos m icroorganism os prom overam um avanço no conhecim ento da história dos agentes infecciosos. Os próxim os anos fornecerão m ais esclarecim entos sobre a origem de m uitas infecções ao longo dos séculos e m ilênios.
UM IMPÉRIO TROPICAL
No século XIX, enquanto a Europa vivia suas prim eiras pandem ias de cólera, com os profissionais da área de saúde discutindo as teorias de aquisição das infecções, as cidades brasileiras preparavam condições propícias para o surgim ento de epidem ias. Alterações políticas, econôm icas e sociais foram determ inantes no estabelecim ento de tais condições. Em 1808, a corte portuguesa, com seus 15 m il integrantes, chegava ao Rio de Janeiro. Transcorridos 14 anos, o Brasil tornava-se independente de Portugal. Na prim eira m etade do século XIX, o Rio de Janeiro recebeu um a população considerável de im igrantes dos portos portugueses. A população de hom ens livres passou de vinte m il no início do século para 46 m il em 1821. A cidade transform ou-se no coração do Im pério, centro político e econôm ico. Desenvolveu-se e progrediu com conseqüente aglom eração hum ana, tornando-se escala obrigatória de em barcações procedentes do Atlântico Norte e do Pacífico, inclusive dos navios a vapor, m ais velozes e com chegadas precisas. Todas as m ercadorias passavam pelo Rio de Janeiro, de onde eram distribuídas aos diversos territórios do Im pério.
Paralelam ente ao desenvolvim ento da cidade, o Brasil encontrou um novo produto agrário poderoso após a queda das exportações de café das ilhas do Caribe. O café iniciou sua ascensão com o principal produto com ercial brasileiro. Em 1831, sua exportação ultrapassava a do açúcar e, quatro anos depois, o País atingia a liderança m undial na produção desse grão. Apesar da proibição do tráfico negreiro em 1831, era difícil, com o crescim ento da produção de café no Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo, privar o Im pério do ingresso de escravos. O Rio de Janeiro passou a ser o principal entreposto de cativos provenientes de Angola e o m aior term inal negreiro da Am érica Latina. Os escravos chegavam à cidade e eram distribuídos principalm ente para São Paulo e Minas Gerais.
Quando a corte portuguesa desem barcou no Brasil fugindo das tropas de Napoleão, a Inglaterra colocou-se com o im portante potência aliada. Em franco desenvolvim ento industrial, lhe era interessante am pliar o m ercado consum idor de suas m ercadorias com hom ens livres, m otivo pelo qual se tornou líder m undial contra a escravidão. Dom João aceitou em 1810a pressão inglesa para o térm ino do tráfico, m as isso não surtiu efeito. O estabelecim ento da m edida coincidira com a expansão da produção cafeeira, e o núm ero de escravos continuou a crescer: em 1817, entraram 18 m il deles no Rio de Janeiro e de 1827 a 1830, 150
m il. {41}
Em virtude da ilegalidade do tráfico, agora as condições dos negros eram m uito piores que antes. Navios não apropriados eram utilizados para burlar o constante patrulham ento britânico da costa brasileira e m aiores aglom erados de escravos eram vistos nos navios negreiros, um a vez que era preciso transportar a "carga" m áxim a de cativos em em barcações m enores. Até 1810, os escravos que chegavam ao Rio de Janeiro perm aneciam na ilha de Jesus, para então serem concentrados nos m ercados da ruaValongo, onde eram expostos nus para o com ércio. Com a instituição da ilegalidade do com ércio de escravos, essas m edidas sanitárias foram suspensas e houve conseqüente aum ento das epidem ias na cidade, dissem inadas pelos negros que eram descarregados no litoral da província clandestinam ente.
Em 1830 ocorreu nova investida obj etivando o fim do tráfico, o que causou um a redução no ingresso de escravos. Na prim eira m etade daquele ano, desem barcaram cerca de trinta m il negros. Com o isso, dim inuíram os surtos de varíola na cidade. Novam ente, sendo ineficaz a proibição, o tráfico negreiro ilegal eclodiu, e nunca antes o Brasil recebera tantos cativos. Entre 1831 e 1855, entraram cerca de setecentos m il — 20% de todos os escravos trazidos em trezentos anos. Com eles chegaram as epidem ias. Em 1839, o Dr. Cuissart inform ou, num encontro m édico, que as doenças febris da cidade do Rio de Janeiro haviam aum entado em associação com o tráfico negreiro, sugerindo que vinham com os cativos.