A História e Suas Epidemias
Capítulo 4
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
A cidade ficava exposta à entrada de novos agentes infecciosos, m as ainda m ais assustador era o crescente aglom erado hum ano que propiciava o alastram ento de epidem ias — principalm ente im aginando-se a m aioria dos pobres, que viviam em piores condições de higiene. Entre 1821 e 1849, o Rio de Janeiro tornou-se um a verdadeira cidade africana, apresentando a m aior concentração de escravos urbanos desde a época do Im pério Rom ano. Dos 266 m il habitantes que se aglom eravam , 110 m il eram escravos; um habitante em cada três havia nascido na África. Em 1850, o núcleo urbano continha 79 m il escravos do total de 206 m il habitantes. Apesar de a Bahia tam bém ter população africana considerável, a aglom eração populacional era bem m enos intensa — oitenta m il em 1855.
A cólera — que j á grassava na Europa e nos Estados Unidos —, por ser transm itida pelo contato direto com fezes ou por alim entos e água contam inados por fezes, era um a am eaça ainda m aior em razão das m ás condições de higiene da população, decorrentes do crescim ento desorganizado. Da m esm a form a, a febre am arela endêm ica na Am érica Central era um a grande am eaça pela quantidade de m osquitos que proliferavam nas chuvas de verão. Não havia sistem a de esgotos, os dej etos hum anos eram levados por escravos — os "tigreiros" — em recipientes até as praias, onde eram descarregados. Com a inexistência de um sistem a de abastecim ento de água potável, a água consum ida provinha dos riachos e poços contam inados e causadores de doenças diarréicas. Som ente na década de 1870 seriam construídos os aquedutos da Lapa para consum o de água potável.
Os escravos, proibidos de usar calçados, eram obrigados a andar descalços, o que pode ter favorecido o contato direto com dej etos hum anos. No verão, com as chuvas, com eçavam as doenças febris epidêm icas ou diarréicas, levando parte da população abastada a passar férias em cidades afastadas com o Petrópolis. A fam ília de Dom Pedro II perdeu dois herdeiros em conseqüência de doenças infecciosas, das quais conseguiram recuperar-se o im perador e a Princesa Isabel. O núm ero de enterros aum entava a cada verão, e as crianças eram as principais vítim as.
O Rio de Janeiro recebia cada vez m ais em barcações internacionais. Os navios a vapor tornavam a viagem m ais rápida, o que perm itia o desem barque de passageiros que ainda estavam no período de incubação da doença, sem sintom as. Assim , não eram detectados casos infecciosos e, m uitas vezes, deixavam de ser adotadas m edidas de quarentena. Nos navios europeus chegavam artigos de luxo para as classes cada vez m ais abastadas. Inauguravam -se em 1850 as linhas de paquetes a vapor, que saíam do porto de Liverpool com destino ao Rio de Janeiro e seguiam para o rio da Prata, num a viagem de precisam ente 28 dias. Hábitos europeus, com o o fum o de charutos e o uso de artigos de luxo, eram introduzidos no Rio de Janeiro. Os Estados Unidos viviam a febre do ouro descoberto na Califórnia. Ainda sem o canal do Panam á, o acesso se fazia por em barcações que contornavam a Am érica do Sul, com escalas na Bahia e no Rio de Janeiro. O risco de estarem transportando agentes infecciosos das ilhas do Caribe aum entava, particularm ente o da febre am arela.
A FEBREAMARELA
No final de 1849, aconteceu o inevitável: a chegada da febre am arela ao Brasil, prim eiram ente à Bahia e ao Rio de Janeiro, que fervilhava de insetos, entre eles o m osquito transm issor da doença, o fam oso Aedes aegypti. Faltava apenas a chegada do vírus, abundante nas ilhas do Caribe, para infectar os m osquitos. Um a em barcação procedente da cidade de Nova Orleans fez escala em Salvador e no Rio de Janeiro, onde desem barcaram doentes com febre am arela. Esse foi o provável encontro do vírus com os m osquitos j á existentes na cidade, do qual resultaram os prim eiros casos da doença.
Com a chegada do verão de 1850, a cidade do Rio de Janeiro viveu um a epidem ia da doença em conseqüência da proliferação dos m osquitos. Aproxim adam ente um terço da população foi acom etido. Apesar de o núm ero oficial de óbitos ser 4.160, acredita-se que tenha sido m aior, atingindo a casa de dez m il a 15 m il. Em m arço, ocorreram cem m ortes por dia. No início da epidem ia, os órgãos im periais proibiram a notificação dos óbitos, m edida tam bém adotada nos Estados Unidos e nos países europeus para evitar o pânico na população. E esses núm eros não levaram em conta as pessoas que m orreram nos dom icílios. Assim , acredita-se que a taxa de m ortalidade tenha sido ainda m aior.
Um a vez chegado o vírus, a doença perm aneceu endêm ica na região, eclodindo nas épocas das chuvas pelos anos seguintes. Após 1870, o núm ero de casos e m ortes anuais pela febre am arela aum entou: até 1890, m orreram cerca de m il pessoas em cada verão na cidade do Rio de Janeiro. Após um verão extrem am ente quente, no final da década de 1880, a doença passou a m atar duas m il pessoas por ano até o final do século. Aum entou o núm ero de fam ílias que se m udavam para as cidades da serra nessa tem porada para fugir da epidem ia. Petrópolis recebia a cada ano m aior quantidade de pessoas na estação do calor. A epidem ia repentina e violenta de 1850 causou tum ulto na corte im perial. Foi criada a Junta Central de Higiene, que se ocupava de coordenar o sistem a de saúde referente às inspeções dos portos e à vacinação. Com issões com o essa eram form adas por profissionais da área que estudavam as prováveis causas das epidem ias e orientavam a corte im perial sobre as m edidas cabíveis para controlá-las. Adepta da teoria dos m iasm as, forte à época, a com issão assegurou que os fatores responsáveis pela infecção ocorriam das em anações de m iasm as. Assim , os m édicos higienistas recom endaram o ataque a locais alagadiços, lagoas, praias suj as, pântanos e tam bém a lixos, detritos e carcaças am ontoados nas ruas. Outra teoria, m as de natureza religiosa, foi aceita por grande parte da população: seria um castigo divino pelas im oralidades que reinavam no Im pério, com as festas e bailes.
Antes dessa epidem ia, havia um a crença m undial de que a febre am arela se restringia ao hem isfério norte, e não ultrapassaria a linha do equador. Sem estar apoiada em dados ou em um a explicação científica, tal teoria m ostrou-se incorreta no verão de 1850. As epidem ias da doença com eçaram a ser associadas ao tráfico negreiro por diversos acontecim entos, sobre os quais se acum ularam especulações. Na epidem ia de 1850, caiu enferm o e m orreu o político Bernardo Pereira Vasconcelos, um dos m ais radicais opositores à pressão britânica para o térm ino do tráfico. Fizeram -se ligações com a revolta dos africanos no Haiti, em que as tropas inglesas e francesas foram dizim adas pela febre am arela. Na região sul dos Estados Unidos, escravocrata, ocorreram epidem ias da doença que acom eteram principalm ente os im igrantes europeus. Os m édicos brasileiros levantaram a tese da im portação de "venenos" por m eio dos navios negreiros, estabelecendo assim um vínculo direto do tráfico com a epidem ia. Defendeu-se até a hipótese de que o navio procedente de Nova Orleans que trouxera a epidem ia ao País em 1849 estivesse envolvido com o com ércio de escravos.
Finalm ente, o m édico francês Audouard desenvolveu um a hipótese científica segundo a qual essa ligação realm ente existia. Ele dem onstrou que, com o térm ino do tráfico negreiro na Am érica do Norte em 1808, o núm ero de epidem ias caiu de 53 para apenas oito; e m ais: nas colônias francesas, onde o tráfico de escravos tam bém não era m ais realizado, j á não havia epidem ias, enquanto nas espanholas, que o m antinham , os surtos continuavam . Discutia-se então a teoria de que as condições insalubres dos escravos nos "tum beiros" propiciavam o aparecim ento do "veneno", que, por sua vez, ocasionava a febre am arela. E tam bém se debatia a tese de que tais navios transportavam o "veneno" das regiões da África para o Brasil. Esta últim a hipótese poderia explicar o fato de os negros serem m enos acom etidos pela doença ou a apresentarem em quadros m ais brandos, pois, com o a m aioria deles nascera na África, j á havia tido contato com a substância e se acostum ado a ela — o que é verdadeiro, bastando apenas m udar os term os: "veneno", o agente causal, para "vírus" e "acostum ado" para "adquirido im unidade". A Junta Central de Higiene m anifestou suas orientações e conclusões sobre a epidem ia. E o im perador pode ter aventado a possibilidade de sanar o problem a pondo fim ao tráfico negreiro, o que não suscitaria oposição ferrenha dos aristocratas, um a vez que a m ão-de-obra escrava não seria reduzida - havia pouco tem po, intensificara-se a entrada de cativos que supririam por algum tem po as terras agrícolas. Assim , a epidem ia de febre am arela pode ter
contribuído para o térm ino definitivo do com ércio de escravos. {42} O ano de 1850 m arcou o fim do tráfico clandestino de africanos, considerado crim e de pirataria pela Lei Euzébio de Queirós. A escuna Relâm pago foi um a das últim as em barcações apreendidas no litoral baiano, e conseguiu-se recuperar parte dos quinhentos negros que transportava em 1851. Sem m ais escravos no Im pério, intensificou-se o tráfico interno de cativos nas províncias para suprir as necessidades dos fazendeiros em suas plantações. Com o crescim ento da exportação de café, em poucos anos esse núm ero de escravos não m ais seria suficiente. Estavam abertas as portas para a política de im igração de estrangeiros para a cafeicultura.
Essa política intensificou-se nos anos seguintes tendo, de um lado, os fazendeiros, cuj o obj etivo era apenas a m ão-de-obra barata para o cultivo do café, independentem ente da raça, e, de outro, a burocracia intelectualizada que alm ej ava atingir com a im igração a "civilização" do Im pério, prom ovendo a política do "em branquecim ento da raça". E, para isso, seria necessária a im igração de um a raça específica, a européia. Os prim eiros im igrantes que chegaram ao Im pério foram os portugueses e os alem ães. Em 1872, predom inavam os africanos — 183 m il —, m as o núm ero de portugueses j á era 121 m il e o de alem ães, 46 m il.
O café atingiu escala com ercial com a plantação no vale do rio Paraíba, no Rio de Janeiro, na década de 1830. Após a saturação dessa região, as plantações desceram para o território paulista, estendendo-se para o oeste do Estado de São Paulo, que se tornou o principal produtor do Im pério e da República. Eram necessários m ais im igrantes europeus para dar suporte à produção do café paulista, em franca expansão.
Com o aum ento das exportações, não m ais se aceitava o transporte do café para os portos pelos tropeiros ou o seu carregam ento no lom bo de m ulas, pois isso lim itava e retardava as exportações, além de ter um alto custo. As ferrovias proliferavam . Em 18S4, era inaugurado o prim eiro traj eto ferroviário ligando a cidade do Rio de Janeiro a Petrópolis. Em São Paulo, o café tam bém fez aum entar o núm ero de ferrovias. Em 1866, inaugurava-se o traj eto São Paulo — Santos e, em 1867, a em presa inglesa The S. Paulo Railway Com pany estendeu o trecho a Jundiaí e, posteriorm ente, a Cam pinas. Em 1875, a cidade de São Paulo ligava-se à capital do Im pério, o Rio de Janeiro. Na década de 1870, as m alhas ferroviárias foram am pliadas pelas Com panhias Paulista, Mogiana e Sorocabana. Na década seguinte, chegavam a Lim eira, Rio Claro, São Carlos, Araraquara, Franca, Ribeirão Preto, e entravam em Minas Gerais. Na década de 1880, j á eram 2.500km de ferrovias e, no final do século, 3.373km . São Paulo desenvolvia-se com a produção do café e a construção das ferrovias, o lucro excedente era investido na urbanização e industrialização do estado. Em 1899, a em presa canadense Light levava eletricidade para o transporte da região e, principalm ente, às suas indústrias. Todo o café paulista era escoado para o porto de Santos, o principal para as exportações. Cada vez m ais, os im igrantes se faziam necessários. Em 1871, criava-se a Associação Auxiliadora de Colonização e Im igração e, em 1886, a Sociedade Prom otora de Im igração. Com serviços de propaganda nos países estrangeiros, os europeus em pobrecidos vinham buscar m elhor qualidade de vida no Brasil. Suas passagens de navio eram subsidiadas, assim com o o aloj am ento e o transporte para as fazendas de café. Para abrigar o núm ero crescente de europeus provenientes do porto de Santos que subiam a serra com destino a São Paulo, foi construída um a hospedaria no bairro de Santana em 1878. Era onde ficavam aloj ados enquanto aguardavam seu transporte para o interior. Com o as acom odações não atendiam m ais à dem anda, a hospedaria foi transferida para o bairro do Bom Retiro, em 1882. Um a terceira e definitiva hospedaria dos im igrantes, no bairro do Brás, estava em construção para abrigar quatro m il pessoas quando, em 1887, ocorreu um a epidem ia de varíola e difteria. Esse fato ocasionou o deslocam ento urgente dos que estavam aloj ados no Bom Retiro para o Brás, e assim com eçou a funcionar a fam osa Hospedaria dos Im igrantes, cuj a edificação ainda existe.
No final da década de 1880 a im igração ocorria de form a m aciça: entraram no Brasil 32 m il europeus em 1887 e 92 m il em 1888. Iniciava-se na década seguinte a im igração italiana, em proporções igualm ente consideráveis: 85 m il pessoas apenas no ano de 1895. Em 1896, um terço dos habitantes da cidade de São Paulo eram italianos. Tam bém chegavam m em bros das fam ílias Martinelli, Matarazzo, Siciliano e Crespi, que form ariam a elite industrial. Em 1900, no auge das exportações de café, o núm ero de im igrantes j á seria de um m ilhão. Um dos problem as enfrentados por essas pessoas eram as m ás condições a que os cafeicultores, acostum ados ao trato com escravos, as subm etiam . Elas não contavam com sistem a de saúde adequado, ficavam em aloj am entos precários nas fazendas, suas j ornadas de trabalho eram longas, a alim entação deixava a desej ar — viviam o choque cultural. Várias fam ílias européias recebiam cartas de parentes descontentes com a vida nas fazendas brasileiras, e os consulados enviavam relatos desfavoráveis à im igração. Iniciava-se um a contrapropaganda na Europa. Em 1902, pelo Decreto Prinetti, a Itália proibia a população de em igrar para o Brasil. Em 1908 foi a vez da Espanha. Os cafeicultores paulistas forçavam a República a liberar a im igração de outras raças consideradas m uito diferentes da nossa, e assim foi perm itida a entrada dos j aponeses em 1908. Um dos principais fatores desfavoráveis à política de im igração eram as doenças infecciosas no Brasil, principalm ente a febre am arela. Os im igrantes, sem contato prévio com a doença, rara na Europa, a adquiriam e m orriam em terras brasileiras. As nações européias se opunham cada vez m ais à partida de seus cidadãos para o Brasil. A febre am arela j á estava presente nas cidades portuárias de Santos e do Rio de Janeiro. Com a m ultiplicação das ferrovias, a doença foi transportada para os centros urbanos do interior do oeste paulista, tornando-se
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universal nas terras para onde iriam os im igrantes. Era considerada prioridade na área da saúde, tendo em vista os interesses do governo. Os im igrantes chegavam pelo porto de Santos, onde se aglom eravam enquanto aguardavam para subir a serra com destino a São Paulo. Na cidade de Santos, estavam suj eitos a contrair a febre am arela e enfrentar epidem ias de varíola. Mas, algum as vezes, foram eles m esm os que trouxeram epidem ias para o Brasil nos navios europeus. Foi o caso da epidem ia de cólera em 1893, que italianos provenientes de Gênova e Marselha dissem inaram por Santos e São Paulo. Durante certo tem po, o governo construiu galpões de m adeira que funcionavam com o local de quarentena entre essas duas cidades; assim , os im igrantes não levariam epidem ias para São Paulo e estariam livres da febre am arela de Santos. Mas esse sistem a durou pouco. Depois de desem barcarem na estação ferroviária de São Paulo, eles eram aloj ados na Hospedaria dos Im igrantes, e esperavam , pelo tem po necessário, a sua transferência para as fazendas de café. Na hospedaria, m uitas vezes lotada, eram constantes as epidem ias. Com capacidade para quatro m il pessoas em 1888, abrigava nove m il; e assim desencadeou-se um surto de febre am arela. Nas fazendas do oeste paulista, m uitos abandonavam as plantações para viver nos centros urbanos, tam bém expostos à doença, dissem inada graças às ferrovias. A febre am arela era um terror para os im igrantes e para a República brasileira, pois atravancava a vinda de m ais m ão-de-obra.
Um terço das m ortes era então atribuído às doenças infecciosas. Entre 1895 e 1897, a febre am arela, responsável por 36% dos óbitos, foi a doença que m ais m atou. Durante parte do Im pério e da República, os órgãos responsáveis direcionaram o com bate à febre am arela, que prej udicava a econom ia. Em ação iniciada ainda na era dos m iasm as, os ataques se deram nos locais insalubres, os cortiços.
Na década de 1850 proliferaram os cortiços nas grandes cidades do Im pério, principalm ente no Rio de Janeiro, com o form a de habitação das classes de baixa renda. Quanto m ais ocorriam alforrias de escravos e m aior era o núm ero de im igrantes pobres, m ais os cortiços se expandiam por abrigarem essa população sem condição de pagar os aluguéis elevados. A situação de insalubridade em que vivia um a quantidade crescente de pessoas, ou m esm o de fam ílias, nos diversos côm odos dos cortiços atraía as doenças infecciosas, e as crianças eram as vítim as principais. Nesses aglom erados populacionais, reinavam a tuberculose, a difteria e a escarlatina.
A tuberculose ganhou espaço no século XIX no Brasil im perial, transm itida para a população depauperada pela fom e que se aglom erava em quartos úm idos e não ventilados. Em 1898, passou a ser a principal causa da m orte das pessoas pobres. Com o não acom etia os im igrantes, não era com batida com tanta energia quanto a febre am arela.
De certa form a, os cortiços contribuíram para a eclosão da tuberculose nos principais centros. No verão, à lista de doenças infecciosas acrescentavam -se as epidem ias de febre am arela. Depois de chegar ao Im pério em 1850, esse m al retornou em epidem ias anuais a partir de 1868 — e as de 1873 e 1876 foram as piores do século. Com isso, as autoridades viram -se forçadas a com batê-la de form a m ais rigorosa. Enquanto a tuberculose, difteria e escarlatina acom etiam a população em pobrecida dos cortiços e não traziam m aiores conseqüências à política de im igração, a febre am arela, ao contrário, acarretava problem as. Os im igrantes europeus não haviam tido contato com a doença em seu continente e, portanto, não apresentavam im unidade a esse m al. Assim , a febre am arela atrapalhava m uito a política de im igração do Im pério, chegando a am eaçar a produção de sua principal fonte de renda, o café. Com isso, iniciou-se um com bate para m antê-la sob controle; as outras epidem ias que acom etiam a população pobre, contudo, ficaram em segundo plano. Todas as m edidas visaram m elhorar a im agem internacional do Brasil, sem prej udicar a im igração européia.
Desde a chegada da febre am arela e a criação da Junta Central de Higiene, os m iasm as eram apontados com o os principais responsáveis pela doença, um a vez que Pasteur nem sequer sonhava com as descobertas que faria sobre as leveduras. A Junta criou um a política para elim inar as fontes m iasm áticas da cidade, em preendendo a perseguição aos cortiços. Além de suj os e com aglom eração populacional, esses lugares abrigavam ladrões, fugitivos, im igrantes ilegais e escravos foragidos. Iniciava-se, assim , a proibição à construção de cortiços sem a aprovação governam ental; e tam bém com eçava a fiscalização para instalação de latrinas, m anutenção da hm peza e recolhim ento diário de excrem entos.
A princípio, a Junta preocupou-se com as m edidas para a lim peza da cidade, organizando coletas de lixo periódicas, obrigando os m oradores a abrirem as j anelas para arej ar os quartos e realizando o calçam ento de vielas e ruas; posteriorm ente, conduziu sua ação para os espaços em que eram construídos os novos cortiços. As m edidas im plem entadas pela Junta pouco influenciaram no controle da febre am arela, e o m osquito j am ais foi relacionado à transm issão; assim , a década de 1870 foi m arcante pelos surtos de 1873 e 1876, que m otivaram iniciativas m ais enérgicas de prevenção. Na epidem ia de 1873, que m atou quase quatro m il pessoas no Rio de Janeiro, o Dr. José Pereira Rego, higienista, se referiu a duas fontes de m iasm as. A prim eira, o local onde houve a rem oção de terra para a construção do esgoto sanitário pela em presa City Im provem ents. A segunda, os cortiços, cuj o exterm ínio ele defendia havia um a década. A Junta proibiu naquele ano a edificação de cortiços em pontos centrais da cidade do Rio de Janeiro, entre as ruas do Riachuelo e do Livram ento, assim com o entre as praças Dom Pedro II e Onze de Junho. Atacou tam bém os cortiços m ascarados pelo nom e de "casinhas", expulsando os m oradores da cidade e com eles as classes pobres. Essas m edidas confundem -se com a política de civilização, tendo caráter m ais social, com o proj eto de em branquecim ento da população por m eio da im igração de europeus e dos casam entos entre pessoas de raças diferentes. Com a Lei do Ventre Livre, em 1871, acentuou-se na década de 1870 a necessidade de im igração de m ão-de-obra européia para atender às dem andas da aristocracia do café. A febre am arela tornou-se um problem a de saúde pública, acom etendo os im igrantes e influenciando a econom ia do Im pério. As m edidas contra os cortiços ganhavam dim ensão m aior a cada ano, até que, em 1892, se elegeu o professor de m edicina do Rio de Janeiro, Dr. Cândido Barata Ribeiro, inspetor-geral de Higiene.
A prim eira m edida adotada por ele foi o fecham ento de um a das alas do m aior cortiço do País, o Cabeça de Porco. Esse lugar abrigava, no seu auge, cerca de quatro m il pessoas — um excelente alvo para a m oral política. Na entrada, havia um a estátua da cabeça de um porco, o que originou seu nom e, hoj e em pregado com o sinônim o de cortiço — cabeça-de-porco. Na entrada das chácaras, ao contrário, costum ava haver a estátua de um leão, por isso a expressão leão-de-chácara. Finalm ente, em j aneiro de 1893, com a presença de tropas nas ruas, os m oradores do Cabeça de Porco foram obrigados a deixar o lugar, carregando seus pertences, roupas e colchões sob o olhar do prefeito e do inspetor-geral de Higiene. Na m anhã seguinte, estava dem olido o cortiço. Muitos dos que foram desaloj ados construíram m oradias ao pé dos m orros e, sem m ais lugar, com eçaram a subida que term inaria com pondo as favelas atuais da cidade do Rio de Janeiro.
ECHEG A A CÓLERA
Enquanto os habitantes do Rio de Janeiro constatavam , perplexos, o aum ento do núm ero de m ortes pela febre am arela, a Europa vivia o auge de sua epidem ia de cólera. A nova pandem ia, que se iniciara em 1847, avançou de Istam bul para a Europa; e por via m arítim a, com os navios velozes a vapor, atingiu os Estados Unidos e a Am érica Central, chegando ao Brasil em 1855, onde se espalhou pelo litoral. Enquanto discutiam as providências para o controle da febre am arela, j á endêm ica a cada verão, os m édicos eram obrigados a desviar sua atenção para a nova doença.
A galera Defensora, procedente da cidade do Porto, transportou os doentes, que desem barcaram no Pará, prim eira província a conhecer a cólera. Dissem inando-se por terra, pelos cam inhos percorridos por pessoas que contam inavam a água e os alim entos, e por m ar, pelo vapor Im peratriz, a doença diarréica chegou a duas cidades superpovoadas — Salvador e Rio de Janeiro. Na Bahia, havia povoados em condições tão precárias que m orriam oito a dez pessoas por dia, aum entando o pânico da população. Im provisavam -se estabelecim entos para atender e tratar os doentes. A Faculdade de Medicina suspendeu suas atividades para que m édicos e alunos auxiliassem os enferm os durante a calam idade. Além de hospitais públicos e m ilitares, incluíram -se sobrados e casas de aluguel no esforço de "guerra" para o tratam ento, e até igrej as se transform aram em hospitais.
Novam ente, se atribuiu a epidem ia aos m iasm as, o que m udou o cotidiano dos m oradores de Salvador. Lim param -se as ruas, os lixos am ontoados foram recolhidos, evitou-se o contato com m angues, pântanos e esgotos. As autoridades tentaram proibir, no centro urbano, a criação de porcos, os curtum es e o retalho e cozim ento de baleias. Além de im pedir a form ação de m iasm as, era preciso dispersá-los; para tanto, proliferaram as fogueiras nas esquinas, em frente das casas, e a queim a de enxofre, alcatrão e estrum e seco. Sugeriu-se alteração nas dietas, suprim indo-se determ inados tipos de alim ento, com o os salgados, os rançosos, peixes e carne de porco. Ao cair da tarde, os m oradores deveriam recolher-se em casa e fechar portas e j anelas, pois os m iasm as teriam preferência por tem peraturas baixas e transm itiriam a doença principalm ente à noite. Vários tratam entos eram propostos de m aneira desesperada e aleatória. Substâncias que provocavam vôm itos e diarréia eram fornecidas para os doentes com a finalidade de elim inar o m al; provavelm ente, foram responsáveis por m ais óbitos. Aum entava a lista de ervas e substâncias que eram ingeridas ou esfregadas no corpo com o tentativa desesperada de cura. Para o Arcebispo da Bahia, Dom Rom ualdo Antônio de Seixas, não se podia explicar a catástrofe apenas por m eios científicos, que apontavam os m iasm as
com o seus causadores, m as com o punição de Deus ao povo brasileiro. {44} Ele acreditava que a população com etia pecados e sacrilégios dem asiados, despertando a ira do Senhor e o conseqüente envio da doença. Essa conduta do arcebispo era estranha, um a vez que ele propunha um a reform a no catolicism o brasileiro desde a década de 1830: pregava m aior obrigação do povo aos deveres sacram entais e às obediências eclesiásticas e criticava a religião baiana, cheia de festividades e devoção a santos e com poucas obrigações. No borbulhar da epidem ia e dos enterros diários, o arcebispo encontrou terreno fértil para sem ear a observância a seus preceitos.
As pessoas passaram a visitar as igrej as com um a freqüência m uito m aior, saíam em grupos para se proteger do ataque da peste, principalm ente à noite, e reuniam -se na igrej a para m issas, rezas, cantos e pedidos. Os j ornais anunciavam procissões, e a população recebia convites para esses cortej os de penitências e súplicas. Cada irm andade organizava sua procissão, e Salvador era então percorrida por cortej os com intervalos de dias entre um e outro. O arcebispo orientava a população para a devoção a São Francisco Xavier, decretado padroeiro da cidade após a epidem ia de 1686. Com a distribuição de folhetos, indulgências e a criação da Irm andade de São Francisco Xavier, o arcebispo incentivava a devoção a esse santo esquecido pela população. O Senhor Bom Jesus do Bonfim era o santo popular de Salvador, sendo solicitado veem entem ente durante a epidem ia. Em 6 de setem bro de 1855, sua im agem partiu da Igrej a do Bonfim para um a procissão em que se j untaram várias pessoas.
Durante a epidem ia, o custo de vida nas cidades litorâneas subiu. A dim inuição da produção agrícola acarretou a escassez de alim entos e o aum ento dos preços; o valor dos aluguéis tam bém se elevou. As condições habitacionais pioraram , favorecendo a dissem inação da doença pela classe social pobre. Se a febre am arela poupava os negros e acom etia principalm ente os brancos e im igrantes europeus, com a cólera ocorria o contrário: a população que vivia em condições insalubres, negros e m ulatos, era m ais atingida, apresentando taxa de m ortalidade m aior.
A província da Bahia perdeu em torno de 3,6% de sua população calculada em cerca de um m ilhão de habitantes. Dos que pereceram , cerca de 50% eram negros, 35% m ulatos e 15% brancos. Em todo o Brasil, estim a-se que, de cada três m ortos, dois eram negros ou m ulatos. Portanto, a grande m aioria das vítim as eram os negros e m ulatos. Foi acom etido tam bém um grande núm ero de lavadeiras que trabalhavam em riachos e rios contam inados, lidando com roupas que continham dej etos hum anos. O Nordeste foi castigado: a Paraíba perdeu 10% da população; Salvador, 18%; Belém , 4%; e Pernam buco, cerca de 37 m il habitantes. A cidade do Rio de Janeiro enterrou 4.800 vítim as — m etade delas, escravos.
Essa grande epidem ia de cólera transform ou o m odo com o se faziam os enterros no Brasil im perial. Desde o início do século, os sepultam entos eram realizados em igrej as. Enterrava-se o corpo dentro da igrej a da paróquia ou irm andade a que a pessoa pertencera, de m odo que ficasse perto dos vivos e das rezas por sua alm a. Foi dessa form a que se enterrou 89% dos habitantes do Rio de Janeiro na prim eira m etade do século XIX. Os cem itérios ficavam reservados à m inoria da população protestante européia e norte-am ericana. Tal prática com eçou a receber críticas com a fundação da Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro, na década de 1830. Com base na teoria dos m iasm as, os m édicos não aceitavam esse tipo de enterro pelo fato de as igrej as estarem próxim as a aglom erações hum anas. A decom posição do cadáver poderia form ar as substâncias m iasm áticas, responsáveis pelas infecções — era com um o corpo não estar sepultado com vedação adequada, espalhando os odores da decom posição. Os m ortos deviam ser, portanto, enterrados em lugares distantes do núcleo urbano, para evitar os m iasm as, e à profundidade m áxim a. Assim se recom endavam cem itérios em lugares que dissipassem os m iasm as: altos, ventilados e arej ados, com arborização. As norm as m édicas foram com batidas pela população e ocasionaram revoltas na Bahia, a principal delas conhecida com o a Cem iterada. Opuseram -se a tais orientações as irm andades religiosas, que anteviram a queda do núm ero de associados; os frades, que a tom aram com o um grave risco à sua fonte de renda; e a população, que viu sua crença religiosa am eaçada, tem endo ser sepultada longe do local em que fora batizada. O cem itério de Cam po Santo, inaugurado em outubro de 1836, teve vida curta: foi destruído dois dias depois pela Cem iterada, e as autoridades tiveram de aceitar a revolta e protelar os enterros em cem itérios. Na epidem ia de cólera de 1855, eram encontrados m ortos por todas as partes. A população ficou perdida nas diversas teorias para explicá-la, entre os m iasm as e o castigo divino. Os m édicos não conseguiam agir para obter o controle da doença, e o núm ero de óbitos crescia a cada dia. Os corpos eram recolhidos em carroças ou carros; sem lugar para enterros em igrej as, e dado o pavor da transm issão, eram levados para cem itérios, dessa vez com a aceitação da população. O cem itério de Cam po Santo entrou em plena operação, recebendo o m aior núm ero de m ortos pela cólera. As covas coletivas e as valas com uns, destinadas até então aos suicidas, crim inosos, indigentes e escravos, passaram a abrigar as vítim as da doença. Em conseqüência do m edo de m anipular o cadáver, m uitos corpos foram crem ados ou abandonados em terrenos e rios. Foi nesse contexto caótico que se substituíram definitivam ente os sepultam entos em igrej a pelos enterros em cem itério.
Enquanto a população brasileira respirava m ais aliviada com a dim inuição dos casos de cólera e o retorno à vida cotidiana m ais tranqüila, Pasteur iniciava seus trabalhos, conform e descrito anteriorm ente.
A FEBRE AMARELA NA AMÉRICA
As ilhas do Caribe tinham se tornado, no século XVII, o local de grande concentração do m osquito causador da febre am arela. Forneciam epidem ias da doença para as áreas de destino das em barcações que dali partiam . A Carolina do Sul viveu, no século XVIII, quatro grandes epidem ias de febre am arela levadas pelas em barcações do Caribe. Em 1800, navios espanhóis provenientes de Cuba precipitaram um a epidem ia na cidade de Cádiz, que m atou cerca de 15% da população. Em 1803, em barcações transportavam novam ente a doença para a costa espanhola; era a vez da cidade de Málaga perder 13% da população e, no ano seguinte, m ais 36%. A febre am arela chegou tam bém a Córdoba, Sevilha e Granada. Barcelona, em 1821, presenciou a m orte de tripulantes de um a em barcação que partira de Cuba; em poucos dias, com eçaram a m orrer trabalhadores e habitantes das proxim idades do cais. Em seis m eses, a doença alastrou-se pela cidade, causando vinte m il m ortes. A França instituiu a quarentena para os navios procedentes de Barcelona, e autoridades patrulharam as fronteiras para evitar a entrada de espanhóis portadores da infecção. No com eço do século XIX os Estados Unidos se lançaram num processo de aquisição de regiões do sul, am pliando seu território. Em 1803, com praram toda a área da Louisiana, que a França havia conquistado da Espanha. Em 1812, com eçou a guerra dos Estados Unidos com a Inglaterra por causas com erciais, e, no final do confronto, os am ericanos tom aram as regiões da Flórida e do Mississippi do dom ínio espanhol.
O sul dos Estados Unidos transform ou-se num centro agrícola, e sua plantação de algodão supria a indústria da Inglaterra da m atéria-prim a de que esta necessitava. Essa região, que perm aneceu agrícola enquanto o norte se industrializava, ficou dependente da escravidão, m antendo intercâm bio freqüente com as ilhas do Caribe. Em virtude dessa com unicação, chegavam às cidades sulistas epidem ias de febre am arela que, m uitas vezes, os rios levavam para o interior do país.
Na segunda m etade do século XIX, com eçaram as epidem ias de febre am arela no sul dos Estados Unidos. A doença entrava pelos portos de Nova Orleans e Charleston, dissem inando-se pelo rio Mississippi ou pela costa atlântica. Em 1853, espalhava-se, em Nova Orleans, a notícia de um a epidem ia de febre am arela que dizim ava a população. O alarm e provocado por essa inform ação ocasionou um grande êxodo que esvaziou as ruas da cidade, onde perm anecia apenas um de cada dez habitantes. Cerca de cinqüenta m il m oradores fugiram e nove m il m orreram . A epidem ia alastrou-se pelas localidades à beira do rio Mississippi em direção ao norte, deixando um rastro de 11 m il m ortos. Em 1878, Nova Orleans forneceria ao rio Mississippi outra fonte de epidem ia, m ais assustadora. A febre am arela chegou à cidade num a em barcação procedente do Caribe. Um terço dos habitantes — cerca de 150 m il pessoas — fugiu e vinte m il foram acom etidos. A epidem ia dissem inou-se pelo rio, atingindo duzentas cidades de oito estados diferentes. Um total de vinte m il m ortes ocorreu em um ano. A cidade de Mem phis ficou desabitada pela fuga de 25 m il m oradores e por cinco m il óbitos pela doença, e isso fez com que a chegada de novos habitantes caísse de 17% para 3% nos anos seguintes. A pequena cidade de Grenada enviava m ensagens por telégrafo alertando sobre as localidades que se encontravam no rum o da doença. Grenada tinha 2.200 habitantes; duzentos perm aneceram , o resto fugiu.
Sabendo-se então, após as notícias de Pasteur e Koch, que os m icroorganism os ocasionavam as doenças, o ano de 1897 foi m arcado pela violência por causa da febre am arela. As pessoas acreditavam que esse m al se espalhava por m eio de fugitivos de Nova Orleans. Assim , as populações passaram a proibir a entrada de estrangeiros nas cidades, a destruir pontes e estradas de ferro que lhes davam acesso e a construir barreiras nas entradas. Finalm ente, a violência culm inou com a perseguição a intrusos que, supunha-se, transm itiam a doença, ocorrendo até o lincham ento de negros e im igrantes italianos. Em 1898, as epidem ias de febre am arela varreram o sul do país, fazendo com que o governo, por interm édio do m édico Walter Reed, tom asse providências urgentes na ilha de Cuba, invadida, havia pouco tem po, pelos Estados Unidos. Cuba sem pre fora um a colônia espanhola, desde a sua conquista em 1492, m as no final do século XIX aum entaram os m ovim entos revolucionários para a sua em ancipação. Em 1895, tais m ovim entos intensificaram -se com ataques ao exército espanhol pelos cubanos e destruição de plantações do principal produto de exportação, o açúcar.
Em 1895 e 1896, a Espanha am argou um a queda na exportação do açúcar de Cuba para apenas 25% do que registrara nos anos anteriores, o que com prom eteu m uito sua renda. Medidas urgentes teriam de ser tom adas para evitar não só o prej uízo na exportação causado pelos ataques às plantações, com o a própria perda da colônia. Dessa form a, o m ilitar Valeriano Wey ler foi incum bido da responsabilidade de pôr fim ao conflito. Sua prim eira e única iniciativa para capturar os guerrilheiros, adotada em m eados de 1896, foi providenciar a "reconcentração" da população de Cuba. Tratava-se de obrigar os habitantes da ilha a se concentrar em determ inadas regiões num prazo curto de oito dias. Dessa form a, o exército espanhol faria um a busca nas áreas esvaziadas, destruindo aldeias, vilarej os e plantações e capturando todo indivíduo suspeito que tivesse ficado fora das localidades estipuladas para a concentração. O prim eiro resultado da ação de Valeriano Wey ler traduziu-se num a quantidade enorm e de pessoas que ficaram sem ter onde m orar, sem em prego e sem condições de subsistência. Os historiadores acreditam que, em conseqüência desse fato, cerca de trezentas m il a quinhentas m il m ortes tenham ocorrido por fom e e por doenças. Um a vez que a população da ilha era estim ada em um m ilhão e m eio de habitantes, a taxa de m ortalidade nos dois anos em que a m edida foi adotada pode ter chegado a 20% ou 30% de toda a população. Os Estados Unidos, com investim entos em Cuba, não suportariam a am eaça dos prej uízos ocasionados pela guerra nem a suprem acia espanhola num a das m ais ricas ilhas do Caribe. O pretexto para sua entrada nessa disputa seria conseguido em 1898. O encouraçado am ericano Maine, ancorado na bala de Havana, explodiu de form a inexplicável, o que se atribuiu à ação espanhola; os Estados Unidos invadiram a ilha com obj etivos hum anitários em defesa do povo nativo, expulsando os espanhóis. Essa ocupação m ilitar duraria de 1898 a 1902 quando, finalm ente, ocorreria a independência de Cuba, m as sob o direito de intervenção dos Estados Unidos no m om ento em que achassem prudente m anter a paz na ilha. A invasão dos Estados Unidos foi am pliada para Porto Rico, outra colônia espanhola.
A população do sul dos Estados Unidos j á havia relacionado a febre am arela às ilhas do Caribe. Em Cuba a doença era endêm ica, ocasionando a m orte de 36 m il pessoas só na cidade de Havana, na segunda m etade do século XIX. Em 1881, o m édico e biólogo cubano Carlos Juan Finlay, estudando a doença na ilha, publicou artigo sugerindo que sua transm issão se dava pela picada de m osquitos. Um trabalho precoce dem ais para ser aceito pela com unidade m édica. Com a tom ada de Cuba, as tropas foram castigadas pela febre am arela e pela febre tifóide. Surgiu a prim eira oportunidade de os Estados Unidos investigarem ali a doença endêm ica.
Walter Reed, m édico das Forças Arm adas am ericanas, foi encarregado da pesquisa para esclarecer a causa da febre am arela. Entrou em contato com Finlay em Cuba para aprofundar-se em sua teoria. Os voluntários eram subm etidos ao contato com secreções de doentes. Dorm iam em cam as com sangue e secreções e usavam roupas dos enferm os. Com o os voluntários não apresentaram nenhum a reação própria da doença, esses prim eiros estudos m ostraram que a febre am arela não era contagiosa. Walter Reed subm eteu cinco m ilitares am ericanos à picada do Aedes aegypti e constatou o início da febre am arela. Em 1900, o m undo conhecia seu trabalho sobre a transm issão da doença, no qual apontava o m osquito com o o responsável. O sanitarista am ericano William Crawforde Gorgas tom ou m edidas para exterm inar os m osquitos e controlar a febre am arela. Com a extinção de todos os locais em que o inseto proliferava — os que continham água parada —, os resultados foram excelentes. Em 1900, registraram -se m ais de m il casos da doença; em 1901, apenas 37; e, finalm ente, em 1902 ela estava extinta em Havana. A partir de 1901, o m undo iniciava o controle dos m osquitos nas cidades e a febre am arela com eçava a abandonar a vida cotidiana da população. O Panam á, independente da Espanha desde 1821, fazia parte da Colôm bia. Desde o Descobrim ento da Am érica, havia a intenção de facilitar o com ércio por m eio de um a abertura m arítim a que ligasse os oceanos Atlântico e Pacífico. O istm o do Panam á era um forte candidato a viabilizar esse plano. Com a expansão dos Estados Unidos, aum entou a necessidade de ligação dos dois oceanos. Após a tom ada do Texas do território m exicano em 1836, a Califórnia foi a conquista seguinte, em 1848. Iniciada a sua exploração, logo ficou evidente a riqueza em ouro dessa região, o que tornava um a prioridade a com unicação da costa leste com a oeste via Am érica Central, j á que as Montanhas Rochosas dificultavam o acesso por terra. Em 1851, os Estados Unidos em preendiam na província colom biana do Panam á a construção de um a estrada de ferro pela Panam á Rail Road Com pany. Em 1854, inaugurava-se a linha com a viagem da prim eira locom otiva que unia as duas costas. Durante essa construção, operários penetraram na m ata e houve um saldo de seis m il m ortes pelas doenças tropicais que os m osquitos transm itiram , com o a m alária e a febre am arela. As infecções prej udicaram o sonho am ericano de ligação das costas oceânicas. Entre 1878 e 1880, a Colôm bia forneceu o privilégio de exclusividade da construção do canal do Panam á ao francês Lucien Bonaparte Wy se, enquanto restava aos Estados Unidos o plano de fazer outro canal através da Nicarágua. Lucien convenceu o construtor do canal de Suez (em 1869), Ferdinand Marie Lesseps, a construir tam bém o canal do Panam á. Lesseps não encontrara dificuldade na edificação do canal de Suez, tornando-se fam oso na Europa. O fundo para as obras viria de em préstim o da Com pagnie Universelle du Canal Inter-Océanique. Mas o que Lesseps não esperava era a presença das doenças transm itidas por m osquitos da região, a febre am arela e a m alária — e não faltavam nos acam pam entos dos trabalhadores condições para a proliferação dos m osquitos na água parada. As águas da chuva eram coletadas em grandes barris espalhados pelas obras, e tigelas com água eram colocadas nos pés das cam as para evitar que as form igas subissem . As portas e j anelas, sem pre abertas em razão do intenso calor, perm itiam a entrada da brisa — e dos m osquitos transm issores da doença. Lesseps levou para a área cerca de 85 m il trabalhadores, dos quais cinqüenta m il adoeceram e 22 m il m orreram . A construção do canal tornava-se inviável pelas infecções; associada a escândalos financeiros e a erros técnicos, foi im possível concluí-la pois a com panhia faliu em 1889. Mais um a vez, via-se um a tentativa frustrada de ligação dos dois oceanos. As obras teriam de esperar os trabalhos de Walter Reed. Com a descoberta de que a transm issão da m alária e da febre am arela se dava por m eio dos m osquitos, seria m ais fácil construir o canal, um a vez que se sabia que o fundam ental para o sucesso do proj eto era elim inar esses insetos. Mas a Colôm bia não concedia os direitos de edificação do canal aos Estados Unidos, que, por isso, apoiaram a revolução do Panam á contra o governo colom biano enviando corpo m ilitar para a região. Assim , o Panam á conquistou sua independência em 1903 e os Estados Unidos obtiveram os direitos de construção do canal.
Com o sucesso do saneam ento que Gorgas alcançara em Havana, Theodore Roosevelt encarregou-o de com bater o m osquito na região do Panam á, controlando a endem ia de febre am arela e m alária. O Congresso aprovou a edificação do canal em 1905, e em 1914 ele finalm ente passou a funcionar.
A TERCEIRA G RANDE EPIDEMIA DEPESTE BUBÔNICA
A epidem ia de peste bubônica sem pre foi das m ais tem íveis. Cada surto ocasionava a m orte de praticam ente um terço da população da cidade, fuga em m assa de habitantes apavorados e prej uízo com ercial pelas m edidas de quarentena e estagnação do com ércio.
Com o vim os, a peste pode ser introduzida num a região pela chegada de ratos portadores do bacilo. As pulgas j á contam inadas pelo bacilo do rato o transm itirão para os hum anos que picarem . Pode chegar tam bém com im igrantes doentes da peste. A locom oção hum ana sem pre foi a responsável por levar a peste bubônica para outras regiões e, principalm ente, em em barcações com ratos nos porões. A prim eira pandem ia de peste ocorreu no século VI d. C., iniciada na cidade de Constantinopla sob o regim e do Im perador Justiniano. Foi transportada pelas em barcações com erciais do Mediterrâneo para as principais cidades portuárias desse m ar e alastrou-se pelo litoral sul europeu e norte da África.
No século XIV, em barcações com erciais genovesas levaram a peste bubônica da Crim éia para as cidades do sul da Itália. Com o auge do desenvolvim ento urbano das cidades m edievais e o florescim ento com ercial, a peste encontrou aglom erados populacionais insalubres e um a sofisticada rede de estradas com erciais que ligavam a Europa. Em dois anos, propagou-se por todo o continente europeu e m atou cerca de um terço da população estim ada em setenta m ilhões de pessoas. O m undo entraria no século XX tem eroso da terceira e últim a pandem ia de peste que, partindo da China, atingiu o sul da Ásia, espalhou-se pela Europa e chegou à Am érica. A história das três pandem ias da peste traça um paralelo com a evolução e desenvolvim ento do transporte e com ércio da hum anidade, que cam inhou para a "globalização". Na pandem ia do Im pério Rom ano, com o Ocidente j á esfacelado pelas invasões bárbaras, o transporte m arítim o levou a epidem ia apenas ao litoral do Mediterrâneo, e a doença não progrediu para o interior pela falta de vias ativas de transporte terrestre. Já no século XIV, com estradas européias em pleno uso pelo com ércio m edieval, a epidem ia alastrou-se, por via m arítim a e terrestre, por todo o continente em apenas dois anos. O século XX com eçava dispondo de navios a vapor que transportavam a peste com m aior velocidade e de um a rede com ercial que não m ais se restringia ao Mediterrâneo, m as se estendia a colônias distantes dos países industrializados europeus, o que ocasionou a dissem inação da doença pelos continentes. Em pouco tem po, nos anos de 1899 e 1900, a peste originada na China atingiu cidades nos Estados Unidos, Europa, Am érica do Sul, África e Austrália.
A SAÍDA DA CHINA
O surgim ento da terceira pandem ia da peste que abriu o novo século foi sendo preparado ao longo do século XIX; durante anos e anos, criaram -se condições para o bacilo sair do interior da China e ganhar os continentes. No início da década de 1800, o bacilo da peste habitava os ratos de lugarej os e vilas da região chinesa de Yunnan. Localizada ao sul da China, longe de seu litoral, esse território perm anecia isolado dos grandes pólos com erciais do país. Seus vilarej os faziam fronteira com o norte do Vietnã e avistavam o início das cordilheiras m ontanhosas que form am o Tibete. Sua população rural vivia da agricultura, de m odo auto-suficiente, e isolada do m undo em desenvolvim ento. O bacilo da peste aparecia de tem pos em tem pos de form a discreta. Quando surgiam m oradores com febre, a com unidade tratava deles em seu leito, nas habitações hum ildes, com ervas m edicinais tradicionais. O aparecim ento dos conhecidos bubões em virilhas e axilas causava pânico à população em decorrência da conhecida doença que am eaçava o vilarej o. Muitos chineses se curavam , porém vários pioravam e, quando não m ais dem onstravam sinais de recuperação, eram levados para locais afastados e desertos. Com sua m orte, a esperança da com unidade era de que o dem ônio causador da doença partisse com o m orto e não m ais acom etesse habitantes da região. Quando o núm ero de doentes novos dim inuía, era um grande sinal de que em breve a rotina do lugar voltaria ao norm al. O dem ônio finalm ente fora em bora. Nessa região agrícola e isolada, sem m igrações e sem relações com erciais, a peste se m anifestava discretam ente e longe do conhecim ento do m undo, até o dia em que sua população sofreu sérias transform ações sociais decorrentes da chegada dos britânicos ao território chinês.