A História e Suas Epidemias

Stefan Cunha Ujvari · Capítulo 6 de 7 · parte 4/4

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A História e Suas Epidemias

Capítulo 4

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Distante dos vilarej os de Yunnan, acom etidos esporadicam ente pela peste, a China fechava-se para a cultura ocidental. As em barcações com erciais francesas, inglesas, holandesas e portuguesas atracavam ao porto de Cantão. O cais dessa cidade recebia um a grande quantidade de estrangeiros — caixas de chá e sedas eram em barcadas nos navios com destino à Europa. O Im perador Chien Lung, que reinou até 1796, não perm itia nenhum outro ponto com ercial além de Cantão, e os europeus eram obrigados a aceitar esse único porto para o com ércio. A região deYunnan nem im aginava a presença longínqua dos estrangeiros.

" Em 1759, o governo inglês tentou m elhorar a regulam entação com ercial, com m aior abertura para a sua nação, m as a resposta do Im perador Chien Lung não deixou dúvidas quanto à sua posição. Mercadores ingleses foram açoitados, alguns com m elhor sorte foram expulsos dos territórios; e chineses que

ensinavam a língua natal a estrangeiros foram punidos com a m orte. {45} Apenas o porto de Cantão via transitarem estrangeiros com suas roupas exóticas. A China desfrutava de m om entos de paz e tranqüilidade no início de 1800, com a construção de palácios e bibliotecas com acervos de até 36 m il volum es, o desenvolvim ento da arquitetura, das artes e da educação. O governo inglês, descontente com a resistência chinesa à am pliação do com ércio, observava a transferência de suas riquezas em prata para o porto de Cantão em troca de chá e seda. Esse m ercado tornava-se prej udicial para os europeus; um a via alternativa de lucro se fazia necessária, aproveitando o crescente descontentam ento do povo chinês com a falta de liberdade de expressão im posta pelo regim e opressor de Chien Lung. As cidades cresciam e sociedades secretas espalhavam suas idéias contra a opressão. A alternativa de lucro para os ingleses veio com a introdução de um novo gênero com ercial rapidam ente aceito e difundido entre a população local por m otivos óbvios — o ópio.

Na prim eira m etade do século XIX, as cidades deYunnan não eram m ais tão isoladas no território chinês. Seus habitantes presenciavam a chegada de um núm ero cada vez m aior de m ercadores trazendo-lhes a novidade do ópio. A população, acostum ada com a ação m edicinal daquela substância, aprendera a introduzi-la nos cachim bos artesanais e a fum á-la para obter efeitos prazerosos. As m igrações nessa região com eçavam , pessoas chegavam a Yunnan trazendo ópio e levando dinheiro para os interm ediários, os habitantes deixavam o lugar em troca de trabalhos m ais lucrativos. O ópio procedia de localidades distantes. Plantado na índia, Pérsia e Turquia, era desem barcado dos navios ingleses no porto de Cantão e percorria as estradas pelo interior da região sul até Yunnan. Ricos e pobres se entregavam à droga. Yunnan tornou-se um grande centro com ercial do ópio. Aum entou o núm ero de estrangeiros na área, as transações com erciais ocorriam na capital e nas estradas, agora m uito m ais transitáveis. Assim , am eaçavam levar o bacilo da peste para Cantão. Em 1838, a população sucum bia ao ópio, e enorm es quantidades de prata chinesa eram em barcadas nos navios ingleses em Cantão. Diante desse panoram a, o governo de Pequim proibiu o m ercado e o consum o de ópio, com hostilidades aos ingleses de Cantão. Com eçava a prim eira Guerra do Ópio. Em Cantão, o representante do governo britânico, Capitão Elliot, recebeu a im portante figura de Lin Tse-Hsu, governador de duas províncias chinesas. Lin responsabilizou os britânicos pelo efeito m aléfico que o ópio ocasionou ao Im pério; cachim bos e toneladas da droga foram queim ados naquela cidade. Os ingleses perseguidos fugiram para um a localidade próxim a, Macau, m as, ainda sob am eaça, o capitão Elliot resolveu partir para um vilarej o de pescadores nos arredores, onde com eçava a nascer a futura cidade de Hong Kong. Os m oradores de Yunnan souberam do fim da prim eira Guerra do Ópio em 1842; as notícias agora chegavam m ais rápido pelas estradas, que o com ércio do ópio tornara m ovim entadas — um com ércio que, em bora proibido, continuava de m odo clandestino. Os viciados na droga e os m ercadores de Yunnan souberam de fatos anim adores: os ingleses tinham saído vitoriosos da guerra e, pelo tratado de Nanquim , a China abrira cinco portos ao com ércio inglês; entre esses, Am oy, Cantão e Xangai. O vilarej o de Hong Kong tam bém foi cedido aos ingleses, que poderiam participar de seu povoam ento. Na década de 1850, haveria um a segunda Guerra do Ópio.

O bacilo da peste não m ais ficaria restrito à região deYunnan, um a vez que se estabelecera um a intensa ligação com ercial desse território com o litoral de Cantão. Qualquer nova epidem ia que surgisse poderia ser transportada pela locom oção de doentes para o leste chinês. Mais um fato histórico influenciou, em m uito, a facilidade de saída do bacilo da peste de Yunnan: a rebelião Taiping. Em 1850, com a m á safra da agricultura, a fom e e a m iséria, aum entou o núm ero de chineses descontentes no sul do país. O professor Hung Hsiuchuan apresentou um a nova ideologia religiosa com influências cristãs, que por atrair um a quantidade crescente de seguidores deu origem a um a guerra civil que duraria 14 anos. Com a repressão oficial, os rebeldes m igraram para o sul em direção ao norte e foram tom ando cidade após cidade. As m igrações e fugas aum entaram , as m ovim entações de tropas se intensificaram e províncias foram devastadas. Cerca de vinte m ilhões de pessoas m orreram no final da rebelião.

Todos esses acontecim entos favoreceram o alastram ento do bacilo da peste de regiões isoladas para centros de intenso fluxo hum ano e locais distantes. A região de Yunnan passara a ter um a rede de estradas transitadas por m ercadores, fugitivos de rebeliões e em igrantes descontentes. A peste tornara-se m ais com um na capital de Yunnan desde 1866, e em 1892 um a nova epidem ia encontrou facilidade para espalhar-se dali para as províncias chinesas. O bacilo foi levado, pelos doentes e portadores, de cidade para cidade em direção ao leste. Epidem ias dissem inavam -se por localidades vizinhas rum o a Cantão. O século XX iria com eçar, com a presença da pandem ia, pela doença m ais tem ida da História.

 

A PESTE CHEG A A HONG KONG

 

A cidade de Cantão foi acordada no dia lo de m aio de 1894 com as notícias do j ornal local sobre o início da epidem ia de peste na cidade. As ruas, com aglom erações de estrangeiros e chineses, com eçaram a ficar vazias porque a população estava acam ada pela doença. Som ente nos m eses de m aio, j unho e j ulho m orreram setenta m il pessoas. Era inevitável a chegada da peste a Hong Kong, e para isso bastaria que um barco transportando o bacilo atravessasse as águas que a uniam a Cantão. O governo britânico necessitava im plem entar m edidas urgentes para conter a doença e poupar suas possessões coloniais. O núm ero de m ortes causadas pela peste em Hong Kong foi surpreendente. A cidade não era m ais um vilarej o de pescadores que os ingleses povoaram na década de 1840, em que viviam pouco m ais de vinte m il habitantes. Na década seguinte, recebeu refugiados da rebelião Taiping, e sua população chegou a ser

de 86 m il.{46} A cidade cresceu, seu com ércio se desenvolveu e na década da chegada da peste som ava m ais de duzentos m il habitantes. Nas ruas lam acentas, as chuvas e os m ercados com seus detritos favoreciam a proliferação de ratos. Apesar de todo esse cenário propício à peste, foram registrados apenas 2.679 casos da doença em 1894, 1% da população, e quase todos os acom etidos m orreram . Em Cantão, cem m il pessoas pereceram . A baixa m ortalidade em Hong Kong, porém , não fez dim inuir a preocupação dos britânicos, que tom aram providências para conter a epidem ia.

A chegada da peste a Hong Kong coincidiu com a entrada de m édicos interessados no estudo da doença e daqueles escalados pelo governo inglês para o controle do m al. A Europa vivia o auge das descobertas bacteriológicas, e a teoria dos m iasm as j á era passado; sabia-se bem que as doenças infecciosas eram causadas por bactérias vivas e visíveis ao m icroscópio. Algum as — as responsáveis pelas calam idades de cólera, difteria, tuberculose, pneum onia e escarlatina — j á tinham sido descobertas. A causa da peste perm anecia um a incógnita, dada a sua ausência na Europa nessa era bacteriológica; assim , a epidem ia de Hong Kong seria um a oportunidade única de se descobrir a bactéria que causava a doença.

Chegou à cidade a equipe j aponesa do Dr. Shibasaburo Kitasato, m édico experiente que estudara em Berlim com Robert Koch. Kitasato foi bem recebido pelas autoridades britânicas, que viam nos seus serviços um a esperança para a descoberta da bactéria da peste e o seu controle nas possessões. Assim , lhe foi proporcionada boa acolhida, com acom odação necessária para seus estudos em laboratório, exam e de doentes e realização de necropsia. Em j unho de 1894, Hong Kong recebia o Dr. Alexander Yersin, que encontrou obstáculos a seus trabalhos, levantados pela equipe de Kitasato.

Nascido na Suíça em 1863,Yersin iniciou seus estudos de m edicina em Marburg. Descontente com a vida universitária e atraído pelas descobertas francesas na área bacteriológica, que em polgavam o m eio científico, m udou-se para Paris, onde realizou estudos no fam oso e concorrido Instituto Pasteur, fundado em 1888. Yersin fam iliarizou-se logo com seu novo local de trabalho. Nos corredores do instituto, circulavam pessoas im portantes do m eio científico. Em seu laboratório, dedicava-se aos estudos sobre a bactéria da difteria. Em 1889, j á m antinha relação próxim a com o principal assistente de Pasteur, o Dr. Roux, do qual tam bém angariara confiança. Após se naturalizar cidadão francês, com eçou a lecionar em Paris. Em 1890 e 1891, Yersin, atraído pela oportunidade de lidar com doentes, fazendo um trabalho de cam po e não apenas laboratorial, foi transferido para ação m édica nos navios das linhas Manila — Saigon e Saigon— Hoiphong.

Na chegada da peste a Hong Kong em 1894, um dos m em bros do Instituto Pasteur estava, portanto, trabalhando na Ásia, e fam iliarizado com a cultura oriental — seria a oportunidade de estudar a doença. Em j unho daquele ano, Yersin adm irava a cidade do tom badilho do navio que o levava a seu novo desafio. O início de seus estudos foi difícil, e a equipe de Kitasato lhe im pôs obstáculos: seu acesso ao laboratório era lim itado e ele não presenciava as necropsias. Essas atitudes refletiam , em parte, as antigas rivalidades das escolas francesa e prussiana, de Pasteur e Robert Koch, respectivam ente — am bas disputando as descobertas bacteriológicas. Kitasato, estagiário de Koch, m ostrou-se hostil em relação à chegada do bacteriologista do Instituto Pasteur. Yersin tom ou um a decisão ousada: instalou-se em um a construção rudim entar, um paiol construído com bam bu e palha. Seu m icroscópio, alguns poucos roedores para testes e m eios de cultura para as bactérias j á o satisfaziam ; restava o m aterial a ser exam inado, retirado dos doentes, o que seria difícil conseguir em virtude do acesso restrito de que dispunha ao hospital da cidade. Os m ortos pela doença ficavam em covas rasas por cerca de um a hora antes do enterro. Nesses locais, Yersin abria as m ortalhas na altura da virilha, lim pava a pele e encontrava o fam oso bubão; introduzia um a agulha no centro do bubão e, com seringas, aspirava o m aterial do interior. A presença de pus no m aterial fascinava o bacteriologista, acostum ado a encontrar bactérias exatam ente nessas secreções. Yersin levava seu m aterial para o laboratório, onde o analisava ao m icroscópio. Um a enorm e quantidade daquele bacilo surgiu diante de seus olhos; seria a única explicação para a doença, que por séculos dizim ara boa parte da hum anidade. O m aterial ainda era colocado nos diversos m eios de cultura e inoculado em cobaias para que ele pudesse constatar sua reprodução; am ostras tam bém partiam nos navios com destino ao Instituto em Paris. Em 20 de j unho de 1894, Yersin relatava sua descoberta. Kitasato, que se esforçara para encontrar o bacilo no sangue dos doentes e não no bubão, tam bém relatou sua descoberta. Am bos dividem o m érito de ter identificado o bacilo causador da peste bubônica. A m eu ver, pelas dificuldades vencidas, Yersin m erece a hom enagem de se ter batizado o bacilo da peste com seu nom e — Yersinia pestis; m as, em alguns livros anglo-saxões, esse agente é denom inado bacilo de Kitasato. Os casos de peste continuaram aum entando na possessão britânica. Os doentes eram internados nas alas reservadas do Hospital Donghua, fundado havia 22 anos, e adm inistrado pelos diretores chineses. Outros eram levados para o navio-hospital britânico Hy geia, que perm anecia longe do litoral por m edida de isolam ento. Yersin precisava esclarecer o m eio pelo qual o bacilo tinha acesso ao hom em . Seus estudos eram agora intensificados nos lugares m ais castigados pela doença — os bairros chineses pobres de Kennedy town, Taipingshan e Xiy ingpang, onde se concentravam m ais de 85% dos casos da cidade. Yersin transitava por esses locais transpondo o isolam ento im posto pelas tropas britânicas e testem unhava as ações desses m ilitares que, sob a crítica das autoridades chinesas, buscavam doentes nas casas para hospitalizar, levavam m ortos para enterros distantes e interferiam na vida cotidiana dos m oradores. Longe das hostilidades e das discussões entre britânicos e chineses, Yersin obteve am ostras do bacilo no chão das casas e em ratos m ortos. Sua teoria de que o rato transm itia a doença estava certa, m as não por elim inar o bacilo no solo; a pulga seria incrim inada posteriorm ente.

Em abril de 1895, Yersin chegou ao Instituto Pasteur, em Paris, onde as am ostras que enviara j á tinham sido insistentem ente estudadas. Pasteur, logo depois de sua descoberta de que as bactérias originam as infecções, direcionou pesquisas para a vacinação e, em seguida, para os soros terapêuticos. Na vacinação, ganhou fam a ao controlar a doença da raiva vacinando crianças e pessoas m ordidas por cães raivosos; m as, com o a enferm idade fosse rara, o assunto despertou pouco interesse. Com um a experiência de vacinação à frente dos dem ais centros de pesquisa, a prioridade tornou-se desenvolver um a vacina e um soro antipestoso por m eio das am ostras de bacilos conseguidas por Yersin. O bacilo era introduzido em cavalos, que, em resposta ao agente estranho, produziam anticorpos para com batê-lo. O sangue do anim al era retirado e dele separava-se apenas o soro contendo anticorpos, pronto para ser adm inistrado aos acom etidos com chance de recuperação. Faltavam apenas os doentes, então inexistentes na Europa.

Assim , com verba francesa, Yersin retornou à Asia em 1896. Instalou seu laboratório em Nhatrang, onde criava porcos, cavalos e bois para a fabricação do soro antipestoso. A prim eira tentativa de Yersin foi frustrante; aloj ou-se em Cantão em busca de doentes, m as os órgãos locais foram contrários à interferência daquele estrangeiro em sua cidade e, m uito m ais, à adm inistração de substâncias estranhas aos que sofriam do m al. Yersin transferiu-se para o novo local da peste, o porto de Am oy, onde pôde testar o soro. Ele o adm inistrava a doentes e registrava cuidadosam ente suas reações, efeitos colaterais e a evolução diária do enferm o. Um a um , os prim eiros vinte pacientes evoluíram para m elhora dos sintom as, a doença desapareceu nas pessoas tratadas e a eficácia do soro antipestoso foi reconhecida. O sucesso em Am oy desencadeou um aum ento na dem anda de soro e estabeleceu o reconhecim ento m undial do tratam ento. O laboratório de Nhatrang com eçou a funcionar a todo vapor, com a concessão de um a m ontanha próxim a; ali inoculavam -se m uitos anim ais e despachavam -se caixas de soro.

 

A PESTE CHEG A À ÍNDIA

 

As possessões britânicas na Ásia tinham forte ligação em razão do tráfego de em barcações com erciais; navios ingleses transitavam de colônia para colônia servindo ao com ércio local ou dirigindo-se para a Europa. A chegada da peste à índia era óbvia, e um a questão de tem po. Após dois anos de sua aparição em Hong Kong, alcançava Bom baim . No verão de 1896, o porto daquela cidade recebeu diversas em barcações inglesas procedentes da China; a tem peratura elevada e as chuvas aum entaram , com o em todo ano, e cresceu o núm ero de ratos que encontravam alim entos em abundância espalhados pelo cais. Trabalhadores e m oradores das proxim idades com eçaram a adoecer com sintom as febris e surgiram os bubões da peste. A notícia caiu com o um a bom ba sobre as autoridades britânicas, que previram as conseqüências das m edidas de quarentena: navios carregados de m ercadorias parados longe do cais por tem po indeterm inado, enquanto no cais produtos se deteriorariam aguardando o em barque. Seria um prej uízo sério para o com ércio vitoriano. Coube a m edida de negar o surgim ento de um a epidem ia: o com ércio deveria continuar e m anter a esperança de a doença lim itar-se a poucos casos esporádicos. Mas Bom baim m antinha a sua característica de cidade pobre, infestada de ratos, com casas rudim entares e cerca de oitocentas m il pessoas vivendo aglom eradas. Seria im possível que houvesse apenas poucos casos.

O bacilo transpôs o lim ite das docas para a cidade e em setem bro e outubro o núm ero de acom etidos aum entou; nos seis m eses seguintes, vinte m il habitantes m orreram . A epidem ia negada pelas autoridades era evidente aos olhos da população apavorada. As estradas que levavam ao interior e ao sul da colônia com eçaram a ficar lotadas de em igrantes de Bom baim . Essa m igração, de duzentas m il pessoas, foi responsável por levar a peste à região central e ao sul da Índia. Medidas urgentes tinham de ser tom adas para conter a peste de Bom baim que chegava quase às portas da Europa. Yersin desem barcou na cidade em 5 de m arço de 1897, m as perm aneceu apenas três m eses, sendo substituído por Paul-Louis Sim ond, outro m em bro do Instituto Pasteur, a convite do Dr. Roux. Discípulo da era bacteriológica, Sim ond sabia que era inútil os m uçulm anos pendurarem escritas sagradas pelas ruas para espantar o espírito ruim causador da doença, assim com o levar a sério a crença dos hindus de que a peste era um castigo pelos seus pecados. Mas o m eio científico ainda não sabia que m osquitos, pulgas e carrapatos tinham a capacidade de transm itir os m icróbios recém -descobertos para o hom em . Sim ond observou nos doentes algum as lesões m inúsculas, em form a de vesícuias ou bolhas pequenas, no m esm o m em bro em que, na virilha ou axila, crescia o bubão da peste. Recolheu o m aterial do interior dessas vesículas e surpreendeu-se ao exam iná-lo ao m icroscópio e encontrar o bacilo da peste — as culturas do m aterial confirm aram essa presença. Assim , Sim ond descobriu que o bacilo era introduzido na pele, nela form ando as vesículas, e ascendia pelo braço ou pela perna, originando o bubão na axila ou virilha. Se o rato transm itia o bacilo e a porta de entrada era a vesícula, o único elo seriam as pulgas do rato infectadas pelo bacilo. Sim ond arquitetou um a gaiola circular dividida ao m eio por grades, de m aneira que dois ratos podiam ser colocados no m esm o local sem ter contato direto um com o outro, m as as pulgas tinham com o transpor a divisória e habitar os anim ais. Colocou um rato doente da peste num a seção e um sadio na outra. Após a m orte do roedor doente, Sim ond observou dia após dia a evolução do rato sadio, que, segundo sua teoria, m orreria por ter recebido as pulgas que haviam abandonado o anim al m orto pela peste. Sua angústia aum entou no quinto dia quando o rato parecia m ais saudável que nunca, alim entando-se bem e m ostrando-se ativo. No final daquele dia, o anim al com eçou a m over-se com m ais dificuldade, e a felicidade de Sim ond foi total ao vê-lo m orto no sexto dia. E m ais ainda quando a necropsia dem onstrou a presença do bacilo. A pulga transm itia a peste ao picar o hom em — foi a conclusão que Sim ond apresentou aos órgãos sanitários em 2 de j unho de 1898, depois de repetir seu experim ento várias vezes. Expôs a conclusão no j ornal científico em outubro do m esm o ano.

 

A PESTE RUMA AO HAVAÍ E SÃO FRANCISCO

Os navios alastravam a doença pelos portos aos quais atracavam . A peste tom ou dois rum os: em barcações a levaram pelo oceano Pacífico ao Havaí e, posteriorm ente, à cidade de São Francisco, nos Estados Unidos. Na outra direção, as cidades do m ar Verm elho recebiam navios contam inados que, ao atravessarem o canal de Suez, espalhavam a doença para o Mediterrâneo. As relações com erciais entre as nações européias — principalm ente Portugal — e os países da Am érica Latina fizeram com que a peste chegasse ao Brasil e à Argentina.

No dia 20 de outubro de 1899, os trabalhadores do cais de Honolulu observaram a entrada do cargueiro Am erica Maru, repleto de arroz e outros alim entos, para ser descarregado. Os trabalhos com eçaram no m om ento de sua chegada — as docas da principal cidade da ilha do Havaí ficaram abarrotadas de m ercadorias. Em novem bro, um fato estranho cham ou a atenção dos estivadores chineses: quantidades enorm es de ratos m ortos apareciam ao longo do cais. As atividades agora incluíam a retirada desses anim ais, arrem essando-os à baía. Em bora os navios fossem procedentes de um a região tom ada pela peste, a China, as autoridades locais não suspeitaram de que sua ilha pudesse ser atingida. Um a j ovem de 22 anos nativa do Havaí, de nom e Malaoa Mom ona, caiu doente com febre, sem um diagnóstico aparente. O Dr. Kobay ashi foi cham ado com urgência no dia 6 de novem bro. Nada pôde ser feito, a j ovem piorou hora após hora e m orreu de causa desconhecida. Após esse caso, o núm ero de doentes febris aum entava dia a dia, m udando a rotina pacata de internações do Queen's Hospital. As internações seguidas de m orte cham aram a atenção do corpo clínico. Apenas um m ês depois, com a m orte do contador You Chong, 22 anos, m orador da Avenida Nuuanu, os m édicos da cidade reconheceram o bubão em seu corpo e alertaram o Conselho de Saúde sobre a entrada da tem ida doença na ilha. A notícia m al chegara ao conhecim ento da instituição quando o hospital recebia m ais quatro casos com bubão.

O Conselho de Saúde, sob os cuidados de seu presidente, Henry Cooper, reunia-se diariam ente para a troca de inform ações sobre o andam ento da epidem ia e discussão das m edidas a serem tom adas. Seus m em bros, doutores, burocratas e j uristas, tinham o poder adm inistrativo nesse caso único da ilha. Suas m edidas não poderiam ter sido diferentes: escolas foram fechadas e os navios que chegavam ao porto, sem saber do caos que se abatia sobre os m oradores, recebiam ordens para perm anecer em quarentena. Mas as ações m ais enérgicas recaíram na região em que a peste com eçou, Chinatown, e a pior tragédia estava por vir.

A im igração em m assa de chineses — e, m enos expressiva, de j aponeses — para o Havaí aconteceu no século XVIII. Pela proxim idade da China, essas pessoas dirigiram -se à ilha para trabalhar na lavoura, incentivadas por um a m udança de vida; e foram bem -aceitas por oferecerem m ão-de-obra barata. No século XIX, esses im igrantes abandonaram o trabalho duro na lavoura, passando a se tornar autônom os. Organizava-se e crescia o bairro de Chinatown, em que os chineses, um em cada cinco habitantes da ilha, se aglom eravam . Com os prim eiros casos de peste na ilha, Chinatown foi vistoriado pelos representantes do Conselho de Saúde. O que encontraram foi assustador: aglom erados de loj as a varej o, restaurantes e tem plos que se m isturavam em ruas suj as de form a desorganizada por causa do crescim ento caótico do bairro. Nas ruas, cheias de transeuntes, perfilavam -se num erosos barracos de m adeira repletos de m oscas, larvas, ratos e pulgas. Um a grande concentração de anim ais, principalm ente galinhas, infectava o ar local. O esgoto era a céu aberto e a prostituição, rotineira. O destino de Chinatown foi traçado quando ali ocorreram os prim eiros casos de peste; som ente em 23 de dezem bro surgiu um a ocorrência fora dessa área, com as m ortes pela doença j á chegando a quase cem . Henry Cooper e seu conselho identificaram o foco principal da peste no bloco dez do bairro, entre as ruas Nuuanu, Sm ith e Beretania. Suas tropas isolaram a área, guardas im puseram um a corda de isolam ento em Chinatown proibindo a entrada e saída dos m oradores. Desinfecção com cal foi providenciada nas ruas e casas de doentes. Os m ortos eram queim ados para conter o avanço da doença. A rotina dos chineses foi alterada pela im posição das tropas governam entais. E o Conselho de Saúde tom ou a pior atitude que poderia. Com o o foco da peste deveria ser extinto, a estratégia foi atear fogo às casas e loj as do epicentro da epidem ia, o que obrigou os chineses de Nuuanu a abandoná-las. Às oito horas da m anhã, iniciou-se a queim a program ada, m as a leve brisa da m anhã deu lugar a ventos fortes que alastraram o fogo pelas casas vizinhas. Em poucas horas, um incêndio fora de controle tom ava conta de Chinatown, m ilhares de chineses corriam em fuga. O que devia ter sido feito de m odo organizado tornou-se um a tragédia sem antecedentes na ilha. A peste fez poucas vítim as, m as esse incêndio proposital deixou m ilhares de desabrigados.

 

A PESTE CHEG A A PORTUG AL

 

Enquanto os m oradores do Havaí lutavam contra o tem ido m al, a peste rodeava a Terra pelo outro lado. Cidades do Mediterrâneo j á se deparavam com ratos m ortos espalhados pelo cais. Mas foi em Portugal, na cidade do Porto, que a doença encontrou seu terreno preferido.

Os tem pos m odernos agora dom inavam a Europa — em 1899, os centros industriais se encontravam concretizados nas principais cidades do continente. Paris punha em andam ento o proj eto do prim eiro m etrô m undial, que seria aberto no ano seguinte. Portugal não fugia à regra, o país se industrializava nas cidades do Porto e de Lisboa. Suas ferrovias atravessavam o litoral convergindo para essas duas localidades, que abrigavam m eio m ilhão de trabalhadores nas indústrias.

A arquitetura urbana do Porto era convidativa para um a epidem ia de peste, o que ocorreu em 1899. Ao cair da noite, m ilhares de trabalhadores, entre eles m ulheres e crianças que eram m ão-de-obra barata, deixavam as fábricas. Percorriam os bairros pobres, suas ruas insalubres com grande quantidade de ratos no lixo despej ado ao lado do esgoto a céu aberto. Depois de transporem pequenos corredores, m uitas vezes sob os prédios, chegavam às casas de um só piso, construídas em fileira e de m odo rudim entar em quintais ou nos fundos dos prédios. Mulheres e crianças faziam esse cam inho diariam ente testem unhando doenças, crim es, bebedeiras e j ogatinas.

Cada casa, cada barraco abrigava algum as vezes m ais do que um a fam ília em seus apertados 16m 2. Mais da m etade das construções do Porto eram desse tipo e nelas viviam quase m il pessoas por hectare. Esses locais eram conhecidos na época com o "ilhas" e foram responsáveis, em decorrência do núm ero de ratos e da aglom eração populacional, pela dissem inação da peste. A doença reinou absoluta entre as m il "ilhas" da cidade do Porto, com suas 11 m il casas em que se aglom eravam cinqüenta m il habitantes abatidos pela longa j ornada de trabalho. A vinda da peste para o Brasil ocorreu em conseqüência das relações m arítim as que o País m antinha com Portugal. O azeite, não m ais exclusivo para a ilum inação e a indústria de conservas, era exportado para o Brasil tam bém com o tem pero de batatas e peixes. Em igrantes descontentes com a m odernização das cidades, que criou condições de vida precárias, e com a decadência da agricultura chegavam ao porto de Santos. Agora, a peste, que atingira a Ásia, a Europa, a África, a Am érica do Norte e a Oceania, alcançava aquele porto.

 

NOFINAL DOSÉCULO

 

Em outubro de 1899, a tem peratura agradável de Santos, principal porto com ercial brasileiro, não refletia a tensão dos m oradores com os boatos sobre a chegada da peste bubônica. O m undo vivia a terceira pandem ia da doença. Os órgãos oficiais negavam essas inform ações, queriam ter certeza absoluta daquilo que seria um a tragédia para a vida econôm ica e social da cidade. Os doentes com suspeita de peste encontravam -se internados no Hospital de Isolam ento e, num m om ento raro da História, dada a situação de em ergência, estavam nos corredores do hospital e em suas salas quatro personagens que fizeram história: os m édicos Osvaldo Cruz, Adolfo Lutz, Vital Brasil e Em ílio Ribas. Esse m om ento assinalou o encontro dos quatro especialistas após anos de pesquisas e trabalhos direcionados à m elhoria da saúde pública. A história que propiciou esse encontro único com eçara a ser delineada trinta anos antes. A capital da província im perial de São Paulo, por volta de 1870, estava longe do desenvolvim ento urbano visto no Im pério. Sua população pequena concentrava-se nas proxim idades dos rios Tam anduateí e Anhangabaú, entre as ruas Direita, São Bento e Im peratriz. Nessa região central localizavam -se tam ancarias, forj as de ferreiros, com ércio a varej o e m ascates entre os estabelecim entos m ais bem instalados, com o a Livraria Garroux, a Loj a dos Três Irm ãos, a loj a do reloj oeiro Henry Fox e a Casa Levy. As ervas e vegetais à venda vinham do outro lado do rio, do m orro do Chá, onde hoj e está o Teatro Municipal, na época um a im ensa

área de agricultura.{47}

A cidade abrigava seus pouco m ais de vinte m il habitantes. O sistem a de saúde era precário: quando um dos m oradores necessitava de atendim ento e internação, um a de suas poucas opções era o hospital da Santa Casa de Misericórdia, fundado em 1840. O governo da província priorizava o serviço sanitário de controle e fiscalização do porto e dos hospitais, deixando em segundo plano o atendim ento da população. A Misericórdia da capital era a m ão salvadora dos doentes, e em seu hospital atendia um núm ero lim itado de pessoas. Havia ainda um hospital para leprosos, fundado em 1805, situado entre a região do Brás e a da Luz, que aceitava poucas internações em razão da situação precária de suas instalações, então em ruínas. Na m argem do rio Tam anduateí, a Misericórdia adm inistrava seu asilo desde 1852 e, por últim o, prestava assistência aos poucos presidiários pobres da cidade. Os habitantes da pequena com unidade paulistana tinham , portanto, apenas a Santa Casa de Misericórdia. O tratam ento em estabelecim entos privados dependia de iniciativa própria; assim , m em bros das colônias de im igrantes tentavam estabelecer um m eio adequado para esse tipo de tratam ento. A Sociedade Portuguesa de Beneficência, fundada em 1854, inaugurou seu hospital em 1876; outros hospitais eram o dos alem ães, criado em 1863, o dos italianos, em 1870, e o dos franceses, em 1881. Aquele vilarej o transform ou-se na década de 1870 com o crescim ento da lavoura do café no interior paulista, o que precipitou a proliferação de ferrovias e im igrações de europeus. Para São Paulo convergia todo o café do interior, que depois prosseguia, pela serra do Mar, até o destino final, Santos. Os im igrantes que chegavam ao porto eram transferidos para a capital paulista e encam inhados para as fazendas do interior. São Paulo tornou-se o centro adm inistrativo da fase de ouro do café. O dinheiro entrava na província, a cidade de São Paulo crescia, sua população aum entava para 23 m il pessoas em 1872 — era a fase da sua grande transform ação.

A província paulista foi governada de 1872 a 1875 por João Teodoro Xavier Matos, que j á via entrar nos cofres públicos o fruto do desenvolvim ento do café. Os prim eiros paralelepípedos da vila paulista eram postos em suas principais ruas. Os freqüentadores da vida noturna não m ais encontravam as ilum inações com lam pião a querosene, pois o gás j á im perava nas calçadas paulistas. O m ato era desbravado para a construção de ruas, m uitas então pavim entadas; e um a alternativa para o transporte surgia ali: os bondes puxados a burro. Em 1877, a cidade não era m ais o vilarej o de anos atrás, havia os prim eiros problem as de saneam ento público. Em presários e com erciantes criaram a Com panhia Cantareira, que foi responsável pelo abastecim ento de água e pelo sistem a de esgoto. Catorze quilôm etros de canos ligavam o reservatório da Consolação à cidade, as casas recebiam água encanada e tratada e os prim eiros chafarizes j orravam nas ruas. Com o crescim ento da população, necessitou-se de um novo cem itério; os m oradores transportavam agora seus m ortos para o distante terreno da Consolação, cedido pela Marquesa de Santos. Por causa da teoria dos m iasm as, segundo a qual o ar insalubre transm itia gases tóxicos provocando a transm issão de doenças, os corpos tinham de ser enterrados em regiões distantes. O terreno da Consolação era ideal na época por estar a 3km de São Paulo.

Todos os problem as de um a cidade grande com eçavam a aparecer na recém -transform ada São Paulo. Um a m elhoria no sistem a de atendim ento da população era necessária; bem com o o controle das epidem ias, que se tornaram freqüentes num a cidade m aior, com aglom eração populacional, e que recebia m ais im igrantes europeus em sua hospedaria. A Câm ara dos Vereadores alertava para a necessidade da construção de um hospital que isolasse os pacientes, principalm ente durante as epidem ias de varíola. Em 1875, o núm ero de casos dessa doença aum entou, as discussões sobre a im portância de se contar com um novo hospital cresceram . A construção foi então aprovada. Em 1880, estava pronto o fam oso Hospital de Isolam ento da capital — autoridades políticas subiram a estrada barrenta da região da Consolação, passando pelo cem itério, até atingirem a estrada do Araçá (hoj e, Avenida Dr. Arnaldo). Com a desapropriação do sítio no núm ero 1 dessa estrada, construiu-se o Hospital de Isolam ento. Era distante da cidade de m odo que pudesse funcionar para quarentena dos pacientes vítim as de epidem ia. A população tam bém via com tranqüilidade essa localização. As alas do hospital eram divididas por cordões de isolam ento, e por elas circulavam apenas pessoas autorizadas. Na m aior parte do ano, o hospital ficava fechado; quando as epidem ias eclodiam , a quarentena tornava-se prioridade e seus adm inistradores recebiam ordens para a abertura: os leitos eram preparados, as cam areiras retornavam à atividade, lim pava-se a cozinha, e todos os dem ais procedim entos tinham início. Com o tem po, a edificação foi am pliada e construíram -se m ais três pavilhões sob a orientação do engenheiro Teodoro Sam paio. Foi inaugurado um novo cem itério próxim o, no outro lado da estrada do Araçá, em 1896. Posteriorm ente, o Hospital de Isolam ento foi renom eado Hospital Em ílio Ribas — hom enagem ao m édico que prestou grande contribuição à saúde brasileira —, e a cidade cresceu, englobando o antigo e distante hospital.

 

ECOM A REPÚBLICA...

 

As finanças da província dependiam do desenvolvim ento do café e qualquer am eaça a seu sistem a seria um desastre para o crescim ento de São Paulo e do Im pério. As im igrações de europeus, num a corte em que a escravidão estava com os dias contados, era fundam ental para a sustentação das fazendas produtoras de café. A corte do Im pério criou, em 1886, a Inspetoria de Higiene da Província, que funcionaria para vigiar e controlar o sistem a de saúde pública, contendo as epidem ias. Porém , com o a corte ficava distante, no Rio de Janeiro, e o m unicípio de São Paulo não tinha recursos para m anter o funcionam ento da Inspetoria, esse sistem a precisou esperar a Proclam ação da República para ser novam ente ativado.

Em 1891, São Paulo j á era estado e não m ais a pequena província. A República incentivava o sistem a de saúde do Brasil, e a Inspetoria passou a cham ar-se Serviço Sanitário do Estado de São Paulo. O Serviço Sanitário construiu um a rede de ação para a m elhoria da saúde. Instalações de laboratórios de análises clínicas funcionavam para a realização de exam es, um laboratório farm acêutico responsabilizava-se pela m edicação da população e o Hospital de Isolam ento era adm inistrado pelo Serviço Sanitário, que com andaria m elhor sua rotina. O Instituto Vacinogênico produzia e distribuía as doses de vacina contra a varíola na tentativa de conter as epidem ias, enquanto o Serviço Geral de Desinfecção visitava as casas sob suspeita da doença para as m edidas adequadas de lim peza. A era bacteriana atingiu a República, vários discípulos das doutrinas de Pasteur com andavam as iniciativas para desenvolver pesquisas sobre os m icro-organism os causadores de epidem ia. O Serviço Sanitário precisava dispor de um laboratório adequado para investigar a presença de bactérias em diferentes am ostras; criou-se assim , em 1892, o Laboratório de Bacteriologia. Louis Pasteur influenciava a política de saúde brasileira e em várias ocasiões havia se correspondido com Dom Pedro II, recebendo convite para vir ao Im pério estudar as infecções tropicais. O Laboratório de Bacteriologia com eçou a funcionar em 1892. Pasteur, consultado pelas autoridades para aj udar em seu funcionam ento, indicou o m édico Félix Alexandre le Dantec, que, no entanto, ficou apenas quatro m eses na direção do laboratório. Ele m esm o recom endou para sucedê-lo o m édico carioca Adolfo Lutz, por conhecer seus estudos prévios sobre a lepra. Em abril de 1893, Adolfo Lutz, que havia estudado na Suíça, Alem anha e França, assum iu a direção do Laboratório de Bacteriologia.

Materiais para análise chegavam às portas do laboratório situado na rua Direita. Os trabalhadores separavam e preparavam o escarro, a água, o sangue, a urina, as fezes e a saliva, entre outros, para apreciação ao m icroscópio e em culturas. Adolfo Lutz com andava o pequeno laboratório e respondia pelos laudos, que geravam discórdia entre os m édicos paulistas — eles, diversas vezes, não concordavam com os resultados. No ano em que assum iu, Lutz recolheu as fezes dos pacientes da Hospedaria dos Im igrantes, que viviam m om entos difíceis com a epidem ia de diarréia. O bacilo da cólera era identificado nessas am ostras; assim , as m edidas de isolam ento e lim peza adequada dos dej etos foram im plantadas para controlar a propagação da doença. Discórdias entre os m édicos paulistas não atrapalharam as m edidas, que surtiram efeito. No Natal de 1894, Lutz foi cham ado para identificar um novo surto diarréico — a cólera poderia ter voltado a acom eter os im igrantes. Mas ele não encontrou o bacilo e atribuiu o surto à intoxicação causada pelo bacalhau servido. Em 1895, identificou a Salmonella com o a responsável pela fam osa "febre paulista" que acom etia a população. Os m édicos paulistas divergiam em relação à possibilidade de a febre tifóide ser endêm ica na cidade. Lutz adm inistrava essas desavenças enquanto progrediam seus trabalhos no laboratório. Em 1896, dada a necessidade de am pliar as instalações do laboratório, prom oveu-se sua transferência para um prédio de dois andares próxim o ao Hospital de Isolam ento, onde perm anece até hoj e com o nom e de Instituto Adolfo Lutz. Um ano depois da m udança, a instituição expandiu sua função com a chegada de Vital Brasil, reconhecido pela experiência que adquirira em Paris na produção de soro antiofídico. No Estado de São Paulo, m orriam quase cinco

m il pessoas por ano em decorrência das picadas de cobra.{48} O laboratório criava agora cabritos, cavalos e cães para a produção de soros contra picada de j araraca e cascavel, num trabalho conduzido por Vital Brasil. Em 1898, Em ílio Ribas assum iu a direção do Serviço Sanitário. Ele havia com andando na cidade de Cam pinas um a cam panha de saúde para controlar as epidem ias de febre am arela. Obteve sucesso e o reconhecim ento das autoridades. Assim que vagou o cargo de diretor do Serviço Sanitário, foi convidado para a cadeira. Sem pre m anteve correspondência com as autoridades am ericanas e ficou a par das ações dos Estados Unidos na ilha de Cuba para dem onstrar a transm issão da febre am arela pelo m osquito. Em ilio Ribas planej ava um trabalho em São Paulo, levando m osquitos para com provar o surgim ento de casos nessa cidade que estava livre da doença. Mas seus proj etos foram adiados com a chegada da peste ao porto de Santos. No início de 1899, Em ílio Ribas encontrava-se na direção do Serviço Sanitário do Estado de São Paulo, ao qual era vinculado o Laboratório de Bacteriologia, dirigido por Adolfo Lutz e seu assistente Vital Brasil. Osvaldo Cruz, m édico carioca, estava em via de retornar do seu estágio no Instituto Pasteur, na França. Os destinos desses quatro m édicos estavam prestes a se encontrar no porto de Santos, com a chegada da peste.

O governo brasileiro j á tinha m uito trabalho com as doenças tropicais que eclodiam nas cidades, adm inistrava as epidem ias de febre am arela que surgiam no verão, tentava controlar os casos crescentes de tuberculose entre a população pobre, trabalhava para conter o avanço da m alária e lutava para vacinar um m aior núm ero de pessoas contra as epidem ias de varíola. No ano de 1899, pouco m ais que 1% da população do Rio de Janeiro m orreu dessas quatro doenças; a tuberculose m atou quase a m etade desse total, seguida da varíola, m alária e febre am arela. Com tantos problem as a enfrentar, tudo o que o governo não queria era a chegada da peste ao Brasil.

As autoridades sanitárias de Santos j á receavam pela vinda da peste desde o m om ento em que souberam do m al que se abatia sobre a cidade do Porto, em Portugal. Vários navios chegavam de lá. Alguns estivadores m enos inform ados, sem conhecim ento da progressão da epidem ia m undial, não m udaram sua rotina. Os trilhos do trem procedente de São Paulo term inavam ao lado dos arm azéns, onde o café era descarregado para aguardar o em barque nos navios. A fila de estivadores — cada qual com até cinco sacos de café nos om bros — era vista ao entrar nos arm azéns e navios aportados e ao sair deles. E provável que alguns desses trabalhadores tenham testem unhado a grande quantidade de ratos m ortos no cais, o que não era habitual. Esses roedores com eçaram a surgir após a chegada de um navio repleto de im igrantes portugueses da cidade do Porto, em m eados de 1899. Se isso não cham ou a atenção dos estivadores, o contrário aconteceu em relação às autoridades sanitárias, que encam inharam ofício urgente ao diretor do Serviço Sanitário, Em ílio Ribas. Médicos do Laboratório de Bacteriologia tinham de ir ao litoral analisar os ratos, com a grande responsabilidade de confirm ar ou não se o m al chegara ao Brasil. Os trilhos de trem da serra do Mar levaram o pedido de socorro para o planalto paulista, e em 9 de outubro de 1899 enviavam Vital Brasil, que fora encarregado do trabalho de investigação.

Vital Brasil dirigiu-se ao Hospital de Isolam ento da cidade de Santos, onde recebeu caixas que continham os ratos apreendidos no porto para serem analisados. Cinco dias depois de chegar, visitou no hospital um a j ovem que viria a m orrer com sintom as da doença. Ao m icroscópio, ele confirm ou ser um caso de peste. Nos quatro dias seguintes, internaram -se cinco doentes com a peste; Em ílio Ribas foi a Santos para a necropsia dos dois últim os. O dia 18 de outubro ficaria m arcado com o um "dia de cão" para a população santista; os boatos pelas esquinas se dissem inaram , as pessoas se reuniam nas ruas para com entar o edital do governo paulista que naquela data confirm ava a presença da peste em Santos. A cidade estava am eaçada pela doença, com seu com ércio prej udicado pelas m edidas de quarentena e o turism o, j á ativo no início do século XX, com prom etido pelo alarm e que se fazia. A população, tem erosa da m orte im inente que um a epidem ia de peste anunciava, tam bém via essas principais atividades, com ércio e turism o, estagnarem -se. Os representantes da Associação Com ercial de Santos se reuniram na sede da entidade, debates foram travados; não se podia aceitar com facilidade a notícia. A Associação Com ercial deliberou o convite ao fam oso m édico Rodolfo Chapot Prévost, do Rio de Janeiro, para investigar os casos suspeitos. Os vereadores na Câm ara Municipal discursaram , contrários ao noticiário. Após vários pronunciam entos inflam ados, decidiu-se, por votação, cham ar o m édico carioca Osvaldo Cruz, que acabara de retornar do Instituto Pasteur e tinha com petência para esclarecer a presença ou não da peste. Quatro dias depois das notícias oficiais da confirm ação da doença, Osvaldo Cruz estaria em Santos. Ele e Prévost reiteraram o inevitável: a peste chegara ao Brasil. A terceira grande epidem ia de peste bubônica, que da China se espalhara pelo m undo, havia atingido Santos.

Osvaldo Cruz perm aneceu na cidade com Em ílio Ribas e Adolfo Lutz para tentar controlar a epidem ia. Circulavam pelos corredores do Hospital de Isolam ento de Santos, onde exam inavam os doentes e direcionavam a estratégia de com bate à doença. Vital Brasil não m ais fazia parte desse grupo; encontrava-se agora num leito do hospital, acom etido pela peste. Após dias de febre e cuidados especiais de seus colegas, reagiu e teve a sorte de evoluir para cura. O soro antipestoso produzido por Yersin era a única esperança de tratam ento para os doentes brasileiros, m as apenas a França o produzia e, m esm o assim , não dispunha de quantidade suficiente para exportar.

Em ílio Ribas soube da presença de um navio francês atracado próxim o ao porto, cuj o com andante dispunha de um a quantidade do soro antipestoso com o m edida preventiva para o caso de alguém de sua tripulação m anifestar a doença. Após negociações, Em ílio Ribas obteve autorização para subir ao navio e receber um a pequena doação do soro para teste. Adm inistrou-o a alguns doentes no Hospital de Isolam ento de Santos e, vendo a boa resposta terapêutica, lutou pela necessidade de se ter o soro antipestoso em território brasileiro diante da chegada da peste, que poderia ser catastrófica nos anos seguintes. O soro francês não poderia ser im portado; assim , era preciso construir laboratórios no Brasil para a produção interna. O governo brasileiro aceitou im ediatam ente o pedido dos m édicos que vivenciavam a epidem ia em Santos, a porta de entrada da doença. Em São Paulo, o governo com prou a Fazenda Butantan para nela instalar os laboratórios produtores do soro antipestoso. Recuperado da peste, Vital Brasil foi designado responsável pela direção do instituto que fabricaria o soro. Ele passou a percorrer os 9km de estradas lam acentas que o conduziam à Fazenda Butantan, na qual se m anipulavam bacilos causadores da terrível doença. As construções no local incluíam as cocheiras para os anim ais que seriam usados para a produção dos anticorpos contra a peste. Vital Brasil incluiu nas atividades do instituto a produção de soro antiofídico, à qual estaria ligada a identidade do Instituto Butantan no futuro. No Rio de Janeiro, o governo criou o Instituto Soroterápico de Manguinhos, sob a direção de Osvaldo Cruz, que futuram ente seria renom eado Instituto Osvaldo Cruz. Assim , em razão do m edo da peste e da necessidade de produção do soro antipestoso, nasceram o Instituto Butantan e o Instituto Osvaldo Cruz, que ganhariam autonom ia e seriam m arcos da produção científica de um a época áurea da pesquisa brasileira.

Em 15 de j aneiro de 1900, apesar das poucas m ortes que a peste ocasionou, desem barcou em Santos o m édico Cam ilo Terni, de Messina, trazendo quantidade suficiente do soro antipestoso para controlar a epidem ia no Brasil. A doença surgiu no Rio de Janeiro e nos portos da Argentina. Da Am érica do Sul, percorreu, nos navios, o oceano Atlântico e foi parar na Cidade do Cabo, na África do Sul. Fechava-se assim seu deslocam ento ao redor do planeta, atingindo todos os continentes.