A Papisa Joana
Capítulo 3 · Era Aranmanoth, o mês da ceifa, o…
Era Aranmanoth, o mês da ceifa, o Outono do seu nono ano de
idade, quando Joana encontrou Asclépios pela primeira vez.
Ele tinha passado pela cabana do cónego, a caminho de Mainz,
onde iria ser professor na escola da catedral.
— Bem-vindo, senhor, bem-vindo! — o pai de Joana saudou
Asclépios, encantado. — Alegramo-nos que tenhais chegado bem. Espero que a viagem não tenha sido demasiado penosa?
Conduziu a sua visita para dentro de casa.
— Vinde refrescar-vos. Gudrun! Traz vinho! A vossa presença
honra muito a minha casa, senhor.
Pelo comportamento do seu pai, a Joana percebeu que Asclépios
devia ser um sábio de renome.
Era grego e vestia-se como os bizantinos. A sua bela clâmide de
linho branco estava presa no ombro com um simples broche de metal e coberta com uma longa capa azul, bordada a fio de prata. Usava o cabelo curto, como um camponês, oleado e cuidadosamente puxado para trás, afastado do rosto. Ao contrário do pai dela, que se barbeava como o clero franco, Asclépios tinha uma barba longa e farta, branca, tal como seu cabelo.
Quando o seu pai a chamou para ser apresentada à visita, ela foi
acometida de uma timidez súbita e ficou, acanhada diante do estranho, com os olhos pregados no entrançado das suas sandálias. O cónego acabou por intervir, mandando-a regressar para junto da mãe, para a ajudar a preparar a ceia.
Quando se sentaram à mesa, o cónego disse:
— É nosso costume ler uma passagem do Livro Sagrado antes de
distribuirmos a comida. Quereis fazer-nos a honra de ler, esta noite?
— Muito bem — disse Asclépios, sorrindo.
Pegou cuidadosamente no livro encadernado a madeira e
desfolhou as frágeis páginas de pergaminho.
— O texto é de Eclesiastes. Omnia tempus habent, et momentum
suum cuique negotio sub caelo...
Joana nunca tinha ouvido falar tão bem latim. A sua pronúncia não
era habitual: as palavras não fluíam juntamente, como no estilo galês; cada uma delas era distinta, como as gotas da chuva.
— Para tudo existe um momento e um tempo para cada coisa sob
o Céu. Um tempo para nascer e um tempo para morrer; um tempo para semear e um tempo para recolher o que se plantou...
Joana tinha ouvido muitas vezes o seu pai a ler a mesma
passagem, mas ao ouvi-la lida por Asclépios, ela adquiriu uma beleza de que ela nunca se tinha apercebido antes.
Quando terminou, Asclépios fechou o livro.
— Um exemplar excelente — disse ele ao cónego, em tom
apreciativo. — Escrito por mão habilidosa. Haveis trazido o manuscrito da Inglaterra; ouvi dizer que a arte ainda é florescente por lá. Hoje em dia, é raro encontrar um manuscrito isento de barbarismos gramaticais.
O cónego corou de satisfação.
— Havia muitos desses na biblioteca de Lindisfarne. Este foi-me
entregue pelo bispo, quando me ordenou para a missão na Saxónia.
A refeição estava esplêndida, a melhor que a família alguma vez
tinha preparado para uma visita. Havia uma coxa de porco assado, cozinhado até a pele ficar estaladiça, milho cozido e beterraba, queijo fundido e fatias de pão fresco, cozido sob as brasas. O cónego tinha trazido cerveja franca, com um gosto apurado, escura e espessa como sopa camponesa. Depois, comeram amêndoas fritas e maçãs assadas.
— Delicioso — disse Asclépios no fim da refeição. — Há muito
tempo que não jantava tão bem. Desde que saí de Bizâncio, ainda não tinha comido carne de porco tão tenra.
Gudrun estava satisfeita.
— É porque nós fazemos criação de porcos e engordamo-los antes
de eles serem abatidos. A carne dos javalis é dura e sensaborona.
— Falai-nos de Constantinopla! — disse João, entusiasmado. É
verdade que as ruas são pavimentadas com pedras preciosas e que as fontes jorram ouro?
Asclépios riu-se.
— Não. Mas, é uma cidade lindíssima.
Joana e João estavam presos aos lábios de Asclépios, enquanto
este descrevia Constantinopla, com edifícios em mármore com cúpulas em ouro e prata, construída sobre um promontório sobre o porto do Corno de Ouro, onde aportavam navios de todo o mundo. Era a cidade onde Asclépios tinha nascido e passado a juventude. Tinha sido obrigado a fugir, quando a sua família se viu envolvida numa disputa religiosa com o basileus, a propósito de qualquer coisa relacionada com a destruição de ícones. Joana não percebeu, ao contrário do pai que abanava a cabeça, em sinal de desaprovação, enquanto Asclépios descrevia a perseguição a que a família tinha sido sujeita.
Então, a discussão derivou para questões teológicas e a Joana e o
seu irmão foram mandados para a parte da casa onde os pais dormiam; como hóspede de honra, Asclépios iria ficar com a cama grande junto à lareira toda para ele.
— Por favor, não posso ficar para ouvir? — pediu Joana à sua
mãe.
— Não. Já passa da hora de estarem a dormir. Além disso, o nosso
convidado já acabou de contar histórias. Esta conversa erudita não te iria interessar.
— Mas...
— Basta, filha. Para a cama! Preciso da tua ajuda amanhã; o teu
pai quer que preparemos outra refeição para o convidado, amanhã. Mais convidados destes e ficamos arruinados — murmurou Gudrun.
Meteu os filhos na cama de palha, beijou-os e saiu. João adormeceu logo, mas Joana ficou acordada, tentando ouvir o
que estavam a dizer do outro lado da grossa divisória em madeira. Por fim, vencida pela curiosidade, levantou-se da cama e aproximou-se da porta, pé ante pé. Pôs-se de gatas, perscrutando na escuridão, onde o pai e Asclépios estavam a conversar, junto à lareira. Estava frio; o calor da lareira não chegava tão longe e Joana só tinha vestida uma camisa de noite em linho. Tremia, mas nem sequer lhe passava pela cabeça ir para a cama; tinha de ouvir o que Asclépios estava a dizer.
A conversa tinha-se orientado para a escola da catedral. Asclépios perguntou ao cónego:
— Conheceis a biblioteca que eles lá têm?
— Sim, claro — disse o cónego, visivelmente satisfeito por lhe ter
sido perguntado. — Passei lá muitas horas. Alberga uma excelente colecção, com mais de setenta e cinco manuscritos.
Asclépios abanou a cabeça, delicadamente, mas pareceu não ter
ficado muito impressionado. Joana não era capaz de imaginar tanto livro junto.
O cónego disse:
— Existem lá cópias do De scriptoribus, ecclesiasticus, de Isidoro,
e Vie gubernatione Dei, de Salviano. Também têm os Commentarii de Jerónimo completos, com ilustrações maravilhosas. E um manuscrito especialmente raro do Hexaemeron, de São Basílio, vosso conterrâneo.
— Têm manuscritos de Platão?
— Platão? — o cónego estava chocado. — Claro que não; os seus
ritos não são apropriados para os estudos de um cristão.
— Ah? Então, não aprovais o estudo da lógica? — Tem o seu lugar no trivium — respondeu o cónego, pouco à
vontade — desde que apoiado em textos apropriados, como os de Agostinho e Boécio. Mas, a fé fundamenta-se na autoridade da Escritura, não na evidência da lógica; por vezes, os homens abalam a sua fé por causa de uma curiosidade tola.
— Estou a perceber.
As palavras de Asclépios foram pronunciadas mais por delicadeza
do que por concordância.
— Mas, talvez me possais responder a isto: porque será que o
homem é dotado de raciocínio?
— A razão é a centelha da essência divina no homem: Então,
Deus criou o homem à Sua própria imagem; criou-o à Sua imagem e semelhança.
— Conheceis bem a Escritura. Então, concordais que a razão é um
dom de Deus?
— Certamente.
Joana aproximou-se mais, saindo da sombra do compartimento;
não queria perder o que Asclépios ia dizer a seguir.
— Então, porquê ter medo de expor a fé à razão? Se Deus no-la
deu, como poderia ela afastar-nos dEle?
O cónego mexeu-se na cadeira. Joana nunca o tinha visto tão
embaraçado. Ele era um missionário, educado para ensinar e pregar, pouco habituado a debates lógicos. Abriu a boca para responder, mas voltou a fechá-la.
— Aliás — prosseguiu Asclépios — não será a falta de fé que leva
os homens a temerem o escrutínio da razão? Se o destino é duvidoso, então o caminho tem que ser percorrido com medo. Uma fé robusta não precisa de ter receio porque se Deus existe, então a razão não pode deixar de nos levar até Ele. Cogito, ergo Deus est, diz Santo Agostinho, penso, portanto Deus existe.
Joana estava a seguir a argumentação com tanta intensidade que se
distraiu e exprimiu alto a sua aprovação. O seu pai olhou severamente para o outro lado da divisória.
Ela escondeu-se novamente na escuridão, sustendo a respiração. Depois, voltou a ouvir o murmúrio de vozes. Benedicite, pensou
ela, não me viram. Voltou sorrateiramente para a enxerga, onde João ressonava.
Muito tempo depois de as vozes se terem silenciado, Joana
continuava acordada no escuro. Sentia-se incrivelmente aliviada e liberta, como se um peso opressivo lhe tivesse sido tirado de cima. Não era por causa dela que o Mateus tinha morrido. O desejo dela de aprender não o tinha morto, apesar do que o pai tinha dito. Nessa noite, ao ouvir Asclépios, ela tinha descoberto que o amor dela pelo conhecimento não era uma abominação, nem era pecaminoso, mas sim a consequência directa de uma capacidade de pensar que era um dom de Deus. Eu penso, portanto, Deus existe. No seu coração, sentia que isto era verdade.
As palavras de Asclépios tinham alumiado uma luz no seu
coração. Talvez amanhã possa falar com ele, pensou ela. Talvez tenha oportunidade de lhe mostrar que sei ler.
A expectativa entusiasmava-a de tal forma, que ela não era capaz
de se libertar dela. Só adormeceu de madrugada.
No dia seguinte, de manhã cedo, a mãe de Joana mandou-a ao
bosque para apanhar frutos da faia e bolota para dar aos porcos. Ansiosa por voltar para casa e para junto de Asclépios, Joana apressou-se a terminar a tarefa. Mas, o chão da floresta, no Outono, estava cheio de folhas caídas e as bagas eram difíceis de encontrar; ela não podia regressar antes de o cesto estar cheio.
Quando voltou, Asclépios estava a preparar-se para sair. — Ah, mas eu tinha pensado que nos daríeis a honra de voltar a
jantar connosco — disse o cónego. — Estava interessado nas vossas ideias sobre o mistério da Trindade e gostaria de continuar a discutir o assunto.
— É muito gentil, mas tenho de estar em Mainz ao cair da tarde. O
bispo está à minha espera e eu estou ansioso por assumir as minhas novas tarefas.
— Claro, claro.
Após uma pausa, o cónego acrescentou:
— Mas, lembrais-vos da nossa conversa acerca do rapaz. Ficais
para assistir à sua lição?
— É o mínimo que posso fazer para agradecer um acolhimento tão
generoso — disse Asclépios com uma gentileza estudada.
Joana tirou a sua costura e instalou-se numa cadeira perto,
tentando ser o mais discreta possível para que o pai não a mandasse embora.
Não precisava de se preocupar. A atenção do cónego estava
totalmente concentrada no João. Esperando impressionar Asclépios com o nível de conhecimentos do seu filho, começou a lição por perguntar a João as regras da gramática, segundo Donato. Foi um erro porque a gramática era o tema em que o João era mais fraco. Como seria de esperar, o seu desempenho foi medíocre, confundindo o ablativo com o dativo, atamancando os seus verbos e acabando por se revelar completamente incapaz de dividir a frase correctamente. Asclépios ouviu solenemente, de sobrolho carregado.
Corado de embaraço, o cónego retirou-se para um campo mais
seguro. Começou com o catecismo de enigmas do grande Alcuíno, no qual João tinha sido bastante treinado. João conseguiu avançar pela primeira parte do catecismo de forma bastante satisfatória.
— O que é um ano?
— Um carro com quatro rodas.
— Quais são os cavalos que o puxam?
— O Sol e a Lua.
— Quantos palácios tem?
— Doze.
Satisfeito com este pequeno sucesso, o cónego avançou para a
parte mais difícil do catecismo. Joana temia o que estava para vir, porque viu que o João estava à beira do pânico.
— O que é a vida?
— A alegria dos bem-aventurados, o desgosto dos infelizes e... e...
— João interrompeu-se.
Asclépios mexeu-se na cadeira. Joana fechou os olhos,
concentrando-se nas palavras, ansiosa de que o João prosseguisse.
— Sim? — incentivou-o o cónego. — E que mais? O rosto do João resplandeceu, inspirado:
— E uma busca da morte!
O cónego acenou afirmativamente.
— E o que é a morte?
Rendido, João olhou para o pai como um veado apanhado numa
armadilha e que vê o caçador a aproximar-se, finalmente.
— O que é a morte? — repetiu o cónego.
Era escusado. O facto de quase ter falhado a última pergunta e o
crescente descontentamento do pai destruiram o que restava da compostura do João. Já não conseguiu lembrar-se de mais nada. O seu rosto contraiu-se; Joana reparou que ele ia começar a chorar. O pai fulminava-o com o olhar. Asclépios olhou com compaixão.
Ela já não suportava mais. O embaraço do irmão, a ira do pai, a
humilhação intolerável diante de Asclépios puseram-na fora de si. Antes que se apercebesse do que estava a fazer, gritou:
— Uma coisa inevitável, uma peregrinação incerta, as lágrimas
dos vivos, o ladrão do homem.
As suas palavras atingiram os outros como um relâmpago.
Olharam todos os três para ela, simultaneamente. Nos seus rostos
adivinhava-se um leque de emoções. No rosto do João havia desgosto. No do pai, indignação. No de Asclépios, espanto. O cónego foi o primeiro a conseguir articular palavra.
— Que insolência é esta? — perguntou ele.
Depois, lembrando-se da presença de Asclépios, disse: — Se não fosse a presença do nosso hóspede, dava-te já o castigo
que mereces. Assim, terá de esperar. Sai da minha vista.
Joana levantou-se da cadeira, lutando para se controlar, até chegar
à porta da cabana, que fechou atrás de si. Depois, correu tão depressa quanto foi capaz, até ao feto que ficava no limite da floresta, onde se atirou para o chão.
Pensou que ia rebentar de dor. Ter sido assim humilhada diante da
única pessoa que tinha querido impressionar!
Não é justo. O João não sabia a resposta e eu sabia. Porque não
haveria de a dar?
Ficou muito tempo a olhar para as sombras das árvores. Poisou no chão um pisco, que começou a depenicar na terra, à
procura de vermes. Encontrou um, encheu o peito, fez um pequeno círculo, gozando o seu troféu.
Como eu, pensou ela, contrariada. Toda inchada de orgulho pelo
que fiz.
Ela sabia que o orgulho era um pecado — já tinha sido castigada
por isso muitas vezes — mas, não podia evitar sentir-se assim. Sou mais esperta do que o João. Porque deverá ele poder estudar e eu não?
O pisco voou. A Joana ficou a olhar, à medida que ele se
transformava numa mancha colorida e distante, no meio das árvores. Agarrou na medalha de Santa Catarina que tinha pendurada ao pescoço e pensou em Mateus. Ele ter-se-ia sentado ali com ela, teria falado com ela, ter-lhe-ia explicado o que ela não era capaz de entender. Tinha tantas saudades dele.
Mataste o teu irmão, tinha dito o pai. Sentiu um aperto na
garganta, ao recordá-lo. O seu espírito continuava a revoltar-se. Ela era orgulhosa, queria mais do que Deus tinha destinado a uma mulher. Mas, porque teria Deus castigado Mateus por causa do pecado dela? Não tinha lógica.
Porque seria que não conseguia libertar-se dos seus sonhos
impossíveis? Toda a gente lhe tinha dito que o seu desejo de aprender era contra a natureza.
Mas, mesmo assim, ela tinha sede de saber, desejava explorar o
vasto mundo das ideias e oportunidades abertas às pessoas que estudavam. As outras raparigas da aldeia não se interessavam por estas coisas. Contentavam-se em assistir à missa, sem perceberem uma única palavra. Aceitavam o que lhes diziam e não procuravam ir mais além. Sonhavam com um bom marido, quer dizer, um homem que as tratasse bem e que não lhes batesse, e com um pedaço de terra para cultivar; nem sequer pensavam em sair do mundo seguro e familiar da aldeia. Eram tão inexplicáveis para a Joana como ela para elas.
Porque sou diferente?, pensava ela. O que há de errado comigo? Soaram passos perto dela e uma mão tocou-lhe no ombro. Era o
João. Ele disse, suavemente:
— O pai mandou-me chamar-te.
Joana pegou-lhe na mão.
— Desculpa.
— Não devias ter feito aquilo. Não passas de uma rapariga. Aquilo era difícil de aceitar, mas ela devia-lhe uma desculpa por
causa de o ter envergonhado diante do convidado.
— Fiz mal. Desculpa.
Ele tentou manter a pose de alguém ferido na sua virtude, mas não
foi capaz.
— Está bem, eu desculpo — disse ele. — Pelo menos, o pai já não
está zangado comigo. Agora... bom, vem ver.
Ele ajudou-a a levantar-se do chão e a limpar-se do pó. De mãos
dadas, regressaram a casa.
Quando chegaram à porta, João mandou a Joana à frente. — Vai — disse ele. — É contigo que eles querem falar. Eles? Joana ficou intrigada, mas não podia perguntar nada porque
já estava diante do seu pai e de Asclépios, que a esperavam à lareira.
Aproximou-se e ficou submissamente diante deles. O seu pai tinha
uma expressão estranha, como se tivesse engolido algo amargo. Resmungou e fez-lhe sinal para que ela se aproximasse de Asclépios, que estava de costas para ela. Pegando nas suas mãos, Asclépios fixou-a com um olhar penetrante.
— Sabes latim? — perguntou ele.
— Sim, senhor.
— Como é que aprendeste?
— Ouvi, senhor, sempre que o meu irmão tinha as suas lições. Ela imaginava a reacção do pai perante esta informação. Baixou os olhos.
— Sei que não o devia ter feito.
Asclépios perguntou:
— Que mais aprendeste tu?
— Sei ler, senhor, e escrever um pouco. O meu irmão Mateus
ensinou-me quando eu era pequena.
Pelo canto do olho, Joana viu o ataque de cólera do pai. — Mostra-me.
Asclépios abriu a Bíblia, procurou uma passagem, depois
estendeu-lhe o livro, marcando a passagem com o dedo. Era a parábola do grão de mostarda, do Evangelho de São Lucas. Ela começou a ler, começando por tropeçar nalgumas palavras latinas - já há algum tempo que não lia.
— "Quomodo assimilabimus regnum Dei aut in qua parabola
ponemus illud?" — A que se assemelha o Reino de Deus? E a que havemos de o comparar?
Continuou, sem hesitação, até ao fim.
— Então ele disse: "É como um grão de mostarda que um homem
plantou no seu jardim e que cresceu, transformando-se numa grande árvore, que abriga as árvores do céu nos seus ramos."
Parou de ler. No silêncio que se seguiu, ela conseguia ouvir a brisa
suave do Outono a passar pelas frinchas do telhado.
Asclépios perguntou, calmamente:
— E compreendes o significado daquilo que leste? — Penso que sim.
— Explica-me.
— Significa que a fé é como um grão de mostarda. Planta-se no
nosso coração, como uma semente num jardim. Se a semente for tratada, cresce, transformando-se numa linda árvore. Se se cultivar a fé, ganha-se o Reino dos Céus.
Asclépios cofiou a barba. Não deu qualquer sinal de aprovação
daquilo que ela tinha dito. Será que ela tinha dado uma interpretação incorrecta?
— Ou... — teve outra ideia.
Asclépios ergueu as sobrancelhas.
— Sim?
— Também pode querer dizer que a Igreja é como uma semente.
A Igreja começou por ser pequena, crescendo escondida, cultivada apenas por Cristo e pelos Doze Apóstolos, mas transformou-se numa grande árvore, uma árvore que abriga o mundo inteiro.
— E as aves que se abrigam nos seus ramos? — perguntou
Asclépios.
Ela pensou rapidamente.
— São os crentes, que encontram salvação na Igreja, como as aves
encontram protecção nos ramos da árvore.
A expressão de Asclépios era enigmática. Voltou a cofiar a barba,
solenemente. Joana resolveu fazer outra tentativa.
— Então... — pensava lentamente, à medida que falava. — O grão
de mostarda pode representar Cristo. Cristo era como uma semente quando foi sepultado na terra e como uma árvore, quando ressuscitou e subiu ao Céu.
Asclépios virou-se para o cónego.
— Ouviu?
O rosto do cónego contorceu-se:
— Ela é apenas uma rapariga. Estou certo que não queria... — A semente como Fé, Igreja, Cristo. — disse Asclépios. —
Alegoria, moralis, anagoge. A exegese escriturística clássica, em três partes. Expressa de uma forma bastante simples, claro, mas, mesmo assim, uma interpretação tão completa como a do próprio Gregório Magno. E isto sem uma educação formal! Espantoso! A criança demonstra uma inteligência extraordinária. Tratarei de ser o seu tutor.
Joana estava encantada. Estava a sonhar? Tinha medo de acreditar
que aquilo estava mesmo a acontecer.
— Claro que não na escola — continuou Asclépios — porque isso
não seria permitido. Arranjarei maneira de vir aqui uma vez por semana. E arranjo-lhe os livros para ela estudar nos outros dias.
O cónego estava contrariado. Este não era o desfecho que ele tinha
esperado.
— Está tudo muito bem — disse ele, para experimentar. — Mas, e
o rapaz?
— Ah, o rapaz? Temo que ele não demonstre qualquer
possibilidade como estudante. Com mais algum estudo, pode ser que fique apto a ser cura de aldeia. A lei só exige que eles saibam ler e escrever e conheçam as formas correctas dos sacramentos. Mas, eu ficar-me-ia por aí. A escola não é para ele.
— Não posso acreditar no que oiço! Quereis ensinar a rapariga e o
rapaz não?
Asclépios encolheu os ombros.
— Um tem talento, o outro não: Não se pode pensar outra coisa. — Uma mulher a estudar!
O cónego estava indignado.
— Ela irá estudar os textos sagrados e o irmão é ignorado? Não o
permitirei. Ou ensinais ambos ou nenhum.
Joana susteve a respiração. Certamente não estaria tão perto de
perder tudo quanto tinha conseguido até aqui. Começou a rezar baixinho, depois, parou. Talvez Deus não aprovasse.
Procurou a medalha de Santa Catarina por baixo da túnica. Ela
compreenderia.
Por favor, rezou ela, silenciosamente. Ajudai-me a consegui-lo.
Far-vos-ei uma boa oferta. Mas, ajudai-me a consegui-lo.
Asclépios parecia impaciente.
— Já vos disse que o rapaz não tem qualquer aptidão para o
estudo. Educá-lo seria uma perda de tempo.
— Então, está decidido — disse o cónego, furioso.
Joana olhou para ele, sem querer acreditar, quando ele se levantou
da cadeira.
— Um momento — disse Asclépios. — Vejo que insistis na vossa
ideia.
— Insisto.
— Muito bem. A rapariga apresenta todos os sinais de possuir um
intelecto prodigioso. Poderá chegar longe se receber a educação adequada. Não posso deixar perder uma oportunidade destas. Já que insiste, serei tutor de ambos.
Joana suspirou.
— Obrigada — disse ela, tanto a Santa Catarina, como a
Asclépios. Era tudo quanto conseguia dizer com uma voz segura. — Trabalharei para o merecer.
Asclépios olhou para ela, com um olhar cheio de uma inteligência
penetrante. Como um fogo interior, pensou Joana.
Um fogo que iluminaria as semanas e meses que se iriam seguir. — Trabalharás mesmo — disse ele.
Havia um esboço de sorriso por baixo das suas espessas barbas
brancas. — Oh, se trabalharás.
Capítulo 4
Roma
O interior do Palácio de Latrão, com as suas abóbadas altas em
mármore parecia deliciosamente fresco em comparação com o calor abrasador das ruas romanas. Quando as grandes portas em madeira da residência papal se fecharam atrás dele, Anastácio ficou ofuscado, momentaneamente cego pela escuridão do Patriarchium. Instintivamente, procurou a mão do pai, depois, recuou, recordando-se.
— Fica direito, não te agarres ao teu pai — tinha dito a sua mãe
naquela manhã, enquanto lhe preparava a roupa. — Já tens doze anos; já é tempo de aprenderes a comportar-te como um homem. — Puxou firmemente pela fivela do seu cinto, pondo-o no lugar. — E olha de frente para aqueles que se te dirigirem. O nome da nossa família não fica atrás de qualquer outro; não deves parecer demasiado serviçal.
Agora, ao recordar-se das suas palavras, Anastácio puxou os
ombros para trás e ergueu a cabeça. Era pequeno para a sua idade, o que constituía um desgosto para si próprio, mas tentava sempre parecer o mais alto possível. Os seus olhos começaram a adaptar-se à luz fraca, pelo que olhou à volta, cheio de curiosidade. Era a sua primeira visita a Latrão, a majestosa residência do Papa, sede de todo o poder em Roma. Anastácio estava impressionado. O interior era enorme, constituído por uma vasta estrutura que albergava os arquivos da Igreja e a Câmara do Tesouro, assim como dezenas de oratórios, triclínios e capelas, entre as quais a célebre capela dos Papas, o Sanctum Sanctorum. Diante de Anastácio, na parede do Grande Átrio, estava pendurada uma enorme tabula mundi, um mapa de parede anotado, representando o mundo como um disco plano rodeado de oceanos. Os três continentes — Ásia, África e Europa — estavam separados pelos grandes rios Tanais e Nilo, assim como pelo Mediterrâneo.
No centro do mundo, estava a cidade santa de Jerusalém, cuja
fronteira leste confinava com o paraíso terrestre. Anastácio observou o mapa e a sua atenção concentrou-se nos grandes, misteriosos e aterradores espaços virgens, nas margens mais longínquas, onde o mundo caía na escuridão.
Aproximou-se um homem com uma dalmática em seda branca,
característica dos membros da casa papal.
— Saudações e bênçãos do Santíssimo Padre, o papa Pascal —
disse ele.
— Que vivamos o suficiente para continuarmos a gozar da sua
orientação benevolente — respondeu o pai de Anastácio.
Depois das devidas formalidades, ambos os homens se
descontraíram.
— Então, Arsénio, como estás? — perguntou o homem. — Vieste
para ver o Teodoro, não?
O pai de Anastácio confirmou:
— Sim. Para tratar das coisas para o meu sobrinho Cosme ser
nomeado arcarius.
Baixando a voz, acrescentou:
— O pagamento já foi feito há semanas. Não percebo porque
motivo o anúncio se atrasou tanto.
— Teodoro tem estado muito ocupado ultimamente. Houve aquele
conflito terrível, sabes, por causa da posse do Mosteiro de Farfa. O Santo Padre ficou muito descontente com a decisão do tribunal imperial.
Aproximando-se mais, acrescentou num sussurro conspirativo: — E ainda mais descontente com o Teo, por causa de ele ter
defendido a posição do imperador. Prepara-te: o Teo é capaz de não poder fazer muito por ti, neste momento.
— Já tinha pensado nisso — disse o pai de Anastácio, encolhendo
os ombros. — Mesmo assim, Teo continua a ser primicerius e o pagamento já foi feito.
— Veremos.
A conversa interrompeu-se abruptamente quando se aproximou
um segundo homem, vestido também com uma dalmática branca.
Anastácio, aproximando-se do pai, sentiu que as suas costas
ficaram um pouco hirtas.
— Que as bênçãos do Santo Padre te acompanhem, Sárpato —
disse o seu pai.
— E a ti, meu caro Arsénio, e a ti — respondeu o homem. A sua
boca retorceu-se numa expressão estranha.
— Ah, Luciano — disse ele, voltando-se para o primeiro homem.
— Estavas tão embrenhado na tua conversa com Arsénio, mesmo agora. Tens notícias interessantes? Adorava ouvi-las. — Acenou afectadamente. — A vida por aqui é tão monótona desde que o Imperador partiu.
— Não, Sárpato, claro que não. Se tivesse novidades, dizia —
respondeu Luciano, enervado.
E disse para o pai de Anastácio:
— Bem, Arsénio, tenho de ir. Tenho que fazer. Curvou-se, virou-se e afastou-se rapidamente.
Sárpato abanou a cabeça.
— Luciano tem andado irritado ultimamente. Não sei porquê. Olhou longamente para o pai de Anastácio.
— Bem, não interessa. Vejo que tens companhia, hoje. — Sim. Posso apresentar-te o meu filho Anastácio? Vai fazer
exame em breve para se tornar lector.
O pai de Anastácio acrescentou, enfaticamente: — O seu tio Teo tem-lhe muita estima; foi por isso que o trouxe
comigo para o nosso encontro.
Anastácio curvou-se.
— Que prospereis no Seu Nome — disse ele formalmente, como
lhe tinham ensinado.
O homem sorriu e os cantos dos seus lábios torceram-se ainda
mais, divertidos.
— Mas, o latim do rapaz é excelente; parabéns, Arsénio. Será um
digno sucessor — a não ser, claro, que partilhe da deplorável falta de discernimento do seu tio.
Prosseguiu sem dar margem para qualquer resposta: — Sim, sim, um excelente rapaz. Que idade tem? A pergunta foi dirigida ao pai de Anastácio.
Anastácio respondeu:
— Fiz doze anos logo a seguir ao Advento.
— Ah sim? Pareces mais novo — disse ele, dando uma
pancadinha na nuca de Anastácio.
Anastácio sentiu antipatia pelo desconhecido. Fazendo-se tão alto
quanto possível, disse:
— E penso que o discernimento do meu tio não pode ser assim tão
mau, senão, não seria primicerius.
O pai de Anastácio beliscou-lhe o braço, em advertência, mas os
seus olhos eram meigos e havia uma ponta de sorriso nos seus lábios. O desconhecido ficou a olhar para Anastácio, exprimindo algo como surpresa? irritação? — nos seus olhos. Anastácio desviou o olhar. Ao fim de algum tempo, o homem voltou a concentrar a atenção no pai de Anastácio.
— Mas que lealdade familiar! Que comovente! Bem, bem,
esperemos que o pensamento do rapaz se revele tão correcto como o seu latim.
Um grande ruído desviou as suas atenções para o outro lado do
átrio, ao mesmo tempo que as pesadas portas se abriam.
— Ah! Aí vem agora o primicerius. Não os interrompo mais. Sárpato curvou-se afectadamente e saiu.
Fez-se silêncio na sala quando Teodoro entrou, acompanhado do
seu cunhado, Leão, recentemente elevado à posição de nomemclator. Parou mesmo à porta para conversar um pouco com alguns clérigos e nobres que estavam ali próximo. Vestido com a sua dalmática em seda rubra e o seu cingulum dourado, Teodoro era, indiscutivelmente, o mais elegante do grupo; ele adorava tecidos finos e manifestava uma certa ostentação no vestir, característica que Anastácio apreciava.
Terminando as saudações formais, Teodoro observou a sala. Ao
ver Anastácio e o seu pai, sorriu e começou a atravessar o compartimento, dirigindo-se para eles. Ao aproximar-se, acenou a Anastácio, e a sua mão direita moveu-se na direcção do bolso da sua dalmática. Anastácio sorriu porque sabia o que aquilo significava. Teodoro, que adorava crianças, trazia sempre presentes para oferecer. «O que será hoje?», pensou Anastácio, abrindo a boca, na expectativa. Um figo maduro, uma ameixa doce, vermelha, talvez um pedaço de maçapão, cremoso e rico, recheado de amêndoas e avelãs doces?
A atenção de Anastácio estava tão concentrada no bolso da
dalmática de Teodoro, que, ao princípio, não reparou na chegada dos outros homens. Eles aproximaram-se rapidamente — três de entre eles — pelas costas; um deles tapou a boca de Teodoro com a mão e puxou-o para trás. Anastácio pensou que era uma espécie de brincadeira. Sorrindo, olhou para o pai, à espera de uma explicação; o seu coração saltou quando viu medo nos olhos do pai. Voltou-se e viu Teodoro a lutar para se libertar. Teodoro era um homem alto, mas a luta era fatalmente desigual. Os homens rodearam-no, agarrando-o pelos braços e atirando-o ao chão. A parte da frente da dalmática rubi de Teodoro estava rasgada, expondo a sua pele branca. Um dos atacantes pegou em Teodoro pelos cabelos e puxou-lhe a cabeça para trás. Anastácio viu um fio de aço brilhar numa torrente de vermelho.
Anastácio estremeceu quando um borrifo atingiu a sua cara.
Levantou os olhos e ficou estupefacto, a olhar para a mão. Era sangue. Do outro lado da sala, alguém gritou. Anastácio viu Leão, o cunhado de Teodoro, desaparecer por entre um turbilhão de atacantes.
Os homens libertaram Teodoro e ele caiu para a frente, de joelhos. Depois, levantou a cabeça e Anastácio gritou de terror. O seu rosto
tinha uma aparência horrível. O sangue jorrava dos buracos negros e vazios, onde outrora, se encontravam os olhos de Teodoro, correndo pelo seu queixo, para os ombros e o peito.
Anastácio escondeu a cara na anca do seu pai. Sentiu as grandes
mãos do pai pousarem nos seus ombros e ouviu a sua voz forte e imperturbável:
— Não — disse o pai. — Não te podes esconder, meu filho. As
suas mãos empurravam-no, afastando-o, forçando-o a ver a cena terrível que se desenrolava diante dos seus olhos. — Olha — mandou a voz — e aprende. Este é o preço que se paga pela falta de subtileza e de arte. Teodoro pagou agora por causa de ter demonstrado tão abertamente a sua lealdade ao imperador.
Anastácio ficou imóvel como uma estátua, enquanto os atacantes
levavam Teodoro e Leão para o centro do átrio. Eles tropeçaram várias vezes, quase caindo no chão em ladrilhos, cheio de sangue. Teodoro gritava algo, mas as palavras não se compreendiam. De boca aberta e os lábios a mexer, o seu rosto ainda era mais assustador.
Os homens forçaram Teodoro e Leão a ajoelharem-se e a baixarem
as cabeças. Um homem levantou uma longa espada e desfechou-a na nuca de Leão, decapitando-o de um só golpe.
Mas, o pescoço de Teodoro era mais forte e ele continuou a lutar;
foram precisos três ou quatro golpes de espada para lhe separar a cabeça do corpo.
Anastácio reparou, pela primeira vez, que os atacantes ostentavam
a cruz vermelha da milícia papal.
— Pai! — gritou ele. — É a guarda! Os guardas da milícia! — Sim.
Ele puxou Anastácio para junto dele. Anastácio estava à beira da
histeria:
— Mas, porquê? Porquê, Pai? Porque haveriam eles de fazer isto? — Obedeceram a ordens.
— A ordens? — perguntou Anastácio. Tentava compreender. —
Quem poderia dar uma ordem destas?
— Quem? Ah, meu filho, pensa.
O rosto do pai estava pálido, mas a sua voz era firme, quando
respondeu:
— Tens de aprender a pensar, para nunca sofreres tal destino.
Pensa: quem tem poder para o fazer? Quem pode dar uma ordem destas?
Anastácio ficou sem palavras, avassalado pela monstruosidade da
ideia que começava a formar-se-lhe na mente.
— Sim.
Agora, as mãos do seu pai pousavam suavemente sobre os seus
ombros.
— Quem, senão o Papa? — disse ele.