A Papisa Joana
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A PAPISA JOANA
Donna Woolfolk Cross
Título original: pope Joan
Tradução de Teresa Martinho Toldy
Na galeria das mais extraordinárias e controversas figuras do
Ocidente, a papisa Joana assume alguns contornos dos mais brumosos, enigmáticos e fascinantes. Muitos negaram, ao longo dos séculos, a sua existência, mas é ainda considerável a quantidade de documentos que referem a sua passagem pelo trono papal. Personagem histórica ou lendária, Joana protagoniza a notável ascensão de uma mulher brilhante que não aceita as limitações que a sua época, profundamente misógina, lhe impõe e, armada de uma inteligência esclarecida e de uma força de carácter inquebrantável, conquista o mais elevado poder religioso. Um romance magnífico, cativante, que conspira, no virar de cada página, para prender o leitor num sortilégio magnético, na teia enredada da intriga, das turbulências políticas, dos fanatismos e intolerâncias, das paixões, das duplicidades e segredos, das crises de fé e conspirações que ameaçam fazer soçobrar Joana.
Donna Woolfolk Cross é licenciada em Literatura. É autora das
obras Word Abuse e Mediaspeak. A Papisa Joana é o seu primeiro romance.
Para o meu Pai, William Woolfolk,
Não há mais nada a acrescentar
AGRADECIMENTOS
Pelo auxílio prestado na investigação, agradeço a Lucy Burgess,
de Cornell, a Caroline Suma, do Instituto Pontifício para os Estudos Medievais, em Toronto, a Eileen DeRycke, da Universidade de Siracusa, a Elizabeth Lukacs, do Lemoyne College, ao Dr. Paul J. Dine, ao Dr. Arthur Hoffman e a John Lawrence, assim como aos funcionários da biblioteca de Vassar e Hamilton Colleges, da Universidade da Pensilvânia e da Universidade da Califórnia, em Los Angeles. Os meus agradecimentos especiais a Linda McNamara, Gail Rizzo e Gretchen Roberts, do Onondaga Community College, que trabalharam com uma energia e engenho inesgotáveis para conseguirem obter junto de várias bibliotecas, tanto no país, como no estrangeiro, vários livros raros de que eu necessitava. Agradeço ainda a Lil Kinney, Liz Liddy e Susan Brown, investigadoras exímias que conseguiram desencantar uma quantidade de informação acerca do século IX pouco conhecida.
O manuscrito foi lido por muitas pessoas, que contribuíram para
ele com as suas próprias competências. Agradeço ao Dr. Joseph Roesch, a Roger Salzmann, Sharon Danley, Thomas McKague, David Ripper, Ellen Coin, Maureen McCarthy, Virginia Ruggiero, John Starkweather e à minha mãe, Dorothy Woolfolk.
As suas sugestões tornaram o livro incomparavelmente melhor. Também queria agradecer ao meu agente, Jean Naggar, que se
dispôs a arriscar com base num manuscrito parcial; a Irene Prokop, a minha primeira editora em Crown, cujo acolhimento e entusiasmo pelo livro foram muito encorajadores; e a Betty A. Prashker, que assumiu a edição, quando a Irene saiu.
Devo uma profunda gratidão àqueles que me apoiaram e
acalentaram ao longo de sete anos de pesquisa e redacção:
a minha filha, Emily, e o meu marido, Richard, lutadores da linha
da frente; a minha cunhada, Donna Willis Cross, que acreditou em mim e neste livro, mesmo nos momentos em que a minha fé vacilou; Mary Putman, que suportou fardos extra para que eu pudesse ter tempo para escrever; Patricia Waelder e Norma Chini, aliadas dedicadas, que conseguiram que eu pudesse dispor do tempo necessário para escrever ininterruptamente; Susan Francesconi, cuja camaradagem ao longo dos grandes passeios que fizemos juntas contribuiu muito para que eu me mantivesse saudável; Joanna Woolfolk, Lisa Strick, James MacKillop e Kathleen Eisele. Como disse William Shakespeare, os meus amigos são a minha riqueza.
Acima de tudo, quero agradecer ao meu pai, William Woolfolk, a
quem este livro é justamente dedicado; sem a sua orientação e encorajamento constantes nunca o teria escrito.
PRÓLOGO
Era o dia 28 de Wintarmanoth do ano da graça de 814, o Inverno
mais rigoroso de que havia memória.
Hrotrud, a parteira da aldeia de Ingelheim, avançava penosamente
pela neve, a caminho da cabana do cónego. Uma rabanada de vento agitou as árvores, espetando dedos gelados no seu corpo que procuravam penetrar através dos buracos e dos remendos das suas finas vestes de lã. O caminho pela floresta estava cheio de neve; a cada passo que dava, enterrava-se quase até aos joelhos. A neve acumulava-se-lhe nas sobrancelhas e nas pestanas; tinha de limpar constantemente a cara para conseguir ver. As mãos e os pés doíam-lhe de frio, apesar das camadas de trapos de linho em que os tinha embrulhado.
Apareceu uma mancha negra à sua frente, no caminho. Era um
corvo morto. Neste Inverno, até estes robustos necrófagos morriam de fome: os seus bicos não conseguiam rasgar a carne podre enregelada. Hrotrud estremeceu, apressando o passo.
Gudrun, a mulher do cónego, tinha entrado em trabalho de parto
um mês antes do previsto. Linda altura para uma criança nascer, pensou Hrotrud amargamente. Cinco crianças nascidas só no último mês e nem uma só sobreviveu mais do que uma semana.
Um violento turbilhão de neve cegou Hrotrud. Por momentos,
perdeu de vista o caminho mal assinalado. Sentiu uma onda de pânico. Já tinha morrido mais do que um aldeão naquele caminho, andando em círculos a pouca distância da sua própria casa. Esforçou-se por se manter direita, enquanto a neve rodopiava à sua volta, envolvendo-a numa paisagem branca.
Quando o vento abrandou, mal conseguia vislumbrar o caminho. Continuou a marcha. As mãos e os pés já não lhe doíam; estavam
completamente dormentes. Ela sabia o que isso podia significar, mas não podia ligar; era importante manter a calma.
Tenho de deixar de pensar no frio.
Lembrou-se da casa onde tinha nascido, uma bela casa com uma
herdade próspera, de cerca de seis hectares. Era quente e aconchegada, com sólidas paredes de madeira, muito mais bonita do que as casas dos seus vizinhos, construídas com simples traves de madeira, cobertas de argamassa. Na sala principal, havia uma grande lareira, com o fumo a sair em espiral por uma abertura no telhado. O pai de Hrotrud usava um belo manto de pele de lontra por cima da sua camisa em linho fino e a mãe usava fitas de seda nos seus longos cabelos negros. Hrotrud tinha duas túnicas de mangas largas e um manto da mais pura lã. Lembrava-se de sentir junto à sua pele a maciez e suavidade do tecido fino.
Tinha tudo acabado tão depressa. Dois verões de seca e um gelo
assassino tinham arruinado a colheita. Havia fome por todo o lado. Na Turíngia, havia boatos de canibalismo. O pai de Hrotrud tinha conseguido poupá-los à fome durante algum tempo, graças à venda ponderada de bens de família. Hrotrud chorou quando levaram os seus mantos de lã. Na altura, pensou que não poderia acontecer nada pior. Tinha oito anos e ainda não se tinha apercebido do horror e da crueldade do mundo.
Abriu caminho através de mais um longo manto de neve, lutando
contra uma sensação crescente de atordoamento. Há vários dias que não comia nada. Bem, se tudo correr bem, hoje à noite vou festejar. Talvez possa levar um pouco de presunto para casa, se o cónego ficar satisfeito. A ideia renovou-lhe as energias.
Hrotrud chegou a uma clareira. Já conseguia distinguir os
contornos enevoados da cabana à sua frente. A neve ali era mais alta, para além do limite das árvores, mas ela seguiu em frente, abrindo caminho com as suas pernas e braços fortes, confiante de que, agora, estava em segurança.
Ao chegar à porta, bateu uma vez, depois, entrou logo. Estava muito frio para se preocupar com cortesias. Ao entrar,
pestanejou na escuridão. A única janela da cabana tinha sido entaipada por causa do Inverno; a única luz existente vinha da lareira e de algumas velas de cebo espalhadas pelo compartimento. A pouco e pouco, os seus olhos começaram a habituar-se à escuridão e viu dois rapazinhos sentados um junto ao outro perto do lume.
— A criança já nasceu? — perguntou Hrotrud. — Ainda não. — respondeu o rapaz mais velho. Hrotrud murmurou uma pequena oração de acção de graças a São
Cosme, patrono das parteiras. Já tinha sido privada do pagamento mais do que uma vez desta maneira, despedida sem um denário, depois de ter tido o trabalho de aparecer.
Junto à lareira, despiu os trapos enregelados que lhe revestiam as
mãos e os pés, soltando um grito de alarme, ao ver como estavam roxos. Mãe santa, não deixes que o gelo os leve. Não serviria de muito à aldeia ter uma parteira aleijada. Elias, o sapateiro, tinha perdido assim o seu sustento. Depois de ter sido apanhado numa tempestade quando regressava de Mainz, as pontas dos seus dedos tinham escurecido, acabando por cair ao fim de uma semana. Agora, magro e andrajoso, passava a vida encolhido às portas das igrejas, apelando à caridade dos outros para sobreviver.
Abanando a cabeça tristemente, Hrotrud beliscava e esfregava os
dedos dos pés e das mãos entorpecidos, sob o olhar dos dois rapazes silenciosos. Olhando-os, ficou mais descansada. Será um parto fácil, disse ela para si mesma, tentando afastar da ideia o pobre Elias. Afinal, ajudei Gudrun no parto destes dois e foi bastante fácil. O rapaz mais velho deve ter quase seis invernos, uma criança robusta, com um ar inteligente. O mais novo, o seu irmão bochechudo, com três anos, abanava-se para trás e para a frente, chupando morosamente o polegar.
Eram ambos morenos, como o pai. Nenhum deles tinha herdado o
extraordinário cabelo dourado da sua mãe saxónia.
Hrotrud recordou-se de como os homens da aldeia tinham ficado a
olhar espantados para o cabelo de Gudrun, quando o cónego a trouxe de uma das suas viagens missionárias na Saxónia. Ao princípio, o facto de o cónego ter trazido uma mulher tinha causado bastante sensação. Alguns diziam que era contra a lei, que o Imperador tinha promulgado um édito proibindo o casamento aos homens da Igreja. Mas outros diziam que não podia ser porque era sabido que, sem uma mulher, um homem estava sujeito a todo o tipo de tentações e fraquezas.
«Olhem para os monges de Stablo», diziam eles, «que
envergonham a Igreja com as suas fornicações e bebedeiras.» E não havia dúvida de que o cónego não bebia e era um homem trabalhador.
O compartimento estava quente. A grande lareira estava cheia com
grandes toros de vidoeiro e carvalho; o fumo elevava-se em grandes rolos, saindo pelo buraco do telhado em colmo. Era uma casa confortável. As vigas de madeira que formavam as paredes eram pesadas e espessas e as frinchas entre elas estavam bem tapadas com palha e argamassa para impedir a entrada do frio.
A única janela existente tinha sido coberta com placas de
carvalho, uma medida de protecção suplementar contra os nordostroni, as nortadas frigidíssimas do Inverno.
A casa era suficientemente grande para estar dividida em três
compartimentos, um onde se encontrava o quarto do cónego e da sua mulher, um para os animais que ali se abrigavam contra a intempérie — Hrotrud ouvia-os resfolegar e bater com os cascos, à sua esquerda — e este, o compartimento central, onde a família trabalhava e comia e as crianças dormiam. Para além do bispo, cuja casa era feita em pedra, em Ingelheim ninguém tinha uma casa tão boa como esta.
Os membros de Hrotrud começaram a picar com formigueiro e a
palpitar, voltando a adquirir sensibilidade. Olhou para os seus dedos; estavam duros e secos, mas as manchas roxas tinham desaparecido, dando lugar a um cor-de-rosa-avermelhado com aparência mais saudável. Ela suspirou de alívio, decidindo fazer uma oferta a São Cosme, em acção de graças. Hrotrud ficou junto à lareira durante mais alguns instantes, usufruindo do seu calor; depois, com um aceno encorajador para os rapazes, apressou-se na direcção do compartimento onde a parturiente esperava.
Gudrun estava deitada numa cama de turfa coberta com palha
fresca. O cónego, um homem moreno, com umas sobrancelhas espessas e carrancudas, que lhe davam uma expressão de austeridade permanente, estava sentado à parte. Acenou para Hrotrud, depois voltou a concentrar a sua atenção no grande livro encadernado em madeira que tinha sobre os joelhos.
Hrotrud já tinha visto o livro em visitas anteriores, mas, sempre
que o via, ficava cheia de temor. Era um exemplar da Sagrada Escritura e era o único livro que ela tinha visto. Tal como os outros aldeões, Hrotrud também não sabia ler nem escrever. Mas sabia que aquele livro era um tesouro, que valia mais soldos em ouro do que toda a aldeia ganhava num ano. O cónego tinha-o trazido da sua terra natal, a Inglaterra, onde os livros não eram tão raros como no país franco.
Hrotrud apercebeu-se imediatamente de que Gudrun estava mal. A sua respiração era fraca, o seu pulso estava demasiado rápido,
todo o seu corpo estava inchado e balofo. A parteira conhecia os sintomas. Não havia tempo a perder. Pegou no saco que trazia e tirou dele um pouco de excrementos de pombo que tinha recolhido cuidadosamente no Outono. Regressando à lareira, atirou as ervas ao fogo, vendo com satisfação a forma como o fumo negro começou a subir, limpando o ar de espíritos malignos.
Devia ter de aliviar as dores, de forma a que Gudrun pudesse
descontrair-se e ajudar a criança a nascer. Para isso, tinha de usar meimendro. Pegou num ramo de florinhas amarelas, raiadas de púrpura, colocou-as num almofariz em loiça e reduziu-as habilidosamente a pó, tapando o nariz por causa do cheiro acre que elas libertavam. Depois, deitou o pó num copo de vinho tinto e levou-o a Gudrun, para ela o beber.
— O que lhe queres dar? — perguntou o cónego bruscamente. Hrotrud estremeceu; quase se tinha esquecido de que ele estava
ali.
— Ela está fraca, por causa do trabalho de parto. Isto vai aliviar-
lhe as dores e ajudar a criança a nascer.
O cónego franziu as sobrancelhas. Tirou o copo das mãos de
Hrotrud, atravessou o quarto a passos largos e atirou-o ao lume, onde ele assobiou por momentos e depois desapareceu.
— É um sacrilégio, mulher!
Hrotrud estava horrorizada. Tinha passado semanas de busca
penosa para conseguir juntar aquela pequena quantidade do precioso medicamento. Virou-se para o cónego, pronta a descarregar a sua ira, mas deteve-se quando viu o seu olhar impiedoso.
— Está escrito — e bateu no livro com a mão para reforçar o que
dizia — Darás à luz na dor. Esse remédio é ímpio!
Hrotrud estava indignada. Não havia nada de anticristão no seu
remédio. Então, ela não recitava nove Pai-Nossos cada vez que arrancava uma das plantas da terra? O cónego nunca se tinha queixado quando ela lhe tinha dado meimendro para aliviar as suas frequentes dores de dentes. Mas não ia discutir com ele. Ele era um homem influente. Uma palavra sobre as suas práticas ímpias e Hrotrud estaria arruinada.
Gudrun gemeu na angústia de mais uma dor. Muito bem, pensou
Hrotrud. Se o cónego não autorizava o meimendro, ela tinha de tentar outra coisa. Voltou ao seu saco e tirou um longo pedaço de pano, cortado como o Sudário de Cristo. Com movimentos rápidos e eficazes, atou-o firmemente ao abdómen de Gudrun.
Gudrun gemeu quando ela a levantou da cama. O mínimo
movimento provocava-lhe dores, mas não havia nada a fazer. Hrotrud tirou um pequeno pacote do seu saco, cuidadosamente embrulhado num pedaço de seda. Dentro, encontrava-se um dos seus tesouros — um astrágalo de um coelho morto no dia de Natal. Tinha-o obtido no ano anterior, por ocasião de uma caçada imperial.
Com todo o cuidado, cortou três fatias finas de osso e pô-las
dentro da boca de Gudrun.
— Mastiga isto devagar — ordenou ela a Gudrun que assentiu,
fraca.
Hrotrud sentou-se à espera. Pelo canto do olho, observava o
cónego, de tal modo concentrado no seu livro que as suas sobrancelhas quase se juntavam ao nariz.
Gudrun gemeu novamente, torcendo-se com dores, mas o cónego
não levantou os olhos do livro. Um homem duro, pensou Hrotrud.
Mas deve ter algum fogo nos quadris, senão não a tinha tomado
por esposa.
Há quanto tempo tinha o cónego trazido a mulher da Saxónia para
casa: há dez invernos, talvez há onze? Gudrun não era jovem, para o que era costume entre os francos, talvez tivesse vinte e seis ou vinte e sete anos, mas era muito bonita, com os longos cabelos louros e os olhos azuis das alienigenae.
Tinha perdido toda a família no massacre de Verden. Nesse dia,
milhares de saxónios tinham preferido morrer a aceitar a verdade de Nosso Senhor Jesus Cristo. Bárbaros loucos, pensou Hrotrud. Comigo, não teria sido assim. Ela teria jurado tudo quanto lhe pedissem. Fá-lo-ia, aliás, se os bárbaros alguma vez voltassem a passar pela terra dos francos, juraria fidelidade a todos os deuses que eles quisessem, por muito estranhos ou terríveis que fossem. Isso não alterava nada.
Quem poderia saber o que se passava no coração de alguém? Uma
mulher sensata tinha ideias próprias.
O lume faiscava, lançando chispas. Hrotrud dirigiu-se à pilha de
lenha arrumada a um canto, escolheu dois ramos de vidoeiro de bom tamanho e meteu-os na lareira. Ficou a observar, à medida que eles ardiam, sibilando, e as labaredas os devoravam. Depois, voltou para junto de Gudrun para ver como ela estava.
Tinha passado uma boa meia hora desde que Gudrun tinha
mastigado as aparas de astrágalo, mas o seu estado não se tinha alterado. Nem sequer um medicamento tão forte como aquele tinha conseguido fazer efeito. As contracções continuavam a ser irregulares e sem resultado e Gudrun continuava a enfraquecer.
Hrotrud suspirou, cansada. Era evidente que tinha de tomar
medidas mais enérgicas.
O cónego demonstrou ser mais um problema, quando Hrotrud lhe
disse que necessitava de ajuda para o parto.
— Manda chamar mulheres à aldeia. — disse ele,
peremptoriamente.
— Ah, senhor, isso é impossível. Quem poderia ir buscá-las? —
Hrotrud ergueu as mãos ao céu. — Eu não posso ir porque a vossa mulher precisa de mim aqui. O vosso filho mais velho não pode ir porque apesar de parecer um rapaz que promete, poderia perder-se na tempestade. Eu quase me perdi.
O cónego deitou-lhe um olhar fulminante.
— Muito bem — disse ele. — Eu vou. Quando se levantou da
cadeira, Hrotrud abanou a cabeça com impaciência.
— Não adiantava nada. Quando tivésseis regressado, já seria tarde
de mais. É da vossa ajuda que eu preciso, e depressa, se quereis que a vossa mulher e o bebé sobrevivam.
— Da minha ajuda? Estás doida, mulher? Isso — e apontou,
enojado, para a cama — é coisa de mulheres, é impuro. Recuso-me.
— Então, a vossa mulher vai morrer.
— Isso está nas mãos de Deus, não nas minhas. Hrotrud encolheu os ombros:
— Para mim, tanto se me dá. Mas não vos será fácil criar dois
filhos sem uma mãe.
O cónego encarou Hrotrud:
— Porque hei-de acreditar em ti? Ela já deu à luz sem problemas.
Eu dei-lhe força com as minhas orações. Não podes saber se ela vai morrer.
Isto era de mais. Fosse ele cónego ou não, Hrotrud não toleraria
que ele pusesse em causa a sua competência como parteira.
— Vós é que não sabeis nada - disse ela, asperamente. — Nem
sequer olhastes para ela. Ide vê-la agora e depois dizei-me que ela não está a morrer.
O cónego aproximou-se da cama e olhou para a sua mulher. O seu
cabelo molhado estava colado à pele, que se tinha tornado de um branco-amarelado. Os seus olhos, cercados de um traço negro, estavam encovados; se não fosse o barulho profundo e irregular da sua respiração, dir-se-ia que já estava morta.
— Então? — espicaçou Hrotrud.
O cónego voltou-se, para a encarar de frente:
— Que raio, mulher! Porque não trouxeste mulheres contigo? — Como vós dissestes, os partos anteriores não tinham tido
qualquer problema. Não havia nenhum motivo para pensar que agora houvesse. Além disso, quem teria vindo com um tempo destes?
O cónego dirigiu-se para a lareira e pôs-se a andar de um lado para
o outro, agitadamente. Por fim, estacou.
— O que queres que eu faça?
Hrotrud sorriu.
— Oh, pouca coisa, senhor, pouca coisa.
Conduziu-o de novo para ao pé da cama.
— Para começar, ajudai-me a levantá-la.
Um de cada lado de Gudrun, levantaram-na pelos braços. O seu
corpo estava pesado, mas, juntos, conseguiram pô-la de pé. Ela oscilou e o seu corpo tombou completamente na direcção do marido.
O cónego era mais forte do que Hrotrud tinha pensado. Isso era
bom porque ela precisaria de toda a força que ele tivesse para o que se seguia.
— Temos de forçar o bebé a descer. Quando eu disser, levantai-a o
mais alto que puderdes e abanai-a com força.
O cónego assentiu, com um esgar. Gudrun oscilava entre ambos
como um peso morto, com a cabeça tombada sobre o peito.
— Levantai-a! — gritou Hrotrud.
Ergueram Gudrun pelos braços e começaram a sacudi-la para cima
e para baixo. Gudrun gritava, lutando para se libertar. A dor e o medo tinham-lhe dado uma força surpreendente. Os dois tinham dificuldade em controlá-la. Se ele me tivesse deixado dar-lhe o meimendro, pensou Hrotrud. Agora, ela estaria meio entorpecida.
Eles voltaram a deitá-la, mas ela continuava a lutar e a gritar.
Hrotrud voltou a dar a mesma ordem e eles voltaram a levantá-la e a sacudi-la. Depois, deitaram Gudrun na cama, onde ela ficou meio inconsciente, murmurando palavras misteriosas na sua língua bárbara. Está bem, pensou Hrotrud. Se eu me despachar, estará tudo terminado antes de ela recuperar os sentidos.
Hrotrud meteu a mão na passagem para o nascimento, tacteando a
abertura do útero. Estava rígida e inchada por causa de tantas horas de contracções inúteis. Usando a unha do dedo indicador direito, que ela conservava comprida precisamente para este efeito, Hrotrud rasgou a membrana resistente. Gudrun gemeu, depois ficou completamente inconsciente. Sobre a mão de Hrotrud correu sangue quente, espalhando-se pelos seus braços e pela cama. Finalmente, ela sentiu a abertura ceder. Com um grito exultante, Hrotrud meteu a mão e agarrou na cabeça do bebé, exercendo uma pressão suave para baixo.
— Segurai-a pelos ombros e empurrai-a na minha direcção. —
disse ela ao cónego, que empalideceu.
Mesmo assim, obedeceu. Hrotrud sentiu a pressão aumentar
quando o cónego juntou a sua força à dela. Ao fim de alguns minutos, o bebé começou a descer para a passagem do nascimento. Ela continuou a puxar com firmeza, mas com cuidado suficiente para não magoar os ossos tenros da cabeça e do pescoço da criança. Por fim, apareceu o cimo da cabeça do bebé, coberto com uma massa de cabelo fino e molhado.
Hrotrud puxou a cabeça para fora, com cuidado, depois virou o
corpo para permitir que o ombro direito, depois o esquerdo, saíssem. Mais um puxão firme e o pequeno corpo deslizou, húmido, para os braços de Hrotrud, que o esperava.
— Uma menina — anunciou Hrotrud. — E forte, pelo que parece
— acrescentou ela, atentando, aprovadora, para o grande grito lançado pela criança e para o tom saudavelmente cor-de-rosa da sua pele.
Voltou-se e encarou com o olhar reprovador do cónego. — Uma menina — disse ele. — Então, foi tudo para nada. — Não digais isso, senhor.
Hrotrud ficou subitamente receosa de que a desilusão do cónego
significasse menos comer para ela.
— A criança é saudável e forte. Se Deus quiser, há-de viver e
honrará o vosso nome.
O cónego abanou a cabeça.
— Ela é um castigo de Deus. Um castigo pelos meus pecados e
pelos dela. — Voltou-se para Gudrun, que estava imóvel. — Ela irá sobreviver?
— Sim.
Hrotrud esperou ter sido convincente. Não podia permitir que o
cónego pensasse que tinha motivos para estar duplamente desapontado. Ainda esperava provar carne nessa noite. E, afinal, era razoável esperar que Gudrun sobrevivesse realmente. É verdade que o parto tinha sido violento. Depois de um esforço tão grande, muitas mulheres apanhavam febre e tinham hemorragias. Mas Gudrun era forte; Hrotrud trataria a sua ferida com um unguento de artemísia misturada com gordura de raposa.
— Sim, se Deus quiser, ela sobreviverá — repetiu ela, com
firmeza.
Não lhe pareceu necessário acrescentar que, provavelmente, não
teria mais filhos.
— Já é alguma coisa, então — disse o cónego. Aproximou-se da cama e ficou a olhar para Gudrun. Tocou
suavemente no cabelo louro, agora mais escuro, por causa do suor. Por momentos, Hrotrud pensou que ele ia beijar Gudrun.
Depois, a sua expressão mudou. Ficou sério, mesmo zangado. — Per mulierem culpa successit — disse ele. — O pecado veio
por uma mulher.
Largou o caracol de cabelo e recuou.
Hrotrud abanou a cabeça. Qualquer coisa da Bíblia, certamente. O
cónego era uma pessoa estranha, não havia dúvida, mas isso não era da sua conta, graças a Deus.
Apressou-se para acabar de limpar Gudrun do sangue e da
placenta para poder regressar a casa ainda com luz do dia.
Gudrun abriu os olhos e viu o cónego debruçado sobre ela. O
sorriso que começou a esboçar gelou-lhe nos lábios quando viu a expressão dos seus olhos.
— Marido? — disse ela, a medo.
— Uma menina — disse o cónego, friamente, sem se dar ao
incómodo de ocultar o seu desagrado.
Gudrun assentiu, compreendendo, e voltou o rosto para a parede.
O cónego virou-se para sair, mas parou por uns instantes para olhar para a criança já bem aconchegada na sua enxerga de palha.
— Joana. Chamar-se-á Joana — disse ele, e saiu do quarto,
abruptamente.
Capítulo 1
A trovoada soou muito perto e a criança acordou. Mexeu-se na
cama, à procura do calor e do conforto dos corpos adormecidos dos seus irmãos mais velhos. Depois, lembrou-se.
Os seus irmãos tinham-se ido embora.
Chovia. Um aguaceiro primaveril que enchia o ar da noite com o
cheiro agridoce de terra acabada de lavrar. A chuva fazia um ruído surdo no telhado da cabana do cónego, mas a espessa cobertura de colmo mantinha a casa seca, excepto num ou dois cantinhos, onde a água tinha começado a acumular-se, pingando lentamente em gotas grossas sobre o chão em terra batida.
Levantou-se vento e as folhas de um carvalho junto da casa
começaram a bater num ritmo irregular de encontro às paredes.
A sombra dos seus ramos projectava-se no quarto. A criança
observou, petrificada, como os monstruosos dedos negros se contorciam à volta da cama. Estendiam-se para ela, procurando alcançá-la, e ela encolheu-se.
— Mamã, pensou ela. Abriu a boca para a chamar, mas deteve-se. Se fizesse barulho, a mão ameaçadora atacaria. Ficou gelada,
incapaz de se mexer. Depois, espetou o queixo resolutamente.
Tinha de ser, portanto, fá-lo-ia. Movendo-se com extrema
lentidão, sem tirar os olhos do inimigo, levantou-se da cama.
Sentiu o chão térreo frio por baixo dos pés; a sensação familiar
tranquilizou-a. Mal se atrevendo a respirar, dirigiu-se para a parte da casa onde a mãe estava a dormir.
Relampejou; os dedos mexeram-se e esticaram-se como que para a
agarrar. Ela engoliu um grito e a garganta apertou-se-lhe com o esforço. Teve de se forçar a mover-se lentamente e a não largar numa corrida.
Já estava perto. De repente, abateu-se sobre a sua cabeça o
estrondo de um trovão. Nesse preciso momento, algo lhe tocou nas costas. Ela gritou, virou-se e fugiu pelo quarto, tropeçando na cadeira que se encontrava no caminho.
Aquela parte da casa estava às escuras e silenciosa, só se ouvindo
a respiração ritmada da sua mãe. Pelo som, a criança percebeu que ela estava a dormir profundamente; o barulho não a tinha acordado. Dirigiu-se rapidamente para a cama, levantou o cobertor de lã e deslizou por baixo dele. A mãe estava deitada de lado, com a boca entreaberta; a sua respiração morna acariciou a face da criança. Esta aconchegou-se, sentindo o corpo macio da mãe através da camisa de linho fino.
Gudrun bocejou e mudou de posição, desperta pelo movimento. Abriu os olhos e, ensonada, olhou para a criança. Depois,
acordando completamente, estendeu os braços e abraçou a filha.
— Joana — repreendeu-a ela, docemente, com os lábios junto do
cabelo macio da criança. — Pequenina, devias estar a dormir.
Falando apressadamente, com a voz elevada e tensa pelo medo,
Joana contou à mãe o aparecimento da mão monstruosa.
Gudrun ouviu, acariciando e abraçando a filha e murmurando
mimos. Com os dedos, percorreu docemente a face da criança, tacteando no escuro. Não era bonita, pensou Gudrun, com tristeza. Era demasiado parecida com ele, com o seu grosso pescoço inglês e o grande maxilar. O seu corpinho já era atarracado e pesado e não esguio e gracioso como os do povo de Gudrun. Mas, os olhos da criança eram generosos, grandes e expressivos, com pupilas de uma linda cor verde, com pequenos anéis de cinzento-escuro no centro. Gudrun levantou uma madeixa do cabelo da sua filha e acariciou-a, apreciando a forma como ele brilhava, de um louro-claro, mesmo na escuridão. O meu cabelo. Não o cabelo preto espigado do seu marido e do seu povo cruel e escuro. A minha filha. Enrolou um fio de cabelo em volta do dedo e sorriu. Pelo menos, esta é minha.
Acalmada pela solicitude da mãe, Joana descontraiu-se. Imitando
a mãe, começou a puxar a longa trança de Gudrun, desfazendo-a, até o cabelo cair em torno da sua cabeça. Joana ficou a olhar para ele, espalhando-o sobre a cobertura escura, como se fosse creme. Nunca tinha visto a mãe com o cabelo solto. Por insistência do cónego, Gudrun usava-o sempre bem preso, escondido sob uma touca de linho grosso. O seu marido dizia que o cabelo de uma mulher é a rede onde Satanás apanha a alma de um homem. E o cabelo de Gudrun era extraordinariamente belo, comprido, macio, dourado,
sem um único cabelo branco, apesar de já ser uma idosa com trinta
e seis primaveras.
— Porque é que o Mateus e o João se foram embora? —
perguntou Joana, subitamente.
A mãe já lhe tinha explicado várias vezes, mas Joana queria ouvir
novamente.
— Sabes bem porquê. O teu pai levou-os com ele na sua viagem
missionária.
— Porque é que eu não pude ir também?
Gudrun suspirou pacientemente. A filha estava sempre cheia de
perguntas.
— O Mateus e o João são rapazes; um dia, serão padres como o
teu pai. Tu és uma rapariga, por isso esses assuntos não te dizem respeito.
Vendo que Joana não tinha ficado satisfeita com a resposta,
acrescentou:
— Além disso, és muito nova.
Joana ficou indignada.
— Fiz quatro anos no Wintarmanoth!
Os olhos de Gudrun brilharam divertidos ao olhar para o rosto
rechonchudo da criança.
— Ah, pois, já me esquecia que tu, agora, és uma menina crescida,
não é? Quatro anos! Já és muito crescida.
Joana ficou calada, enquanto a mãe lhe acariciava o cabelo. Depois perguntou.
— O que são os pagãos?
O pai e os irmãos tinham falado muito de pagãos antes de terem
partido. Joana não percebia exactamente o que eram pagãos, apesar de pensar que devia ser qualquer coisa muito má.
Gudrun ficou hirta. A palavra tinha poderes de esconjuro. Tinha
sido pronunciada pelos soldados invasores, quando tinham pilhado a casa dela e morto a sua família e amigos. Os sinistros e cruéis soldados de Carolus, o imperador dos Francos. Magnus, como o povo lhe chamava agora, depois da sua morte. Carolus Magnus. Carlos Magno. Será que lhe dariam esse título se tivessem visto o seu exército arrancar os bebés dos braços das mães, fazendo-os voltear no ar, antes de esmagarem as suas cabeças contra as pedras?, pensou Gudrun. Gudrun tirou a mão do cabelo de Joana e virou-se de costas.
— Tens de perguntar ao teu pai — disse ela.
Joana não percebeu o que tinha feito de mal, mas apercebeu-se de
uma dureza estranha na voz da mãe. Sentiu que ela a mandaria regressar à sua cama se não procurasse reparar o dano. Disse, rapidamente:
— Falai-me outra vez dos Antepassados.
— Não posso. O teu pai não acha bem que eu te conte essas
histórias.
Estas palavras eram um misto de afirmação e interrogação. Joana sabia o que fazer. Colocando ambas as mãos sobre o
coração, recitou o juramento exactamente como a sua mãe lho tinha ensinado, prometendo segredo eterno, em nome de Thor, o deus do Trovão.
Gudrun riu-se e voltou a abraçar Joana.
— Muito bem, passarinho. Vou contar-te a história, uma vez que
tens tanto jeito para a pedir.
A voz dela voltou a ser carinhosa, sussurrante e melodiosa quando
começou a falar de Woden, Thor e Freya e de todos os outros deuses que tinham povoado a sua infância saxónica, antes de os exércitos de Carlos Magno terem trazido a Palavra de Cristo com um banho de sangue e de fogo. Falou cadenciadamente sobre Asgard, o reino radioso dos deuses, um país com palácios em ouro e prata, que só podiam ser alcançados atravessando Bifrost, a misteriosa ponte sobre o arco-íris. A guardar a ponte estava Heimdall, o Guardião, que nunca dormia e cujo ouvido era tão apurado que ouvia a erva a crescer. Em Valhalla, o palácio mais belo de todos, vivia Woden, o pai dos deuses, sobre cujos ombros poisavam dois corvos: Hugin, o Pensamento, e Munin, a Memória. Sentado no seu trono, enquanto os outros deuses festejavam, Woden meditava sobre as verdades que o Pensamento e a Memória lhe segredavam ao ouvido.
Joana acenava com a cabeça, contente. Esta era a parte da história
que ela mais gostava.
— Falai-me do Poço da Sabedoria — pediu ela. — Apesar de já ser muito sábio — explicou a mãe — Woden
buscava sempre alcançar mais sabedoria. Um dia, foi ao Poço da Sabedoria, guardado por Mimir, o Sábio, e pediu-lhe autorização para beber dele.
— Que preço estás disposto a pagar? — perguntou Mimir. Woden respondeu que Mimir podia pedir o que quisesse. — A sabedoria só se adquire com dor — respondeu Mimir. — Se
queres beber desta água, tens de sacrificar um dos teus olhos.
Com os olhos a brilhar de excitação, Joana exclamou: — E Woden pagou, mamã, não pagou? Pagou! A mãe acenou com a cabeça.
— Apesar de ter sido uma escolha difícil, Woden consentiu em
perder um olho. Bebeu a água. Depois, transmitiu à humanidade a sabedoria que tinha adquirido.
Joana levantou os olhos para a mãe, com um ar grave. — Teríeis feito isso, mamã, para ser sábia, para saber tudo? — Só os deuses é que fazem estas coisas — respondeu ela. Depois, vendo que a filha continuava a olhar para ela
insistentemente, Gudrun confessou:
— Não. Teria tido demasiado medo.
— Eu também — disse Joana, pensativa. — Mas, teria querido ser
capaz de o fazer. Teria querido saber tudo quanto o poço pudesse dizer-me.
Gudrun sorriu para o rostinho decidido.
— Talvez não gostasses daquilo que podias aprender ali. Há um
ditado do nosso povo que diz: O coração de um homem sábio raramente é feliz.
Joana abanou a cabeça, apesar de não compreender muito bem. — Agora, falai-me da Árvore — disse ela, aconchegando-se mais
à mãe.
Gudrun começou a descrever Irminsul, a maravilhosa árvore do
universo. Encontrava-se no bosque saxónico mais sagrado, na nascente do rio Lippe. O seu povo tinha-a adorado até ela ter sido abatida pelos exércitos de Carlos Magno.
— Era muito bela — disse a mãe. — E tão alta que não se
conseguia ver o cimo. Era...
Interrompeu-se. Tendo-se apercebido subitamente de outra
presença, Joana levantou os olhos. O seu pai estava parado à entrada.
A mãe sentou-se na cama.
— Marido — disse ela. — Não esperava o vosso regresso senão
amanhã.
O cónego não respondeu. Pegou numa vela de cera que se
encontrava na mesa junto à porta e aproximou-se da lareira para a acender.
Gudrun disse, nervosa:
— A criança estava com medo da trovoada. Pensei que podia
confortá-la contando-lhe uma história inocente.
— Inocente!
A voz do cónego tremia com o esforço para controlar a ira. — Chamas a uma blasfémia dessas uma história inocente? Percorreu a distância que o separava da cama em duas passadas,
pousou a vela e puxou o cobertor, destapando-as.
Joana estava deitada abraçada à mãe, meio escondida sob uma
cortina de cabelo dourado.
Por momentos, o cónego ficou parado, estupefacto, olhando para o
cabelo solto de Gudrun. Depois, a fúria apoderou-se dele.
— Como te atreveste! Quando eu o proibi expressamente! Agarrando Gudrun, começou a arrastá-la para fora da cama. — Bruxa pagã!
Joana agarrou-se à mãe. O rosto do cónego ensombrou-se.
— Desaparece, filha! — bramiu ele.
Joana hesitou, dividida entre o temor e o desejo de proteger a sua
mãe, de algum modo.
Gudrun empurrou-a suavemente.
— Sim, larga-me. Vai depressa.
Soltando-se, Joana caiu para o chão e correu. À porta, voltou-se e
viu o pai arrastar a mãe pelos cabelos, puxando-lhe a cabeça para trás e forçando-a a ajoelhar-se.
Joana voltou para o quarto. O terror imobilizou-a imediatamente
quando viu o pai puxar da sua grande faca do mato, com cabo em osso, tirando-a do cinto.
— Forsachistu diabolae? — perguntou ele a Gudrun em saxão,
numa voz que era pouco mais do que um sussurro.
Como ela não respondeu, ele encostou a ponta da faca à sua
garganta:
— Diz as palavras — rosnou ele, ameaçador. — Diz! — Ec forracho allum diaboler — respondeu Gudrun com os olhos
cheios de lágrimas e de rancor — Wuercum and wuordum, thunaer ende woden ende raxnoter ende allum...
Cheia de medo, Joana viu o pai levantar uma grande madeixa de
cabelo da sua mãe e passá-la pela faca. O corte da madeixa sedosa provocou um barulho abafado; uma grande madeixa de cabelo dourado caiu para o chão.
Tapando a boca com a mão para abafar um grito, Joana voltou-se e
correu.
Na escuridão, tropeçou numa sombra que se aproximou dela. Vendo-se presa, ela soltou um grito agudo. A monstruosa mão
negra! Tinha-se esquecido dela! Lutou, batendo-lhe com os seus pequenos punhos, resistindo com todas as suas forças, mas ela era enorme e agarrava-a com força.
— Joana! Joana, já passou. Sou eu!
As palavras penetraram no seu medo. Era o seu irmão de dez anos
de idade, Mateus, que tinha regressado com o pai.
— Já voltámos. Joana, pára de lutar! Já passou. Sou eu.
Joana estendeu os braços e sentiu a superfície macia da cruz
peitoral que Mateus usava sempre e agarrou-se a ele, aliviada.
Sentaram-se juntos no escuro, ouvindo os sons surdos e cortantes
da faca, passando no cabelo da mãe. Ouviram a mamã a chorar de dor. Mateus praguejou alto. Veio uma resposta da cama onde o irmão de Joana, o João, com sete anos de idade, estava escondido, sob os cobertores.
Finalmente, os sons cortantes terminaram. Depois de uma breve
pausa, o cónego começou a rezar. Joana sentiu que Mateus se tinha acalmado. Tinha acabado. Atirou os braços ao seu pescoço e começou a chorar. Ele abraçou-a e embalou-a gentilmente.
Ao fim de algum tempo, ela olhou para ele.
— O pai chamou pagã à mãe.
— Sim.
— Mas, ela não é, pois não? — perguntou Joana, hesitante. — Era.
Vendo o seu olhar de descrença horrorizada, acrescentou: — Há muito tempo. Já não. Mas, as histórias que ela te estava a
contar são pagãs.
Joana parou de chorar. Era uma informação interessante. — Sabes qual é o primeiro Mandamento, não sabes? Joana acenou e recitou-o obedientemente:
— Não terás senão um só deus.
— Pois. Isto quer dizer que os deuses de que a mamã te estava a
falar são falsos; é pecado falar neles.
— Foi por isso que o pai...
— Foi. — interrompeu Mateus. — A mamã tinha de ser castigada
para bem da sua alma. Foi desobediente ao seu marido e isso também é contra a lei de Deus.
— Porquê?
— Porque é assim que diz no Livro Sagrado.
Ele começou a recitar:
— Pois o marido é a cabeça da mulher; portanto, que as esposas se
submetam em tudo aos seus maridos.
— Porquê?
— Porquê?
Mateus foi apanhado de surpresa. Nunca ninguém lhe tinha feito
essa pergunta:
— Bem, acho que é porque... porque as mulheres são inferiores
aos homens, por natureza. Os homens são maiores, mais fortes e mais inteligentes.
— Mas...
Joana começou a responder, mas Mateus interrompeu-a: — Basta de perguntas, irmãzinha. Devias estar na cama. Anda. Levou-a para a cama e deitou-a ao lado do João, que já estava a
dormir.
O Mateus tinha sido gentil com ela. Em troca, Joana fechou os
olhos e tapou-se com os cobertores, como se fosse dormir.
Mas, estava demasiado perturbada para dormir. Ficou deitada no
escuro, olhando para o João, que dormia, com a boca entreaberta.
— Ele não é capaz de recitar do Saltério e tem sete anos. Joana só tinha quatro, mas já sabia de cor os primeiros dez salmos. O João não era esperto. No entanto, era um rapaz. Mas, como era
possível que o Mateus estivesse enganado? Ele sabia tudo; ia ser padre, como o pai deles.
Ficou acordada no escuro, magicando no problema. Adormeceu de madrugada, atribulada, assaltada por sonhos de
guerras tremendas entre deuses ciumentos e irados. O próprio anjo Gabriel tinha descido do Céu com uma espada flamejante para lutar contra Thor e Freya. A batalha tinha sido terrível e cruel, mas, no fim, os falsos deuses foram derrotados e Gabriel ficou de pé, triunfante, às portas do paraíso. A sua espada tinha desaparecido; na sua mão, reluzia uma faca com cabo em osso.