A Teoria do Estado de Dante Alighieri
Introdução
Escrever sobre Dante significa engrossar com mais um volume a vasta pilha de livros! Todas as nações civilizadas da Terra se esforçam para interpretar o trabalho do florentino em meio a uma bibliografia de seis séculos. Em função disso, um texto como este precisa de uma justificativa relevante.
Basta analisar a bibliografia alemã sobre Dante para perceber que foram, principalmente, os historiadores da literatura e os filólogos que se ocuparam do poeta. Também a História da Filosofia reservou com um cuidado especial o lugar de Dante ao longo dos desdobramentos da Idade Média. Agora, será estudado o que fez o homem de Estado Dante, o outrora prior de Florença, o “guelfo branco” que foi banido de sua cidade natal, que, para ele, foi tão determinante para que exercesse sua ocupação preferida e fatal: a política. Sempre se discutiu como ele se posicionou ante os grandes partidos de seu tempo e quais objetivos políticos ele mesmo perseguia. Em especial, a relação de Dante com o conflito cada vez mais tensionado em sua época entre o Imperador e o Papa, o que foi objeto de inúmeros debates. E mesmo hoje, onde o velho antagonismo entre o Imperador e o Papa continua no embate entre Estado e Igreja, não se pode menosprezar o fato de que as partes ainda reivindicam a influência da autoridade de seis séculos do grande gênio medieval.
Ainda assim, a Teoria Geral do Estado do poeta, fundamental para a compreensão aprofundada do pensamento político de Dante, do ponto de vista jurídico, ainda não foi sistematizada ou suficientemente analisada sob uma perspectiva crítica.
Preencher essa lacuna é a tarefa desta obra.
Portanto, a intenção deste trabalho é dual: por um lado, explicar a Teoria do Estado do poeta a partir de todo o contexto que envolvia sua grandiosa forma de ver o mundo e a vida; por outro, estabelecer o lugar de Dante na história da Teoria do Estado medieval. Esse esforço, ao lado de muitas novas e originais reflexões, trouxe à tona, na obra de Dante, uma dependência ainda mais extensa de seus antecessores medievais e antigos. Embora a Filosofia do Estado do florentino fique muito atrás de suas realizações poéticas, parece ser compreensível que, dentre os inúmeros publicistas que escreveram nos estertores do século XIII, somente o nome de Dante é realmente conhecido em círculos mais amplos. Isso porque, sem contar os escritos do poeta, como De Monarchia [Über die Weltmonarchie], dedicados aos principais problemas teóricos do Estado, que claramente superaram publicações semelhantes de seu tempo, a Teoria do Estado de Dante é a mais magnífica expressão da doutrina medieval e, ao mesmo tempo — ao menos em muitos pontos —, a sua superação. Por isso a teoria do Estado de Dante é tão interessante, porque nela o escolástico medieval e o homem renascentista moderno de Dante se digladiam entre si! E é isso também que nos faz compreender e desconsiderar algumas nebulosidades e inconsistências na doutrina do poeta.
Digressões histórico-literárias e biográficas, que estão intimamente relacionadas, não foram tratadas no presente trabalho por razões facilmente compreensíveis. Também os problemas da política foram discutidos somente quando imprescindíveis.
Ao Sr. Prof. Dr. Edmund Bernatzik, pelo seu generoso interesse e seu apoio efetivo que tem dispensado ao trabalho, expresso, nesta ocasião, os mais sinceros agradecimentos.
Cabe também ao autor, em uma agradável tarefa, homenagear a amável benevolência que ele desfrutou da parte do Sr. Prof. Dr. Leo Strisower, do Prof. Karl von Ettmeyer e do copista Dr. Michael Burger.