A Papisa Joana

Donna Woolfolk Cross · Capítulo 8 de 9 · parte 1/4

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A Papisa Joana

Capítulo 22 · Geraldo suspirou de alívio quando desceu, juntamente com os seus

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

homens, a última encosta do Monte Cenis. Com os Alpes atrás deles, a parte pior da viagem já estava terminada. A Via Francigena estendia-se à frente deles, abençoadamente plana e bem conservada, uma vez que ainda mantinha o seu velho pavimento em pedra, lançado pelos romanos em tempos imemoráveis.

Geraldo pôs o cavalo a trote. Talvez agora conseguissem recuperar

o tempo que tinham perdido. Um nevão fora da época tinha tornado a estreita passagem alpina extremamente perigosa, tinham morrido dois homens quando as suas montadas perderam o pé no chão escorregadio, levando os cavalos e os cavaleiros à morte. Geraldo tinha-se visto forçado a parar até as condições melhorarem, o atraso aumentara ainda mais a distância entre eles e a vanguarda do exército imperial, que, agora, já devia estar próximo de Roma.

Não importava, Lothar não iria sentir a sua falta. Esta divisão da

retaguarda era constituída apenas por duzentos homens — senhores e pequenos latifundiários que tinham chegado tarde à inspecção primaveril, no Campo de Marte. Era um comando insultuoso para um homem da envergadura de Geraldo.

Nos três anos seguintes à Batalha de Fontenoy, a relação de

Geraldo com o imperador Lothar ia de mal a pior. Lothar tinha-se tornado cada dia mais tirânico, fazendo-se rodear de seguidores bajuladores que passavam a vida a lisonjeá-lo. Ele não tinha qualquer tolerância para súbditos como Geraldo, que continuavam a manifestar as suas opiniões de forma honesta — como, por exemplo, quando ele o tinha desaconselhado da presente expedição romana.

— As nossas tropas são necessárias na costa da Frígia — tinha

argumentado Geraldo —, para nos defenderem dos normandos. Os seus ataques estão a tornar-se cada vez mais frequentes e destrutivos.

Era verdade. No ano anterior, os normandos tinham atacado São

Wandrille e Utreque, na Primavera anterior tinham navegado pelo Sena e tinham queimado Paris! Isto tinha provocado uma onda de terror por toda a região rural. Se uma cidade tão grande como Paris, no coração do império, não estava a salvo dos bárbaros, então, nenhum lugar estava.

Mas, a atenção de Lothar estava concentrada em Roma, que se

tinha atrevido a proceder à consagração do papa Sérgio sem pedir primeiro a sua aprovação imperial — uma omissão que Lothar tomou como uma afronta pessoal.

— Mandai um emissário a Sérgio, manifestando-lhe o vosso

desagrado real — aconselhou-o Geraldo. — Castigai os romanos recusando-lhes o pagamento da feoh de Roma. Mas, deixai ficar aqui os nossos combatentes, onde eles são necessários.

Lothar tinha ficado furioso com este desafio à sua autoridade. Em

retaliação, tinha atribuído a Geraldo o comando desta divisão de retaguarda.

Tinham evoluído bem em terreno pavimentado, fazendo quase

quarenta milhas antes do anoitecer, mas não tinham passado por uma única cidade ou vila. Geraldo já se tinha resignado a passar outra noite ao relento, deitado à beira da estrada, quando viu uma espiral de fumo erguer-se acima das copas das árvores.

Deo gratias! Havia uma aldeia mais adiante, ou, pelo menos, um

povoado qualquer. Agora, Geraldo e os seus homens estavam certos de conseguirem passar a noite dormindo confortavelmente. Ainda não tinham entrado em território papal; o Reino da Lombardia, que eles atravessavam, era território imperial e a hospitalidade exigia que os viajantes fossem bem recebidos — se não dando-lhes camas dentro de casa, pelo menos, no feno, em estábulos quentes e secos.

Fizeram uma curva e viram que o fumo não vinha de nenhuma

fogueira de boas-vindas, mas sim das ruínas de casas completamente destruídas pelo fogo, que ainda fumegavam. Devia ter sido uma povoação próspera; Geraldo contou quinze edifícios em ruínas. O fogo devia ter sido ateado por alguma faúlha de uma lâmpada ou fogueira deixada ao descuido; estas calamidades não eram raras quando as casas eram de madeira e de feno.

Passando pelas casas fumegantes, Geraldo lembrou-se de Villaris.

O seu aspecto era semelhante naquele dia, havia muito tempo, que ele tinha regressado, encontrando tudo queimado pelos normandos.

Lembrou-se de ter procurado Joana entre os destroços, ao mesmo

tempo que tinha receado encontrá-la. Era espantoso — tinham-se passado quinze anos desde a última vez em que a tinha visto, mas a sua imagem estava gravada na sua mente como se tivesse sido na véspera: o caracol de cabelo dourado que lhe caía para a testa, a voz profunda e melodiosa, os olhos verde-acinzentados profundos, muito mais maduros do que a sua idade.

Esforçou-se por afastar aquele pensamento. Algumas coisas eram

insuportavelmente dolorosas.

Uma milha para além da povoação destruída, junto ao cruzeiro

que marcava o local onde convergiam duas estradas, estava uma mulher e cinco crianças andrajosas a pedir esmola. Quando Geraldo e os seus homens se aproximaram, a pequena família fugiu, assustada.

— Paz para vós, boa mãe — tranquilizou-a Geraldo. — Não vos

vamos fazer mal.

— Tendes comida, senhor? — perguntou ela. — Para as crianças? Quatro crianças correram para Geraldo, com as mãos estendidas,

num pedido mudo, com os pequeninos rostos fechados marcados pela fome. A quinta, uma rapariga bonita, de cabelo escuro, com cerca de treze anos de idade, ficou para trás, agarrando-se à mãe.

Geraldo tirou do seu alforje o quadrado de pele de carneiro

ensebada onde guardava a sua ração para os dias seguintes.

Restava-lhe um bom pedaço de pão, uma barra de queijo e um

pouco de carne de veado seca. Começou a partir a fatia de pão ao meio, depois, viu as crianças a olharem. Ora, só faltam alguns dias para chegarmos a Roma; posso ir buscar biscoitos ao carro de mantimentos, pensou ele, dando-lhes o embrulho todo.

Com um grito de alegria, as crianças caíram em cima da comida

como um bando de pássaros esfomeados.

— Sois da vila? — perguntou Geraldo à mulher, apontando para a

ruína fumegante atrás dele.

A mulher acenou afirmativamente.

— O meu marido é moleiro.

Geraldo escondeu a sua surpresa. A figura andrajosa diante dele

parecia tudo menos a esposa de um moleiro próspero.

— O que aconteceu?

— Há três dias, depois da sementeira da Primavera, vieram os

soldados. Os homens do imperador. Disseram que tínhamos de jurar fidelidade a Lothar ou que morreríamos imediatamente às suas espadas. Por isso, jurámos.

Geraldo abanou a cabeça. As dúvidas de Lothar acerca desta parte

da Lombardia não eram inteiramente infundadas porque era uma região que tinha sido acrescentada ao Império havia relativamente pouco tempo. Tinha sido adquirida pelo avô de Lothar, o grande imperador Carlos.

— Se fizestes o juramento — perguntou ele — porque foi

destruída a vossa aldeia?

— Eles não acreditaram em nós. Chamaram-nos mentirosos e

atiraram tochas para os nossos telhados. Quando tentámos apagar os fogos, eles impediram-nos, de espada na mão. Também deitaram fogo ao nossos armazéns de cereais, apesar de nós termos suplicado que não o fizessem, por causa das crianças.

Eles riram-se e chamaram-nos filhos de traidores, que mereciam

morrer à fome.

— Vilões! — exclamou Geraldo, furioso.

Tinha tentado muitas vezes convencer Lothar de que ele não ia

conseguir ganhar a lealdade dos súbditos através da força, mas sim através de um tratamento justo e do governo pela lei.

Como costume, as suas palavras tinham caído em ouvidos surdos. — Levaram os homens todos — continuou a mulher — excepto os

mais novos e os mais velhos. O imperador foi para Roma, segundo disseram, e precisava de homens para engrossar as tropas apeadas.

Começou a chorar.

— Levaram o meu marido e dois dos meus filhos — o mais novo

só tem onze anos!

Geraldo franziu o sobrolho. As coisas tinham chegado a uma triste

situação quando Lothar precisava de crianças para combaterem nas suas batalhas.

— Meu senhor, o que significa isto? — perguntou a mulher,

ansiosa. — O imperador vai atacar a Cidade Santa?

— Não sei.

Até àquele momento, Geraldo pensava que Lothar apenas queria

intimidar o papa Sérgio e os romanos, demonstrando-lhes o seu poder. Mas, a destruição daquela aldeia era um mau augúrio, com um estado de espírito tão vingativo, Lothar era capaz de tudo.

— Vinde, boa mãe — disse Geraldo. — Levar-vos-emos connosco

para a próxima cidade. Isto não é um local seguro para vós e para os vossos filhos.

Ela abanou a cabeça com determinação.

— Eu não saio daqui. Como me irão encontrar o meu marido e os

meus filhos, quando voltarem?

Se voltarem, pensou Geraldo, sombriamente. E disse para a

rapariga de cabelo negro.

— Dizei à vossa mãe que venha connosco, por causa dos

pequenos.

A rapariga ficou muda a olhar para Geraldo.

— Ela não pretende ser mal educada, senhor — desculpou-se a

mãe. — Ela respondia se pudesse, mas não pode falar.

— Não pode falar? — perguntou Geraldo, admirado. A rapariga parecia saudável e não dava sinais de ser atrasada. — Cortaram-lhe a língua.

— Meu Deus!

A perda da língua era um castigo comum para ladrões e outros

larápios que não obedeciam com a rapidez desejada à justiça legal. Mas, esta jovem inocente não era, certamente, culpada de nenhum crime.

— Quem fez isso? Certamente, não foi...

A mulher abanou a cabeça, tristemente.

— Os homens de Lothar serviram-se dela, depois, cortaram-lhe a

língua para que ela não os pudesse acusar desse acto vergonhoso.

Geraldo estava petrificado. Estas atrocidades seriam de esperar de

pagãos como os normandos ou os sarracenos — não dos soldados do imperador, defensores da lei e da ordem cristã.

Geraldo deu uma ordem bruscamente. Os seus homens dirigiram-

se às carruagens e pegaram num saco de biscoitos e num pequeno barril de vinho, que colocaram no chão diante da pequena família.

— Deus vos abençoe — disse a mulher do moleiro, sentidamente. — E a vós, boa mãe — disse Geraldo.

Seguiram caminho, passando por outras povoações saqueadas e

desertas, ao longo do caminho. Lothar tinha deixado destruição atrás de si por todos os lugares por onde tinha passado.

Fidelis adjutor. Como súbdito fiel da coroa imperial, Geraldo

estava obrigado, por honra, a servir o imperador com fidelidade. Mas, que honra existia em servir um selvagem como Lothar? O desrespeito com que o Imperador infringia a lei e todos os outros padrões de decência humana certamente varriam o vínculo da obrigação.

Geraldo levaria esta retaguarda do exército imperial até Roma,

como tinha prometido. Mas, dali para a frente, estava determinado a abandonar para sempre o serviço do tirano Lothar.

Depois de Nepi, a estrada piorou. O caminho amplo, sólido e

plano deu lugar a uma estrada estreita e deteriorada, cheio de buracos e de precipícios.

O pavimento romano tinha desaparecido, as velhas pedras tinham

sido retiradas para serem utilizadas noutras construções — de facto, naqueles dias negros, era raro encontrar materiais de construção tão fortes como aqueles. Geraldo viu marcas da passagem de Lothar na terra escura, sulcada por grande quantidade de marcas de carruagens e de cavalos. Tinham de ter cuidado adicional com os cavalos, para não os ferirem com um passo mal dado.

Durante a noite, uma chuva intensa transformou a estrada num

mar de lama intransponível. Em vez de fazer outra paragem, Geraldo decidiu cortar o caminho pelo meio do mato e seguir pela Via Palestrina, que os levaria até Roma através da porta oriental, de São João.

Cavalgaram rapidamente através de prados verdejantes e

aromáticos de giestas e de florestas em flor, com as folhas de um verde-dourado primaveril. Emergindo de um canteiro de arbustos densos, encontraram, de repente, um grupo de cavaleiros escoltando uma pesada carruagem puxada por quatro cavalos.

— Saudações — disse Geraldo, dirigindo-se ao homem que

parecia ser o seu chefe, um tipo moreno com olhos pequenos e papudos. — Podeis dizer-nos se vamos na direcção da Via Palestrina?

— Ides — respondeu o homem e virou-se para seguir caminho. — Se vos dirigis para a Via Flaminia — disse Geraldo — é

melhor pensardes melhor. A estrada está destruída, o vosso carro partirá os eixos a menos de dez jardas de caminho.

O homem disse:

— Não vamos para lá.

Era curioso. Para além da estrada, não havia nada naquela

direcção, a não ser campo deserto.

— Onde ides? — perguntou Geraldo.

— Já vos disse o que precisáveis de saber — retorquiu o homem.

— Segui caminho e deixai um honesto mercador fazer o seu negócio.

Não havia nenhum mercador vulgar que se dirigisse a um senhor

de forma tão arrogante. Geraldo ficou ainda mais desconfiado.

— Qual é o vosso negócio? — perguntou Geraldo, aproximando-

se do carro. — Talvez tenhais algo que eu esteja interessado em comprar.

— Afastai-vos — gritou o homem.

Geraldo retirou a cobertura do carro e o seu conteúdo ficou à

mostra: uma dúzia de cofres em bronze presos por uma corrente em ferro, cada um deles com a marca distinta das insígnias papais.

Homens do Papa, pensou Geraldo. Devem ter sido mandados sair

da cidade para transportarem o tesouro papal para fora do alcance de Lothar.

Pensou em aprisionar o tesouro e de o levar de volta a Lothar. Mas, pensou: Não. Os romanos que salvem o que puderem. O

papa não daria, certamente, melhor uso ao dinheiro do que Lothar, que se serviria dele apenas para financiar mais campanhas militares brutais e sangrentas. Estava prestes a partir, quando um dos romanos saltou do cavalo e se mostrou diante dele.

— Piedade, senhor! — gritou ele. — Poupai-nos! Não podemos

morrer sem absolvição, com o peso deste grande crime sobre as nossas cabeças.

— Crime? — repetiu Geraldo.

— Tento na língua, louco!

O chefe esporeou o cavalo e teria pisado o outro, se Geraldo não o

houvesse interceptado com a espada desembainhada. Os homens de Geraldo desembainharam imediatamente as suas espadas e cercaram os romanos, que, vendo como estavam em tão grande desvantagem, mantiveram, sensatamente, as suas espadas embainhadas.

— A culpa é de Bento! — disse o homem que estava no chão,

numa explosão de fúria vingativa. — A ideia de roubar o dinheiro foi dele, não foi nossa!

Roubar o dinheiro?

O homem a quem tinham chamado Bento falou num tom firme. — Não tenho contenda convosco, senhor, nem as nossas

questiúnculas vos dizem respeito. Deixai-nos passar em paz e, em sinal da nossa gratidão, podeis ficar com um dos cofres. — Sorriu para Geraldo com um ar cúmplice. — Têm ouro suficiente para vos tornar um homem rico.

A oferta e a maneira como ela foi feita não davam margem para

dúvidas.

— Prendei-o — ordenou Geraldo. — E aos outros também. Vamos

levá-los e aos cofres para Roma.

O triclinium estava iluminado com a luz de centenas de archotes.

Havia uma falange de criados por trás da mesa à qual se sentava o papa Sérgio, ladeado pelos altos dignitários da cidade: os padres de cada uma das sete regiões de Roma, à sua esquerda, os seus parceiros temporais, os sete defensores, à sua direita. Perpendicularmente a esta mesa e tão grande como ela, estava outra, à qual estavam sentados, em lugar de honra, Lothar e a sua comitiva. O resto da companhia, cerca de duzentos homens, estava sentada em bancos de madeira, à frente de longas mesas, no centro da sala. Pratos, jarros, copos e comensais amontoavam-se em torno das mesas, com as roupas já cheias de marcas de inúmeros pingos e nódoas.

Como não era nem quarta, nem sexta-feira, nem qualquer outro

dia de jejum, a refeição não se confinou a pão e peixe, mas incluía também carne de vaca e de outros animais. Mesmo para a mesa do Papa, era um repasto extraordinário: havia pratos de capões com molho branco e ornamentados com romãs e carnes suculentas, terrinas de sopa, cheias com pedaços tenros de coelho e de galinholas mergulhadas num creme espesso, que largava um aroma intenso, geleia de caranguejo e de lagosta, leitões inteiros barrados com gordura e grandes bandejas de veado assado, cabrito, pombo e ganso. No meio da mesa de Lothar, estava um cisne cozinhado e disposto de maneira que parecia estar vivo, com o seu bico e corpo prateados sobre uma massa de verduras, colocadas de forma a parecerem ondas do mar.

Sentada a uma das mesas no centro da sala, Joana olhava,

preocupada, para a cena extravagante. Aquelas delícias podiam tentar Sérgio a excessos.

— Um brinde! — O conde de Mâcon, sentado ao lado de Lothar,

levantou o seu copo. — À paz e amizade entre os nossos dois povos cristãos!

— Paz e amizade! — repetiram todos em coro e esvaziaram os

seus copos. Os criados apressaram-se a encher novamente os copos, ao longo da mesa.

Seguiu-se uma quantidade de brindes. Quando, finalmente, já não

tinham assunto para prestar uma homenagem líquida, começou o festim.

Joana olhava alarmada, vendo Sérgio comer e beber

despreocupadamente. Os seus olhos começaram a inchar, o seu discurso a ficar entaramelado, a sua pele a escurecer terrivelmente. Naquela noite, ela ia ter de lhe dar uma dose forte de cólquico para prevenir outro ataque de gota.

As portas do triclinium abriram-se e um grupo de guardas entrou.

Desviando-se, para evitarem os inúmeros servos que deambulavam pela sala, trazendo e levando pratos, os guardas encaminharam-se para o fundo da sala. Fez-se um silêncio súbito, quando os convidados se calaram e viraram a cabeça para verem qual a causa desta extraordinária intrusão. Este silêncio foi seguido por um murmúrio de surpresa, quando viram o homem que entrou no meio de soldados, com as mãos atadas e de olhos baixos: Bento.

Os círculos bem-humorados do rosto de Sérgio desapareceram-lhe

do rosto, como ampolas que se tivessem esvaziado.

— Tu! — gritou ele.

Tarasius, o chefe dos guardas, disse:

— Um grupo de francos encontrou-o no campo. Ele tinha o

tesouro consigo.

Bento tinha tido muito tempo na viagem de regresso a Roma para

pensar no que ia dizer. Não podia negar que tinha levado o tesouro, uma vez que tinha sido apanhado com ele. Nem tinha conseguido pensar numa desculpa plausível para o que tinha feito, apesar de ter espremido o cérebro a pensar. Acabou por decidir que a melhor coisa a fazer seria implorar misericórdia do irmão. Sérgio tinha um coração bom — uma fraqueza que Bento desprezava, apesar de esperar conseguir utilizá-la para seu proveito.

Caiu de joelhos, levantando os braços na direcção do irmão. — Perdoa-me, Sérgio. Pequei e arrependo-me humilde e

sinceramente.

Mas, Bento não tinha contado com o efeito do vinho no

temperamento do seu irmão. O rosto de Sérgio contorceu-se, ao mesmo tempo que se enfurecia inesperadamente.

— Traidor! — gritou ele. — Vilão! Ladrão!

Cada palavra era acompanhada de um murro violento em cima da

mesa, que fazia os pratos saltarem.

Bento empalideceu.

— Irmão, peço-te...

— Levai-o! — ordenou Sérgio.

— Para onde havemos de o levar, Santidade? — perguntou

Tarasius.

A cabeça de Sérgio andava à roda, tinha dificuldade em pensar. Só

sabia que tinha sido traído e que queria vingar-se para o ferir como ele o tinha ferido.

— É um ladrão! — disse ele, amargamente. — Que seja castigado

como um ladrão!

— Não! — Bento gritava, à medida que os guardas o agarravam. — Sérgio! Irmão!

As últimas palavras ficaram a ecoar, quando ele foi levado da sala. Sérgio empalideceu e deixou-se cair na cadeira. A cabeça pendeu-

lhe para trás, os olhos reviraram, os seus braços e as suas pernas começaram a tremer descontroladamente.

— É mau olhado! — gritou alguém. — Bento enfeitiçou-o!

Os convidados gritavam consternados, benzendo-se para se

protegerem contra as obras do demónio. Joana correu entre os bancos cheios de gente, apressando-se a chegar ao pé de Sérgio. O seu rosto estava azul. Ela pegou-lhe na mão e abriu-lhe os maxilares cerrados. Tinha a língua enrolada, bloqueando a passagem do ar. Pegando numa faca que estava em cima da mesa, Joana introduziu a lâmina dentro da boca de Sérgio, fazendo-a deslizar até à língua enrolada. Depois, puxou. Ouviu-se um ruído seco, quando a língua se desenrolou.

Sérgio tossiu e começou a respirar novamente. Joana fez pressão

com a faca, mantendo a abertura livre. Pouco depois, o paroxismo tinha desaparecido. Com um gemido surdo, Sérgio desmaiou.

— Levai-o para a cama — ordenou ela. Vários servos levantaram

Sérgio da sua cadeira e levaram-no pela porta, com a multidão apinhada, cheia de curiosidade.

— Deixai passar! Deixai passar! — gritou Joana, enquanto

levavam o Papa inconsciente para fora da sala.

Quando chegaram ao seu quarto, Sérgio estava consciente. Joana deu-lhe mostarda preta misturada com genciana para ele

vomitar.

Depois, ele melhorou bastante. Ela deu-lhe uma dose forte de

cólquico para ficar mais segura, misturando-a com sumo de papoila, para ele dormir melhor.

— Ficará a dormir até amanhã — disse ela a Arighis. Arighis abanou a cabeça.

— Pareceis estar exausto.

— Estou bastante cansado — admitiu Joana. Tinha sido um longo

dia e ela ainda não tinha recuperado completamente das semanas que tinha passado no calabouço.

— Enódio e outros da sociedade dos médicos estão à espera lá

fora... Querem interrogar-vos sobre a recaída de Sua Santidade.

Joana suspirou. Não lhe apetecia enfrentar uma barreira de

perguntas hostis, mas, segundo parecia, não havia nada a fazer. Dirigiu-se, penosamente, para a porta.

— Só um momento — Arighis fez-lhe sinal para o seguir para o

outro lado da sala, afastou uma das tapeçarias e empurrou a parede.

Esta deslizou lateralmente, deixando uma passagem aberta com

cerca de dois pés e meio de largura.

— Mas, o que é isto — admirou-se Joana.

— Uma passagem secreta — explicou Arighis. — Construída nos

dias dos imperadores pagãos — para o caso de eles precisarem de se escapar depressa aos seus inimigos. Agora, liga o quarto do Papa à capela privada para que o Apostólico possa entrar e rezar a qualquer hora do dia ou da noite, sem ser perturbado. Vinde. — Ergueu a vela e passou. — Assim, podeis evitar aquela matilha de chacais, pelo menos esta noite.

Joana ficou sensibilizada por causa de Arighis ter partilhado com

ela o conhecimento da passagem secreta, era sinal de que a confiança e o respeito crescia entre ambos.

Desceram um lance de escadas em caracol, que terminava diante

de uma parede na qual se encontrava uma alavanca em madeira.

Arighis abaixou-a e a parede moveu-se, abrindo uma passagem. Joana escapou-se por ela e o vicedominus voltou a accionar a

alavanca. A abertura desapareceu, não deixando qualquer traço da sua existência.

Estava atrás de uma coluna em mármore, ao fundo da capela

privada do Papa, o Sanctum Sanctorum. Ouviam-se vozes perto do altar. Isto era inesperado, não era suposto estar ali alguém àquela hora da noite.

— Há quanto tempo, Anastácio — disse uma voz, com um

sotaque forte, que ela reconheceu ser a de Lothar.

Ele tinha chamado Anastácio ao outro, devia ser o bispo de

Castellum. Era óbvio que os dois homens se tinham retirado para a capela para falarem em particular. Não ficariam contentes em descobrir um intruso.

O que hei-de fazer?, pensou Joana. Se tentasse escapar

sorrateiramente pela porta da capela, eles podiam vê-la.

Também não podia regressar ao quarto do Papa, a alavanca que

controlava a passagem secreta estava do outro lado da parede.

Tinha de ficar escondida até que o encontro terminasse e ambos os

homens se fossem embora. Depois, podia escapar-se da capela sem ser vista.

— Muito preocupante, o ataque de Sua Santidade esta noite —

disse Lothar.

Anastácio respondeu:

— O Apostólico está muito doente. Pode não sobreviver mais do

que um ano.

— Uma grande tragédia para a Igreja.

— Muito grande — concordou Anastácio delicadamente. — O seu sucessor deve ser um homem de poder e de visão —

disse Lothar —, um homem que seja capaz de compreender melhor... o entendimento histórico entre os nossos dois povos.

— Tendes de usar toda a vossa influência, senhor, para garantir

que o próximo Pontífice seja um homem assim.

— Não quereríeis dizer... um homem como vós? — Tendes razão para desconfiar de mim, Senhor? Certamente o

serviço que vos prestei em Colmar provou a minha lealdade acima de suspeita.

— Talvez — disse Lothar, num tom descomprometido. — Mas, os

tempos mudam e os homens também. Agora, senhor bispo, a vossa lealdade vai voltar a ser posta à prova. Apoiareis o juramento, ou não?

— O povo terá relutância em jurar-vos fidelidade, senhor, depois

dos prejuízos que o vosso exército provocou na província.

— A vossa família tem poder para modificar isso — respondeu

Lothar. — Se vós e o vosso pai, Arsénio, jurardes, os outros imitar-vos-ão.

— O que me pedis é muito. Exige algo muito grande em resposta. — Eu sei.

— Um juramento não passa de palavras. O povo precisa de um

papa que seja capaz de o guiar para o velho caminho, — para o Império Franco, e para vós, meu senhor.

— Não me ocorre ninguém melhor do que vós para o fazer,

Anastácio. Farei tudo o que está no meu poder para que sejais o próximo Papa.

Houve uma pausa. Depois, Anastácio disse:

— O povo jurará, Senhor. Eu certificar-me-ei disso. Joana sentiu uma onda de fúria. Lothar e Anastácio tinham

acabado de negociar o papado como um par de mercadores num bazar. Em troca dos privilégios do poder, Anastácio tinha concordado em entregar Roma ao controlo do imperador franco.

Bateram à porta e o servo de Lothar entrou.

— Chegou o conde, senhor.

— Mandai-o entrar. O bispo e eu já terminámos o nosso assunto. Entrou um homem, vestido com a brunia de um soldado. Era alto e

elegante, com um longo cabelo ruivo e olhos azuis.

Geraldo.

 

Capítulo 23

Dos lábios de Joana soltou-se um grito de surpresa... — Quem está aí? — perguntou Lothar, num tom seco. Joana saiu lentamente de detrás da coluna. Lothar e Anastácio

olharam para ela, espantados.

— Quem sois vós? — perguntou Lothar.

— João Anglicus, meu senhor. Padre e médico de Sua Santidade,

o papa Sérgio.

Lothar perguntou, desconfiado:

— Há quanto tempo estais aí?

Joana pensou rapidamente.

— Há algumas horas, Senhor. Vim rezar pelas melhoras de Sua

Santidade. Devo estar mais cansado do que pensava porque adormeci e acabei de acordar agora.

Lothar olhou para ela, desconfiado. Era mais provável que o

padrezinho tivesse sido apanhado na capela quando Anastácio e ele tinham entrado. Não havia por onde fugir, nem onde se esconder. Mas, não importava. Quanto teria ele ouvido e, mais importante ainda, quanto teria compreendido? Pouco. O homem não oferecia perigo, era óbvio que era insignificante. A melhor coisa a fazer era ignorá-lo.

Anastácio tinha chegado a uma conclusão diferente. Era óbvio que

João Anglicus tinha estado a escutar. Mas, porquê? Seria um espião? Não a mando de Sérgio, certamente, porque o Papa não era engenhoso a ponto de utilizar espiões. Mas, se não era a mando dele, então, era a mando de quem? E porquê? Anastácio decidiu que a partir dali o padrezinho estrangeiro passaria a ser vigiado.

Geraldo também observava Joana com curiosidade. — Pareceis-me conhecido, Padre — disse ele. — Já nos

encontrámos?

Ele procurava descortinar as suas feições à luz fraca. Subitamente, a sua expressão mudou, ficou a olhar como alguém

que tivesse acabado de ver um fantasma:

— Meu Deus — disse ele, chocado. — Não pode ser... — Conheceis-vos — perguntou Anastácio.

— Conhecemo-nos em Dorstadt — respondeu Joana, rapidamente.

— Eu estudei na escola da catedral durante alguns anos, a minha irmã — enfatizou um pouco a palavra — ficou com o conde e a sua família durante esse tempo.

Os seus olhos transmitiram a Geraldo uma mensagem urgente:

Não direis nada.

Geraldo recuperou a sua postura.

— Claro — disse ele. — Lembro-me muito bem da vossa irmã. Lothar interrompeu, impaciente:

— Basta. O que vindes dizer-me, Conde?

— A minha mensagem é para ser ouvida apenas por vós, meu

senhor.

Lothar acenou com a cabeça:

— Muito bem. Os outros podem sair. Voltaremos a falar,

Anastácio.

Quando Joana se virou para sair, Geraldo tocou-lhe no braço. — Esperai por mim. Quero saber mais de... da vossa irmã. À saída da capela, Anastácio seguiu o seu caminho. Joana esperou

nervosamente sob o olhar sinistro do pajem de Lothar.

A situação era extremamente perigosa, uma palavra em falso e a

sua identidade podia ser revelada. Devia ir-me embora, agora, antes que Geraldo saia, pensou ela. Mas, desejava vê-lo. Ficou ali, agarrada por uma mistura complexa de medo e de expectativa.

A porta da capela abriu-se e Geraldo apareceu. — Então, és tu: — disse ele, admirado. — Mas, como... O criado olhava para eles com curiosidade.

— Eu, não — disse Joana.

Levou-o para uma salinha onde guardava os seus medicamentos e

as suas ervas. Lá dentro, acendeu as lâmpadas de óleo de papoila, a sua chama avivou-se, rodeando-os num círculo íntimo de luz.

Ficaram a olhar um para o outro, maravilhados com a

redescoberta. Geraldo tinha mudado nos quinze anos em que Joana tinha estado sem o ver, o espesso cabelo ruivo estava raiado de cinzento e havia rugas em torno dos olhos azuis e da grande boca sensual — continuava a ser o homem mais belo que ela já tinha visto. Ao olhar para ele, o seu coração começou a bater mais depressa.

Geraldo aproximou-se dela. Caíram nos braços um do outro, num

abraço tão apertado que Joana sentia as malhas de metal da cota de Geraldo através da sua grossa veste de padre.

— Joana — murmurou Geraldo. — Minha querida, minha pérola.

Nunca pensei voltar a ver-te.

— Geraldo — a palavra varria qualquer pensamento razoável. Os dedos de Geraldo tocaram suavemente na cicatriz da face

esquerda de Joana.

— Os normandos?

— Sim.

Ele inclinou-se e beijou-a delicadamente, encostando os lábios

quentes à sua face.

— Então, eles apanharam-te... a ti e à Gisla?

Gisla. Geraldo nunca poderia vir a saber, ela nunca lhe poderia

contar o horror por que a sua filha mais velha tinha passado.

— Eles apanharam a Gisla. Eu... eu consegui escapar. Ele estava espantado.

— Como? E para onde? Os meus homens e eu esquadrinhámos o

campo, à tua procura, mas não te encontrámos.

Ela contou-lhe resumidamente o que se tinha passado — tanto

quanto era possível numa circunstância tão rápida e limitada: a sua fuga para Fulda e a sua entrada como João Anglicus, o momento em que a sua identidade quase tinha sido descoberta e a fuga da abadia, a sua peregrinação para Roma e a subsequente ascensão e posição de médica do Papa.

— E durante todo este tempo — disse Geraldo, lentamente,

quando ela terminou —, nunca pensaste em me mandar notícias tuas?

Joana apercebeu-se da dor e da ironia na sua voz. — Eu... eu não pensei que me quisesses. Richild disse que a ideia

de me casar com o filho do ferreiro tinha sido tua, que tu lhe tinhas pedido que ela tratasse de tudo.

— E tu acreditaste nela? — libertou-a abruptamente. — Meu

Deus, Joana, pensava que me conhecias melhor!

— Eu... eu não sabia o que pensar. Tu tinhas partido, eu não sabia

bem porquê. E Richild sabia... de mais, daquilo que tinha acontecido na margem do rio. Como poderia ela saber, se tu não lhe tivesses contado!

— Não sei. Só sei que te amava como nunca amei ninguém

antes... nem depois. — A sua voz apertou-se. — Quase esgotei a Pistis no caminho para casa, ansioso por ver Villaris porque tu estavas lá, e eu estava louco de impaciência para te ver... para te pedir para seres minha mulher.

— Tua mulher? — Joana estava estupefacta. — Mas... Richild...? — Aconteceu qualquer coisa enquanto eu estive ausente... algo

que me ajudou a ver como o meu casamento era vazio, como tu eras vital para a minha felicidade. Eu ia voltar para te dizer que queria divorciar-me de Richild e casar contigo, se tu me quisesses.

Joana abanou a cabeça.

— Tantos mal-entendidos — disse ela, tristemente. — Tantas

coisas que correram mal.

— Tantas coisas para recompensar.

Ele puxou-a para si e beijou-a. Foi como se tivessem chegado uma

vela a uma placa de cera, derretendo aquilo que os anos tinham escrito. Estavam de novo juntos na margem do rio por trás de Villaris, ao sol primaveril, jovens e estonteados pelo amor recém-descoberto.

Depois de um bocado, ele libertou-a.

— Ouve, meu coração — disse ele, suavemente. — Eu vou

abandonar o serviço de Lothar. Acabei de lho dizer na capela.

— E ele concordou em libertar-te?

Lothar não parecia ser homem para desobrigar alguém do seu

serviço voluntariamente.

— Ao princípio, foi difícil, mas acabei por conseguir convencê-lo.

A minha liberdade teve um preço, tive de entregar Villaris com todas as suas propriedades. Já não sou um homem rico, Joana, mas, tenho a força dos meus dois braços e amigos que me apoiarão. Um deles é Siconulf, príncipe de Benevento, com quem fiz amizade quando servimos juntos na campanha do imperador contra os obodritas. Ele precisa de homens bons junto dele porque está a ser muito pressionado pelo seu rival Radelchis. Vens comigo, Joana? Queres ser minha mulher?

Passos enérgicos do lado de fora da porta separaram-nos. Alguns momentos depois, a porta abriu-se e uma cabeça espreitou.

Era Florintinus, um dos notários do palácio.

— Ah! — disse ele. — Estais aqui, João Anglicus! Procurei-vos

por todo o lado. — Olhou atentamente para Joana e para Geraldo, depois, novamente para Joana. — Estou... estou a interromper alguma coisa?

— De modo nenhum — apressou-se Joana a dizer. — Em que vos

posso ser útil, Florintinus?

— Tenho uma dor de cabeça terrível — disse ele. — Será que

podeis preparar um dos vossos paliativos?

— Com todo o gosto — respondeu Joana delicadamente.

Florintinus esgueirou-se pela porta, trocando algumas palavras

com Geraldo, enquanto Joana preparava rapidamente uma mistura de folhas de violeta e de salgueiro, mergulhando-as numa chávena de chá de rosmaninho. Deu-a a Florintinus e ele voltou a sair.

— Não podemos falar aqui — disse ela a Geraldo, mal ele saiu. —

É demasiado perigoso.

— Quando posso voltar a ver-te? — perguntou Geraldo

ansiosamente.

Joana pensou.

— Há um Templo de Vesta na Via Ápia, mesmo à saída da cidade.

Encontramo-nos lá amanhã depois da terça.

Ele tomou-a nos braços e beijou-a de novo, tão docemente como

da primeira vez, depois, com uma intensidade que a encheu de um desejo ardente.

— Até amanhã — sussurrou ele.

Depois, saiu, deixando a cabeça de Joana estonteada por uma

mistura de emoções.

* * *

Arighis espreitou na escuridão antes do nascer do Sol, revistando

o pátio do Laterano. Estava tudo pronto. Tinha sido colocado um braseiro aceso junto da grande estátua em bronze da loba. Dentro do braseiro a arder tinha sido colocado um par de ferros de fogão cujas pontas começavam a estar incandescentes devido ao calor das chamas. Junto dele estava um soldado de espada em riste.

Os primeiros raios de sol emergiram no horizonte. Era uma hora

fora do comum para uma execução pública, normalmente, acontecimentos desse tipo ocorriam depois da missa. Apesar de ser tão cedo já havia uma multidão de espectadores — os mais ansiosos chegavam sempre mais cedo para assegurarem a melhor posição para verem. Muitos tinham trazido os filhos, que deambulavam na expectativa excitada do espectáculo sangrento.

Arighis tinha estabelecido deliberadamente a hora do castigo de

Bento para o nascer do dia, antes que Sérgio acordasse e mudasse de ideias. Podia ser que houvesse alguém que o acusasse de ser demasiado diligente, mas ele não se importava.

Sabia muito bem o que estava a fazer e porquê. Arighis ocupava o cargo de vicedominus havia mais de vinte anos,

tinha dedicado a vida inteira ao serviço do Patriarchium, à orientação do vasto e complicado enxame de funcionários pontifícios que constituíam o governo de Roma, guiando-os de uma forma discreta e eficiente.

Depois de tantos anos, Arighis tinha chegado à conclusão de que a

casa papal era um ser vivo, cujo bem-estar era responsabilidade e preocupação exclusivamente sua.

Este bem-estar estava agora ameaçado. Em menos de um ano,

Bento tinha transformado o Patriarchium num centro de negociações de poder e de simonia. Ganancioso e manipulador, a própria existência de Bento era uma gangrena maligna no Papado. A única maneira de salvar o paciente era amputar o membro doente. Bento tinha de morrer.

Sérgio não tinha coragem para o fazer, por isso era preciso que

Arighis metesse mãos à obra. Fê-lo sem hesitar, sabendo que agia para bem da Santa Madre Igreja.

Estava tudo pronto.

— Trazei o preso — ordenou Arighis aos guardas. Trouxeram Bento. Com as vestes rasgadas, o rosto pálido e

cinzento de uma noite de insónia nas masmorras, percorreu o pátio com o olhar, ansiosamente.

— Onde está Sérgio — perguntou ele. — Onde está o meu irmão? — Sua Santidade não pode ser incomodada — disse Arighis. Bento rodopiou sobre si mesmo e encarou-o.

— O que pensais que estais a fazer, Arighis? Vistes o meu irmão

na noite passada. Estava bêbado, não sabia o que dizia. Deixai-me falar com ele e vereis: ele retirará a condenação.

— Avançai — ordenou Arighis aos guardas.

Os guardas arrastaram Bento para o meio do pátio e forçaram-no a

ajoelhar-se. Amarraram-no pelos braços e ataram-no ao pedestal da estátua da loba, com as mãos abertas sobre a pedra.

O terror estampou-se no rosto de Bento.

— Não! Parai! — Gritava ele.

Levantando os olhos em direcção às janelas do Patriarchium,

começou a gritar:

— Sérgio! Sérgio! Sér...!

A espada desfechou-se sobre ele. Bento gritou quando as suas

mãos cortadas caíram para o chão, jorrando sangue.

A multidão aplaudiu. O esgrimista pregou as mãos de Bento do

lado da loba. De acordo com o velho costume, elas ficariam ali um mês como aviso para outros que fossem tentados a cometer o pecado do furto.

Enódio, o arquiatro, avançou. Tirando os ferros do braseiro,

encostou-os com força aos cotos sangrentos de Bento. O cheiro de carne queimada encheu o ar de um cheiro enjoativo.

Bento voltou a gritar e desmaiou. Enódio debruçou-se sobre ele

para o assistir.

Arighis inclinou-se para a frente, atento. A maior parte dos

homens morriam depois de lhes ser infligido um ferimento daqueles — se não imediatamente, do choque e da dor, então, pouco depois, devido a infecção e à perda de sangue. Mas, aqueles que eram mais fortes, às vezes, conseguiam sobreviver.

Viam-se nas ruas de Roma, com as suas mutilações grotescas

revelando a natureza dos seus crimes: lábios cortados, para aqueles que tinham mentido sob juramento, pés cortados, para os escravos que tinham fugido aos seus proprietários, olhos arrancados, para aqueles que tinham desejado as esposas ou filhas dos seus superiores.

A possibilidade de sobrevivência foi o motivo que levou Arighis a

pedir a Enódio e não a João Anglicus para assistir o homem condenado porque a competência do último podia ser suficiente para salvar Bento.

Enódio levantou-se.

— Foi executado o julgamento de Deus — anunciou ele

solenemente. — Bento está morto.

Cristo seja louvado, pensou Arighis. O papado está salvo.

Joana estava na fila do lavatorium, à espera da sua vez para a

lavagem ritual das mãos antes da missa. Tinha os olhos pesados e inchados por causa de não ter dormido, tinha passado a noite agitada, só a pensar em Geraldo. Na noite anterior, sentimentos que ela pensava enterrados havia muito tempo tinham emergido com uma intensidade que a espantou e assustou.

O regresso de Geraldo tinha despertado os desejos perturbadores

da sua juventude. Como seria voltar a viver como mulher, pensou ela. Estava habituada a ser responsável por si própria, a controlar totalmente o seu destino. Mas, por lei, uma esposa devia entregar a sua vida ao seu marido. Será que ela poderia confiar num homem até esse ponto — mesmo sendo Geraldo?

Nunca te entregues a um homem. A voz da sua mãe ecoava como

um sino de alarme na sua cabeça.

Precisava de tempo para distinguir o turbilhão de emoções que lhe

iam no coração. Mas, tempo era uma coisa que ela não tinha.

Arighis apareceu ao seu lado.

— Vinde — disse ele, com urgência.

Retirou-a da fila.

— Sua Santidade precisa de vós.

— Está doente?

Preocupada, seguiu Arighis ao longo do corredor, até ao quarto do

Papa. Na noite anterior, a comida e a bebida em abundância tinham sido purgadas do corpo de Sérgio e a forte dose de cólquico que Joana lhe tinha administrado devia ter sido suficiente para prevenir um novo ataque de gota.

— Ficará, se continuar assim.

— Porquê? O que aconteceu?

— Bento morreu.

— Morreu!

— A sentença foi executada hoje de manhã. Ele morreu

imediatamente.

— Benedicite! — Joana apressou o passo. Imaginava o efeito que

estas notícias tinham tido em Sérgio.

Mesmo assim, quando o viu, ficou chocada. Sérgio estava quase

irreconhecível. Tinha o cabelo desgrenhado, os olhos vermelhos e inchados de chorar, as bochechas cobertas com arranhões causados pelas suas unhas. Estava de joelhos junto à cama, balançando para a frente e para trás, chorando como uma criança abandonada.

— Santidade! — disse Joana, com firmeza, falando-lhe ao ouvido.

— Sérgio!

Ele continuou a balançar-se, cego e surdo no abismo do seu

desgosto. Era óbvio que não havia maneira de comunicar com ele no estado em que se encontrava. Tirando um pouco de tintura de meimendro do seu saco, Joana calculou uma dose e levou-lha aos lábios. Ele bebeu distraidamente.

Ao fim de alguns minutos, começou a abanar-se mais devagar e,

depois, parou. Olhou para Joana como se estivesse a vê-la pela primeira vez.

— Chorai por mim, João. A minha alma está condenada para toda

a eternidade!

— Que disparate — disse Joana com firmeza. — Agistes

completamente de acordo com a lei.

Sérgio abanou a cabeça negativamente:

— Não sejais como Caim, que era do Diabo e assassinou o seu

irmão, — disse ele, citando a Primeira Epístola de João.

Joana replicou com outra passagem:

— E porque o matou ele? Porque as suas obras eram más e o seu

irmão era justo. Bento não era justo, Santidade, ele traiu-vos e traiu Roma.

— E agora, está morto, por ordem minha! Ó meu Deus! — bateu

no peito e gemeu de dor.

Ela tinha de o arrancar ao seu desgosto, senão ele acabaria por ter

outro ataque. Agarrou-o firmemente pelos ombros e disse:

— Tendes que fazer uma confissão auricular.

Esta forma do sacramento da penitência, na qual se fazia uma

confissão privada e regular ad auriculum, ao ouvido do padre, estava muito difundida no País dos Francos. Mas, Roma continuava teimosamente arreigada aos antigos procedimentos, de acordo com os quais a confissão e a penitência eram feitas e dadas em público e apenas uma vez na vida.

Sérgio agarrou a ideia:

— Sim, sim, eu confessar-me-ei.

— Vou mandar chamar um dos vossos cardeais-presbíteros —

disse ela. — Tendes preferência por alguém?

— Confessar-me-ei a vós.

— A mim? — Um simples padre e estrangeiro, — Joana não era

certamente a melhor candidata para servir de confessora ao Papa. — Tendes a certeza, Santidade?

— Não quero mais nenhum.

— Está bem.

Ela voltou-se para Arighis e disse:

— Deixai-nos.

Arighis lançou-lhe um olhar agradecido ao sair do quarto. — Peccavi, impie egi, iniquitatem feci, miserere mei Domine... —

começou Sérgio a dizer, nas palavras rituais da penitência.

Joana ouviu com uma compaixão emocionada os seus desabafos

desgostosos, o seu remorso e arrependimento. Com uma alma tão carregada e atormentada, não era de admirar que Sérgio procurasse a paz e o esquecimento na bebida.

A confissão fez o efeito que ela tinha imaginado, a paixão

descontrolada do desespero começou a ceder, deixando Sérgio esgotado e exausto, mas fazendo com que ele deixasse de constituir um perigo para si mesmo ou para os outros.

Agora, vinha a parte difícil, a penitência que tinha que preceder o

perdão dos pecados. Sérgio devia estar à espera que a sua penitência fosse severa — talvez mortificação pública nos degraus de São Pedro. Mas, esse acto só serviria para enfraquecer Sérgio e o papado aos olhos de Lothar — e isso tinha de ser evitado a todo o custo. Mas, a penitência que Joana ia impor não podia ser demasiado leve, senão Sérgio rejeitá-la-ia.

Ela teve uma ideia.

— Como penitência — disse ela — abster-vos-eis de todo o vinho

e carne de quadrúpede até à hora da vossa morte.

Os jejuns eram uma forma habitual de penitência, mas,

normalmente, prolongavam-se apenas por alguns meses, quanto muito, um ano. Uma vida de abstinência era um castigo rigoroso — especialmente para Sérgio. Mas, tal penitência tinha o benefício acrescido de ajudar a proteger o Papa dos seus próprios piores instintos. Sérgio baixou a cabeça, em sinal de aceitação.

Continuar: parte 2 de 4