A política no limite do pensar

José Arthur Giannotti · Capítulo 2 de 9

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A política no limite do pensar

A contradição renovadora

 

Nem todos os sentidos de uma ação política podem ser apreendidos pelos métodos científicos. Estes

formam hipóteses sobre causas e sentidos da ação, as quais devem ser verificadas para que possam

integrar uma teoria. A teoria explica fatos dados ou que podem acontecer segundo a lógica de tais

dados; fatos que já se colocam numa dada região do ser. Não é por isso que pensa os fatores reais como

variáveis? Mas uma declaração de guerra, por exemplo, só se torna objeto de ciência depois de

proclamada. Cientistas e analistas podem prevê-la, conforme o conhecimento que possuem da

situação, porém o ato de declará-la consiste numa decisão, numa escolha entre várias soluções

possíveis do conflito, a que em geral correspondem vários esquemas explicativos possíveis lutando

para serem aceitos. Costuma-se imaginar que o progresso das ciências irá decidir qual será a

explicação validada. Entretanto, por trás dessa crença da progressão linear da explicação científica

reside a crença de que os acontecimentos seguem leis naturais como se fossem trens que pudessem

continuar andando até o infinito em trilhos paralelos. A linguagem científica seria como papel-

carbono que recolhesse os pormenores do real positivo, sem introduzir uma perspectiva

eminentemente sua.

Para compensar esse ultrapositivismo, filósofos costumam ensinar que, além das causas existem

valores, parâmetros daquilo que deve ser. E o valor não é uma causa precisamente porque, segundo

sua própria natureza, não precisa ser seguido. Um chefe de Estado se vê forçado a declarar guerra ao

inimigo. Várias causas o impelem a tomar essa decisão. Mas, como é um cristão pacifista,

simplesmente não a declara, mesmo sabendo que isso poderá provocar a ruína de seu país. Fidel

Castro não aceitou que, numa possível guerra nuclear entre Estados Unidos e União Soviética, valeria

a pena Cuba deixar de existir?

A separação entre fato — algo que simplesmente é — e valor — algo que simplesmente deve ser —

tornou-se moeda corrente no pensamento do século XIX. Não resulta, porém, de certa concepção do

que é, do ser, que o configura como algo subsistente por si mesmo? Mas e se o ser fosse um dar-se, que

se expõe assim como se esconde? A linguagem da ciência seria incapaz de apreendê-lo. Contudo, não

é preciso chegar a essa posição extremada, de Martin Heidegger e de seus afilhados, para recusar a

oposição entre fato e valor. Basta reconhecer, como faz o segundo Wittgenstein, que a linguagem

funciona como uma caixa de ferramentas, cujos instrumentos possuem aplicações específicas ou

diversificadas, para fazer com que caia por terra essa rígida oposição entre fato e valor. Uma sentença

como “O metro tem cem centímetros” pode ser usada para explicar quanto vale um centímetro ou

para explicar o fato de que determinada barra não tem um metro.

Preferimos caminhar nessa direção. Do meu ponto de vista, uma declaração de guerra não se

resume a um único ato de fala que exprime uma decisão que faz algo acontecer, como a queda de um

raio no campo. Foi precedida de outras falas entre amigos e inimigos que diplomaticamente

trabalhavam, uns para que a guerra não fosse declarada, outros para que ela acontecesse, prevendo que

traria grandes vantagens para seu grupo ou seu povo. As tratativas anteriores a favor ou contra a guerra

seguiam estratégias, as falas e os gestos obedeciam a regras em que vários interesses se cruzavam, e

assim por diante. Toda essa trama de ações que resultou na declaração de guerra é como um jogo; é

como se fosse um drama real em que o destino de muitos — em particular, de duas nações — se resolve. Portanto, o simples enunciado da declaração não pode valer como se fosse apenas uma

proposição que, performaticamente, se torna verdadeira. Fazendo parte de um jogo de linguagem, a

declaração vem a ser uma proposição no conjunto de algumas outras, possuindo valores diferentes. Se,

por exemplo, foi proferida em português, e vale como exemplo das sentenças dessa língua, demarcada

por uma gramática própria; participa de determinado jogo de linguagem, articula-se com outras

proposições que podem ser verdadeiras ou falsas, que seguem regras que serão expressas por

proposições, no caso indubitáveis, fora do jogo da bipolaridade do falso e do verdadeiro e assim por

diante.

A declaração de guerra não será entendida nem como efeito “mecânico” das causas que a

informaram, nem como um momento único em que um sujeito se afirma, mas como o lance de um

jogo, por certo regulado por regras próprias, mas cujo jogador, numa situação em que está acuado,

escapa do esquema armado e inicia uma nova jogada ao pular de um esquema de ação para outro que

passa a ser regulado por outras regras inventadas no momento. Decidir, numa situação contraditória, é

abrir novos jogos de linguagem, muitas vezes conservando a característica de nascer do jogo anterior

que chegou ao seu limite. Na política encontramos exemplos desses momentos privilegiados. Como

se estruturam eles?