A Papisa Joana

Donna Woolfolk Cross · Capítulo 2 de 9

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A Papisa Joana

Capítulo 2 · O estilete de madeira moveu-se rapidamente, formando letras e

palavras na macia cera amarela sobre a tábua. Joana, atenta, estava junto ao ombro de Mateus, enquanto ele copiava a lição do dia. De vez em quando, parava para passar a chama da vela sobre a tábua, de forma a impedir a cera de endurecer demasiado rapidamente.

Ela adorava ver o Mateus a estudar. O seu estilete pontiagudo

transformava a cera informe em linhas de símbolos de uma beleza misteriosa. Ela desejava compreender o que cada sinal significava e seguia intensamente cada movimento do estilete para descobrir a chave do significado na forma das letras.

Mateus poisou o estilete e recostou-se na cadeira, esfregando os

olhos. Aproveitando a oportunidade, Joana aproximou-se da tábua e apontou para uma palavra.

— O que diz aqui?

— Jerónimo. É o nome de um grande Padre da Igreja. — Jerónimo — repetiu ela lentamente. — É um nome parecido

com o meu.

— Algumas das letras são as mesmas — assentiu Mateus,

sorrindo.

— Mostra-me.

— É melhor não. O pai não ia gostar, se descobrisse.

— Ele não descobre. Por favor, Mateus. Eu quero saber. Por favor,

mostras-me?

Mateus hesitou.

— Acho que não há mal nenhum em te ensinar a escrever o teu

nome. Pode ser útil, um dia, quando fores casada e tiveres uma casa para governar.

Colocando a mão sobre a mãozinha da irmã, ajudou-a a desenhar

as letras do nome dela: J-O-A-N-A, com um grande a com aselha no fim.

— Muito bem. Agora experimenta tu.

Joana agarrou no estilete com força, forçando os dedos a

colocarem-se na estranha e rígida posição, de forma a formarem as letras que ela tinha fixado na sua mente. Deu imediatamente um grito frustrado, ao aperceber-se de que não era capaz de pegar no estilete como devia ser.

Mateus consolou-a:

— Devagar, irmãzinha, devagar. Só tens seis anos. Escrever não é

fácil com a tua idade. Também foi com essa idade que eu comecei e lembro-me. Tem paciência; acabarás por conseguir.

No dia seguinte, ela levantou-se cedo e saiu. Na terra mole à volta

da pocilga, desenhou as letras tantas vezes até ter a certeza de que as tinha feito correctamente. Depois, orgulhosa, chamou o Mateus, para ele testemunhar a obra dela.

— Muito bem, irmãzinha. Mesmo muito bem. Mas — murmurou,

culpado — o pai não pode saber disto.

Passou o pé por cima do esterco, apagando as marcas que ela tinha

feito.

— Não, Mateus, não!

Joana tentou afastá-lo. Perturbados pelo barulho, os porcos

começaram a grunhir em coro.

Mateus debruçou-se para a abraçar.

— Está bem, Joana. Não fiques triste.

— M-mas, tu disseste que as minhas letras estavam bem! — Elas estão bem.

Mateus estava surpreendido com a sua perfeição; melhor do que o

João era capaz de fazer e era três anos mais velho.

Realmente, se a Joana não fosse uma rapariga, Mateus diria que,

um dia, ela daria um óptimo escriba. Mas, era melhor não meter ideias estranhas na cabeça da criança.

— Não podia deixar ficar as letras para o pai ver; foi por isso que

as apaguei.

— Ensinas-me mais letras, Mateus, ensinas?

— Já te mostrei mais do que devia.

Ela disse com gravidade:

— O pai não descobre. Eu nunca lhe irei contar, prometo. E

apagarei as letras com todo o cuidado quando tiver acabado.

Os seus olhos de um verde-acinzentado profundo prenderam os

seus intensamente, determinados a fazer com que ele concordasse.

Mateus abanou a cabeça, divertido. Não havia dúvida de que ela

era persistente, esta sua irmãzinha. Afectuosamente, beliscou-lhe o queixo:

— Muito bem — assentiu ele. — Mas não te esqueças que é o

nosso segredo.

A partir daí, aquilo tornou-se uma espécie de jogo entre eles.

Sempre que havia oportunidade, não tantas vezes quanto Joana desejava, Mateus mostrava-lhe como desenhar letras no chão. Ela era uma aluna ávida de aprender; apesar de estar ciente das consequências, Mateus não conseguia resistir ao seu entusiasmo. Ele também adorava aprender; a paixão dela falava-lhe ao coração.

Mesmo assim, até ele ficou chocado quando ela veio ter com ele

um dia, carregando a enorme Bíblia com encadernação em madeira, que pertencia ao pai de ambos.

— O que estás a fazer? — gritou ele. — Vai pôr isso no sítio;

nunca lhe devias ter mexido!

— Ensina-me a ler.

— O quê?

A audácia dela era espantosa.

— Ora, vamos lá, irmãzinha, isso é pedir muito. — Porquê?

— Bem... porque ler é muito mais difícil do que limitar-se a

aprender o alfabeto. Duvido mesmo que fosses capaz de o aprender.

— Porque não? Tu aprendeste.

Ele sorriu indulgentemente:

— Sim, mas eu sou um homem.

Isto não era bem verdade porque ele ainda não tinha atingido treze

invernos. Dali a pouco mais de um ano, quando fizesse catorze, então, seria verdadeiramente um homem. Mas, agradava-lhe reclamar o privilégio já agora e, além disso, a sua irmãzinha não percebia a diferença.

— Eu sou capaz. Eu sei que sou.

Mateus suspirou. Isto não ia ser fácil.

— Não é só isso, Joana. É perigoso e contra a natureza uma

mulher aprender a ler e a escrever.

— Santa Catarina aprendeu. O bispo disse no sermão, lembras-te?

Ele disse que ela era admirada pela sua sabedoria e erudição.

— É diferente. Ela era santa. Tu és apenas uma... rapariga. Então, ela calou-se. Mateus ficou contente por ter ganho a

discussão com tanta facilidade; ele sabia o quanto a sua irmãzinha podia ser determinada. Estendeu a mão para pegar na Bíblia. Ela fez menção de lha dar, mas puxou-a para si:

— Porque é que Catarina é uma santa? — perguntou ela. Mateus fez uma pausa, com as mãos ainda estendidas. — Ela era uma santa mártir que morreu pela sua Fé. O bispo disse

no sermão, lembras-te?

Não conseguiu resistir a imitá-la.

— Porque é que ela foi martirizada?

Mateus suspirou.

— Ela desafiou o imperador Maxêncio e cinquenta dos seus

conselheiros, provando, através de uma argumentação lógica, que o paganismo era um erro. Foi castigada por isso. Vamos, irmãzinha, dá-me o livro.

— Que idade tinha ela quando fez isso?

Mas que perguntas tão esquisitas que aquela criança lhe fazia! — Não quero continuar a discutir isso — disse Mateus,

inesperadamente. — Dá-me o livro!

Ela recuou, agarrando o livro contra o peito.

— Ela era velha quando foi a Alexandria discutir com os

conselheiros do imperador, não era?

Mateus começou a pensar se lhe devia tirar o livro à força. Não,

era melhor não. A frágil encadernação podia desfazer-se e, então, ficariam ambos em apuros maiores do que ele queria imaginar. Era melhor continuar a falar, a responder às perguntas dela, por muito tontas e infantis que fossem, até ela se cansar da brincadeira.

— Tinha trinta e três anos, disse o bispo, a mesma idade que Jesus

Cristo tinha quando foi crucificado.

— E quando Santa Catarina desafiou o imperador já era admirada

pela sua erudição, como o bispo disse?

— Obviamente — condescendeu Mateus. — Senão, como poderia

ela ter derrotado os mais sábios conselheiros do país em tal debate?

— Então — o pequeno rosto de Joana iluminou-se, triunfante —,

ela deve ter aprendido a ler antes de se ter tornado santa, quando era ainda uma menina, como eu!

Mateus ficou sem palavras durante alguns momentos, dividido

entre a irritação e a surpresa. Depois riu alto.

— Seu diabinho! — disse ele. — Então era aí que querias chegar!

Bom, que tens talento para a disputa, isso é certo!

Então, ela entregou-lhe o livro, com um sorriso esperançado. Mateus tirou-lho, abanando a cabeça. Que criatura estranha, tão

curiosa, tão determinada, tão segura de si mesma. Não era nada parecida com o João ou com qualquer outra criança que ele conhecesse. Do seu rosto de rapariguinha sobressaíam os olhos de uma mulher sábia. Não admirava que as outras raparigas da aldeia não quisessem dar-se com ela.

— Muito bem, irmãzinha — acabou ele por dizer. — Hoje,

começas a aprender a ler.

Ao ver o entusiasmo nos olhos dela, ele apressou-se em preveni-

la.

— Não deves esperar demasiado. É muito mais difícil do que tu

pensas.

Joana atirou os braços ao pescoço do seu irmão. — Adoro-te, Mateus.

Mateus libertou-se do abraço, abriu o livro e disse num tom

severo:

— Começamos aqui.

Joana debruçou-se sobre o livro, inalando o cheiro intenso a

pergaminho e madeira, ao mesmo tempo que Mateus apontava a passagem: Evangelho de João, capítulo primeiro, versículo primeiro. In principio erat verbum et verbum erat apud Deum et verbum erat Deus — No princípio, era o Verbo e o Verbo estava em Deus e o Verbo era Deus.

* * *

O Verão e o Outono seguintes foram temperados e fecundos; a

colheita foi a melhor que a aldeia tinha tido havia anos. Mas, em Heilagmanoth, caiu neve e o vento soprou do Norte, em chicotadas geladas. A janela da cabana estava tapada por causa do frio e a neve amontoava-se contra as suas paredes, pelo lado de fora. A família passava a maior parte do tempo dentro de casa. A Joana e o Mateus tinham mais dificuldade em arranjar tempo para as lições. Quando estava bom tempo, o cónego ainda ia exercer o seu ministério, levando o João consigo porque o Mateus ficava entregue aos seus estudos, mais importantes do que qualquer outra coisa. Quando Gudrun ia à floresta para recolher lenha, Joana corria para a secretária sobre a qual Mateus estava debruçado e abria a Bíblia na passagem onde tinham ficado na lição anterior. Assim, Joana continuava a fazer progressos rápidos, pelo que, antes da Quaresma, já dominava o Livro de João quase na totalidade.

Um dia, Mateus retirou uma coisa do seu saco e deu-lha, com um

sorriso.

— É para ti, irmãzinha.

Era um medalhão em madeira, preso a um fio. Mateus colocou o

fio à volta do pescoço de Joana e o medalhão deslizou sobre o peito dela.

— O que é isto? — perguntou Joana, curiosa.

— É uma coisa para tu usares.

— Ah! — disse ela e, depois, apercebendo-se de que faltava

qualquer coisa, acrescentou: — Obrigada.

Mateus riu-se ao ver o embaraço dela.

— Olha para o que está na parte da frente do medalhão. Joana fez como ele mandou. Na superfície em madeira, estava

gravada a efígie de uma mulher. Era uma peça rude, uma vez que Mateus não era entalhador, mas os olhos da mulher estavam bem desenhados, chegavam mesmo a ser impressionantes, olhando em frente, com uma expressão inteligente.

Mateus ordenou-lhe ainda.

— Agora, vê na parte de trás.

Joana virou o medalhão e leu as seguintes palavras, escritas em

letras grandes, dispostas ao longo do rebordo do medalhão:

Santa Catarina de Alexandria.

Com um grito, Joana apertou o medalhão junto ao coração. Sabia o que esta oferta significava. Era a forma de o Mateus

reconhecer as suas capacidades e a confiança que tinha tido nela. As lágrimas chegaram-lhe aos olhos.

— Obrigada. — disse ela, novamente, e, desta vez, ele sabia que

era sentido.

Ele sorriu. Ela reparou que ele tinha círculos negros em torno dos

olhos; parecia cansado e abatido.

— Sentes-te bem? — perguntou ela, preocupada. — Claro que sim! — disse ele, de um modo um tanto

enfático.Vamos começar a lição, sim?

Mas ela estava inquieta e distraída. Ao contrário do que era

costume, ele não a apanhou quando ela cometeu um erro por distracção.

— Passa-se alguma coisa? — perguntou Joana. — Não, não. Só estou um pouco cansado.

— Então, queres parar? Eu não me importo. Podemos continuar

amanhã.

— Não, desculpa. Só estava distraído. Vejamos, onde estávamos?

Ah, sim! Volta a ler a última passagem e, desta vez, toma atenção ao verbo: videat, não videt.

No dia seguinte, Mateus acordou a queixar-se com dores de

cabeça e de garganta. Gudrun trouxe-lhe uma bebida quente com borgem e mel.

— Tens de ficar todo o dia na cama — disse ela. — O filho da

velha mãe Wigbod apanhou o fluxo da Primavera; pode ser que tu também tenhas apanhado.

Mateus riu-se e disse que não era nada disso. Dedicou muitas

horas aos seus estudos, depois insistiu em sair para ajudar o João a vindimar.

Na manhã seguinte, tinha febre e custava-lhe a engolir. Até mesmo

o cónego se apercebeu de que ele estava muito doente.

— Esta manhã, estás dispensado dos teus estudos — disse ele a

Mateus. Ele fez como se não tivesse ouvido.

Eles mandaram pedir ajuda ao mosteiro de Lorsch e, ao fim de

dois dias, o enfermeiro veio e examinou Mateus, abanando a cabeça gravemente e murmurando por causa da sua respiração.

Joana apercebeu-se pela primeira vez de que a condição do seu

irmão podia ser séria. A ideia era aterradora. O monge fez grandes sangrias e esgotou todo o seu repertório de orações e de talismãs sagrados, mas, por alturas da Festa de São Severino, a situação de Mateus era grave. Jazia numa letargia febril, agitado por ataques de tosse tão violentos que Joana tapava as orelhas para tentar deixar de os ouvir.

Ao longo do dia e durante a noite, a família mantinha-se de vigília.

Joana ajoelhava-se no chão em terra batida, ao lado da mãe. Estava assustada com a alteração da aparência de Mateus. A pele do seu rosto estava esticada, distorcendo as suas feições familiares numa máscara horrível. Sob a sua cor de febre, a sua pele era de um ominoso tom cinzento.

A voz do cónego sobrepunha-se às suas, troando na noite,

recitando orações para a cura do seu filho:

— Domine Sancte, Pater omnipotens, aeterne Deus, qui

fragilitatem conditionis nostrae infusa virtutis tuae dignatione confirmas...

Joana cabeceou de sono.

— Não!

Joana acordou subitamente com o grito lancinante da mãe. — Ele partiu! Mateus, meu filho!

Joana olhou para a cama. Nada parecia ter mudado. Mateus estava

deitado imóvel, como antes. Depois, ela reparou que a sua pele tinha perdido a cor febril; ele estava totalmente cinzento, como uma pedra.

Pegou na sua mão. Estava flácida, pesada, ainda que não tão

quente como antes. Apertou-a contra o rosto. Por favor, não morras, Mateus. Se estivesse morto, significava que nunca mais dormiria ao seu lado e ao lado do João, na cama grande; ela nunca mais o veria debruçado sobre a mesa de pinho, de sobrolho franzido, concentrado nos seus estudos, nunca mais se sentaria ao seu lado, enquanto o seu dedo se movia através das páginas da Bíblia, apontando-lhe palavras, para ela ler. Por favor, não morras.

Pouco depois, mandaram-na embora para que a sua mãe e as

mulheres da aldeia pudessem lavar o corpo de Mateus e prepará-lo para o funeral. Quando terminaram, Joana foi autorizada a aproximar-se para se despedir dele. Se não fosse o tom cinzento da sua pele, parecia que estava a dormir. Se o pudesse tocar, ela imaginava que ele acordaria, os seus olhos abrir-se-iam e fitá-la-iam com um afecto trocista. Beijou a sua face, tal como a mãe lhe mandou. Estava fria e estranhamente flácida, como a pele do coelho morto que a Joana tinha retirado do telheiro gelado apenas uma semana antes. Ela afastou-se dele rapidamente.

Mateus tinha partido.

Já não haveria mais lições.

Ficou de pé junto do recinto dos animais, fitando os pedaços de

terra negra que começavam a aparecer sob a neve derretida, a terra na qual tinha desenhado as suas primeiras letras.

— Mateus — murmurou ela.

Caiu de joelhos. A neve húmida penetrou no seu casaco de lã,

ensopando-a até aos ossos. Tinha muito frio, mas não podia voltar para dentro. Tinha que fazer uma coisa. Com o indicador, desenhou na neve húmida as letras conhecidas do Livro de João.

Ubi sum ego vos non potestis venire. Para onde eu vou não podeis

vir.

— Vamos todos fazer penitência — anunciou o cónego depois do

funeral —, para expiar os pecados que fizeram recair a ira de Deus sobre a nossa família.

Obrigou a Joana e o João a ajoelharem-se em oração recolhida

sobre o duro genuflexório em madeira que servia de altar familiar. Ficaram ali o dia todo, sem comerem nem beberem, até que, finalmente, com o cair da noite, foram dispensados e autorizados a dormir na cama grande e, agora, vazia, sem o Mateus. João queixou-se com fome. A meio da noite, Gudrun acordou-os, com o dedo nos lábios, de aviso.

O cónego estava a dormir. Deu-lhes, rapidamente, fatias de pão e

uma malga cheia com leite de cabra quente — a comida que se tinha atrevido a tirar sorrateiramente da dispensa sem que o marido desconfiasse. João engoliu a sua parte de pão e, como continuava com fome, Joana partilhou a sua porção com ele. Quando acabaram, Gudrun levou a malga e saiu, aconchegando-lhes a coberta de lã por baixo do queixo. As crianças chegaram-se uma à outra para ficarem mais confortáveis e adormeceram rapidamente.

O cónego acordou com a primeira luz do dia e voltou a mandá-los,

em jejum, para o altar para terminarem a sua penitência. A manhã chegou e partiu, assim como a hora de jantar, e eles continuavam de joelhos.

Os raios de sol do fim da tarde projectaram-se sobre o altar,

derramando-se através das frinchas da janela da cabana.

Joana suspirou e mudou de posição no genuflexório. Os seus

joelhos estavam maçados e o seu estômago fez um ruído. Fez um esforço por se concentrar nas palavras da sua oração: Pater Noster qui es in caelis, sanctificatur nomen tuum, adveniat regnum tuum...

Era escusado. O desconforto causado pela posição em que se

encontrava interferia constantemente. Estava cansada e com fome e tinha saudades do Mateus. Pensou porque seria que não tinha chorado. Sentia a garganta e o peito apertados, mas as lágrimas não conseguiam romper.

Olhou para o pequeno crucifixo de madeira pendurado na parede

diante do altar. O cónego trouxera-o consigo da Inglaterra, sua terra natal, quando tinha levado o seu trabalho missionário aos pagãos saxónios. Esculpida por um artista do Norte da Humbria, a figura de Cristo era mais poderosa e requintada do que em qualquer obra artística franca. O seu corpo alongava-se na cruz, com os músculos distendidos e as costelas magras, a parte de baixo torcida para realçar a Sua agonia de morte. A sua cabeça estava inclinada para trás, de forma que a maçã-de-Adão estava saliente — uma recordação estranhamente desconcertante da Sua masculinidade humana. A madeira estava gravada a fundo para mostrar o rasto de sangue das Suas várias feridas.

A figura, apesar de impressionante, era grotesca. Joana sabia que

devia sentir-se repleta de amor e reverência perante o sacrifício de Cristo, mas, em vez disso, sentia repulsa.

Comparada com os belos e poderosos deuses da sua mãe, esta

figura parecia feia, esmagada e derrotada.

Ao seu lado, João começou a gemer. Joana pegou-lhe na mão. O

João tinha dificuldade em suportar a penitência. Ela era mais forte do que ele e sabia-o.

Apesar de ele ter dez anos e ela apenas sete, achava perfeitamente

natural ser ela a tomar conta dele e a protegê-lo e não o contrário.

As lágrimas começaram a brotar dos olhos do João: — Não é justo — disse ele.

— Não chores.

Joana tinha medo que o barulho atraísse a mamã ou, pior ainda, o

pai:

— A penitência está quase a acabar.

— Não é isso! — respondeu ele, ferido na sua dignidade. — Então, o que é?

— Tu não irias compreender.

— Diz-me.

— O pai vai querer que eu assuma os estudos do Mateus. Eu já sei

que vai. E eu não sou capaz; não sou.

— Talvez sejas — disse ela, apesar de compreender a preocupação

do irmão.

O pai acusava-o de preguiça e batia-lhe quando ele não progredia

nos estudos. Mas, não era culpa do João. Ele tentava fazer o melhor que podia, mas era lento; sempre o tinha sido.

— Não — insistiu João. — Eu não sou como o Mateus. Sabias

que o pai tinha planeado levá-lo para Aachen para pedir que ele fosse aceite na Escola Palatina?

— A sério? — Joana estava abismada. A Escola do Palácio! Não

tinha ideia que as ambições do pai para Mateus fossem tão longe.

— E eu ainda nem sequer sou capaz de ler Donato. O pai diz que o

Mateus já dominava Donato ainda só tinha nove anos de idade e eu tenho quase dez. O que hei-de fazer, Joana? O que hei-de fazer?

— Bem... — Joana tentava pensar em qualquer coisa que o

tranquilizasse, mas o esforço dos últimos dois dias tinha posto o João num estado inconsolável.

— Ele vai-me bater. Já sei que ele me vai bater. Agora, o João tinha começado a soluçar alto.

— Eu não quero que ele me bata!

Gudrun apareceu à porta. Olhando nervosamente por cima do

ombro, precipitou-se para o João.

— Cala-te. Queres que o teu pai te oiça? Cala-te, já te disse! João escorregou desastradamente do genuflexório, atirou a cabeça

para trás e começou a gritar. Não dando ouvidos às palavras da sua mãe, continuou a soluçar. As lágrimas corriam-lhe pela face vermelha.

Gudrun agarrou-o pelos ombros e abanou-o. A sua cabeça caiu

violentamente para a frente; os seus olhos fecharam-se, a sua boca ficou aberta. Joana ouviu o ruído dos seus dentes a baterem, quando ele fechou a boca. Surpreendido, João abriu os olhos e olhou para a mãe.

Gudrun puxou-o para si e abraçou-o.

— Não chores mais. Não podes chorar para bem da tua irmã e

para meu bem. Vai ficar tudo bem, João. Mas, agora, fica calado.

Ela embalava-o, consolando-o e repreendendo-o ao mesmo tempo. Joana olhava pensativa. Reconhecia que o que o seu irmão tinha

dito era verdade. João não era esperto. Não podia seguir as pegadas do Mateus. Mas... corou de excitação no momento em que lhe passou pela cabeça uma ideia, como se fosse uma revelação.

— O que é, Joana? — Gudrun tinha visto a estranha expressão na

cara da filha. — Não estás bem?

Ela estava preocupada porque era sabido que os demónios que

traziam o fluxo permaneciam numa casa.

— Não, Mamã. Mas tive uma ideia, uma ideia maravilhosa! Gudrun gemeu. A filha só tinha ideias que a metiam em sarilhos. — Sim?

— O pai queria que o Mateus fosse para a Escola Palatina. — Eu sei.

— E agora vai querer que o João vá no lugar dele. É por isso que o

João está a chorar, Mamã. Ele sabe que não é capaz de o fazer e tem medo que o pai se zangue.

— E então? — Gudrun estava intrigada.

— Eu posso ir, Mamã. Eu posso continuar os estudos do Mateus. Gudrun ficou momentaneamente demasiado chocada para

responder. A sua filha, o seu bebé, o filho que mais amava — o único com quem tinha partilhado a língua e os segredos do seu povo — ela iria estudar os livros sagrados dos conquistadores cristãos? Que Joana chegasse, sequer, a pensar nisso já a feria profundamente.

— Que disparate! — disse Gudrun.

— Eu posso trabalhar muito — insistia Joana. — Eu gosto de

estudar e de aprender coisas. Eu posso fazê-lo e, assim, o João já não precisa de o fazer. Ele não é bom nos estudos.

Nesse momento, João, cuja cabeça ainda se encontrava enterrada

no peito da mãe, deu um suspiro abafado.

— Tu és uma rapariga; essas coisas não são para ti — disse

Gudrun para a dissuadir. — Além disso, o teu pai nunca aprovaria.

— Mas, Mamã, isso era antes. Agora, as coisas mudaram. Não vê?

Agora, pode ser que o pai pense de maneira diferente.

— Proíbo-te de falares disto ao teu pai. Deves ter a cabeça vazia

por causa de não teres comido e por causa do resto, como o teu irmão. Senão, nunca falarias assim.

— Mas, Mamã, se eu pudesse ao menos mostrar-lhe... — Basta, já disse!

O tom de Gudrun não deixou qualquer espaço para prosseguir a

discussão.

Joana calou-se. Procurando por baixo da túnica, agarrou o

medalhão de Santa Catarina que o Mateus tinha gravado para ela. Eu sei ler latim e o João não, pensou ela obstinadamente.

Porque haverá de ter importância o facto de eu ser uma rapariga? Foi direita à Bíblia que se encontrava sobre a pequena secretária. Pegou nela, sentindo o seu peso. As gravações a letras douradas

sobre a capa eram-lhe familiares. O cheiro a madeira e pergaminho, tão fortemente associado a Mateus, fê-la pensar no seu trabalho conjunto, em tudo quanto ele lhe tinha ensinado, em tudo quanto ela ainda queria aprender. Talvez se eu mostrar ao pai o que aprendi... talvez, então, ele veja que eu sou capaz. Voltou a sentir uma onda de excitação. Mas, podia haver problemas. O pai podia ficar zangado. A ira do seu pai assustava-a; já tinha sido atingida por ela vezes suficientes para conhecer e temer a força da sua cólera.

Ficou a acariciar, distraidamente, a superfície macia da

encadernação em madeira. Num impulso, abriu a Bíblia; os seus olhos caíram no Evangelho de São João, o texto que Mateus tinha usado quando começou a ensiná-la a ler. É um sinal, pensou ela.

A mãe estava sentada de costas para a Joana, embalando o João,

cujo choro tinha dado lugar a soluços incontroláveis. É agora a minha oportunidade. Joana pegou no livro aberto e levou-o para o quarto ao lado.

O pai estava sentado numa cadeira, com a cabeça baixa e as mãos

cobrindo o rosto. Não se apercebeu de que a Joana se tinha aproximado. Ela parou, subitamente amedrontada. A ideia era impossível, ridícula; o pai nunca aprovaria. Preparava-se para se retirar, quando ele tirou as mãos do rosto e levantou os olhos. Ela estava diante dele com o livro aberto na mão.

A sua voz era de uma insegurança nervosa quando começou a ler. — "In principio erat verbum et verbum erat apud Deum et verbum

erat Deus..."

Não houve nenhuma interrupção; ela prosseguiu, ganhando

confiança, à medida que ia lendo.

— "Todas as coisas foram feitas por Ele; e sem Ele nada daquilo

que existe existiria. Nele estava a vida e a vida era a luz dos homens. E a luz brilhou nas trevas e as trevas não a receberam."

A beleza e o poder das palavras encheram-lhe o coração, levando-

a a prosseguir, dando-lhe alento.

Chegou ao fim, corada pelo sucesso, sabendo que tinha lido bem.

Levantou os olhos e viu o pai a olhar fixamente para ela.

— Eu sei ler. O Mateus ensinou-me. Guardámos segredo para

ninguém saber. — As palavras saíram-lhe de um só fôlego. — Eu sou capaz de fazer com que tenha orgulho em mim, Pai, eu sei que sou. Deixe-me prosseguir os estudos do Mateus e eu...

— Tu! — A voz do pai troava de ira. — Foste tu! — apontava

para ela com um dedo acusador. — Foste tu! Fizeste com que a ira de Deus caísse sobre nós. Filha desnaturada! Monstro! Mataste o teu irmão!

Joana gritou. O cónego foi direito a ela, com o braço levantado.

Joana deixou cair o livro e tentou fugir, mas ele apanhou-a e fê-la rodopiar, desfechando o seu punho cerrado no seu rosto com uma força que a fez cambalear. Caiu desamparada no chão, batendo com a cabeça.

O pai ergueu-se sobre ela. Ela protegeu-se de outro golpe. Mas, ele não veio. Passaram alguns instantes e, então, ele

começou a resfolegar. Da sua garganta, saíam sons guturais.

Ela apercebeu-se de que ele estava a chorar. Ela nunca tinha visto

o pai a chorar.

— Joana! — Gudrun correu para o quarto. — O que fizeste, filha! Ajoelhou-se junto a Joana, reparando na nódoa negra que se tinha

formado sob o seu olho direito. Colocando-se entre o marido e a Joana, murmurou:

— O que foi que eu te disse? Menina tola, olha o que fizeste! Num tom de voz mais forte, disse:

— Vai ter com o teu irmão. Ele precisa de ti.

Ajudou a Joana a levantar-se e empurrou-a rapidamente para o

outro quarto.

O cónego olhou sombriamente para a Joana, enquanto ela se

dirigia para a porta.

— Esquecei a rapariga, marido. — disse Gudrun para o distrair. —

Ela não interessa. Não desespereis; lembrai-vos que ainda tendes outro filho.