A Papisa Joana

Donna Woolfolk Cross · Capítulo 9 de 9 · parte 1/3

Páginas do PDF

A Papisa Joana

Capítulo 27 · O primeiro acto da Joana como papisa…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

O primeiro acto da Joana como papisa foi dar uma volta a pé pela

cidade. Acompanhada por um séquito de optimates e de guardas, visitou cada uma das sete regiões eclesiásticas, saudando as pessoas e ouvindo as suas queixas e necessidades.

Quando se aproximava do fim da sua volta, Desidério, o

arquidiácono, orientou-a para a Via Lata, longe do rio.

— E o Campo de Marte? — perguntou ela.

Os outros membros do séquito papal entreolharam-se,

consternados. O Campo de Marte, a região pantanosa, abafada, baixa junto ao Tibre, era a mais pobre de Roma. Nos grandes dias da República Romana, tinha sido dedicada à veneração do deus pagão Marte. Agora, cães esfomeados, pedintes andrajosos e ladrões vagueavam nas suas velhas ruas.

— Não nos aventuramos a entrar lá, Santidade — protestou

Desidério. — O local está cheio de tifo e de cólera.

Mas, Joana já se dirigia para o rio, acompanhada por Geraldo e

pela guarda. Desidério e os outros não tinham outro remédio senão segui-la.

Filas de insulae, os alojamentos exíguos dos pobres, apinhados ao

longo de ruas nojentas à beira do rio, tinham as vigas podres pendentes como costelas partidas de mulas velhas.

Algumas das insulae tinham ruído, os restos das vigas podres

jaziam onde tinham caído, atravancando as ruas estreitas. Por cima, estendiam-se os arcos em ruínas do aqueduto de Marcião, em tempos uma das maravilhas arquitectónicas do mundo. Agora, as suas paredes em ruína pingavam água suja que formava poças de água estagnada, um alfobre de doenças.

Grupos de pedintes reuniam-se em torno de panelões com comida

com um cheiro estranho, aquecendo-se a pequenas fogueiras feitas de aparas e de bosta seca. As ruas estavam cobertas com camadas de lama que tinha ficado das várias cheias do Tibre. O lixo e os excrementos entupiam os esgotos, o cheiro era insuportável por causa do calor do Verão, atraindo enxames de moscas, ratos e outros vermes.

— Meu Deus — murmurou Geraldo junto a ela. — Isto é um foco

de doenças.

Joana conhecia a pobreza, mas nunca tinha visto nada semelhante

àquela miséria terrível e brutal.

Duas crianças estavam agachadas junto ao lume. As suas túnicas

estavam tão gastas que Joana conseguia ver a alvura da sua pele por baixo delas, os seus pés descalços estavam enrolados em panos imundos. Era óbvio que uma delas, um rapazinho, tinha febre, apesar do calor do Verão, tremia descontroladamente. Joana tirou a sua pénula em linho e cobriu-lhe os ombros com ela, suavemente. O rapaz esfregou a cara no tecido macio, tão macio como ele nunca tinha sentido na vida.

Ela sentiu um puxão no seu manto. A criança mais pequena, uma

menina com olhos redondos, como um anjo, olhava para ela, interrogativamente.

— Sois um anjo? — perguntou a vozinha.

Joana fez uma festa no queixo sujo da criança. — Tu é que és um anjo, pequenina.

Dentro do panelão, um pedacinho de carne magra, impossível de

identificar, começava a queimar-se. Uma jovem loura veio do rio, carregando um balde com água. Seria a mãe das crianças?, pensou Joana. Ela própria parecia também uma criança — não tinha, certamente, mais do que dezasseis anos.

Os olhos da jovem ergueram-se esperançados, quando viu Joana e

os outros prelados.

— Uma esmola, bons padres? — estendeu a mão. — Uma

moedinha para os meus pequeninos?

Joana fez um sinal a Vítor, o sacellarius, que colocou um denário

em prata na palma estendida da jovem. Com um sorriso de felicidade, a rapariga pousou o balde com água para guardar a moeda.

Havia restos de despejos a flutuar na água.

Benedicite!, pensou Joana. A sujidade da água era, seguramente, o

que tinha adoecido o rapazinho. Mas, com o aqueduto em ruínas, que alternativa tinha aquela mãe? Tinha de utilizar a água poluída do Tibre ou morrer de sede.

Mas, agora, havia outros que tinham começado a reparar em Joana

e no seu séquito. As pessoas começaram a juntar-se, ansiosas por saudar o seu novo Senhor Papa. Joana esticava-se para eles, tentando tocar e abençoar tantos quanto podia. Mas, à medida que a multidão aumentava, aproximava-se tanto dela que ela mal se podia mexer. Geraldo deu ordens, os guardas dispersaram a multidão, abrindo o caminho, e a comitiva papal saiu da Via Lata, para o ar solarengo, limpo e saudável da Colina Capitolina.

— Temos de reconstruir o aqueduto de Marcião — disse Joana

durante uma reunião com os optimates, na manhã seguinte.

As sobrancelhas de Pascal, o primicerius, ergueram-se com a

surpresa.

— O restauro de um edifício cristão seria uma forma mais

apropriada de começar o vosso papado, Santidade.

— Para que querem os pobres mais igrejas? — respondeu ela —,

Roma está cheia delas. Mas, um aqueduto a funcionar pode salvar muitas vidas.

— O projecto é arriscado — disse Vítor, o sacellarius. — Pode ser

que não se consiga fazer.

Ela não o podia negar. Reconstruir o aqueduto era uma obra

monumental, talvez mesmo, impossível de realizar, dado o estado lastimoso da engenharia naqueles dias. Os livros que tinham conservado os conhecimentos dos antigos acerca destas obras de construção complicadas tinham-se perdido ou tinham sido destruídos havia séculos. As páginas de pergaminho nas quais tinham sido registados os preciosos planos tinham sido raspadas e reescritas com homilias cristãs e histórias da vida de santos e de mártires.

— Temos de tentar — disse Joana, com firmeza. — Não podemos

permitir que as pessoas continuem a viver em condições tão miseráveis.

Os outros mantiveram-se em silêncio, não porque concordassem,

mas porque seria indelicado opor-se, quando era tão evidente que o Apostólico estava decidido.

Ao fim de algum tempo, Pascal perguntou:

— Quem tendes em mente para supervisionar a construção? — Geraldo — respondeu Joana.

— O superista? — Pascal estava surpreendido. — Quem havia de ser? Ele dirigiu a construção do Muro Leonino.

Aliás, também houve muitos que pensaram que não era possível.

Nas semanas que se tinham seguido à sua coroação, ela tinha-se

apercebido de que Geraldo estava cada vez mais infeliz. Era difícil para ambos estarem sempre juntos. Pelo menos ela tinha o seu trabalho, uma missão e um objectivo claros. Mas, Geraldo estava aborrecido e inquieto. Joana sabia-o, sem que ele lho tivesse dito, eles nunca tinham precisado de falar um com o outro para saberem o que o outro estava a sentir.

Quando Geraldo veio ter com ela, ela apresentou-lhe a sua ideia de

reconstruir o aqueduto de Marcião.

Ele franziu o sobrolho, pensativo:

— Perto do Tivoli, o aqueduto continua por baixo do chão, num

túnel ao longo de várias colinas. Se essa secção estiver destruída, não será fácil de reparar.

Joana sorriu ao aperceber-se de que o seu espírito já estava a

começar a assumir a ideia, prevendo os problemas que ela envolvia.

— Se alguém o pode fazer és tu.

— Tens a certeza que é isso que queres?

Os olhos de Geraldo fitaram os seus com um olhar de desejo

indubitável.

Ela sentiu que lhe correspondia. Mas, não se atreveu a demonstrar

os seus sentimentos. Admitir a intimidade entre ambos, mesmo aqui, em privado, seria abrir caminho ao desastre. Ela respondeu pragmaticamente:

— Não vejo nada que seja de maior benefício para o povo. Ele desviou o olhar:

— Então, está bem. Não te esqueças de que não te estou a

prometer nada. Vou ver se é possível. Farei tudo o que puder para que o aqueduto seja reparado para poder voltar a funcionar.

— É tudo quanto eu peço — disse ela.

Ela começava a perceber de uma forma nova o que significava ser

Papa. Apesar de ser uma posição de grande poder formal, na realidade, era uma posição com grandes obrigações. Ela tinha o tempo todo ocupado com obrigações litúrgicas pesadíssimas. No Domingo de Ramos, benzeu e distribuiu ramos de palmeira em frente a São Pedro. Na Quinta-feira Santa, lavou os pés aos pobres e serviu-lhes ela própria uma refeição. Na Festa de Santo António, ficou diante da Catedral de Santa Maria Maior e aspergiu com água benta os bois, os cavalos e as mulas trazidas pelos seus donos para serem benzidos. No terceiro Domingo do Advento, abençoou os candidatos apresentados para serem ordenados presbíteros, diáconos ou bispos.

Também tinha de celebrar a missa quotidiana. Em certos dias, era

uma missa estacional, precedida de uma procissão pela cidade até à igreja titular, na qual seria celebrada a missa, parando pelo caminho para ouvir petições, a procissão e a cerimónia ocupavam-lhe grande parte do dia. Havia mais de noventa missas estacionais, incluindo as festas marianas, as Quatro Têmporas, a Missa de Cristo, o Domingo da Septuagésima e da Sexagésima e a maior parte dos Domingos e dias feriados da Quaresma.

Havia dias de festa em honra de São Pedro, São Paulo, São

Lourenço, Santa Inês, São João, São Tomé, São Lucas, Santo André e Santo António, assim como da Natividade, da Anunciação e da Assunção da Virgem Maria. Estas eram festas fixas, o que queria dizer que calhavam no mesmo dia todos os anos, como a Missa de Cristo e a Epifania. A Oblação, a festa da Sede Gestatória, a Circuncisão de Cristo, a Natividade de São João Baptista, a festa de São Miguel, de Todos os Santos e da Exaltação da Cruz eram todas em dias fixos. A Páscoa, o dia mais sagrado do calendário cristão, era uma festa móvel, a sua localização no calendário seguia o ritmo da lua cheia eclesiástica, tal como os feriados satélites da Terça-Feira de Entrudo, da Quarta-Feira de Cinzas, do Dia da Ascensão e do Pentecostes.

Cada um destes feriados cristãos era observado com, pelo menos,

quatro dias de celebrações: a vigília ou véspera da festa, o dia da festa, o dia seguinte e a oitava ou oitavo dia a seguir. Ao todo, havia mais de cento e setenta e cinco dias festivos para os cristãos, entregues a cerimoniais complicados e consumidores de tempo.

Tudo isto dava pouco tempo a Joana para governar realmente, ou

para falar daquilo que lhe interessava mais: tratar dos pobres e melhorar a educação do clero.

Em Agosto, a árdua rotina litúrgica foi interrompida por um

sínodo. Participaram setenta e sete prelados, incluindo todos os suburbicarii, ou bispos provinciais, assim como quatro bispos francos enviados pelo imperador Lothar.

Dois dos assuntos tratados no sínodo tinham especial interesse

para Joana. O primeiro, diz respeito à intinctio, a prática de distribuir a Comunhão mergulhando o pão eucarístico no vinho, em vez de serem tomados separadamente. Nos vinte anos que se seguiram à introdução dessa ideia em Fulda, por iniciativa de Joana, como forma de evitar a propagação de doenças, tinha-se tornado tão popular na região dos francos que se tinha tornado um costume quase universal.

O clero romano, que, como era evidente, não sabia que existia

uma relação entre Joana e a intinctio, encarava a nova prática com suspeição.

— É uma transgressão à lei divina — argumentou o bispo de

Castrum, indignado. — Na Sagrada Escritura afirma-se que Cristo deu aos Seus discípulos o Seu corpo e o sangue separadamente.

Houve sinais de concordância pela assembleia. — O Senhor Bispo tem razão — disse Pothos, bispo de Trevi. A

prática não tem precedentes nos escritos dos padres, portanto, tem de ser condenada.

— Devemos condenar uma ideia apenas porque é nova? —

perguntou Joana.

— Devemos guiar-nos pela sabedoria dos antigos em todas as

coisas — respondeu Pothos num tom solene. — A única verdade de que podemos estar seguros é aquela que nos foi transmitida no passado.

— Tudo o que é velho já foi novo um dia — disse Joana. — O

novo precede sempre o velho. Não será insensato rejeitar o que precede e estimar o que se segue?

As sobrancelhas de Pothos franziram-se ao mesmo tempo que a

sua mente meditava sobre aquela complexa dialéctica. Como a maior parte dos seus colegas, também ele não possuía qualquer conhecimento da argumentação e debate clássicos, só se sentia à vontade quando citava uma autoridade.

Seguiu-se uma longa discussão. Claro que Joana podia ter imposto

a sua vontade por decreto, mas preferia a persuasão à tirania. No fim, os bispos acabaram por ser vencidos pelos seus argumentos. A prática da intinctio continuaria na região dos francos, pelo menos, de momento.

A questão seguinte tinha um grande interesse pessoal para Joana

porque envolvia o seu velho amigo Gottschalk, o monge oblato cuja liberdade ela tinha ajudado a ganhar, em tempos.

Segundo o relatório dos bispos francos, ele estava novamente em

grandes apuros. Joana ficou triste com as notícias, mas não muito surpreendida, Gottschalk era um homem que cortejava a infelicidade com a mesma intensidade com que um amante persegue a sua amada.

Agora, era acusado do sério crime de heresia. Rábano Mauro,

antigo abade de Fulda, agora promovido a arcebispo de Mainz, tinha ouvido falar de algumas teorias radicais que Gottschalk tinha pregado sobre a predestinação. Aproveitando a oportunidade para se vingar, o arcebispo tinha mandado prender e açoitar selvaticamente Gottschalk.

Joana franziu o sobrolho. A crueldade com que homens de alegada

piedade, como Rábano, tratavam os seus irmãos cristãos nunca deixava de a espantar. Os normandos pagãos provocavam-lhes uma fúria menor do que um crente cristão que se desviasse um pouco que fosse das doutrinas estritas da Igreja. Porque será que temos sempre de guardar o nosso pior ódio para os nossos?, pensou ela.

— Qual é a natureza concreta dessa heresia? — perguntou ela a

Wulfram, o chefe dos bispos francos.

— Primeiro — disse Wulfram — o monge Gottschalk afirma que

Deus predestinou todos os homens para a salvação ou para a perdição. Segundo, que Cristo não morreu na cruz por todos os homens, mas apenas pelos eleitos. E, finalmente, que os homens decaídos não podem fazer nada de bom fora da graça, nem podem exercitar livremente a sua vontade para nada a não ser o mal.

É mesmo do Gottschalk, pensou Joana. Um pessimista nato, era

inevitável que tendesse para uma teoria que predestinava o homem à condenação. Mas, não havia nada de herético naquelas ideias, nem sequer particularmente novo. O próprio Santo Agostinho tinha dito exactamente o mesmo em duas das suas obras mais importantes — o De civitate Dei e o Enchiridion.

Mas, ninguém na sala pareceu aperceber-se disso. Apesar de todos

reverenciarem o nome de Agostinho, era evidente que nenhum se tinha dado, realmente, ao trabalho de ler as suas obras.

Nirgotius, bispo de Anagni, levantou-se e disse: — Isso é uma apostasia pecaminosa — disse ele. — Porque é

sabido que a vontade de Deus predestina os eleitos, mas não os condenados.

Aquele raciocínio era muito defeituoso, já que a predestinação de

um grupo implicava, inevitavelmente, a predestinação do outro. Mas, Joana não disse nada porque também estava preocupada com a pregação de Gottschalk. Era perigoso levar as pessoas a acreditarem que não podiam alcançar a sua salvação evitando o pecado e tentando agir de forma justa. Afinal, porque haveria alguém de se dar ao trabalho de fazer boas obras se a lista do Céu já estava feita?

Ela disse:

— Concordo com Nirgotius. A graça de Deus não é fruto da

predestinação, mas sim do poder abundante do Seu amor, que se derrama sobre todas as coisas que existem.

Os bispos acolheram bem esta intervenção porque concordava

com o seu próprio pensamento. Votaram por unanimidade a refutação das teorias de Gottschalk.

Mas, por instigação da Joana, incluíram também uma condenação

do arcebispo Rábano pela forma rígida e imprópria de um cristão, como tinha tratado o monge transviado.

Foram votados quarenta e dois cânones naquele sínodo, a maior

parte deles relacionados com a reforma da disciplina e da educação eclesiástica. No fim da semana, a assembleia estava terminada. Todos concordaram que tinha corrido muito bem e que o Papa João tinha presidido com uma distinção rara.

Os romanos estavam particularmente orgulhosos de serem

representados por um guia espiritual de inteligência e erudição tão elevadas.

Mas, a boa-vontade de que Joana ficou a gozar a seguir ao sínodo

não durou muito. No mês seguinte, a comunidade eclesiástica revoltou-se em peso quando ela anunciou a sua intenção de instituir uma escola para mulheres. Até aqueles do partido papal que tinham apoiado a candidatura da Joana ficaram chocados: que Papa tinham eles elegido?

Jordanes, o secundicerius, confrontou Joana com o assunto

publicamente, durante a reunião semanal dos optimates.

— Santidade — disse ele — fazeis muito mal em procurar educar

mulheres.

— Porquê? — perguntou ela.

— Santidade, sabeis muito bem que o tamanho do cérebro e do

útero da mulher é inversamente proporcional, portanto, quanto mais uma rapariga aprende, menos provável é que venha a ter filhos.

É melhor ser estéril de corpo do que de espírito, pensou Joana com

frieza, mas guardou o pensamento apenas para si própria.

— Onde lestes isso?

— É do senso comum.

— Pelo que parece, é tanto do senso comum que ninguém se deu

ao trabalho de o escrever para que todos pudessem aprendê-lo.

— Não é preciso aprender aquilo que é óbvio para todos. Ninguém

escreveu que a lã vem das ovelhas, mas todos o sabem.

Os outros sorriram. Jordanes envaideceu-se da esperteza do seu

argumento.

Joana pensou um pouco e depois disse:

— Se o que dizeis é verdade, como havemos de interpretar a

fecundidade extraordinária de mulheres instruídas como Laeta, que se correspondia com São Jerónimo e que, segundo ela relata, deu à luz quinze crianças saudáveis?

— Uma aberração! Uma rara excepção à regra.

— Se bem me lembro, Jordanes, a vossa irmã Juliana sabe ler e

escrever.

Jordanes foi apanhado desprevenido.

— Só um pouco, Santidade. O suficiente para poder fazer as

contas da casa.

— Mas, de acordo com a vossa teoria, mesmo que a instrução

fosse pouca, afectaria sempre a fertilidade da mulher. Quantos filhos tem a Juliana?

Jordanes corou.

— Doze.

— Outra aberração?

Fez-se um silêncio longo e embaraçoso.

— É óbvio, Santidade — disse Jordanes, num tom agreste —, que

já tendes uma ideia formada quanto a este assunto. Portanto, não digo mais nada.

E não disse, pelo menos, não na assembleia.

— Não foi sensato insultar Jordanes em público — disse Geraldo

depois. — Podes tê-lo atirado para os braços de Arsénio e do partido do imperador.

— Mas, ele não tem razão, Geraldo — disse Joana. — As

mulheres são tão capazes de aprender como os homens. Eu não sou uma prova disso?

— Claro. Mas, tens de dar tempo às pessoas. O mundo não pode

ser refeito num só dia.

— O mundo nunca será refeito se ninguém tentar refazê-lo. Tem

de se começar a mudar por algum lado.

— É verdade — concedeu Geraldo. — Mas, agora não, aqui não,

contigo não.

— Porquê?

Porque eu te amo, queria ele dizer, porque tenho medo por ti. Em vez disso, disse:

— Porque não te podes dar ao luxo de fazer inimigos. Já te

esqueceste de quem és e daquilo que és? Eu posso proteger-te de muitas coisas, Joana — mas, não de ti própria.

— Ora, certamente não é uma coisa assim tão séria. O mundo vai

acabar se algumas mulheres aprenderem a ler e a escrever?

— O teu velho tutor — Asclépios, não era? — o que foi que tu me

contaste uma vez que ele te tinha dito?

— Algumas ideias são perigosas.

— Exactamente.

Fez-se um longo silêncio.

— Está bem — concedeu ela. — Vou falar com Jordanes e farei o

que puder para apaziguar o seu ressentimento. E prometo ser mais diplomática no futuro. Mas, a escola para mulheres é demasiado importante, não vou desistir dela.

— Nem pensei que desistisses — respondeu Geraldo, sorrindo.

Em Setembro, a escola para mulheres foi inaugurada formalmente.

Joana deu-lhe o nome de Escola de Santa Catarina, em memória do seu irmão Mateus, o primeiro a falar-lhe da santa instruída. Cada vez que ela passava pelo pequeno edifício na Via Merulana e ouvia o som de vozes femininas recitando, pensava que o coração lhe rebentava de alegria.

Cumpriu a promessa que tinha feito a Geraldo. Foi delicada e

cortês com Jordanes e com os outros optimates. Conseguiu, até, controlar a língua quando ouviu o cardeal-presbítero Citronatus pregar que, depois da ressurreição, as imperfeições das mulheres seriam emendadas porque todos os seres humanos renasceriam como homens! Chamando Citronatus, ofereceu-lhe, à guisa de uma sugestão útil, a ideia de eliminar aquela linha do sermão porque, assim, poderia alcançar melhor efeito sobre as paroquianas. Apresentada em termos tão diplomáticos, a sugestão foi bem aceite, Citronatus ficou lisonjeado com a atenção dispensada pelo Papa e não voltou a repetir a ideia.

Joana suportava a rotina diária das missas, audiências, baptismos e

ordenações pacientemente e sem um queixume. E assim, os dias longos e frios do Outono passaram sem mais incidentes.

Nos idos de Novembro, o céu escureceu e começou a chover. Durante dez dias, a chuva caiu, deixando grandes lençóis de água,

batendo contra os telhados das casas, fazendo com que os habitantes tivessem de tapar os ouvidos para não ouvirem o barulho enlouquecedor. Os velhos esgotos da cidade depressa ficaram a transbordar, nas ruas, a água concentrava-se em poças cada vez maiores, que se iam juntando, formando correntes rápidas, levando consigo pedras de basalto e tornando o piso perigosamente escorregadio.

E continuava a chover. As águas do Tibre começaram a subir

ameaçadoramente, submergindo os diques, inundando os campos dos arredores, destruindo as terras de cultivo e as pastagens e afogando o gado.

Dentro dos muros da cidade, a primeira região a ficar inundada foi

a zona baixa de Campo de Marte, sobrepovoada de pobres.

Alguns fugiram para zonas mais altas, mal as águas começaram a

subir, mas muitos ficaram para trás, sem se aperceberem das consequências do atraso, não querendo deixar as suas casas e as suas magras posses.

Depois, já era tarde de mais. As águas ultrapassaram a altura de

um homem, impedindo qualquer tentativa de fuga.

Centenas de pessoas ficaram encurraladas dentro das insulae

raquíticas, se as águas continuassem a subir, iam morrer afogados.

Naquelas circunstâncias, o Papa, normalmente, retirava-se para a

Catedral de Latrão e rezava uma litania solene, prostrando-se diante do altar e rezando pela salvação da cidade. Para surpresa e consternação do clero, Joana não o fez. Em vez disso, chamou Geraldo para discutir planos de evacuação.

— O que podemos fazer? — perguntou ela. — Há-de haver uma

maneira de salvar aquela gente.

Ele respondeu:

— Os acessos ao Campo de Marte estão completamente alagados.

Não há forma de lá chegar a não ser de barco.

— E os barcos que estão ancorados em Ripa Grande? — São pequenas embarcações de pescadores — demasiado frágeis

para águas tão revoltosas.

— Vale a pena tentar — argumentou ela, aflita. — Não podemos

ficar a ver as pessoas a afogarem-se!

Geraldo sentiu uma onda de ternura por ela. Nem Sérgio, nem

sequer Leão, tinham demonstrado tal preocupação com a população deserdada do Campo de Marte. Joana era diferente, como não via nenhuma diferença entre rico e pobre, tratava-os da mesma maneira.

Aos seus olhos, todos eram igualmente merecedores do seu

cuidado e atenção.

— Vou convocar imediatamente a milícia — disse ele. Marcharam para a doca de Ripa Grande, onde Joana usou a sua

autoridade para requisitar todas as embarcações que estavam em condições de navegar. Geraldo e os seus homens meteram-se nos barcos e Joana pronunciou algumas palavras de bênção sobre eles, levantando a voz para se fazer ouvir mais alto do que a chuva que batia. Depois, espantou todos entrando no barco de Geraldo.

— O que estás a fazer? — perguntou ele, alarmado. — O que te parece?

— Não pretendes vir connosco!

— Porque não?

Ele olhou para ela, espantado, como se ela tivesse enlouquecido. — É demasiado perigoso!

— Vou aonde sou precisa — respondeu ela, com determinação. Eustácio, o arcipreste, franziu o sobrolho na doca. — Santidade, pensai na dignidade da vossa posição! Sois o Senhor

Papa, Bispo de Roma. Arriscareis a vida por um punhado de pedintes andrajosos?

— São filhos de Deus, Eustácio, não são menos do que vós ou do

que eu.

— Mas, quem nos guiará na litania? — perguntou ele, insistindo. — Vós, Eustácio. Fazei-o bem porque bem precisamos das vossas

orações — voltou-se impacientemente para Geraldo. — Agora, superista, ides remar ou tenho de ser eu a fazê-lo?

Reconhecendo o ar de determinação obstinada naqueles olhos

verde-acinzentados, Geraldo pegou nos remos. Não havia mais tempo para discussões porque a água estava a subir rapidamente. Ele pegou nos remos, remando energicamente e o barco afastou-se da doca.

Eustácio gritou-lhes qualquer coisa, mas as suas palavras

perderam-se no vento e na chuva.

A flotilha de embarcações dirigia-se para noroeste, para Campo de

Marte. As águas tinham subido. O Tibre corria pela parte baixa da cidade como se estivesse no seu próprio leito.

Entre a Porta Septimania e o sopé da Colina Capitolina, todas as

igrejas e casas estavam inundadas. A coluna de Marco Aurélio estava meio-submersa, as ondas batiam nas portas superiores do Panteão.

Ao aproximarem-se de Campo de Marte, viram indícios dos

terríveis prejuízos causados pela inundação. Boiavam pedaços de madeira, restos das insulae que tinham ruído, havia corpos a flutuarem ao sabor da corrente. Os habitantes cujas casas tinham sido poupadas, aterrados, tinham-se refugiado nos andares superiores. Apinhavam-se às janelas, com os braços estendidos, gritando por ajuda.

Os barcos separaram-se, um ou dois por edifício. As ondas

tornavam difícil a aproximação às casas. Algumas pessoas entraram em pânico e saltaram cedo de mais, não acertando nas embarcações aos círculos. Outros, caíam demasiado perto da borda ou da parte da frente dos barcos, fazendo com que eles se voltassem. Havia uma confusão dentro de água, provocada por aqueles que não sabiam nadar e que tentavam agarrar-se desesperadamente àqueles que sabiam, enquanto os remadores praguejavam, tentando reequilibrar os barcos.

As embarcações acabaram por recuperar o equilíbrio e por partir,

seguindo na direcção da Colina Capitolina, onde descarregaram os seus passageiros. A partir dali, era fácil subir para lugar seco e porem-se a salvo. Depois, a flotilha regressou para salvar mais pessoas.

Os salvadores repetiram a viagem, ficando encharcados até aos

ossos, com as roupas coladas ao corpo, arfando com o esforço e o cansaço. Finalmente, parecia qe tinham salvo toda a gente. Dirigiam-se para a Colina Capitolina, quando Joana ouviu a voz de uma criança a pedir socorro. Voltando-se, viu a silhueta de um rapazinho a uma das janelas. Talvez estivesse a dormir e tivesse acabado de acordar, ou talvez tivesse tido demasiado medo para sair pela janela antes.

Joana e Geraldo olharam um para o outro. Sem uma palavra, ele

virou o barco e remou de regresso, parando por baixo da janela onde o rapaz estava agora debruçado. Geraldo levantou os remos, para manter o barco parado.

Joana levantou-se, esticando os braços.

— Salta! — disse ela. — Salta, que eu apanho-te!

O rapaz ficou onde estava, com os olhos espantados de terror, a

olhar para o barco por baixo da janela.

Ela olhou para ele, procurando convencê-lo a atirar-se. — Salta agora! — ordenou-lhe ela.

Timidamente, o rapaz meteu uma perna fora da janela. Ela esticou-se para ele.

Nesse momento, ouviu-se um barulho ensurdecedor. A velha

Posterula de Santa Ágata, a porta mais a norte do Muro Aureliano, tinha cedido à pressão da água que subia. O Tibre entrou pela cidade dentro numa onda com uma força aterradora.

Joana viu o rosto do rapaz encostado à janela, com a boca

formando um O de terror, quando o edifício começou a ceder.

Nesse momento, ela sentiu o barco por baixo dos seus pés

levantar-se e tremer, indo com a corrente.

Começou a gritar, agarrando-se desesperadamente às bordas da

frágil embarcação, levada nos rápidos, ameaçando virar-se a qualquer momento. A água entrava pelos lados, ela levantou a cabeça, à procura de ar, e viu num relance Geraldo debruçado junto à proa.

O barco parou com um estrondo tremendo. Joana foi projectada

contra o lado.

Ficou imóvel, tonta e confusa durante alguns segundos. Quando, finalmente, conseguiu olhar à sua volta, viu paredes, uma

mesa, cadeiras.

Estava dentro de casa. A força extraordinária da corrente tinha

arrastado o barquinho fazendo-o entrar para dentro de casa por uma janela de uma das insulae.

Viu Geraldo deitado na parte da frente do barco, com o rosto

metido dentro de água. Arrastou-se para ele.

Quando o voltou, ele estava inconsciente e não respirava. Ela puxou-o para fora do barco e deitou-o no chão do quarto. Virando-o, de forma a que ele ficasse com a barriga para baixo,

começou a pressionar as suas costas para obrigar a água a sair dos seus pulmões.

Pressionar e soltar, pressionar e soltar. Ele não pode morrer,

pensou ela.

Ele não pode morrer. Certamente que Deus não seria tão cruel.

Depois, lembrou-se do infeliz rapazinho que tinha ficado dentro de casa e pensou: Deus é capaz de tudo.

Pressionar e soltar. Pressionar e soltar.

A boca de Geraldo abriu-se, soltando uma golfada de água. Benedicite! Ele tinha voltado a respirar. Joana examinou-o

cuidadosamente. Não tinha ossos partidos, nem feridas abertas. Mas, tinha uma grande nódoa negra por baixo da linha do cabelo, onde tinha recebido uma grande pancada. Devia ter sido ela que o tinha deixado inconsciente.

Já devia ter recuperado a consciência, pensou ela. Mas, Geraldo

continuava mergulhado no seu estranho sono, pálido e flácido, com a respiração pouco profunda e o pulso fraco e perigosamente rápido. O que se passa?, pensou ela, ansiosa. O que posso fazer mais?

O choque de uma pancada violenta pode matar um homem com

um frio penetrante.

As palavras de Hipócrates, palavras que já tinham salvo a vida a

Gottschalk, uma vez, vieram-lhe, agora, à memória.

Tinha de aquecer Geraldo rapidamente.

Pelo buraco deixado pela passagem do barco entravam rajadas de

vento e chuva. Ela levantou-se e começou a explorar a pequena casa. Por trás do quarto da frente, havia outro, mais pequeno, sem janela e, portanto, mais quente e mais seco. E — Deo gratias! — no meio do quarto havia um pequeno braseiro em metal, no qual se encontravam alguns pedaços de madeira. Num armário perto, ela encontrou um sílex e uma mecha. Numa arca a um canto, havia um cobertor em lã grossa, rasgado, mas, graças a Deus, ainda seco.

Ao regressar ao quarto da frente, ela pegou em Geraldo por baixo

dos braços e levou-o, melhor, arrastou-o para o quarto da parte de trás, deitando-o ao pé do braseiro. As mãos dela tremiam tanto que teve que tentar várias vezes, até conseguir fazer lume. Finalmente, conseguiu pegar fogo à pequena mecha de palha. Colocou a mecha a arder no braseiro, cuidadosamente, e ela pegou, lambendo os pedaços de madeira. A madeira húmida chiou e estalou, sem querer pegar fogo. Por fim, um pequeno pedaço de madeira tornou-se incandescente num canto de um dos toros. Ela assoprou o fogo frágil com a habilidade própria de quem está habituada a fazê-lo.

Precisamente quando ele tinha começado a pegar, entrou vento

pela janela do outro quarto e apagou-o.

Ela olhou, desesperada, para os pedaços de madeira frios. Já não

havia mais mecha, não havia forma de tentar voltar a acender o lume. Geraldo continuava inconsciente. A sua pele tinha um tom azulado terrível, os seus olhos estavam encovados.

Só havia mais uma coisa a fazer. Ela tirou-lhe a roupa

rapidamente, despindo o seu corpo tenso, elegantemente musculoso, marcado aqui e ali com cicatrizes de antigos combates. Depois, tapou-o com o cobertor.

Levantou-se, tremendo de frio, e começou a tirar a sua roupa

encharcada: primeiro, a pénula e a dalmática, depois, a roupa de baixo, a alba, o amicto e o cíngulo. Quando ficou nua, meteu-se debaixo do cobertor e encostou-se toda a Geraldo.

Agarrou-se a ele, aquecendo o seu corpo com o dela, para lhe

insuflar um pouco de força e de vida.

Luta. Geraldo. meu amor. Luta.

Fechou os olhos e concentrou-se em estabelecer uma ligação entre

eles. Nada mais interessava. O quartinho, o lume apagado, o barco, a tempestade lá fora — nada disso era real.

A única coisa real eram eles os dois. Eles haviam de viver juntos

ou de morrer juntos.

As pálpebras de Geraldo mexeram-se. A sua mão levantou-se, por

reflexo, como que para tirar um véu invisível. Nesse mesmo instante, Joana viu uma luz ao fundo do túnel e agarrou-se a ela com ele. Eles tinham emergido juntos de um lugar distante.

Ele acordou. Os seus olhos azuis olharam para ela, surpreendidos,

ele sabia que ela estava junto dele.

— Minha pérola — murmurou ele.

Ficaram muito tempo em silêncio, unidos numa comunicação sem

palavras. Depois, ele levantou o braço para a puxar mais para si e os seus dedos passaram pelas cicatrizes nas suas costas.

— Marcas de chicote? — perguntou ele, suavemente.

Ela corou.

— Sim.

— Quem te fez isto?

Lenta e penosamente, ela contou-lhe a tareia que tinha levado do

pai quando se recusou a destruir o livro de Asclépios.

Geraldo não disse nada, mas os músculos do seu maxilar

retesaram-se. Inclinou-se sobre ela e começou a beijar cada uma das cicatrizes.

Ao longo dos anos, Joana tinha aprendido a conter as suas

emoções, a não manifestar dor, nem a chorar. Agora, as lágrimas corriam-lhe pelo rosto, sem ela dar por isso.

Ele abraçou-a ternamente, murmurando palavras doces, até que ela

deixou de chorar. Depois, beijou-a nos lábios com uma experiência e ternura que a encheu de calor. Ela abraçou-o e fechou os olhos, deixando que o vinho doce e escuro dos seus sentidos corresse nela, rendendo, finalmente, a vontade da mente ao desejo do corpo.

Meu Deus!, pensou ela. Eu não sabia, eu não sabia! Era acerca

daquilo que a mãe dela a tinha avisado, era daquilo que ela tinha fugido durante todos aqueles anos? Aquilo não era entregar-se, era uma maravilhosa e gloriosa expansão de si própria — uma oração não com palavras, mas dos olhos e das mãos e dos lábios e da pele.

— Amo-te! — gritou ela no momento do êxtase e as palavras não

eram uma profanação, mas um sacramento.

No Salão Grande do Patriarchium, Arsénio esperava por notícias

com os optimates e os membros do alto clero de Roma.

Quando recebeu a notícia de que o papa João tinha desaparecido,

Arsénio não queria acreditar. Mas, afinal, o que era de esperar de um estrangeiro — e, para mais, de um camponês?

Radoin, segundo no comando da milícia papal, entrou no salão. — Novidades? — perguntou Pascal, o primicerius, impaciente. — Conseguimos salvar uma parte dos habitantes — relatou

Radoin. — Mas, temo que Sua Santidade se tenha perdido.

— Perdido? — repetiu Pascal com uma voz sumida. — O que

quereis dizer com isso?

— Ele estava num esquife com o superista. Pensámos que eles

vinham atrás de nós, mas devem ter voltado para trás para salvar outro sobrevivente. Foi precisamente quando a porta de Santa Ágata cedeu e a água jorrou naquela zona.

Estas notícias foram recebidas com gritos de alarme e de

consternação. Vários prelados benzeram-se.

— Existe alguma hipótese de que tenham sobrevivido? —

perguntou Arsénio.

— Nenhuma — respondeu Radoin. — A força da corrente levou

tudo quanto encontrou.

— Deus tenha misericórdia deles — disse Arsénio num tom grave,

usando todo o controlo que possuía para esconder a sua alegria.

— Devo ordenar que toquem os sinos do luto? — perguntou

Eustácio, o arcipreste.

— Não — respondeu Pascal. — Não podemos precipitar-nos. O

papa João é o vigário escolhido por Deus, é possível que Deus tenha operado um milagre para o salvar.

— Porque não voltais para o procurar? — sugeriu Arsénio. Ele não tinha nenhum interesse em que ele fosse salvo, mas

precisava de ter a certeza que o Trono de São Pedro estava novamente vacante.

Radoin respondeu.

— A ruína da porta-norte tornou a área intransitável. Não

podemos fazer mais nada, até as águas baixarem.

— Então, oremos — disse Pascal. — Deus misereatur nostri et

benedicat nobis...

Os outros juntaram-se a ele, baixando as cabeças. Arsénio recitou as palavras mecanicamente, com a mente

concentrada noutras coisas. Se, como parecia certo, o papa João tinha morrido nas cheias, então Anastácio tinha uma segunda oportunidade de subir ao trono. Desta vez, pensou Arsénio com determinação, não pode correr nada mal com a eleição. Desta vez, ele usaria todo o seu poder para ter a certeza de que a candidatura do seu filho não iria falhar.

—... et metuant eum omnes fines terrae. Amen.

— Ámen — repetiu Arsénio. Mal podia esperar pelas notícias que

o dia seguinte traria.

Ao acordar ao romper do dia, Joana sorriu ao ver Geraldo a dormir

ao seu lado. Repousou os olhos no seu rosto longo, magro e distinto — tão resplandecente agora na sua beleza como quando ela o tinha visto pela primeira vez, à mesa de um banquete, vinte e oito anos antes.

Será que eu percebi logo naquele momento?, pensou ela. Será que

percebi que o amava? Acho que sim.

Finalmente, tinha acabado por aceitar aquilo que tinha lutado para

negar durante tanto tempo — Geraldo fazia parte dela, era ela, de uma forma insondável que ela nem era capaz de explicar, nem de negar. Eram almas gémeas, ligadas de uma forma inextricável, para sempre, duas metades de um todo perfeito e incapaz de atingir a plenitude um sem o outro.

Não quis aprofundar todas as implicações que esta descoberta

maravilhosa tinha. Bastava viver o momento presente, a felicidade suprema de estar ali, agora, com ele. O futuro não existia.

Ele estava deitado de lado, com a cabeça junto à sua, a boca

ligeiramente aberta, o cabelo longo e vermelho despenteado junto à cara.

Dormindo, parecia vulnerável e jovem, quase um rapazinho. Movida por uma ternura inexprimível, Joana estendeu a mão e

fez-lhe uma festa na cara.

Geraldo abriu os olhos, olhando para ela com uma expressão de

amor e desejo tão intensa que a deixou sem respiração. Sem dizer uma palavra, puxou-a para ele e ela aproximou-se dele.

Estavam novamente a dormitar nos braços um do outro, quando

Joana começou a ouvir um som estranho. Ficou quieta, de ouvido alerta. Estava tudo silencioso. Depois, ela apercebeu-se de que não tinha sido o barulho que a tinha despertado, mas sim o silêncio — a ausência de um barulho constante de água a tamborilar no telhado.

A chuva tinha parado.

Levantou-se e aproximou-se da janela. O céu estava carregado e

cinzento, mas, pela primeira vez em mais de dez dias, havia pedaços de azul no horizonte, com raios de luz através das nuvens.

Graças a Deus, pensou ela. Agora, as inundações vão acabar. Geraldo aproximou-se dela e abraçou-a. Ela encostou-se a ele,

adorando senti-lo.

— Achas que vão começar a procurar-nos já? — perguntou ela. — Acho que sim, agora que a chuva parou.

— Oh, Geraldo! Ela enterrou a cabeça no seu ombro. — Nunca fui

tão feliz nem tão infeliz.

— Eu sei, coração.

— Nunca mais vamos poder estar juntos, pelo menos, assim. Ele tocou no seu cabelo claro.

— Nós não precisamos de regressar, sabes.

Ela olhou para ele, surpreendida.

— O que queres dizer com isso?

— Ninguém sabe que estamos aqui. Se não fizermos nenhum sinal

aos barcos de salvamento quando eles aparecerem, eles vão-se embora. Daqui a um dia, quando as águas descerem, desaparecemos da cidade durante a noite. Ninguém virá atrás de nós porque pensarão que morremos ambos nas cheias. Estaremos livres e juntos.

Ela não respondeu, mas virou-se para voltar a olhar pela janela. Ele esperou pela decisão dela. Estava em causa a sua vida, a sua

felicidade.

Pouco depois, ela virou-se para ele, novamente. Olhando para os

seus olhos verde-acinzentados, cheios de dor, Geraldo percebeu que tinha perdido.

Ela disse, lentamente:

— Não posso fugir à grande responsabilidade que me foi confiada.

O povo acredita em mim, não o posso abandonar. Se o fizesse, tornar-me-ia outra pessoa, uma pessoa diferente da pessoa que tu amas.

Ele sabia que nunca mais voltaria a ter tanto poder sobre ela como

naquele momento. Se usasse o seu poder, se a tomasse nos braços e a beijasse, podia ser que ela concordasse em ir com ele. Mas, seria desonesto. Mesmo que ela cedesse, a sua entrega podia não durar para sempre. Ele não iria tentar persuadi-la a fazer algo de que ela viesse, depois, a arrepender-se. Ela tinha de vir ao seu encontro de livre vontade.

— Eu compreendo — disse ele. — E não te pressionarei mais.

Mas, quero que saibas uma coisa. Só o digo uma vez. És a minha

verdadeira esposa neste mundo e eu, o teu verdadeiro esposo.

Aconteça o que acontecer, faça de nós o tempo e o destino o que

fizer, nada pode alterar isso.

Vestiram-se para estarem prontos para quando os viessem buscar.

Depois, sentaram-se os dois, abraçados um ao outro, Joana com a cabeça pousada sobre o ombro de Geraldo. Estavam sentados assim, encostados um ao outro, quando os barcos de salvamento chegaram.

Quando os levaram de volta ao Patriarchium, Joana manteve a

cabeça baixa, como se estivesse a rezar. Consciente dos olhares vigilantes da guarda, não se atrevia a olhar para Geraldo porque não tinha suficiente controlo sobre os seus sentimentos.

Ao chegarem ao cais, foram rodeados imediatamente por uma

multidão rejubilante, que os aclamava. Apenas tiveram tempo para um último olhar de relance, antes de serem levados, em triunfo, para os seus respectivos aposentos.

 

Capítulo 28

Papa populi, chamavam-lhe eles, o Papa do povo. Contava-se vezes sem conta a história de como o Senhor Papa

tinha saído do seu palácio no dia das cheias, arriscando a sua vida para salvar aquela gente. Onde quer que Joana fosse na cidade, era sempre recebida em júbilo. No caminho, espalhavam pétalas aromáticas de acanto e as pessoas saudavam-na do alto de todas as janelas. Ela encontrava força e consolo no amor do povo, dedicando-se-lhes com um fervor renovado.

Os optimates e o alto clero, por seu lado, estavam escandalizados

com o comportamento de Joana no dia das cheias.

O Vigário de São Pedro sair a correr para salvar as pessoas num

bote — que coisa absurda, uma vergonha para a Igreja e para a dignidade do cargo papal! Encaravam-na com uma antipatia crescente, aumentada pelas diferenças entre ambos: ela era uma estrangeira e eles, eram romanos por nascimento, ela acreditava no poder da razão e da observação e eles acreditavam no poder das relíquias sagradas e dos milagres, ela olhava para o futuro e era progressista e eles eram conservadores, presos aos hábitos e à tradição.

Muitos tinham entrado nas fileiras da burocracia clerical ainda em

crianças. Quando chegaram à idade adulta, foram introduzidos na tradição de Latrão, tornando-se avessos à mudança. Nas suas cabeças, havia uma maneira certa de fazer as coisas e uma maneira errada — e a maneira certa era aquela que era conforme ao que se tinha feito sempre.

Era compreensível que ficassem desconcertados com o estilo de

governação de Joana. Sempre que detectava um problema — a necessidade de um hospício, a injustiça de um funcionário corrupto, uma diminuição no fornecimento de mantimentos - ela procurava agir rapidamente para o corrigir.

Era frustrada frequentemente pela burocracia papal, o sistema de

governo vasto e pesado que, com o passar dos séculos, se tinha transformado numa complexidade labiríntica. Havia literalmente centenas de departamentos, cada um deles com a sua própria hierarquia e as suas próprias responsabilidades guardadas ciosamente.

Impaciente por fazer as coisas, Joana procurava encontrar formas

de contornar a pesada ineficácia do sistema. Quando o Geraldo ficou sem fundos para prosseguir as obras no aqueduto, ela tirou, pura e simplesmente, o dinheiro do tesouro, passando por cima do sistema habitual, de acordo com o qual o pedido tinha de passar pelo departamento do sacellarius ou tesoureiro papal.

Arsénio, sempre à espreita de uma oportunidade, fez o que pôde

para explorar a situação. Procurando Vítor, o sacellarius, abordou a questão com prudência.

— Temo que Sua Santidade não tenha suficientemente em conta

os nossos procedimentos romanos.

— É natural, uma vez que não nasceu aqui — respondeu Vítor,

num tom descomprometido. Homem prudente, não revelaria a sua posição até Arsénio revelar a sua.

— Fiquei chocado ao saber que ele retirou fundos do tesouro, sem

passar pelo vosso departamento.

— Foi bastante... impróprio - admitiu Vítor.

— Impróprio! — exclamou Arsénio. — Meu caro Vítor, no vosso

lugar, eu não seria tão caridoso.

— Não?

— Se eu fosse a vós — disse Arsénio — procurava proteger-me. Vítor abandonou o seu ar de indiferença estudada. — Ouvistes dizer alguma coisa? — perguntou ele ansiosamente.

— Sua Santidade pretende substituir-me?

— Quem sabe? — respondeu Arsénio. — Talvez ele pretenda

acabar com o cargo de sacellarius. Depois, pode tirar os fundos que quiser do tesouro, sem ter de dar quaisquer explicações a ninguém.

— Ele nunca se atreveria!

— Não?

Vítor não respondeu. Esgrimista exímio como ele era, Arsénio,

calculou a jogada seguinte.

— Começo a temer — disse ele — que a eleição de João tenha

sido um erro. Um erro grave.

— Já pensei nisso — admitiu Vítor. — Algumas das ideias de Sua

Santidade — por exemplo, a escola para mulheres... — Vítor abanou a cabeça. — Os caminhos de Deus, realmente, são misteriosos.

— Não foi Deus que pôs João no trono, Vítor, fomos nós. E

Continuar: parte 2 de 3