A Papisa Joana
Capítulo 14 · Fulda
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
Sob o luar que preludiava a madrugada, os irmãos de Fulda
desciam as escadas e caminhavam serenamente numa única fila através do pátio interior, a caminho da igreja, com as suas túnicas cinzentas confundindo-se com a escuridão. O único som que quebrava o silêncio profundo era o chinelar tranquilo das suas sandálias em pele, os próprios melros só acordariam muitas horas mais tarde. Os irmãos entraram no coro e, com a segurança de um velho hábito, dirigiram-se para os seus lugares para a celebração da vigília.
O irmão João Anglicus ajoelhou-se como os outros, dobrando os
joelhos num movimento inconsciente, habitual para encontrar a posição mais confortável no chão de terra batida.
Domine labia mea aperies... Começaram com um versículo,
depois, percorreram o salmo número três, segundo a forma estipulada na bendita regra de São Bento.
João Anglicus gostava do primeiro ofício do dia. A estrutura
imutável da cerimónia deixava o seu espírito livre para vaguear, enquanto os lábios pronunciavam as palavras habituais. Havia vários irmãos a cabecearem com sono, mas João Anglicus sentia-se maravilhosamente acordado, com todos os sentidos despertos e alerta para o pequeno mundo iluminado pelas chamas trémulas das velas, rodeado da firmeza reconfortante daquelas paredes.
O sentimento de pertença, de comunidade era particularmente
forte a esta hora da noite. Os contornos nítidos da luz do dia, que expunham tão rapidamente as personalidades, gostos e desgostos, lealdades e deslealdades de cada um, submergiam nas sombras mudas e no ressoar uníssono das vozes dos irmãos, abafadas e melódicas no ar tranquilo da noite.
Te Deum laudamus... João Anglicus cantava a Aleluia com os
outros, com as suas cabeças redondas e calvas tão indistintas como sementes num saco.
Mas, João Anglicus não era como os outros. João Anglicus não
pertencia a esta irmandade distinta e de renome. Não era por causa de nenhum defeito da mente ou de carácter. Tinha sido um golpe do destino ou de um Deus cruel e indiferente que tinha posto João Anglicus irremediavelmente à parte dos outros. João Anglicus não pertencia aos irmãos de Fulda porque João Anglicus, nascido Joana de Ingelheim, era uma mulher.
Tinham passado quatro anos desde que ela se tinha apresentado ao
portão da abadia disfarçada como se fosse o seu irmão João. Chamaram-lhe Anglicus, por causa de o pai dela ser inglês e ela depressa se distinguiu mesmo entre esta irmandade de eruditos, poetas e intelectuais de elite.
As qualidades mentais que, como mulher, lhe tinham alcançado
humilhação e desprezo, aqui eram apreciadas por todos. O seu brilhantismo, o seu conhecimento da Escritura e a argúcia de raciocínio nas disputas académicas tornaram-se motivo de orgulho para a comunidade. Ela era livre — não, encorajada — para trabalhar até ao limite das suas capacidades. Entre os noviços, ela foi rapidamente promovida a seniorus, isto deu-lhe ainda maior liberdade de acesso à famosa biblioteca de Fulda — uma colecção enorme de mais de trezentos e cinquenta manuscritos, incluindo uma colecção extraordinariamente requintada de autores clássicos — Suetónio, Tácito, Virgílio, Plínio, Marcelino, entre outros. Ela rodeava-se de pilhas de rolos, num transporte de prazer. Estava ali todo o conhecimento do mundo, segundo parecia, e era todo dela, se ela quisesse.
Tendo-a encontrado um dia a ler um tratado de São Crisóstomo, o
prior José ficou surpreendido ao descobrir que ela sabia grego, conhecimento que nenhum outro irmão possuía.
Disse ao abade Rábano, que a colocou imediatamente a trabalhar
na tradução da excelente colecção de tratados de medicina em grego, que a abadia possuía, estes incluíam cinco dos sete livros de aforismos de Hipócrates, o Tetrabiblios completo de Aécio, assim como fragmentos de obras de Dribásio e de Alexandre de Trales. O irmão Benjamim, médico da comunidade, ficou tão impressionado com o trabalho de Joana que a tornou sua assistente. Ensinou-lhe a cultivar e colher as plantas medicinais do jardim e a usar as suas diversas propriedades curativas: funcho para a obstipação, mostarda para a tosse, cerefólio para as hemorragias, absinto e folhas de salgueiro para a febre.
No jardim de Benjamim havia remédios para todos os males
humanos possíveis e imaginários. Joana ajudava-o a fazer as diversas cataplasmas, purgas, infusões e curativos que eram baluartes da medicina do mosteiro e acompanhava-o à enfermaria para cuidar dos doentes. Era um trabalho fascinante, perfeitamente adequado ao seu espírito inquisitivo e analítico. Passava os dias ocupada e a trabalhar, entre os seus estudos e o trabalho com o irmão Benjamim, assim como entre os sinos que tocavam regularmente sete vezes ao dia, chamando a confraria para as orações canónicas. Havia uma liberdade e um poder nesta existência masculina que ela nunca tinha experimentado antes e Joana achava que gostava daquilo, gostava muito.
— Talvez não devesse estar a contar-te estas coisas todas porque
vão fazer inchar a tua cabeça até o capuz deixar de lhe servir — tinha acabado de lhe dizer no dia anterior o bisbilhoteiro do velho Hatto, o porteiro, sorrindo, divertido para ela perceber que ele estava só a brincar. — Mas, ontem, ouvi o padre abade dizer ao prior José que tu tinhas a melhor cabeça da irmandade e que, um dia, trarias grandes honras a esta casa.
As palavras da velha cartomante da feira de São Dinis ecoaram
nos ouvidos da Joana: Conhecerás uma glória muito para além das tuas expectativas., Seria isto que ela queria dizer?
A mulher tinha-lhe chamado quimera e tinha dito: És aquilo que
não serás, o que tu serás é diferente daquilo que és. Isso é verdade, pensou Joana, apalpando a pequena mancha sem cabelo no alto da sua cabeça, quase escondida pelos espessos caracóis de cabelo dourado que a rodeava. O seu cabelo — o cabelo da sua mãe — era a única coisa de que Joana se envaidecia. Apesar disso, tinha ficado contente por ele ter sido rapado. A sua tonsura de monge, assim como a fina cicatriz deixada na sua cara pela espada normanda, reforçavam o seu disfarce masculino — um disfarce do qual dependia a sua vida.
Quando chegou a Fulda, cada dia era uma preocupação para ela
porque não sabia se iria surgir um aspecto novo e inesperado da rotina monástica que desmascarasse subitamente a sua identidade. Esforçou-se por imitar os modos masculinos, mas tinha medo de se revelar em dezenas de pequenas coisas, apesar de nunca ninguém ter reparado.
Felizmente, a regra beneditina tinha sido estabelecida
cuidadosamente, de forma a proteger a modéstia de todos os membros da comunidade, desde o abade ao mais humilde dos irmãos. O corpo, vaso pecaminoso, tinha de estar o mais escondido possível.
O longo e amplo hábito beneditino permitia-lhe disfarçar bastante
bem as suas formas femininas, no entanto, como precaução suplementar, ela ligava o peito com faixas de linho grosso. A Regra de São Bento estipulava explicitamente que os irmãos dormissem vestidos e não mostrassem senão as mãos e os pés, mesmo nas noites mais quentes de Heuvimanoth. Eram proibidos os banhos, excepto para os doentes. Até mesmo as necessaria, latrinas comunitárias, preservavam a modéstia da irmandade, através de divisórias entre todos os assentos em pedra fria.
Quando adoptou pela primeira vez o seu disfarce, na estrada entre
Dorstadt e Fulda, Joana aprendeu a estancar o sangramento mensal com uma cataplasma espessa de folhas absorventes, que enterrava depois. Na abadia, nem sequer era necessário tomar esta precaução. Limitava-se a deitar as folhas sujas pelos buracos fundos e escuros da necessaria, onde se misturavam indistintamente com outros excrementos.
Toda a gente em Fulda pensava que ela era um rapaz. Uma vez
estabelecido o género de uma pessoa, ninguém pensava mais nisso, tinha concluído Joana. Ainda bem que era assim, porque a descoberta da sua verdadeira identidade significaria certamente a morte.
Foi esta certeza que a impediu de tentar contactar Geraldo,
inicialmente. Não havia ninguém em quem pudesse confiar para lhe mandar uma mensagem e não havia forma de poder sair dali.
Como noviça, era observada de perto todas as horas do dia e da
noite.
Tinha ficado acordada horas a fio no seu dormitório estreito,
atormentada pela dúvida. Mesmo que conseguisse falar com Geraldo, será que ele a queria? Quando tinham estado juntos pela última vez, na margem do rio, ela tinha desejado que ele fizesse amor com ela — corava com a recordação — mas ele tinha-se recusado. Depois, a caminho de casa, ele tinha-se mostrado distante, quase como se estivesse zangado. Depois, tinha aproveitado a primeira oportunidade para se ir embora.
Não o devias ter levado tão a sério, tinha dito Richild. És apenas a
última conta na longa cadeia de conquistas de Geraldo.
Será que Richild tinha razão? Na altura, não tinha conseguido
acreditar, mas, talvez ela estivesse a dizer a verdade.
Seria absurdo arriscar tudo, incluindo a própria vida, para
contactar um homem que não a queria ou que talvez nunca a tivesse querido. E, no entanto...
Estava em Fulda havia três meses quando testemunhou algo que a
ajudou a tomar a sua decisão. Ia a passar pelo pátio com um grupo de noviços, seus colegas, dirigindo-se para o mosteiro, quando uma discussão acesa perto do portão do porteiro lhe chamou a atenção. Viu uma escolta de homens a cavalo a passarem, seguidos por uma senhora, vestida sumptuosamente com uma túnica em seda amarela, tão elegante e direita na sua sela como uma estátua de mármore. Era bonita, as suas feições eram delicadas e redondas e a sua pele branca estava enquadrada por um cabelo castanho, brilhante, que caía em catadupas, mas os seus olhos escuros e inteligentes tinham um ar misteriosamente triste.
— Quem é? — perguntou Joana intrigada.
— É Judite, a esposa do Visconde de Walfair — respondeu o
irmão Rudolfo, o mestre de noviços. — Uma mulher instruída.
Dizem que sabe ler e escrever latim como um homem. — Deo, juva nos — benzeu-se o irmão Gailo, amedrontado. — É
uma bruxa?
— Tem reputação de ser muito piedosa. Até escreveu um
comentário sobre a vida de Ester.
— Abominação — disse o irmão Tomás, um dos outros noviços.
Era um jovem simples, com cara de melão, queixo pontiagudo e olhos pestanudos. Tomás estava convencido da superioridade da sua virtude e aproveitava todas as oportunidades para a exibir. — Uma grande violação da natureza. O que pode uma mulher, uma criatura de vis paixões, saber destas coisas? Deus castigá-la-á, certamente, pela sua arrogância.
— Já o fez — respondeu o irmão Rudolfo — porque, apesar de o
visconde precisar de um herdeiro, a sua senhora é estéril. No mês passado, voltou a dar à luz outro bebé morto.
O cortejo de cavaleiros passou diante da igreja da abadia. Joana viu Judite desmontar e aproximar-se da porta da igreja,
caminhando solenemente e trazendo uma vela na mão.
— Não deveis ficar a olhar, irmão João — repreendeu-a Tomás,
piedosamente.
Era frequente ele querer ficar bem visto aos olhos do irmão
Rudolfo, à custa dos seus companheiros noviços.
— Um bom monge deve manter os olhos castamente baixos diante
de uma senhora — disse ele, citando a regra, com ares de santo.
— Tens razão, Irmão — replicou Joana — Mas, nunca vi uma
senhora como ela, com um olho azul e outro castanho.
— Não disfarces o teu pecado com a falsidade, irmão João. A
senhora tem ambos os olhos castanhos.
— E como sabes tu isso, Irmão — perguntou Joana
astuciosamente - se não olhaste para ela?
Os outros noviços começaram-se a rir. Até o irmão Rudolfo não
foi capaz de disfarçar um sorriso.
Tomás olhou para Joana. Ela tinha-o feito passar por tolo e ele não
era pessoa de esquecer uma injúria daquelas.
A sua atenção concentrou-se no irmão Hildwin, o sacristão, que
correu a entrepor-se entre Judite e a igreja.
— A paz esteja convosco, senhora — disse ele, em franco
vernáculo.
— Et cum spiritu tuo — respondeu ela docemente, num latim
perfeito.
O irmão Hildwin voltou a dirigir-se a ela em vernáculo,
propositadamente:
— Se desejais comida ou alojamento, estamos prontos a receber-
vos e à vossa comitiva. Vinde, eu próprio vos acompanharei à hospedaria para visitantes distintos e informarei o nosso senhor Abade da vossa chegada. Ele quererá saudar-vos pessoalmente, não tenho dúvida.
— Sois muito gentil, Padre, mas eu não necessito de hospitalitas
— voltou ela a responder em latim. — Desejo apenas acender uma vela na igreja, pelo meu bebé morto. Depois, seguirei o meu caminho.
— Ah! Então, é meu dever como sacristão desta igreja, informar-
vos, filha, de que não podeis passar por estas portas enquanto ainda estiverdes — ele procurou a palavra adequada — impura.
Judite corou, mas não perdeu a compostura:
— Eu conheço a lei, Padre — disse ela, calmamente. — Esperei
os trinta e três dias prescritos, após o parto.
— O bebé que destes à luz era uma menina, não era? — disse o
irmão Hildwin com ar condescendente.
— Sim.
— Então, o tempo de... impureza... é mais longo. Não podeis
entrar no recinto sagrado desta igreja senão sessenta e seis dias após o nascimento da criança.
— Onde está isso escrito? Não li essa lei.
— Nem é adequado que o tenhais feito, sendo uma mulher. Joana começou a indignar-se com a afronta. Recordando-se
daquilo por que ela própria tinha passado, sentiu a vergonha da humilhação por que Judite estava a passar. A instrução, a inteligência e a origem da senhora não valiam nada. O pedinte mais vil, mais ignorante e mais sujo podia entrar na igreja para rezar, mas Judite não podia, porque era impura.
— Voltai para casa, filha — continuou o irmão Hildwin — e rezai
na vossa própria capela pela alma do vosso bebé por baptizar. Deus tem horror àquilo que é contrário à natureza.
Deixai a pena e pegai num fuso, que é um objecto apropriado à
actividade feminina, arrependei-vos da vossa soberba e Ele retirará o fardo que vos impôs.
O rubor espalhou-se pelo rosto de Judite.
— Este insulto não ficará sem resposta. O meu marido saberá dele
e não ficará satisfeito.
Tratou-se de uma tentativa de salvar a face porque a autoridade
temporal do Visconde de Walfair não tinha qualquer peso ali, como ela bem sabia. De cabeça erguida, virou as costas e dirigiu-se para a sua escolta, que a aguardava.
Joana afastou-se do pequeno grupo de noviços. — Dai-me a vela, senhora — disse ela, levantando a mão — eu
acendê-la-ei por vós.
Pelos belos olhos negros de Judite perpassaram surpresa e
desconfiança. Seria mais uma tentativa para a humilhar?
Durante um momento, as duas mulheres ficaram a olhar uma para
a outra, Judite, o epítome da beleza feminina, na sua túnica dourada, com o seu cabelo comprido emoldurando o seu rosto, numa nuvem, e Joana, a mais alta das duas, com um ar arrapazado, sem qualquer adorno, com um simples hábito de monge.
Algo nos olhos verde-acinzentados que se cruzaram com os dela
com tamanha intensidade persuadiu Judite. Sem uma palavra, colocou a vela na mão estendida de Joana. Depois, voltou a montar e atravessou o portão.
Joana acendeu a vela diante do altar, tal como tinha prometido. O
sacristão estava furioso.
— Que descaramento intolerável! — disse ele. E, nessa noite, para grande deleite do irmão Tomás, Joana foi
obrigada a fazer jejum para expiar a sua falta.
Depois deste episódio, Joana decidiu que ia esquecer Geraldo.
Nunca poderia ser feliz vivendo a existência limitada de uma mulher. Além disso, pensou ela, a sua relação com Geraldo não era o que ela pensava. Ela era apenas uma criança, inexperiente e ingénua, o seu amor tinha sido uma ilusão romântica nascida da solidão e da carência. Geraldo nunca a tinha amado, senão, não a teria deixado.
Aegra amans, pensou ela. Virgílio tinha toda a razão: o amor era
uma forma de doença. Alterava as pessoas, fazia com que elas se comportassem de uma forma estranha e irracional.
Ela estava contente de ter acabado com aquilo. Nunca te entregues
a um homem. Voltou a lembrar-se das palavras da mãe.
Tinha-as esquecido no fervor da sua paixão infantil. Agora,
apercebia-se de como tinha tido sorte em escapar ao destino da sua mãe. Tantas vezes repetiu isso a si própria, que acabou por acreditar.
Capítulo 15
Os irmãos estavam reunidos na sala capitular, sentados nas
gradines — filas de assentos em pedra ao longo das paredes da sala — por ordem de antiguidade. O capítulo era a assembleia mais importante do dia, à excepção dos ofícios porque era onde se tratava dos assuntos temporais da comunidade e onde se discutiam as questões relativas à gestão, aos dinheiros, às nomeações e aos litígios. Era também ali que os irmãos que tinham infringido a regra deviam confessar as suas faltas e receber as suas penitências, ou arriscarem-se a serem acusados pelos outros.
Joana ia sempre para o capítulo com um certo nervosismo. Será que se tinha revelado inadvertidamente através de alguma
palavra ou gesto incautos? Se a sua verdadeira identidade se revelasse alguma vez, seria ali que ela ficaria a sabê-lo.
O encontro começava sempre com a leitura de um capítulo da
Regra de São Bento, o livro de regras monásticas que orientava a vida espiritual e administrativa da comunidade no dia-a-dia.
A regra era lida do princípio ao fim, um capítulo por dia, de forma
que, ao longo de um ano, os irmãos ouviam-na na íntegra.
Depois da leitura e da bênção, o abade Rábano perguntou: — Irmãos, tendes faltas a confessar?
Antes de ele ter terminado as palavras de exortação, o irmão
Thedo levantou-se de um salto.
— Padre, eu tenho uma falta a confessar.
— De que se trata, Irmão? — perguntou o abade Rábano com um
ar ligeiramente enfadado. O irmão Thedo era sempre o primeiro a acusar-se das suas faltas.
— Pequei na prática opus manuum. Adormeci no scriptorium,
enquanto copiava a vida de Santo Amândio.
— Outra vez? — o abade Rábano ergueu uma sobrancelha. Thedo baixou a cabeça humildemente.
— Padre, sou pecador e indigno. Peço-vos que me imponhais a
pena mais dura.
O abade Rábano suspirou:
— Muito bem. Ficarás dois dias de penitência de pé em frente à
igreja.
Os irmãos sorriram de esguelha. O irmão Thedo já tinha feito
tantas vezes penitência à porta da igreja, que já parecia fazer parte da decoração, como uma coluna viva de remorso.
Thedo ficou desiludido.
— Sois demasiado caridoso, Padre. Peço autorização para fazer
penitência durante uma semana por causa de ter cometido uma falta de tal gravidade.
— Deus não aceita o orgulho, Thedo, mesmo no sofrimento.
Lembra-te disso, enquanto pedes o Seu perdão para as tuas outras faltas.
A reprimenda acertou em cheio. Thedo corou e sentou-se. — Há outras faltas a confessar? — perguntou Rábano. O irmão Hunric levantou-se.
— Cheguei duas vezes atrasado ao ofício da noite. O abade Rábano acenou com a cabeça afirmativamente. O atraso
de Hunric tinha sido notado, mas, como ele tinha admitido a falta e não tentou escondê-la, a sua penitência seria leve.
— Até ao dia de São Dinis, ficarás de vigília durante a noite. O irmão Hunric baixou a cabeça. A Festa de São Dinis era dali a
dois dias, nas duas noites seguintes, ele tinha de ficar acordado, a observar a evolução da Lua e as estrelas no céu para poder determinar com a maior exactidão possível a chegada da oitava hora da noite, para acordar os irmãos para a celebração da vigília. Estas vigílias eram essenciais para a observância estrita do ofício da noite porque o Sol era a única maneira de medir a passagem do tempo, e, como era evidente, não ajudava nada quando estava escuro.
— Durante a tua vigília — prosseguiu Rábano — ficarás de
joelhos em oração incessante, sobre um monte de urtigas para te lembrares bem da tua indolência e para que isso te impeça de agravar a tua falta, voltando a adormecer.
— Sim, Padre Abade.
O irmão Hunric aceitou a penitência sem rancor. Para uma ofensa
tão grave, o castigo podia ter sido muito pior.
Seguiram-se vários irmãos, que confessaram faltas tão
insignificantes como partir pratos no refeitório, erros de escrita, enganos na oração, e todos receberam as respectivas penitências com humildade.
Quando terminaram, o abade Rábano fez uma pausa para ter a
certeza de que ninguém mais desejava confessar-se. Depois, disse:
— Foram cometidas mais algumas infracções à regra? Que
aqueles que falarem o façam para bem da alma dos seus irmãos.
Era esta a parte da reunião que Joana temia. Percorrendo as filas
de irmãos, os seus olhos caíram no irmão Tomás. Os seus olhos pestanudos estavam a olhar para ela com uma hostilidade inequívoca. Ela mexeu-se no seu lugar, pouco à vontade. Será que ele vai acusar-me de alguma coisa?
Mas, Tomás não fez qualquer movimento para se levantar. O
irmão Odilo, que estava sentado na fila de assentos mesmo por trás dele, levantou-se.
— No dia de jejum da sexta-feira, vi o irmão Hugo colher uma
maçã do pomar e comê-la.
O irmão Hugo levantou-se, nervoso.
— Padre, é verdade que colhi uma maçã porque o trabalho de
arrancar as ervas daninhas é duro e, de repente, eu senti uma grande fraqueza nas pernas. Mas, Santo Padre, eu não comi a maçã, só lhe dei uma dentadinha para recuperar forças, para poder continuar a opus mannum.
— A fraqueza da carne não é desculpa para a violação da regra —
respondeu o abade Rábano severamente. — É uma provação mandada por Deus para testar a fortaleza de alma do fiel. Tal como Eva, a mãe do pecado, também tu não resististe à provação, irmão — uma falta grave, especialmente porque não procuraste ser tu a confessá-la. Em penitência, jejuarás uma semana e renunciarás a todas as pitanças até à Epifania.
Uma semana de fome e nada de pitanças — as pequenas
guloseimas suplementares que acompanhavam a espartana dieta monástica constituída por verduras, leguminosas e, de vez em quando, peixe — até muito para além da Missa de Cristo! Esta última parte seria especialmente dura de suportar porque era durante esta época sagrada que as ofertas de comida chegavam à abadia, provenientes de toda a região, quando os cristãos, sentindo-se culpados, se preocupavam com o bem-estar das suas almas imortais. Bolos de mel, empadões, galinhas assadas e outras indulgências raras e maravilhosas, agraciavam brevemente as mesas da abadia. O irmão Hugo olhou maldosamente para o irmão Odilo.
— Mais — prosseguiu o abade Rábano — em sinal de gratidão
pela atenção prestada pelo irmão Odilo ao teu bem-estar espiritual, prostrar-te-ás diante dele esta noite e lavar-lhe-ás os pés com humildade e reconhecimento.
O irmão Hugo baixou a cabeça. Faria, evidentemente, o que o
abade Rábano lhe tinha ordenado, mas Joana duvidava que se sentisse agradecido. Os actos de penitência eram mais fáceis de cumprir do que o arrependimento de coração.
— Há mais faltas que necessitem de ser reveladas? — perguntou o
abade Rábano. Como ninguém respondeu, ele disse, com gravidade:
— Desgosta-me participar que existe entre nós alguém que é
culpado do pior de todos os pecados, um crime detestável aos olhos de Deus que está nos Céus...
O coração da Joana deu um salto, alarmado.
—... a quebra do voto sagrado feito a Deus.
O irmão Gottschalk pôs-se de pé num salto.
— Foi o meu pai que fez o voto, não fui eu! — disse ele, com a
voz a tremer.
Gottschalk era um jovem três ou quatro anos mais velho do que
Joana, com cabelo escuro encaracolado e uns olhos tão fundos nas suas órbitas que pareciam duas nódoas negras. Tal como Joana, também ele era um oblato, que o seu pai, um nobre saxónio, tinha oferecido ao convento, em criança. Agora, que era adulto, queria sair.
— É lícito a um cristão dedicar o seu filho a Deus — disse o
abade Rábano, num tom severo. — Essa oferta não pode ser retirada sem pecado grave.
— Não será que é igualmente pecado obrigar um homem a viver
contra a sua natureza e a sua vontade?
— Se um homem não se arrepender, Ele brandirá a Sua espada —
disse o abade Rábano, com voz forte. — Ele quebrou o Seu voto e preparou-se. Ele preparou-lhe os instrumentos de morte.
— Isso é uma tirania e não a verdade! — gritou Gottschalk
apaixonadamente.
— Opróbrio! Pecador! Envergonhai-vos, Irmão! O coro de assobios dos irmãos era pontuado por gritos insultuosos. — Meu filho, a tua desobediência colocou a tua alma imortal em
perigo grave — disse o abade Rábano solenemente. — Só existe um remédio para essa doença — nas justas e terríveis palavras do Apóstolo: Tradere hujusmodi hominem in interitum carnis, ut spiritussalvussit in diem Domini — tal homem tem de ser entregue para que a sua carne seja destruída, de modo a que o seu espírito ainda possa salvar-se no dia do Senhor.
A um sinal de Rábano, dois decani juniores, irmãos encarregados
da disciplina monástica, pegaram em Gottschalk e empurraram-no para o meio da sala. Ele não ofereceu resistência e eles fizeram-no ajoelhar, arrancando-lhe as roupas, desnudando-lhe as nádegas e as costas. O irmão Germar, deão dos diáconos, foi buscar uma vara de salgueiro grossa, que se encontrava num canto da sala para aquele fim. Era uma vara comprida, com cordas com nós grossos na extremidade.
Colocando-se a jeito, levantou a vara e desferiu um golpe nas
costas de Gottschalk. O som da chicotada ecoou na assembleia silenciosa.
As cicatrizes nas costas de Joana arrepiaram-se. A carne tem as
suas próprias recordações, mais agudas do que as da mente.
O irmão Germar voltou a levantar a vara e a desfechá-la ainda
com mais força. O corpo de Gottschalk vacilou, mas ele cerrou os lábios, recusando-se a dar ao abade Rábano a satisfação de o ouvir gritar. A vara voltou a erguer-se e a descer, a subir e a descer e Gottschalk continuava a não ceder.
Depois das habituais sete chicotadas, o irmão Germar baixou o
braço. O abade Rábano, furioso, fez-lhe sinal para que ele continuasse. Com um ar surpreendido, o irmão Germar obedeceu.
Mais três chicotadas, quatro, cinco e depois ouviu-se um estalo
horrível, quando a vara atingiu um osso. Gottschalk atirou a cabeça para trás e gritou — um grande grito, terrível, dilacerante, vindo do fundo do seu ser. O som lancinante ecoou, depois, deu lugar a um choro convulsivo.
O abade Rábano acenou com a cabeça, satisfeito, e fez sinal ao
irmão Germar para ele parar. Quando levantaram Gottschalk e o levaram da sala, melhor, o arrastaram, Joana viu uma coisa branca a brilhar nas suas costas ensanguentadas. Era uma costela de Gottschalk que tinha perfurado completamente a carne.
A enfermaria estava mais vazia do que o costume porque o dia
estava quente e ameno, e os idosos e os doentes crónicos tinham sido levados para apanharem um pouco de sol.
O irmão Gottschalk jazia na cama da enfermaria, meio
inconsciente, com as suas feridas abertas a tingirem os lençóis de sangue. O irmão Benjamim, o médico, estava debruçado sobre ele, tentando estancar o sangue com a ajuda de algumas ligaduras em linho, já completamente ensopadas.
Levantou os olhos para a Joana, quando ela entrou. — Ainda bem que chegaste. Dá-me algumas ligaduras da
prateleira.
Joana apressou-se a fazer o que ele lhe tinha pedido. O irmão
Benjamim desenrolou as ligaduras velhas, atirou-as para o chão e aplicou as novas. Ao fim de algum tempo, também estas estavam já ensopadas.
— Ajuda-me a virá-lo — disse Benjamim. — Da maneira como
ele está deitado, o osso continua a retalhar-lhe a carne. Temos de voltar a colocar a costela no seu lugar, senão, ele não pára de sangrar.
Joana deu a volta à cama, colocando as suas mãos de forma a que
bastasse um movimento rápido para devolver o osso ao lugar.
— Calma — disse Benjamim. — Apesar de ele estar meio
inconsciente, vai doer-lhe muito. Quando eu disser, Irmão. Um, dois, três!
Joana exerceu o efeito de tracção, enquanto o irmão Benjamim
puxava. Ele voltou a sangrar, depois, o osso desapareceu por baixo da carne rasgada.
— Deo, juva me! — Gottschalk levantou a cabeça, numa prece
torturada, depois, perdeu os sentidos.
Eles estancaram o sangue e limparam as feridas de Gottschalk.
— Bem, irmão João, o que devemos fazer a seguir? — perguntou
o irmão Benjamim à Joana, depois de terem acabado.
Ela respondeu rapidamente:
— Talvez aplicar um unguento... de artemísia, misturado com um
pouco de poejo. Ensopar algumas ligaduras em vinagre e aplicá-las como emplastros curativos.
— Muito bem — Benjamim estava satisfeito. — Aplicaremos
também um pouco de ligústica para evitar infecções.
Trabalharam lado a lado, preparando a solução, envolvidos pelo
cheiro intenso das ervas acabadas de cortar, que pairava sobre as suas cabeças. Quando as ligaduras estavam impregnadas e prontas, Joana deu-as ao irmão Benjamim.
— É a tua vez de as colocares — disse ele.
Depois, pôs-se à parte, a apreciar como o seu jovem aprendiz
apertou firmemente os horríveis pedaços de carne e colocou as ligaduras de uma forma correcta.
Aproximou-se para observar o paciente. As ligaduras tinham sido
aplicadas de uma forma perfeita. Na realidade, ele não teria feito melhor. Mesmo assim, não gostava do aspecto do irmão Gottschalk. A sua pele, fria e flácida, quando tocada, estava branca como algodão acabado de colher. A sua respiração era irregular e a sua pulsação, que mal se apanhava, estava perigosamente rápida.
Vai morrer, concluiu o irmão Benjamim, desgostoso, e, logo a
seguir, pensou: o padre abade vai ficar furioso. Rábano tinha-se excedido no capítulo e tinha consciência disso, a morte de Gottschalk serviria tanto como recriminação quanto como embaraço. E se a notícia chegasse ao rei Luís... bem, nem mesmo os abades estavam livres de serem censurados e despedidos.
O irmão Benjamim começou a pensar no que havia de fazer mais.
A sua farmacopeia era inútil porque não podia administrar nada por via oral, nem sequer água para compensar os líquidos perdidos, enquanto o seu paciente estivesse inconsciente.
A voz de João Anglicus despertou-o dos seus devaneios. — Devo acender a lareira e colocar algumas pedras a aquecer?
Benjamim olhou para o seu assistente surpreendido. Pôr pedras
aquecidas e embrulhadas em flanela à volta do paciente era um procedimento médico habitual no Inverno, quando o frio podia ser superior às forças de um homem doente, mas, agora, nos últimos dias quentes do Outono...?
— O tratado de Hipócrates sobre as feridas — recordou-lhe Joana. Ela tinha-lhe dado a sua tradução da brilhante obra do médico
grego, havia apenas alguns meses.
O irmão Benjamim franziu o sobrolho. Ele gostava de ser médico
e, dentro dos conhecimentos médicos limitados da época, era um bom médico. Mas, não era nenhum inovador, sentia-se mais à vontade com os remédios seguros, conhecidos, do que com ideias e teorias novas.
— O choque provocado por ferimentos graves — continuou
Joana, mal conseguindo conter a impaciência. — Segundo Hipócrates, pode matar um homem com um frio penetrante.
— É verdade que já vi homens morrerem de repente, depois de
terem sido feridos, apesar de as suas feridas não parecerem ser mortais — disse o irmão Benjamim, lentamente. — Deus vult, pensei eu, vontade de Deus...
O rosto inteligente do jovem João Anglicus irradiava expectativa,
esperando permissão para agir.
— Está bem — concedeu o irmão Benjamim — acende a lareira,
não é provável que faça qualquer mal ao irmão Gottschalk e pode ser que lhe faça bem, como diz o médico pagão.
Sentou-se num banco, grato por poder descansar as suas pernas
que sofriam de artrite, enquanto o seu enérgico assistente corria pela sala para acender o lume e colocar as pedras sobre as brasas.
Quando as pedras já estavam quentes, Joana embrulhou-as em
pedaços de flanela grossa e colocou-as cuidadosamente à volta de Gottschalk.
Pôs as duas pedras maiores por baixo dos pés dele, de forma a que
estes ficassem um pouco elevados, tal como Hipócrates recomendava. Por fim, cobriu tudo com um cobertor em lã para manter o calor.
Pouco depois, as pálpebras de Gottschalk abriram-se, gemeu e
começou a mexer-se. O irmão Benjamim aproximou-se da cama. A pele de Gottschalk tinha recuperado um tom rosado, saudável, e ele estava a respirar melhor. Tomando-lhe o pulso, verificou rapidamente que ele revelava um batimento forte e regular do coração.
— Deus seja louvado.
O irmão Benjamim suspirou, aliviado. Sorriu para João Anglicus,
que se encontrava do lado oposto da cama. Ele tem dom, pensou o irmão Benjamim, com um orgulho quase paternal, ligeiramente tingido de inveja. O rapaz desde o princípio que se tinha revelado de um brilhantismo promissor — por isso é que Benjamim o tinha convidado para seu assistente — mas, nunca tinha esperado que ele fosse tão longe tão rapidamente.
Em apenas alguns anos, João Anglicus dominava as competências
que o irmão Benjamim tinha levado uma vida inteira para adquirir.
— Tens o dom da cura, irmão João — disse ele com benevolência.
— Hoje, foste mais longe do que o teu velho mestre, em breve, já não terei nada a ensinar-te.
— Não digas isso — respondeu Joana, desgostosa porque gostava
muito de Benjamim. — Sei muito bem que ainda tenho muito que aprender.
Gottschalk voltou a gemer. Os seus lábios retorceram-se, deixando
os dentes à mostra.
— Ele está a começar a sentir dores — disse o irmão Benjamim. Apressou-se a fazer uma poção com vinho tinto e salva, na qual
deitou umas gotas de sumo de papoila. Um preparado daqueles exigia o maior cuidado porque aquilo que administrado em pequenas quantidades fornecia um alívio abençoado para as dores mais insuportáveis, também podia matar. A diferença dependia apenas da habilidade do médico.
Quando terminou, o irmão Benjamim deu a taça a transbordar a
Joana, que a levou à cama e a ofereceu a Gottschalk. Ele afastou-a, orgulhoso, apesar de aquele simples movimento o ter levado a soltar um grito de dor.
— Bebe, Irmão — insistiu Joana, gentilmente, e levou a taça aos
lábios de Gottschalk.
— Tens de melhorar, se queres ganhar algum dia a tua liberdade
— acrescentou ela num murmúrio conspirativo.
Gottschalk lançou-lhe um olhar surpreendido. Deu alguns goles,
depois, começou a beber rápida e avidamente, como um homem que chega a um poço depois de caminhar durante um dia inteiro ao sol.
De repente, ouviu-se uma voz autoritária por trás deles: — Não coloqueis a vossa esperança em ervas e poções. Voltando-se, Joana viu o abade Rábano, acompanhado de um
grupo de irmãos. Ela pousou a taça e levantou-se.
— O Senhor concede a vida aos homens e torna-os saudáveis. Só
a oração pode devolver a saúde a este pecador.
O abade Rábano fez sinal aos irmãos, que rodearam a cama,
silenciosamente.
O abade Rábano orientou-os na oração pelo doente. Gottschalk
não se juntou a eles. Ficou imóvel, com os olhos fechados, como se estivesse a dormir, apesar de a Joana saber que, pela maneira como respirava, ele não estava a dormir.
O corpo dele sarará, pensou ela, mas não a sua alma ferida. Joana teve pena do jovem monge. Ela compreendia a sua recusa
teimosa em se submeter à tirania de Rábano porque se lembrava muito bem da sua própria luta titânica contra o seu pai.
— Oremos e agradeçamos a Deus.
A voz do abade Rábano elevava-se acima da dos outros irmãos. Joana associou-se ao louvor a Deus, mas, interiormente, deu
também graças ao pagão Hipócrates, adorador de ídolos, cujos ossos já se tinham transformado em pó muitos anos antes de Cristo ter nascido, mas cuja ciência tinha atravessado o tempo para curar um dos Seus filhos.
— As feridas estão a fechar muito bem — confirmou Joana a
Gottschalk depois de ter retirado as ligaduras e de ter desnudado as suas costas para o observar.
Tinham passado duas semanas desde o dia da sua flagelação e a
costela partida já tinha solidificado e os rebordos irregulares das feridas estavam a fechar bem — apesar de, tal como tinha acontecido com ela, também Gottschalk fosse ficar para sempre com as marcas do seu castigo.
— Estou-te grato pelo trabalho que tens tido, Irmão — respondeu
Gottschalk —, mas, mais cedo ou mais tarde, vai voltar a ficar tudo na mesma porque é apenas uma questão de tempo até ele me mandar castigar outra vez.
— Só o provocarás se o enfrentares directamente. Uma abordagem
mais discreta será melhor para ti.
— Desafiá-lo-ia, nem que fosse a última coisa que fizesse. Ele é
mau — exclamou ele.
— Já pensaste em dizer-lhe que lhe entregarás a parte da terra a
que tens direito, em troca da tua liberdade? — perguntou-lhe Joana.
Um oblato era sempre oferecido a um mosteiro juntamente com
uma oferta de terra bastante substancial, se, depois, o oblato renunciasse aos seus votos, a terra ser-lhe-ia devolvida.
— Pensas que não lhe fiz já essa oferta? — respondeu Gottschalk.
— Não é a terra que lhe interessa, sou eu, ou melhor, a minha submissão, de corpo e alma. E isso, ele nunca terá, nem que me mate.
Então, era uma medição de forças entre ambos! Gottschalk nunca
venceria. Era melhor sair dali antes que acontecesse alguma coisa terrível.
— Tenho pensado no teu problema — disse Joana. — No mês que
vem há um sínodo em Mainz. Os bispos da Igreja estarão todos presentes. Se submeteres uma petição reclamando a tua libertação, eles terão de a analisar — e a sua vontade sobrepor-se-á à do abade Rábano.
Gottschalk respondeu, num tom triste:
— O sínodo nunca contrariará a vontade do grande Rábano
Mauro. Ele tem demasiado poder.
— Não seria a primeira vez que o poder de abades e mesmo de
arcebispos seria vencido — argumentou Joana. — E tu tens um argumento forte pelo facto de teres sido oferecido como um oblato quando eras criança, antes de teres atingido a idade da razão. Eu fiz uma pesquisa na biblioteca e encontrei algumas passagens de Jerónimo que coadjuvarão um argumento desse tipo.
Joana puxou de um rolo de pergaminho que tinha escondido no
hábito.
— Aqui está. Vê por ti mesmo — eu assentei tudo. Os olhos escuros de Gottschalk iluminaram-se, ao ler. Levantou os
olhos para ela, entusiasmado.
— É brilhante! Nem mesmo uma dúzia de rábanos podiam refutar
uma argumentação tão bem construída!
Mas, os seus olhos voltaram a toldar-se.
— Mas... não tenho possibilidade de apresentar isto diante do
sínodo. Ele nunca me dará autorização para me ausentar, nem que seja de dia, e muito menos para ir a Mainz.
— Burchard, o mercador de tecidos, pode levar a missiva por ti.
Ele vem cá regularmente, por causa dos seus negócios. Eu conheço-o bem porque ele vem à enfermaria buscar um remédio para a sua mulher, que sofre de dores de cabeça. É um bom homem e podemos confiar que ele leva a petição a Mainz.
Gottschalk perguntou, desconfiado:
— Porque fazes isto? Joana encolheu os ombros: — Um homem deve ser livre de viver a vida que escolhe. — E,
para si própria, acrescentou, e o mesmo deveria poder fazer uma mulher.
Correu tudo como planeado. Quando Burchard veio à enfermaria
buscar o remédio para a sua mulher, Joana entregou-lhe a petição, que ele meteu dentro do seu alforge, por uma questão de segurança.
Algumas semanas mais tarde, a abadia recebeu uma visita
inesperada de Otgar, bispo de Trier. Depois das saudações formais no pátio, o bispo pediu uma audiência com o abade, nos seus aposentos.
As notícias que o bispo trazia eram espantosas: Gottschalk foi
dispensado dos seus votos. Podia deixar Fulda quando quisesse.
Ele decidiu partir imediatamente, uma vez que não desejava
permanecer nem mais um momento do que o necessário sob o olhar maligno de Rábano. Não havia problemas em fazer as malas, apesar de ter vivido toda a sua vida no mosteiro, Gottschalk não tinha nada que pudesse levar consigo porque um monge não podia ter quaisquer bens pessoais. O irmão Anselmo, o cozinheiro, arranjou um saco de comida para os primeiros dias de caminho, e foi tudo.
— Para onde vais? — perguntou Joana.
— Para Speyer — respondeu ele. — Tenho lá uma irmã casada,
posso ficar uns tempos com ela. Depois... não sei.
Tinha lutado pela liberdade durante tanto tempo e com tão pouca
esperança que não tinha parado para pensar o que faria se a conseguisse alcançar. Nunca tinha conhecido outra vida que não fosse a monástica, a sua rotina segura e previsível fazia parte dele, da mesma forma que a respiração. Apesar de ser demasiado orgulhoso para o admitir, Joana percebeu nos seus olhos que ele se sentia inseguro e tinha medo.
Os irmãos não se reuniram para uma despedida formal porque
Rábano o tinha proibido. Apenas Joana e alguns outros irmãos, cuja opus mannum os fez terem de passar pelo pátio naquele momento, estavam presentes para ver Gottschalk a sair o portão, finalmente, um homem livre. Joana ficou a vê-lo a descer a rua. A sua figura esguia e alta foi-se sumindo, até desaparecer no horizonte.
Será que ele iria ser feliz? Joana esperava que sim. Mas, parecia
um homem fadado para desejar sempre aquilo que não podia ter, para escolher para si próprio o caminho mais pedregoso e mais difícil. Ela iria rezar por ele, assim como por todas as outras almas tristes e atribuladas que tinham de percorrer sozinhas o caminho da sua vida.
Capítulo 16
No Dia de Todos os Santos, a irmandade de Fulda congregava-se
no pátio para a separatio leprosorum, a liturgia solene que separava os leprosos do resto da sociedade. Naquele ano, tinham sido identificados na zona de Fulda sete daqueles desgraçados, quatro homens e três mulheres. Um deles era um jovem com cerca de catorze anos, ainda pouco marcado pelos sinais da doença; outro, era uma idosa de mais de sessenta anos cujos olhos sem pálpebras, a boca sem lábios e as mãos sem dedos atestava um estádio avançado da doença. Estavam todos cobertos com trapos negros e tinham sido reunidos no pátio, onde tinham formado um pequeno grupo.
A irmandade aproximou-se numa procissão solene. À frente, vinha
o abade Rábano, vestido com toda a pompa, como era digno de um abade. À sua direita, vinha José, o prior, e à sua esquerda, o bispo Otgar. Atrás deles, vinha o resto da irmandade, por ordem de idades.
Dois irmãos leigos terminavam a procissão, puxando uma carroça
cheia de terra do cemitério.
— Proíbo-vos de entrardes em qualquer igreja, moinho, padaria,
mercado ou qualquer outro local de reunião. — O abade Rábano dirigia-se aos leprosos com toda a solenidade. — Proíbo-vos de usardes as estradas e caminhos comuns. Proíbo-vos de vos aproximardes de qualquer pessoa, sem tocardes os vossos sinos, em sinal de aviso. Proíbo-vos de tocar em crianças ou de lhes dar seja o que for.
Uma das mulheres começou a chorar. Tinha duas manchas de
humidade na parte da frente da sua túnica de lã velha, à altura do peito. Uma mãe que amamenta, pensou Joana. Onde está o seu bebé? Quem irá tomar conta dele?
— Proíbo-vos de comerdes ou beberdes em companhia de alguém
que não seja leproso, como vós — prosseguiu o abade Rábano. — Proíbo-vos de lavardes alguma vez as vossas mãos ou a vossa cara ou quaisquer outros objectos de vosso uso na margem do rio ou de qualquer fonte ou ribeiro. Proíbo-vos de conhecimento carnal com vossos esposos ou de qualquer outra pessoa. Proíbo-vos de gerarem filhos ou de os alimentardes.
O choro angustiado da mulher intensificou-se. As lágrimas
corriam-lhe pela face ulcerada.
— Como vos chamais?
O abade Rábano dirigiu-se à mulher em vernáculo, com uma
irritação mal disfarçada. O irromper inesperado das suas emoções estava a perturbar a simetria bem ordenada da cerimónia com a qual Rábano tinha esperança de impressionar o bispo. De facto, parecia que Otgar não tinha vindo a Fulda apenas para dar a notícia da dispensa de Gottschalk, mas também para observar e fazer um relatório da forma como Rábano governava a abadia.
— Madalgis — soluçou a mulher, em resposta. — Por favor,
senhor, deixai-me voltar para casa porque tenho quatro órfãos à espera do seu jantar.
— O Céu se encarregará dos inocentes. Haveis pecado, Madalgis,
e Deus castigou-vos — explicou Rábano com uma paciência teatral, como se estivesse a falar com uma criança. — Não deveis chorar, mas sim agradecer a Deus porque na vida que há-de vir, sofrereis menos.
Madalgis ficou fora de si, como se duvidasse se tinha ouvido bem.
Depois, o seu rosto retorceu-se e recomeçou a chorar, mais alto ainda, com o rosto vermelho desde o pescoço até à raiz dos cabelos.
Estranho, pensou Joana.
Rábano virou as costas à mulher.
— De profundis clamavi ad te, Domine... — começou a oração
pelos mortos. A irmandade acompanhou-o em uníssono.
Joana repetia as palavras mecanicamente, com os olhos postos em
Madalgis.
Quando a oração terminou, Rábano passou para a parte final da
cerimónia, na qual cada leproso seria separado do mundo.
Colocou-se diante do primeiro, o rapaz de catorze anos, com
poucos sinais da doença.
— Sis mortuus mundo, vivens iterum Deo — disse o abade
Rábano. — Estais morto para o mundo e vivo aos olhos de Deus.
Fez um sinal ao irmão Magenard, que enterrou uma pá na carroça,
retirou um pouco de terra do cemitério e a atirou ao rapaz, sujando-lhe as roupas e o cabelo.
A cerimónia repetiu-se cinco vezes, terminando sempre com a
terra a ser atirada. Quando chegou à vez de Madalgis, ela tentou fugir, mas os dois irmãos leigos taparam-lhe a passagem. Rábano fitou-a, com o sobrolho carregado.
— Sis mortuus mundo, vivens iter...
— Um momento! — gritou Joana.
O abade Rábano calou-se. Toda a gente se virou na direcção da
interrupção inusitada.
Com todos os olhos postos nela, Joana avançou em direcção a
Madalgis e examinou-a com um olhar rápido. Depois, virou-se para o abade:
— Padre, esta mulher não é leprosa.
— O quê? — Rábano esforçava-se por conter a sua cólera para
que o bispo não a visse.
— Estas lesões não são devidas a lepra. Vede como a sua pele
muda de cor, alimentada pelo sangue que se encontra por baixo dela. Esta infecção de pele não é infecciosa; pode ser curada.
— Se ela não é leprosa, então o que provocou estas úlceras?
perguntou Rábano.
— Podem ter sido provocadas por várias coisas. É difícil dizer
sem outros exames. Mas, seja qual for a sua origem, uma coisa é certa: não é lepra.
— Deus assinalou esta mulher com a manifestação visível do
pecado. Não devemos desafiar a Sua vontade!
— Ela está marcada, mas não com a lepra — respondeu Joana
com firmeza. — Deus deu-nos o conhecimento para discernirmos entre aqueles que Ele escolheu para carregarem este fardo e aqueles que Ele não escolheu. Será que Ele ficará satisfeito se condenarmos a uma morte em vida alguém que Ele próprio não escolheu?
Era um argumento inteligente. Consternado, Rábano reparou que
os outros ficaram tocados por ele.
— Como sabemos se interpretaste correctamente a vontade de
Deus? — argumentou ele. — Será o teu orgulho tão grande que sejas capaz de lhe sacrificar a tua irmandade? — porque para socorreres esta mulher, podes colocar-nos a todos em grande perigo.
Esta afirmação levantou um burburinho de preocupação. Nada, a
não ser os inimagináveis tormentos do Inferno, inspirava mais horror, repulsa e medo do que a lepra.
Madalgis lançou-se aos pés de Joana, soltando um grito. Tinha seguido a discussão sem compreender porque tanto Joana
como Rábano tinham falado em latim, mas tinha-se conseguido aperceber de que Joana intercedia a seu favor e que a disputa não estava a correr bem.
Joana pousou a mão sobre o seu ombro, tanto para a acalmar,
como para a fazer calar.
— Ninguém mais na irmandade tem de correr qualquer risco, para
além de mim próprio. Com a vossa permissão, Padre, irei com ela para sua casa, levando os medicamentos necessários.
— Sozinho? Com uma mulher? — Rábano ergueu as
sobrancelhas, com um horror piedoso. — João Anglicus, talvez a tua intenção seja inocente, mas és um jovem, sujeito às vis paixões da carne, por isso, como teu pai espiritual, é meu dever proteger-te.
Joana abriu a boca para responder, depois, fechou-a, frustrada.
Ninguém estava mais a salvo da tentação com uma mulher do que ela, mas não havia forma de o poder explicar a Rábano.
A voz rouca do irmão Benjamim soou por trás dela: — Eu acompanharei o irmão João. Sou velho, há muito que
passou o tempo de ter essas tentações. Padre, podeis confiar no irmão João, quando ele diz que a mulher não é leprosa porque, se ele fala com tanta certeza, é porque tem razão. A sua competência nestes assuntos é muito grande.
Joana lançou-lhe um olhar agradecido. Madalgis agarrou-se a ela.
Os seus gritos foram temperados por um choro silencioso, reconfortado pela Joana.
O abade Rábano hesitou. O que ele queria era dar uma valente
reprimenda a João Anglicus pela sua desobediência presunçosa.
Mas, o bispo Otgar estava a ver, Rábano não podia parecer
intransigente ou impiedoso.
— Muito bem — disse ele, contrariado. — Irmão João, depois das
vésperas, tu e o irmão Benjamim acompanhareis esta pecadora e fareis o que pode ser feito em nome de Deus para a curar do seu mal.
— Obrigado, Padre — disse Joana.
Rábano fez o sinal da cruz sobre eles.
— Que Deus, na Sua bondade misericordiosa, vos proteja do mal.
A mula transportando os sacos de medicamentos caminhava
vagarosa e calmamente, indiferente ao sol poente. A cabana de Madalgis ficava a cerca de cinco milhas de caminho; a este passo lento, teriam de se esforçar muito para conseguirem chegar antes de escurecer.
Joana bateu na mula, impaciente. Para a satisfazer, a mula deu
cinco ou seis passos mais rápidos, depois, regressou confortavelmente ao seu passo original.
Enquanto caminhavam, Madalgis falava com a energia nervosa
que se segue frequentemente a um grande susto. Joana e Benjamim ficaram a saber toda a sua triste história. Apesar de parecer pobre, ela não era nenhuma colona, mas sim uma mulher livre cujo marido tinha obtido o título de independência a troco de uma herdade com cerca de doze hectares. Após a sua morte, ela tentou sustentar a família trabalhando ela própria na terra, mas este esforço heróico tinha sido truncado abruptamente pelo seu vizinho, o senhor Rathold, que cobiçava a próspera propriedade. O senhor Rathold tinha chamado a atenção do abade Rábano para os trabalhos de Madalgis, que a proibiu, sob pena de excomunhão, de voltar a fazer fosse o que fosse.
— É sacrilégio uma mulher fazer o trabalho de um homem —
tinha-lhe dito ele.
Para não morrer à fome, Madalgis viu-se obrigada a vender a
propriedade e a sua casa ao senhor Rathold por muito menos do que ela valia, recebendo em troca apenas alguns soldos e uma pequena cabana numa povoação próxima, com um pedacinho de pastagem para as suas vacas.
Ela tinha começado a fazer queijo, assim, tinha conseguido
garantir uma subsistência mínima, trocando os frutos do seu trabalho por outra comida e outras coisas necessárias.
Quando avistou a sua casa, Madalgis gritou de contentamento e
correu à frente, desaparecendo rapidamente no seu interior.
Joana e o irmão Benjamim entraram alguns minutos mais tarde e
descobriram-na quase submersa por uma confusão de crianças, todas rindo, chorando e falando ao mesmo tempo. Ao verem os dois monges entrar, as crianças gritaram assustadas e rodearam Madalgis para a protegerem, temendo que ela lhes fosse levada.
Madalgis falou com eles e eles voltaram a sorrir, apesar de
observarem os dois estranhos com curiosidade.
Entrou uma mulher com dois bebés ao colo. Fez uma vénia
respeitosa aos dois monges, depois, apressou-se a entregar uma das crianças a Madalgis, que lhe pegou, alegremente, e lhe deu o peito, que ela começou a sugar esfomeada. A outra mulher parecia uma senhora de mais de cinquenta anos, mas Joana reparou que, embora a sua face estivesse marcada pelas preocupações, não era assim tão velha — talvez não tivesse mais de vinte e nove ou trinta anos.
Ela tem amamentado o bebé de Madalgis juntamente com o seu,
compreendeu Joana. Reparou, com pena, no peito caído e no abdómen inchado da mulher e no tom pálido pouco saudável da sua pele. Joana já tinha visto aqueles sintomas: as mulheres tinham frequentemente o primeiro filho com treze ou catorze anos e, daí para a frente, viviam num estado de gravidez permanente, trazendo ao mundo um bebé atrás de outro com uma regularidade terrível. Não era raro uma mulher ter vinte ou trinta gravidezes durante a sua vida — apesar de, inevitavelmente, algumas terminarem rapidamente em aborto.
Quando uma mulher chegava à mudança de idade — se é que
vivia até lá chegar porque o parto implicava riscos consideráveis — o seu corpo estava gasto, o seu espírito abatido pela exaustão. Joana tomou nota mentalmente para não se esquecer de fazer um tónico de raiz de carvalho e de salva para fortalecer a mulher contra o Inverno que se aproximava.