A Papisa Joana
Capítulo 18 · A irmandade de Fulda não foi muito…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
A irmandade de Fulda não foi muito afectada pela contenda entre
os irmãos da realeza franca. Tal como uma pedra lançada a um charco, a Batalha de Fontenoy criou grandes ondas nos centros de poder, mas, aqui, na parte oriental do Império, não passou de uma pequena ondulação. É verdade que alguns dos maiores senhores feudais da região tinham ido servir no exército de Luís; de acordo com a lei, qualquer homem livre que possuísse mais de quatro quintas tinha de responder à chamada para o serviço militar. Mas, a vitória rápida e decisiva de Luís implicou o regresso a salvo de todos os homens da região, à excepção de dois.
Os dias corriam como antes, urdidos de forma indistinta na trama
imutável da vida monástica. A colheita bem sucedida tinha resultado num tempo de abundância sem precedentes. Os celeiros da abadia estavam a abarrotar; até os porcos austrasianos, magros e secos, tinham engordado graças à boa alimentação que recebiam.
Então, de repente, aconteceu um desastre. Semanas de chuva
ininterrupta arruinaram a cultura da Primavera. A terra estava demasiado húmida para aceitar os pequenos regos necessários para plantar e as sementes apodreceram à superfície. O pior de tudo foi a humidade que penetrou nos celeiros, apodrecendo os cereais armazenados.
A fome do Inverno seguinte foi a pior de que havia memória. Para horror da Igreja, alguns chegaram a praticar canibalismo. As estradas tornaram-se mais perigosas porque os viajantes eram
assassinados não só por causa dos bens que traziam, mas também por causa do sustento que os seus cadáveres forneciam.
Depois de um enforcamento público em Lorsch, a multidão
esfomeada assaltou a plataforma e arrancou a forca, lutando pela carne ainda quente.
Enfraquecido pela fome, o povo era presa fácil de doenças.
Milhares morreram de peste. Os sintomas eram sempre os
mesmos: dores de cabeça, arrepios e confusão, seguidos de febre alta e de uma tosse violenta. Havia pouco a fazer, para além de despir os doentes, embrulhando-os em panos frescos, para que a temperatura descesse. Se sobrevivessem à febre, tinham alguma possibilidade de recuperar. Mas, eram muito poucos os que sobreviviam à febre.
A santidade das paredes do mosteiro também não oferecia
qualquer protecção contra a peste. O primeiro a cair doente foi o irmão Samuel, o hospitaleiro, cuja posição o levava a ter contactos frequentes com o mundo exterior. Morreu em dois dias. O abade Rábano atribuiu esta desgraça ao carácter mundano de Samuel e à sua afeição intemperada pelos gracejos; afirmou que as aflições da carne não passavam de manifestações exteriores da decadência moral e espiritual. Depois, o irmão Aldoardo, reconhecido por todos como um modelo de piedade e virtude monástica, também foi atingido, seguido de muito perto pelo irmão Hildwin, o sacristão, e muitos outros.
Para surpresa da irmandade, o abade Rábano anunciou que ia fazer
uma peregrinação ao santuário de São Martinho para rezar pela intervenção do santo mártir contra a peste.
— O prior José substituir-me-á em tudo enquanto eu estiver
ausente — disse Rábano. — Obedecei-lhe porque a sua palavra é exactamente como se fosse a minha.
A forma abrupta como Rábano deu a notícia, assim como a
precipitação da sua partida deu muito que falar. Alguns dos irmãos louvavam o abade por causa de ele ir empreender uma viagem tão difícil para bem de todos. Outros murmuravam que o abade se tinha ausentado para escapar ao perigo.
Joana não tinha tempo para debater esses assuntos. Estava
ocupada de manhã à noite a dizer a missa, a ouvir confissões e a administrar os rituais da unctio extrema, cada vez com maior frequência.
Uma manhã, deu pela ausência do irmão Benjamim durante a
vigília. Alma devota como ele era, nunca falhava aos ofícios diários. Quando terminou a cerimónia, Joana apressou-se a ir à enfermaria. Ao entrar na sala comprida e rectangular, veio-lhe ao nariz o cheiro penetrante de gordura de ganso e de mostarda, conhecidas como remédio para doenças de pulmões. A sala estava a abarrotar, camas e enxergas estavam colocadas lado a lado e estavam todas ocupadas. Entre as camas, os irmãos cuja opus mannum era na enfermaria circulavam, ajeitando cobertores, oferecendo água, rezando em silêncio junto àqueles que já estavam suficientemente longe para não necessitarem de qualquer outro conforto.
O irmão Benjamim estava sentado numa cama, explicando ao
irmão Deodato, um dos irmãos mais novos, a melhor forma de aplicar o emplastro de mostarda. Ao ouvi-lo, Joana lembrou-se da primeira vez em que ele lhe tinha ensinado esse mesmo tratamento, havia muito tempo.
Sorriu enternecida, ao recordá-lo. Certamente que se Benjamim
ainda era capaz de dirigir as coisas na enfermaria, era porque não estava muito doente, pensou ela.
Um súbito ataque de tosse interrompeu a rapidez com que as
palavras do irmão Benjamim fluíam. Joana dirigiu-se rapidamente para a sua cama. Mergulhando um pano na malga com água de rosas que se encontrava junto à cama, colocou-a suavemente sobre a fronte de Benjamim. A sua pele estava incrivelmente quente. Benedicite! Como era possível que ele estivesse lúcido com uma febre tão alta?
Por fim, a tosse parou e ele ficou deitado de olhos fechados,
respirando com dificuldade. O seu cabelo grisalho circundava a sua cabeça como uma áurea fraca. As suas mãos, mãos grossas e grandes de lavrador, que possuíam uma gentileza e habilidade inesperadas, jaziam sobre a coberta, abertas e indefesas como as mãos de um bebé. O coração de Joana apertou-se.
O irmão Benjamim abriu os olhos, viu Joana e sorriu. — Vieste — disse ele, fraco. — Ainda bem. Como vês, estou a
precisar dos teus serviços.
— Um pouco de milefólio e de pó de salgueiro põem-vos bom
num instante — disse Joana num tom mais animado do que ela se sentia.
Benjamim abanou a cabeça.
— É como padre e não como médico que eu preciso de ti agora.
Tens de me ajudar a passar para o outro mundo, irmãozinho, porque eu estou a partir deste.
Joana pegou-lhe na mão:
— Não vos entregarei sem lutar.
— Aprendeste tudo quanto te ensinei. Agora, tens de aprender a
resignar-te.
— Não aceitarei perder-vos — respondeu ela firmemente. Nos dois dias que se seguiram, Joana lutou determinadamente pela
vida de Benjamim. Utilizou todas as técnicas que ele lhe tinha ensinado, tentou todos os remédios de que se lembrou.
A febre continuava a subir. O corpo largo e bem guarnecido de
Benjamim mirrava como a película vazia de um casulo depois de o enxame ter partido. Sob a irrupção da febre, começou a aparecer uma lividez horrível.
— Confessa-me. Quero estar plenamente consciente quando
receber o Sacramento.
Ela não podia negar-lho mais tempo.
— Quid me advocasti? — começou ela, segundo as cadências
cerimoniais da liturgia. — O que pretendeis de mim?
— Ut mihi unctionem trados — respondeu ele. — Dá-me a unção. Mergulhando o dedo numa mistura de cinzas e água, Joana fez o
sinal da cruz sobre o peito do irmão Benjamim, depois colocou um pedaço de serapilheira, símbolo da penitência, sobre o desenho que tinha feito.
Benjamim voltou a ser agitado por um forte ataque de tosse. Quando este terminou, Joana reparou que ele tinha cuspido
sangue. Subitamente assustada, apressou-se a recitar os sete salmos penitenciais e a unção ritual dos olhos, ouvidos, nariz, boca, mãos e pés. Parecia que tinha passado muito tempo. Quando terminou, Benjamim jazia com os olhos fechados, completamente imóvel. Joana não sabia se ele ainda estava consciente.
Finalmente, chegou o momento de administrar o viático. Joana
ostentou a Hóstia Sagrada, mas Benjamim não respondeu. É tarde de mais, pensou a Joana. Não lhe fiz o que ele queria.
Chegou a hóstia aos lábios de Benjamim; ele abriu os olhos e
engoliu-a. Joana abençoou-o. A sua voz tremia quando começou a oração sacramental:
— Corpus et Sanguis Domini nostri Jesu Christi in vitam aeternam
te perducat...
Ele morreu de madrugada, quando os suaves cânticos dos Laudes
perpassavam o ar da manhã. Joana mergulhou num profundo desgosto. Desde o momento em que, doze anos antes, Benjamim a tinha apadrinhado, tinha sido sempre um amigo e um mentor.
Mesmo quando as suas obrigações como sacerdote a tinham
afastado da enfermaria, ele tinha continuado a ajudá-la, a encorajá-la, a apoiá-la. Tinha sido um verdadeiro pai para ela.
Incapaz de encontrar consolo na oração, Joana entregou-se ao
trabalho. A missa diária estava ainda mais cheia do que o costume, desde que o espectro da morte tinha trazido o rebanho de fiéis à igreja num número sem precedentes.
Um dia, enquanto Joana oferecia o cálice comum a um dos
comungantes, um homem idoso, olhou para os seus olhos lacrimosos e para o tom sombrio e febril das suas faces.
Passou ao seguinte, uma jovem mãe com uma criancinha com um
rostinho doce nos braços. A mulher estendeu a criança para que ela recebesse o Sacramento; os pequeninos lábios rosados abriram-se para beber do mesmo sítio onde tinha poisado a boca do velho.
Joana afastou o cálice. Pegando num pedaço de pão, molhou-o no
vinho e deu-o à criança. Surpreendida, a menina olhou para a mãe, que acenou encorajadoramente; era um desvio à norma, mas o padre da abadia sabia certamente o que estava a fazer.
Joana prosseguiu pela fila, molhando o pão no vinho, até todos os
comungantes terem recebido o Sacramento.
Imediatamente a seguir à missa, o prior José apareceu. Joana
estava satisfeita de ser a José e não a Rábano que tinha de responder. José não era homem para se agarrar à tradição sem apelo nem agravo, se existisse um argumento suficientemente bom para a mudança.
— Fizeste uma alteração na missa, hoje — disse José. — Sim, Padre.
— Porquê?
A pergunta não era um desafio, apenas fruto da curiosidade. Joana explicou-lhe.
— O velho doente e a criança saudável — repetiu José,
pensativamente. — Uma incongruência repelente, concordo.
— Mais do que uma incongruência — respondeu Joana — penso
que pode ser uma forma de transmissão da doença.
José ficou confundido.
— Como pode ser? É certo que os espíritos malignos podem estar
em toda a parte.
— Talvez não sejam espíritos malignos que provocam a doença —
pelo menos, não são só os espíritos malignos. Pode ser que ela se transmita por contacto físico com as suas vítimas, ou com um objecto em que elas tenham tocado.
Era uma ideia nova, mas não radicalmente. Era sabido que
algumas doenças eram contagiosas; afinal, era por causa disso que os leprosos eram estritamente segregados da sociedade.
Também era indiscutível que a doença atingia famílias inteiras,
ceifando as vidas em poucos dias, senão mesmo, em algumas horas. Mas, não se sabia ao certo qual era a sua causa.
— Transmitida através de contacto físico? Como? — Não sei — admitiu Joana. — Mas, hoje, quando vi o homem
doente e as úlceras abertas na sua boca, senti... — calou-se, frustrada. — Não sei explicar, Padre, pelo menos, ainda não. Mas, enquanto não souber mais qualquer coisa, gostaria de deixar de passar o cálice comunitário e de, em vez disso, molhar o pão no vinho.
— Baseias esta mudança numa simples... intuição? — perguntou
José.
— Se estiver enganado, não resultará nenhum dano do meu erro
porque os fiéis continuarão a comungar tanto o Corpo como o Sangue — argumentou Joana. — Mas, se a minha... intuição estiver certa, então teremos salvo vidas.
José pensou por alguns momentos. Uma alteração na missa não
era algo para tomar de ânimo leve. Por outro lado, João Anglicus era um irmão instruído, conhecido pelos seus talentos como médico. José não se tinha esquecido de que ele tinha curado a mulher leprosa. Então, como agora, não havia muito maior fundamento do que a intuição de João Anglicus. Estas intuições não deviam ser desprezadas porque eram um dom de Deus, pensou José.
— Podes agir assim, por agora — disse ele. — Quando o abade
Rábano voltar, ele dará a sua opinião sobre a questão.
— Obrigado, Padre.
Joana fez uma vénia e saiu rapidamente, antes que o prior José
mudasse de ideias.
Intinctio, era como chamavam à imersão da hóstia no vinho e,
para além de alguns irmãos mais idosos, renitentes nos seus hábitos, a prática recebeu grande apoio por parte da irmandade porque satisfazia tanto a estética da missa como os requisitos de limpeza e higiene. Um monge de Corbie, que passou pelo mosteiro a caminho de casa, ficou tão impressionado que levou a ideia para a sua própria abadia, que também a adoptou.
Entre os fiéis, a frequência das novas ocorrências de peste
abrandou consideravelmente, apesar de não ter cessado. Joana começou a registar cuidadosamente os novos casos de doença, estudando-os para detectar a origem da infecção.
Os seus esforços foram suprimidos pelo regresso do abade
Rábano. Pouco depois da sua chegada, ele chamou Joana aos seus aposentos e confrontou-a com um nítido tom de reprovação.
— O Cânone da Missa é sagrado. Como ousaste alterá-lo? — Padre Abade, a mudança é apenas na forma, não na substância.
E eu acredito que está a poupar vidas.
Joana começou a explicar o que tinha observado, mas Rábano
interrompeu-a.
— Essas observações são inúteis porque não provêm da fé, mas
dos sentidos físicos, nos quais não se pode confiar. São instrumentos do Diabo, com os quais ele afasta os homens de Deus e os aproxima das conjecturas intelectuais.
— Se Deus não desejasse que nós observássemos o mundo
material — ripostou Joana — então porque nos teria dado olhos para ver, ouvidos para ouvir e um nariz para cheirar? Certamente não é pecado usar os dons que Ele Próprio nos deu.
— Lembra-te das palavras de Santo Agostinho: A fé serve para
acreditarmos naquilo que não vemos.
Joana respondeu-lhe à letra:
— Agostinho também diz que nós não poderíamos acreditar se
não tivéssemos mentes racionais. Ele não nos mandaria desprezar o que os sentidos e a razão nos dizem.
Rábano franziu o sobrolho. A sua mente era de um tipo
rigidamente convencional e sem qualquer imaginação, pelo que não gostava de trocas de argumentos racionais, preferindo o chão mais seguro da autoridade.
— Recebe o conselho do teu pai e obedece-lhe — disse ele,
citando a regra sentenciosamente. — Regressa a Deus pelo caminho difícil da obediência, porque te afastaste dEle seguindo a tua própria vontade.
— Mas, Padre...
— Basta, já disse! — Rábano explodiu em ira. O seu rosto estava
lívido. — João Anglicus, a partir deste momento estás dispensado dos teus deveres como padre. Aprenderás a humildade regressando à enfermaria, onde assistirás o irmão Odilo, servindo-o com devoção e obediência.
Joana ia protestar, mas, depois, pensou melhor. Rábano tinha sido
provocado até ao limite; se continuasse a discutir, podia ser muito prejudicada.
Esforçou-se por dobrar a cabeça.
— Como mandais, Padre Abade.
Mais tarde, reflectindo no que tinha acontecido, Joana
compreendeu que Rábano tinha razão; ela tinha sido orgulhosa e desobediente. Mas, para que servia a obediência, se os outros tinham de sofrer por causa dela? A Intinctio significava salvar vidas; ela tinha a certeza. Mas, como poderia convencer o abade? Ele não toleraria qualquer outro argumento vindo dela. Mas, talvez se se deixasse persuadir pelo peso da autoridade estabelecida.
Portanto, agora, para além da Opus Dei e dos seus deveres na
enfermaria, a Joana passava longas horas a estudar na biblioteca, investigando os textos de Hipócrates, Oribasius e Alexandre de Tralles, à procura de qualquer coisa que pudesse apoiar a sua teoria. Trabalhava permanentemente, dormindo apenas duas ou três horas por noite. Até que chegou a um ponto de exaustão.
Um dia, ao debruçar-se sobre um capítulo de Oribasius, encontrou
aquilo que procurava. Estava a copiar a parte mais importante, traduzindo-a, quando começou a sentir dificuldade em escrever; doía-lhe a cabeça e não era capaz de pegar na pena como devia ser. Pensou que era a consequência natural de pouco sono e continuou a trabalhar. De repente, a pena escorregou-lhe da mão, inexplicavelmente, e rolou sobre a página, manchando o vellum limpo com borrões de tinta, que taparam várias palavras. Sorte maldita, pensou ela. Tenho de limpar isto e recomeçar. Tentou pegar na pena, mas os seus dedos tremiam tanto que ela não era capaz de os controlar.
Levantou-se, apoiada à secretária, sentindo-se tonta. Cambaleando em direcção à porta, conseguiu sair precisamente no
momento em que lhe subiu um vómito à boca, fazendo com que ela se dobrasse e ficasse de gatas, vomitando tudo quanto tinha no estômago.
Sem saber como, conseguiu arrastar-se até à enfermaria. O irmão
Odilo deitou-a numa cama vazia e pôs-lhe a mão na testa.
A ela, pareceu-lhe que a sua mão estava gelada. Joana pestanejou, surpreendida:
— Acabaste de lavar as mãos?
O irmão Odilo abanou a cabeça:
— As minhas mãos não estão frias, irmão João. Tu é que estás a
arder de febre. Temo que tenhas sido atingido pela peste.
A peste! Joana estava estonteada. Não, não pode ser. Estou
cansada, nada mais. Se ficar a descansar um pouco...
O irmão Odilo colocou-lhe na fronte uma compressa de linho
embebida em água de rosas.
— Fica deitado quieto, enquanto eu vou buscar um pouco de linho
fresco. Não demoro nada.
A sua voz parecia vir de muito longe. Joana fechou os olhos. Sentia o tecido fresco sobre a pele. Era bom estar deitada,
envolvida num aroma agradável, mergulhando docemente numa escuridão bem-vinda.
De repente, abriu muito os olhos. Iam cobri-la com um pano de
linho molhado para fazerem descer a febre. Para o fazerem, tinham de a despir completamente.
Ela tinha de o impedir. Então, apercebeu-se de que, por muito que
resistisse — e, nas condições em que se encontrava, não seria capaz de resistir muito — os seus protestos seriam tomados como delírios febris.
Sentou-se e pôs os pés no chão. A dor de cabeça regressou
imediatamente, latejante e insistente. Começou a dirigir-se para a porta. A sala rodopiava, mas ela forçou-se a si própria a continuar a andar e a sair. Depois, avançou rapidamente em direcção ao portão. Quando estava próxima, respirou fundo, obrigando-se a endireitar-se à medida que se aproximava de Hatto, o porteiro. Ele olhou para ela com curiosidade, mas não fez nada para a impedir. Uma vez no exterior dirigiu-se para o rio.
Benedicite. O barquinho da abadia encontrava-se ali, atado com
uma simples corda a um ramo de uma árvore. Ela desatou a corda e subiu para o barco, inclinando-se para a margem verdejante para o puxar. Quando o barco se afastou da margem, ela desmaiou.
O barco ficou muito tempo imóvel dentro de água. Depois, a
corrente levou-o, fazendo-o rodar, antes de o impelir para a veloz torrente.
O céu movia-se lentamente, transformando as nuvens altas e
brancas em desenhos exóticos. Um Sol vermelho-escuro tocava o horizonte com os seus raios mais quentes do que o fogo, batendo no rosto de Joana, cegando-a. Ela ficou a olhar, fascinada, enquanto o seu rebordo desaparecia e se dissolvia, formando uma figura humana.
O rosto do seu pai pairava à sua frente, uma cabeça de morto
horrenda e retorcida, sem carne entre as linhas escuras das sobranceLhas. A boca sem lábios abriu-se. Mulier — gritava ela, mas, não era a voz do pai, era a da sua mãe. A boca abriu-se mais e Joana viu que não era uma boca, mas sim um portão escancarado para uma caverna escura. Ao fundo, havia um fogo a arder, lançando grandes labaredas vermelhas-azuladas.
Havia pessoas dentro das chamas e os seus corpos retorciam-se em
pantomimas grotescas de dor. Um deles olhou para a Joana.
Aterrada, ela reconheceu os olhos azuis e o cabelo saxónio
alourado da sua mãe. Ela chamava pela Joana, estendendo-lhe os braços. Joana dirigiu-se para ela; de repente, o chão por baixo dos seus pés desapareceu e ela caiu em direcção ao portão com forma de garganta.
— Mamããããããã! — gritou ela, quando caiu nas chamas... Estava num campo coberto de neve. Villaris brilhava à distância, o
sol a derreter a neve no seu telhado, fazendo com que as gotas de água a cair brilhassem como milhares de pequenas pedras preciosas.
Ela ouviu o rufar de cascos e virou-se para ver Geraldo aproximar-
se dela, montado na Pistis. Ela correu para ele através do campo; ele aproximou-se dela, debruçou-se e pegou-lhe, colocando-a à sua frente sobre a montada. Ela inclinou-se para trás, aconchegando-se nos seus braços que a apertavam com uma força terna. Estava a salvo. Não lhe aconteceria nada porque o Geraldo não permitiria. Cavalgaram juntos em direcção às torres reluzentes de Villaris, com o trote do cavalo a embalá-los suavemente, a embalá-los, a embalá-los...
A visão tinha terminado. Joana abriu os olhos. Por cima da borda
do barco, as copas das árvores eram silhuetas negras e imóveis contra o céu estrelado. O barco tinha encalhado.
Ouviu um murmúrio de vozes vindas de algum lado, mas Joana
não era capaz de compreender o que diziam. Umas mãos pegaram-lhe e tiraram-na do barco. Lembrou-se vagamente de que não podia deixar que a levassem para Fulda, pelo menos, enquanto estivesse doente. Lutou furiosamente, agitando os braços e as pernas, dando pontapés. Ouviu praguejar ao longe.
Sentiu uma dor curta e aguda no queixo e, depois, não sentiu mais
nada.
Joana emergiu lentamente de um poço de escuridão. A cabeça
latejava-lhe e a garganta estava tão seca como se estivesse em carne viva. Passou a língua seca pelos lábios crestados, aspirando gotinhas de sangue da pele rebentada. Doía-lhe o maxilar. Estremeceu quando os seus dedos exploraram um inchaço visível no seu queixo. Onde arranjei isto?, pensou ela.
Depois, uma pergunta mais urgente: onde estou? Estava deitada num colchão de penas num quarto que não
conhecia. A avaliar pela quantidade e qualidade da mobília, o proprietário era próspero: para além da cama enorme na qual ela estava deitada, havia bancos estofados com um tecido macio, uma cadeira de espaldar coberta com almofadas, uma mesa com um tabuleiro comprido, uma escrivaninha e vários baús e malas, muito bem gravadas. Perto dela, ardia uma lareira e, havia pouco, tinham sido colocados sobre as brasas um par de pães frescos, cujo aroma tinha começado a fazer-se sentir.
A alguns passos de distância, encontrava-se uma jovem roliça, de
costas para Joana, amassando massa de farinha.
Quando terminou, sacudiu a farinha da túnica e os seus olhos
poisaram em Joana. Dirigiu-se apressadamente para a porta e chamou alto:
— Marido! Vinde depressa. A nossa visita acordou! Apareceu imediatamente um jovem de rosto largo, grande e
desengonçado.
— Como está ela? — perguntou ele.
Ela? pensou Joana ao ouvir a palavra. Olhou para baixo e viu que
o seu hábito de monge tinha desaparecido; no seu lugar, tinham-na vestido com uma túnica de mulher em linho azul e macio.
Eles sabem.
Esforçou-se para se levantar da cama, mas os seus membros
estavam tão pesados e fracos como água.
— Não deveis fazer esforços.
O jovem tocou-lhe no ombro carinhosamente, metendo-a
novamente na cama. Tinha um ar agradável e honesto, com os olhos redondos e azuis como centáureas.
Quem é ele?, pensou Joana. Será que ele vai contar ao abade
Rábano e aos outros acerca de mim... ou será que já o fez?
Serei realmente sua convidada, ou serei uma prisioneira? — Se... sede — titubeou ela.
O jovem mergulhou uma taça num balde em madeira que se
encontrava junto à cama e encheu-a até cima com água.
Encostou-a aos lábios da Joana e inclinou-a cuidadosamente,
deixando cair uma corrente de pequenas gotas na sua boca.
Joana agarrou a taça, inclinando-a para que a água escorresse mais
depressa. O líquido fresco era a coisa mais doce que ela alguma vez já tinha provado. O jovem acautelou-a:
— É melhor não beber de mais. Há mais de uma semana que não
tem bebido senão umas colheres.
Há mais de uma semana! Estava ali havia tanto tempo? Não se lembrava de nada, depois de ter entrado no pequeno barco
de pesca.
— On... onde estou? — murmurou ela a custo. — Estais na propriedade do senhor Riculf, cinquenta milhas a sul
de Fulda. Encontrámos o vosso barco encalhado nos ramos das árvores junto à margem do rio. Estáveis a delirar de febre. Mas, doente como estáveis, ainda haveis tentado impedir-nos de vos trazermos.
Joana tocou no inchaço que tinha no maxilar. O jovem sorriu. — Perdão. Não era possível chamar-vos à razão no estado em que
estáveis quando vos encontrámos. Mas, não vos preocupeis, pois destes quase tanto quanto haveis recebido.
Ele levantou a manga, mostrando uma nódoa negra, enorme e com
mau aspecto, no seu ombro direito.
— Haveis-me salvado a vida — disse Joana. — Obrigado. — De nada, Não fiz mais do que retribuir o que haveis feito por
mim e pelos meus.
— Eu... conheço-vos? — perguntou ela, surpreendida. O jovem sorriu.
— Imagino que mudei bastante desde a última vez que nos vimos.
Nessa altura, eu tinha apenas doze anos, quase treze, Vejamos... — Começou a contar pelos dedos, utilizando o método de contagem beda, — Foi há seis anos. Seis vezes trezentos e sessenta e cinco dias, bem, são... dois mil cento e noventa dias!
Os olhos de Joana abriram-se, ao reconhecê-lo. — Arn! — gritou ela, e ele abraçou-a, imediatamente,
entusiasmado.
Não falaram mais um com o outro nesse dia porque Joana ainda
estava muito fraca e Arn não queria que ela se esforçasse.
Depois de ter comido algumas colheres de caldo, adormeceu
imediatamente. Acordou no dia seguinte, sentindo-se mais forte e, mais encorajador ainda, esfomeada. Tomando o pequeno-almoço com Arn, no que comeu uma fatia de pão e um pedaço de queijo, ouviu atentamente enquanto ele lhe contava tudo quanto tinha acontecido desde a última vez que se tinham encontrado.
— Tal como haveis previsto, o padre abade ficou tão satisfeito
com o nosso queijo que nos aceitou como prebendarii, prometendo-nos uma vida desafogada em troca de cem libras de queijo por ano, mas isso já vós sabeis.
Joana abanou a cabeça afirmativamente. O extraordinário queijo
miado de azul, de aspecto repelente e sabor requintado tinha-se tornado o alimento principal à mesa do refeitório. Os hóspedes da abadia, tanto leigos como monges, ficavam tão encantados com a sua qualidade, que a procura aumentou em toda a região.
— Como está a vossa mãe? — perguntou a Joana. — Muito bem. Voltou a casar com um homem bom, um criador de
gado. O leite dos seus animais permitiu-nos fazer ainda mais queijo, O negócio aumenta de dia para dia e eles são felizes e prósperos.
— Não menos do que tu. — Com um gesto, Joana apontou para a
casa grande e bem cuidada.
— Devo-vos a minha boa sorte — disse Arn. — Na escola abadia
aprendi a ler e a trabalhar com números — capacidades que me deram muito jeito à medida que o negócio crescia e se tornou necessário fazer contas exactas.
Ao saber o que eu sabia fazer, o senhor Riculf tomou-me para seu
intendente. Administro a sua propriedade aqui e guardo-a de caçadores e pescadores furtivos. Foi assim que eu encontrei o vosso barco.
Joana abanou a cabeça, pensativa, recordando-se de Arn e da sua
mãe, havia seis anos, vivendo na sua cabana exígua como criados e coloni — condenados, segundo parecia, a uma vida de pobreza e fome. E agora, Madalgis tinha voltado a casar, era uma negociante próspera e o seu filho um intendente de um senhor poderoso! Vitaem regit fortuna, pensou Joana. Na verdade, é a sorte, que governa a vida humana — a minha e a de todos os outros.
— Esta é a minha mulher, Bona, e a nossa filhinha, Arnalda —
disse Arn, orgulhoso. Bona era uma jovem bonita com os olhos sorridentes e de sorriso pronto, mais nova do que o seu marido — tinha dezassete invernos, no máximo, já era mãe e o seu ventre inchado revelava que estava outra vez grávida. Arnalda parecia um anjinho, de olhos azuis muito redondos e cabelo louro aos caracóis. Tinha as faces rosadas e era adorável.
Sorriu para Joana, mostrando uma fila de dentes de leite. — Uma bela família — disse Joana. Arn sorriu e virou-se para a
mulher e a filha:
— Venham falar... — hesitou, — Como vos hei-de chamar?
«Irmão João» é estranho, sabendo nós... o que sabemos.
— Joana — a palavra era simultaneamente estranha e familiar
para os ouvidos dela. — Chamai-me Joana porque é esse o meu verdadeiro nome.
— Joana — repetiu Arn, satisfeito por lhe ter sido confiado esse
segredo, — Contai-nos, então, se quiserdes, como viestes viver para os Beneditinos de Fulda, porque isso é uma coisa que parece quase impossível. Como haveis conseguido? O que vos levou a fazê-lo? Alguém sabia o vosso segredo? Ninguém desconfiava?
Joana riu-se.
— Vejo que o tempo não abrandou a tua curiosidade. Não valia a pena decepcioná-lo. Joana contou tudo a Arn, desde a
sua educação pouco ortodoxa na escola de Dorstadt, até aos anos que passou em Fulda e ao seu acesso no presbiterado.
— Então, os irmãos ainda não sabem nada de vós — disse Arn,
pensativo, quando ela terminou.
— Pensámos que talvez tivésseis sido descoberta e que tivesse
sido por isso que havíeis sido forçada a fugir... Então, podeis regressar! Podeis fazê-lo, se quiserdes. Mais depressa morreria na forca do que alguém me conseguiria arrancar o vosso segredo!
Joana sorriu. Apesar de parecer um homem, Arn continuava a ser
o rapazinho que ela tinha conhecido.
Ela disse:
— Felizmente, não é necessário tal sacrifício. Fugi a tempo; a
irmandade não tem motivo para desconfiar de mim. Mas... não estou certa de que voltarei.
— Então, o que ireis fazer?
— Boa pergunta — disse Joana. — Uma pergunta mesmo muito
boa. Por agora, ainda não sei a resposta.
Arn e Bona tratavam dela como um par de mães-galinha ansiosas,
recusando-se a deixá-la levantar-se da cama durante mais uns dias.
— Ainda não estais suficientemente forte — insistiam eles. Joana não tinha grande alternativa senão resignar-se à solicitude
deles. Passava o tempo a ensinar as letras e os números à pequena Arnalda. Apesar de ainda ser muito novinha, já manifestava as aptidões do pai para aprender e respondia depressa, encantada com a atenção de uma companhia tão divertida.
Quando, ao fim do dia, Arnalda ia dormir, Joana ficava acordada a
pensar no seu futuro. Deveria regressar a Fulda?
Tinha passado quase doze anos na abadia, tinha crescido dentro
dos seus muros; era difícil imaginar-se em qualquer outro lugar. Mas, tinha de enfrentar os factos: tinha vinte e sete anos, já não era jovem. Os irmãos de Fulda, gastos pelo clima rigoroso, a dieta espartana e os quartos frios, raramente viviam para além dos quarenta anos; o irmão Deodato, o mais velho da comunidade, tinha cinquenta e quatro anos. Quanto tempo poderia ela resistir ao envelhecimento — antes de voltar a ser atingida pela doença e de ser forçada a voltar a fugir ao risco de ser descoberta e morta?
Além disso, havia que considerar o abade Rábano. Ele estava
decidido a hostilizá-la e não era homem para mudar de atitude.
Se ela regressasse, que rigores e castigos teria ainda que enfrentar? O seu espírito exigia mudança. Não havia livro na biblioteca de
Fulda que ela não tivesse lido, não havia racha no tecto do dormitório que ela não conhecesse de cor. Há anos que ela tinha deixado da acordar de manhã na alegre expectativa de acontecer algo novo e interessante. Desejava explorar um mundo maior.
Para onde poderia ir? Regressar a Ingelheim? Agora, que a mamã
tinha morrido, não havia lá nada que lhe interessasse.
Dorstadt? O que poderia encontrar lá — Geraldo, ainda à espera,
acalentando o seu amor por ela, depois de tantos anos?
Que tolice. Era quase certo que ele tinha voltado a casar e não
ficaria contente com o reaparecimento súbito de Joana.
Além disso, havia muito que ela tinha escolhido uma vida
diferente — uma vida em que o amor por um homem não desempenhava qualquer papel.
Não, tanto Geraldo quanto Fulda pertenciam ao passado. Ela tinha
de olhar determinadamente para o futuro — qualquer que ele fosse.
— Bona e eu decidimos — disse Arn. — Tendes de ficar
connosco. Seria bom ter outra mulher em casa para fazer companhia à Bona e a ajudar a cozinhar e a fiar — especialmente agora, com a vinda do bebé.
A sua condescendência era irritante, mas a oferta tinha boa
intenção, pelo que Joana respondeu com delicadeza:
— Temo que esse negócio não seja bom. Eu sempre fui uma fraca
costureira, sem jeito para fiar e sem qualquer préstimo na cozinha.
— Bona teria todo o prazer em ensinar-v...
— A verdade é que eu vivi demasiado tempo como um homem
para voltar a ser uma mulher como deve ser, se é que alguma vez o fui! — interrompeu Joana. — Não, Arn — ela deu largas ao seu protesto — a vida de um homem serve-me. Gosto demasiado dos seus benefícios para prescindir deles de bom grado.
Arn pensou durante algum tempo e disse:
— Então, mantende o vosso disfarce. Não importa. Podeis ajudar
no jardim... ou ensinar a Arnaldinha! Já a haveis cativado com as vossas lições e jogos, como haveis feito comigo.
Era uma oferta generosa. Ela não podia pedir maiores facilidades
ou segurança do que aquela que encontraria no seio desta família feliz e próspera. Mas, o mundo deles, estreito e protegido, era demasiado pequeno para conter o espírito de aventura que ela tinha redescoberto. Não trocaria quatro paredes por outras quatro.
— Bendito sejais, Arn, pelo vosso coração bondoso. Mas, tenho
outros planos.
— Quais?
— Vou tomar o caminho dos peregrinos.
— Para Tours e o túmulo de São Martinho?
— Não — disse Joana — para Roma.
— Roma! — Arn estava espantado. — Estais louca?
— A guerra já terminou, haverá outros a fazerem a mesma
peregrinação.
Arn abanou a cabeça.
— O meu senhor Riculf disse-me que Lothar não resignou, apesar
da sua derrota em Fontenoy. Retirou-se para o palácio imperial em Aachen e anda à procura de homens para preencherem os lugares vazios nas suas hostes, O meu senhor diz que ele até se manifestou aberto aos Saxónios, oferecendo-lhes a possibilidade de voltarem a adorar os seus deuses pagãos se estiverem dispostos a lutar por ele!
Como a mãe se teria rido, pensou Joana, com esta mudança
inesperada no rumo dos acontecimentos: um rei cristão a oferecer-se para restabelecer o culto dos antigos deuses. Ela imaginava o que a mãe teria dito: o gentil deus-mártir dos cristãos pode servir para coisas comuns, mas, para ganhar batalhas, é preciso invocar Thor e Odin e os outros destemidos deuses-guerreiros do seu povo.
— Não podeis ir com as coisas por resolver como estão — disse
Arn. — É demasiado perigoso.
Ele tinha razão. O conflito entre os irmãos reais tinha resultado
num colapso completo da ordem civil. As estradas sem guarda tinham-se tornado alvos fáceis para bandos de malfeitores assassinos e fora-da-lei.
— Eu saberei proteger-me — disse Joana. — Quem quererá
alguma coisa de um padre peregrino, sem nada de valor, a não ser a roupa que traz no corpo?
— Alguns desses demónios matar-vos-iam pela roupa, quanto
mais pelos paramentos! Proibo-vos de irdes sozinha! — Ele falou com uma autoridade que nunca teria assumido se ainda pensasse que ela era um homem.
Ela disse num tom seco:
— Eu sou dona de mim mesmo, Arn. Vou onde quero. Reconhecendo o seu erro, Arn arrependeu-se imediatamente. — Pelo menos, esperai três meses — sugeriu ele. — Os
mercadores de especiarias aparecem nessa altura para trocarem as suas mercadorias. Viajam bem escoltados porque não querem correr riscos com a sua mercadoria preciosa. podem dar-vos protecção até Langres.
— Langres! Essa não é a estrada mais directa, pois não?
— Não — concordou Arn. — Mas, é a mais segura. Em Langres
há uma hospedarie para peregrinos que se dirigem para sul; não haverá dificuldade em encontrar um grupo de viajantes que sejam companhia segura.
Joana pensou.
— Talvez tenhais razão.
— O meu senhor Riculf fez a mesma peregrinação há alguns anos.
Tem um mapa do caminho que seguiu; tenho-o aqui.
Abriu uma arca, pegou num pedaço de pergaminho e desenrolou-o
com cuidado. Estava enegrecido e gasto pelos anos, mas a tinta não tinha desaparecido, as linhas percebiam-se nitidamente, assinalando o caminho para Roma.
— Farei como sugeres, Arn — disse Joana. — Três meses de
atraso não é muito. Dá-me mais tempo para estar com a Arnalda. Ela é muito esperta e vai muito bem nas lições!
Arn começou a enrolar o pergaminho.
— Gostaria de ter mais tempo para estudar o mapa, se for
possível.
— Gastai o tempo que quiserdes, Vou aos estábulos ver como está
a tosquia.
Arn saiu a sorrir, contente por ter sido capaz de a convencer. Joana
respirou fundo, enchendo os pulmões com os aromas doces do início da Primavera. O seu espírito elevou-se como um falcão liberto das suas grilhetas, subitamente entregue à liberdade miraculosa do vento e do céu. Àquela hora, os irmãos de Fulda estavam reunidos dentro da sala escura do capítulo, apinhados nos bancos em pedra, ouvindo o irmão Ecónomo a prestar as contas da abadia, Mas, ela estava ali, livre e sem impedimentos, com a aventura da sue vida diante dos olhos.
Joana estudou o mapa, sentindo uma onda de excitação. Havia
uma estrada boa e larga dali até Langres. Em Langres, a estrada rumava para sul, passando por Besançon e Orbe, descendo ao longo do lago de São Maurice e entrando em Le Valais. No sopé dos Alpes, havia uma hospedaria monástica onde os peregrinos podiam descansar e abastecer-se para o árduo caminho pelas montanhas, através de São Bernardo — a passagem dos Alpes melhor e mais frequentada. Uma vez passados os Alpes, a longa Via Francigena passava directamente por Aosta, Pavia e Bologna, na Toscânia, e chegava a Roma. Roma.
Os maiores pensadores do mundo reuniam-se naquela cidade; as
suas igrejas albergavam tesouros incontáveis, as suas bibliotecas acumulavam uma sabedoria centenária. Certamente que, ali, junto dos túmulos sagrados dos apóstolos, Joana haveria de descobrir o que procurava. Em Roma, descobriria o seu destino.
Estava a carregar a sua mula — Arn tinha insistido que ela a
levasse para a viagem — quando a pequena Arnalda saiu de casa a correr, com o seu cabelo louro ainda desalinhado de ter estado a dormir.
— Onde vais? — perguntou o rostinho angelical, ansiosamente. Joana ajoelhou-se de forma a que o seu rosto ficasse ao nível do
da criança.
— Vou para Roma — respondeu ela — a Cidade das Maravilhas,
onde vive o Papa.
— Gostas mais do Papa do que de mim?
Joana riu-se.
— Nunca o vi. E não há ninguém de quem eu goste tanto como
gosto de ti, pardalinho.
Afagou o cabelo macio da criança.
— Então, não vás — Arnalda pôs os braços em torno do pescoço
de Joana. — Eu não quero que tu vás.
Joana abraçou-a. O corpinho da criança encostou-se ao seu,
enchendo os seus braços e o seu coração. Eu podia ter tido uma menina assim, se tivesse escolhido outro caminho. Uma menina em quem pegar e a quem mimar — e ensinar. Recordou-se do desgosto que tinha sentido quando Asclépios tinha partido.
Tinha-lhe deixado um livro para ela poder continuar a estudar. Mas, ela, que tinha fugido do mosteiro apenas com a roupa que
tinha no corpo, não tinha nada para dar à criança.
Excepto...
Joana meteu a mão na túnica e puxou o medalhão que tinha usado
desde o dia em que Mateus lho tinha posto ao pescoço:
— Esta é a Santa Catarina. Ela era muito inteligente e muito
corajosa, como tu.
Contou-lhe a história de Santa Catarina.
Os olhos de Arnalda ficaram ainda mais redondos de espanto. — Ela era uma rapariga e fez isso?
— Sim. E tu também podes fazer, se continuares a estudar. Joana tirou o medalhão do pescoço e pô-lo ao pescoço de Arnalda. — Agora, é teu. Toma conta dele.
Arnalda agarrou no medalhão, com o rostinho contorcido, num
esforço para não chorar.
Joana despediu-se de Arn e de Bona, que tinha saído para se
despedir dela. Bona deu-lhe um farnel e um odre em pele cheio de cerveja.
— Tendes aí pão e queijo e um pouco de carne seca — o
suficiente para um dia, até chegardes à hospedaria.
— Obrigado — disse Joana. — Nunca esquecerei a vossa
generosidade.
Arn disse:
— Lembrai-vos, Joana. Sois sempre bem-vinda. Esta casa é vossa. Joana abraçou-os.
— Ensina a menina — disse ela. — Ela é inteligente e tão
desejosa de aprender como tu eras.
Montou na mula. A pequena família rodeou-a, com um ar triste.
Parecia ser seu destino deixar sempre para trás aqueles que amava. Era o preço a pagar pela vida estranha que tinha escolhido, mas ela sabia o que fazia, pelo que não valia a pena lamentar-se.
Joana pôs a mula a trote. Com um último aceno por cima do
ombro, virou-se para a estrada do sul — e para Roma.
Capítulo 19
Roma, 844
Anastácio poisou a sua pena, esticando os dedos para se libertar de
uma cãibra. Observou com orgulho a página que tinha acabado de escrever — a última entrada na sua obra-prima, o Liber pontificalis, ou Livro dos Papas, um registo pormenorizado dos papados do seu tempo.
Anastácio passou a mão, carinhosamente, pelo velum imaculado
que estava diante de si. Naquelas páginas em branco seriam um dia registados os feitos, os triunfos, a glória do seu papado.
Como o seu pai, Arsénio, ficaria orgulhoso! Apesar de a família
de Anastácio ter acumulado muitos títulos e honrarias ao longo dos anos, tinha-lhes escapado a honra máxima do trono papal. Uma vez, tinha parecido a Arsénio que a ia alcançar, mas, o tempo e as circunstâncias tinham conspirado contra ele e a oportunidade tinha passado.
Agora, era a vez de Anastácio. Ele tinha de fazer, ele ia fazer jus à
fé que o seu pai depositava nele, tornando-se Senhor Papa e Bispo de Roma.
Não imediatamente, é claro. A ambição desmedida de Anastácio
não o impedia de ver que o seu tempo ainda não tinha chegado.
Ele só tinha trinta e três anos e a sua posição como primicerius,
apesar de ser de um grande poder, era um cargo demasiado secular para poder ascender a partir dele à catedral Sagrada de São Pedro.
Mas, a sua situação em breve iria mudar. O papa Gregório jazia no
seu leito de morte. Uma vez passado o tempo formal de luto, haveria eleições para o novo Papa — uma eleição cujos resultados Arsénio tinha influenciado de forma determinante através de uma mistura habilidosa de diplomacia, suborno e ameaça. O Papa seguinte seria Sérgio, cardeal da Igreja de São Martinho, fraco e descendente corruptível de uma família romana nobre.
Ao contrário de Gregório, Sérgio era um homem que sabia muito
bem como era o mundo; saberia como exprimir a sua gratidão àqueles que o tinham ajudado a chegar ao seu lugar. Pouco depois da eleição de Sérgio, Anastácio seria nomeado bispo de Castellum, posição perfeita a partir da qual ascenderia ao trono papal, depois de chegar a vez de Sérgio partir.
Era um quadro perfeito, excepto num pormenor — Gregório ainda
vivia. Como uma vinha envelhecida, cujas raízes se tinham aprofundado para sugar alimento do solo árido, o velho homem estava teimosamente agarrado à vida. Prudente e contemplativo na sua vida pessoal, tal como no seu papado, Gregório agia com uma lentidão desesperante, até na sua morte.
Tinha reinado durante dezassete anos, mais tempo do que qualquer
outro papa desde Leão III, de boa memória. Um homem bom, modesto, bem intencionado, piedoso, Gregório era muito amado pelo povo romano. Tinha sido patrono solícito da população da cidade, constituída por peregrinos miseráveis, dando-lhes abrigo e arranjando-lhes casas de refúgio, providenciando para que fossem distribuídas esmolas generosas em todos os dias de festa e nas procissões.