A Papisa Joana
Capítulo 5 · — Não, não, não.
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
A voz de Asclépios estava cortante de impaciência. — Tens de fazer as letras muito mais pequenas. Vês como a tua
irmã escreve a lição dela?
Bateu no papel de Joana.
— Tens de aprender a respeitar muito mais o teu pergaminho, meu
rapaz. Foi precisa uma ovelha inteira para fazer apenas uma folha. Se os monges de Andernach espalhassem as suas palavras pelas páginas desta maneira, os rebanhos da Austrásia seriam dizimados num mês!
João lançou um olhar ressentido a Joana.
— É muito difícil; não sou capaz.
Asclépios suspirou.
— Está bem; volta a praticar na tua tábua. Quando tiveres
conseguido controlar melhor a escrita, voltamos a tentar o pergaminho.
Perguntou à Joana:
— Já acabaste o De inventione?
— Já, senhor — respondeu Joana.
— Enuncia as seis questões probatórias utilizadas para determinar
as circunstâncias da acção humana.
Joana estava preparada.
— Quis, quid, quomodo, ubi, quando, cur? — Quem, o quê, como,
onde, quando, porquê?
— Muito bem. Agora, identifica as constitutiones retóricas. — Cícero especifica quatro constitutiones diferentes: a
controvérsia sobre o facto, a controvérsia acerca da definição, a controvérsia acerca da natureza do acto, e...
Ouviu-se um baque, quando Gudrun empurrou a porta para entrar,
dobrada pelo peso dos cantis de madeira cheios de água que trazia na mão. Joana levantou-se para a ajudar, mas Asclépios pousou a mão no seu ombro, obrigando-a a voltar a sentar-se.
— E?
Joana hesitou, com os olhos ainda fixos na mãe.
— Continua, filha.
O tom de Asclépios indicava que ele não tolerava qualquer
desobediência.
Joana apressou-se a responder:
— A controvérsia acerca da jurisdição ou procedimento. Asclépios assentiu, satisfeito.
— Apresenta um exemplo para o terceiro status. Escreve-o no teu
pergaminho, mas certifica-te de que vale a pena fazê-lo.
Gudrun deambulava, acendendo o lume, colocando a panela ao
lume, pondo a mesa para a refeição da tarde. Olhou uma ou duas vezes por cima do ombro, aborrecida.
Joana sentia-se culpada, mas esforçou-se por se concentrar no seu
trabalho. Este tempo era precioso: Asclépios só vinha uma vez por semana e os seus estudos eram mais importantes do que qualquer outra coisa.
Mas, era difícil trabalhar sob o peso do descontentamento da mãe.
Era óbvio que Asclépios também tinha reparado, apesar de o atribuir ao facto de as lições da Joana a desviarem dos trabalhos caseiros. Joana sabia qual era o motivo real. Os estudos dela eram uma traição, uma violação do mundo secreto que ela partilhava com a sua mãe, um mundo povoado de deuses e segredos saxónicos. Aprendendo latim e estudando textos cristãos, Joana punha-se ao lado das coisas que a mãe mais detestava: do deus cristão, que tinha destruído a pátria de Gudrun e, acima de tudo, do cónego, seu marido.
A verdade era que Joana trabalhava sobretudo com textos
clássicos pré-cristãos. Asclépios venerava os textos pagãos de Cícero, Séneca, Lucano e Ovídeo, condenados por maior parte dos eruditos da época. Ele estava a ensinar Joana a ler grego através de textos tão antigos como os de Menandro e Homero, cuja poesia, aos olhos do cónego, não passava de uma blasfémia pagã. Ensinada por Asclépios a apreciar acima de tudo a clareza e o estilo, Joana nunca se questionara se a poesia de Homero era aceitável nos termos da doutrina cristã; Deus estava nela porque ela era bela. Teria gostado de explicar isto à sua mãe, mas sabia que não adiantaria nada. Homero ou Beda, Cícero ou Santo Agostinho — para Gudrun era tudo a mesma coisa: não era saxónio; e bastava.
Ela tinha perdido a concentração; enganou-se e fez um borrão no
pergaminho. Levantou os olhos para Asclépios, que estava a olhar para ela, com uns olhos escuros penetrantes.
— Deixa lá, filha. — A sua voz era de uma gentileza inesperada;
normalmente, era assim com erros descuidados. — Deixa lá. Começa outra vez aqui.
Os habitantes de Ingelheim estavam reunidos junto ao tanque
comum, conversando animadamente. Naquele dia, ia ser julgada uma feiticeira, um acontecimento que, certamente, iria inspirar horror, piedade e satisfação, uma variante bem-vinda na monotonia quotidiana das suas vidas.
— Benedictus.
O cónego deu início à bênção da água. Hrotrud tentou fugir, mas
dois homens agarraram-na e arrastaram-na para onde se encontrava o cónego, que a olhou de sobrolho carregado, em sinal de desaprovação. Hrotrud praguejou e debateu-se e os homens que a agarravam prenderam-lhe as mãos atrás das costas e ataram-nas firmemente com uma tira de pano de linho, provocando-lhe um grito de dor.
— Maleficia — murmurou alguém do meio da multidão, perto do
local onde Joana e Asclépios se encontravam.
— São Barnabé nos guarde do mau-olhado.
Asclépios não disse nada, mas abanou a cabeça tristemente. Tinha chegado de manhã a Ingelheim para a lição semanal, mas o
cónego tinha-se recusado a autorizar que os filhos recebessem a lição, insistindo em que fossem primeiro assistir ao julgamento de Hrotrud, antiga parteira da aldeia.
— Aprendereis mais com os caminhos de Deus assistindo a este
julgamento sagrado do que com qualquer escrito pagão — tinha dito o cónego, olhando acusadoramente para Asclépios.
Joana não gostava de adiar a sua lição, mas estava curiosa sobre o
julgamento. Perguntava-se a si própria como seria; nunca tinha visto ninguém ser julgado por feitiçaria. Mas, tinha pena que fosse Hrotrud. Gostava de Hrotrud, uma mulher honesta, não uma hipócrita. Sempre tinha dito a verdade à Joana, tratando-a com delicadeza e não a ridicularizando, como faziam muitos outros da aldeia. Gudrun tinha contado à Joana que Hrotrud tinha assistido ao seu nascimento - um parto difícil, segundo dizia a sua mãe, que atribuía a Hrotrud o salvamento da sua vida e da Joana, naquele dia.
Ao olhar para a multidão, Joana pensou que Hrotrud tinha
assistido ao nascimento de quase todos os que se encontravam ali, pelo menos, daqueles que já tinham passado por seis invernos ou mais. Ninguém diria, a avaliar pelo ódio com que a encaravam agora. Ela tinha-se tornado um aborrecimento para eles, um aguilhão para a sua caridade cristã porque, desde que dores lancinantes tinham retorcido as suas mãos, destruindo a sua utilidade como parteira, vivia das esmolas dos seus vizinhos — disso e do pouco que conseguia ganhar com a venda de plantas medicinais e de filtros que ela própria fazia.
O seu talento acabou por ser a sua perdição: curar insónias, dores
de dentes, de estômago e de cabeça acabou por ser considerado pelos simples aldeões como nada menos do que feitiçaria.
Depois de ter terminado a bênção da água, o cónego virou-se para
Hrotrud:
— Mulher! Sabes o crime de que és acusada. Confessas de livre
vontade os teus pecados para alcançar a salvação da tua alma imortal?
Hrotrud olhou-o pelo canto do olho.
— Se confessar, fico livre?
O cónego abanou a cabeça.
— A Sagrada Escritura proíbe-o claramente: Não deixarás uma
feiticeira viver.
E acrescentou, para dar maior autoridade à frase: — Êxodo, capítulo vinte e dois, versículo dezoito. Mas, morrerás
uma morte abençoada e suave, ganhando as recompensas incomensuráveis dos Céus.
— Não! — retorquiu Hrotrud, firmemente. — Eu sou uma mulher
cristã, não sou uma bruxa, e quem disser o contrário é um mentiroso!
— Bruxa! Sofrerás o fogo do Inferno para toda a eternidade!
Negas a prova diante dos teus próprios olhos?
O cónego tirou detrás das costas um cinto de linho, deformado por
uma série de nós apertados. Estendeu-o acusadoramente para Hrotrud, que recuou, sobressaltada.
— Vêem como ela foge dele? — disse alguém perto de Joana. É
claro que é culpada e que deve ser lançada à fogueira!
Qualquer um ficaria intimidado por um gesto tão repentino,
pensou Joana. É evidente que isso não prova nada.
O cónego levantou o cinto para a multidão o ver. — Isto pertence a Arno, o moleiro. Desapareceu ontem à noite.
Imediatamente depois, ele caiu de cama, com uma dor terrível nas entranhas.
Os rostos da multidão tornaram-se solenes. Eles não gostavam
particularmente de Arno, suspeito de enganar nos pesos.
— Qual é a coisa mais gorda do mundo? — dizia o início de uma
adivinha, que eles gostavam de repetir. — A camisa de Arno porque aperta todos os dias o pescoço de um ladrão!
Mesmo assim, toda a comunidade estava preocupada com a
doença do seu moleiro. Sem ele, o trigo não seria transformado em farinha porque, por lei, nenhum aldeão podia moer o seu próprio trigo.
— Há dois dias atrás — a voz do cónego estava ensombrada com
a acusação — este cinto foi descoberto na floresta junto à casa de Hrotrud.
Ouviu-se um murmúrio colectivo, pontilhado de gritos. — Bruxa! Feiticeira! Seja queimada!
O cónego disse a Hrotrud:
— Roubaste o cinto e fizeste-lhe nós para ajudar aos teus encantos
malignos, o que ia matando Arno.
— Nunca! — gritou Hrotrud, indignada, lutando contra os laços
que a prendiam. — Não fiz tal coisa! Nunca vi esse cinto! Nunca...
Impaciente, o cónego fez um sinal aos homens, que agarraram
Hrotrud como um saco de castanhas, balançando-a para trás e para a frente várias vezes. Depois, soltaram-na, de repente.
Hrotrud gritou, aterrada e irada, enquanto voava pelo ar, indo
aterrar com um baque directamente no meio do tanque.
Joana e Asclépios foram empurrados pela multidão, que procurava
aproximar-se da borda do tanque para ver. Se Hrotrud viesse à superfície e flutuasse, isso queria dizer que as águas benzidas pelo padre a tinham rejeitado; revelar-se-ia como uma feiticeira e como uma bruxa, pelo que seria queimada. Se se afundasse, estava provada a sua inocência e salvar-se-ia.
Num silêncio tenso, todos os olhos estavam fixos na superfície do
tanque. Começaram a formar-se círculos, lentamente, no local onde Hrotrud tinha caído à água; nos outros locais, a água estava tranquila.
O cónego rabujou e fez sinal aos homens, que se dirigiram
imediatamente para a água, mergulhando à procura de Hrotrud.
— Está inocente das acusações feitas contra ela — pronunciou o
cónego. — Deus seja louvado.
Seria impressão da Joana, ou era verdade que ele parecia
desapontado?
Os homens continuavam a mergulhar, sem resultados. Por fim, um
deles veio à superfície, trazendo Hrotrud. Ela jazia inanimada nos seus braços, com o rosto inchado e pálido.
Ele levou-a para a margem do tanque e deitou-a no chão. Ela não
se mexeu. Ele debruçou-se sobre ela para ouvir se o seu coração batia.
Pouco depois, levantou-se.
— Está morta — disse ele.
Um murmúrio percorreu a multidão.
— Infelizmente — disse o cónego. — Mas, morreu ilibada dos
crimes de que tinha sido acusada. Deus conhece os Seus; Ele a recompensará e dará descanso à sua alma.
Os aldeões dispersaram, alguns passando pelo local onde se
encontrava o corpo de Hrotrud para a verem de perto; outros, partiram em pequenos grupos, falando em voz baixa.
Joana e Asclépios regressaram a casa, em silêncio. Joana estava
profundamente perturbada pela morte de Hrotrud.
Envergonhava-se da excitação que tinha sentido antes por causa de
ir presenciar um julgamento por feitiçaria. Mas, ela não sabia que Hrotrud ia morrer. De certeza que Hrotrud não era uma bruxa, por isso, Joana tinha acreditado que Deus provaria a sua inocência.
E Ele tinha-o feito.
Mas, então, porque a deixou morrer?
Só falou no assunto mais tarde, depois de ter retomado a lição em
casa. Levantou o estilete a meio da escrita e perguntou, subitamente:
— Porque teria Deus feito uma coisa daquelas? — Talvez não o tenha feito — respondeu Asclépios, percebendo
imediatamente o que ela queria dizer.
A Joana fitou-o intensamente.
— Estais a dizer que uma coisa destas poderia ter acontecido
contra a Sua vontade?
— Talvez não. Mas, talvez a culpa esteja na natureza do
julgamento e não na natureza da vontade de Deus.
A Joana reflectiu no que tinha ouvido.
— O meu pai diria que é assim que as bruxas são julgadas há
centenas de anos.
— É verdade.
— Mas, isso não significa que esteja correcto — Joana olhou para
Asclépios. — Qual seria a forma mais correcta?
— Diz-me tu — respondeu ele.
Joana suspirou. Asclépios era tão diferente do pai dela e até de
Mateus. Recusava-se a dizer-lhe as coisas, insistindo que teria de ser ela a discorrer a sua própria forma de responder. Joana coçou levemente a ponta do nariz, como costumava fazer quando estava a tentar resolver um problema.
Devia estar cega para não ver imediatamente. Cícero e o De
inventione — até aqui, não passava de uma abstracção, de um ornamento retórico, um exercício mental.
— As perguntas probatórias — disse Joana. — Não poderiam
usar-se neste caso?
— Explica — disse Asclépios.
— Quid: existe o facto do cinto com nós — isso é indiscutível. —
Deve existir, certamente, um sentido para este facto.
Quis: — Quem fez os nós no cinto e quem o colocou na floresta? Quomodo: — Como foi tirado a Arno? Quando, Ubi: quando e
onde lhe foi tirado?
— Quem viu Hrotrud com ele? Cur: porque quereria Hrotrud fazer
ao Arno?
Joana falava cada vez mais depressa, excitada pelas possibilidades
levantadas pela sua ideia.
— Deveriam ter sido apresentadas e ouvidas testemunhas. E
Hrotrud e Arno também. Eles podiam ter sido interrogados. As suas respostas talvez tivessem determinado a inocência de Hrotrud. E... — Joana concluiu pesarosamente — ela não precisaria de ter morrido para o provar!
Eles estavam a pisar terreno perigoso e sabiam-no muito bem. Sentaram-se os dois, em silêncio. Joana estava perturbada pela
enormidade da ideia que se tinha abatido sobre ela: a aplicação da lógica à revelação divina, a possibilidade de uma justiça humana na qual as afirmações eram orientadas pela inquirição racional e a crença se apoiava nos poderes da razão.
Asclépios disse:
— Provavelmente, seria mais sensato não mencionar esta
conversa.
A festa de São Bertino tinha chegado ao fim, os dias eram cada
vez mais curtos, por isso, as lições das crianças também.
O Sol já se tinha posto quando Asclépios se levantou. — Basta por hoje, meninos.
— Posso ir? — perguntou o João.
Asclépios acenou, despedindo-o, e levantou-se do seu lugar,
apressando-se a sair.
Joana sorriu, pesarosa. O tédio evidente que João demonstrava
pelos estudos embaraçava-a. Asclépios perdia frequentemente a paciência com o João, chegando mesmo a ser duro. Mas, o seu irmão era um estudante lento e sem vontade.
— Não sou capaz! — dizia ele, mal se lhe apresentava uma nova
dificuldade.
Havia momentos em que Joana gostava de poder abaná-lo e de lhe
gritar:
— Tenta! Tenta! Como sabes que não és capaz, se não tentas! Depois, censurava-se a si própria por ter estes pensamentos. João
não tinha culpa de ser lento. Sem ele, nem sequer teria havido lições naqueles últimos dois anos — e a vida seria impensável sem o estudo.
Quando o João se foi embora, Asclépios disse, com um ar sério:
— Tenho uma coisa para te dizer. Fui informado de que já não
necessitam dos meus serviços na escola. Foi contratado um outro professor, um franco, e o bispo acha que ele é mais adequado para o lugar do que eu.
Joana estava fora de si.
— Como é possível? Quem é esse homem? Não é possível que
saiba tanto como vós!
Asclépios sorriu.
— Essa afirmação, demonstra se não sabedoria, pelo menos,
lealdade. Conheci o homem; é um excelente professor, cujos interesses são mais adequados aos ensinamentos na escola do que os meus.
Vendo que Joana não acreditou, acrescentou:
— O lugar para o tipo de conhecimento que tu e eu procuramos,
Joana, não é dentro dos muros da catedral. Lembra-te do que te digo e tem cuidado: algumas ideias são perigosas.
— Compreendo — respondeu Joana, apesar de não compreender
completamente. — Mas, o que ireis fazer agora? De que vivereis?
— Tenho um amigo em Atenas, um compatriota que fez fortuna
como mercador. Quer que eu seja tutor dos seus filhos.
— Ides-vos embora?
Joana não queria crer no que ele lhe estava a dizer. — Ele é abastado; a sua oferta é generosa. Não tenho outra
alternativa senão aceitar.
— Quereis ir para Atenas? — Era tão longe. — Quando ireis? — Daqui a um mês. Já teria ido se não fosse o prazer que sinto no
nosso trabalho em conjunto.
— Mas — o semblante de Joana toldou-se, tentando pensar em
algo que impedisse este terrível acontecimento. — Poderíeis viver aqui connosco. Poderíeis ser o nosso tutor, meu e do João, e poderíamos ter lições todos os dias!
— Isso é impossível, minha querida. O vosso pai mal tem o
necessário para sustentar a tua família durante o Inverno. Na vossa casa e na vossa mesa não há lugar para um estranho. Além disso, tenho de ir para um sítio onde possa continuar o meu trabalho. A biblioteca da catedral deixará de me ser acessível.
— Não partais! — O desgosto cresceu dentro dela como uma
substância palpável, formando um nó duro no fundo da sua garganta. — Por favor, não partais!
— Minha querida menina, tenho de ir. Embora, na verdade,
preferisse que não fosse assim.
Acariciou docemente o cabelo dourado de Joana. — Aprendi muito ensinando-te; duvido que volte a ter um aluno
tão dotado. Possuis uma inteligência rara; é um dom de Deus e não o deves negar — ele olhou para ela significativamente — custe o que custar.
Joana tinha medo de falar sem que a sua voz traísse as suas
emoções.
Asclépios pegou-lhe na mão.
— Não te preocupes. Conseguirás continuar os teus estudos.
Tratarei disso. Ainda não sei bem onde ou como, mas fá-lo-ei. A tua inteligência é demasiado prometedora para se perder. Encontraremos a maneira de a fazer frutificar, prometo.
Apertou-lhe a mão.
— Confia em mim.
Depois de ele ter partido, Joana não se mexeu da sua mesinha.
Ficou sozinha no escuro, até a mãe voltar, com a madeira para a lareira.
— Ah, então, já acabaram? — disse Gudrun. — Ainda bem!
Agora, vem ajudar-me a acender o lume.
Asclépios veio vê-la no dia em que partiu, vestido com o seu
longo manto de viagem azul. Trazia na mão um pacote embrulhado em pano.
— É para ti.
Entregou-lhe o embrulho.
Joana desembrulhou o pacote e deu um grito quando descobriu o
seu conteúdo. Era um livro encadernado à moda oriental, com madeira guarnecida a couro.
— É o meu — disse Asclépios. — Fui eu que o fiz, há alguns
anos. É um exemplar de Homero. Tens o original grego na primeira metade do livro e a tradução latina na segunda metade. Ajudar-te-á a manter frescos os teus conhecimentos da língua, até poderes recomeçar os teus estudos.
Joana não tinha palavras. Um livro só dela! Este privilégio só era
partilhado por monges e eruditos do mais alto gabarito.
Abriu-o, olhando para cada uma das linhas da letra uncial perfeita
de Asclépios, que enchia as páginas de palavras de uma beleza inexprimível. Asclépios observava-a, com os olhos cheios de uma terna melancolia.
— Não me esqueças, Joana. Nunca me esqueças. Abriu-lhe os braços. Ela dirigiu-se para ele e abraçaram-se pela
primeira vez. Ficaram muito tempo agarrados um ao outro, o corpo alto e direito de Asclépios embalando o pequeno corpo de Joana. Quando, finalmente, se separaram, o seu manto azul estava húmido das lágrimas de Joana.
Ela não olhou quando ele se afastou a cavalo. Ficou dentro de
casa, onde ele a tinha deixado, segurando no livro com tanta força que as suas mãos lhe doíam.
Joana sabia que o seu pai não a autorizaria a ficar com o livro. Ele
nunca tinha concordado com os estudos dela e, agora, que Asclépios tinha partido, não havia ninguém que o impedisse de levar a sua vontade avante. Por isso, ela escondeu o livro, voltando a embrulhá-lo cuidadosamente no seu invólucro e metendo-o por baixo do monte de palha do seu lado da cama.
Desejava ardentemente lê-lo, ver as palavras, voltar a ouvir
ressoar na sua mente a beleza gozosa da poesia. Mas, era muito perigoso; havia sempre alguém dentro ou perto de casa e ela tinha medo de ser descoberta. A sua única oportunidade era à noite. Depois de todos estarem a dormir, ela podia ler sem correr o risco de ser interrompida subitamente. Mas, precisava de um pouco de luz — de uma vela ou, pelo menos, de um pouco de azeite. A família só conseguia arranjar duas dúzias de velas por ano — o cónego tinha relutância em as levar do santuário — e eram guardadas cuidadosamente; ela não poderia utilizar uma delas sem ser descoberta. Mas, a arrecadação da igreja tinha um monte de cera armazenada. Os habitantes de Ingelheim tinham a obrigação de entregar ao santuário cem libras por ano, a título de imposto: Se ela conseguisse alguma, podia fazer a sua própria vela.
Não foi fácil, mas acabou por conseguir surripiar cera em
quantidade suficiente para fazer uma pequena vela, utilizando um pedaço de fio de linho para o pavio. Era uma peça artesanal — a chama não passava de uma luzinha tremelicante — mas era o suficiente para ela ter luz para poder estudar.
Na primeira noite, foi cuidadosa. Esperou que os pais se tivessem
passado para a sua cama, por trás da divisória, e só se mexeu depois de ter começado a ouvir o cónego a ressonar.
Por fim, saltou da cama, silenciosa e vigilante como um fauno,
com cuidado para não acordar o João, que estava deitado ao seu lado. Ele dormia sossegadamente, com a cabeça coberta pelos cobertores. Joana retirou o livro cuidadosamente do lugar onde se encontrava escondido na palha e levou-o para a pequena mesa em pinho, no canto oposto do quarto. Levou a vela para a lareira e acendeu-a nas brasas que ardiam, regressando à secretária, colocou a vela junto ao livro. A luz era bem pouco firme, mas, com esforço, ela conseguia seguir as linhas de tinta preta. As letras bem desenhadas dançavam à luz tremeluzente, acenando, convidativas. Joana parou por instantes, saboreando o momento. Depois, virou a página e começou.
Os dias temperados e as noites frias do Windumemanoth, o mês da
vindima, passaram depressa. As ríspidas nortadas chegaram mais cedo do que o habitual, soprando em rajadas fortes, que enregelavam os ossos. A janela da cabana voltou a ser fretada, mas, os ventos gélidos penetravam por todas as frinchas; para se manterem quentes, eles tinham que deixar a lareira acesa durante todo o dia, o que enchia a casa de fuligem.
Todas as noites, depois da família estar a dormir, Joana levantava-
se e estudava horas a fio, na escuridão. A vela gastou-se, por isso, ela viu-se forçada a esperar impacientemente até conseguir surripiar mais alguma cera da arrecadação da igreja. Quando, finalmente, conseguiu acabar o trabalho, foi implacável consigo própria. Terminou o livro e voltou ao princípio, desta vez, estudando as complicadas formas verbais e copiando-as para a sua tábua, até as saber de cor. Os seus olhos estavam vermelhos e a cabeça doía-lhe do esforço para tentar trabalhar com uma luz tão fraca, mas nunca pensou em parar. Estava feliz.
A festa de São Columbano passou e continuava a não haver
nenhuma notícia de qualquer combinação para uma tutoria formal. Mesmo assim, a Joana continuava a acreditar na promessa de Asclépios. Com o seu livro, não havia motivo para desespero. Continuava a aprender, a fazer progressos. De certeza que iria acontecer alguma coisa em breve. Chegaria um tutor à vila, perguntando por ela, ou seria convocada pelo bispo, que lhe diria que ela tinha sido aceite na escola.
Joana começou a trabalhar um pouco mais cedo todas as noites.
Por vezes, nem sequer esperava para ouvir se o pai já estava a ressonar. Nem sequer reparava quando entornava um pouco de cera sobre a secretária.
Uma noite, estava a trabalhar num problema de sintaxe
particularmente difícil e interessante. Impaciente para começar, sentou-se à secretária pouco depois dos pais se retirarem. Trabalhava havia poucos minutos quando ouviu um som abafado que vinha da parte de trás da divisória.
Apagou a vela e ficou como uma pedra no escuro, sentindo a
batida do pulso na garganta.
Passaram alguns momentos. Não voltou a ouvir nada. Devia ter
sido a sua imaginação. O alívio passou por ela como uma corrente morna. Mas, deixou passar mais tempo antes de se levantar da secretária. Dirigiu-se para a lareira para acender o pavio, e voltou com a vela acesa. A chama criava um pequeno círculo de luz em torno da mesa. Na margem do círculo, onde a luz se encontrava com a sombra, estavam dois pés.
Os pés do seu pai.
O cónego saiu do escuro. Instintivamente, Joana tentou esconder o
livro, mas já era tarde.
O seu rosto, iluminado pela vela, era sinistro, aterrador. — Que malvadez é esta?
A voz de Joana era um sussurro.
— Um livro.
— Um livro!
Ele ficou espantado a olhar para o livro, mal querendo acreditar no
que os seus olhos viam.
— Como é que o arranjaste? O que estás a fazer com ele? — Estou a lê-lo. É... meu, foi o Asclépios que mo deu. É meu. A força do golpe do pai apanhou-a de surpresa, derrubando-a da
cadeira. Foi parar ao chão, com o rosto de encontro ao solo frio.
— Teu! Criança insolente! Eu sou o dono desta casa! Joana soergueu-se num dos cotovelos e olhou, impotente, para o
seu pai, que se debruçava sobre o livro, procurando ler as palavras à luz fraca da vela. Pouco depois, desviou-se, fazendo o sinal da cruz sobre a secretária.
— Cristo Jesus, protege-nos.
Sem olhar para o livro, ordenou a Joana:
— Aproxima-te.
Joana levantou-se do chão. Estava tonta e a dor latejava-lhe num
dos ouvidos. Lentamente, aproximou-se do pai.
— Isto não é a linguagem da Santa Madre Igreja. — Apontou para
a página aberta diante dele. — que significam estes sinais? Responde-me sinceramente, se tens amor à tua alma imortal!
— É poesia, Pai.
Apesar do medo, Joana sentiu um certo orgulho nos seus
conhecimentos. Não se atreveu a acrescentar que era de Homero, que o pai considerava um pagão. O cónego não sabia grego. Se não visse a tradução na parte de trás, talvez não se apercebesse do que ela tinha feito.
O pai colocou ambas as mãos sobre a cabeça de Joana, colocando
os braços rudes de camponês à volta da sua cabeça, por cima das sobrancelhas.
— Exorcizo te, immundissime spiritus, omnis incursio adversarii,
omne phantasma.
As suas mãos apertavam a cabeça da Joana com tanta força que
ela gritou de medo e de dor.
Gudrun apareceu à porta.
— Por tudo quanto é sagrado, Marido, o que se passa? Tende
cuidado com a criança!
— Silêncio. — rugiu o cónego. — A criança está possessa! Os
demónios que se encontram dentro dela têm de ser exorcizados.
A pressão das suas mãos aumentou até a Joana pensar que os
olhos lhe iriam saltar.
Gudrun pegou-lhe no braço.
— Basta! Ela é apenas uma criança! Marido, parai! Quereis matá-
la na vossa loucura?
A pressão excruciante cessou abruptamente, quando o cónego
deixou de apertar. Virou-se e, de um só golpe, atirou com Gudrun para o outro lado do quarto.
— Vai-te! — gritou ele. — Não é o momento para fraquezas de
mulher! Encontrei a rapariga a praticar magia de noite! Com um livro de bruxaria! Ela está possessa!
— Não, Pai, não. — gritou Joana. — Não é bruxaria! É poesia!
Poesia escrita em grego, só isso! Juro!
Ele foi direito a ela, mas ela cobriu o rosto com o braço e deu a
volta por trás dele. Ele virou-se e avançou para ela, com os olhos sombrios de ameaça.
Ia matá-la.
— Pai! Virai as páginas! No verso do livro! Está escrito em latim!
Vereis! Está em latim!
O cónego hesitou. Gudrun apressou-se a chegar-lhe o livro. Ele
não olhou para ele. Fitou Joana, pensativo.
— Peço-vos, Pai. Vede o verso do livro. Vós mesmos o podeis ler.
Não é bruxaria!
Ele tirou o livro das mãos de Gudrun. Ela apressou-se a pegar na
vela e aproximou-a da página para ele poder ver. Ele inclinou-se para examinar o livro, com as grossas sobrancelhas franzidas, em sinal de concentração.
Joana não era capaz de parar de falar.
— Eu estava a estudar. Leio de noite para ninguém saber. Já sabia
que não iríeis aprovar.
Ela seria capaz de dizer qualquer coisa, de confessar fosse o que
fosse, para que ele acreditasse.
— É Homero. O livro da Ilíada. Poesia de Homero. Não é
feitiçaria, Pai.
Começou a soluçar.
— Não é feitiçaria.
O cónego não lhe dava atenção. Lia atentamente, com os olhos
junto à página, os lábios formando as palavras silenciosamente. Depois, ergueu os olhos.
— Deus seja louvado. Não é bruxaria. Mas, é a obra de um pagão,
por isso é uma ofensa contra o Senhor.
Voltou-se para Gudrun.
— Acende o lume. Esta abominação tem de ser destruída. Joana sobressaltou-se. Queimar o livro! O lindo livro de Asclépios
que ele lhe tinha confiado!
— Pai, o livro tem muito valor! Vale dinheiro; podíamos obter um
bom preço por ele — corou — podias oferecê-lo ao bispo para a biblioteca da catedral.
— Criança malvada, estás de tal forma mergulhada no pecado que
é de admirar que ainda não te tenhas afogado. Isto não é uma oferta adequada para um bispo, nem para nenhuma alma temente a Deus.
Gudrun dirigiu-se para o canto onde a lenha estava armazenada e
escolheu alguns toros pequenos. Joana olhou, desesperada. Tinha de arranjar uma maneira de impedir que aquilo acontecesse. Se a dor que sentia na cabeça passasse, podia pensar.
Gudrun remexeu as achas, preparando a lareira para a madeira
fresca.
— Espera um momento — disse o cónego a Gudrun, bruscamente.
— Deixa a lareira.
Apalpou as páginas do livro, apreciando-as.
— É verdade que o pergaminho é bom e que pode ser-lhe dado
uso. — Pôs o livro sobre a secretária e desapareceu para o quarto ao lado. que queria ele dizer? Joana olhou para a mãe, que encolheu os ombros, sem perceber. À sua esquerda, João tinha-se sentado na cama, Acordado pelo barulho, fitava Joana com uns olhos muito abertos. O cónego voltou, trazendo um objecto comprido e reluzente. Era a faca de mato com cabo em osso. Como sempre que a via, Joana encheu-se de temor. Lembrou-se de qualquer coisa que lhe estava ligada, mas não conseguiu recordar-se do que era.
O pai sentou-se à secretária. Colocando a faca num ângulo
oblíquo, de forma a que a lâmina ficasse sobre a página, raspou o velino. Uma das letras que se encontravam sobre a página desapareceu. Ele emitiu um grunhido de satisfação.
— Resulta. Vi fazer isto uma vez, no Mosteiro de Corbie. Deixa as
páginas limpas para poderem voltar a ser utilizadas.
Ordenou peremptoriamente à Joana:
— Faz tu.
Então, este era o seu castigo. Seria a sua mão a destruir o livro, a
erradicar o conhecimento proibido e, com ele, todas as suas esperanças.
Os olhos do pai brilhavam de expectativa malévola. Impassível,
ela pegou na faca e sentou-se à secretária.
Ficou um momento a olhar para a página. Depois, pegando na faca
como tinha visto o pai fazer, movimentou lentamente a lâmina sobre a superfície da página.
Não aconteceu nada.
— Não resulta.
Levantou os olhos, na expectativa.
— Assim. — O cónego pôs as mãos em cima das suas,
pressionando um pouco a lâmina, num movimento lateral. Desapareceu outra letra. — Tenta novamente.
Ela pensou em Asclépios, nas suas longas horas de trabalho a
fazer este livro, na confiança que tinha manifestado nela, ao entregar-lho. A página ficou enevoada, quando as lágrimas lhe chegaram aos olhos.
— Por favor. Não me obrigueis a fazê-lo. Peço-vos, Pai. — Filha, ofendeste a Deus com a tua desobediência. Em
penitência, trabalharás noite e dia, até estas páginas estarem completamente limpas do seu conteúdo ímpio. Não tomarás senão pão e água, até teres terminado a tua tarefa. Pedirei a Deus que tenha misericórdia de ti — por causa de tão grande pecado.
Apontou para o livro. — Começa.
Joana colocou a faca sobre a página e raspou, como o seu pai lhe
tinha mostrado. Uma das letras ficou sumida e, depois, desapareceu.
Ela moveu a faca; desapareceu outra letra. Depois, outra. E outra.
Em breve, já tinha desaparecido uma palavra inteira da superfície rugosa do pergaminho.
A faca aproximou-se da palavra seguinte. Aletheia. Verdade. Joana parou, com a mão sobre a palavra.
— Continua. — A voz do pai era uma ordem.
A verdade. As linhas redondas das letras maiúsculas sobressaíam
do pergaminho pálido.
Emergiu nela a revolta. Todo o medo e tristeza daquela noite
cederam o lugar a uma convicção avassaladora: Não pode ser.
Poisou a faca. Lentamente, ergueu os olhos, à procura dos do pai. O que ela viu cortou-lhe a respiração.
— Pega na faca.
A ameaça contida na sua voz era iniludível.
Joana tentou falar, mas a garganta apertou-se-lhe e não saiu
qualquer palavra. Abanou a cabeça negativamente.
— Filha de Eva, já te ensino a temer as penas do inferno. Traz-me
a vara.
Joana dirigiu-se para o canto e trouxe a longa chibata negra que o
pai utilizava naquelas ocasiões.
— Prepara-te — disse o cónego.
Ela ajoelhou-se em frente à lareira. Lentamente, porque tinha as
mãos a tremer, despiu o manto em lã cinzenta e a túnica de linho, expondo as costas nuas.
— Começa o Pai-Nosso. — A voz do pai era um sussurro junto a
ela.
— Pai-Nosso, que estais no Céu...
O primeiro golpe atingiu-a entre os ombros, rasgando a carne, e
lançando uma corrente de dor do pescoço ao crânio.
— Santificado seja o Vosso Nome...
O segundo golpe foi mais forte. Joana mordeu o braço para não
gritar. Já tinha sido espancada, mas nunca assim, nunca com esta força implacável.
— Venha a nós o Vosso Reino...
O terceiro golpe atingiu-a na carne, fazendo espirrar o sangue.
Sentiu um líquido quente a correr-lhe pelas costas.
— Seja feita a Vossa vontade...
O choque do quarto golpe fez Joana inclinar a cabeça para trás. Viu o irmão a olhar da cama. O seu rosto tinha uma expressão...
Seria medo? Curiosidade? Piedade?
— Assim na terra como...
Outro golpe. Antes de fechar os olhos, por causa da dor, Joana
conseguiu identificar a expressão no rosto do irmão. Era de satisfação.
— No Céu. O pão nosso de cada dia...
O golpe foi ainda mais forte. Quantos já tinha levado? Joana
estava a ficar dormente. Nunca tinha tido de suportar mais de um golpe. Ao longe, ouviu alguém gritar.
— Nos dai hoje. Perdoai-nos... perdoai...
Os seus lábios moveram-se, mas não conseguia formar as
palavras. Com o entendimento que lhe restava, Joana, de repente, compreendeu. Desta vez, não ia acabar. Desta vez, o seu pai não ia parar. Desta vez, continuaria até ela morrer.
Outro Golpe. A campainha que tocava nos seus ouvidos começou
a tocar cada vez mais alto, até se tornar ensurdecedora.
Depois, não houve mais nada senão silêncio e uma escuridão
misericordiosa.
Capítulo 6
A notícia da sova que Joana tinha levado espalhou-se pela aldeia.
O cónego tinha batido na filha até a deixar à porta da morte, segundo se dizia, e tê-la-ia morto, se os gritos da mulher não tivessem atraído a atenção de alguns aldeões.
Tinham sido precisos três homens de forte estatura para o
afastarem da criança.
Mas, não era a selvajaria do espancamento que provocava
comentários. Essas coisas eram bastante comuns. Então, o ferreiro não tinha batido na mulher até ela cair, não lhe tinha dado pontapés no rosto até ela ter ficado com os ossos todos partidos porque estava farto da resmunguice dela? A pobre criatura tinha ficado desfigurada para toda a vida, mas não havia nada a fazer. Um homem era o senhor da sua própria casa, ninguém duvidava. A única lei que regia o seu direito absoluto a dispensar os castigos que ele considerava apropriados era aquela que limitava o tamanho da moca que ele podia usar. Ora, o cónego não tinha usado nenhuma moca.
O que era realmente interessante para os aldeões era o facto de o
cónego ter perdido a cabeça. Uma emoção tão violenta era inesperada, improvável num homem de Deus — por isso, era natural que toda a gente se deleitasse a falar do caso. O cónego não dava tanto que falar desde que tinha levado uma mulher saxónica para a cama. Sussurravam em pequenos grupos, que se calavam abruptamente, quando o cónego se aproximava.
Joana não sabia nada disto. O cónego proibiu que alguém se
aproximasse dela durante todo o dia seguinte à tareia. Joana ficou deitada no chão da casa, inconsciente, durante toda essa noite e todo o dia seguinte. A sujidade do chão em terra batida tinha-se-lhe colado à carne dilacerada.
Quando Gudrun foi autorizada a tratar dela, as feridas tinham
infectado e ela estava com uma febre perigosa.
Gudrun cuidou dela com toda a solicitude. Limpou as feridas de
Joana com água fresca e com vinho. Depois, com todo o cuidado, para não prejudicar ainda mais a sua pele, já em carne viva, aplicou-lhe uma cataplasma refrescante feita de folhas de amoreira.
Tudo culpa do grego, pensava Gudrun amargamente, enquanto
fazia uma tisana quente e a dava a Joana, levantando-lhe a cabeça e dando-lhe o líquido na boca, gota a gota. Dar um livro à criança, encher a cabeça dela com ideias inúteis. Ela era uma rapariga, portanto, não tinha sido feita para estudar.
Devia ficar com ela, partilhar os usos ocultos e a língua do seu
povo, ser o seu conforto e amparo quando ela fosse velha.
Maldita a hora em que o grego entrou nesta casa, a ira de todos os
deuses se abata sobre ele.
Mesmo assim, Gudrun estava cheia de orgulho pela coragem
manifestada pela sua filha. Joana tinha desafiado o pai com o heroísmo e a força dos seus antepassados saxónicos. Em tempos, Gudrun também já tinha sido assim forte e corajosa. Mas, os longos anos de humilhação e exílio numa terra estranha tinham apagado progressivamente a sua vontade de lutar. Pelo menos, corre-lhe o meu sangue nas veias, pensou ela, cheia de orgulho. Corre nas veias da minha filha a coragem do meu povo.
Parou para agarrar no pescoço de Joana, ajudando-a a engolir o
líquido curativo. Põe-te boa, passarinho, pensou ela. Põe-te boa e volta para mim.
A febre desceu na manhã do nono dia. Joana acordou e viu
Gudrun debruçada sobre ela.
— Mamã?
A sua própria voz soava-lhe aos ouvidos de uma forma estranha. A mãe sorriu.
— Finalmente, voltaste para mim, passarinho. Cheguei a temer
ter-te perdido.
A Joana tentou erguer-se, mas voltou a cair pesadamente sobre o
colchão. A dor trespassou-a, trazendo-lhe más recordações.
— O livro?
O rosto de Gudrun entristeceu-se.
— O teu pai limpou as páginas e deu-as ao teu irmão para copiar
não sei que novos disparates.
Então, tinha desaparecido.
Joana sentiu-se esquisita. Estava enjoada; queria dormir. Gudrun estendeu-lhe uma malga com um líquido fumegante. — Tens de comer para recuperar forças. Olha, fiz-te um caldo. — Não. — Joana abanou a cabeça levemente. — Não quero nada. Ela não queria recuperar as forças. Queria morrer. Que motivos
havia para querer continuar a viver? Nunca se libertaria dos limites estreitos da vida em Ingelheim. A vida tinha-a encarcerado; não havia qualquer esperança de lhe poder fugir.
— Come um bocadinho — insistiu Gudrun. — E enquanto comes,
vou cantar-te uma das velhas canções.
Joana virou a cara.
— Deixa essas loucuras para os padres. Nós temos os nossos
segredos, não é, passarinho? Vamos voltar a partilhá-los, como fazíamos dantes.
Gudrun acariciou a cabeça de Joana carinhosamente. — Mas, primeiro, tens de te pôr boa. Come um bocadinho de
caldo. É uma receita da Saxónia, com fortes propriedades curativas.
Levou a malga aos lábios de Joana. Demasiado fraca para resistir,
deixou que a mãe lhe metesse um pouco de líquido à boca. Era bom, estava quente, era reconfortante. Apesar de contra a sua própria vontade, começou a sentir-se um pouco melhor.
— Meu passarinho, meu coração, minha querida. A voz de Gudrun acarinhava Joana suavemente. Voltou a chegar a
malga aos lábios de Joana, que voltou a comer um pouco.
A voz da mãe elevou-se, cantando uma melodia saxónica.
Embalada pelo som e pelos carinhos da mãe, Joana acabou por adormecer.
Uma vez passada a febre, o corpo robusto e jovem de Joana
recuperou depressa. De um dia para o outro, levantou-se. As feridas tinham sarado bem, apesar de ser certo que as cicatrizes ficariam para o resto da sua vida. Gudrun lamentava-se por causa das cicatrizes, uns vincos compridos e escuros que transformavam as costas de Joana numa espécie de feia manta de retalhos, mas Joana não se importava. Aliás, não se importava com quase nada. Tinha perdido a esperança.
Limitava-se a existir.
Passava o tempo todo com a mãe, levantando-se ao nascer do Sol,
para a ajudar a dar de comer aos porcos e às galinhas, para recolher os ovos, juntar lenha para a lareira e acartar pesados potes de água do poço. Depois, trabalhavam lado a lado, para prepararem as refeições diárias.
Um dia, estavam a fazer o pão, com os dedos a darem forma à
massa pesada — naquela parte da terra dos francos, era raro utilizar fermento ou qualquer outra forma de levedura —, quando Joana perguntou, de repente:
— Porque haveis casado com ele?
A pergunta apanhou Gudrun desprevenida. Pouco depois, disse: — Não imaginas o que foi para nós quando as tropas de Carlos
chegaram.
— Sei o que fizeram ao vosso povo, Mamã. O que eu não consigo
compreender é porque motivo, depois disso, haveis partido com um cónego — com ele.
Gudrun não respondeu.
Ofendi-a, pensou Joana. Agora, ela não me vai dizer. — No Inverno — começou Gudrun a dizer lentamente. —
estávamos a morrer à fome porque os soldados cristãos tinham queimado as colheitas juntamente com as nossas casas.
Ela olhou para além da Joana, como se estivesse a imaginar uma
coisa distante.
— Comíamos tudo o que conseguíamos encontrar — ervas,
cardos, até as sementes que encontrávamos no estrume dos animais. Estávamos à beira da morte, quando o teu pai e os outros missionários chegaram. Eram diferentes dos outros; não traziam espadas nem armas, e tratavam-nos como gente e não como animais. Deram-nos comer a troco da nossa promessa de que os ouviríamos pregar a palavra do Deus dos cristãos.
— Trocaram comida pela fé? — perguntou Joana. — Triste
maneira de ganhar as almas das pessoas.
— Eu era jovem e impressionável, estava morta de fome, de medo
e de miséria. Pensei que o Deus dos cristãos devia ser maior do que os nossos, senão, como teriam conseguido vencer-nos? O teu pai interessou-se especialmente por mim. Dizia que tinha muitas esperanças em mim porque, apesar de eu ter nascido pagã, ele tinha a certeza que eu tinha capacidade para compreender a Verdadeira Fé. Pela maneira como ele olhava para mim, eu sabia que ele me desejava. Quando me pediu para eu partir com ele, eu consenti. Era a oportunidade da minha vida, quando tudo em volta de mim era morte.
A voz dela transformou-se num sussurro.
— Não demorei muito a perceber o grande erro que tinha
cometido.
Os seus olhos arrasaram-se de lágrimas. Joana abraçou-a. — Não choreis, Mamã.
— Aprende com o meu erro — disse Gudrun firmemente — para
não o repetires. Casar é abdicar de tudo — não só do teu corpo, mas também do teu orgulho, da tua independência, da tua própria vida. Percebes? Percebes?
Agarrou no braço de Joana, fixando-a com um olhar aflito. — Atenta nas minhas palavras, filha, se queres ser feliz: nunca te
entregues a um homem.
A carne macerada das costas de Joana arrepiou-se com a memória
dos golpes dados pelo seu pai.
— Não, Mamã — prometeu ela solenemente. — Nunca o farei.
* * *
No Ostarmanoth, quando a brisa morna da Primavera tinha
começado a acariciar a terra, permitindo que os animais fossem levados para o pasto, a monotonia foi quebrada pela chegada de um forasteiro. Foi numa quinta-feira — o dia de Thor, como Gudrun continuava a chamar-lhe, quando o cónego não estava perto para ouvir — e o ribombar do trovão desse deus ouvia-se à distância, quando Joana e Gudrun trabalhavam as duas na horta da família. Joana estava a arrancar urtigas e a aplanar os montículos de terra levantados pelas toupeiras, enquanto Gudrun seguia atrás dela, a traçar sulcos e a desfazer os torrões de terra com uma pesada tábua. Gudrun cantava, enquanto trabalhava, e contava histórias dos Antepassados.
Quando Joana respondia em saxónio, Gudrun ria de satisfação. Joana tinha acabado de terminar uma fila, quando levantou os
olhos e viu João, que se dirigia apressadamente na direcção do local onde elas se encontravam. Tocou no braço da mãe para a avisar; Gudrun viu o filho e as palavras saxónicas morreram nos seus lábios.
— Depressa — João estava sem fôlego por causa da corrida. — O
pai quer-vos em casa. Depressa!
Pegou em Gudrun pelo braço.
— Cuidado, João — repreendeu-o Gudrun. — Estás a magoar-me.
O que aconteceu? Há algum problema?
— Não sei.
João continuava a puxar a mãe pelo braço.
— Ele disse qualquer coisa sobre uma visita. Não sei quem. Mas,
despachai-vos. Ele disse que me puxava as orelhas se eu não vos levasse imediatamente.
O cónego estava à espera deles à entrada da porta de casa. — Demorastes muito — resmungou ele, quando elas chegaram. Gudrun olhou para ele friamente. Pelos olhos do cónego passou
um pequeno lampejo de irritação; mas disse, solenemente:
— Vai chegar um emissário. Da parte do Bispo de Dorstadt. Fez uma pausa para criar mais expectativa.
— Vai e prepara uma refeição de jeito. Eu vou-me encontrar com
ele na Catedral e depois trago-o para aqui.
Despediu-a com um aceno de mão.
— Despacha-te, mulher! Ele está quase a chegar. Saiu, batendo com a porta. O rosto de Gudrun não tinha qualquer
expressão.
— Começa a fazer o caldo — disse ela à Joana. — Eu vou buscar
ovos.
Joana deitou água do pote num grande panelão em ferro que a
família costumava utilizar para cozinhar e pô-lo ao lume.
Tirou algumas bagas de cevada seca do saco de lã, quase vazio,
depois de um longo inverno, e deitou-as no recipiente.
Reparou, com surpresa, que as mãos tremiam de excitação. Há
tanto tempo que não sentia nada assim.
Mas, um emissário de Dorstadt! Será que tinha alguma coisa a ver
com ela? Será que, depois de tanto tempo, Asclépios tinha conseguido, finalmente, encontrar uma maneira de ela retomar os estudos?
Cortou uma fatia de carne de porco de salmoura e acrescentou-a
ao caldo. Não, era impossível. Já tinha passado quase um ano desde que Asclépios tinha partido. Se ele tivesse conseguido combinar qualquer coisa, ela teria sabido havia muito. Era perigoso ter esperança. A esperança já quase a tinha destruído uma vez; não voltaria a fazer tal loucura.
Mesmo assim, não conseguiu acalmar a excitação quando, uma
hora mais tarde, a porta se abriu. O pai entrou, seguido de um homem de cabelo escuro. Não era nada como ela tinha imaginado.
Tinha os traços rudes e pouco inteligentes de um colonus e vestia-
se mais como um soldado do que como um professor. A sua túnica escarlate, com a insígnia do bispo, estava amarrotada e cheia do pó da viagem.
— Dais-nos a honra de cear connosco?
O pai de Joana apontou para o tacho ao lume.
— Obrigado, mas não posso.
Ele falava em vernáculo e não em latim, o que também a
surpreendeu.
— Deixei o resto da escolta numa cella à entrada de Mainz — o
caminho pela floresta era demasiado lento e estreito para dez homens a cavalo — e vim à frente, sozinho. Tenho de me juntar a eles esta noite; de manhã, iniciamos a nossa viagem de regresso a Dorstadt.
Desenrolou um pergaminho que trazia na sua bolsa e entregou-o
ao cónego.
— Da parte de Sua Eminência, o Senhor Bispo de Dorstadt. O cónego quebrou o selo cuidadosamente; o material do
pergaminho quebrou-se, ao ser desenrolado. Joana observava o seu pai de perto, enquanto ele se esforçava por ler o que estava escrito. Leu-o até ao fim, depois, recomeçou, como se estivesse à procura de qualquer coisa que lhe tivesse escapado. Finalmente, levantou os olhos com os lábios contraídos de ira.