A Morte de Ivan Ilitch, O Senhor dos Anéis: Expedições pelo Mundo da Cultura
Capítulo XII
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
106 Professor José Monir Nasser que nos transtorna de alguma maneira – é a única perspectiva de viver bem. E essa é a ideia central na obra que Tolstói escreveu.
Tolstói acerta nisso, mas não acerta na sua, digamos, filosofia geral sobre a vida. Porque ele é a personagem de tipo messiânica que irá criar uma seita, seitas essas que gerarão os desastres todos – sabe a seita dos indianos14? Sempre há um sujeito assim, que talvez você pudesse chamar, de modo imperfeito, de fundamentalista. Então, o que é o fundamentalista? É alguém radical ao ponto de dizer que ama a humanidade, mas negar ao pobre as pequenas coisas... Tolstói foi a Moscou, viu os pobres e pensou: “Puxa vida, como os pobres sofrem” – mas, ao mesmo tempo em que ele acha que os pobres sofrem, quer lhes negar o bife, o cigarro e o sexo. Mas que espécie de sádico é esse sujeito, pô? Não é possível uma coisa dessas... Entendeu? Você acha que o sujeito tem uma vida muito ruim, e mesmo assim acha que o certo é que ele não possa comer um bifinho, não possa fumar um mistura fina, e não possa transar com a mulher – não é com a vizinha; aqui está proibido é transar com a mulher. Entenderam? Mas como é possível entender uma coisa dessas? Eu acho isso uma coisa estranhíssima.
Tolstói diz assim: “Eu amo a humanidade”. Mas você amar a humanidade é de todas as formas de amor a mais estúpida. Porque o sujeito ama a humanidade, mas na verdade não ama nenhum ser humano especificamente. Então, é o sujeito que dará, porque ama a humanidade, a autorização para todo o tipo de barbaridade, todo o tipo de morte estatisticamente valiosa. Você mata 5.000 pessoas porque é pra salvar 500.000 pessoas, de acordo com a sua
14 Nota da transcritora - Possível referência aos thugs, seita secreta de assassinos e ladrões de viajantes que operaram na Índia do século XVI ao XIX, pelo menos. Os bandos thugs eram compostos de hindus, sikhs e muçulmanos que adoravam a deusa da morte Kali.
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA A Morte de Ivan Ilitch 107 perspectiva estatística. Mas que história de amante da humanidade é essa? Jesus Cristo nunca amou a humanidade, amava os seres humanos.
Tolstói propõe um socialismo agrário, porque todos deveriam ser iguais, porque isso derivaria do preceito de que Deus ama a todos igualmente. Mas Jesus Cristo não amou todo mundo igualmente. Jesus Cristo tinha preferências por este ou por aquele, Ele tinha o seu apóstolo predileto. De onde é que Tolstói inventou essa ideia absurda e imoral de que se deve amar todo o mundo com a mesma intensidade, do mesmo jeito? Não é verdade, você ama os seus filhos mais do que as outras pessoas, você ama essa pessoa mais do que aquela – é a experiência da vida concreta. A ideia de inventar uma vida em que se ama todo o mundo igual é uma bobagem que Tolstói inventou, não tem nenhum cabimento. No entanto, é esta a ideia que sustenta a seita tolstoiniana, que teve centenas de adeptos. Houve um grupo de russos que imigrou para o Canadá porque começou a ser perseguido pelo czar. Foram conduzidos pelo filho do Tolstói, Serguei, com o objetivo de criar no Canadá uma colônia com esse tipo de pureza espiritual do cristianismo primitivo. Pois você nunca vai conseguir nenhum progresso como ser humano se você não partir do pressuposto de que os seres humanos são essencialmente pecadores. Você não consegue nada, nunca, contrapondo-se à natureza humana. É por isso que o padre ali na esquina, na paróquia, consegue muito mais com as pessoas do que Tolstói, com toda a sua pureza cristã: porque não existem pessoas capazes de passar por aquela experiência tolstoiniana.
ALUNO: (Faz comentário.)
108 Professor José Monir Nasser PROF. MONIR: É, mas devemos cuidar, porque Tolstói ainda estava no momento anterior; ele não estava pensando do jeito que pensava quando escreveu esse livro aqui, tanto é que ele repudia o livro – ele disse que Ana Karênina e Guerra e Paz são livros do tempo em que ele ainda era um idiota, que não é pra ler isso não, que vocês não se preocupem mais com isso.
Vocês compreendem que esse messianismo que Tolstói vivenciou é o mesmo messianismo que irá gerar depois todo tipo de arbitrariedade política, todo tipo de totalitarismo? Porque é o sujeito que cria um modelo de gente que não existe, um modelo humano de gente perfeita, e depois que esse modelo humano está criado, ele sai criminalizando todos aqueles que existem. Não estou dizendo que Tolstói tentou fazer isso; ele não tentou. Mas era um homem de uma ingenuidade imensa com relação ao potencial de isso acontecer. É claro que ele não tinha nenhuma pretensão revolucionária, não articulava nada politicamente – tanto é que o czar o deixou em paz; ele, pessoalmente, nunca foi perseguido pela polícia czarista, nada disso. Os que eram perseguidos eram o pessoal de uma seita que o filho dele encampou e levou embora, mas ele mesmo não. Achava-se que ele era, no fundo, um sujeito sem periculosidade nenhuma. Mas, no fundo, a visão de Tolstói, esse projeto de pureza cristã é o projeto perigoso que produz uma normatização do ser humano que merece viver, ou seja, produz uma prototipização, estereotipa o ser humano que tem direito à vida, e criminaliza todos os demais. E o sujeito que não for assim mesmo conforme descrito ali, quer dizer, quem não tiver renunciado a essas coisas todas aí, como ele queria que renunciasse, esse sujeito tem que ser perseguido pelo Estado. Então dentro disso existe, potencialmente, o próprio germe dos movimentos revolucionários. Tanto é que, não esqueçamos, que foi na Rússia que aconteceu o primeiro grande movimento revolucionário
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA A Morte de Ivan Ilitch 109 bem sucedido – tinha havido na França em 1848 uma tentativa de golpe revolucionário, mas era um negócio tão amador, tão feito na base do “vamos sair na rua e ver o que acontece”, que não deu certo. Onde foi a primeira experiência revolucionária que deu certo? Foi na Rússia, no começo do século XX, em 17 de outubro de 1917. Nesse dia instalou-se o primeiro governo revolucionário, baseado numa atitude tolstoiana – é Tolstói quem é a origem da atitude, embora ele não esteja na genética do movimento revolucionário – essa genética é marxista, é uma genética muito diferente. Mas no fundo, no fundo, ninguém mais útil para uma coisa dessas do que Tolstói. É claro, como ele tinha um discurso antimarxista, jamais seria visto com bons olhos pelo movimento revolucionário. Mas ele tinha morrido em 1910, quer dizer, não estava mais em questão. No entanto, a atitude que está aí, dentro do tolstoísmo, é uma atitude capaz de produzir este efeito, que é o efeito de criação do homem perfeito. Mas o homem não é nunca perfeito! E a única religião que funciona é aquela que parte do pressuposto de que os pecadores é que são o objetivo dela, porque, se todos fossem santos, não precisaria haver religião. O primeiro pastor, o primeiro padre foi Adão, porque antes de haver a queda, não precisaria haver religião, estava tudo ligado. A religião só é necessária quando se tem que ligar coisas que não existem mais.
ALUNA: (Faz comentário.)
PROF. MONIR: Pois é, para Tolstói isso, então, é o fim, pois Deus não é vegetariano. Quer dizer, aí então é que fica difícil mesmo.
ALUNA: (Faz comentário.)
110 Professor José Monir Nasser PROF. MONIR: Bom, não sei sobre esse ponto exatamente, mas o esquema de Tolstói é muito simples. É assim: Olha, Deus é o pai de todos. Deus é o Criador, portanto, somos todos irmãos. Se somos todos irmãos, não há nenhuma razão para haver hierarquia entre nós. Então, a Igreja Católica ou a Igreja Ortodoxa são entidades de intermediação entre Deus e as pessoas, e as pessoas entre si também não teriam que ter hierarquia nenhuma. Então o que deveríamos fazer é ter uma vida completamente obcecada com a ideia de Deus, e fazer só isso. Tanto é que nesse livro aqui ele condena Shakespeare, condena Chaucer, condena Dante, condena todo o mundo e ele mesmo – ele é o primeiro da lista que acha que é um idiota, quer dizer, o Tolstói de Guerra e Paz e de Ana Karênina – e ele acha que tudo isso está errado porque é um desvio do objetivo humano, que é o objetivo de vivenciar a verdade religiosa. E a arte é apenas um meio pelo qual isso é impedido. Então ele faz aí comentários engraçadíssimos; ele põe uma porção de poesias dos simbolistas franceses, põe uma poesia e fala assim no final: “Alguém entendeu alguma coisa? Eu não entendi patavina, não sou capaz de entender essa porcaria; aposto que o autor também não entendeu nada”. Faz então uma visão da arte moderna... Aliás, por coincidência, Ortega y Gasset tem um texto famosíssimo chamado “A desumanização da arte”, em que prega a mesma coisa: diz que o problema da arte moderna é que ninguém entende arte moderna, por isso é que ela era rejeitada quando ele escreveu – em 1920, por aí – talvez não tenha mudado muito de lá pra cá. Mas Tolstói acha que no fundo só se consegue permanecer fiel ao projeto humano quando você reduz, tira tudo que for capaz de desviar a sua atenção, os prazeres em geral: carne, fumo. Sexo não pode ter de jeito nenhum, nem no casamento – só para reprodução. Bebida, muito menos (abstêmio completo). Ou seja, acredita que uma vida modesta, humilde, em que você anda com roupa de camponês, em que você tem uma vida
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA A Morte de Ivan Ilitch 111 completamente sem hierarquia, sem Igreja, é a única vida possível. Mas isso é a única vida possível para pessoas que não existem. Isso é possível sim, para alguém que tenha vocação ascética. Determinada pessoa tem a vocação para a vida monacal, para a vida no mosteiro, então está bom. É possível entender que um indivíduo qualquer seja capaz de se mudar para um mosteiro, vestir uma roupa velha, passar o resto da vida dormindo no chão e comendo comida bichada porque acha que isso é uma maneira de mortificar o corpo – é possível que uma pessoa assim adquira certo grau de santidade. E é bom lembrar que todos os fenômenos místicos cristãos estão de alguma maneira associados a esses fenômenos de mortificação do corpo, ao ponto de os céticos e materialistas julgarem que isso que se chama de fenômeno místico é uma reação química a um corpo martirizado – então, como não se concebe nenhuma espécie de vida espiritual, você julga que o sujeito judia tanto de si que começa a despirocar e voar, flutuar numa sala.
Mas é fundamental entender que para determinadas pessoas uma vida ascética pior ainda, mais grave do que essa que Tolstói propõe, pode ser viável. Pode ser, mas isso é uma escolha que pode ser feita por pouquíssima gente, porque é preciso um tipo especialíssimo de gente para poder fazer isso. No mais, estamos todos nós vagabundos, preguiçosos, absolutamente seduzíveis pelas tentações do mundo. O problema central é viver no meio dessa bagunça; e viver no meio dessa bagunça significa fazer o melhor que você pode – nunca exigindo de você uma perfeição que você não é capaz de ter – mas produzindo atos na sua vida que possam, de alguma maneira, agradar aos olhos de Deus. É por isso que, no fundo, o que você deve sempre imaginar é que a perspectiva da vida humana é assim: “Eu não presto, mas Deus me ama”. Pois esta é a única perspectiva de salvação concreta e real para uma pessoa que não tem vocação ascética.
112 Professor José Monir Nasser ALUNA: (Faz comentário.)
PROF. MONIR: É que a esposa dele era uma pessoa normal e estava horrorizada com isso. Porque ela tem 13 filhos e acha estranhíssimo o marido pegar e entregar a propriedade da família pro asilo. Ah, a Praskóvia? É que nós estamos falando de duas coisas ao mesmo tempo, não é?
Tolstói não tem a Praskóvia em grande conta, porque, embora ela seja uma pessoa com comportamento muito comum – você acha pessoas assim o tempo todo –, ela não se sai bem no final, porque no final quem tem alguma compaixão real e verdadeira é Guérassim e o filho, só. E a mocinha, Ielisavieta, que é Elisabeth, está mais preocupada com o casamento – o pai morrendo, e ela preocupada com o casamento; não deixa de ter alguma justificativa, de alguma maneira. Mas o que Tolstói faz, meio panfletariamente – é preciso se admitir aqui – é simplificar um pouquinho as personagens. O problema da literatura panfletária é esse – não se trata aqui de literatura panfletária, mas esse é um livro que está no limite. É um livro maravilhoso, muito bem escrito. Mas o que é panfletário? Um dia fui ver uma peça de teatro – são todas assim, não é? Porque peça de teatro é sempre feita por adolescente, mesmo quando tem 50 anos. Então é um troço chato; por isso dou razão ao pessoal do Casseta e Planeta, quando era Planeta Diário e não estava na Globo. Eles vendiam umas camisetas engraçadíssimas, e uma dizia assim: “Vá ao teatro, mas não me convide”. Então a peça era adaptada de Nelson Rodrigues. Tinha lá dois cenários: um luxuoso e outro todo escangalhado. No luxuoso morava uma família burguesa. Tinha o pai, a mãe, e o filho que era um playboy, tinha um caso com a mãe. Entenderam como é que era? O filho era amante da mãe. E eles eram exploradores. Do outro lado, tinha a casa de um velho jornalista, que tinha ficado pobre, porque nunca tinha
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA A Morte de Ivan Ilitch 113 aberto mão da verdade. E esse jornalista tinha uma filha muito bonita, que trabalhava numa fábrica. A fábrica pertencia ao capitalista, do outro lado. E aí, então, esse fulano, que é o filho, o playboy, está de olho na mocinha, mas a mocinha tem princípios morais, etc. Vocês compreenderam? Dá pra ser mais estúpido do que isso? Essas coisas são literatura panfletária. Vocês lembram aquela carta, no encontro sobre o livro O Idiota de Dostoievski, quando há aquela chantagem com Michkin, para que ele desse uma herança inexistente? A ameaça era divulgar um panfleto. Panfleto é uma história mentirosa, exagerada, em que se contam inverdades. E é isso. A literatura panfletária caracteriza-se por uma excessiva simplificação das personagens, porque, no fundo, as personagens da vida real são todas muito complexas, e não há nada que impeça que venha um ato bom de uma pessoa muito ruim; uma pessoa má pode gerar um ato bom.
Então Praskóvia é mais ou menos pintada como sendo essencialmente tão iludida quanto o marido era. É uma pessoa voltada para as coisas do mundo e, sem entender o porquê, ela continua vivendo uma agitação feroz, sem finalidade. E ela existe dentro de um contexto social, que é mais importante que tudo, e não tem relações afetivas verdadeiras com o marido. Tanto é que isso começou muito antes da doença. Não é uma coisa nova, já era uma questão anterior. Então Tolstói, quase beirando o panfletarismo, nos dá uma visão um pouco pessimista de Praskóvia – não é alguém que ele veja como uma pessoa muito boa. Na verdade, quem é bom é só Guérassim. A única pessoa nessa história que é realmente boa é Guérassim, porque ele, apesar de tudo, dedica-se com amor àquela tarefa de ajudar o doente, tem verdadeira consideração pelo doente.
114 Professor José Monir Nasser Mas o que Tolstói no fundo queria era mostrar é que só a perspectiva da morte faz perceber o quanto tudo é sem sentido. E ele tem razão nisso, está coberto de razão, está totalmente certo. O que é essa história que vocês leram? É a transformação da morte de um homem comum num acontecimento extraordinário. É ou não é?
Isso que vocês leram é a transformação da história da morte de um homem comum num acontecimento extraordinário, que qualquer pessoa pode vivenciar a partir do momento em que compreenda alguma coisa. Porém, a compreensão só funciona retroativamente, da morte para trás, e nunca da vida para a morte, porque a morte, da perspectiva da vida, parece apenas um beco sem saída, parece um abismo à sua frente. É um automóvel que você tenta frear e não consegue, e que necessariamente irá mergulhar no abismo do nada. Pois se você deseja não vivenciar isso, é preciso reconstruir a vida a partir da perspectiva da morte, e se encarregar de jamais produzir nenhum ato que possa, confrontado com essa perspectiva da morte, ser de alguma maneira inabilitado, descaracterizado e impossibilitado.
ALUNA: (Faz comentário.)
PROF. MONIR: Todas as tradições religiosas que se prezam fazem isso. Traduzindo em termos filosóficos: a morte é a pedagoga da precariedade das coisas. Quer dizer, a morte é a pedagoga da precariedade desse mundo, é pra isso que ela serve, para tornar a precariedade desse mundo conhecida. Uma vez que a precariedade do mundo é conhecida, você já não tem o mesmo direito de fazer o que você quiser, porque aí você tem que produzir ações que não sejam precarizáveis pela morte – o que não quer dizer que você tenha que virar tolstoiano, porque isso é uma bobagem;
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA A Morte de Ivan Ilitch 115 essa abordagem tolstoiana é uma besteira, tanto é que o staretz saiu corrido com Tolstói do mosteiro a bengaladas, quando ele apareceu lá dizendo que não tinha mais que divinizar Jesus Cristo. Ora, se você não diviniza Jesus Cristo, acabou o cristianismo, não há mais cristianismo nenhum. Isso que Tolstói pensa que é cristianismo primitivo, é nenhum cristianismo, é zero, é uma bobagem, não tem nenhum cabimento, acabou completamente o cristianismo; pois ele tinha mesmo que ser corrido com bengaladas, porque não tem nenhum sentido mesmo essa alternativa.
Muito embora Tolstói tenha errado – não sei como Deus irá julgá-lo, só Ele sabe –, não foi uma má pessoa; acho que ninguém vai para o inferno porque foi meio burro na vida, burrice acho que não é razão suficiente para condenar ninguém. Ele não foi maligno em nenhum momento, nunca pensou mal de ninguém, não era revolucionário, não era um sujeito que queria tomar conta do mundo. No fundo, no fundo, quando ele foge de casa com 82 anos, é porque talvez estivesse horrorizado com a perspectiva de alguém ser como ele...
Tolstói é esse sujeito que, embora tenha se equivocado profundamente, teve uma vida honesta consigo próprio, e esta vida honesta que ele tem consigo próprio é uma vida confessional, como a de Santo Agostinho. Vamos entender muito bem como funciona isso daqui a 20 dias quando nos encontrarmos de novo.
Com A Morte de Ivan Ilitch, ele quis dizer que não adianta olhar para a morte a partir da vida, mas a única solução é olhar para a vida a partir da morte; não há outro jeito de orientarmos a vida.
116 Professor José Monir Nasser Portanto, isso que é tabu, de que ninguém fala, e que todo mundo teme comentar, é, no final das contas, a coisa mais importante que alguém pode fazer. Pensar na própria morte todos os dias é absolutamente imprescindível para poder viver melhor; não é possível viver melhor sem a perspectiva da morte. E isso não é só da morte física: é da morte do seu emprego, e de qualquer outra coisa que você viva. Talvez o emprego seja o melhor exemplo de todos – o melhor jeito de continuar arrumando-se no emprego é você imaginar, todo dia, que está na iminência de ser demitido. A morte do seu emprego é aquilo que tornará a sua vida profissional boa, bem feita e organizada. Não é possível fazer o contrário, porque se você pensar no final do emprego a partir da experiência da vida profissional, o final do emprego para você será uma espécie de abismo negro no qual você pode cair e nunca reaparecer – é o fim de tudo, mesmo.
Pois é a descoberta que faz Ivan Ilitch no final da história. Sob essa luz que podemos interpretar o que ele está nos dizendo, independentemente de qualquer especulação de natureza espiritista ou metafísica.
Muito obrigado a vocês!
ALUNOS: (Aplausos.)
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O Senhor dos Anéis
Palestra do professor José Monir Nasser em 16 de fevereiro de 2008 em Curitiba.
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O Senhor dos Anéis
Queria começar dizendo que a nossa obra de hoje foi escolhida com muito cuidado. Sempre houve uma expectativa de pessoas que frequentam o curso de entender melhor O Senhor dos Anéis. Essa obra sofre de um grande problema – não só ela, mas há muitas outras que são assim. Há um grande livro chamado Moby Dick, de Herman Melville. Possivelmente é o maior livro da literatura americana. No entanto, ninguém lê porque o autor teve a infelicidade de colocar este nome no livro. Moby Dick é um nome infantilizante. É um nome que, mesmo em inglês, dá a sensação de ser para um público infantil, juvenil. Então, as pessoas adultas não leem porque pensam que é literatura juvenil, e os jovens leem e não entendem patavina. Aí então o livro fica numa espécie de limbo de incompreensão. E é uma pena muito grande, porque Moby Dick é um livro maravilhoso. E O Senhor dos Anéis sofre também do mesmo problema. Ouvi comentários concretos dizendo que o livro é muito infantil e juvenil. E o livro, de fato, foi escrito para
120 Professor José Monir Nasser um público mais juvenil. No entanto, é um dos maiores livros escritos no século XX. Há poucos livros tão importantes quanto este. Com alguns livros, há sempre uma dificuldade de você conseguir atenção para eles, porque acabam sendo carimbados de um certo jeito e ficam prisioneiros daquele carimbo, daquela aparência. Vocês verão que O Senhor dos Anéis é um livro extraordinário.
A mesma coisa não se pode dizer, por exemplo, de Harry Potter, porque é apenas um livro de aventuras infanto-juvenis, não tem valor literário maior. Harry Potter não entraria aqui no nosso programa porque não está no mesmo padrão de importância relativa, o que não quer dizer que não tenha mérito. Seguramente é uma história bem contada.
E nunca se esqueçam de Sertillanges, aquele velho jesuíta francês que escreveu um livro importantíssimo que vai ser editado pela primeira vez no Brasil este ano, chamado A Vida Intelectual. Ele diz que há três tipos de leitura. Há a leitura de entretenimento, aquela leitura que você empreende apenas com o objetivo de passar o tempo. É a leitura de best-seller, digamos assim, Sidney Sheldon e essas coisas aí. Há uma enormidade de autores que só querem que você passe o seu tempo fazendo alguma coisa. Entre eles está Harry Potter. É um modo de distrair. Há algum valor, seguramente. Há um segundo tipo de leitura que é a leitura de informação, que você faz ao ler um jornal, por exemplo. Historicamente, a leitura de informação é a leitura do jornal. Você quer saber como estará a temperatura no domingo. Você quer saber quais foram os números da Supersena ou o resultado do jogo. Nem o primeiro e nem o segundo tipos de leitura nos interessam aqui no programa Expedições pelo Mundo da Cultura. A única leitura que nos interessa aqui é o terceiro tipo, chamado leitura de formação. É aquela
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Senhor dos Anéis 121 em que o sujeito sai modificado. Quer dizer, você não ficou só gastando o seu tempo lendo, mas alguma coisa aconteceu com você. Você percebeu alguma coisa sobre o mundo que será de uma utilidade extraordinária, na medida em que a sua vida real e concreta produza situações equivalentes àquela. É esta a leitura que nós fazemos aqui no Programa SESI.
Eu queria deixar também claro que a metodologia de leitura de entretenimento se parece muito com um deslizar sobre patins no gelo. Você desliza na história. É uma coisa superficial e rápida. Tão superficial que, se você perguntar para a maioria das pessoas que fazem esta leitura, depois que leem o livro elas não se lembram mais nem mesmo do título. É muito comum o sujeito não lembrar mais o que leu durante 10, 12 horas. E a leitura que estamos ajudando a desenvolver com o Programa SESI é uma leitura de profundidade. Que se parece com uma prospecção de geologia, de petróleo – a gente faz um buraco na obra adentro. A diferença essencial é essa: para você poder transformar aquele livro numa coisa realmente útil para a sua vida, é preciso não deslizar sobre a obra, mas fazer perguntas e produzir, então, uma compreensão profunda da obra – que é aquilo que imaginamos poder ajudar a fazer aqui. Muito embora – vocês compreendem – nossas possibilidades sejam pequenas, porque temos só essas míseras 4 horas com vocês. O que significa, também, que embora eu saiba das dificuldades concretas de leitura que todo o mundo tem, queria dizer que é bom ler o livro. O resumo resolve em parte, mas o resumo nunca é igual ao livro.
Esse não é um livro fácil de aconselhar. Não é um livro muito prático, é grande. Mas há outros livros que podem ser lidos em duas horas – alguns desses estão listados no nosso programa. Então, é muito melhor ler o livro. Se você não leu o livro ainda, depois do curso fica mais fácil ler. Alguns livros
122 Professor José Monir Nasser ficam facílimos quando você lê depois do curso. A Montanha Mágica, por exemplo. A minha estatística é a seguinte: a cada dez pessoas que tentam escalar A Montanha Mágica, umas oito param no caminho e não sobem. Das duas que sobem, uma não entende patavina e a outra entende mais ou menos. Um livro como esse é muito mais fácil de ler depois de você fazer o programa. Mas A Montanha Mágica foi no passado. Não vamos ter repetições, em princípio, neste programa. De vez em quando faço uma ou outra reapresentação por aí, nessa ou naquela instituição. Mas o programa oficial do SESI só repete os livros em Paranavaí e em Londrina, nas outras duas cidades do interior onde o programa acontece numa base mensal, e não quinzenal como é aqui em Curitiba.
Muito bem! Queria convidá-los para dar uma olhadinha na história do autor. Vocês receberam uma cronologia. Queria logo ir fazendo uma advertência quanto a isto aqui, porque há sempre três maneiras de você olhar para um livro, três abordagens críticas de um livro. A primeira chama-se biografismo, inventado pelo francês Sainte-Beuve, que no século XVIII foi o maior de todos os críticos literários do mundo, um crítico literário extraordinário. O biografismo é a ideia de que a gente entende o livro quando entende a vida do autor. E isso é coisa de uma periculosidade extrema, é aquilo que se chama em tecnologia de segurança de ato perigoso. Não quer dizer que você vai ter um problema, mas é aquilo que se chama em fábrica de ato perigoso, de ato imprudente. Porque o autor não necessariamente estabelece sua própria vida no livro. É claro que é muito difícil você encontrar um autor que não tenha deixado a obra se contaminar com alguma coisa da sua vida pessoal, mas não há nenhuma garantia de que você está falando da própria vida do sujeito. Se você se prende a esta ideia da biografia do autor, o que acontece em seguida é que você sai interpretando a obra, tentando fazer
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Senhor dos Anéis 123 a obra caber dentro do autor. Quer dizer, em vez de entender o livro, você fica entendendo o autor. Entenderam o problema disso? Esta abordagem de Sainte-Beuve, o biografismo, foi depois muito piorada com o advento da psicanálise. Com a psicanálise, o negócio virou uma verdadeira obsessão. Porque agora se conseguia explicar tudo, tudo, tudo pela compreensão das relações afetivas do autor. Então, com a psicanálise, no final do século XIX e começo do século XX, o biografismo adquiriu uma dimensão muito maior. Não é uma boa ideia. Mas não quer dizer que a gente não possa olhar um pouquinho para a vida do autor.
As outras duas abordagens críticas são a abordagem basicamente anglo-anglicana, que é a abordagem esteticista, em que você olha para a obra sob seu ponto de vista formal, de forma literária. É a abordagem de Matthew Arnold, que foi talvez o maior crítico literário do século XIX. E, por último, a abordagem que preferimos aqui, que é a conteudista. No fundo, no fundo, queremos responder a uma única pergunta: o que é que este livro quer nos contar? Ponto! Independentemente de quem tenha sido o autor, independentemente da forma literária. Parece-me que é a atitude mais útil de todas. Claro que se vocês fossem todos estudantes de letras, iriam querer ter satisfeitas outras exigências, outras preocupações. Mas não é o caso do nosso público, que é muito diversificado. Há pessoas de todas as formações aqui.
Mas não custa nada olhar para Tolkien e entender como esta obra nasceu. J.R.R. Tolkien nasceu em 1892, no dia 3 de janeiro, portanto é um legítimo capricorniano, que é uma das razões da sua genialidade, aliás.
ALUNA: (Pergunta o signo do professor.)
124 Professor José Monir Nasser PROF. MONIR: Eu sou de câncer! Que mentira, hein?
John Ronald Reuel Tolkien nasceu na vila de Bloemfontein – esse é um nome africâner, não inglês; é holandês, mais ou menos modificado –, na África do Sul. Filho de Arthur e Mabel Tolkien. Uma família inglesa anglicana, expatriada por causa do emprego de Arthur Tolkien no Bank of Africa. O pai do Tolkien foi trabalhar na África, num banco. Então, a família foi para a África, mas eles não eram africanos, no sentido cultural. Eram ingleses expatriados.
Ele teve apenas um irmão, Hilary Arthur – em inglês o nome Hilary é o mesmo, para homem ou para mulher. Em 1896 a família já tinha voltado pra Inglaterra. O pai ficou e morreu de febre reumática. John Ronald era muito pequeno, tinha quatro anos. E a família já tinha voltado para Birmingham, na Inglaterra. Em 1900, a mãe Mabel torna-se católica contra a vontade da família. O avô de Tolkien ficou furioso. Em retaliação, cortou a ajuda financeira que dava à mãe e a vida da família ficou muito ruim. Mais tarde o próprio Tolkien também irá se converter ao catolicismo, mais ou menos como um ato de solidariedade à mãe. Em 1904, Mabel Tolkien morre de diabetes aos 34 anos, portanto com muita precocidade. John Ronald e o irmão são instalados pelo padre espanhol Francis Xavier Morgan numa espécie de pensão. Esse padre assumiu os dois meninos como se fossem filhos dele. Tolkien reservou a este homem uma gratidão perpétua, eterna. Foi mais ou menos quem salvou a vida dos dois meninos. No começo os dois moraram na casa da tia Beatriz, mas nessa pensão da Rua Duchess – Duquesa – Tolkien conheceu a sua futura mulher. Tolkien sempre disse que Morgan era um segundo pai e que havia lhe ensinado o significado da caridade e do perdão.
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Senhor dos Anéis 125 Em 1908 Tolkien conheceu Edith Bratt, com quem começa a namorar escondido. O padre descobre e faz um acordo com o menino de que ele não poderia namorar enquanto não tivesse 21 anos, enquanto não estivesse voltando da universidade. E o padre conseguiu uma bolsa de estudos para o menino pobre em Oxford, o que era uma coisa muito importante. E Tolkien, então, cumpriu este acordo rigorosamente. Correspondeu-se com Edith por um tempo, mas era uma correspondência muito dispersa. Quando atingiu os 21 anos e voltou com a possibilidade de casar com ela, ela estava noiva de outro homem. Então Tolkien realmente cumpriu o acordo que tinha com padre Morgan. Na universidade, em 1910, ele obtém bolsa para a faculdade Exeter, de Oxford, onde estuda literatura, mas se interessa mesmo por filologia e mitologia nórdica. Para quem não sabe, filologia é o estudo das línguas. É o nome antigo da palavra linguística. Linguística é uma expressão moderna criada por Ferdinand de Saussure. Mas antes de haver linguística, existia a filologia, que era o estudo de todas as línguas antigas. Quem é que conseguiu arrumar todas aquelas obras gregas? Foram os filólogos alemães, que fizeram aquele esforço gigantesco para organizar todas a obra dos gregos, a obra do Oriente. Filologia é uma coisa de importância extraordinária. E é isso que Tolkien estuda.
Em 1913, na noite do seu vigésimo primeiro aniversário, Tolkien escreve a Edith pedindo-a em casamento. Embora já estivesse comprometida com outro, ela concorda. Também a converteria ao catolicismo. Em 1914 começa a Primeira Guerra Mundial, em que morrem todos os amigos íntimos de Tolkien, menos um não nomeado. Em 1916 John Ronald casa-se com Edith e parte para o front. É acometido por uma doença comum na época, febre das trincheiras. Volta, fica num hospital e acaba não indo de fato para a guerra. E nessa estadia no hospital ele inventa a história de Beren e Lúthien para O
126 Professor José Monir Nasser Livro dos Contos Perdidos, que mais tarde passou a se chamar Silmarillion. Esse é o nome moderno que acabou tendo o livro que ele começou no hospital.
Em 1917 nasce o seu primeiro filho, John, que viraria padre mais tarde. Em 1920, o segundo filho, Michael, que é o filho que aparentemente depois assume os assuntos do pai. Em 1922, no mesmo ano em que no Brasil haveria a Semana de Arte Moderna, Tolkien trabalha com E. V. Gordan no livro Sir Gawain & the Green Knight, baseado em lendas do folclore inglês. Então, enquanto aqui no Brasil fazíamos uma semana de arte moderna, Tolkien fazia a sua semana de arte antiga lá na Inglaterra. Reparem que há um contraste enorme entre estas duas coisas. Em 1925 torna-se professor de anglo-saxão em Oxford, e será professor até 1945. Em 1924 nasce Christopher, seu terceiro filho, e publica aquele livro que ele havia escrito com o outro.
Em 1926 começa a amizade com C. S. Lewis, o autor das Crônicas de Nárnia. C. S. Lewis era agnóstico. Agnóstico é o sujeito que acha que não tem capacidade de entender Deus. Então, o agnóstico é de todos os chatos o pior. Os ateus são muito divertidos, porque acabam sendo muito úteis. Para ser ateu, você tem que ser muito otimista, porque o sujeito só pode declarar que não existe Deus se tiver o conhecimento da totalidade da realidade. Se você não conhece a realidade inteira, como é que você pode declarar isso? Então, o sujeito que é ateu tem pretensões de conhecimento muito grande. Os ateus na prática acabam sendo muito úteis, porque ao ficarem argumentando em favor do ateísmo, acabam descobrindo coisas muito interessantes. O agnóstico, não. É um sujeito chato e preguiçoso, que não quer nem começar a pensar no assunto. E C. S. Lewis era agnóstico. Dizia que
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Senhor dos Anéis 127 não era capaz de entender o mundo, nem Deus, nem o transcendente. Por influência de Tolkien, acaba deísta, ou seja, alguém que acredita em Deus, mas não necessariamente no Deus cristão, por exemplo. Deísta é alguém que acredita na existência de um ser criador. E depois Tolkien o transforma em cristão de fato. Então, este foi, além da mulher, outra vítima positiva do proselitismo de Tolkien.
Em 1929 nasce Priscila, a filha mais nova e última. Em 1931 é formada a sociedade The Inklings. The Inklings são “Os Tinteiros”, alguma coisa assim, “Os Escrivinhadores”. Vem de ink, que é tinta. Envolvendo, entre outros, Charles Williams, um estudioso do ciclo arturiano. Para quem não lembra, o ciclo arturiano são todas aquelas histórias em torno da demanda do Graal. O Graal é uma história mitológica pela qual é feita a cristianização da religião nórdica europeia antes de Jesus Cristo. O Graal é um símbolo, é um processo da cristianização do norte da Europa. O ciclo arturiano conta esta história em torno do rei Arthur e os 12 cavaleiros da Távola Redonda e do romance entre Lancelot e Guinevere.
Depois de uma conversa com Tolkien no dia 19 de setembro, o escritor C. S. Lewis compreendeu o cristianismo e se converteu. Na verdade, Tolkien contou para ele que o cristianismo era um mito verdadeiro. Quando ele entendeu que era um mito verdadeiro, converteu-se automaticamente. Vocês vão entender bem o que significa isso, mas vão ter que esperar até o fim desse nosso esforço aqui. Então, daqui a pouquinho conto pra vocês.
Em 1936 começa a escrever O Senhor do Anéis. Terminaria em 1949. Em 1937 publica O Hobbit, grande sucesso de vendas. Quer dizer que O Hobbit foi escrito antes de O Senhor dos Anéis. Em 1939 começa a Segunda Guerra
128 Professor José Monir Nasser Mundial, para a qual são convocados dois filhos de Tolkien, Michael e Christopher. Em 1945 torna-se professor de literatura em Oxford. Exerceria essa cátedra até 1959, quando se aposenta. Em 1949 termina de escrever O Senhor dos Anéis e publica Mestre Gil de Ham.
Em 1950 C. S. Lewis publica o primeiro volume de As Crônicas de Nárnia, cuja publicação iria até 1956. Tolkien julga a obra alegórica demais. E isso está aqui por razões muito importantes. Porque Tolkien não gostou do livro. E por que ele não gostou? Porque o livro é alegórico demais. Significa que o livro é óbvio demais, quer dizer, ele é uma maneira disfarçada de contar uma história real. Aquilo que se chama em literatura de “roman à clef”, que é uma história real que alguém vivenciou. Se você pegar a história da sua família e mudar os nomes, você escreveu um roman à clef. É uma maneira ótima de arrumar uns inimigos para o resto da vida, porque, obviamente, todo mundo demora 15 minutos para descobrir quais são os nomes verdadeiros. Não é recomendado para quem gosta de ter amigos. Mas para quem está querendo encrencar com o mundo... Thomas Mann fez isso, escreveu Os Buddenbrooks, que é a história da família dele. A família ficou furiosa. Há inúmeros livros assim. Zola, com aquela história de fazer livros realistas, fez inúmeras vezes isso e em um deles botou lá um pintor canhestro, um pintor que era uma porcaria de um pintor, que não sabia pintar, e que só pintava porque o pai banqueiro tinha deixado para ele um dinheirão – exatamente a biografia de Cesarium que, por sua vez, nunca mais trocou uma palavra com Zola pelo resto da vida. Eu também não trocaria, se fosse eu. Bom, então o que Tolkien acha é que a história deste livro chamado As Crônicas de Nárnia é óbvia demais. Ele não gosta por causa disso. Isso pode parecer sem importância agora, mas daqui a pouquinho vai ficar bem importante pra gente entender a história do Senhor dos Anéis.
EXPEDIÇÕES PELO MUNDO DA CULTURA O Senhor dos Anéis 129 Esqueci-me de falar para os novos que tem uma regra básica no curso, que é proibido não entender. Porque, para discordar, tem que entender. Então, discordar pode à vontade, mas não entender é proibido. Toda vez que eu disser alguma coisa que parecer estranha, tenho o maior prazer de explicar. Procuro nunca falar palavras estranhas. Quer dizer, é possível conversar sobre qualquer assunto numa linguagem normal, que é a ideia central daqui. Mas se alguém não entender, por favor, é só me perguntar. Não tem pergunta proibida.
Em 1954 foram publicados, de julho a novembro, os dois primeiros volumes de O Senhor dos Anéis. Em outubro de 1955 foi publicado o terceiro volume. Houve uma grande polêmica editorial sobre isso. Porque é claro que a publicação da obra num volume só é muito melhor, sob o ponto de vista do leitor. Você tem um livro só, acaba sendo melhor. Mas sob o ponto de vista editorial, é mais vantagem fazer em três volumes: você garantidamente vende os três, pois ninguém vai deixar de comprar a continuação. Houve aí, então, uma grande polêmica. Acabou-se tomando esta decisão e o livro foi lançado em 3 volumes em primeiro lugar. Hoje tem as duas opções. No Brasil você compra na forma de um livro só ou na forma separada em três volumes.
Em 1963, publica Tom Bombadill. Em 1964, Tree and Leaf. Em 1965 publica Sobre Histórias de Fadas na Grã-Bretanha. A editora Ace Books publica, nos Estados Unidos, uma grande edição não autorizada da obra. Havia lá na legislação de direitos autorais americana um determinado trecho dúbio, ambíguo, e esse pessoal resolveu copiar o livro sem pedir licença. Lançaram 150 mil exemplares, vendendo o livro em formato de bolso, por pouquíssimo dinheiro – alguma coisa como 5 dólares de hoje. E aí, em
130 Professor José Monir Nasser seguida, é lançada pela Ballantine Books a edição oficial. O somatório das duas edições popularizou a história no crescente movimento contracultural americano, na década de 60. E Tolkien, desgostoso, muito magoado, vê o seu livro transformar-se num manual de “hippologia”. Quer dizer, acabaram com o sossego do homem, porque os hippies acampavam no quintal da casa dele, para ele entregar a erva que tinha fumado quando escreveu o livro. Queriam que ele dissesse o que o Frodo fumava naquele cachimbo. Então Tolkien, muito desgostoso com essa situação, acabou tendo que mudar. Mudou meio escondido com a mulher para Bornemouth, uma outra cidade, para escapar daquele assédio dos hippies em relação a ele. Tudo o que ele não queria na vida. Porque ele achava que tinha escrito uma obra cristã, e tinha se transformado em manual de fumar maconha.