A Papisa Joana

Donna Woolfolk Cross · Capítulo 5 de 9 · parte 1/3

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A Papisa Joana

Capítulo 10 · Ia haver uma feira em São Dinis!…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Ia haver uma feira em São Dinis! A notícia era surpreendente —

não havia uma feira ou mercado em todo o reino há mais anos do que as pessoas eram capazes de contar. Apesar disso, alguns dos mais velhos — como Burchard, o moleiro — lembravam-se de um tempo em que costumava haver duas ou três feiras por ano na terra dos francos. Era o que diziam, apesar de ser difícil de acreditar. É claro que tinha sido no tempo do imperador Carlos de boa memória e as estradas e pontes ainda estavam em bom estado, não havia ladrões e charlatães a assaltarem os caminhos, nem o terror selvagem dos escandinavos — Deus nos proteja! — a assolarem o país inesperadamente.

Agora, as estradas eram demasiado perigosas para que as feiras

fossem rentáveis; os mercadores não se atreviam a transportar mercadorias valiosas por estradas sem segurança e as pessoas não tinham vontade de arriscar a vida em viagens.

Mesmo assim, ia haver uma feira. E seria de admirar que metade

do que o arauto, que trouxera as notícias, tinha dito, fosse verdade. Haveria mercadores de Bizâncio, que traziam especiarias, sedas e brocados exóticos; mercadores venezianos com edredões de penas de pavão e peles verdadeiras; negociantes de escravos que traziam a sua carga humana de eslavos e saxónios; lombardos com sacos de sal empilhados dentro de navios com as suas velas laranja a brilharem com os signos do zodíaco e toda a espécie de divertimentos: trapezistas e acrobatas, contadores de histórias, momos, cães e ursos treinados.

São Dinis era longe dali — na realidade, ficava a umas cento e

cinquenta milhas de Dorstadt, uma noite de viagem, por estradas sinuosas e rápidos. Mas, ninguém se importava com isso. Toda a gente que conseguisse arranjar um cavalo, uma mula ou até mesmo um pónei, iria.

A comitiva de Geraldo, própria de um conde, era grande. Quinze

fideles de Geraldo, bem armados, iriam com ele a cavalo, assim como vários criados para servirem a família.

Joana iria e, por especial favor — Joana tinha a certeza que tinha

sido ideia de Geraldo — o João também tinha sido convidado. Richild tinha preparado tudo cuidadosamente; tinha-se esforçado para que nada lhes faltasse em conforto e segurança durante a viagem. Há dias que as carruagens tinham sido levadas para o pátio do castelo e carregadas com provisões.

Na manhã da partida, Villaris agitava-se. Os criados corriam de

um lado para o outro, alimentando e carregando os cavalos; o despenseiro e os moços de cozinha suavam ao forno, cuja alta chaminé exalava roldões de fumo; o ferreiro trabalhava furiosamente na forja, terminando uma quantidade de ferraduras, pregos e peças de carruagem suplentes. Os sons mais diversos misturavam-se numa tremenda confusão: as criadas gritavam umas com as outras, erguendo a voz acima dos gritos mais grossos e dos assobios dos valetes, as vacas mugiam e batiam com os cascos, enquanto eram mugidas, um burro sobrecarregado zurrava alto, em sinal de protesto contra a sua carga. A actividade levantava uma quantidade enorme de pó, que pairava no ar, iluminado pela luz do sol primaveril como se fosse ouro em pó.

Joana passeava pelo pátio, observando, impaciente e atenta, os

últimos preparativos. Luke saltava à volta dela, com as orelhas levantadas e os olhos opalescentes brilhantes de ansiedade. Também ia, porque, segundo Geraldo tinha dito, o cachorro de seis meses de idade estava tão ligado a Joana que não havia forma de os separar. Joana riu-se e fez uma festa no pêlo de neve de Luke. Ele lambeu-lhe a palma da mão e sentou-se, de boca muito aberta, como se também se estivesse a rir.

— Se não tens mais nada que fazer se não estar a olhar, dá uma

ajuda ao despenseiro.

Richild empurrou a Joana para a cozinha, onde o despenseiro fazia

gestos frenéticos com as mãos cobertas de farinha. Tinha estado a pé durante toda a noite, a fazer biscoitos e empadas para a viagem.

A meio da manhã, o séquito preparou-se para partir. O capelão fez

uma pequena oração para que os viajantes chegassem sãos e salvos ao seu destino e o cortejo de carruagens e cavalos saiu lentamente para a estrada. Joana ia no primeiro carro, atrás de Geraldo e dos seus homens, juntamente com Richild, Gisla e Dhuoda e as três raparigas da aldeia aias das senhoras. As mulheres recostaram-se nos bancos em madeira rija quando as rodas começaram a saltar sobre a estrada.

Luke corria ao lado do carro, vigiando Joana. Ela olhou para

diante e viu o João a cavalgar com os homens, sentado confortavelmente num excelente jumento ruço.

Eu monto tão bem como ele, pensou Joana. Geraldo tinha passado

muitas horas a ensiná-la a montar e, agora, ela era uma boa amazona.

Como se se tivesse apercebido subitamente de que estava a ser

observado, João virou-se e sorriu-lhe de uma forma simultaneamente íntima e maliciosa. Depois, esporeou a montada e pôs-se a cavalgar ao lado de Geraldo. Começaram a falar um com o outro; Geraldo deitou a cabeça para trás e começou-se a rir.

Uma onda de ciúme invadiu o coração da Joana. O que teria João

a dizer a Geraldo que o divertisse tanto? Não tinham nada em comum. Geraldo era um homem instruído, um erudito. O João não percebia nada dessas coisas. E, no entanto, cavalgava ao lado de Geraldo, falando com ele, rindo com ele, enquanto ela seguia numa miserável carroça.

Porque era uma rapariga. Não era a primeira vez que ela

amaldiçoava o golpe do destino que a tinha feito mulher.

— É feio ficar a olhar, Joana.

Os olhos escuros de Richild olhavam desdenhosamente para

Joana.

Joana desviou os olhos de Geraldo.

— Perdão, senhora.

— Mantém as tuas mãos cruzadas sobre o regaço — mandou

Richild — e os olhos baixos, como é próprio de uma mulher composta.

Joana obedeceu-lhe.

— Um comportamento apropriado — continuou Richild — é uma

virtude maior numa senhora do que saber ler — coisa que saberias se tivesses sido educada de forma conveniente.

Olhou para Joana friamente durante alguns momentos, antes de

voltar a concentrar-se no seu bordado.

Joana olhava para ela pelo canto do olho. Como ela era bonita,

segundo aquilo que na época era considerado como beleza: uma tez clara, austera, ombros estreitos. A sua pele leitosa esticava-se sobre uma testa altíssima, adornada por ricos cachos de espesso cabelo negro. Os seus olhos, protegidos por longas pestanas negras, eram de um castanho tão escuro que pareciam quase pretos. Joana sentiu inveja. Richild era tudo quanto ela não era.

— Anda, tens de nos ajudar a decidir — disse Gisla, a filha mais

velha, à Joana. — Que vestido hei-de usar para a festa de casamento? — ria-se, excitada.

Gisla tinha quinze anos. Era menos de um ano mais velha do que

Joana e já estava prometida ao conde Hugo, um nobre neustriano. Geraldo e Richild estavam satisfeitos porque a união era um bom arranjo. O casamento seria dali a seis meses.

— Oh, Gisla, tens tantas coisas bonitas.

E era verdade. Joana tinha ficado espantada com o tamanho do

guarda-roupa de Gisla — suficiente para usar uma túnica diferente cada dia, se ela quisesse. Em Ingelheim, uma rapariga só tinha uma túnica, em lã grossa, se tivesse sorte, e que guardava ciosamente, porque tinha de durar muitos anos.

— Tenho a certeza de que o conde Hugo te vai achar bonita com

qualquer uma.

Gisla voltou a rir-se. Tinha bom coração, mas não era muito

inteligente. Começava a rir-se nervosamente cada vez que o nome do noivo era mencionado.

— Não, não — disse ela, sem fôlego. — Não te podes escapar

assim tão facilmente. Ouve. A mãe acha que devo usar a azul, mas eu acho que devo usar a amarela. Anda, responde-me como deve ser.

Joana suspirou. Gostava de Gisla, apesar da sua futilidade e do seu

comportamento tolo. Partilhavam a mesma cama desde a primeira noite em que Geraldo tinha trazido Joana do palácio do bispo, cansada e assustada. Gisla tinha recebido bem Joana, tinha sido gentil com ela e Joana tinha-lhe ficado eternamente grata. Mesmo assim, era inegável que aquela conversa com Gisla seria desesperante porque os seus interesses se confinavam a roupas, comida e homens. Nas últimas semanas, não tinha parado de falar do casamento, o que já começava a enervar toda a gente.

Joana sorriu, fazendo um esforço por ser simpática. — Acho que devias usar a azul. Condiz com os teus olhos.

— A azul? A sério? — Gisla levantou as sobrancelhas. — Mas, a

amarela tem um lindo galão à frente.

— Então, a amarela.

— Mas, a azul fica mesmo bem com os meus olhos. Talvez seja

melhor. O que achas?

— Eu acho que se volto a ouvir falar nessa estúpida festa de

casamento, começo a gritar — disse Dhuoda. Tinha nove anos de idade e tinha ciúmes da atenção que a irmã mais velha tinha atraído nas últimas semanas. — Quem é que quer saber a cor da túnica que tu vais usar!

— Dhuoda, esse reparo não é próprio de uma senhora. Richild levantou os olhos do bordado para repreender a filha mais

nova.

— Perdão — disse Dhuoda a Gisla, contristada. Mas, mal a mãe desviou os olhos, mostrou a língua a Gisla, que

sorriu, divertida.

Richild disse:

— Quanto a ti, Joana, não tens nada que dar opinião. Gisla usará o

que eu achar melhor.

Joana corou com a repreensão, mas não disse nada. — O conde Hugo é um homem muito elegante — disse Berta,

uma das criadas.

Era uma rapariga corada de pouco mais de dezasseis invernos,

nova no serviço, tendo sido trazida havia um mês para substituir uma rapariga que tinha morrido de tifo.

— É tão elegante na sua montada, com o casaco e as luvas de

arminho.

Gisla riu-se encantada. Encorajada, Berta continuou: — E, senhora, da maneira como ele olha para vós, não importa

que túnica usais. Na noite de núpcias, ele depressa vo-la tirará!

Ela riu-se ruidosamente, satisfeita com a sua graça. Gisla ficou

sufocada. As outras ficaram caladas, olhando para Richild.

Richild pousou o bordado, com os olhos ensombrados de ira. — O que disseste? — perguntou ela num tom ameaçadoramente

sério.

— Ah... nada, senhora — disse Berta.

— Oh, Mãe, de certeza que ela não tinha intenção... — Gisla

tentou intervir em vão.

— Grosserias e obscenidades! Não as tolerarei na minha presença! — Perdão, senhora — disse Berta, arrependida. Mas continuava a

sorrir um pouco, não acreditando que Richild estivesse realmente zangada.

Richild estendeu o braço na direcção da parte de trás do carro. — Fora.

— Mas, senhora! — disse Berta, compreendendo, finalmente, a

dimensão do seu erro. — Eu não queria...

— Fora! — Richild foi inflexível. — Em penitência pela tua

impudicícia, irás a pé o resto do caminho.

Era uma viagem difícil até São Dinis. Berta olhou para os seus

pés, calçados com coturnos meios rotos. Joana teve pena dela. O seu reparo tinha sido desajeitado e impensado, mas a rapariga era jovem e nova no serviço e era óbvio que não tinha pretendido ofender ninguém.

— Recitarás alto o Pai-Nosso enquanto caminhas. — Sim, senhora — disse Berta, resignada.

Saltou do carro, tomou posição ao seu lado e, pouco depois,

começou a recitar.

— Pater Noster qui es in caelis...

Recitava numa lengalenga cuja estranha melodia acentuava as

palavras erradas. Joana tinha a certeza que ela não sabia o que estava a dizer.

Richild regressou ao seu bordado. O seu cabelo negro brilhava ao

sol, quando debruçou a cabeça sobre o seu tear. Os seus lábios estavam apertados, os olhos endurecidos pela fúria, quando meteu a agulha no tecido grosso.

É uma mulher infeliz, pensou Joana. Era difícil de compreender,

uma vez que era casada com Geraldo. Mas, o casamento deles tinha sido arranjado e, apesar de muitos desses casamentos terem acabado por ser felizes, este não o era. Dormiam em camas separadas e, a acreditar nos comentários dos criados, não se conheciam como marido e mulher havia muitos anos.

— Queres montar?

Geraldo sorriu para ela do alto do seu garanhão. Na sua mão

direita, segurava as rédeas de Boda, uma égua baia de que ele sabia que Joana gostava particularmente.

Joana corou, embaraçada pelo que estava a pensar. Estava tão

perdida nos seus pensamentos que não tinha reparado que Geraldo tinha ido buscar Boda ao grupo de montadas e que a tinha trazido para junto da carruagem.

— Montar com os homens? — disse Richild. — Não o permitirei!

Não seria próprio!

— Que disparate! — respondeu Geraldo. — Não tem mal nenhum

e a rapariga quer montar, não queres, Joana?

— Eu... eu... — disse ela, desajeitadamente, apanhada de surpresa

e sem vontade de ofender Richild ainda mais.

Geraldo levantou um sobrolho.

— Claro, se preferes ficar no carro...

— Não! — disse Joana rapidamente. — Por favor, adorava montar

a Boda.

Levantou-se e estendeu os braços. Geraldo riu-se e pegou-lhe

pelos pulsos, levantando-a no ar, até a sentar na sela.

Depois, mantendo os cavalos próximos um do outro, passou-a

para o dorso da Boda.

Ela sentou-se na sela. Na carruagem, Gisla e Dhuoda olhavam

surpreendidas e Richild com manifesta desaprovação. Geraldo parecia não ter reparado. Joana pôs Boda a trote e dirigiu-se rapidamente para a frente da fila.

O trote suave e ritmado da montada era um prazer, comparado

com os solavancos da carruagem. Luke corria ao seu lado, com a cauda levantada, demonstrando um contentamento quase tão grande como o de Joana. Ela avançou para o lado de João, que não escondia o seu desagrado. Joana sorriu, bem disposta. A estrada para São Dinis, afinal, não seria assim tão longa.

Passaram um afluente do Reno sem qualquer dificuldade; a ponte

era robusta e larga, tinha sido construída no tempo do imperador Carlos e continuava a ser conservada pelo senhor daquele condado. Mas o Mosel, a cujas margens chegaram no oitavo dia, apresentou-se como um problema porque a ponte estava em ruínas. As tábuas estavam podres e havia buracos, onde uma ou duas tábuas faltavam, tornando a passagem impossível. Tinha sido improvisada uma ponte artesanal, com barcos de madeira atados uns aos outros em fila; uma pessoa podia passar através delas. Mas, a ponte de barcas não era adequada para tanta gente e para tantos cavalos e carruagens carregadas de mercadorias. Geraldo e dois homens dirigiram-se para sul, ao longo da margem, à procura de um local de travessia. Voltaram uma hora depois, dizendo que, duas milhas mais abaixo, havia um sítio onde o rio se podia passar a vau.

A caravana voltou a partir, com os carros balançando

perigosamente, ao pisarem o denso matagal da margem. As mulheres agarravam-se com ambas as mãos aos bordos dos carros para evitar serem atiradas para fora dos mesmos. Berta continuava a seguir a pé, com os lábios a moverem-se numa oração interminável. O cânhamo dos seus coturnos estava tão gasto que ela tinha começado a coxear; os seus dedos dos pés estavam inchados, as solas dos pés cortadas e a sangrar. Mesmo assim, Joana reparou que ela, de vez em quando, olhava de esguelha para Richild e as suas filhas e parecia ficar um tanto satisfeita ao vê-las saltar dentro do carro.

Por fim, chegaram ao vau. Geraldo e vários outros cavaleiros

desceram primeiro ao rio para avaliarem a sua profundidade e se havia correntes. A água rodopiou rapidamente em torno deles; chegou-lhes à altura das suas vestes antes de começar a descer onde o leito do rio começava a inclinar-se para a margem do lado oposto.

Geraldo voltou para trás e fez sinal ao resto da caravana para que

avançassem. Sem hesitar, Joana dirigiu-se para o rio, seguida de perto por Luke, que mergulhou e nadou em movimentos seguros e confiantes. Depois de um momento de hesitação, João e os outros foram atrás deles.

A água fria do Mosel cercou Joana. Ela arrepiou-se quando a

humidade penetrou nas suas roupas e lhe atingiu a pele. Atrás dela, os carros começaram a descer lentamente para o rio, puxados pelas mulas renitentes. Berta lutava para se manter à tona, através da água fria, que lhe chegava quase aos ombros.

Ao olhar para trás, Joana viu que Berta estava com dificuldades.

Dirigiu-se para ela. A montada podia transportar ambas para o

outro lado, sem qualquer problema. Não estava a mais de cinco pés dela, quando a rapariga desapareceu, imergindo na superfície da água a uma velocidade tal como se tivesse sido puxada pelos pés. Joana parou, sem saber o que fazer; depois, dirigiu a sua montada na direcção dos círculos de água, cada vez maiores, que assinalavam o local onde Berta tinha desaparecido.

— Para trás!

A mão do Geraldo agarrou as rédeas, fazendo parar a montada. Partiu um grande ramo de um chorão que pendia, desmontou e

caminhou lentamente para a margem, sondando o leito do rio a cada passo. À distância de um braço do local onde Berta tinha desaparecido, parou: o ramo tinha-se enterrado muito fundo.

— Um poço!

Tirou o manto e mergulhou.

De repente, instalou-se uma confusão tremenda. Os homens

andavam para trás e para diante dentro de água, gritando instruções e batendo na água com varas. E Geraldo estava ali. Podiam estar a pisá-lo, a magoá-lo, como era possível que não o compreendessem?

— Parai! — gritou Joana, mas eles não lhe prestaram atenção. Ela dirigiu-se a Egbert, chefe dos criados de Geraldo e agarrou-o

firmemente pelo braço. — Parem! — disse ela.

Surpreendido, Egbert fez um gesto para a sacudir, mas ela

dissuadiu-o com um olhar.

— Dizei-lhes que parem; ainda estão a fazer pior. Ele fez sinal aos outros. Eles pararam, circundando o redemoinho

e esperando num silêncio de morte.

Passou um minuto. Atrás deles, o primeiro carro chegou à outra

margem e subiu para terra. Joana não reparou. Os seus olhos estavam pregados no local onde Geraldo tinha desaparecido.

O medo deixava-lhe as palmas das mãos húmidas. As rédeas

escorregavam-lhe das mãos. A montada, pressentindo que havia problemas, estacou. Luke atirou a cabeça para trás e uivou.

— Deus Misereatur — rogou ela. — Deus, misericórdia. Pedi-me

o sacrifício que for da Vossa vontade, mas permiti que ele se salve.

Dois minutos.

Era tempo de mais. Ele precisava de subir para respirar. Ela

desmontou, entrando na água fria. Não sabia nadar, mas não parou para pensar nisso. Começou a chapinhar na direcção do poço. Luke saltou para a frente e para trás à sua frente, tentando impedi-la de avançar, mas ela passou-lhe à frente. Só pensava numa coisa, chegar a Geraldo, puxá-lo, salvá-lo.

Estava a meia jarda do poço, quando se ouviu um chapinhar e um

barulho na água. Geraldo emergiu de repente e respirou fundo, com o cabelo vermelho colado à cara.

— Geraldo!

O grito exultante de Joana sobrepôs-se às vozes dos homens. Geraldo virou-se para ela e acenou-lhe. Depois, respirou fundo,

preparando-se para voltar a mergulhar.

— Vede!

O condutor da mula do primeiro carro apontou para um ponto no

caudal do rio.

Uma espécie de corola azul apareceu à superfície e aproximou-se

suavemente da margem oposta. O vestido da Berta era azul.

Eles voltaram a montar e desceram o rio. Berta flutuava de costas,

presa em ramos e detritos que se tinham acumulado ao longo da margem. Os seus membros estavam afastados, como se estivessem desgarrados, e o seu rosto inerte exprimia uma impotência e um medo terríveis.

— Pegai nela — ordenou Geraldo bruscamente. — Levá-la-emos

para a igreja de Prum para que tenha um funeral decente.

Joana começou a tremer violentamente, sem ser capaz de desviar

os olhos de Berta. Morta, era tão parecida com Mateus — a mesma pele cinzenta, os olhos semicerrados, a boca retorcida.

De repente, Geraldo segurava-a nos braços, voltando-lhe a cabeça

para o outro lado e apertando-a contra os seus ombros.

Ela fechou os olhos e apoiou-se nele. Os homens desmontaram e

entraram na água; ela ouviu o restolhar suave do caniçal, quando eles libertaram o corpo de Berta.

— Ias à minha procura, não ias?

Perguntou Geraldo, murmurando-lhe ao ouvido. Falava admirado,

como se tivesse acabado de se aperceber de tal.

— Sim — disse ela, sem levantar a cabeça do seu ombro. — Sabes nadar?

— Não — reconheceu ela e sentiu que os braços de Geraldo a

apertavam, enquanto permaneciam juntos perto da margem do rio.

Por trás deles, os homens transportavam lentamente o corpo de

Berta para o carro. O capelão aproximou-se, de cabeça baixa, recitando uma oração pelos mortos. Richild não rezava com ele. A sua cabeça estava levantada, olhando para Joana e para Geraldo.

Joana libertou-se do abraço de Geraldo.

— O que foi? — O seu olhar estava cheio de afecto e

preocupação.

Richild continuava a observá-los.

— N-nada. — Ele seguiu a direcção do seu olhar. — Ah. E retirando suavemente um caracol de cabelo dourado que caía

sobre o rosto de Joana, disse:

— Vamos ter com os outros?

Lado a lado, dirigiram-se para as carruagens. Depois, Geraldo

afastou-se para falar com o capelão por causa do corpo.

Richild disse:

— Joana, vais connosco no carro durante o resto da viagem.

Estarás mais segura aqui connosco.

Não valia a pena protestar. Joana subiu para o carro. Os homens depositaram cuidadosamente o corpo de Berta num

dos carros da retaguarda, afastando os sacos, para arranjar espaço. Uma criada da casa, uma mulher idosa, começou a gritar, debruçando-se sobre o corpo de Berta.

As mulheres começaram a carpir, como era tradicional nos

funerais. Toda a gente esperava num silêncio respeitoso e embaraçado. Depois de um intervalo de tempo decente, o capelão aproximou-se e falou baixinho com a mulher. Ela levantou a cabeça; os seus olhos, loucos de desgosto e dor, fixaram-se em Richild.

— Vós! — gritou ela. — Fostes vós, senhora! Vós mataste-a! Ela

era boa rapariga, a minha Berta, ter-vos-ia servido bem! A sua morte foi vossa culpa, senhora. Vossa culpa!

Dois dos criados de Richild agarraram a mulher rudemente e

levaram-na, ainda gritando imprecações.

O capelão aproximou-se de Richild, juntando as mãos em sinal de

contrição.

— É a mãe da Berta, senhora. O desgosto enlouqueceu a pobre

mulher. Claro que a morte da filha foi um acidente. Um acidente trágico.

— Não foi um acidente, Wala — disse Richild, muito séria. — Foi

a vontade de Deus.

Wala empalideceu.

— Claro, claro.

Enquanto capelão de Richild, um padre doméstico, privado, Wala

tinha uma posição um pouco melhor do que a de um simples colonus; se lhe desagradasse, ela podia mandá-lo açoitar — ou, pior ainda, podia mandá-lo embora.

— Foi a vontade de Deus. A vontade de Deus, senhora, de certeza. — Vai e fala com a mulher porque o seu desgosto deve ter posto a

sua alma em perigo de morte.

— Ah, senhora! — Ele levantou as mãos brancas ao céu. — Que

paciência celestial! Que caritas!

Ela despediu-o impacientemente e ele afastou-se, parecendo um

homem que tinha acabado de ser libertado da forca a tempo.

Geraldo mandou partir e a caravana começou a mover-se ao longo

da margem, na direcção da estrada para São Dinis. Atrás deles, no carro da retaguarda, os gritos da mãe transformaram-se progressivamente num soluçar insistente e de partir o coração. Os olhos de Dhuoda estavam cheios de lágrimas; Gisla tinha mesmo perdido o seu humor inquebrantável. Poderia alguém ser tão habilidoso a esconder as suas emoções ou será que ela era realmente tão fria como parecia? Será que não sentia qualquer peso na consciência pela morte da rapariga?

Richild olhou para ela. Joana desviou os olhos para que ela não

lhe lesse os pensamentos.

Vontade de Deus? Não, senhora. Vontade vossa. O primeiro dia da feira foi muito atarefado. As pessoas acorriam

através do enorme portão em ferro que conduzia ao descampado em frente à Abadia de São Dinis — camponeses vestidos com bandelettes andrajosas e camisas de linho rude; nobres e fideles em túnicas de seda debruadas com enfeites em ouro, com as suas esposas pelo braço, cobertas elegantemente com mantos guarnecidos a pele e jóias; os lombardos e os aquitanos nas suas exóticas calças e botas bufonas. Joana nunca tinha visto uma aglomeração humana tão estranha e tão grande.

No campo, as barracas dos mercadores sucediam-se sem

interrupção, com as suas mercadorias variadas dispostas numa mistura exuberante de cores e formas.

Havia mantos e capas de seda púrpura, penas de pavão, casacos de

pele tingida, manjares raros, como amêndoas e passas e toda a espécie de aromas e especiarias, pérolas, gemas, prata e ouro. Continuavam a entrar mais mercadorias pelos portões, amontoadas em vagões ou em pilhas desordenadas, às costas dos comerciantes mais pobres, dobrados ao peso da carga. Muitos deles não iriam dormir nessa noite, com dores nos músculos forçados para além dos seus limites, mas, assim, evitavam os duros impostos, o rotaticum e o saumaticum, cobrados sobre as mercadorias transportadas em veículos de rodas e sobre bestas de carga.

Ao entrarem o portão, Geraldo disse à Joana e ao João: — Abram as vossas mãos.

Colocou um denário em prata em cada uma das palmas estendidas. — Gastem-nos bem.

Joana olhou para a moeda reluzente. Só tinha visto um denário

uma vez ou duas e, mesmo dessas vezes, tinha sido à distância porque, em Ingelheim, os produtos eram trocados; mesmo o salário do pai, o dizimo cobrado aos camponeses da sua paróquia, era sempre entregue em mercadorias e provisões.

Um denário! Parecia uma fortuna desmedida.

Vaguearam pelos estreitos e apinhados corredores entre as

barracas. Os vendedores expunham as suas mercadorias, os clientes regateavam os preços acaloradamente e artistas de todos os tipos — dançarinos, malabaristas, acrobatas, domadores de ursos e de macacos — faziam as suas habilidades.

O barulho dos inúmeros negócios, da galhofa e das discussões

levadas a cabo em centenas de dialectos e línguas diferentes rodeavam-nos por todos os lados. Era fácil perder-se na multidão que se acotovelava. Joana deu a mão ao João — para sua surpresa, ele não protestou — e manteve-se junto a Geraldo. Luke seguia-os de perto, inseparável de Joana, como sempre. O pequeno grupo depressa se separou de Richild e dos outros, que andavam mais devagar. A meio da primeira fila de barracas, pararam e esperaram por eles. À sua esquerda, uma mulher gritava com dois mercadores que puxavam cada um deles por uma das pontas de um pedaço de linho para o medir com uma longa régua em madeira.

— Parai! — gritava a mulher. — Imbecis! Ides rasgá-lo! De facto, parecia que os homens iam rasgar o tecido ao meio para

ficar cada um deles com a parte maior.

Um pouco mais à frente, ouviam-se gritos e risos vindos de um

grupo de gente reunido em círculo.

— Anda.

João puxou Joana pelo braço. Ela hesitou, não querendo deixar

Geraldo, mas ele cedeu à vontade do João e levou-os, benevolentemente, naquela direcção.

Quando eles se aproximavam, ouviu-se outro grito. Joana viu um

homem cair de joelhos no centro da clareira, apalpando o ombro, como se estivesse ferido. Levantou-se rapidamente e, então, Joana reparou que ele tinha na mão uma grande vara de vidoeiro. Estava outro homem no interior do círculo, armado de modo semelhante. Giravam um à volta do outro, agitando ferozmente as pesadas varas. Ouviu-se um guincho estranho e agudo, ao mesmo tempo que um porco salpicado de sangue correu freneticamente entre os dois homens, com as suas pernas atarracadas saltando como uma batedeira de manteiga. Os dois homens precipitaram-se para o porco, mas, em vão; aquele que tinha caído havia pouco deu um grito, quando apanhou um golpe nas partes baixas. A multidão ria-se a bandeiras despregadas.

João ria-se com os outros. Os seus olhos brilhavam de entusiasmo.

Puxou a manga de um camponês baixo e marcado pelas bexigas, que estava ao lado deles.

— O que se passa? — perguntou ele, excitado. O homem sorriu-lhe e os buracos na sua cara aumentaram ao

esticar da pele.

— Então, andam atrás de um porco, rapaz, estás a ver? Aquele que

o matar, leva-o para casa para o comer.

Estranho, pensou Joana, enquanto olhava para os dois homens em

competição por uma recompensa. Vibravam as suas varas com força, mas os seus golpes não acertavam, eram imprecisos, acertando no ar ou um no outro com mais frequência do que no desgraçado porco. Havia qualquer coisa estranha na aparência do homem que estava à sua frente. Ela olhou com mais atenção e reparou numa brancura leitosa no lugar das pupilas. Agora, o outro homem virou-se para ela; os seus olhos pareciam normais, mas o seu olhar era vago, fixo e perdido no espaço.

Os homens eram cegos.

Um outro golpe atingiu o seu alvo e o homem dos olhos leitosos

desequilibrou-se, agarrando a cabeça. João deu um salto, batendo palmas e rindo alto com o resto da multidão. Os seus olhos brilhavam com um entusiasmo estranho.

Joana virou-se.

— Psst! Menina!

Uma voz chamava-a. Do lado oposto, um vendedor acenava-lhe. Ela deixou o João a divertir-se com aquele combate bizarro, e

dirigiu-se para a barraca do homem, diante da qual se encontrava uma mesa comprida com uma quantidade de objectos religiosos. Havia crucifixos em madeira e medalhas de todos os tamanhos e feitios, assim como relíquias sagradas de vários santos populares naquela região: uma madeixa de cabelo de São Willibrord, uma unha de São Romaric, dois dentes de São Waldetrudis e um pedaço do vestido da virgem-mártir Santa Genoveva.

O homem tirou um frasquinho da sua saca em pele. — Sabeis o que está aqui dentro?

Falava tão baixo que ela quase não o conseguia ouvir, com o

barulho que havia à sua volta. Ela abanou a cabeça.

— Gotas de leite — falava ainda mais baixo — da Santa Virgem

Mãe.

Joana ficou perplexa. Grande tesouro! Aqui? Deveria estar

guardado nalgum grande mosteiro ou catedral.

— Um denário — disse o homem.

Um denário! Ela apalpou a moeda em prata que tinha no bolso.

O homem estendeu-lhe o frasquinho e ela pegou-lhe. Sentiu a sua

superfície fresca na mão. Teve um lampejo da expressão de Odo se ela voltasse com uma relíquia daquelas para a catedral.

O homem sorriu, estendendo a mão, ansioso por lhe arrancar uma

moeda.

Joana hesitou. Porque haveria este homem de vender um tesouro

tão grande por aquele preço? Qualquer abadia ou catedral que precisasse de uma relíquia sagrada para ser venerada pelos peregrinos estaria disposta a dar uma fortuna por ela.

Ela tirou a tampa ao frasquinho e espreitou para dentro dele. A

meio do tubo via-se uma gota pálida de leite, brilhando suavemente à luz do sol. Joana tocou-lhe com a ponta do dedo mindinho. Depois, levantou os olhos, olhando à sua volta. Riu-se, chegou o frasco aos lábios e bebeu.

O homem sobressaltou-se.

— Sois campónia? — o seu rosto estava contorcido de raiva. — Delicioso — disse Joana, tapando o frasco e devolvendo-lho.

— Parabéns à vossa cabra.

— Vós... vós... — o homem espumava, incapaz de encontrar

palavras para exprimir a sua fúria e a sua frustração.

Por momentos, parecia que ia dar a volta à mesa e correr atrás

dela. Ouviu-se um rosnar surdo; Luke, que até ali tinha estado sentado sossegadamente, colocou-se à frente de Joana, com o focinho enrugado, levantado dos lados, mostrando uma fila de dentes brancos ameaçadores.

— O que é isso? — o vendedor estacou fixando os olhos

brilhantes de Luke.

— Isto — disse uma voz por trás de Joana — é um lobo. Era Geraldo. Ele tinha chegado sorrateiramente durante a conversa

com o vendedor. Estava descontraído, com os braços caídos, o corpo relaxado, mas os seus olhos eram ameaçadores.

O vendedor afastou-se, murmurando qualquer coisa entredentes. Geraldo pôs o braço por cima dos ombros da Joana e levou-a dali,

chamando Luke, que ainda voltou a ladrar ao vendedor e depois correu para os apanhar.

Geraldo não disse nada. Caminharam juntos em silêncio, com a

Joana a apressar o passo para conseguir acompanhar as suas longas passadas.

— Está zangado, pensou ela, ao mesmo tempo que o seu bom

humor se extinguia tão rapidamente como uma lareira abafada.

O pior era que ela sabia que ele tinha razão. Ela tinha sido

descuidada com o vendedor. Não lhe tinha ela prometido que teria mais cuidado? Porque tinha sempre que fazer perguntas e desafiar? Porque não era capaz de aprender que algumas ideias são perigosas?

Talvez eu seja campónia.

Ouviu um ruído abafado; Geraldo ria-se.

— A cara do homem quando levantaste o frasco e bebeste! Nunca

me hei-de esquecer! — apertou-a num abraço caloroso —, Ah, Joana, és a minha pérola! Mas, diz-me, como sabias que não era leite da Virgem?

Joana sorriu, aliviada.

— Desconfiei logo, porque se aquilo fosse realmente sagrado

porque seria tão barato? E porque tinha o vendedor a cabra presa atrás da barraca, onde ninguém a podia ver? Se a tinha recebido como paga por um negócio, que necessidade tinha de a ter escondida?

— É verdade. Mas, tu bebeste mesmo daquilo — Geraldo voltou a

dar uma gargalhada — deves ter reparado em mais qualquer coisa.

— Sim. Quando destapei o frasco, o leite não estava coalhado,

estava fresco, como se fosse daquela manhã; ora, o leite da Virgem teria mais de oitocentos anos.

— Ah — Geraldo sorriu, com as sobrancelhas levantadas,

desafiando-a — mas talvez seja a sua grande santidade que o mantém puro e incorruptível.

— É verdade — admitiu Joana. — Mas, quando toquei no leite,

ainda estava quente! Talvez uma coisa assim tão santa pudesse permanecer incorruptível, mas, porque haveria de estar quente?

— Bem visto — disse Geraldo, elogiosamente. — O próprio

Lucrécio não teria feito melhor!

Joana sorriu. Como gostava de lhe agradar!

Tinham caminhado quase até ao fim da fila de barracas, onde a

grande cruz de São Dinis assinalava os limites da feira, protegendo a santa tranquilidade dos irmãos da abadia. Era ali que os mercadores de pergaminhos tinham montado as suas barracas.

— Olha!

Geraldo foi o primeiro a vê-los. Apressaram-se na sua direcção,

para examinarem a mercadoria, que era de muito boa qualidade. Os vellum, em particular, eram extraordinários: o reverso da pele era perfeitamente liso. Joana nunca tinha visto um vellum tão branco; o outro lado era mais amarelado, como era normal, mas os orifícios da raiz dos pêlos eram tão pequenos e baixos, que quase não se viam.

— Deve ser um prazer escrever em folhas destas! — exclamou

Joana, apalpando-os cuidadosamente.

Geraldo chamou imediatamente um dos mercadores. — Quatro folhas — pediu ele e Joana sorriu, extasiada com a sua

prodigalidade. Quatro folhas! Era o suficiente para um códex inteiro!

Enquanto Geraldo pagava a sua mercadoria, a atenção de Joana

recaiu sobre umas folhas de pergaminho que pareciam rasgadas e colocadas desalinhadamente no fundo da barraca. As pontas das folhas estavam rasgadas e escritas, manchadas e obliteradas nalguns sítios por horríveis manchas castanhas. Ela aproximou-se para poder ler melhor e corou de excitação.

Vendo o seu interesse, o mercador aproximou-se. — Tão jovem e já tem tanto jeito para o negócio — disse ele

untuosamente. — As folhas são velhas, como vedes, mas ainda servem bem. Vede!

Antes de ela poder dizer fosse o que fosse, ele pegou num objecto

comprido e achatado e raspou a página com ele, apagando várias letras.

— Parai! — Joana falou asperamente, lembrando-se de um outro

pedaço de pergaminho e de uma outra faca. — Parai!

O vendedor olhou para ela com curiosidade.

— Não vos afligeis, menina, é apenas um escrito pagão — e

apontou orgulhosamente para a página. — Estais a ver? Bela e limpa, pronta para poder ser escrita!

Levantou o instrumento para voltar a mostrar a habilidade, mas

Joana agarrou-lhe a mão.

— Dou-vos um denário por ele — disse ela com firmeza. O homem fingiu sentir-se insultado.

— Eles valem três denários, pelo menos.

Joana tirou a moeda do bolso e estendeu-lha.

— Um — repetiu ela. — É tudo o que tenho.

O vendedor hesitou, olhando para ela pensativamente. — Muito bem — disse ele, de mau humor —, levai-os. Joana deu-lhe a moeda e pegou no precioso pergaminho, antes que

ele mudasse de ideias. Correu ao encontro de Geraldo.

— Olha! — disse ela, excitada.

Geraldo olhou para as páginas.

— Não percebo as letras.

— Está escrito em grego — explicou Joana — e é muito antigo.

Um tratado de engenharia, penso eu. Estás a ver os diagramas?

Apontou para uma das páginas e Geraldo observou os desenhos. — Uma espécie de mecanismo hidráulico — o seu interesse era o

de uma criança. — Fascinante. És capaz de traduzir o texto?

— Sou.

— Então, talvez eu seja capaz de o construir.

Sorriram um para o outro, dando início a uma nova conspiração. — Pai!

A voz de Gisla atravessou o ruído da multidão. Geraldo virou-se, à

procura dela. Ele era mais alto do que todos os outros; ao sol, o seu espesso cabelo vermelho brilhava como ouro. O coração de Joana saltou-lhe no peito ao olhar para ele. És a minha pérola, tinha dito ele. Agarrou os pergaminhos com força, observando-o, apreciando aquele momento.

— Pai! Joana! — Gisla apareceu finalmente, furando pelo meio da

multidão, seguida de um dos criados da casa, com os braços carregados de compras.

— Andei à tua procura por todo o lado! — protestou ela

suavemente. — O que tens aí?

Joana começou a explicar, mas Gisla sorriu com um gesto de

impaciência.

— Oh, mais um dos teus tolos livros velhos. Olha o que eu

descobri — disse ela. Desdobrou um pedaço de tecido colorido. — Para o meu vestido de casamento. Não é perfeito?

O tecido brilhava enquanto Gisla o segurava. Examinando-o mais

de perto, Joana viu que era bordado com esplêndidos fios de ouro e de prata.

— É espantoso. — disse ela com sinceridade.

Gisla riu-se.

— Eu sei! — sem esperar pela resposta, pegou em Joana pelo

braço e dirigiu-se para uma barraca um pouco mais adiante. — Oh, olha — disse ela — um leilão de escravos! Vamos ver!

— Não.

Joana recuou. Tinha visto os mercadores de escravos passarem por

Ingelheim, com a sua carga humana atada com cordas grossas. Muitos deles eram saxónios, como a sua mãe.

— Não — voltou ela a dizer e não se mexeu.

— És uma tola! — Gisla puxava Joana, brincalhona. — Não

passam de pagãos. Não têm sentimentos, pelo menos, não como nós.

— O que estará aqui? — disse Joana, ansiosa por distraí-la. Levou Gisla para uma pequena barraca, no fim da fila. Era escura

e estava fechada. Luke deu uma volta pelas suas paredes, cheirando-as com curiosidade.

— Que estranho — disse Gisla.

Numa tarde de sol, com o negócio em efervescência por todo lado,

aquela barraca escura e silenciosa era uma coisa estranha. Curiosa, Joana bateu gentilmente na porta fechada.

— Entrai — disse uma voz rouca vinda do interior. Gisla deu um salto, mas não recuou. As duas meninas deram a

volta à barraca e puxaram cautelosamente a porta em madeira prensada, que rangeu ao abrir para trás. Uma torrente de sol infiltrou-se na escuridão.

Entraram. Havia um cheiro estranho na barraca, enjoativo e doce,

como mel fermentado. No centro da barraca, uma pequena figura — uma velha, vestida apenas com uma túnica solta e escura — estava sentada de pernas cruzadas. Parecia inacreditavelmente idosa, talvez tivesse mais de setenta invernos; quase não tinha cabelo, apenas uns pequenos fios brancos e finos no alto da cabeça, que tremia constantemente, como se ela sofresse de sezões. Mas, os seus olhos penetravam na escuridão, alerta, concentrando-se intensamente em Joana e Gisla.

— Lindas pombinhas — crocitou ela — tão belas e tão jovens. O

que quereis da Velha Baltilda?

— Só queríamos... — Joana hesitou, procurando em vão uma

explicação. O olhar da mulher era perturbador.

— Ver o que se vende aqui — disse Gisla.

— O que há para vender? O que há para vender? — cacarejou a

velha. — Uma coisa que quereis, mas que nunca possuireis.

— O quê? — perguntou Gisla.

— Uma coisa que já é vossa, apesar de ainda não a terdes — a

mulher riu-se para elas com uma boca desdentada. — Uma coisa que não tem preço e que, no entanto, pode ser comprada.

— O que é? — perguntou Gisla, impaciente com os enigmas da

velha.

— O futuro. — Os olhos da velha brilharam na escuridão. — O

vosso futuro, minha pombinha. Tudo o que será e ainda não é.

— Oh, tu és uma cartomante! — Gisla bateu palmas, satisfeita por

ter desvendado o mistério. — Quanto queres?

— Um soldo.

Um soldo! Era o preço de uma boa vaca leiteira ou de um par de

bons carneiros!

— É muito caro.

Gisla estava agora nas suas sete quintas, confiante e segura de si,

como um cliente arguto a tentar fazer negócio.

— Um obole — ofereceu ela.

— Cinco denários — contrapôs a velha.

— Dois. Um por cada uma.

Gisla tirou as moedas do bolso e mostrou-as à mulher. A velha hesitou, depois, pegou nas moedas, e fez sinal às raparigas

para que elas se sentassem no chão perto dela. Elas sentaram-se; a mulher tomou a mão forte e jovem de Joana nas suas mãos trementes e examinou-a com um ar estranho. Ficou calada durante muito tempo; depois, começou a falar:

— Bela quimera, sois o que não sereis; o que sereis não é o que

sois.

Isto não fazia muito sentido, a não ser que quisesse dizer apenas

que ela seria em breve uma mulher adulta. Mas, então, porque lhe tinha a velha chamado bela quimera?

Baltilda continuou:

— Aspirais àquilo que é proibido.

Joana ficou surpreendida e a velha apertou-lhe mais a mão. — Sim, bela quimera, vejo o desejo secreto do vosso coração. Não

sofrereis desilusão. Sereis grande, maior do que sonhais e sofrereis mais do que imaginais.

Baltilda largou a mão de Joana e virou-se para Gisla, que piscou o

olho a Joana, como quem diz não foi engraçado?

A velha pegou nas mãos de Gisla com as suas unhas curvas e

compridas em torno das unhas macias e rosadas de Gisla.

— Casar-vos-eis em breve e casareis bem — disse ela. — Sim! — Gisla riu-se. — Mas, velha senhora, não vos paguei

para me dizerdes o que eu já sei. A união será feliz?

— Não mais do que a maior parte delas, mas também não menos

— disse Baltilda.

Gisla levantou os olhos ao tecto num desespero trocista. — Sereis esposa, mas nunca mãe — grasnou Baltilda, balançando

ao ritmo das palavras, com uma voz cantada, melódica.

O sorriso de Gisla desvaneceu-se.

— Então, serei estéril?

— O vosso futuro é sombrio e vazio. — A voz de Baltilda subiu

de tom, tornando-se um lamento. — Conhecereis a dor, a confusão e o medo.

Gisla ficou petrificada como um pardal hipnotizado pelo olhar de

uma cobra.

— Basta!

Joana tirou a mão de Gisla das mãos da velha. — Vem comigo — disse ela.

Gisla obedeceu como uma criança.

Fora da barraca, Gisla começou a chorar.

— Não sejas tola — consolou-a Joana — a velha era louca, não

lhe ligues. Não existe ponta de verdade nestas cartomâncias.

Gisla estava inconsolável. Fartou-se de chorar; por fim, Joana

levou-a às barracas de guloseimas, onde compraram figos açucarados e se empanturraram, até Gisla se sentir um pouco melhor.

Nessa noite, quando contaram a Geraldo o que se tinha passado,

ele ficou furioso.

— Agora temos feitiçaria? Joana e Gisla, amanhã vão levar-me a

essa barraca. Tenho umas coisas a dizer a uma velha que mete medo a jovens. Entretanto, Gisla, não ligues a um disparate desses. Porque tiveste a ideia de procurar um conselho desses?

E disse à Joana, em tom de desaprovação:

— Esperava que, pelo menos tu, tivesses outro comportamento. Joana aceitou a censura. Mesmo assim, uma parte dela queria

acreditar nos poderes de Baltilda. A velha não tinha dito que ela realizaria um desejo secreto? Se tinha razão, então Joana alcançaria grandeza, apesar de não passar de uma rapariga, apesar daquilo que toda a gente considerava ser possível.

Mas, se Baltilda tinha razão quanto ao futuro de Joana, então,

também tinha razão quanto ao de Gisla.

Quando voltaram à barraca com Geraldo, no dia seguinte, ela

estava vazia. Ninguém lhes soube dizer para onde a velha tinha ido.

* * *

Em Winnemanoth, Gisla casou-se com o conde Hugo. Tinha sido

um pouco difícil encontrar uma data adequada para a consumação imediata do casamento. A Igreja proibia relações maritais aos domingos, às quartas e sextas-feiras, assim como nos quarenta dias que antecediam a Páscoa, nos oito dias a seguir ao Pentecostes e nos cinco dias anteriores a tomar a comunhão ou na véspera de grandes festas ou dias de guarda. Ao todo, era proibido ter relações sexuais cerca de duzentos e vinte dias do ano; considerando estes dias, assim como as regras mensais de Gisla, não havia muitos dias por onde escolher. Mas, acabaram por marcar o casamento para o décimo quarto dia do mês, uma data que agradou a todos, menos à Gisla, que estava ansiosa pelas festividades.

Por fim, chegou o grande dia. Toda a casa se levantou antes da

aurora, para servir Gisla. Primeiro, ajudaram-na a vestir a túnica interior de mangas compridas, em linho amarelo. Por cima desta, vestiram-lhe uma túnica nova resplandecente, feita do pano enfeitado a fios de prata e ouro que tinham comprado na feira de São Dinis. Caía-lhe dos ombros até ao chão em pregas graciosas, que rematavam nas mangas largas, a partir dos cotovelos. Ataram-lhe às ancas uma cintura pesada, enfeitada com pedras da sorte - ágatas para a guardar da febre, giz para a defender do mau-olhado, calcedónias para a fertilidade, jaspe para um bom parto. Por fim, cobriram-lhe a cabeça com um véu fino em seda. Cobria-a até ao chão, tapando-lhe os ombros e ocultando completamente o seu cabelo castanho-avermelhado. Com o seu vestido de noiva, mal podendo mexer-se ou sequer sentar-se, com medo de o amarrotar, parecia um pássaro exótico, pensou Joana, caçado, preparado e pronto para ser trinchado.

A mim, nunca tal me acontecerá, jurou Joana. Ela não queria

casar, apesar de, dali a sete meses, ir fazer quinze anos, uma idade mais do que casadoira. Dali a três anos, era uma velha.

Ela não compreendia por que motivo as raparigas da sua idade

tinham tanta pressa em casar porque o casamento mergulhava a mulher imediatamente num estado de servidão permanente. O marido tinha um controlo absoluto sobre os bens e propriedades da sua esposa, sobre os seus filhos e até sobre a sua vida.

Depois de ter suportado a tirania do pai, Joana tinha decidido que

nunca voltaria a dar a ninguém um tal poder sobre ela.

Gisla, uma criatura simples, foi para o casamento cheia de

entusiasmo, corada e a rir nervosamente. O conde Hugo, magnífico na sua capa debruada a arminho, esperava-a no pórtico da catedral. Ela aceitou a sua mão e ficou orgulhosamente de pé, enquanto Wido, o intendente de Villaris, enumerava publicamente as terras, servos, animais e bens que Gisla trazia como dote. Depois, a comitiva entrou na catedral, onde Fulgêncio esperava diante do altar para dizer a missa solene do casamento.

— Quod Deus conjunxit homo non separet.

As palavras em latim saíam titubeantes da boca de Fulgêncio. Ele

tinha sido militar antes de herdar o episcopado. Tinha começado a estudar muito tarde, pelo que nunca conseguiu dominar as formas latinas.

— In nomine Patria et Filia...

Joana sorriu quando Fulgêncio deu a bênção, confundindo as

declinações, de maneira que, em vez de dizer em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, disse Em nome da Pátria e da Filha.

Ao terminar a bênção, Fulgêncio, visivelmente aliviado, começou

a falar tudesco.

— Que esta mulher seja amável como Raquel, fiel como Sara,

fértil como Lia — pousou delicadamente a mão sobre a cabeça de Gisla. — Que ela dê à luz muitos filhos varões para honrar a casa do seu esposo.

Joana viu os ombros de Gisla tremerem e apercebeu-se de que ela

estava a controlar o riso.

— Que ela imite o comportamento de um cão, com o coração e os

olhos sempre no seu senhor; mesmo que o dono lhe bata e o apedreje, o cão segue-o, abanando a cauda.

Isto pareceu de mais a Joana, mas Fulgêncio olhava para Gisla

com uma expressão bondosa e afectiva, pelo que era óbvio que não a queria ofender.

— Por isso — continuou ele — uma mulher deve ter um amor

perfeito e indestrutível pelo seu marido.

Voltou-se para o conde Hugo.

— Que este homem seja valente como David, sábio como

Salomão, forte como Sansão. Que as suas propriedades aumentem tanto quanto a sua fortuna. Que ele seja um senhor justo para a sua senhora, nunca lhe administrando mais castigos do que aqueles que ela merece. Que viva para ver os seus filhos varões honrarem o seu nome.

Começaram a trocar os votos. O conde Hugo prometeu primeiro,

depois colocou um anel de turquesa bizantina no dedo anelar de Gisla, no qual se encontra a veia que vai para o coração.

Depois, foi a vez de Gisla. Joana ouvia Gisla recitar os seus votos

de casamento. O seu tom de voz era sonoro e feliz, sem que pela sua mente passasse qualquer dúvida, parecendo que o futuro estava assegurado.

O que me reserva o futuro?, pensou Joana.

Não podia continuar na escola para sempre - quanto muito,

poderia ficar mais três anos. Começou a sonhar acordada, imaginando-se a ensinar numa das grandes escolas das catedrais, em Reims, talvez, ou mesmo na Escola Palatina, passando os dias a explorar a sabedoria dos antigos com mentes tão ansiosas e curiosas como a sua. Sonhar acordada era sempre agradável.

Mas — a ideia atingiu-a como uma seta — isso significaria ter de

deixar Villaris. Deixar Geraldo.

Ela sabia que teria de deixar Villaris um dia. Mas, nos últimos

meses, tinha afastado esse pensamento, contentando-se em viver o presente, em gozar quotidianamente da companhia de Geraldo.

Olhou para ele. Tinha um perfil sólido e bem talhado, alto e forte;

o seu cabelo ruivo caía em caracóis até aos ombros.

O homem mais belo que eu já vi, pensou ela, não pela primeira

vez.

Como se lesse o seu pensamento, ele virou-se na sua direcção. Os

seus olhares cruzaram-se. Algo na sua expressão — uma doçura, uma ternura momentânea — a perturbou. Antes que ela tivesse sequer a certeza de que tinha acontecido, o olhar já tinha desaparecido, mas a sua ternura permaneceu.

Não tenho motivo para me preocupar, pensou ela. Não é preciso

decidir nada agora.

Três anos era muito tempo.

Podia acontecer muita coisa em três anos.

Na semana seguinte, Joana encontrou Geraldo à sua espera no

pórtico, quando ela voltou da escola.

— Vem comigo.

O seu tom de voz indicava que ele tinha uma surpresa para ela.

Aproximou-se dela e dirigiu-se para o portão exterior.

Depois de passarem pelo portão em madeira, seguiram pela

estrada ao longo de várias milhas, depois viraram subitamente na direcção da floresta e mergulharam nela, emergindo pouco depois numa pequena clareira, no meio da qual se encontrava uma cabana. Como estava desabitada, estava em ruínas. Mas, em tempos, devia ter sido o refúgio de um homem livre porque as paredes de adobe ainda pareciam firmes e a porta era em madeira sólida. Lembrou a Joana a sua casa de Ingelheim,

Continuar: parte 2 de 3