A política no limite do pensar
A contradição renovadora
Nem todos os sentidos de uma ação política podem ser apreendidos pelos métodos científicos. Estes
formam hipóteses sobre causas e sentidos da ação, as quais devem ser verificadas para que possam
integrar uma teoria. A teoria explica fatos dados ou que podem acontecer segundo a lógica de tais
dados; fatos que já se colocam numa dada região do ser. Não é por isso que pensa os fatores reais como
variáveis? Mas uma declaração de guerra, por exemplo, só se torna objeto de ciência depois de
proclamada. Cientistas e analistas podem prevê-la, conforme o conhecimento que possuem da
situação, porém o ato de declará-la consiste numa decisão, numa escolha entre várias soluções
possíveis do conflito, a que em geral correspondem vários esquemas explicativos possíveis lutando
para serem aceitos. Costuma-se imaginar que o progresso das ciências irá decidir qual será a
explicação validada. Entretanto, por trás dessa crença da progressão linear da explicação científica
reside a crença de que os acontecimentos seguem leis naturais como se fossem trens que pudessem
continuar andando até o infinito em trilhos paralelos. A linguagem científica seria como papel-
carbono que recolhesse os pormenores do real positivo, sem introduzir uma perspectiva
eminentemente sua.
Para compensar esse ultrapositivismo, filósofos costumam ensinar que, além das causas existem
valores, parâmetros daquilo que deve ser. E o valor não é uma causa precisamente porque, segundo
sua própria natureza, não precisa ser seguido. Um chefe de Estado se vê forçado a declarar guerra ao
inimigo. Várias causas o impelem a tomar essa decisão. Mas, como é um cristão pacifista,
simplesmente não a declara, mesmo sabendo que isso poderá provocar a ruína de seu país. Fidel
Castro não aceitou que, numa possível guerra nuclear entre Estados Unidos e União Soviética, valeria
a pena Cuba deixar de existir?
A separação entre fato — algo que simplesmente é — e valor — algo que simplesmente deve ser —
tornou-se moeda corrente no pensamento do século XIX. Não resulta, porém, de certa concepção do
que é, do ser, que o configura como algo subsistente por si mesmo? Mas e se o ser fosse um dar-se, que
se expõe assim como se esconde? A linguagem da ciência seria incapaz de apreendê-lo. Contudo, não
é preciso chegar a essa posição extremada, de Martin Heidegger e de seus afilhados, para recusar a
oposição entre fato e valor. Basta reconhecer, como faz o segundo Wittgenstein, que a linguagem
funciona como uma caixa de ferramentas, cujos instrumentos possuem aplicações específicas ou
diversificadas, para fazer com que caia por terra essa rígida oposição entre fato e valor. Uma sentença
como “O metro tem cem centímetros” pode ser usada para explicar quanto vale um centímetro ou
para explicar o fato de que determinada barra não tem um metro.
Preferimos caminhar nessa direção. Do meu ponto de vista, uma declaração de guerra não se
resume a um único ato de fala que exprime uma decisão que faz algo acontecer, como a queda de um
raio no campo. Foi precedida de outras falas entre amigos e inimigos que diplomaticamente
trabalhavam, uns para que a guerra não fosse declarada, outros para que ela acontecesse, prevendo que
traria grandes vantagens para seu grupo ou seu povo. As tratativas anteriores a favor ou contra a guerra
seguiam estratégias, as falas e os gestos obedeciam a regras em que vários interesses se cruzavam, e
assim por diante. Toda essa trama de ações que resultou na declaração de guerra é como um jogo; é
como se fosse um drama real em que o destino de muitos — em particular, de duas nações — se resolve. Portanto, o simples enunciado da declaração não pode valer como se fosse apenas uma
proposição que, performaticamente, se torna verdadeira. Fazendo parte de um jogo de linguagem, a
declaração vem a ser uma proposição no conjunto de algumas outras, possuindo valores diferentes. Se,
por exemplo, foi proferida em português, e vale como exemplo das sentenças dessa língua, demarcada
por uma gramática própria; participa de determinado jogo de linguagem, articula-se com outras
proposições que podem ser verdadeiras ou falsas, que seguem regras que serão expressas por
proposições, no caso indubitáveis, fora do jogo da bipolaridade do falso e do verdadeiro e assim por
diante.
A declaração de guerra não será entendida nem como efeito “mecânico” das causas que a
informaram, nem como um momento único em que um sujeito se afirma, mas como o lance de um
jogo, por certo regulado por regras próprias, mas cujo jogador, numa situação em que está acuado,
escapa do esquema armado e inicia uma nova jogada ao pular de um esquema de ação para outro que
passa a ser regulado por outras regras inventadas no momento. Decidir, numa situação contraditória, é
abrir novos jogos de linguagem, muitas vezes conservando a característica de nascer do jogo anterior
que chegou ao seu limite. Na política encontramos exemplos desses momentos privilegiados. Como
se estruturam eles?